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84ª Leva - 10/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Jussara Almstadter

O gosto pelas complexidades alimenta alguns feitos. Em se tratando de literatura, muito podemos mencionar a respeito. No entanto, é bastante significativo frisar que, na busca por um resultado estético e coerente com os mergulhos pessoais, cada autor se envereda por vias até mesmo surpreendentes. E não se está aqui a falar duma procura por coisas supremas ou meramente arrebatadoras, mas da forma como cada criador percebe a si e a seus iguais, tendo como pano de fundo a heterogeneidade do mundo. Nesse trajeto, podemos questionar a efetividade de fórmulas prontas, hermetismos e rigores excessivos. O tempo tem nos mostrado que aprendemos não somente com modelos consagrados, mas também com as transformações e aprimoramentos oriundos do ato constante de experimentar. Assim, exercitamos a capacidade de romper tabus e deixar de lado um exército de mitos que nos causam certa cegueira. Aprendemos, de fato, a partir do envolvimento prático com as múltiplas vozes e seus chamados a nos rodear os sentidos. Ler o mundo é algo mais colossal do que supomos, embora jamais se configure uma meta inalcançável. Há, por exemplo, todo um entendimento universal sobre a existência na mente de um criador que transpõe seus domínios através da leitura. Por causa desse fascínio, o desejo de seguir adiante não se sacia. Ao visar respostas para os enigmas que a vida lhe impõe, um autor talvez jamais encontre a saída. Enquanto isso, ocupa-se de se entregar ao fluxo incessante da memória e das projeções que supõe serem as principais aliadas de suas andanças particulares. Um pouco desse marcante espírito permeia a atual edição da Diversos Afins. Desde os poemas de Assis Freitas, Ehre, Alexandre Bonafim, Nuno Rau, Carolina Suriani Caetano e Luciano Bonfim, passando pelas narrativas de Gabriela Amorim, Antonio LaCarne e Geraldo Lima, a linha da vida segue seu difuso e incerto curso, exaltando descobertas, filhas do espanto. Nossa 84ª Leva ganha corpo com a intervenção dos signos presentes nas fotografias de Jussara Almstadter. Se a inquietude faz bem à arte, percebemos seu vigor quando entrevistamos o poeta mineiro L. Rafael Nolli. Em matéria de música, Larissa Mendes mostra porque o segundo disco de Marcelo Jeneci merece nossa especial atenção. O convite à leitura fica a cargo do escritor Hilton Valeriano, cujo texto suscita incursões pelo mais novo livro da poeta Rita Moutinho. Por aqui, há também espaço para a celebração em torno da memória musical de Tom Jobim, numa leitura para o documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Que os caminhos aqui contidos possam lhe promover renovados percursos, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Bonafim

 

Foto: Jussara Almstadter

 

I

Estou na iminência do ser.
A existência de tudo calou-se em mim.
No além dos pensamentos,
fecundei-me na nudez dos sonhos.
Agora sou límpido como céu
despido de nuvens. Por isso inicio-me
onde germina o voo dos pássaros.

 

 

***

 

 

II

Calei, em mim, a fúria dos acasos.
Estou predestinado a amanhecer
pássaros em toda palavra.
Por isso há sempre uma quietude
de ninhos sobre o meu abandono.

 

 

***

 

 

III

Um unicórnio de levíssimos acordes
pousou sobre o meu derradeiro sonho.
Sua crina de harpa, suas asas de sopro
acordaram-me no coração de todo fascínio.
Por isso meus olhos percebem o mundo
como uma oração secretamente murmurada.

 

 

***

 

 

IV

A sombra dos pássaros
sabe de cor o gosto do meu nome.

Quando alguém me chama,
nascem, do meu silêncio,
frondosas árvores
e um perfume de inéditos mistérios.

O meu nome tem a calmaria
dos ninhos desabitados.

 

 

***

 

 

V

Com tanta intensidade
latejam, vertiginosos,
os meus pulsos,
que a existência do universo
dissolve-se, inteira, no meu sangue.

Todo o girar da terra,
o crepitar dos astros,
o canto dos pássaros
não vibram com mais
ardor e arroubo
que os meus pulsos abertos
em vivo êxtase e esplendor.

