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82ª Leva - 08/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar entre os mortais e perceber nisso um trunfo é algo, no mínimo, instigante. E pensar que deixamos, muitas vezes, o filme da vida passar, desavisadamente e sem maiores considerações, diante de nossos olhos é mais curioso ainda. Caberia, então, somente a um escritor repisar as corriqueiras epifanias restritas, em sua maioria esmagadora, ao cenário das individualidades? Quem mais se habilitaria a expelir a seiva de nossas verdades esquecidas?

Na música Peter Gast, Caetano Veloso, por exemplo, entoa o canto de um homem comum, enganando entre a dor e o prazer. E vai mais longe, confessando-nos a sina de atravessar uma existência sob o manto da insignificância, encontrando alento num coração de poeta que, mesmo condicionado à solidão, ainda seria capaz de algum voo. Guardadas as devidas proporções, talvez seja mesmo esta a trajetória de um escritor, sobretudo quando a luta maior seja fazer ecoar sua voz num universo de múltiplas representações do ser.

Adentrar os becos e vias difusas das letras de Rodrigo Melo pode nos ajudar a perceber porque divagamos outrora sobre a necessidade de perceber as coisas que nos cercam. Oriundo das paragens marítimas de Ilhéus, na Bahia, Rodrigo é um daqueles artífices da palavra que têm predileção por dissecar a alma humana. Com um tom lúcido e sagaz, seus contos põem em xeque algumas costumeiras zonas de conforto, muitas vezes propondo arremates decisivos a algumas situações. Utilizando-se de uma linguagem despojada de elaborações mais formais, é hábil em fazer de sua obra um elo de aproximação com os leitores. Suas narrativas privilegiam aspectos tão vivos e intensos de nosso tempo, embalando revelações e propondo olhares especiais sobre o mosaico de complexidades que reveste as pessoas. Autor de O sangue que corre nas veias (Ed. Mondrongo – 2013) e, mais recentemente, integrando a coletânea de contos 82 – Uma Copa – Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo), Rodrigo Melo nos recebe para uma entrevista. Fala um pouco de seu caminhar literário e expõe algumas opiniões sobre o meio. De todo o dito, fica a impressão de que estamos próximos a um alguém que valoriza a arte do encontro, vislumbrando no leitor um sujeito ativo na condução das histórias.

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

 

DA – O livro é o “82 – Uma Copa – Quinze Histórias” e, com o conto “A culpa foi minha”, você demarca seus territórios naquela coletânea de difusas vozes literárias. Sua escolha narrativa passa ao largo de ter uma partida futebolística como o centro das atenções. Qual a real dimensão da aposta nesse, digamos assim, deslocamento temático?

RODRIGO MELO – Não sei bem se foi uma aposta. Parece clichê, mas acho, na verdade, que não tive escolha, porque não recordava o bastante daquele jogo. Ao buscar alguma lembrança, o que vinha era a infância e, consequentemente, a casa de minha avó. Aqueles três gols de Paolo Rossi feriram o Brasil, mas, antes disso, a minha família, porque era essa a minha referência – e foi assim:   minha tristeza não existindo por conta do jogo, mas pela dor que os outros sentiam. Lembro que, por uma semana ou mais, depois que tudo acabou, todos, voluntariamente, abdicaram da felicidade. Para um moleque de onze anos, vivenciar aquilo era como ficar um tanto mais maduro antes da hora. Calculo, então, que ligar aquela copa de 82 à minha família foi, de todo modo, inevitável.

DA – A maneira como você articula o mote da culpa por entre os personagens é algo que chama atenção. Nós, míopes mortais, estamos acostumados a esse jogo de transferências quando buscamos respostas para as coisas. Seriam as armadilhas dum incorrigível espírito humano?

