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82ª Leva - 08/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Milena Palladino

Diante de 82 Levas, a avidez por novas conquistas faz-se cada vez mais presente. E tudo se traduz numa espécie de motor do crescimento, desejo incessante de firmar caminhos através daquilo que se tem de mais especial: o potencial da descoberta. Importante mesmo é constatar que não há nada definitivo nessa busca, principalmente porque as criações que intentam algum reconhecimento, além de não se conformarem a regramentos meramente cartesianos, necessitam de certa dose de ousadia. Carecem sempre de mexer com nossas estruturas e percepções, lembrando-nos que vivemos num mundo onde a inércia e a apatia devem ser combatidas com toda a gana que pudermos. Ao mesmo tempo, cabe lembrar que o universo de coisas que nos rodeia já é, por si só, capaz de nos trazer algumas válidas reflexões e, consequentemente, ações.  Por isso, o inconformismo com ditames vazios. Por isso, vale a luta contra as amarras do pensamento, quiçá o pior dos inimigos de quem se propõe a criar. A quem interessaria, por exemplo, a elitização do saber e dos feitos culturais? Em nome do quê atravancar caminhos e vias de acesso ao ato de experimentar a arte sob suas mais variadas formas? Para um autor, a maturidade é joia rara e, em muitos casos, chega a beirar o inatingível. Haveria, então, uma resposta pronta para a dúvida sobre o momento certo de se executar as coisas? Muito se questiona sobre quando alguém estaria definitivamente pronto para tomar as rédeas de si em matéria de criação literária. Apesar de presenciarmos um momento de múltiplas intervenções em torno da escrita, com toda a sorte de expressões a surgir, nosso refúgio maior e melhor aponta para o deus leitura. Nele, encontramos alimento para pensar, agir e, tendo propriedade para tal, expelirmos algo sob a forma de palavras. Hoje, operemos no campo das escutas, emprestando dotes para a alteridade. Talvez assim encontremos um ponto exato de ajuste, de diálogo. Pensando nisso, podemos desbravar as searas poéticas de gente como Leonardo Chioda, Rosana Banharoli, Pedro Du Bois, Maria Quintans e Carina Carvalho. Do mesmo modo, penetrar na prosa cotidiana e densa de José Geraldo Neres, Ieda Estergilda e Marcus Vinícius Rodrigues. Marcando seu momento inaugural entre nós, o jornalista e professor Fernando Marques promove uma verdadeira viagem pela obra “História Mundial do Teatro”, de Margot Berthold. Numa boa conversa sobre literatura e seus afins, entrevistamos o escritor baiano Rodrigo Melo, que também estreia no caderno Gramofone ao conduzir nossas escutas pelo disco de Jair Naves. O poeta Jorge Elias Neto apresenta-nos o mais novo livro de W. J. Solha. Larissa Mendes reflete sobre o filme “Antes da Meia-Noite”. E para coroar todo o coletivo de expressões aqui disposto, expomos, por entre todos os nossos recantos, os sensíveis registros fotográficos de Milena Palladino, artista que mergulha no universo da simplicidade. Uma nova edição surge inteiramente voltada para celebrar sua presença entre nós, caro leitor. Boas incursões!

 

Os Leveiros

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rodrigo Melo

 

JAIR NAVES – E VOCÊ SE SENTE NUMA CELA ESCURA, PLANEJANDO A SUA FUGA, CAVANDO O CHÃO COM AS PRÓPRIAS UNHAS

 

 

 

Jair Naves é um sujeito magro, de nariz grande e olhar perdido que, ao vê-lo na rua, você provavelmente ficará a imaginar que é mais um órfão de Ian Curtis ou Kurt Cobain, um desses rockers que perderam o bonde, mas mantém a pose, o jeito um tanto tímido e enigmático no caminhar. Há uma porção por aí, e eles passam as tardes zanzando de um lugar para o outro, fumando cigarros, olhando as coisas, criando teorias sobre como tudo poderia ter sido se seus ídolos não tivessem morrido. Jair, entretanto, embora pareça, não é um desses órfãos, tampouco perdeu o bonde para algum lugar. Circulando há um bom tempo pela dita cena alternativa nacional, a primeira vez que soube dele foi através da banda Ludovic. Lançaram dois discos muito bons, cultuados hoje, com um hardcore de primeira linha, sem frescuras, por alguns alcunhado de hardcore pé de cana – em cima do palco, e ele era o frontman, o seu jeito retraído desaparecia, como se assumisse outra personalidade ali. Antes da Ludovic, participou, ainda, como baixista no último disco da Okotô, outra banda de destaque.

As bandas, no entanto, acabaram, e Jair sumiu.

Em 2010, ouvi falar dele outra vez. Ensaiava uma carreia solo. O nome do ep era Araguari, e há toda uma história sobre a escolha desse nome. Araguari é, na verdade, a cidade mineira em que Jair nasceu. Em 1967, Luís Sérgio Person dirigiu o filme “O Caso dos Irmãos Naves”, que contava a história de Sebastião e Joaquim Naves, parentes distantes do nosso rocker, acusados, presos, e torturados por um crime que não cometeram. O filme foi premiado, a história ganhou destaque e um dia, muitos anos depois, chegou às mãos de Jair. Identificando-se com o filme, ele viveu um tipo de resgate, usando a história e lembranças que tinha da cidade como alimento para voltar a criar. Numa das músicas, Araguari I(Meus Amores Perdidos), ele diz: “As lembranças que guardo de Araguari/ Resumem-se ao dia em que fugi/ Caçado de perto por uma multidão/ Decidida a fazer justiça com as próprias mãos”. Entre uma faixa e outra do ep, trechos de áudio do filme de Person.

Um ano depois, ele lançou o single “Um Passo por Vez”.

 

Jair Naves / Foto: Divulgação

 

Mas vamos a 2012, é por isso que estou aqui. Foi neste ano que saiu o disco E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas. Quase ninguém mais consegue, ou pelo menos tenta, títulos assim. Pensei que era ousado, sobretudo por flertar, perigosamente, com o lugar comum. Um monte de gente já sucumbiu a esse ardil. Mas devo dizer que, quando se é honesto e o sujeito gosta do que faz, os riscos diminuem. E o disco de Jair é bastante verdadeiro, dá para saber logo nos primeiros minutos de audição. Com uma pegada mais leve, mas ainda assim densa, o disco é cheio de melancolia e de um tipo de desespero contido, as músicas iniciando-se e acabando como se estivessem de mãos dadas, uma ligada à outra, por vezes transparecendo influências (de Wander Wildner, ao folk, pós-punk e algumas bandas dos anos oitenta), só que com uma atmosfera contemporânea e por demais particular, sem, justamente por isso, soar datado ou como se fosse alguma repetição. Sem perceber, você aos poucos se acostuma àquela toada de trovador perdido que Jair tem.

Outro fator que diferencia o disco são as letras. Mesmo quando fala de assuntos comuns, como amor e desilusão, seu jeito de tratar o tema chega a ser em alguns momentos literário, não se contentando em apenas rimar ou agradar. Um exemplo disso é a letra da música A Meu Ver: “Então me recebe/ Como eu te receberia/ No melhor dos momentos/ Ou no pior dos seus dias/ Estou tão esgotado/ Tudo é frágil demais/ Posso não estar aqui/ Quando olhar para trás/ Então hoje me abraça/ Como eu te abraçaria/ No pior dos seus dias”.

Ian Curtis, tudo faz crer, gostaria disso aí.

E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas é um disco que vale ser conferido. Talvez não te encante logo de cara, ou do jeito que me encantou. Meu conselho é este: escute algumas vezes mais, depois a gente conversa novamente.

