Não há dúvida de que os caminhos da liberdade são os mais caros que possuímos. Diante de possibilidades infindas, dar um norte às escolhas pode representar uma posterior celebração de acertos. Com o tempo, vamos aprendendo que não há respostas para tudo o que supomos essencial em nossa trajetória pela vida. E a arte, de um modo geral, vem nos lembrar isso, tendo em vista que seus personagens frequentemente vestem o manto do insondável. Se o fluxo constante de indagações faz par com a existência, bem sabemos que dessa estreita relação surgem cada vez menos certezas. Assim, rumamos ao desconhecido, vivenciando um status de deriva que escamoteia alguns vestígios, principalmente se a busca encerra alguma tentativa de retornarmos ao ponto de partida. No conjunto editorial que intenta harmonizar imagens e palavras, recepcionamos vozes de diferentes mundos, todas elas a ecoarem seu canto de vida. A julgar pela proposta contida nos trabalhos da artista plástica Denise Scaramai, temos a sensação de que as virtudes advindas da liberdade conduzem melhor nossos sentidos e percepções. Tomados por essa atmosfera de cenários ricos em singularidade, testemunhamos os versos de autores como Diego Callazans, Mariana Ianelli, Wilson Nanini, Natacha Santiago e L. Rafael Nolli. Partilhando de um ritual de mistérios e revelações, o poeta Edson Bueno de Camargo é o entrevistado da vez, conversa que, além de abordar aspectos relevantes de sua obra, nos mostra um autor devidamente engajado com as questões afeitas ao pantanoso terreno da literatura. O escritor Sérgio Tavares mostra sua leitura para o coletivo de contos “82 – Uma Copa l Quinze Histórias”. Larissa Mendes comenta o mais novo filme da diretora Sofia Coppola. No trajeto que redimensiona cenários de vida, nos deparamos com os contos de Mayrant Gallo, Airton Uchoa Neto e José Pedro Carvalho. Na segunda e última parte de seu percurso pela história do Teatro, Fernando Marques arremata suas considerações sobre o livro de Margot Berthold. Também por aqui, toda a leveza presente no segundo disco solo do guitarrista Rodrigo Bezerra. Com a sede por novas vias, uma 83ª Leva nasce primando pelo sentimento de que continuar é algo imperativo.
apenas a metafísica
de nossos mitos
explica-nos
– enquanto o boi ergue a cauda
e produz matéria
II
solene,
com mãos transfiguradas,
afago na
(dele) face minha hoje
escassa identidade
III
no meio-dia sem álibi
na meia-noite sem alento
o boi (peso, pelo e poesia
isenta) se indifere pois
intui que plenitude é
– rente ao prazer manufaturado –
deitar-se entre flores
na relva úmida
e lamber apenas
as próprias narinas
***
redemunho
para líria porto
circum-arisco vento célere
– que fico o sigilo do chão de um rio –
em plena empoeirada rua
o sol me cega me sega o sol o sol me seca
o tato e sinto a sede tanta
de um mar interno
e para que meu cerne se reensolare
– poesia não duela afagos
(meço apaziguamentos
peso ausências) –
você me traz alumbrado mar
me relenta me
cataventa
me estende versos em lamparina
adivinhando enfim onde é
mais noite em mim
***
anestésico
canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva
“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta
beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis
enquanto isso
você me
nina
você me
conta
de fadas
***
dócil
penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança
seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)
ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem
penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo
***
cor de rosa
te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho
doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)
busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos
: a vida de
volvida do
fóssil
(Wilson Torres Nanini, autor do livro Alcateia(Editora Patuá, 2013), nasceu em 1980, em Poços de Caldas/MG, e vive em Botelhos, Sul de Minas. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajeúBR. Edita o blog Quebrantos, Relances e Abismos ao Relento)
Bling Ring – A Gangue de Hollywood (The Bling Ring). EUA. 2013.
Sofia Coppola, mais do que ninguém, gosta de imergir no universo superficial do ser humano, principalmente quando ele vem regado de dinheiro, status e glamour: algo que ela conhece bem e ignora ainda melhor. Guardadas as devidas proporções, a temática foi abordada no drama existencial das irmãs de As Virgens Suicidas (1999), na solidão do ator decadente em solo oriental, em Encontros e Desencontros (2003), no falso poder da princesa Maria Antonieta (2006) e, mais recentemente, na vida fútil do astro às voltas com a filha adolescente em Um Lugar Qualquer (2010). Em seu quinto longa, Bling Ring – A Gangue de Hollywood, a cineasta acompanha a história verídica de um grupo de abastados jovens de Los Angeles que invadiam e roubavam mansões de celebridades (de quem eles admiravam e invejavam o “lifestyle”), enquanto elas estavam viajando ou participando de eventos não menos badalados, e exibiam seus feitos e furtos em festas e fotos compartilhadas com amigos.
A líder da gangue, Rebecca (Katie Chang) e seu melhor amigo Marc (Israel Broussard) localizavam as casas de suas vítimas por meio do Google Street View e seguiam suas agendas pelo canal de fofocas TMZ. Nicki (vivida pela inglesa Emma Watson, mesmo não sendo protagonista, a grande estrela e chamariz do filme), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julian) também integravam o grupo, que entre 2008 e 2009 roubou cerca de 3 milhões de dólares em dinheiro, roupas, sapatos, joias, bolsas e demais artigos de luxo, de afortunados como Paris Hilton, Lindsay Lohan, Orlando Bloom e Megan Fox. A propósito, a socialite Paris Hilton faz uma ponta no longa e empresta sua residência-vítima como locação. Outro que tem sua presença subestimada na trama (e passou praticamente anônimo à crítica) é o vocalista do Bush (e marido de Gwen Stefani), Gavin Rossdale, no papel de Ricky.
Bling Ring começa de forma intensa ao som de Crown on the Ground, do Sleigh Bells (aliás, a trilha sonora continua sendo o ponto forte de Sofia, que traz ainda Azealia Banks, Kanye West, Rihanna, MIA e o melhor do gangsta rap) com cenas de câmeras de segurança que registram a movimentação dos jovens numa das mansões para, então, contar o que se passou no ano anterior. O filme mescla os fatos ocorridos com recortes de declarações da quadrilha em estilo de documentário, postagens em redes sociais e cenas do julgamento.