RODRIGO MELO – Imagino que somos todos uns sofistas, afinal. Porque, como você mesmo cita, a alma tem as suas armadilhas. Já devem ter dito que entendê-la assemelha-se a desvendar um labirinto, e é o que também me parece. Esse labirinto tende a crescer ou diminuir. Calculo que tudo vai de acordo com o dia, a fase, ou, quem sabe, a evolução. O mais provável, e comum, é que cresça, e, embora pareça antagônico, enxergo um encanto nisso. Encanto e esperança. Mesmo falível e sem saber verdadeiramente qual o combustível que o move a sair e fazer as coisas, mesmo sem entender muito bem o que é e qual a finalidade de existir, vivendo numa espécie de superfície, ou miopia, evitando qualquer mergulho que o molhe um pouco mais, o ser humano segue contínua e insistentemente em busca da redenção. Chega a ser bonito: a eterna luta para alcançar a luz, luz essa que nem sempre é divina.

Por conta disso, creio que somos todos corrigíveis, embora também acredite que a humanidade ainda recenda a uma multidão correndo em direção à saída de emergência, ou a um bêbado, no escuro, tateando pelo interruptor.

DA – Depois de algum tempo de lida com as palavras,  você lançou seu primeiro livro, “O sangue que corre nas veias”. A obra veio no momento certo?

RODRIGO MELO – Tenho certeza que sim. Quando Gustavo Felicíssimo (poeta e editor da Mondrongo) me convidou a lançar, me senti honrado, quiçá vaidoso, ao mesmo tempo em que surgiu a dúvida. O material que tinha eram os contos antigos, escritos, quase todos, há mais de dez anos, e eles necessitavam de bastante atenção. Além disso, eu vinha de um longo período sem contato com a literatura – não escrevia, sequer lia algo. De alguma forma, abaixara a guarda, ou, como se diz, colocara a sujeira debaixo do tapete, e estacionara.  A possibilidade de ser editado trouxe de volta a vontade de pegar o mundo todo num ouvido só. Passei dois meses revisando e, se pudesse voltar no tempo, passaria mais dois. No entanto, o resultado me agrada, me satisfez. Acho que “O sangue que corre nas veias” dá seu recado.

DA – As paisagens que você visita no livro refletem um universo onde os personagens, com certa frequência, vivenciam situações de limite extremo. Entre hesitações e impulsos, desfechos se operam arrematando com um golpe certeiro os destinos entrelaçados. O que dizer de tais escolhas?

RODRIGO MELO – Situações limite, e creio nisso cada vez mais, não precisam necessariamente estar envolvidas em violência ou trauma. Elas podem ser a expectativa de que algo aconteça ou a frustração daquilo não ter acontecido: um tiro que será disparado, um beijo que ficou pra depois. Acho que foi o Raymond Chandler quem disse que quando uma história vai mal, o certo é matar alguém. Eu, embora goste dele, protelo mortes. Busco, hoje, no cotidiano, nos acontecimentos ditos banais, comuns, que pra mim têm força, beleza e significância, o mote para escrever. E não há nada mais doido e grandioso que existir – os sonhos, os medos, a vida de cada um. Acho que tento pegar esses pequenos pedaços, eles sempre em andamento, posto que nada para.

DA – E é interessante perceber que a linguagem através da qual você engendra suas histórias, dotada de clareza e simplicidade, sustenta com propriedade as narrativas. A que você atribui essa sua aproximação com o coloquial?

RODRIGO MELO – Muito provável que pelo desejo de ser entendido. Admiro a técnica, ao mesmo tempo em que alimento um distanciamento do virtuosismo. Penso que pode ser uma armadilha. Talvez pense assim por comodismo, não sei bem. A questão é que, embora valorize a forma de dizer as coisas, acredito que vale mais o que se diz. E é essa a busca: ser, dentro do possível, simples, sem ser simplório. Claro que é difícil e, quase sempre, o tiro acerta o pé. A tentativa, no entanto, já conta.

DA – Dois aspectos presentes em seus contos e que merecem destaque são a fluidez e um ágil ritmo narrativos, traços bem típicos do cinema. Some-se a isso, também, o viés imagético. Diria que sua literatura mergulha conscientemente nas influências da sétima arte?