No mesmo ano, 2012, Jair Naves ganhou o prêmio Revelação da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, e foi considerado um dos mais talentosos e promissores compositores de sua geração.

Ele é aquele sujeito do início: tímido e narigudo, de jeito meio enigmático ou estranho, que, ao passar por você na rua, talvez olhe para o chão.

 

 

(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo. Recentemente, integrou a coletânea de contos 82 – Uma Copa l Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo)

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Maria Quintans

 

Foto: Milena Palladino

 

 

É neste inferno que se mascara o poema. Um homem nu, duro de barba e porte e o silêncio esta humilhação só suportável pelo medo.

Irei guardar as nossas conversas num balde de luz. Saberemos sempre que a viagem é longa mas que a chamamos a nós. E a passagem ampliará a hora. Todas as horas desesperadas na quebra da negação.

Todos os silêncios são um só. E o leite há-de chegar a escorrer pelo copo cheio onde todos beberemos, indiferentes se gostamos, não gostamos, ou queremos.

E neste inferno a satisfação supõe um instante, um só instante ampliado pela vida encontrada sempre que o sofrimento cai de quatro em genuflexão obrigatória.

Do medo faremos o silêncio e nada responderemos às perguntas feitas à noite, em horas insensatas para os poemas que dormem.

O silêncio será sempre a longa transformação da palavra.

***

há uma sombra enorme na minha cabeça. uma coisa que depois de tudo não é nada mas que quando acontece é hoje. escava doido um alfinete dentro do peito a picar os teus mamilos  que se escondem no armário porque eu sou a minha mão no fundo do teu sofrimento.

há um desenho enorme na minha cabeça que vibra na renúncia da vontade e fala de sereias e de invernos estreitos num corpo a fugir à pressa selvagem, estrangulado numa alegria estúpida, cada vez mais isolada, agarrada à luz que tudo abre se pensarmos que o martírio dos olhos são os próprios olhos, distraídos pelas sombras que andam de um lado para o outro às cegas,

incertas e separadas de placentas-mãos, e pausas na respiração dos homens suaves.

há um caminho deserto na minha cabeça que roda sobre si e nunca compreende a voz que lhe amacia as grades da janela de onde nunca se vê o condenado, por ser ela própria a teia, a máscara – a mão entre a fúria e o amor a comer de pé as bocas enroladas na luxúria dos deuses analfabetos.

lá fora é apenas noite na sombra da minha cabeça.

 

***

os habitantes das árvores transformam-se em peixes
rebolam nas palavras com as antenas de fora e
seguem os gatos.
as flores amar-se-ão sempre
num voluptuoso lago crescido de flamingos-frangos

as formigas nunca poderão descer das árvores com o aquário por baixo.

os flamingos-frangos descansam numa pata e os outros bichos olham-se numa teimosia danada.
é um problema sem solução.

 

 

***

Poema como se fosse tudo

esta é a metafísica saturada do sonho:

não dizer nada

dormir com o cão enrolado à pele

rasgar no desejo o fôlego do poema

 

afundar de ironia a almofada do silêncio.

 

 

(Maria Quintans é escritora em Lisboa, Portugal. Publicou em 2008 o livro de poemas “Apoplexia da Ideia”; em 2010 “Chama-me Constança” e em 2013 “O Silêncio” (Editora Hariemuj).Em 2009 faz parte da criação da Revista Inútil, onde é diretora editorial. Em 2011 cria a Editora Hariemuj, que se dedica especialmente à poesia. Organiza, em 2012, a antologia poética “Meditações sobre o Fim – Os últimos poemas” (Hariemuj Editora))

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Jogo de Cena

Jogo de Cena

A ETERNA ARTE DO EFÊMERO

Por Fernando Marques

 

 

Teatro do Egito à Grécia

 

No princípio, era o rito. Os livros que contam a história do teatro costumam começar pela admissão de que o fenômeno cênico foi, na origem, cerimônia mística. Há quem lembre, também, o parentesco essencial entre teatro e jogo. Para os que ressaltam o papel do sentimento religioso na gênese do espetáculo, nos primeiros tempos não havia espectadores, mas fiéis; tampouco existiam atores, e sim sacerdotes. Os eventos apresentaram esses traços no Egito, na Índia, na Grécia pré-socrática.

Autora da monumental, embora não exaustiva, História mundial do teatro, a alemã Margot Berthold inicia seu livro com afirmação semelhante. Para haver teatro, diz, o ocupante do palco deve situar-se além das leis cotidianas – que definem identidade e alteridade, por exemplo – e tem de contar com público disposto a ouvir “a mensagem desse vislumbre”.

Pode-se supor, com Berthold, que a divisa entre rito e espetáculo, ou entre religião e teatro, se encontre no momento em que o fiel perde a inocência, a fé, quando já não crê estar diante do próprio deus, mas percebe que se trata de simples representação, ainda que impressiva, da divindade. O crente transforma-se, a essa altura, em espectador – mudança que, sob certas circunstâncias históricas, deve ter demandado séculos. O teatro, menos rito do que jogo, procede por metáfora, por fingimento consentido, e o ator, na sua capacidade de criar a ilusão da metamorfose, é seu elemento básico, sugere a autora.

Em todo caso, a ideia de que o teatro nasce do rito e do mito parece aplicar-se melhor ao gênero trágico, ligado à morte e à perda inevitáveis. Já a comédia, embora se origine em festas de caráter fálico, igualmente religiosas, relaciona-se menos ao momento ritual de exceção e mais à vida cotidiana (pensamos aqui na tradição de origem grega).

Naturalmente, o livro de Berthold privilegia a história, não a teoria – não pretende especular em torno do teatro, mas descrever e comentar suas manifestações. O longo passeio, fartamente ilustrado, pelas inúmeras formas assumidas pela cena nos leva, nos primeiros capítulos, ao Egito e à Mesopotâmia, às regiões islâmicas, Índia, China e Japão. Depois, a estudiosa retorna à Grécia e retoma o curso ocidental em ordem cronológica, tratando de Roma, Idade Média, Renascimento, até a modernidade – as datas mais recentes, entre as citadas no volume, giram em torno de 1965. Nota-se, no enorme esforço de síntese, traduzido em claro e elegante português, a ausência do teatro africano – já algo documentado, presume-se, quando da redação do livro (o Egito de que trata a autora é o arcaico). Faltam ainda referências à América Latina. Para informações sobre atividades cênicas na África, o leitor curioso pode recorrer a História do teatro, do baiano Nélson de Araújo, que fala sucintamente do assunto.

Os espetáculos que celebravam a paixão de Osíris, em Abidos, no Egito, estão entre as primeiras manifestações teatrais de que se tem notícia. Realizados ao ar livre e destinados a envolver toda a comunidade, aqueles festivais se assemelhavam aos que foram praticados na Mesopotâmia: “No reino de Nabucodonosor, o famoso festival do Ano Novo, em homenagem ao deus da cidade da Babilônia, Marduk, era celebrado com pompa espetacular”, anota Berthold. O poder de Estado fundava-se na religião, e todo o povo era periodicamente chamado a festejá-lo.

 

 

Cena egípcia em torno do mito de Osíris

 

Entre povos islâmicos, a proibição de se representar a figura divina sob forma humana terá inibido o teatro. Artistas turcos, valendo-se de personagens cômicas – os bonecos Karagöz e Hadjeivat –, contornaram a interdição, disfarçando os traços humanos de suas criaturas. A lenda sobre a origem da dupla de bonecos lembra a intolerância que tantas vezes atingiu, em diversas épocas e países, os artistas do palco. Karagöz e Hadjeivat teriam existido realmente: eram operários-atores que, com anedotas e palhaçadas, distraíam os demais trabalhadores de seus deveres na construção de certo templo. O sultão da hora, por isso, mandou matá-los. Depois, arrependido, o chefe político procurou compensar o crime permitindo que os humoristas mortos revivessem, simbolicamente, na forma de bonecos. Confúcio, na China, também iria punir com a morte a irreverência dos atores cômicos.