Parte da “gangue” em cena de “The Bling Ring” / Foto: Divulgação
Baseado na reportagem ‘Os suspeitos usavam Louboutins’, publicada em 2010 na revista Vanity Fair pela jornalista Nancy Jo Sales, que entrevistou todos os envolvidos no denominado ‘Caso de Calabasas’ (em alusão à cidade californiana que fica nos arredores de Los Angeles), Bling Ring foi transformado também em livro e lançado no Brasil pela Editora Intrínseca. Numa tradução livre, bling ring significa “anel de brilhantes” ou “liga da ostentação”. A obra aborda a obsessão pelos holofotes, a alienação da juventude através de álcool e drogas, o fascínio pelo gangsta rap (nosso correspondente ao funk ostentação?), a fragilidade da segurança patrimonial e o culto à exposição. Ainda que pouco denso, mais uma vez Sofia Coppola faz um filme de estética pop, leve e reflexivo. De modo sensível e peculiar, a cineasta assina roteiro, direção e produção do filme. E como de costume, de forma ponderada, porém jocosa, imprime sua crítica sobre a fama e a ostentação. O fato de não se aprofundar nos dramas familiares dos personagens, o que possivelmente enriqueceria o enredo, que, vez ou outra, torna-se previsível por repetir inúmeras sequências de ‘invasão-roubo-fuga’, foi pontualmente uma opção sua em primar pelos rasos e banais sentimentos contemporâneos, dos quais também somos cúmplices, réus e reféns.
Bem-vindos, mais uma vez, ao mundo de Sofia.
(Larissa Mendes é cinéfila e consumidora voraz da grife Coppola)
El dulce dolor de tu mordida
– cepo en mi nuca –
compele a la reflexión de los motivos
Estocadas recibí en el combate
que me enlazan a tu designio
y hacen brotar manantiales de mi sexo
Repliego posiciones
asumo riesgos necesarios
accedo al parlamento de tu boca aún sin palabras
cruce de labios o lenguas
Intercambio de fluidos …reclama sin condiciones
esta víctima feliz
de tus excesos.
***
Oda a tus manos
Tus manos son braza de contraste heráldico
que preludian el lúbrico camino
arrebato sensorial sin límite en la puesta
traspasando barreras de tiempo y circunstancia.
En fruta jugosa convierten la alusión …..con su virtual beso al tacto simultáneo …..en el feroz centro requerido
Tus manos acarician el crepúsculo
sus huellas perduran al albear
y están aquí en las mías en la fertilidad del ocio
que las suplantan en segundos de ardor ………………………………..cuando tu figuración …………………………………mantenida al borde ………………………………………irradia …………………………..y colapsa el Universo.
***
Una tarde una vida
No asombres ni dudes si ingenua confieso
vivencias fabulosas
espíritu y materia del hombre necesario
persistentes repercuten …………..sin él saberlo
como eco en lo insondable.
***
Natural demente esplendidez
Por la Magia marina
Por no enfermar enfermo
sufro la locura de la no consumación
como si no existieran la hostia y el cádiz
aquí me aculpo auto-flagelo
me fustigo ..(Fetichista acaricio el papel que tuviste entre tus manos)
¿Con que herramientas desentrañar los absurdos del oráculo?
Resulta incomprensible tu signo de soledad
pende sobre mi cabeza y la colma bajo formas literales
de lo que debiera ser acción ……………………..(te estoy sintiendo dentro)
Por tu influencia magnética
percibí la necesidad de protección
ante el sello del contagio espiritual
después fui cediendo sin decirlo …………………….(te estoy sintiendo dentro)
la inercia conduce hacia tu magia
te debo múltiples caricias
múltiples atrevimientos y hermetismos
la gravitación universal me lleva a ti
inevitable me derramo
por la sobrenatural convergencia que adivino
(Nascida em Havana (Cuba), Natacha Santiago é poeta, escritora e professora universitária. Atua também como roteirista de tv e rádio, e produtora cultural. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais com sua poesia, além de integrar publicações em países como Argentina, México, Áustria, Espanha, Peru, entre outros. Vários livros seus ainda permanecem inéditos)
Ele tinha quase dois metros e menos de setenta quilos; longos e antigos dreadloacks em amarelo sujo caíam sobre o seu rosto e escondiam os olhos vazios de cegueira; seu aspecto era mais propriamente desgastado do que envelhecido. Uma forma mumificada de juventude. Ele tocava um grande berimbau grave comprado décadas atrás num litoral ainda mais isolado e inóspito. Talvez tenha comprado quando ainda achava que seria apenas um turista. O chapéu desbeiçado de náilon aos seus pés esperava moedas. Um hippie holandês radicado por aqui que ignorou a passagem do tempo e ganha a vida esmolando de praia em praia, me disseram, e tocando seu berimbau. Um som circular que entrou na minha cabeça e não saiu. Um verme de ouvido que ia me acompanhar até eu conseguir dormir. Essa foi, estranhamente, a primeira imagem que me ficou de Camocim.
Aproveitar o feriado prolongado. Aproveitar o tempo. De tanto os amigos insistirem eu aceitei, sabendo que ia acabar chateado. O desfile dos biquínis coloridos das suas namoradas jovens e falantes só ia me deixar triste. As conversas sobre carros novos, TV a cabo, condomínio, pensão, banda larga de internet, campeonato brasileiro e as piadas de escritório e repartição regadas a álcool só iam me chatear. Não por inveja, mas por deslocamento: permaneci professor, morei com os pais enquanto pude, me viro com uma televisão de doze polegadas em preto e branco made in China com seletor de canais a giro. O seletor quebrou faz tempo; tenho que trocar os canais com um alicate. Moro numa pequena quitinete de poucos móveis no Quintino Cunha. Uma pobreza sóbria de antigos espanhóis do Mediterrâneo, como diria o Camus num ensaio. Do ensaio eu só lembro essa frase, mas talvez me lembre bem o bastante pra tentar viver de acordo com ela.
Me disseram que trariam uma moça solteira. Uma indireta. Uma tentativa deles pra que eu não ficasse deslocado. Não nego que pensei nisso como numa possibilidade, mas sem o desespero adolescente que torna coisas tolas em questão de vida ou morte.
Aproveitar o feriado prolongado. Eu já tinha uma folga natural no dia anterior, e aproveitei pra chegar mais cedo. Aproveitar o tempo um pouco só. Aproveitar o tempo sem que o silêncio e a falta de assunto incomodassem os outros. Quando cheguei vi um homem impossível tocando um berimbau impossível. E o som circular ficou na minha mente até eu conseguir dormir.
Se desculparam, na recepção da pousada, pela falta de energia. Souberam, pelo rádio, que o apagão tinha atingido todos os estados do nordeste, como sói acontecer. Não liguei; eu precisava dormir; a viagem de ônibus é longa. Dormi sem sonhos assim que entrei no quarto; eram ainda cinco e pouco da tarde; o som do berimbau se apagou aos poucos e até embalou o começo do sono. Meio memória sonora meio música ao longe. Dormi sem sonhos como uma pedra que afunda até a parte mais escura da água, onde nenhum som aberto podia me alcançar.