 

 

(Alexandre Bonafim é poeta, contista e ensaísta. Nasceu em Belo Horizonte, mas passou a maior parte da vida pelas terras do estado de São Paulo. É professor de literaturas de língua portuguesa da Universidade Estadual de Goiás. É eternamente mineiro em exílio, mineiro nas raízes da vida. Recentemente, lançou seu mais novo rebento: o livro de poemas “O secreto nome do sol” (Editora Patuá))

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Gabriela Amorim

 

Foto: Jussara Almstadter

 

A filha da prostituta ou história de Natal

 

Essa bem que poderia ser uma história para ser contada no Natal, porque a prostituta já sente as dores do parto e é véspera de Natal, logo rebentarão os fogos e a bolsa amniótica. Também porque a prostituta na verdade se chamava Maria, apesar de ser conhecida na rua como Zula. A bem da verdade, isso não chega a ser um nome, é apenas um som para chamar uma pessoa, já que Maria parecia um nome muito sagrado e pobre para usar na vida.

Não sabia quem era o pai da criança. Tinha lá uma desconfiança ou, antes, uma preferência pelo marinheiro de olhos verdes. Um filho de olhos verdes. Teve medo de fazer um aborto, era muito medrosa. Havia uma sua colega que já fizera três abortos e, no último, quase morrera. Tinha muito medo de morrer. Não que aquela vida fosse boa… Tinha medo de tudo aliás, de ratos, baratas, de macumba, de velhas. No começo, também dos homens, mas esse medo, o tempo a fez perder.

Além do mais, tinha vontade de ter aquele filho, vontade de carregá-lo, brincar com ele. Tinha vontade mesmo era de ter uma boneca, coisa tão inexistente na infância. Desejou rever suas amiguinhas da rua para mangar da cara delas:

– Quem tem a melhor boneca agora?, diria ela.

Mas havia aquelas dores todas ali e ela não sabia o que fazer com aquilo. Não havia mais ninguém na pensão, era Natal e as moças estavam de folga, todas a festejar ao seu modo sabe-se lá o quê. Ela ficara sozinha com a barriga e a dor.

Mordia um lençol para não gritar. O suor empapava a camisola encardida. Ela estava sentada, muito encolhida no canto da cama. Olhando assim, parecia um anjo de altar. Não passava de uma criança assustada com uma barriguinha saliente, talvez tivesse 16 ou 17 anos. Chegara ali depois de passar alguns anos apanhando da vida e das patroas, trabalhando em casa de família. Não que a vida ali fosse mais fácil, mas pelo menos apanhava quase nunca. Às vezes tinha nojo, é verdade, mas todas as outras moças a tratavam como um bibelô e, quando ficou grávida, elas passaram a sustentá-la. Tinha muitas mães. Ela agora seria mãe também. Nunca tivera uma mãe, talvez tivesse tido um pai, mas não gostava de se lembrar disso. Fingia que sempre fora só.

As dores aumentavam, e ela só pensava na festa que estava perdendo, o vestido novo para a Missa do Galo estava dependurado na porta do armário. A vida pedia passagem para fazer mais um milagre. De repente, sentiu que ia parir, não saberia explicar o que era aquela sensação – o que a deixou apavorada de desconhecer –, mas sentia que um milagre estava por vir. Alguma estranha força fêmea a guiou no parto, como se o nome Zula, que era quase um balido animal, lhe tivesse convocado essa força não-humana de parir. Então, ela simplesmente pariu e segurou a criança desajeitamente junto ao corpo. Cortou o cordão com uma faquinha quase cega que estava sobre a mesinha de cabeceira. Depois, limpou-a (sim, era uma menina, o que já dificulta um pouco a viabilidade de uma história de Natal) com nojo no lençol cheio de manchas de noites passadas. Encostou o bebê no seio e ele parou de chorar. Nasceu franzino, um fiapo de vida, um milagrezinho de Natal.

Sou mãe, disse a si sem ênfase nenhuma. E havia alguma dor sublime nisso. Com a menina no colo, pensou que deveria dar-lhe um nome. Pensou que deveria dar-lhe ouro, incenso e mirra. Presentes, comida, alegria, uma vida maravilhosa, o mundo inteiro. Estava exausta e com medo. Não poderia dar nada à sua filha. Nem amor, que nunca tivera disso na sua vida. Nem leite tinha, os peitos murchos de não comer quase nada. Não poderia criá-la entre prostitutas. Não poderia fazer nada por aquele milagre.

Era um bebê feio, magro, engelhado, vermelho. Não tinha olhos verdes nem cabelos dourados. (Quem era o pai?) Colocou-a na cama e levantou-se. Vestiu o vestido de festa: rosa bem claro, sua cor preferida. Arrumou os cabelos. Como estava cansada. E como doía-lhe o sexo. Pior do que na primeira vez que se deitara com um homem. Tomou a menina nos braços e saiu. Na rua havia muito barulho, era Natal. Não havia brisa, mas a noite era mais fresca lá fora do que dentro do quarto noturno.