Motivações religiosas estiveram na base do teatro na Índia, onde a arte do ator recebeu atenção especial. Ao contrário do que se deu entre povos islâmicos, “a conceituação antropomórfica dos deuses proporcionou o primeiro impulso para o drama”. O Natyasastra, livro escrito há cerca de 2000 anos pelo sábio Bharata, registra os princípios da atividade cênica, no que é um manual das artes da dança e do teatro*.

O Natyasastra requer, “tanto do dançarino quanto do ator, concentração extrema até as pontas dos dedos, de acordo com uma lista precisamente detalhada”. Aqui não se leva em conta a espontaneidade intuitiva, não se improvisa: as regras assemelham-se “a uma soma de valores matemáticos”. As maneiras de andar, por exemplo, são convencionais: “Uma cortesã caminha com passo ondulante, uma dama da corte com passinhos miúdos; um bobo caminha com os dedões dos pés apontados para cima, um cortesão com passos solenes, e um mendigo, arrastando os pés”.

Os 5000 anos de história chinesa contam que o teatro pôde ser útil na resistência ao invasor mongol, não em representações públicas, mas em livros que circulavam restritamente. Nesse caso, “os dramaturgos eram eruditos, médicos, literatos, cujos discípulos se reuniam em torno do mestre ao abrigo das salas particulares de recitais”. O aplauso popular, por outro lado, dirigia-se aos malabaristas, acrobatas e mimos. A herança desses artistas conserva-se no repertório da Ópera de Pequim, na qual a habilidade dos acrobatas “possui seu lugar de honra”.

A China também oferece bons exemplos de literatura dramática. Entre eles, estão os textos que aproveitaram a história do imperador Ming-Huang e de sua amante Yang Kuei-fei. Lances da trajetória do casal, que viveu no século VIII, dão mote a várias peças, como o drama O palácio da vida eterna, do final do século XVII. Diz Berthold: “As falas desta peça, imortalizando o juramento trocado entre o imperador e sua bem-amada, são tão bem conhecidas na China quanto o são, na Europa, as palavras da Julieta de Shakespeare”.

Mais visceral, talvez, é o episódio em que se inspira A beleza embriagada, “obra-prima de virtuosismo histriônico, que durante muitos anos fez parte do internacionalmente aclamado repertório da Ópera de Pequim”. Yang Kuei-fei espera o namorado, que a convidara para uma taça de vinho no Pavilhão das Cem Flores. A espera resulta inútil, o imperador preferiu cair nos braços de outra mulher. A moça rejeitada, então, se embriaga, tentando sufocar o ciúme.

Berthold afirma a importância desse “musical de ato único”, observando que, na encenação, é ressaltada a ação íntima, interior. A autora recorre às palavras do historiador Huang-hung, que sentencia: “Para chegar a uma apreciação correta do teatro chinês, o europeu precisa estar consciente de que o maior interesse não é tanto sublinhar a ação enquanto tal, mas deixar o público sentir a história. O acento está nas possibilidades espirituais, mais do que nas físicas”.

No Japão, por volta de 1720, o dramaturgo Chikamatsu pensa de modo similar: “Considero que o páthos seja inteiramente uma questão de contenção”, diz ele, acrescentando que, “quando todos os componentes da arte são dominados pela contenção, o resultado é muito comovente”. Entre os estilos mais importantes do teatro japonês, encontram-se o , que remonta ao século XIV e faz o elogio da ética heroica e aristocrática dos samurais, e o kabuki, encorajado pelo poder dos mercadores no século XVII, gênero que avançava no sentido de compreender “toda a extensão da realidade social”, utilizando dança e música.

 

Cena de um espetáculo de Kabuki / Foto: Sérgio Carvalho

 

Berthold chega, a essa altura, às matrizes gregas do teatro ocidental. Ali, o caminho que leva do rito à cena aparenta-se ao que se deu noutras épocas e noutras regiões, mas em grau diverso: “O teatro é uma obra de arte social e comunal; nunca isso foi mais verdadeiro do que na Grécia antiga”, diz a historiadora. Pode-se destacar, naquele acervo, a linha que vai de Ésquilo a Sófocles e deste a Eurípedes, os três grandes autores trágicos do período especialmente fértil iniciado em torno de 500 a.C., quando Ésquilo começa a participar dos concursos teatrais em Atenas, e terminado em 406 a.C., quando morre Eurípedes**.

Berthold descreve: “Os componentes dramáticos da tragédia arcaica eram um prólogo que explicava a história prévia, o cântico de entrada do coro, o relato dos mensageiros na trágica virada do destino e o lamento das vítimas”. De Ésquilo a Sófocles, diminuem as intervenções corais – o que se nota ao se comparar, por exemplo, uma peça como Agamenon, pertencente à trilogia esquiliana Oréstia, à Antígona, de Sófocles. Este, 30 anos mais jovem que Ésquilo, passa a utilizar três atores, em lugar de dois, para o diálogo com o coro.

Essas considerações de ordem material pretendem sugerir as transformações de conteúdo operadas de um a outro dos três autores. O teor mítico, aos poucos, se dilui ou se ameniza, num caminho que leva dos semideuses de Ésquilo aos retratos mais próximos do humano legados por Eurípedes. O rival Sófocles diria: “Eu represento os homens como devem ser, Eurípedes os representa como eles são”.

Diferentes posturas distinguem a esquiliana Electra da indefesa mas decidida Antígona, personagem da peça homônima de Sófocles, e da rancorosa Medeia, da peça de Eurípedes. Electra conspira contra a mãe Clitemnestra e concorre para a morte desta por não poder fugir às leis da vingança, que condicionam seu comportamento (Clitemnestra matara o marido Agamenon, pai de Electra). Antígona, presa a determinações ancestrais, mas já disposta a agir por conta própria, enfrenta o tirano Creonte, que proibira o enterro de Polinices, irmão de Antígona. Por fim, Medeia, embora dotada de poderes sobrenaturais, atende, ao matar os dois filhos, tão somente à própria dor de mulher abandonada pelo marido, de quem se vinga com o assassinato dos meninos. O mito cede à psicologia, deuses tornam-se homens.

 

 

Cena da montagem de Antígona pela Companhia Senhas de Teatro (PR) / Foto: divulgação

 

A autora resume: “Eurípedes rebaixou a providência divina ao poder cego do acaso”. Foi exatamente esta a queixa de Nietzsche contra o “sacrílego Eurípedes”: o autor de Medeia trata os conceitos morais à base de sofismas, oferecendo às suas personagens, diz Berthold, “o direito de hesitar, de duvidar”. O mundo se amesquinha, reclama o jovem Nietzsche de O nascimento da tragédia; a crença dionisíaca tende a desaparecer, dando lugar à especulação ou ao puro desencanto (Eurípedes, contudo, voltaria às fontes dionisíacas, pouco antes de morrer, na peça As bacantes).