RODRIGO MELO – Gosto dos cortes, da velocidade que os filmes têm, e penso que aplico, ou tento aplicar, muito desse “dinamismo” no que escrevo. Aliás, bem antes de Rubem Braga, Carlo Mossy já era um herói. Ele e tantos outros. Crescemos vendo tv. Lembro de “Agarre-me se Puderes”, um dos filmes que marcaram, e todas as vezes eu ficava com aquela espécie de encantamento, satisfação. A mesma coisa com os filmes dos Trapalhões. Depois vieram os outros. Hoje, e não digo por desdém, mas porque, imagino, a forma de contar as histórias se ampliou, ou quem sabe por já saber o final, não assistiria novamente “Agarre-me se Puderes”, nem mesmo pelas perseguições. O mundo mudou e eu, provavelmente, também. De qualquer maneira, o filme cumpriu o seu papel. Assim como “As Minas do Rei Salomão”. Porque somos todos uma esponja, carregando algo de tudo o que experimentamos, cada vivência nos transformando, a operação de uma tia ou o último lançamento dos Coen,  juntos e misturados num recipiente só.

Acho, então, que tanto a tentativa de fluidez quanto essa questão da imagem, em grande parte, vêm, sim, dos filmes que assisti. Mas acontece também, por outro lado, que há certas pessoas, e elas podem escrever, filmar, pintar, cantar, tirar fotos ou fazer malabares, tanto faz, essas pessoas às vezes mandam muito bem, e isso te força a pensar que também dá pra conseguir. A mais forte influência, acredito, é sempre essa. 

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

DA – Em matéria veiculada recentemente pelo site Estadão, apontou-se um outro panorama no que se refere à aparição dos novos escritores. Muitos deles estão preferindo submeter seus primeiros escritos na via dos concursos literários, almejando prêmios e, com isso, suporte para publicação, em lugar de buscarem diretamente editoras. O que pensa a respeito disso?

RODRIGO MELO – Os prêmios dão visibilidade, e, com a verba, imagino que uma tranquilidade maior. Escrever é por vezes recompensante, mas quase nunca pelo lado financeiro. Isso raramente acontece. O sujeito tem que ser professor, fiscal de trânsito, corretor ou leão de chácara antes de ser escritor. Escrever soa até como uma contravenção. Pode-se também conseguir um mecenas, mas parece que os mecenas, historicamente, sempre se amarraram mais aos pintores e escultores. Penso então em alguns caras que lançaram excelentes livros, e, afora algum evento, só fazem sucesso com uma pequena turma, e a grana que juntam, quando conseguem, não vem desses livros. Porque ao sentar-se no sofá e ligar a tv, ou o som, depois de uma hora e meia, no máximo duas, a pessoa se levanta com, pode-se dizer assim, a missão cumprida. Com um livro, entretanto, ela terá muito mais trabalho pela frente. Isso causa, em muita gente, uma aversão à leitura. E há outros fatores que fazem com que os livros fiquem nas estantes (de casa ou das livrarias). Se existe, então, esse tipo de subsídio, que, a meu ver, vem por merecimento, deve ser levado em conta.

Por meu lado, só participei de um concurso. Foi em Recife, anos atrás, e eu estava em lua de mel. Escrevi um conto num bangalô de frente pro mar. O bangalô era uma porcaria, o conto também, mas eu não sabia – estava envolvido pelo clima do mar, do por do sol e da lua de mel. Acabei não me classificando.

DA – A necessidade de reconhecimento é a maior inimiga de um escritor?

RODRIGO MELO – Penso que a pressa é a maior inimiga do escritor. A busca pelo reconhecimento me parece algo natural, humano, e independe da área em que se atue. Quem não quer vencer, afinal? Mas o talento se faz na prática. De alguma forma, todos precisamos de maturação.

 

DA – Para alguns, a única faceta do conto é a de se contar uma história. Pensar dessa forma não implicaria numa limitação dos desdobramentos possíveis de um texto, sobretudo na sua perspectiva de transcendência?

RODRIGO MELO – Não acredito que o gênero defina a qualidade ou importância da escrita. Ou, como diz, a transcendência. Talvez se imagine que, pelo tamanho reduzido que tem, um conto seria mais fácil de se construir. Por esse prisma, os poemas também seriam. E não são. Tampouco mais profundos ou necessários. Tudo vai de quem escreve. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, excelentes prosadores, encontraram-se no conto, e não os vejo simplesmente contando histórias. Há sempre algo entranhado ali. Portanto, não acho que o tamanho ou o gênero do que se escreve tem a ver com sua força ou precisão.