Caminhava lentamente enquanto pensava no que poderia fazer para salvar um milagre. Mas ainda era uma criança. As ruas eram escuras, a noite era escura, ela era escura, só sua filha era rosada. Parou num beco, exausta de caminhar, exausta de pensar, exausta de parir. Encostou-se na parede. Era um beco imundo. Pôs a bebezinha numa lata de lixo e deu-lhe um beijo na testa:

– Morra logo, minha filhinha, porque essa vida é muito ruim.

Cuspiu-lhe na cara com nojo e ficou olhando-a um pouco. Talvez quisesse se sentir penalizada, mas não sentia, não sentia nada. Tudo tinha ido embora naquele parto. Se afastou devagar enquanto a menininha chorava.

Talvez, no céu, uma estrela tenha se apagado.

Não contem essa história no Natal.

(Gabriela Amorim é escritora e leitora, jornalista, fotógrafa, cozinheira, aprendiz de costureira e de feiticeira, instrutora de yoga, caminhante. Escreve crônicas às terças-feiras no Portal Infonet. Seu primeiro romance, O velho, está no prelo e, em breve, deve vir à luz)

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JENECI – DE GRAÇA

 

 

“De Graça é um espelho.
De um lado ele reflete você, de outro, o universo.
Que é como a gente, sem fim.
O De Graça aconteceu.
Como o sol, que não é meu, nem seu.
É nosso”.
(Marcelo Jeneci)

O melhor da vida é de graça. Sob essa tônica de ‘celebração 0800’ o multiinstrumentista Marcelo Jeneci acaba de lançar o sempre mítico segundo trabalho na carreira de um artista. E o herdeiro do bem sucedido Feito Pra Acabar (2010) apresenta-se como um álbum tropical, dinâmico e autobiográfico. Na contramão do hermetismo dos lançamentos nacionais de compositores da nova geração, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (aliás, se depender do visual atual, Jeneci seria facilmente confundido com um barbudo dos Hermanos), a verdade é que o paulistano nunca temeu parecer popular. E é assim que ele soa: leve e pop (jamais simplista) em pelo menos metade das 13 faixas inéditas que compõem De Graça (2013). Nas canções restantes, Jeneci mantém certa aura épica-intimista-melódica consagrada em seu disco de estreia, porém sem perder o tom esperançoso que envolve todo o repertório.

Curioso é o fato de o álbum manter esse astral mesmo sendo concebido após o fim de seu casamento. Por vezes, a temática e a própria sonoridade expõem certo sentimento de ruptura, mas tudo sem dramas ou pesares. É como se Jeneci tivesse profetizado que amores têm prazo de validade pré-determinado (a gente não é feito pra acabar?), mas colocasse em prática toda a filosofia de auto-ajuda de Felicidade, carro-chefe de seu primeiro disco. Assessorado por velhos (Arnaldo Antunes e Kassin, que produziu Feito Pra Acabar e dessa vez assina a produção junto com Adriano Cintra) e novos parceiros (Eumir Deodato e Isabel Lenza, atual namorada, com quem divide as composições em 6 faixas), De Graça foi contemplado pelo Programa Natura Musical e está disponível em streaming no site do artista. Já o álbum físico será lançado em novembro pelo selo Slap (Som Livre).

 

Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação

 

A deliciosa e radiofônica Alento e seus versos de consolo (se alguém se for, não tente entender/o que se passou segue com você) abrem o álbum apontando o lado bom de todo revés e avisa que ‘tudo se desestrutura pra você se estruturar’. Espécie de baião eletrônico, De Graça, primeiro single e canção que dá título ao trabalho, mantém o ritmo frenético e indaga: ‘sentir o sol te acordar, bem de manhã, quem acha pra comprar?/viver na pele um grande amor e o seu calor, quem acha pra vender?’. Ironicamente, Temporal fecha o primeiro bloco de canções mais ensolaradas, não sem antes anunciar seu arco-íris otimista (o que tem começo, tem meio e fim/deixa passar o dia ruim/que a tempestade resolve com Deus).