Já na época o corrosivo e conservador Aristófanes satirizava Eurípedes, tomando o partido de Ésquilo na comédia As rãs: “Nesta peça, Dioniso, o deus do teatro, avaliará os méritos concernentes a Ésquilo e Eurípedes, mas ele se revela tão indeciso, vacilante e suscetível quanto o público e os juízes na competição”. Dioniso pesa os textos “feito queijo”, mas concede enfim a vitória ao decano Ésquilo. A peça foi representada em 405 a.C. e, no ano seguinte, chegavam ao poder os Trinta Tiranos, inimigos da democracia que, morrendo, levava consigo tragédia e comédia antigas: “O espírito da tragédia e a democracia ateniense haviam perecido juntos”.

Na segunda e última parte deste artigo, a sair na próxima edição de Diversos Afins, viajaremos de Roma ao século XX, dando sequência ao percurso proposto por Margot Berthold em sua História mundial do teatro.

 

Notas:

 

* “Seria inútil procurar por detrás desse nome, que sugere relações simbólicas com algumas divindades, uma individualidade sobre a qual pudéssemos ter um conhecimento histórico. Bharata não é mais que o sábio mítico a quem os deuses ordenaram que criasse o teatro”, anotam Monique Borie, Martine de Rougemont e Jacques Scherer em Estética teatral – textos de Platão a Brecht. Lisboa: Gulbenkian, 1996, p. 31.

 

** O legado de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, somado ao do comediógrafo Aristófanes, resulta em 43 peças ao todo. Os textos sobreviventes estão assim distribuídos: sete tragédias de Ésquilo, incluída a trilogia Oréstia (Agamenon, Coéforas e Eumênides); sete de Sófocles, inclusive as da Trilogia tebana (Édipo Rei, Antígona e Édipo em Colono); 18 de Eurípedes (17 tragédias, a exemplo de Medeia, Hipólito e As bacantes, e um drama satírico); e as 11 comédias de Aristófanes (entre elas Lisístrata ou A greve do sexo e As rãs).

 

(Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva. A cantora Wilzy Carioca lança neste ano o CD “De cor”, com 14 canções do autor. A peça “Zé” será republicada em novembro pela É Realizações)

 

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82ª Leva - 08/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Ieda Estergilda  

 

Foto: Milena Palladino

 

PELAS RUAS

 

I


Tomo coragem e me aproximo da primeira mulher, sentada no batente da escada que vai dar em uma academia de artes marciais. O sol de quase verão faz brilhar seu rosto escuro.

Não é comum abordar desconhecidos, ainda mais para perguntar o nome, mas era exatamente isso que eu queria da mulher. Cruzava com ela quase todo dia, indo e vindo, sentada em batentes ou dormindo debaixo de marquises. Fosse como fosse, parei decidida a entrar na sua órbita.

Feita a pergunta, ela me fitou com olhos avermelhados, cuspiu para o lado e depois de acompanhar o trajeto da saliva, respondeu com a cabeça voltada na direção do vento.

– Esqueci.

A resposta só aguçou minha curiosidade.

– Tenta lembrar, seu nome não é Luzia? Você tem cara de Luzia, sabia?

– Luzia sabia não é meu nome não.

– Então é só Luzia?

– Só Luzia também não me chamo não.

– Me diz como você se chama.

– Não me chamo Luzia sabia nem só Luzia.

– Tudo bem, esquece.

– Esqueci, repetiu dando outra cusparada, dessa vez quase me acertando o braço.

– Você parece uma princesa.

Além do olhar, recebi de volta alguns dentes no meio da boca, sem saber se era um sorriso ou simples movimento da face. Os trapos cruzados nos ombros, nos quadris e nas pernas davam a ela um porte de princesa.

Encontrava a mulher de manhã cedo, se espreguiçando em cima de tiras de papelão, tentando ajeitar os panos, limpando os olhos com saliva. Acompanhei por duas ou três quadras sua busca por comida ou alguns goles.

Quando era só isso que conseguia, se animava por instantes, erguia a cabeça e desfilava para ela mesma. Mais adiante se encostava em qualquer canto, as pernas abertas, o olhar desfocado, a cabeça mal se sustentando no tronco. Ou então colocava os braços em volta dos joelhos, cabeça entre as pernas e assim ficava, muda e tonta. Nada por dizer, nada por fazer.

No final do dia, ela ainda arrastava o manto roto pelas calçadas, os pés grossos de tanto chão. Mas não perdia o porte, por mais bêbada que estivesse, mais faminta e suja. Havia uma luz naquela vida. Acho que foi por isso que adotei Luzia.

II

A segunda mulher me atraiu pelos berros e gritos, a disposição de viver brigando com o mundo. Estava dentro do jardim japonês na manhã em que cruzei o viaduto. A saia levantada até à cintura, lavava-se à beira do pequeno lago. A figura seminua atraiu olhares, depois risos que passaram ao deboche. Sem interromper o que fazia, a segunda mulher disparou uma rajada de palavrões, mandando todo mundo para aquele lugar e outros semelhantes. O que ela exigia a seu modo era apenas respeito, afinal, embora ali fosse um local público, estava num momento de intimidade. Não podia usar a água do laguinho? Então que tal a casa de alguém da plateia? Quem oferece? Sua voz alterada ecoou pelo viaduto, feriu ouvidos e logo espantou os curiosos. Terminado o asseio, saiu do jardim como se do banheiro da própria casa e foi postar-se na calçada. O olhar desafiador era de quem estava pronta para mais um dia de luta, ai de quem tentasse zoar com ela.

Um dos alvos mais frequentes de sua indignação são os motoristas que saem dos estacionamentos e garagens sem buzinar. Quando se assusta ao ter de parar bruscamente, não poupa ninguém, xinga até ficar rouca, corre atrás, bate nos vidros, faz questão de chocar. Vi uma vez ela despejar sua raiva contra dois manequins de gesso de uma loja, uma gueixa e um samurai. Diante da vitrine, tocava os braços, o rosto, olhava os manequins impassíveis e fazia comparações em voz alta. O que eles tinham mais que ela? Ela era gente, enquanto eles, se desse um empurrãozinho, quebrariam e virariam pó ali mesmo.

Sentada num banco da praça, cercada de senhores e senhoras de olhos puxados, a segunda mulher costumava discutir com seus fantasmas. Mexia nas sacolas e dialogava com não sei quem invisível. Não queria “ele” por perto, preferia viver só, de louca bastava ela, dizia empurrando o invisível com mãos e pés. E ria alto, abraçava as próprias costas, dava tapinhas, levantava as pernas, se estirava no banco, se encolhia toda dengosa.

Um pastor que fazia ponto na entrada do metrô resolveu aproveitar a ocasião, ali estava uma que precisava ser salva. E conclamou os que o cercavam a tentar trazer a ovelha irada para o rebanho. O idílio imaginário durou até a chegada do grupo. Quando se aproximaram, a mulher retomou seu estado de ira e mostrou as garras. Urubus e galinhas depenadas foi o que ouviram de mais suave. A criatura estava na praça curtindo a dela, por que não a deixavam em paz? Pegou o que era seu e saiu praguejando em direção à Ladeira dos Estudantes. Por instantes ainda ouvi ecos ladeira abaixo da naturalmente alterada e de quem nunca quis saber o nome ou origem.

III

A terceira mulher também perambula por ali. Cabelos ralos, olhos de quem vagueia para dentro, sempre para dentro, lembra uma moça antiga, dessas recatadas. Vive rodeada de cachorros famélicos com quem divide a comida que consegue. Dizem que já foi professora, que perdeu a memória e não sabe mais o caminho de casa, se tem pai, mãe, filhos, irmãos.

A última vez em que a vi, parara de chover e fui à padaria, onde dei com ela na calçada ao lado da porta. Com o mesmo vestido bege cobrindo os joelhos, um quase nada naquele começo de manhã. A prole tinha aumentado, segurava agora uma galinha, um fogo de penas vermelhas e azuladas debaixo do braço. Os cabelos úmidos, distribuía pedaços de pão entre seus bichos e mastigava algum, com gestos polidos.