DA – Vivemos num tempo em que muita gente se atira à criação literária. No entanto, parecem ser poucos os que ainda o fazem com propriedade. Separando o joio do trigo, não precisaríamos mais de leitores do que escritores?

RODRIGO MELO – Tudo indica que a diferença entre o joio e o trigo esteja na relação com a leitura. Parafraseando meu camarada Heitor Brasileiro Filho, “Melhor ser um bom leitor a um mau escritor”. Antes de esvaziar o tanque, é preciso ter algo dentro. Imagino agora um sujeito: ele tem uma história original, uma história que fala sobre as coisas que ele viveu e sentiu – ele está nas ruas, ele conhece a vida, ele sabe o que dizer -, vai na internet, faz um blogue e a coloca, ou então a publica em um livro. Anos depois, descobre que tanto Voltaire quanto Patativa do Assaré já tinham falado sobre aquilo, de uma forma mais sincera, melhor.   Claro que não dá pra ler tudo, tampouco considero obrigatório o eruditismo. Todavia, sobretudo para quem escreve, a leitura é necessária. Ela te situa. E é com ela, imagino, que se enche o tanque.

DA – O que impele Rodrigo Melo a continuar escrevendo?

RODRIGO MELO – A vontade de criar boas histórias. E conseguir tirar alguém do seu ramerrão diário, cheio de desassossegos ou garantias, com qualquer coisa que escrevi.

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo Chioda


Foto: Milena Palladino

 

 

O AUGÚRIO ÁUREO

 

do Tríptico a Sergei Parajanov

 

I

 

apostas sobre
o seio coral

o poeta é lenda
ícone
confessa que é
tua assombração

a suspender
o cobre, os jarros
sobre a tapeçaria | de arranjos

o fogo e os cristais
legendam
o véu – ler o véu, rente
aos olhos alados. Atentamente.

a divindade
emaranhada no fio
das tuas vestes
o cálice
dos livros a terra
o elmo

a papoula do umbráculo
o criptogâmico
a prudência serpentina do espório
feito um gato
próximo às velas

o seio coral
pavão sobre os globos
tua longa barba
suspende o palácio
o reinado é febre. gorjeio

ópera | fluido

sepulta as romãs
nas cinzas

o poema
é um manto

coração
de gládios atravessando
o gárrulo.

 

 

***

 

 

TÚMULO DO POETA

 

há de se ler as pedras.
os dedos na relva, sentindo o mármore — as capas
dos livros. sentir o assombro aberto em tempo.
a circunferência da memória – a árvore está, pois,
sempre na semente. ainda o ninho cujo segredo, minha dívida,
é escutar a flor.

há de se ler as imagens
às pontas. nariz rente ao epitáfio,
quase chuva
escrita a lápide
na contingência das rosas
arredor adubo.

.
não se tem esperança
não se tem medo de nada
é livre
.

a erva do sonho
nos romances repletos de cálices. os cantos.
as magias.

há uma alça de rumor
clamando arranjo às medalhas – sete palmos
alfabetizando as raias do olhar. a voz
se ocupa de artemísias, nos dentes.
as terras. a condição das peles. égide sem expectativas
na superfície o sol. ofício cretense
de mudas.

 

 

***

 

 

POÉTICA DO DESTINO

 

o destino não tem rosto
só um cristal negro de sete pontas perpétuas

sob um casaco tom de sangue
coagulado. rosas antigas nas patas

o destino tem a boca de florilégio  — um mosaico.
La Alhambra em technicolor. e não fala. sibila
feito oráculo. advento de
vagar suspenso na retina.