Nas melódicas Tudo Bem, Tanto Faz (letra de Arnaldo Antunes) e Pra Gente Desprender, quem assume completamente os vocais é a doce Laura Lavieri, cantora que já acompanha Jeneci desde o primeiro álbum. O cantor reassume os microfones no pop-rock de Nada a Ver, que fala de um amor que já não se pode disfarçar, e de Sorriso Madeira, onde afirma estar em extinção e propõe plantar no quintal ‘um pé de nós dois’. A psicodelia de A Vida é Bélica (tire a distância entre você e eu/sejamos um/sejamos Deus) lembra Os Mutantes, enquanto a despretensiosa Julieta (você não sabe ler/uma carta de amor/muito menos contar/quantas silabas têm/uma desilusão), balada sessentista, poderia tocar no bailinho pré-trocadilho de Genival Lacerda.

Os versos de O Melhor da Vida reiteram a intensidade de nossa existência (sinto que o melhor da vida sempre vem de graça/sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar/e que dura toda a eternidade/e isso é só pra começar). A majestosa Um De Nós (um de nós/vai sentir a falta/de um de nós) fala do caráter insubstituível de um grande amor e têm os mais belos arranjos do pianista Eumir Deodato, que assina também a orquestração de outras quatro canções. Composta para a trilha de Vila Sésamo, a graciosa Só Eu Sou Eu (tem muita gente tão bonita nessa terra/nas minhas contas são 7 bilhões/mais eu) é praticamente uma cantiga de roda com direito a burburinhos e gargalhadas infantis. O lirismo e a introspecção ficam a cargo de 9 Luas, faixa soturna que encerra o registro e remete a um comportado Ney Matogrosso.

Nestes três anos que separam primeiro e segundo álbum, definitivamente Marcelo Jeneci amadureceu (e emagreceu). A feição de bom moço agora dá lugar a certo ar de mistério e de um charme desleixado. A temática sentimental/existencial está presente nos dois registros de estúdio e, de forma discreta ou não, a sanfona continua assumindo sua importância. No entanto, agora, a sonoridade jeneciana assume um novo groove e suas composições estão ainda mais seguras. Se Feito Pra Acabar era considerado brega, De Graça virou indie e está um barato. E ache graça quem quiser achar.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é sua graça. E, escrevendo, tenta levar a vida em estado de)

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Nuno Rau

 

Foto: Jussara Almstadter

 

NOTA MARGINAL 37.

 

Instantes de maravilha que você captura, vertiginosas
lâminas de tempo em suas mãos, você não sabe o que fazer, seu dia
se perde no lixão que vaza dos calendários, cemitérios
de dejetos, ferros-velhos – mas a História
não acabou, nem a sua, se debatendo contra a pedra
(particular, intransferível) que obtura o peito
opresso sob a chuva fina e ácida do pensamento. Pensar,
pensar com os olhos
frios, enquanto na retina
se inaugura o caminho novo sob os mesmos

 

 

***

 

 

escrito sobre o corpo

 

leia se puder
o que segue escrito na carne dos dias
são signos sobre signos sobre signos
soterrando a possibilidade do sentido
mas leia
se puder arrancar o que lhe diz respeito
se puder arrancar a luz da floresta
de símbolos
se puder arrancar das linhas do fundo
escuro deste labirinto
desenhado nas dobras do corpo

não
você não
pode

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 51.

 

Difícil acreditar na luz, ela
não é mais que outro lado
da treva: e mais que duvidar, você suborna
o coração com lances baratos, em surdina, até
que a iridescência perca sua autonomia,
em ciclos declinantes, sucessivos, como um prazer
ao contrário, bruto, até o chão. Deserto é tanto
o que sobrou quanto
o que estava antes, coalhado
de abismos escavados na planura. ‘Quem foi
que ergueu esta montanha aqui?’, ele disse quando galgou
ao cume, diante
da miragem do absoluto, o riso
apontando para onde o coração (‘deviam
inventar um nome melhor
pra estas deformações’, ela disse, ‘que se assemelham muito
a florações’) insiste
em construir cenários
imprevisíveis, andando rente,
tentando descobrir porque miragens nunca
reencarnam.

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 54.

 

Curvar-se até o chão, diante
da inocência, ou mais além do pavimento
duro, se fosse tão gasosa assim
a matéria da alma que num ponto
nunca definido arranca um grito
ao ar quando atravessa os tais
dos campos vastos, triscando as balizas do tempo, lentamente
fingindo obedecer a relógios,
e neste empuxo
despenha-se junto a dias e promessas
só para aumentar os escombros e o monturo
a seus pés.