Mergulhei nos seus olhos sem que percebesse, e veio aquele sentimento. Não de pena pelo que ela tinha sido e como vivia, nem a considerava um ser miserável. O que me atraía era sua presença, ao mesmo tempo tudo e nada na paisagem.

(Ieda Estergilda de Abreu é cearense, vive em São Paulo, já morou em Brasília. Escritora, jornalista free lancer (e bacharel em direito), tem livros de poesias publicados: Mais um Livro de Poemas; Grãos – poemas de lembrar a infância; A Véspera do Grito – um infantil : O Jogo do ABC. Colaborou em jornais, onde também publicou crônicas, e escreve para algumas revistas. Tem inéditos contos, poesias e histórias para crianças e jovens)

 

 


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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Rosana Banharoli

 

Foto: Milena Palladino

 

 

jamais pluma
diante do abismo
lágrimas represadas
comportas erguidas
a concreto e culpas
destino mesmo
depois de chão
:pedra
pedra sem perdão
e ascensão
:pedras atiradas
num jogo de dados

 

 

***

 

 

comungo
companhia
em lua opaca
[a minha]
desbotada
de tentativas
[tamanhas]
esgotada
de partidas e pedras
[grito pra dentro]
explode o poema
em ventre seco
[esse e todos os outros]

 

 

***

 

 

no fundo da noite
o uivo multiplicado
corta a conversa
de sonhos
e dá voz
ao holocausto
:silêncio do medo

 

 

***

 

 

para Julieta Bacchin

 

olhos felinos
de arranhar
salivas e sêmens
& comê-los
em instantes
: cristal de corte
sangue vivo
desejos
vértice de máscaras
& fantasias
longe
talvez cinzas
ou flores místicas
de prazer, talvez
,navegação

 

 

***

 

 

Aqui jaz

Do arrebol,
Andejo por um só caminho

A noite baixa densa                    desdentada

À espreita,
Solitário raio de sol
Vem se deitar comigo
E, misturado a terra orvalhada
Desiluminar a sombra
De meu futuro                             outrora

 

 

 

(Rosana Banharoli é autora de Ventos de Chuva, poesia, Scortecci, 2011[Fundo de Cultura de Santo André]. Participa com dois contos no  livro de Maitê Proença, É duro ser cabra na Etiópia, Ediouro, 2013. Alguns  poemas são do livro inédito, Cartografia em Construção, realizado após breve estada na Casa do Sol-,IHH em novembro de 2012. Publicada em mais de 20 Antologias através de premiações em Concursos Literários e em diversos sites, blogs e revistas literárias)

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Esse é o homem: um tratado do homem – rente ao chão

Por Jorge Elias Neto              

 

 

Comecei a ler o livro Esse é o Homem – TRACTATUS POÉTICO-PHILOSOPHICUS do poeta WJ Solha, pensando: uma trilogia de poemas longos é algo de difícil concepção. Se um compositor acaba se repetindo, tornando-se previsível e monótono, fazendo com que nos lembremos mais de suas primeiras músicas em detrimento das mais recentes, como poderá um poeta não resvalar nesse mesmo sortilégio da criação?

E isso não é bom, pois estabeleceu uma prioridade: a busca das semelhanças. De início, observei as rimas que se repetiam e fiquei desconfortável. Lembrei-me de quando conversamos sobre meu poema Ode à bandeira, e Solha criticou o fato de eu ter rimado Solha com poalha como se a palavra somente estivesse ali para rimar. Casa de ferreiro espeto de pau?

Não satisfeito, interrompi a leitura.

Por ser livro para mergulho de apneia (já havia constatado isso em seus livros anteriores), busquei um recanto e reiniciei o livro.

E inicia-se o livro com a criação das palavras, a corporificação e socialização do objeto; e tudo se inicia pelo fluido, o mesmo fluido que, ao longo das 98 páginas do poema, nos levará e nos percorrerá e persistirá com a nossa partida.

Todas as interjeições já foram ditas e não se incorporam ao poema.

Depois veio o osso que virou arma, a dualidade bem e mal a nos olhar, o nosso olhar (olhar humano – demasiadamente humano), desde os primórdios de nossa existência. Vejo a odisseia de 2001 viva, estabelecendo quem é o verdadeiro Homem, sem firulas e dissimulações. E diz-nos o poeta que existe a arte, e existe a guerra, e existe uma retroalimentação, um feedback positivo renegado, mas legítimo.

E vão surgindo os nomes, cada vez mais complexos (na criação e multiplicidade de usos, finalidades estéticas e atrozes). E aí – repetindo o poeta – a suprema criação da consciência humana: surgem os deuses com os quais não se lida com conforto, os quais são temidos, pois trazem a morte.

E, ao longo do poema, o homem se desencontra, se repete, cria, procria, nomeia bem e mal, traduz toscamente imbuído da tonta ideia da literalidade. E faz a arte, cria a metáfora e dribla a realidade numa tentativa de destrinchar a vida. E é bom e é mau.

Vou esquecendo as rimas, mergulhando em tudo de história que me traz o poema. E, como leitor, estabelecendo as conexões (está aí um bom poema para manter ocupadas as sinapses cerebrais) necessárias para ver no homem de Solha, o mesmo que vejo com meus olhos miúdos. Vou entendendo que as palavras e as rimas contidas no poema não existem apenas para manter uma musicalidade: elas são um mote, um sinalizador de percurso do homem Solheano. E esse homem, após nomear a natureza, nomeia suas crias, suas buscas, achados e desespero.

De uma forma sutil, um certo menino nos conta histórias breves que cruzaram com seu olhar. E é do olhar do poeta que falo, aquele olhar envolto pelas circunstâncias. Aquele olhar da consciência de um poeta que representa em seus poemas o Universo e o Homem. Pois o olhar do poeta é mais que antena, o olhar do verdadeiro poeta, parafraseando o grande poeta baiano Ildásio Tavares, tem a humildade de se reconhecer homem e nos dizer estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte. Eis aí o homem e o poeta.

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Pedro Du Bois

 

Foto: Milena Palladino

 

 

O senhor ressentido em paixões
repete temas: recupera estátuas
em enigmas indecifráveis. Reluta
convicções
e dispõe sobre as bases
……………elementos concretos: ama
……………o paradoxo da frieza da pedra
……………e no metal deixa a sua marca
……………amarfanhada em papéis
……………decorridos de madeiras
……………inacabadas em regiões
…………………………………..estéreis.

 

 

***

 

 

Tece o pouco em necessidades
e as traduz em fugas.

Vida diversificada
em objetos herdados.

Destruído em condensado
no senhor do absurdo recriado.

Vive na significância da não
aceitação dos termos: extermina
a vontade de se fazer maior.

A desnecessidade da prisão ao ser
irreconhecível em paixões formatadas
no inacreditável de ser pedra
e só.

 

 

***

 

 

Imensos os aspectos
atraídos pelas mãos que criam
a ilusão da vida. O metal têm olhos
e ouvidos: não escuta
…………….e não enxerga.

A mão sustenta a luva.
os pés contraem a terra.

Diz que respira
e oxida. Mãos recriam
o fantasmagórico: escuta
……………………….e enxerga.

 

 

***

 

 

Não tem medo da origem:

………….ignora
………….a matéria prima.

Resta no desenlace
longe do recolhimento.

…………..a mão cinzela
……………………escarpa
……………………desespera.

A matéria é retrato
inacabado: reconstrói
a moda desfeita em tradições
inabaláveis das certezas.