Acordei cedo, livre das lembranças do sono, surpreso por não estar em Fortaleza e porque não ia precisar trabalhar. Um turista repentino. Nem sequer vi os funcionários da pousada, ocupados que deviam estar em outros quartos ou na cozinha, preparando o café da manhã que não precisei agradecer e recusar (estava sem fome). Deixei a chave na recepção e fui sentar nos bancos protegidos do coreto, diante da barra e da ilha do outro lado. O sol ameno. Ainda não havia ninguém. Mesmo os nativos devem ter aproveitado a véspera em nome da embriaguês. Eu estava sóbrio e disposto a ler alguma coisa antes que eles, os meus amigos, chegassem, e levava comigo um livro de bolso que me lembrava o passado. Era um livro dedicado. A letra era feminina e a mensagem se direcionava a mim. “Para a criança que ama mapas e gravuras, todo o universo se assemelha ao seu apetite vasto [para Cário, El Misterioso]”. Eu sei, o autor na verdade é Baudelaire e esses versos se encontram dentro do livro, mas ela escolheu os versos – comodamente do começo de um poema –, traduziu por conta própria e dedicou o livro a mim.
Por causa dela comecei a ler livros e a prestar atenção nas canções, a ouvir músicas instrumentais, a gostar especialmente de Thelonious Monk e a ver filmes em preto e branco falados em línguas distantes. E rapidamente ela me considerou um bom amigo e isso durou muitos anos, mas eu sempre quis outra coisa. Ela se casou com um bruto endinheirado, foi o que eu soube pela última vez, quero dizer, também ouvi falar que ela tinha se separado e há boatos de que ela se envolveu depois com um jovem casado que vivia prometendo se divorciar pra ficar com ela e por causa das crianças o divórcio nunca saía. Não sei o que é verdade e o que é mentira. Faz muito tempo que os caminhos se partiram, desde aquele dia em que ela me abraçou e foi embora sem saber que depois eu ia tomar o maior porre da vida e ia acordar na praça da igreja, quase na esquina da Pasteur, sem nada nos bolsos, com a cabeça martelando e o sol do meio-dia cozinhando as pupilas. Traduzo agora por mim mesmo o Baudelaire. Certa manhã partimos, a mente em chamas, o coração pleno de rancor e de desejos amargos. E poderia ter pensando, se fosse possível pensar, nesses versos naquela manhã da qual ela nunca teve e nunca terá notícias. Não, Zâmia nunca soube disso.
Era esse o seu nome; se chamava Zâmia. E achei que nunca mais nos veríamos.
Não pude acreditar quando, aqui em Camocim, nesse banco de coreto, as mãos dela cobriram os meus olhos na manhã de ressaca alheia e ainda sem ninguém e eu reconheci de imediato que eram as mãos dela. Zâmia, os loucos cabelos de cobre e as roupas frouxas floridas e as atitudes impensadas quando eu tinha tanto medo de tudo e pensava demais e a poesia era um divertimento masoquista do meu cérebro. As mãos estão mais ásperas e ossudas. Vinte anos não passam de graça pra ninguém. Mas eu reconheci seus dedos alongados de extraterrestre, como diria um amigo sobre uma moça que lhe pareceu meio egípcia. Era ela, depois de tanto tempo e por acaso. Tive mesmo o pensamento sem sentido de que os companheiros teriam chegado um pouco antes e que Zâmia, que eles teriam conhecido não através de mim, seria justamente a amiga solteira que eles pretendiam me apresentar.
Mas eu me lembrei do passado. Depois de tantos anos eu ia ter mais uma sessão daquela tortura a fogo brando de conviver de perto com o amor inalcançável. Ela imaginava o que eu sentia, mas não sei até que ponto. Agora ela devia imaginar que já tinha passado pra mim, e eu mesmo achei que sim, que tinha passado. O livro era apenas uma boa lembrança e, antes de tudo, uma leitura densa, das que valem a pena. Les fleurs du mal. Ela mesma me deu e me dedicou, mas ali só o que me interessava era o livro. Até que as mãos dela retornaram do passado e me proibiram a releitura dolorosa. E quando eu menos esperava foi a leitura dessas mãos que me trouxe mais dor ainda. Não passou, mas ela deve achar que sim, e eu vou fingir que passou pra que ela não se sinta mal ou constrangida. E eu desejava a tortura a fogo brando. Queria me iludir, ver nos olhos dela que eu me tornava uma possibilidade depois de tanto tempo. Há mais possibilidades quando a gente se preserva menos, e já éramos velhos demais pra nos preservarmos. Tanto pra nos preservarmos quanto pra nos expormos.
Por que eu não desenhava alguma coisa pra ela ver, como antes? Não sei se ainda sei desenhar e estou sem papel. Ela sacou um pequeno bloco de papel em branco e me arranjou um inusitado lápis F mais ou menos apontado. Ela se lembrou do meu gosto por lápis F e como eles são difíceis de encontrar. Mas ela não podia saber que ia me encontrar. Aquilo também era apenas uma coincidência, mas era quase impossível resistir à tentação de achar que tudo era um sinal, a tentação de me iludir mais uma vez.
Desenhei o balanço desgastado e quase quebrado que ficava na praça escondida perto da Theberge, vizinho a um colégio público que homenageia não me lembro quem. O balanço ficava ao lado do banco onde a gente conversava e bebia composto de uva nas noites de sábado. Bebíamos e conversávamos até tarde. Ela não se preocupava com nada e eu voltava pra casa tonto de álcool ruim e com um furacão no peito. Ela achou o balanço muito parecido não com esse do passado, mas com o que estava ao nosso lado. Eu não tinha reparado. Olhei e lá estava ele, tão velho quanto era no nosso tempo, mas numa praça de Camocim. Aquilo não podia ser. Mas era, foi o que ela disse, sem se preocupar, e se despediu de mim com um beijo casto, tão quente e doloroso quanto aqueles do passado.
Apenas isso de tanta coisa. E nada mais além da suspensão de mim mesmo. A história podia continuar na minha mente e desembocar eternamente no nada desse instante inexplicável. Apenas mais uma espera paciente pelo que não vem, como diria o cancioneiro do Montese. Ela se foi. Só queria me cumprimentar; afagar uma parte do passado divertido e seguir adiante; eu não devia valer mesmo mais que isso e ela já não tinha assuntos comigo. E nem adianta que eu mesmo continue falando sozinho. Repisando como quem precisa ouvir constantemente a mesma música. Zâmia cegou meus olhos, queimou meu rosto e partiu. Essa seria minha canção interminável pro infinito.