 

 

***

 

 

Daqui

 

a âncora é o corpo, o fundo
não se sabe Morto pela água
das décadas o Homem
-Aranha considera riscar
na areia fina com a ponta
em riste da última fratura
exposta o seu poema
mais abissal: vês? Ninguém

 

(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ. Bloga em As Musas Pós-Modernas.  Email: nuno.rau@gmail.com)

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Catarse e lirismo na poesia de Rita Moutinho

Por Hilton Valeriano

 

“Que as pétalas subjuguem
os dolorosos espinhos!”
Rita Moutinho

 

Confrontar-se com situações limites, com obstáculos interiores contínuos às ações corriqueiras do cotidiano, defrontar-se com a busca de superação da ausência de sentido, existir sob a tensão do viver! Esse quadro característico de estados de depressão reflete a poesia lírica presente no livro “Psicolirismo da Terapia Cotidiana” (Ateliê Editorial), da poeta Rita Moutinho. Uma poesia marcada pela permanente tensão entre o “Eu” e um mundo interior fragmentado, instável, fugidio: “Frente a mim,/no meu presente,/não me desvendo/e assim permito/arroubos de pensamento/e justifico, que lá dentro,/há de estar o que não penso.” Lirismo dramático expresso em versos que mostram a crise da exacerbação do “Eu”, marcas de um Século Pós-moderno e que ainda se estabelece sobre a herança do Iluminismo, do Secularismo e do esvaziamento do referencial transcendente, ou seja, do sentido metafísico, portanto um “Eu” labiríntico: “Deve haver um lento tatear-me,/pois em mim não há outra coisa que não eu/a me querer nascer.

Uma das características da poesia de “hoje” tem sido o experimentalismo, muitas vezes questionável, que transita entre o minimalismo, releituras do Concretismo e da poesia de João Cabral de Melo Neto, uma poesia que tem como objeto estético a própria linguagem, não obstante sua dimensão semântica “impenetrável”. A poesia de Rita Moutinho se apresenta em polo oposto. Seus versos são líricos e a linguagem apresenta-se como instrumento estético e não objeto estético. A temática subjetiva de sua poesia e a tensão de seu lirismo a aproxima de poetas como Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca, poetas do drama do “Eu”:

Aonde irei neste sem-fim perdido,/Neste mar oco de certezas mortas?/Fingidas, afinal, todas as portas/Que no dique julguei ter construído...” (Mário de Sá-Carneiro – Ângulo).

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,/É um brasido enorme a crepitar!/Ânsia de procurar sem encontrar/A chama onde queimar uma incerteza!” (Florbela Espanca – O meu impossível).

Inspiro e sou a musa avessa/explorando avidamente/aquilo que não aflorou:/certeza” (Rita Moutinho).

Mas, ao contrário dos poetas suicidas, Rita Moutinho faz de seus versos uma verdadeira catarse, no sentido aristotélico do termo, ou seja, purificação de suas vivências. Podemos dizer que a poeta faz da linguagem uma autoanálise de seu drama interior, itinerário catártico do “eu”:

Iluminar o lado escuro/da penumbra/e se fazer radar/até que me descubra”.

Os poemas acalmam ou são proféticos,/lavam ou surpreendem a alma quando criados./Ei-los, a um tempo, deuses e miméticos.”

Eu lavo as veias com água e após transfiro/o sangue da ansiedade às palavras (…)”

O itinerário existencial presente nos versos de Rita Moutinho mostra-se titânico em sua recusa a uma referência semântica transcendental – “E eu, lírico clown, cato – com os demônios! -,/os piolhos que infestam meus neurônios!” – característica de um Século Pós-moderno como já assinalamos. Assim, a poeta apresenta-se como uma anti-heroína mesmo tendo a linguagem poética como uma estética catártica dos mares tempestuosos de sua subjetividade: “Os versos são fragmentos de epopeia/falsa, pois falsa heroína é a poeta,/falsa, fraca, falida, mas não cética:/crê que a maré se abaixa, mas não seca”.

Uma poesia para se ler. Uma poesia para pensar.

 

(Hilton Deives Valeriano é filósofo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Unicamp. Editor do blog Poesia Diversa. Autor de poemas, epigramas e aforismos. Livro no prelo: “Nas mínimas coisas – aforismos”)

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

A Música segundo Tom Jobim. Brasil. 2012.