O dono assoreado em documentos
repousa ante o fantasmagórico.

 

 

***

 

 

Idealiza. Conhece a essência
da transformação. Carrega o medo.
Escorrega a mão sobre o nada
no sentir a consistência do inexistente.

………..Traduz.
…………..Escolhe.
……………..Pensa.

Dispõe a necessidade em espaços
demarcados no projeto para atender
ao anseio da realidade.

………………….Produz.
……………….Contrata.
……………..Entrega ao senhor
……………a procedência do artefato.

 

 

(Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Balneário Camboriú, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP))

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: Milena Palladino

 

Depois do baile verde

Quando.. bateu a porta atrás de
si,. …..rolaram….pela escada
algumas.... lantejoulas verdes na
mesma..direção,.. como .se
.quisessem. alcançá-la.…………
Lygia Fagundes Telles

 

Os dedos percorreram o tecido verde jogado sobre a cômoda, numa lenta observação. A larga camisa era feita desse tecido sintético, imitando a leveza de uma seda, porém mais resistente. Os tons de verde brilhantes sobre um fundo multicor, as várias cores, tão diferentes e iguais, fazendo uma trama confusa. Como marca definida, apenas o desenho de uma pata de lagarto no ombro. Aqui, o brilho do tecido ficava inteiramente ofuscante, como se a pata fosse bordada de lantejoulas verdes. Tatisa acariciou aquele desenho com seus dedos brancos, as unhas curtas e sem vaidade, dedos de uma velha. Ela procurava o tato familiar das lantejoulas. Esperava nos dedos a confirmação daquele brilho tão conhecido. Nada. Apenas o toque suave de seda falsa. Mesmo o brilho, ela sabia, era falso. Com certeza não chegaria aos pés do brilho de uma lantejoula. Aquelas faíscas que via sair do verde do tecido eram efeitos de sua vista embaçada. Uma catarata se formava em seu olho. É preciso esperar, disse o médico de cabelos louros, tem de amadurecer primeiro. Era preciso que a cortina descesse completamente para só então descerrá-la. Descer ao fundo do poço, ela chegou a dizer. O médico sorriu seu sorriso de jovem. Mas ele é tão jovem, disse Tatisa à sua filha. Mamãe! Ela agarrou seu braço numa reprimenda discreta. Ele é o melhor nessa área, ela completou entre os dentes. Tatisa queria dizer que conheceu muitos médicos em sua vida, todos iguais. Eles olham pra gente um instante, perguntam se tomamos algum remédio, perguntam se temos alergia a alguma coisa e mandam a gente pra casa. Amadurecer? Eu já estou madura demais, doutor, caindo do pé, ela quis dizer também, mas se calou. O pudor de falar de sua velhice com aquele jovem de pele tão fresca. Calou-se na obediência que os velhos aprendem, engoliu a frase durante a consulta inteira e mesmo depois, enquanto atravessava a cidade naquele dia extraordinariamente quente, o calor exorbitava como que para confirmar a chegada do verão. Chegou à casa exausta. Tantos médicos nos últimos dias, tantos exames, as suspeitas de um mal invisível. Desabou no sofá e as palavras transbordaram. Não viveria para ver a catarata amadurecer. Ia morrer quase cega. Ora, mamãe, a senhora ainda vai enterrar todos nós. Vai ver quando os exames chegarem, a saúde de ferro. A filha falava animada, sem permitir uma palavra em contrário. Tatisa calou-se mais uma vez. Os exames.

O neto lhe tirou das mãos o tecido verde. Já era um rapagão o menino. Rodou pela sala com o pedaço de pano. Enrolou-o de qualquer jeito, como se fosse arremessar num cesto de roupas sujas e meteu no fundo da mala, enfiando a mão por entre as roupas que já estavam lá, o gesto vigoroso.

— Abadá, Vó. O nome disso é abadá. Há muito tempo que não existe mais mortalha nem fantasia. Nesse calor quem vai usar fantasia?

Ele respondia a uma pergunta lançada à neta. Cadê a fantasia de carnaval? A menina magra ficou ainda mais fina com a pergunta. Era anêmica de vontade, uma sílfide pálida. Estava ajoelhada perto de sua mala, dobrando pedacinhos de pano cor-de-rosa. Blusinhas. Arrumava a viagem como uma folha que se deixa levar pelo vento, sem querer ir, sem querer ficar, os pais já acostumados com aquela inapetência pela vida. A Avó não se conformava. Gostava de perguntar o que a neta queria, o que pensava das coisas. A resposta era quase sempre um dar de ombros. Quer dizer, de ombro, pois ela só levantava levemente o ombro direito e estendia os lábios uns poucos milímetros para frente, num muxoxo. Era nessa hora que os olhos caíam em diagonal para o ombro, como se vigiassem a execução do gesto.

A filha de Tatisa também estava às voltas com as malas. Arrumava a dela e a do marido. O genro tinha uma última reunião antes da viagem, a filha dizia a todo instante. Ele chegará a tempo, ela dizia com voz firme, afastando para longe a suspeita que nasceu junto com as novas reuniões. Tantas ultimamente. Foi com essa voz firme que ela anunciou a viagem. Vamos para a Bahia, mãe, quinze dias, praia descanso e, depois, o carnaval. O marido não teve argumentos para ser contra, tentou desculpas fracas, vagas, até ceder vencido. A neta sequer se manifestou. Só o neto ficou animado, queria ir atrás do Trio Elétrico, como naquela música: atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu …, cantarolou Tatisa, lembrando da invasão dos baianos na televisão, As roupas exuberantes, a música tão nova e vigorosa. O carnaval da Bahia devia ser assim. Foi o neto quem lhe esclareceu tudo. Os cantores eram outros. O bloco carnavalesco da moda chamava-se Camaleão — o lagarto da camisa, ou do abadá, o que quer que seja isso. Era um carnaval para jovens. Não tinha lugar para velhos. O convite da filha demorou para vir. Antes ela ouviu o neto falar da exaltação da festa, os números de trios, de blocos, de pessoas, mais de um milhão, talvez dois. Muita confusão. Não, os baianos que Tatisa conhecia não cantavam nas ruas, nem os velhos nem os novos baianos. Só os novíssimos. Todos os anos, surgiam outros mais novíssimos ainda. Apenas quando o quadro se desenhou totalmente é que veio o convite da filha. Tatisa sabia que não era uma viagem para velhos. Só iria atrapalhar. Que é isso, mamãe, a senhora nunca atrapalha, a filha lançou a gentileza. Tatisa aceitou o gesto e manteve seu papel na farsa. Continuou recusando. O genro também insistiu para que ela fosse e o gesto pareceu-lhe até sincero! Ela não soube como reagir. Ele chegava de uma reunião e de repente a companhia da sogra ganhou tanta importância!

— Deve ser nome africano, o neto continuava sua explicação sobre o tal abadá. Só não sei o que significa. É feita assim: larga. Se quiser, a gente pode cortar, diminuir.