Ela dobrou a esquina e a vida local ainda não tinha recomeçado. Olhei pro balanço impossível e ele rangia. O vento, ou o fantasma precoce de crianças infelizes, balançava as cadeirinhas vazias.
Tomei um susto quando um dos colegas me ligou perguntando onde eu estava, que já tinha me procurado na pensão e que ninguém tinha me visto sair. Viram apenas as chaves. Estou nos bancos do coreto, ao lado de um balanço velho. O sol está ameno. Ainda não tem ninguém por aqui. Também estou aqui, ele respondeu, mas deve haver um engano: nunca senti um sol que fortalecesse tanto, as pessoas estão aqui sorrindo e vendendo tudo e comentando o apagão de ontem, e não há um balanço ao lado do coreto.
Tirei o telefone do ouvido e levantei os olhos. Na ilha do outro lado eu podia ver uma pequena mancha humana. O vulto de Zâmia com os cabelos de cobre e o vestido florido escorrendo no vento. Se desfazendo eternamente como uma duna móvel. E gradualmente o som do berimbau recomeçou atrás de mim num crescendo e tive que olhar pra trás. O homem não estava lá, apenas o muro com a pichação.
Estou tão sozinho quanto tu.
(Airton Uchoa Neto é natural de Fortaleza. Mestre em literatura comparada pela Universidade Federal do Ceará. Colaborador da extinta revista Aldeota e da mais recente antologia Arraia PajéurBR. Autor do romance Crônica da Província em Chamas (Projeto Premiado pelo III edital de Concurso Público Prêmio de Literatura, Livro e Leitura na Cidade de Fortaleza 2010)
Subindo o primeiro lance da escada com degraus de mármore rajado, é possível divisar a imagem do bebê com um boné de pano sobre a cara larga, um menino bem fornido para os primeiros meses. Esse bebê sou eu. A imagem é um desenho feito a lápis numa folha de papel manteiga, acomodada sob uma lâmina de vidro retangular que se fixa no alto da parede revestida por folhas de lambri pardacento por conta de uma moldura resistente. É ela que recepciona aqueles que avançam para o segundo andar da casa dos meus pais. O autor é o meu padrinho, irmão da minha mãe, que, embora fosse um mero entusiasta, reproduziu com impressionante talento os traços da minha fisionomia, os olhos vagos de criança amamentada.
Durante muitos anos, esse quadro permaneceu no quarto dos meus avós, localizado no primeiro andar da casa. Depois que eles faleceram num espaço de tempo comum daqueles que convivem uma vida inteira e se apressam para se reencontrar, minha mãe o cambiou para o living no segundo andar. Recordo-me, salvo engano, de ter escutado que foi a minha avó quem encomendou o desenho ao meu padrinho. Contudo não me custa acreditar que a muito gosto do meu pai. Na imagem, o bebê está vestindo uma camisa do Botafogo. Por alguns anos, meu pai paparicou a ideia de ter um filho botafoguense, que cresceria compartilhando da mesma paixão que enroupa seu coração de alvinegro. A questão é que meus pais sempre foram pessoas trabalhadoras, de modo que fui criado por meus avós. Meu avô, clandestinamente, convenceu-me tricolor. Sou Fluminense, torço pelo time tantas vezes campeão. O quadro, portanto, passou a ser uma espécie de totem para o meu pai, um símbolo sagrado de um afeto que não se perpetuou.
Eu nasci em 1978, poucos meses antes da Copa em que a seleção Argentina eliminou o Brasil por conta do saldo de gols, naquele jogo suspeito em que Passarella & Cia derrotaram o Peru por 6×0. Obviamente (e fortuitamente) não me ocorre nada daquele mundial. Quatro anos depois, por outro lado, havia uma onda de entusiasmo que eletrizava o ar. Tenho a imagem difusa e um tanto granulada da minha família (como de hábito) em festa. Elepês de samba, cerveja, fogos de artifício e gente fantasiada, eu fantasiado. Mas o que trago de mais caro daquele ano de 1982 está novamente relacionado à habilidade artística do meu padrinho. Lembro-me de um varal de bandeirolas enfeitando a fachada feia da primeira casa em que moramos. Cada retângulo trazia a caricatura de um dos integrantes do escrete canarinho. Falcão, Sócrates, Zico, todos estavam lá retratados de maneira ímpar. Por isso tanto me marcou presenciar, mais tarde, os desenhos sendo rasgados como um tipo de mau agouro. Algo próprio daquela casa insalubre, com piso de tacos soltos e teto conformado por telhas de cerâmica espessas que, anos depois, desabou, por circunstâncias estranhas não matando a todos nós.
Hoje eu tenho 35 anos e essas recordações exumadas do manto transicional da minha memória me revisitaram terminada a leitura da preciosa antologia 82 – Uma Copa/Quinze histórias, editada pela baiana Casarão do Verbo. O volume, organizado por Mayrant Gallo, com assistência de Tom Correia e Lima Trindade, reúne interpretações, confissões e pontos de vista imantados pelo dia cinco de julho de 1982, em que a seleção brasileira de futebol foi eliminada do Mundial na Espanha, por um desacreditado time italiano. Aliás, pelo franzino Paolo Rossi que decretou o placar de 3×2, batendo um time glamorizado, onze jogadores no auge de suas carreiras, um Davi toscano que, com uma funda de couro, derrubou um gigante de chuteiras douradas chamado Brasil. O desencanto, o travo provocado pela derrota, é o eixo que conduz as quinze histórias, embora nem sempre o luto é o verniz que define o tom das narrativas. Conforme um bom escrete, o livro conta com diversas qualidades, soluções para o riso, o choro, o grito retumbante de gol.
Incomum em antologias, aqui há uma relação harmônica entre os contos. Fazendo uso do exercício de reminiscências, do humor ferino, do nonsense, da crônica jornalística ou mesmo tomando emprestado a estrutura da narração esportiva, os autores encontram versões interessantes para o tema, sem forçar contextualizações ou torná-lo um intruso no fluxo narrativo. A Copa e/ou especificamente a partida contra a Itália tampouco figuram como intransmutável elemento central. Do olhar pueril que alguns escritores resgatam da infância a personagens cativantes, ao exemplo do taxista verborrágico e do sujeito que incorpora nacionalidades, o recorte trágico do tempo ora ganha a textura de pano de fundo, ora é apenas sugerido, dando espaço para inspirados enredos que se substanciam, sobretudo, no arranjo familiar e na infiltração do cotidiano pelo extraordinário da circunstância. A lamentar apenas a ausência de escritoras, ainda que entenda (caso seja um argumento plausível) que estávamos bem distantes da Geração Marta naqueles anos.