[o destino
é uma menina

ou

um monstro
ao dobrar a esquina]

destino caminha feito tigre
couraça de cerâmica. carne cobalto.

seduz os velhos e aflitos com suas pernas de agilidade
penas de transitório. é certo. como o percurso da pele,

o destino deveria ter cheiro, mas é poesia.
fragrância de ventre em polpa.

nenhum de nós,
o destino. veste-se no plasma da ardósia

segue senhor dos rastros de futuro.
o todo em jogo: camufla-se em colagens

……………queima de perfume
……………as peças florais.

 

 

***

 

 

O SEXO DE HERBERTO HELDER

 

Dar de beber às rosas. Café perto do sol.
O livro incandesce. A presença de espírito nos felicita.
Há o vento vário quando silêncio é rei.

Perscruta as sementes com o olhar. Os santos sorguem a paisagem na crista. São as imaginações.

Mas o mundo são as patentes. Há de quebrar as patentes
E meter ao fundo dos castelos, entre as vontades.
E ainda assim
Dar de beber às rosas. Fac-símile, a condição de foda e perda a nos continuar. Lavam as soleiras e continua-se.

Na sombra me dispo. E na sombra o que me venta
É o que me define. Taras entre tantas folhagens.

As horas são nossas.
As horas são nossas.
As horas são nossas.

As heras nos transpassam.

 

 

(Leonardo Chioda nasceu em Jaboticabal. É autor do livro ‘Tempestardes’, premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura e integrante da Coleção Patuscada (São Paulo: Editora Patuá, 2013). Escritor e leitor de imagens, é graduado em Letras pela UNESP. Mantém o blog de poemas Víscera da Musa e Café Tarot, de ensaios iconográficos)

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

José Geraldo Neres

 

Foto: Milena Palladino

 

 

AS PEDRAS SÃO RAMOS DE ÁGUA

 

Mergulho na sombra úmida. O rosto da vida que busca por onde começar. Sua distância ― uma tempestade que nos visita ―, seu olhar não se apresenta em forma d’água. Mergulho o rosto. A vida abre os dentes.

Os retratos tomam as cores de nossa memória. Reconhecem as feridas. Nos negam a origem. O silêncio é a porta da qual não temos a chave. A parede por cair. A olhar o tempo. Não encontro o seu rosto entre suas raízes. Sombras saltam comigo.

O relógio está quebrado, mesmo assim, o tempo joga suas cartas. Existe um fio quebrado no labirinto ― ele não se preocupa com as armadilhas ―, nos seus dentes um aviso.

A parede por cair nos estende as mãos. Ela não acredita na ressurreição. Na poesia os fantasmas se reconhecem, e a morte se pesa à parte. Avessa às festas, não se recorda da mãe ou do pai. Não consegue unir essas duas margens. Não se banha na mesma água. Corre no seu sangue uma música desconhecida. As mãos limpam a poeira dos ossos, desenham caminhos, e penetram a pele dos nomes.

Um menino de riso fácil junta gravetos para construir um esconderijo. Não me aproximo das paredes de olhos líquidos nem das igrejas. Deixo o corpo sepultado no seu colo. O silêncio guardado no espelho. Dentro do silêncio, espero o dia nascer, e sempre permanece escuro. Poucas palavras revelam meu nascimento.

Entre a parede e o espelho, observo suas unhas varrerem uma tempestade para detrás da porta. O menino pergunta: quem vazou seus olhos? Respondo: o voo dos cordeiros não termina em mim, e os fantasmas fazem fila atrás do seu sorriso. Afaste-me desta parede!

Como levantar essa parede sobre mim? Quero um pouco de veneno para novamente sonhar. Se precisa de uma igreja, engana-se: é lá que se despede a vida. No meu corpo carrego as preces antigas, as escamas dos pecadores.

A igreja entrevista os novos candidatos a santos. Um corte profundo nas veias ― observo a cena ―, não existe trapézio nos aquários. Os santos se imaginam peixes voadores. À minha volta mulheres cortam seus sexos com asas de arame farpado. Recolhem milagres.

A infância: pássaro embalsamado. O choro de mãe se faz terço invertido. Estamos perdidos, retiraram as estrelas de nossas pupilas. Os meninos não caminham na chuva.