 

 

Uma câmera acelera seus percursos e varre a secular capital do Rio de Janeiro. Como num álbum de memórias, coleciona retratos de um tempo-berço, pano de fundo de um ambiente regado a contemplações e uma boa dose de romantismo. Quem pensa que com ela se inicia mais uma viagem do tipo cartão-postal da cidade maravilhosa, não imagina que está prestes a acontecer um caminhar fora do comum por sobre a trajetória de alguém.

Ao vislumbrarmos de pronto o nome de batismo do filme, A Música segundo Tom Jobim não nos deixaria pista alguma a respeito de como a narrativa do maestro soberano poderia ser contada num modus operandi cinematográfico. Muito pelo contrário: é preciso deixar que a sucessão dos instantes iniciais da obra se instale e reste bem clara a sua forma diferenciada de abordagem. Nela, o conceito padrão do gênero documentário é magnificamente substituído pelo que de mais especial a trajetória de um artista pode conter – a viva exposição de seu trabalho.

A partir do momento em que Gal Costa surge interpretando Se todos fossem iguais a você, no show “Tributo a Tom Jobim”, de 1993, abrem-se as portas de um delicado e emocionante trajeto pela obra do compositor. Tal como o título desta canção anuncia, a primeira sensação é a de que o legado do artista paira como um modelo de se creditar à existência um exercício constante de perceber a beleza das coisas que nos cercam. Depois desse começo clímax, um sem número de cantores e músicos do mais alto quilate revezam-se em recortes precisos sobre o ato de celebrar a carreira de Tom Jobim.

Dirigido por ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos e também por Dora Jobim, o documentário deixa de lado a forma tradicional de se narrar a vida e obra de alguém. Não há depoimentos, entrevistas, narrações em off. Sequer há fala alguma. Predomina um acervo fotográfico e audiovisual meticulosamente selecionado para dimensionar a importância do compositor na formação musical brasileira. Tudo flui única e exclusivamente pelas ricas alamedas sonoras que a música em si é capaz de proporcionar. Diga-se de passagem, o próprio conteúdo de certas composições de Tom Jobim norteia a sucessão do tempo, especialmente pelo modo como cada intérprete mergulha no universo jobiniano.

Tom Jobim / Foto: Divulgação

Em meio à sequência de momentos marcantes da carreira de Tom, colecionando tanto aspectos íntimos quanto profissionais, um vasto painel de lembranças surge vigoroso. São passagens antológicas, tais como a sua estreia no palco do Carnegie Hall (famosa casa de shows de Nova Iorque), a parceria com o poetinha Vinícius de Moraes, os duetos com Frank Sinatra e o momento em que a composição Sabiá, feita juntamente com Chico Buarque, veio à tona num dos festivais da canção, e cujo registro imagético traz as vozes de Cynara e Cybele, integrantes do Quarteto em Cy. No que se refere aos apelos jazzísticos que sempre rondaram a figura do maestro, o filme mostra desde a magistral voz de Ella Fitzgerald, em Desafinado, como também assinala a presença de nomes como Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Errol Garner e Oscar Peterson.

Ao mesmo tempo em que se traduz como um verdadeiro registro sonoro, o documentário possui um valor histórico inquestionável, pois a própria caminhada de Tom se confunde com passagens importantes da nossa música, sobretudo pelos movimentos que agregaram emblemáticas expressões, como é o caso da Bossa Nova. Um dos pontos do filme que reforçam essa ideia é a cena de “Um Desconhecido Bate à porta”, de 1958, na qual Elizeth Cardoso aparece cantando Eu não existo sem você, ao som do violão de um ainda jovem João Gilberto. E o que dizer também de Agostinho dos Santos interpretando A Felicidade ou Silvia Telles vivendo, à flor da pele, a canção Samba de uma nota só? Como esquecer Elis e Tom no dueto antológico em torno de Águas de março?

A Música segundo Tom Jobim é capaz de repercutir um intenso efeito de encantamento pela falta de interferências narrativas tradicionais. Isso faz com que cada espectador encaixe seu próprio roteiro, demarcando na trajetória do artista aquilo que implica em começo, meio e fim, se é que é possível se falar na figura de um instante derradeiro. Abolida toda e qualquer noção de linearidade, certamente o maior sentido aqui é o de confirmar a imaterialidade da música, dando vazão ao que mais importa: penetrar numa camada onde apenas as sensações fazem morada. Não há espaço para reflexões complexas e tampouco se almeja um grande feito cinematográfico. Como diria o próprio Tom, a linguagem musical basta.