Se no espaço narrativo a antologia se sai bem, o mérito se estende a dois golaços, digamos, fora das quatro margens. O primeiro é a escalação de Tostão, meio-campo campeão do Mundial de 70 e hoje craque da prosa, que assina a orelha. O outro é a escolha da capa, a histórica imagem do menino com a camisa do Brasil chorando no Estádio de Sarriá, onde ocorreu a fatídica partida. A fotografia de Reginaldo Manente, reproduzida na capa do Jornal da Tarde no dia seguinte, foi laureada com o Prêmio Esso justamente por capturar, no semblante compungido do hoje advogado José Carlos Villela Jr., a fratura do lúdico, do deslumbramento que provocava a seleção ao embarcar do Brasil rumo ao sonho do tetracampeonato. Como aquele menino (e aproximadamente com a idade daquele menino), quatro anos depois, nas quartas de finais da Copa de 86, era eu quem chorava atracado à grade da janela da casa de um tio, segundos depois que, na dramática disputa por pênaltis contra a França, Fernandez venceu o goleiro Carlos, enfiando a bola no canto esquerdo.
Post scriptum: Quinze anos após meu nascimento, meus pais tiveram o segundo filho e, para esse, meu pai não deu brecha e o tornou botafoguense. Hoje, ele tem com quem compartilhar a paixão alvinegra, embora, mesmo torcendo pelo tricolor das Laranjeiras, eu guarde simpatia pelo clube da estrela solitária. Inclusive uma das minhas caras lembranças relacionadas ao futebol vem da conquista do campeonato brasileiro pelo Botafogo, em 1995. Mas essa já é outra história, que fica para uma futura ocasião.
(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)
Uma porta se fecha quase que solenemente atrás da mulher, que se despede do cômodo como quem abandona um passado. Àquela altura, o quarto atrás do seu calcanhar escapara definitivamente de alcance. Do lado de fora, na rua, caía uma chuva, indômita, gris, que frutificava as propriedades sinistras do lusco-fusco. Num rompante, atravessou de uma calçada a outra se desviando dos carros congestionados e caminhou precipitada sob as marquises.
O café, atabalhoado de gente, parecia não se incomodar com a imagem da mulher revirando sua bolsa, arrancando lá de dentro um maço de cigarros amassado e molhado. Trêmula – de frio ou por consequência da decisão tomada há poucos instantes –, com a carranca pálida, manchada de maquiagem, mal sustentava o cigarro. A boca, miúda e fina – um traço, borrada da cor que deveria ser dona, tragava e lançava lufadas mortiças. Pediu e serviu-se de café com uísque. A luz, débil, que pendia sobre sua cabeça, estampava no cenho, mais acentuada, as expressões dolentes.
A noite rompeu imperiosa em sombras e néons. A calçada, molhada e suja, refletindo os faróis, era ferida com o pisar do salto trôpego, escarlate, envernizado. Os pedestres se esbarravam inevitavelmente. A mulher passava alheia a isso, heterogênea à massa. Sua dor não vestia seu corpo e ela cambaleava rua adiante. Seu trote, pasmódico, mole, não escondia – pelo contrário, alarmava a curva desenhada em seu dorso, arquejado, inflexível. Que mulher doente! Pensaria qualquer um se a notassem.
Uma mão se estende e prontamente pára o ônibus. Sobe. Parte saculejante o transporte carregando os conflitos e alegrias dos corpos de seus usuários. Para ela, o ônibus parece se arrastar. A criança, debruçada no banco da frente, exibe um sorriso que não pode ser para mais ninguém senão ela. O ônibus desce vertiginosamente a ladeira. Ela sente um gelo na barriga e chora.
***
Insônia
Havia apenas os sons das coisas não vivas a quebrar o silêncio da noite – a reverberação de um rugido mortífero em toda a casa. O banheiro tinha um vazamento que nunca cessava – tic, tic, tic, tic. O estômago da geladeira ronquejava de uma fome insaciável. O chiado de um rádio dessintonizado estava presentemente no ar, mesmo quando desligado. A TV, que projetava as realidades e as fantasias de toda a gente de todo o mundo, estalava-se – tac, tac, tac. O chão de madeira estalava – tac! O teto berrava como se fosse desabar, embora jamais o fizesse. O microondas apitava, continuadamente, contando as horas.
Um som inusitado sobressaltou-se da permanência eterna daquele rugido e chamou a atenção de Peter Harvey. Não era exatamente um miado, mas um ronronar sardônico. Harvey esbugalhou as insones órbitas de seus olhos ao máximo que pôde e escrutinou toda a grandeza de seu kitnet até que encontrou um gato, com o rabo em riste, a encará-lo. Um gato?, ele se questionou intrigado, ainda que seguro da impossibilidade da presença de tal animal em sua casa. Balançou a cabeça em desaprovação do seu próprio pensamento ou como se tentasse ofuscar a imagem do gato ronronante da sua mente. De fato, a imagem desapareceu, mas ainda rondava naquele apartamentozinho de um só vivente o ronrom do felino.
Bip, bip, bip… o microondas anunciava as horas ecoando uma onda de som eletrônico – passara-se mais uma hora e agora já eram três horas da antemanhã. Peter Harvey reacomodou-se no sofá-cama, endireitou a coluna na tentativa de evitar pensamentos que considerava tolos. Zap, zap, zap! Zapeava, meio que por mania de insone, meio que por angústia. Em cada canal havia algum tipo de referência felina, um som, uma imagem, uma citação. Sensatamente, Harvey chegou à conclusão de que estava cansado e que não mais enganaria o próprio sono. Desenrolou o sofá em cama e deitou-se.
Peter não conseguia dormir.
Indubitavelmente estava intrigado com o gato, mas a razão pela qual não dormia era a peleja diária para adormecer.