 

 ***

 

A CABEÇA DA SERPENTE

Saí de casa mais cedo. A lua começa a cantar e cai dentro de um copo. Vermelho. A cor me faz ficar parado. A rua não tem nome. Orientaram-me não ficar parado, mas o corpo não responde ― tem o ritmo de uma fotografia ― Devagar. Dizem: o passado é um colecionador de luzes. Ninguém me espera.

Vermelho. Sinto a noite afundar no silêncio do semáforo. Olho pelo vidro. Uma sombra vem em minha direção, tento decifrá-la O passado é Outro a caminhar ao meu lado, se instala nas paredes do meu corpo. A parede não tem janelas. Uma tempestade com flores entre os dentes. Não sei das pétalas nem da boca que as carrega. Deve ser minha infância, ou apenas o medo: o ninho de punhos fechados.

Espere.

Ainda vermelho. Deve ser algum defeito mecânico. ― Estou aqui. Devagar. Olhe para mim. Não durma. ― Não consigo decifrar sombras.

Um menino bate na janela. Quer me mostrar ou vender algo. Faz pequenos movimentos com as mãos. Sorri.

― Construí um deus, quer ver? Fiz em sete dias.

Está tudo vermelho. Agora já aparece um verde, um amarelo. Preciso de descanso.

― Quer um pedaço da minha sombra? É para manter a pele dele aquecida. Isso, um pouco de vermelho, um pouco de barro.

― Não tem mais?

― Esqueci de terminar os olhos.

Ninguém me espera.

(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). O livro de contos “Olhos de Barro” (Editora Patuá, 2012) é sua mais recente obra. Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Antes da Meia-Noite (Before Midnigth). EUA. 2013.

 

“Ninguém é nada mais que si mesmo”.

 

Um sábio amigo costuma dizer que o amor deveria vir com prazo de validade. É como se algumas relações estivessem fadadas a existir por apenas uma noite ou determinado período de tempo e qualquer tentativa de prolongá-las só trouxesse estragos e dor. Até porque – como é pontuado em determinado momento de Antes da Meia-Noite – estamos todos de passagem e talvez seja pretensioso almejar um amor eterno. Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são uma espécie de Romeu e Julieta (de carne e osso) de nossa geração. Conheceram-se em um trem, em Viena, em Antes do Amanhecer (1995), reencontraram-se quase uma década depois, em Paris, em Antes do Pôr-do-Sol (2004) e desde então estamos na expectativa em saber se Jesse perdeu ou não seu avião.

A tomada inicial – que funciona como uma espécie de elo com o filme anterior – traz Jesse no aeroporto despedindo-se do filho Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), fruto de seu primeiro casamento, depois de passar o “melhor verão de sua vida” com o pai, a madrasta Celine e as irmãs gêmeas, no Peloponeso. Não por acaso, a locação europeia da vez sugere a ambiguidade das ensolaradas ruínas gregas; e o título do filme, o lado sombrio que está por se anunciar. O americano e a francesa estão na casa dos 40 anos e vivem em Paris com as filhas Ella e Nina (Jennifer e Charlotte Prior). Por conta da distância de Hank e do mau relacionamento com a ex-mulher, que moram em Chicago, Jesse sente-se um pai ausente. Celine assume o papel triplo de toda mulher moderna (e como tal, ressente-se por isso). Está travado o embate de mais um casal que precisa lidar com o amor, o cotidiano e o fatídico passar dos anos. Um amor que resistiu à ausência durante tanto tempo pode sobreviver à convivência e burlar qualquer prazo expirado?

 

 

