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85ª Leva - 11/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Julia Debasse

O flerte com a inquietude nos toma de tal maneira que tudo parece nela se fundar. Por vezes gentil, noutras tenebrosa, esta senhora se espraia de modo mais intenso do que supomos. E vais mais além, cria ramificações ao ponto de notarmos que, sem ela, muita coisa em matéria de criação não sobreviveria aos mínimos lances do tempo. Basta um simples gesto e logo estamos dependentes de seus comandos, todos eles a ditar o modo como gestar as obras. Ao pensarmos na construção de uma nova Leva da revista, raramente nos vem em mente a presença absoluta e centralizadora de um tema qualquer. Pelo contrário, buscamos aquilo que emana das criações de então, estabelecendo uma via de mão dupla, ciclo constante a retroalimentar nossos ímpetos editoriais. Mas até mesmo esse desejo de sempre impulsionar a aproximação de novos colaboradores e seus feitos deriva dos arremates da inquietude. O termo vem a calhar diante de manifestações criativas como as da artista plástica Julia Debasse que, com seus desenhos e pinturas, opera um efeito de diálogo com o mosaico de textos que ora apresentamos. É possível perceber isso na convergência tida em torno dos poemas de Gustavo Petter, Mar Becker, Fred Matos, Marcantonio e João Filho. No caminho que exala densidades, os contos de Állex Leilla, Sérgio Tavares e Lara Amaral nos falam de coisas entranhadas nos recônditos humanos. O escritor e editor Floriano Martins partilha conosco uma conversa com a cantora Elaine Guedes. Aos olhos de Silvério Duque, o novo livro de poemas de Heitor Brasileiro Filho é verdadeiro convite à leitura. As impressões sobre o filme “Frances Ha” estão registradas nas linhas de Larissa Mendes. Evocando a obra do escritor Whisner Fraga, Anderson Fonseca e Mariel Reis assinalam seus olhares. No girar de nosso Gramofone, as escutas estão voltadas para “Recanto”, trigésimo disco da vigorosa carreira de Gal Costa. Assim, pautamos a construção de mais uma edição, certos de que ao menor esboço de ausência da inquietude, saberemos que algo está fora da ordem natural das coisas. Sendo improvável tal falta, nasce e resiste uma 85ª Leva. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Fred Matos

 

Arte: Julia Debasse

 

 

cangalha

 

jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.

gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.

mas nunca, jamais, nenhum pio.

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.

contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.

mas não.

estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.

 

 

 ***

 

 

balada para uma advogada

 

imagino-te imersa em códices
e que enquanto o cérebro decodifica
as filigranas de um processo insosso
a alma mergulha em outro vocabulário

as páginas voam
uma mão rascunha o contraditório
a outra, cotovelo sobre a mesa,
apóia a levemente inclinada face

há que verificar jurisprudências
precedentes que se ajustem à tese
e que tudo se cumpra no devido prazo

a alma, contudo, alheia, tece
sonhos, poemas, outras doutrinas
contraponto ao que o cérebro messe.

 

 

 ***

 

 

 entre mim e mim

 

“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.
Cecília Meireles

 

não sei quem destes
tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,

mas pouco importa porque
qualquer deles sou passageiro
tenho neles
a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido

 

 

***

 

 

balé

 

tenho um mundo sobre os ombros
e ânsia de navegar
mas rasgaram-se as velas
e sobre pálpebras de pedras
sal sol suor
mas não há mar
mais não há
apenas este peso nas pernas
e ânsia de caminhar
mas quebraram-se meus ossos
e sobre as nossas cabeças
um balé de poréns
senões e todavias
e girando como um pião
na velha arca de vidro
uma constelação de sins
uma nebulosa de nãos.

 

 

***

 

 

o verbo

 

a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos

e o verbo…

ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.