 

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lima

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Ela

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

 

***

 

Sinais

 

Douglas levantou cedo, ignorou o café da manhã e se pôs a esperar. Estava convicto: logo, logo aconteceria. Seria como estava profetizado. Assim como lera no livro sagrado. Tudo o que tinha a fazer era esperar. Crer e esperar.

Cerrou os olhos para que os ruídos mais inaudíveis pudessem penetrar-lhe os ouvidos. Era pela audição que toda a verdade lhe seria revelada. Acreditava que, anulando um dos sentidos, no caso a visão, aguçaria o outro.  Não lhe vinha à cabeça a necessidade de um tempo maior para que a ausência de um sentido fizesse o outro aflorar com uma eficácia quase divina.

Os sons que lhe chegavam da rua ou mesmo do interior da casa ou ainda do seu próprio corpo eram bastante comuns. Por mais que tentasse ouvir neles notas dissonantes, carregadas de sentidos místicos ou de sinais não revelados, nada, absolutamente nada, ultrapassava o banal e o cotidiano. A vida, para seu desespero, transcorria opaca e sem mistério.

***

 

 

Ombro

 

Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o “Ação! gravando!” de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de “perder o rumo”, “ficar sem norte”, “andar à deriva”, fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.

 

 

(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles “Baque” (contos, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista do Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Luciano Bonfim

 

Foto: Jussara Almstadter

2 / 6

Vento varre verões
Sol soçobra. Sobra
Céu cinza: chuva!

 

 

***

 

 

3 / 9

Pelo pasto persiste
Renitente relva renhida
Vereda: verdoso verbete

 

 

***

 

 

4 / 12

Pardais pairam paralelos
Flores flagram flerte
Borboletas buscam benesses

 

 

***

 

 

5 / 15

Andorinha: abnegada ave,
Corta céu / certeira
Verão vem vindo

 

 

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6 / 18

Você veio voluptuosa
Capciosa canção candente
Instável ideograma: id

 

 

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10 / 30

Sentimento: sonolenta sentinela
[Viceja visceral visgo]
Avante, avarento: Amor!

 

 

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11 / 33

Amor: aleatório almanaque
Sublime sensação. Surto.
Errática exímia emoção

 

 

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12 / 36

Paz: passamos perto?
Guerra: grave grosseria –
Deveras dói demais

 

 

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19 / 57

Palavra: préstimo perspicaz
Célebre corsária contumaz
Aquém, além… Acossa

 

 

(Luciano Bonfim nasceu em Crateús (CE) e vive em Sobral (CE). É professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). São de sua autoria os livros: “Dançando com sapatos que incomodam” (2002); “Beber água é tomar banho por dentro” (2006) ; “Móbiles – hestórias e considerações” (2007) e “Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos” (2013). Integra o Grupo Permanência Provisória de Teatro)




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84ª Leva - 10/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Antônio LaCarne

 

Foto: Jussara Almstadter

 

cinco balas de sangue

 

1

arranha-céu da tarde sob a circunferência dos olhos do tigre, tão lindo, alto & perspicaz. informações sobre seu paradeiro afirmam que ele havia conhecido moça de humilde família, prendada & auxiliar de enfermagem. nenhum de nós foi convidado ao casório – eles não permitem circo armado em redutos de jovens senhoras envergonhadíssimas até a alma. como retaliação, nos reunimos no apartamento de klauss para gargalhadas ad infinitum enquanto disfarçávamos, intimamente, as lágrimas na hora do sim, caso estivéssemos na última fila da igreja.

2

imaginei agnus no topo do edifício topázio, mais precisamente no instante em que lia seu manifesto bibelô-satânico contra nossa cultura pop & caracterização urbanóide. uma bandeira esvoaçante de um país da europa oriental lhe tatuava os longos braços, ou quem sabe, os longos braços lhe tatuariam o rosto recentemente partido pela tentativa de suicídio no dia 8 de setembro, quinze dias após nossa primeira tragédia doméstica.

3

na mesa de bar falo sobre o projeto obsessão, terror & glória. você desvia o olhar, cruza os braços, enxerga os detalhes de lugar algum. então caminhamos sem perseverança. a falta de assunto conduz os destinos. oscilamos em lados opostos, alheios ao atravessar a avenida, passos de gato dominados pelos faróis eletrostáticos. aí fecho a porta do quarto & me escureço na contingência de festas, after parties, solidão na cabeceira. disco o número de matilde num relance de jogo gasto, buraco dentro do buraco, navio negreiro da salvação? o segredo do meu charme nos capítulos da novela?  uma frase de efeito no coração da internet?