Jesse e Celine em cena de Antes da Meia-Noite / Foto: Divulgação

Antes da Meia-Noite mantém o formato clássico, com diálogos longos e inteligentes e planos-sequência, marca registrada da série. Porém, inova (e acerta) ao introduzir outros personagens que se relacionam com os protagonistas, representados pelos casais de amigos do anfitrião – o renomado escritor Patrick (Walter Lassally), onde discutem o amor e todas suas vertentes, incluindo o afeto em tempos de Skype e Facebook, tecnologia ignorada (e inexistente) pelo par em seu primeiro encontro. Justamente pela maturidade de agora, o longa dispensa a pureza dos filmes anteriores. É nítido que há amor, cumplicidade e química entre o casal, mas algo se modificou. Jesse continua o mesmo escritor romântico que transformou sua noite de amor em livro e o fez reencontrar sua amada no segundo filme (reencontro que também virou literatura). Celine, porém, perdeu seu idealismo juvenil e é a primeira a perceber que eles não apontam mais para a mesma direção. Tal condição faz de Antes da Meia-Noite um filme pós-conto de fadas, franco e um tanto quanto amargo: algo próximo de um casamento de verdade. A sequência no quarto de hotel, onde Jesse e Celine travam uma honesta DR é de fazer inveja ao casal formado por Michelle Williams e Ryan Gosling, em Blue Valentine (2010).

Ainda que encarada como uma trilogia, e com mais um final em suspenso, a ideia inicial do diretor Richard Linklater e de seus co-roteiristas Ethan Hawke e Julie Delpy, é acompanhar a dupla até a velhice, com um reencontro há cada 9 anos. Antes da Meia-Noite até funciona de forma independente, porém não há sentido assisti-lo de forma isolada. Os dois filmes anteriores aumentam gradativamente nossa intimidade com os protagonistas e sutis detalhes podem se perder, como o tal avermelhado que Celine dizia observar na barba de Jesse sob o sol, o mesmo tom que vê no cabelo das gêmeas. Será que 2022 nos reserva mais algum momento do dia?

 

 

 

 

(Larissa Mendes ainda é uma coadjuvante à procura de seu “antes”)

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carina Carvalho

 

Foto: Milena Palladino

 

maritacas

 

desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.

às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.

este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.

 

 

***

 

 

eu lírico

 

concluí, olhos apertados:
dói é nos canais suspensos

o cão da casa (por exemplo)
junta as patas na cabeça
e geme
os quatorze anos que lhe entram pelo ouvido

um pacto dormente meu arquejar
porque, durante o sono,
o corpo não tem certezas. pudera:
horas de bruços e do peito, lembrei,
fiz corredeira

tais as olheiras

diabo de choro, sim, rosto disforme até
a reconhecer-se de minuto
só no que é profundo

no mais, depois dos olhos abertos
tanto quanto podiam num dégradé
de poros escurecidos,
lamenta-se

.o preço dos tomates-cereja
.a pintura da casa (uma cor tão feia! cor de gaitista sonolento em garoa
fria. calcule quão antiquada é essa imagem)
.as plantas que secam
.a carne tão fraca, os restos do pouco

e a minha falta de etiqueta:
oh, desculpe o não comparecimento!
nestes copos há menos que um dedo de coragem
e a má postura faz que me doam as costas
por dias inteiros

cotovelos na mesa, mirei o sol com lupa;
meus olhos sumiram
numa ardência de verbo lenta
e assim articulamos ambos:

de.ti um poema do dia
de mim
a ti

 

 

***

 

 

que permeia um casulo

 

a casa é que estala
tardes longas de azul pálido
na mudez do corpo

estendidas – as tardes –
num varal que zumbe, por exemplo,
o som vago da carne,
desse pouco

que é o corpo.
que é o corpo?

.

outro dia uma movimentação tão fluida escorria
(não estalava nem estendia),
escorria uma movimentação tão fluida outro dia,
que, meu amor, o sentido de tanta moradia não escapou
por pouco

 

 

***

 

 

o poro a pele

 

antigo afeto que lhe ofereça
toques moles,
comedimento nas conversas,
um afago cru

.

mas não,
jamais quis morar em peito tão vago e sem janelas abertas

fazer barulho raspando o fundo
levar do doce o que lhe é mais íntimo;
degustá-lo nu

(Carina Carvalho é paulistana. Estudou Letras e trabalha na área editorial. Seus textos estão em algumas revistas digitais de literatura e na 3ª edição impressa da Revista Celuzlose. Tem se arriscado em balé e fotografia, mas com pouca convicção; já a literatura a atrai tanto quanto a luz das cozinhas pela manhã. Acaba de publicar seu primeiro rebento, Marambaia, pela Editora Patuá)

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Galeria

Foto: Milena Palladino

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