 

(Fred Matos é baiano, casado, três filhos, dois netos, três livros publicados: “Eu, Meu Outro” (Poemas – Editora Poesia Diária, 1999); “Anomalias” (Editora Kelps, 2002 – Poesia) e “Melhor Que a Encomenda” (FUNCEB, 2006 – Contos), além de outras participações em antologias)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GAL COSTA – RECANTO

 

 

 

 

A voz atravessa uma alameda de aparatos eletrônicos. Insere-se no outro lado de um mundo imerso em tantas e tamanhas reflexões. O que está por trás de seu canto revela-se como uma intensa ciranda de perguntas. Mas poucas são as respostas quando sabemos que tudo acontece diante de nossos indomáveis olhares e percepções. Definitivamente, a modernidade é um vão onde alguns poucos se sentem à vontade para desfilar suas convicções. No entanto, Gal Costa, penetrando outras esferas do tempo e da canção, vem nos lembrar de alguma coisa que não sabemos bem onde se abriga. Seja numa porção obscura da memória ou no ato de flagrar o que explode em nossa realidade, o disco Recanto nos lembra que a vida é uma estrada teimosamente sinuosa.

Desde o início do álbum, somos impactados pela densa atmosfera duma abre-alas Recanto Escuro, restando prenunciado que tipo de percurso seremos levados a experimentar daí por diante. Como numa viagem carregada de signos múltiplos, o disco flui pelas vias hesitantes dos sentidos humanos. Um eixo filosófico cruza a obra de norte a sul. Talvez aqui um parêntese seja fundamental: considerar que as letras são todas compostas por um inquieto Caetano Veloso. E o ato de flertar permanentemente com os impulsos da modernidade parecem não apenas fazer parte das acepções do compositor baiano, mas também atraem Gal para um terreno pouco usual em sua carreira.

Esqueçamos, temporariamente, da Gal Costa acostumada a interpretar com os arremates puros da delicadeza para considerar que certas ousadias fazem bem a uma artista de trajetória inquestionável. E por que não dizer que Recanto é um disco ousado, forte e necessário?

Num tempo em que a globalização de nossas virtudes e misérias uniformiza até mesmo modos de pensar, o cenário pode ser um pouco menos desolador. Talvez, nesse aspecto, o disco de Gal chacoalhe ideias e pontos de vista buscando afirmar que, entre mortos e feridos, sempre restará algo por dizer. Munida com a armadura de sua magistral voz, ela cruza os áridos caminhos propostos pelo verbo de Caetano e confere um recorte insone à vida.

Não são poucas as canções que traduzem o espírito indócil presente no álbum. Faixas como Cara do Mundo, Autotune Autoerótico, Madre Deus e Segunda reverberam a constatação de que nosso tempo é um verdadeiro painel de imprecisões. Mas é em Tudo Dói que o todo se desnuda. Nela, um exercício de deslocamentos ganha corpo, demonstrando a unicidade dos momentos que ignoramos com certa frequência.

Não seria possível trilhar as vias da dita pós-modernidade sem cutucar a sociedade de consumo e suas clássicas distorções. É o que fica evidenciado em letras como Neguinho e Sexo e Dinheiro. Para ambas, Gal insinua sua verve afirmativa como quem pontua uma adequada crítica ao colossal modelo impregnado pelo capitalismo. Se nessas duas canções os ânimos estão mais ácidos, o contraponto vem da suavidade inserida em Mansidão, música que festeja o dom do cantar, sem dúvida alguma a ferramenta mais preciosa da artista. Noutro momento, ainda há espaço para o estreitar de laços entre o funk carioca e o maculelê, ritmos que se unem acertadamente em Miami Maculelê.

Recanto, sobretudo por sua proposta inovadora, não é uma obra fácil de se apreender numa primeira escuta. É necessário um mergulho mais aprofundado, algo que faça com que os ouvidos percebam as convergências e nuances entre texto, voz e arranjos. Diga-se de passagem, a atmosfera eletrônica é ponto de destaque no disco, evidenciando a alternância de sentimentos ali misturados. Mesmo saindo dessa viagem musical e poética constatando que “tudo dói”, ainda podemos ser atenuados pela singularidade das coisas que fingimos não ver.