Luzes: desligadas. Sons das coisas não vivas: ligados. Ronrom: ainda lá. Peter Harvey: acordado. Peter brigava com o sono como se uma tempestade em formação estivesse em seu rumo, lutou contra seu cobertor até conseguir cobrir-se e proteger-se. Contorceu-se e rolou tanto em agonia na cama que esta rangeu – nhenc! Seus braços se abraçaram ao travesseiro dobrado como se este fosse uma rocha, uma âncora onde ele podia se agarrar. Peter estava acordado. Tic, tic, tic, tic – a torneira pingava ritmadamente. Tac, tac, tac, tac – o chão rangia. O microondas, insistentemente – bip! – anunciava mais uma hora que se passava. Um chilrear a estuprar o silêncio das coisas não vivas e o cômodo a se invadir pelos raios do dia que já se anuncia, e também pelas milhares de formas de sons das mais vibrantes coisas que vivem. Àquela altura, Peter, exaurido, deixou se vencer pelo cansaço e finalmente caiu nos braços de Morfeu. Já era um pouco mais das seis horas e ele tinha pela frente pouco mais de três horas de sono antes de banhar-se, tomar um café, fumar um cigarro e sair para o trabalho. Peter estava petrificado e tinha-se para a cama mais como um cadáver do que como alguém que descansa.
Trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim… tocava o alarme programado para as nove horas e quinze minutos de todos os dias, excetuando-se aos domingos. O alarme tocava – trim, trim, trim, trim – mas Peter não se movia.
O rugido que habita a casa com Peter está agora abafado pelos sons externos da manhã. Confortável, ele acorda, os matizes amarelo-alaranjados do dia atravessam os vidros da janela e se juntam ao aroma de café fresco que toma todo o apartamento. Ele se espreguiça sem abrir os olhos, os braços abertos, amplos em sua envergadura, estão prontos para receber um novo dia. Ele boceja e abre os olhos e lá está um gato escancarando o focinho e caminhando o preguiçoso e elegante caminhar dos gatos sobre todo o cobertor em direção ao seu colo.
Por um instante, Peter estatela-se em assombramento, o gato, mímico de seu assombro, imita-o em congelante comportamento. O gelo só é quebrado quando o gato espertamente resbuna e começa a roçar seu bigode nas mãos de Peter, que seguram o cobertor na tentativa de racionalizar a situação que se manifesta.
Amedrontrado, o homem – desacreditando no que vê – salta da cama num supetão. A pequena mesa de forma ovalada está posta para o café da manhã: pão recém-assado, bolo, muffin, biscoitos, ovos e bacon, manteiga, geleias, café fresco, chá e leite.
De um lado, está sentado o gato lendo o jornal; do outro, uma cadeira aguarda-o. Peter está emudecido.
– Bonjour, monsieur Harvey. Le petit déjeuner est servi, fala o gato num tom bem natural, asseyez vous.
Peter esbugalha os olhos o máximo que pode.
– Quel chat stupide que je suis, pourquoi suis-je en train de parler en français avec vous?
– Excusez-moi!Oh, novamente! Me desculpe. O que eu quis dizer foi: o café da manhã está servido, sente-se!
– Je… je… je vous ai entendu, gagueja. Espere,je ne parle pas français.
– Ah, agora você fala! Você é tão esparto, mon ami, o bichano dobra o jornal e se serve de uma xícara de chá.
– Você vai ficar parado aí a manhã inteira? Le petit déjeuner est superbe!
Peter Harvey, desconfiadamente, aceita o convite, não por curiosidade, mas pela incapacidade de controlar sua atitude.
– “Ma chambre a la forme d’une cage…” o gato começa a cantarolar uma canção em francês.
Peter paralisa-se na cadeira. Desesperadamente tenta gritar, mas de seu verbo só sai francês e então se cala.
Ele tenta se mover, mas seus braços estão amarrados à cadeira, seus olhos estão presos com fita adesiva e seus ouvidos parecem explodir por conta dos sons ensurdecedores do despertador.
Peter Harvey arregalou os olhos, mas não conseguiu se mover. Seu corpo desprovia-se da capacidade do movimento. Ele também não podia respirar e então se engasgou. Quando recuperou o fôlego, saltou da cama como para terminar algo que não poderia esperar e mergulhou num dia que tinha acabado de ser deflorado pelas possibilidades da noite.
(José Pedro de Carvalho Neto nasceu no sertão baiano, mas sempre viveu em cidade portuária. É, com todos os clichês da expressão, cidadão do mundo. Publicitário, estudou escrita criativa na Austrália, onde teve contos, poemas e trechos de um livro que nunca se acabou publicados, além de freelancer de todas as coisas)
Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.
Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.
Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.
Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.
Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani
Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.
Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.
Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.
o tratador com a cabeça
a b e r t a
não pode explicar
a possível dinâmica da………………FUGA
nada sai de sua boca
senão ……………………………………………………./m i a s m a/
moscas & frag ……………..men ……………………..tos ……………………..dos dentes……………../marfimanchados/
(sangue sobre o chão pisoteado
[a arena no triunfo do touro ……………ou do toureiro])
um milico emerge na cena
pequeno & inútil
o .38 na mão:
o primeiro disparo
põe fim a ladainha dos cães
e ascende das crianças o berreiro
***
Quebra-cabeça
1
Com Super Bonder ®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa
(o ar e o uso)
Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas
Largo gesto de asas, premeditado
O olho olha a parede e não vê
Mente quem diz: parece vivo
2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio
(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
– again and again –
sobre uma luz cada vez mais fraca)
Palavra por palavra
Para por de pé o poema:
broca em busca da cárie
3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem
como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop
Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada –
habitada por centenas
milhares de babacas
***
Poema # 2
Para Rafael Borges Martins
: impossível sem quebrar uns ossos
talvez alguns golpes de navalha na face ……….(como um imprudente zagueiro ……….ou um barbeiro louco)
: improvável sem queimar algumas casas
talvez algumas pessoas em praça pública ……….(como se fazia em nome de Deus ……….ou de homens alçados a)
: fora de cogitação sem pessoas
talvez algumas que não existam ………(como aquelas dos romances antigos ………ou dos sonhos razoáveis)
: impensável sem amor pela vida
talvez por uma mulher ou por um cão ………(como se vê nos bares à noite ………ou na rua aos sábados)
(L. Rafael Nolli nasceu em Araxá, MG, no ano de 1980. Publicou “Memórias à Beira de um Estopim” (JAR Editora, 2005) e “Elefante” (Coletivo Anfisbena, 2012)
Os latinos, de índole mais pragmática e menos reflexiva que a dos gregos, prefeririam gladiadores, feras e outras atrações brutais, pelo menos no que diz respeito às grandes plateias. O circo ululante foi cultivado em detrimento da arte dos poetas trágicos – os austeros textos de Sêneca seriam valorizados apenas muitos séculos mais tarde, às portas da Renascença. Não foi esse o caso, porém, das comédias brilhantes de Plauto (254-184 a.C.), muito amigo das confusões farsescas, autor de textos posteriormente imitados – O avarento, que Molière escreveu em 1668, e O santo e a porca, de Ariano Suassuna, de 1957, são exemplos de peças inspiradas em Plauto. Seu rival Terêncio acentuou os aspectos retóricos do diálogo, em prosa elegante que mais tarde, já no século XV, serviria de modelo para a prática erudita do latim.