4

deyse virá no sábado para a sessão de fotos, segredos & troca de perfumes. contarei a história do meu último romance aos frangalhos no instante em que ela voltar da cozinha com duas xícaras de café, possivelmente expressando desagrado & sorriso de maledicência. tomaremos um táxi pouco antes da madrugada altamente intoxicados por nós mesmos & pelo que tentamos desesperadamente esconder.

5

chocado com a atitude levemente esquizofrênica do moço & sua síndrome de lolita defasada. um ódio-amor que não passa, não passará & que há de me inutilizar o senso de estética & o acúmulo de receitas médicas que certamente irão hipotecar o meu futuro antes que eu morra de sede & fome – por isso preciso que giancarlo me tome em seus braços & que sejamos felizes DE-SOR-DE-NA-DA-MEN-TE.

***

 

 

tigre siberiano

adolescentes reproduzem meu fio condutor numa vasta cama de plumas & acessórios eróticos onde invisto minha língua sobre a previsão das mentiras para inventar um relato sobre sexo, ejaculações, coxas nuas que sobrepõem meus orifícios mediúnicos durante o coito & suas doses cavalares de memória em quartos escuros vistos sob o espaldar da cama que não range & que não prolifera nossas ardências na noite de frio, rumba, razão mimeografada presa à estante de brinquedos fabricados nos anos 90.

como se os meus olhos fossem o dorso de um cavalo prestes a mumificar a vida num galope sombrio, relincho tropical no alto da montanha ao invés de reconhecer o grito imaculado do homem que me domina sem o meu consentimento felino, pois quem enumerou os defeitos dos corpos teme o gesto de penetrar ou ser penetrado sem que os inimigos ou amantes sucumbam perante o último orgasmo travestido no sorriso de nossas gengivas, vaginas, líquidos empalidecidos enquanto o dia amanhece & tratamos de nos recompor: livre arbítrio que abre a boca antes que a presa se torne carcaça & eu psicografe o perigo do mundo.

 

 

***

 

 

alô, hoffman?

sons de carros bufando seus gases, rumores tóxicos, notas musicais da regra animália enquanto indivíduos; & nós, os fracos, sim – transpiramos a tal vontadezinha de esplendor que nos alimenta enquanto ensaiamos um ai em prazer omisso, sempre omisso.

deixo você me morder por inteiro durante o meu breakfast da boa conduta. decoro meus lábios & cílios num tango argentino de mero desesperado – as tuas cartas de amor se extraviam & desaprendi as regras do ofício como quem se contenta com material pornográfico.

acelero os passos, encurto os corredores, lavo a louça quando é preciso & dou o meu melhor no momento “vamos guardar o arroz na geladeira”. é que ainda sinto uma tensão de fios elétricos quando ele me abandona & descobre novos ares, como se o meu grito, enfim, o organizasse perfeitamente na vida.

sucumbo pela falta de dinheiro & ascensão.

ele, o trágico amor descalço, é um filho insensato que não respeita conselhos de mãe, madrasta, meretriz. & ainda me perguntam sobre as foices do destino. as foices do destino descosturando flores enquanto caio de quatro na calçada.

katherine surgiu com olhos de lebre & desmarcou nosso encontro, pois quis favorecer outras conquistas. roí as unhas até o sabugo numa espécie de ânsia que empalidece as aventuras de uma puta fantasiada de lady. acabei forçando a barra & não permitindo que eles – oh doces inimigos – virassem de costas, amáveis diante do tal palco imaginário, pois sou um trabalhador braçal inserido na multidão de artistas & publicitários de merda.

hoffman telefonou & marcamos jantar. em duas horas estaríamos cara a cara & inundados num silêncio de cão. banquei o herói & fingi inúmeros descontroles emocionais que ele tanto gosta. ele não sabe que os solavancos da vida nos enchem de uma esperança mumificada. a minha liberdade é para ele mera obsessão pelo zodíaco & afins. não puxo assunto enquanto me entupo de um peixe à delícia meia boca. a noite se desfaz sem sucessos & me contento com mais uma cerveja geladíssima.

(Antônio LaCarne nasceu em 1983 e escreve poemas, fragmentos, contos e diários. É autor do livro de prosa poética “Elefante-Rei: Poemas B” (2009) e participou da coletânea de contos “A Polêmica Vida do Amor” (2011) pela Editora Oito e Meio. No momento finaliza seu segundo livro, “Salão Chinês”, e assina o blog O Impenetrável)