Tatisa alisou sobre a cômoda o paninho de crochê, feito com minúsculos pontos, ponto baixíssimo. Empurrou mais para o fundo o envelope que estava embaixo do pano. Aproveitou para empurrar para o fundo as lembranças de um outro carnaval. Aquela roupa verde, tão brilhante, lhe lembrou um outro tempo. Quase podia repetir o gesto de molhar os dedos no pote de cola, enfiar nas lantejoulas e espalhá-las em sua roupa verde. A fantasia estava sendo improvisada em cima da hora. Tão mais difícil conseguir um pouco de brilho naqueles tempos. O baile seria temático. Um baile verde. Lu, a empregada, ajudava na montagem apressada. O carnaval rodeava a casa com suas músicas alegres e inocentes, tão perto. Por que, então, o baile? Pensou Tatisa. Logo lhe veio na memória o Pierrô verde. Precisava ir a seu encontro, o namorado. Ela já tinha a certeza. Era um namorico apenas, mas ela já tinha a certeza. Ela via a filha e sua força e lembrava daquele Pierrô. Tão firme no convite. Vamos ao baile verde, está decidido. Ela quis falar do pai doente, mas não teve coragem. Nem quando rodopiava no salão pôde dizer: o pai. No entanto, a frase da empregada se lhe cravara na cabeça: ele não passa dessa noite. As previsões da Lu. Ela já errara tanto! Era como um corvo voando em torno da doença do pai, sempre prevendo sua morte. Mas já errara tanto! Era um corvo equivocado. E o pai não morreria no dia do baile. Tão importante o baile, ele sabia. Não foi isso que a empregada tinha dito? Ele sabia que o baile era importante pra ela. Estava se fazendo de forte, dizia Lu em sua cabeça enquanto rodopiava nos braços de seu futuro marido. Eles iam se casar e ter essa filha decidida que cuidaria da mãe velha e viúva. A vida assim resumida. Tatisa não pensava que os anos todos de seu futuro poderiam ser resumidos assim num passado tão curto. Ela não sabia disso e, naquela hora, afastava os agouros da empregada. Hoje não papai. E ria para encobrir com a risada a imagem da porta do quarto fechado, onde o pai…

— Mamãe!

Tatisa é acordada mais uma vez de suas lembranças.

— Vamos ter de sair antes da hora.

Tatisa já ouviu pela metade. Demorou a entender o que a filha dizia. O genro estava atrasado. Iam todos direto para o aeroporto. Ele podia seguir direto. Tatisa quis aconselhar. Não seria melhor ligar pra ele, lembrar da viagem uma reunião não demora tanto assim? E essa ausência constante? Tatisa lembrava de seu próprio pai. Só adulta percebeu que, quando criança, havia umas ausências diferentes. Havia um silêncio negro no rosto da mãe. Longos períodos de silêncio. O pai oprimido por aquela voz que não era dita. A mãe engolia as palavras e junto com elas mastigava as entranhas do pai. Um doloroso silêncio para os dois. Tatisa também teve seus dias de silêncio com seu Pierrô verde. A ela parecia um ritual inevitável. Os homens aprendiam as pequenas ausências, os pequenos atrasos. Eram pequenos tremores na vida. Às mulheres cabia silenciar e esperar. O mundo se recompunha então. Tatisa tinha passado por isso. Não era possível desviar desse caminho. Nada podia ser alterado. As pequenas ausências, todas, podiam ser logicamente explicadas. Tudo se encaixava milimetricamente. Não podia ser diferente. Imaginar que algo acontecera era impossível. Por isso o silêncio. Uma palavra errada poderia desmontar aquele equilíbrio delicado. Tatisa aprendera aquele jogo. Toda a vida de uma mulher se paralisava à espera do marido. Ela se arrumava, punha um belo jantar na mesa e esperava. Sua vida ficava em suspenso até que a chave girasse na porta. Ele então entraria e acenderia a luz e tudo estaria claro.

A filha de Tatisa não parecia entender por completo essa lei. Algo do silêncio ela aprendera, mas não podia esperar. Ela seguia em frente. Carregava o que pudesse levar, os que fossem fortes para a jornada.

— Minha filha, não é melhor esperar?

— Mamãe, Mamãe. Ele sabe os horários. Saberá chegar lá.

— Não é melhor irem todos juntos?

A filha olhou séria. Não, não. Ela estava disposta a seguir com seu plano. Ir a Bahia, ao carnaval. O marido que fosse direto para o aeroporto. Se perdesse o voo, pegaria outro. Se não fosse, que comprasse roupas, pois quase nada ficara em casa. Ia ter de usar paletós todo dia. As reuniões, tantas. Aprendesse a administrar as reuniões, dizia a filha. Havia uma tensão naquela família, Tatisa sentia em sua carne. Admirava a filha por sua mão firme. Era ela quem controlava o filho cada vez mais rebelde, tão perigosamente próximo do gesto agressivo. E essa menina tão diáfana, o que fazer com ela. Tão ausente, tão anêmica, sem apetite para vontades, sem vida nas veias. A filha tinha mão firme com ambos. Com uma refreava o filho e seus impulsos, com a outra empurrava a filha adiante. Não se preocupava verdadeiramente com o que ia dentro de seus corações, apenas seguia em frente, fazendo sua família caminhar nos trilhos, como um trem, uma estação por vez, até vir o final do caminho de ferro, ou até o abismo da ponte interrompida, todo o comboio lançando-se no vazio. Era assim que ela pensava que devia conduzir sua família, todos juntos, a família inteira, ainda que cada parte fosse um amontoado de cacos de vidro. As almas se destroçavam diante daquela força aglutinadora que era a filha. Iam todos para a Bahia. O carnaval. O bloco verde. Tatisa ficaria. O último vagão, já velho demais, ia se desprendendo do comboio. Ela já fora assim, uma locomotiva seguindo em frente, os vagões desprendendo-se no caminho. O pai. A porta fechada no corredor escuro, as marchas de carnaval lá fora. Uma verdadeira locomotiva naquela noite verde. Umas poucas lantejoulas caídas no chão tentaram acompanhá-la. Mas para onde, Tatisa?

— Não chegaram os exames? Pensei ter visto um envelope no meio da correspondência. Mamãe?

Tatisa gesticulou um sei lá com os ombros, um leve muxoxo nos lábios. A neta teve uma professora, isso era certo. Só não aprendera a ter o segredo por trás do gesto evasivo. Seu gesto era só isso, uma evasão, um esvaziamento. Tatisa sabia o segredo. Esse, o seu grande aprendizado na vida.

— Mamãe!? A clínica não ficou de mandar?

— Ficou sim. Não chegou?

— Eu pensei ter visto, mas acho que me enganei.

— Procure, querida, pode estar por aí.

Tatisa fez a sugestão como uma provocação. Conhecia bem a filha.

— Meu bem, não está em cima da cômoda?

Muita coisa estava em cima da cômoda, sempre tão atulhada de objetos. E agora, naquela arrumação de viagem? A filha vasculhou com pressa os objetos e nada achou.

— Deixe que eu procuro depois, filhinha, vá fazer sua viagem, descansar.

— Mamãe, é importante, a senhora sabe.

— Minha saúde está ótima!

Os netos apenas observavam aquele impasse entre mãe e filha. Havia uma luta se desenrolando diante de seus olhos. Eles não entediam verdadeiramente, apenas sentiam o embate, como um surdo percebe as vibrações do som em seu corpo. Eles sentiam e reagiam cada um a seu modo. A menina afinou-se ainda mais, foi ficando delgada. Mais um pouco e sumiria por entre as malas. O garoto apenas murmurava palavras inaudíveis. Ele represava uma torrente de violência que poderia explodir a qualquer momento. Era quem mais precisava da Bahia. O que aconteceria com esse menino solto numa cidade como aquela? Tatisa tinha medo de imaginar. O que quer que fosse, a filha certamente teria força para segurar tudo. Ela sempre teve. Agora mesmo era capaz de vencer uma avalanche de impossibilidades contra seus planos. E fazia tudo com um simples olhar. Apenas com ele ela era capaz de afastar todos os problemas. O marido ausente em suas reuniões voltaria a tempo? Quanto tempo poderia conter o filho explosivo? E aquela menina se adelgaçando através da adolescência, ela chegaria a ser adulta? Tudo parecia desmoronar em sua volta. Ela, no entanto, inventava forças novas a cada novo problema. Viajar. O carnaval. Ela ia se divertir e seguir em frente. Nunca foi tão chegada ao carnaval. Algumas festas em criança, as farras de adolescente, apenas o que era esperado de uma moça. E, agora, aquela viagem. Ela corria como uma corsa que sente cheiro de fogo na floresta. Corria para se salvar. Não do marido que escapava de seus braços, não dos filhos que escapavam de seu útero. Tatisa sabia do que ela fugia e o quanto de força ela usava para fazer isso. Ela sabia que a filha seria capaz de vencer tudo que lhe acontecesse, todas as tragédias. Mesmo uma catástrofe natural ela venceria com os filhos nos braços. Apenas uma força poderia destruí-la. Tatisa sabia. Em meio ao embate, falou mais alto a natureza. Tatisa tocou o braço da filha e disse:

— Eu estou bem, querida. Os exames ainda devem estar chegando. Amanhã, depois. A qualquer momento eles chegarão. Não adianta você se preocupar agora.