Os cristãos, que de início foram almoço de animais na arena romana, alcançaram uma vitória política com a chegada ao poder de Constantino em 330. Fechado o mundo grego, que os romanos reviveram apenas superficialmente, as festas cristãs na Idade Média constituirão o alimento dos espetáculos: Natal e Páscoa fornecem temas ao teatro medieval, com a representação nas igrejas tendo o altar como cenário. (Existirá, em paralelo, um teatro popular mais espontâneo e menos submisso aos cânones religiosos.) As formas teatrais na Idade Média estão distantes da concentração clássica e desconhecem a lei famosa das três unidades – ação, lugar e tempo. Pelo contrário, são formas múltiplas e dispersas: não dramáticas, mas épicas.
Pretendia-se exibir a história bíblica, e o enredo de um mesmo espetáculo poderia saltar séculos ou milênios, de Adão a Cristo, por exemplo. O espaço físico utilizado não se restringiu ao interior dos templos; Berthold informa que “o mais antigo dos dramas religiosos existentes em língua francesa, o Mystère d’Adam, da metade do século XII, já se realizava fora do portal da Catedral. Em três grandes ciclos temáticos, ele trata do pecado e da redenção prometida à humanidade: a Queda, o assassinato de Abel por Caim e os Profetas”. A autora acrescenta: “As rubricas sugerem o uso de uma armação de madeira adequadamente decorada, que se apoiava na fachada da igreja. O pórtico era a Porta do Céu. De um lado ficava o Paraíso, sobre um tablado elevado; do outro, mais abaixo, a Boca do Inferno”. O legado medieval abrange ainda a comédia, de que o modelo é a farsa Mestre Pierre Pathelin, que satiriza os costumes ao apresentar um advogado tão respeitado quanto inescrupuloso. A primeira representação do texto francês, de autor desconhecido, data de 1465.
A farsa “Mestre Pierre Pathelin” / Direção: João Guedes / Foto: Divulgação
Com a queda de Bizâncio, facção oriental do Império Romano, em 1453, as elites ocidentais iriam redescobrir os gregos, Aristóteles e a Poética, cujo texto original foi republicado em 1508. Os debates em torno das noções aristotélicas, entre elas os conceitos de unidade e de catarse, fizeram correr muita tinta, em especial na Itália e na França. Defendia-se a volta aos velhos gregos, mas nem sempre se chegou a um acordo sobre o que teria sido, de fato, o teatro clássico. A princípio tarefa de estudiosos, o Renascimento no palco se inicia em 1486, com a encenação em cidades italianas da tragédia Hipólito, de Sêneca, e da comédia Os gêmeos, de Plauto. “O que nunca havia ocorrido em vida a Sêneca veio a se concretizar 1500 anos depois, em alto nível acadêmico”, observa Berthold.
A descoberta da perspectiva e o respeito ao legado grego logo iriam influir sobre os cenários e sobre a arquitetura teatral. Leonardo da Vinci foi pioneiro na arte de desenhar para a cena, tendo criado palco giratório já em 1490. O Teatro Olímpico de Vicenza, inaugurado naquela cidade em 1584, com seu palco semicircular e seus cenários em perspectiva (que somavam a perspectiva real à ilusão da pintura), é um dos modelos arquitetônicos da época. O maquinário sofistica-se, e Berthold ressalva: “No decorrer de um século, o teatro renascentista viveu uma repetição em câmera rápida do teatro romano. Quanto mais suntuoso o palco se tornava e quanto mais atenção era dispensada a seus aspectos visuais, mais desvalorizado ficava o conteúdo literário”. Os atores deviam agora “subordinar seu movimento e composição ao cálculo ótico” da cena.
Na Inglaterra, as comédias e tragédias de Shakespeare, diversamente, dispensaram em parte a tecnologia visual e concitaram a plateia a imaginar salas e paisagens: o teatro se apresentava como uma espécie de sonho desperto. O dramaturgo dirá, em Henrique V: “Imaginai que no cinturão destas muralhas estejam encerradas duas poderosas monarquias (…). Porque é vossa imaginação que deve vestir os reis, transportá-los de um lugar para outro, transpor os tempos”. Inúteis as citadas unidades de ação, tempo e lugar, quando se consegue “acumular numa hora de ampulheta os acontecimentos de muitos anos”. Texto e ator conduzem a fantasia dos espectadores, o que se verifica também no teatro de Calderón de la Barca, em peças como A vida é sonho. No texto de Calderón, a musicalidade do verso parece predispor o público a aceitar, como se fossem naturais, as extravagâncias do enredo tragicômico: um príncipe despótico e cruel imagina ser um prisioneiro miserável, sofrendo experiências que afinal o transformam em soberano mais justo e equilibrado.
Cena da montagem “A vida é sonho” / Direção: Julio Maciel / Foto: Guto Muniz
O também espanhol Lope de Vega, aborrecido com as cobranças acadêmicas, costumava dizer que, ao redigir uma peça, trancava as regras na gaveta. Já na França do século XVII, sob o patrocínio da corte, dramaturgos e críticos procederam de forma bem distinta, muito mais apegada às normas que a Academia Francesa, comandada por Richelieu, estabelecia. Corneille desafiou hábitos estéticos e morais com O Cid, em 1636, peça de enorme sucesso que, talvez por isso mesmo, foi desancada pelos conservadores. O autor teria insultado a moralidade e a verossimilhança, desencadeando polêmica. A exigência de verossimilhança chegaria ao extremo, no século XVIII, com Gottsched, representante alemão da serenidade clássica francesa, capaz de exageros como o de afirmar que, se a ação saltasse no tempo ou no espaço (obrigando o espetáculo à mudança de cenário), o espectador deixaria de acreditar no que vê, desligando-se do que se mostra no palco. Poderoso gerente da cena alemã, Gottsched toma a ideia de ilusão cênica demasiadamente ao pé da letra; o incisivo Lessing, renovador que se contrapôs à obediência obtusa às normas, chamou Gottsched de “besta quadrada”.
Lessing, ligado ao iluminista francês Diderot, de quem traduziu as peças, terá de lutar contra o conservador Gottsched. A Alemanha é, naquele período, colônia cultural dos franceses, para dizê-lo com alguma ênfase. A renovação do teatro implicava levar à cena não mais as aristocráticas personagens de Racine, mas figuras representativas do mundo burguês emergente (as criaturas racinianas seriam definidas por Schiller como “espectadores glaciais de sua própria fúria, professores de sua paixão”). Àquela altura, a popular commedia dell’arte, originária da Itália, já estabelecera seus tipos havia 200 anos, espalhando-os pela Europa.