A filha pôs uma expressão preocupada no rosto.

— Mamãe, você vai me prometer que vai me ligar assim que os exames chegarem, viu. Aliás, assim que eu me instalar no hotel eu vou ligar pra senhora.

Prometeu. Adiantou-se nas despedidas. Pra que prolongar mais aquela agonia? Já não havia dúvidas demais no ar? O genro não dera notícias. Ele iria ao aeroporto? A filha aceitou aquela gentileza da mãe. Eles começaram os abraços, todo um ritual de separação. Recomendações de ambos os lados. O afeto demonstrado como que na obediência de um protocolo de Estado. Tatisa via a filha partir em sua fuga, quase livre. E então, quando tudo parecia resolvido, a neta deixa escorrer da boca uma voz fina, quase um fiapo.

— Vovó, hoje de manhã não chegou um envelope branco com uma faixa azul e cinza? Não é esse o envelope da Clínica?

A reação da filha foi imediata. Queria ver onde estava, queria ver se eram os exames. Ela já se dispunha a trazer as malas para dentro, quando Tatisa atalhou.

— Não, minha filha, aquele é o envelope da catarata. Eu estava olhando ele esta manhã. Você sabe que eu não me conformo. A ciência tão avançada e eu tendo de esperar isso amadurecer. Não me conformo de ficar cega, mesmo que seja só por um tempo. Uma coisa tão simples. Não entendo.

— Mamãe, antes do fim do ano a senhora vai estar ótima, enxergando tudo.

A filha ria tranqüila, inteiramente compreensiva. Podia ser generosa agora, já estava em pleno voo para a liberdade. Repetiram as despedidas, um resumo rápido.

A porta se fechou e Tatisa finalmente ficou só. Foi sentar-se no sofá. O envelope ardia embaixo do paninho de crochê. Não precisava abri-lo para saber o veredicto. Lá não estaria a data final, apenas a ameaça. Por que lê-lo, então? Lembrou de como ele chegou pela manhã, a empregada empilhando todas as cartas na cômoda. Lembrou de como rondou em volta do móvel a manhã inteira, como se já beirasse a vida pelo lado de fora. O pequeno retângulo branco com uma faixa azul e cinza. Bastaria abri-lo e todos os planos da filha estariam desfeitos. No meio do dia, decidiu que ele deveria desaparecer. Precisava escondê-lo. Aproveitou um momento de distração da família e foi à cômoda. As cartas estavam mexidas. O envelope, displicentemente enfiado embaixo do paninho. Ela compreendeu a mensagem. Ele estava fechado. A filha o empurrara para baixo, como se fosse uma poeira que se deve esconder embaixo de um tapete, como uma porta que não se deve abrir. Quer dar uma espiada, Tatisa? Ela ouviu a voz de Lu ecoando do passado. Aquela porta não foi aberta naquela noite de carnaval, o baile verde esperando. Tatisa jamais abriu aquela porta. Nunca mais. Hoje, apenas, toda uma vida depois, diante do envelope fatal, é que ela teve coragem de encarar o que lhe reservara o destino naquele dia. Sentada no sofá, fechou os olhos embaçados. Ela estava de novo no topo da escada de sua antiga casa. Apenas o barulho do relógio quebrava o silêncio. A porta estava fechada. Tatisa aproximou-se com cautela. Investigou os ruídos de dentro. Não pode distinguir nada. Girou suavemente a maçaneta antiga. Um retângulo negro foi se expandindo. Os olhos de Tatisa, agora, podiam ver tudo. O mundo estava incrivelmente claro. Lá dentro cintilavam pequenas estrelas. Algumas lantejoulas pareciam convidá-la a entrar. Ela se sentiu inexplicavelmente calma. E então, depois de tanto tempo, tantos anos fugindo, ela entrou.

 

 

(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus, na Bahia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)

 

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Olhares

Olhares

O habitat das coisas sublimes

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Milena Palladino

 

Tez de natureza viva
expele o gosto dos dias.
Eis que vejo
na dança das ramagens
o doce augúrio duma manhã
a tomar o canto dos que
tateiam planícies do ser.
(Fabrício Brandão)

 

 

Sob o manto difuso da existência, outras paisagens se abrigam. E não seriam elas terras inventadas ao bel prazer das intervenções humanas, mas sim porções de vida presentes em nós desde o primeiro e desavisado sopro. Quem intenta superar a camada do óbvio que reveste nossa corriqueira visão, consegue imaginar sobre quais esferas estas primeiras linhas de contemplação se debruçam.

Quando a dinâmica da vida deixa expostas suas marcas mais aparentes, algo de especial preenche os instantes. Se o ofício é perceber o que se passa nas entrelinhas do mundo, a missão surge enobrecida pela riqueza de detalhes a ser exprimida. Mas aqui estamos a falar de um universo que corre paralelo ao que erguemos outrora através das eras de nosso movimento no planeta.

Foto: Milena Palladino

O cenário em foco abandona as paisagens concretas sob as quais erguemos nossas sinas errantes para vislumbrar outra valiosa perspectiva: a natureza e seus ritos. É assim que somos apresentados ao trabalho de Milena Palladino, cujas fotografias conferem um olhar sensível à morada de outros múltiplos e difusos seres. Mais do que caracterizar a aura milenar da conjugação fauna e flora, a artista propõe uma harmonização com o humano, denotando um viés de aproximação que nos atrai pelo vigor da serenidade.

A capacidade de conferir singularidade ao microcosmo presente na natureza é algo que torna as imagens de Milena especiais. Nesse trajeto, cada ato a flagrar bichos e vegetais ressalta nuances de delicadeza e se traduz numa orquestração de tons poéticos. Tomada desde a infância pelos atributos da simplicidade, a fotógrafa celebra a morada da beleza, fazendo-nos testemunhar quão arrebatador e terno é o pertencimento a um estado essencial das coisas. Assim, reaprendemos a respirar pelo valioso entendimento de que tudo cumpre seu ciclo.

Baiana de nascimento, Milena Palladino é graduada em Comunicação Social e desde 2008 atua como fotógrafa, tendo participado de alguns cursos e promovido exposições individuais de seus trabalhos. De modo independente, cobre eventos culturais, sociais e corporativos.

Quiçá o sentido maior da obra da artista seja o de operar a coexistência entre dois universos. Obviamente, o dos homens busca, nos detalhes ofertados pelo continuum da natureza, os saberes da simplicidade. Achar-se vivo é menos complexo do que se supõe.

 

 

Foto: Milena Palladino

 

 

*As fotografias de Milena Palladino são parte integrante da galeria e dos textos da 82ª Leva.