Na década de 1770, surge na Alemanha a geração Sturm und Drang, Tempestade e Ímpeto, de que fazem parte o jovem Schiller de Os salteadores, Goethe e o inquieto Lenz. A lógica iluminista já não basta para esses escritores, chamados pré-românticos, que deixam obra incompleta (salvo Schiller e Goethe, convertidos depois ao credo neoclássico), mas plena de sugestões. Essas sugestões viriam a influir, décadas depois, sobre Georg Büchner, que morreu aos 23 anos legando três peças, entre elas as seminais A morte de Danton e Woyzeck. A mistura de comédia e drama, as situações apresentadas aos saltos e não de modo linear reincidem no Woyzeck, história do soldado raso maltratado pelo Estado, usado pela ciência e traído pela namorada, perdedor da cabeça aos sapatos – tipo de herói pouco frequente na dramaturgia do tempo. Os expressionistas viriam a perceber, em Büchner, um precursor.
Cena de “A Morte de Danton” / Direção: Jorge Silva Melo / Foto: Jorge Gonçalves
Quando Büchner morre, desconhecido, em 1837, a explosão romântica em torno de Victor Hugo já acontecera havia uma década. As formas operísticas, que vinham sendo elaboradas desde 1600, a princípio na tentativa de retorno ao teatro total dos gregos – poético, plástico, musical –, encontram, na segunda metade do século XIX, momentos agudos em Bizet, Verdi e Wagner. Outro modelo de teatro musical seria praticado pelo inglês John Gay já em 1728, na Ópera do mendigo, mesmo ano em que o gênero da revista, com a crítica dos fatos imediatos, nasce nas feiras parisienses. Síntese das fórmulas erudita e popular de espetáculo musical pode ser encontrada em Offenbach ou, mais recentemente, em Brecht e na Broadway.
No teatro dramático, a passagem do romantismo ao realismo se dá por meio de peça que tempera franqueza realista, passionalidade romântica e moralismo burguês, exibindo a história da prostituta Marguerite Gautier. Hoje anacrônica, A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, soube discutir a questão do amor que se contrapõe às conveniências sociais, por volta de 1850.
A dramaturgia de Ibsen, mais franca e madura que a de Dumas Filho, escandaliza as plateias com Casa de bonecas, 30 anos depois. O teatro acompanha as mudanças políticas, que incluem reivindicações feministas. Textos de Ibsen integram o repertório do Teatro Livre, de André Antoine, que busca levar ao palco o naturalismo preconizado por Émile Zola desde 1867 (ano em que Zola publica o romance Thérèse Raquin, depois transformado em peça teatral). Tendências estéticas contraditórias – basicamente, naturalismo e simbolismo – entram em debate. Os artistas reunidos no Teatro de Arte de Moscou, criado por Stanislavski em 1898, reelaboram noções e práticas realistas, influenciados pela companhia alemã dos Meininger. “Stanislavski, em Moscou, e Antoine, em Paris, admitiram sua dívida para com eles, em matérias tais como: a sugestão cênica de uma quarta parede, a atuação em conjunto e a ideia de que a direção cênica cria um estilo”, diz Berthold. Nascia o encenador, no sentido moderno.
Montagem de “Casa de Bonecas” / Direção: Stepháne Braunschweig / Foto: Divulgação
O livro mostra, com apoio nas muitas ilustrações, a progressiva tendência à geometria na primeira metade do século XX, com a economia de linhas alcançada por cenógrafos como o suíço Appia e o inglês Craig. Exemplo da soma de talentos na fatura de um teatro novo encontra-se no balé O chapéu de três pontas, de 1919, com música de Manuel de Falla e cenário cubista de Picasso: a paisagem desenhada tem traços irregulares e angulosos, a perspectiva acha-se subvertida.
Nas primeiras décadas do século passado, a quarta parede é derrubada com propósitos políticos pela vanguarda panfletária de Piscator, que irá se desdobrar nas propostas de Brecht – autor filiado, na origem, ao expressionismo niilista e soturno. Em 1947, o comunista Bertolt Brecht depunha diante da Comissão sobre Atividades Antiamericanas da Câmara, o comitê que perseguiu as oposições nos EUA. No ano seguinte, Antonin Artaud, teórico do retorno à cena ritual, morria na França depois de repetidas e dolorosas internações.
Correntes contraditórias (mas nem sempre inconciliáveis) têm movimentado o teatro no Ocidente. Uma delas pretende devolver nobreza dionisíaca à vulgaridade contemporânea e se encarna emblematicamente em Artaud; outra quer fazer do palco instrumento de mudança social, caso de Brecht. Uma terceira tendência se acha nos dramaturgos do Absurdo, Beckett e Ionesco à frente, que sintetizam protesto político e aventura estética: a linguagem se fragmenta, tornando-se escassa e metafórica, as situações são tacitamente trágicas, incontornáveis, as personagens não têm saída; o mundo parecia insolúvel aos dramaturgos do pós-guerra. Um quarto caminho, ainda, se pratica no teatro comercial, incluído o espetáculo cantado à maneira da Broadway, em geral desligado de transformações interiores ou coletivas. Teatro que exibe, no entanto, achados incisivos, como em West Side story, de 1957, com música de Leonard Bernstein. A herança europeia se retempera na mistura americana.
Margot Berthold privilegiou critérios estéticos na composição do livro; mas não há escolhas inocentes. Suas opções são eruditas, canônicas: trata-se da história do teatro segundo o ponto de vista de uma grande estudiosa de perfil acadêmico, felizmente capaz de escrever com elegância e sem pedantismo (mérito que em parte caberá aos tradutores). Seu pendor por critérios tradicionais a levou a desconsiderar muito do que não estivesse consignado nos museus e nas bibliotecas, sobretudo europeias. Assim, é algo omissa no que diz respeito a teatro popular, embora dedique bom espaço a commedia dell’arte e congêneres, e absolutamente muda em relação a América Latina e África. Tais faltas poderiam ser minoradas com a publicação de texto suplementar numa possível segunda edição brasileira [a História já teve novas edições]. Ressalvadas as lacunas, o belo e caudaloso livro importa pelo que é. Terá vida longa em qualquer idioma.
(Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva. A cantora Wilzy Carioca lança neste ano o CD “De cor”, com 14 canções do autor. A peça “Zé” será republicada em novembro pela É Realizações)