 

 

 

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcantonio

 

Arte: Julia Debasse

ATIVIDADE INTERNA

Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.

Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.

Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
– forçosamente anfíbios.

Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.

Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.

Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.

 

 

***

 

 

PLANAR E POUSAR

 

1 – Pluma

Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.

Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.

Ó pluma randômica, em que esquina de voo poderias escapar
Da ideia de pássaro que te aprisiona?

 

2 – Osso

Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.

É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.

 

3 – Pouso

O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.

 

 

***

 

 

MESQUINHEZ

 

Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Assim, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.

Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não trago
Neles escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?

Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.

 

 

 

***

 

 

ANGÚSTIA

 

Não há recorte no vazio
que espere pela palavra
como o desdentado espera
a prótese que o faça esquecer
dos dentes naturais;
ou como um sorriso sombrio
de bueiro aguarda uma tampa;
ou como uma tomada fêmea
aguarda os pinos;
ou como uma algema aguarda
os pulsos;
ou como uma sequência aguarda
um número;
ou como a casa do punho da camisa
aguarda o botão;
ou como um rolamento aguarda
uma bilha.

A palavra cai num largo vazio,
como uma pedra num cânion,
como na luz difusa do mundo
um parto.

Ou cai num meio fluido
(continente transparente, já ocupado)
qual um comprimido efervescente
no Atlântico:

não é dela a espuma  que vaza na orla
nem o som das ondas é o seu chiado.

 

 

(Marcantonio, natural do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado em livro). Reside atualmente em João Pessoa. Escreve nos blogs Diário Extrovertido e O Azul Temporário. Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Sérgio Tavares


Arte: Julia Debasse

 

 As moscas

1.

Airam caminhou até a mesa, matutando o que poderia fazer. Nua, cortou o ar espesso e febril, os pés em carne escura macerando a terra cozida. As moscas esvoaçavam em torno do seu corpo, atraídas pelo almíscar do sexo e a doçura do leite em placas viscosas à roda dos mamilos rachados. De quando em vez, ela consentia aos insetos seus banquetes. Por que somente a criança e o marido deveriam ter direito a essas partes? Airam se retirava até o catre de palha, onde o casal se recolhia, e se solidarizava ao apetite das moscas. As pernas abertas configuravam o convite ao fartum que atraía as famintas. Era, em si, um estado de sossego para Airam. Uma desaparição em deleite e estupor, que transportava suas ideias para um vale de montanhas escarpadas recobertas por gradações de verde e azul, de frescor e absorvência. Sentindo as moscas sugarem o suco da fenda, as patinhas peludas roçagando seu ventre na escalada rumo aos seios, Airam se intoxicava com magras doses de prazer. Um episódio raro de enlevo capaz de evocar epifanias do céu ou do inferno.

2.

Airam acercou a mesa e socou o tampo com o punho fechado. Um gesto feito de brusquidão para deter o choro desabalado da criança e espantar os saqueadores de provisões que se fartavam daqueles restos vitais. Uma nuvem em vários tons de zumbidos ergueu um voo errático, enquanto dois calangos escaparam por uma rachadura no barro que conformava as paredes começando a esfarelar por conta do calor atroz. Os clandestinos respeitaram Airam, a criança sequer por um triz. Os gritos incontidos percorriam a constituição tosca do casebre de taipa, sem fuga naquela caixa abafada e contundente, irradiada pela fornalha do meio-dia. A criança estrilava e se engasgava com o sopro áspero que extraía dos pulmões. Iové era o seu nome. Cinco meses de vida, cria de Airam e o marido, parida sobre palhas pelos meios naturais dos mamíferos. Dor e fome eram a causa do desalento (a carne recém-nascida sendo cozida), conquanto Airam acreditasse que havia uma mentira naquela algazarra, uma ação dissimulada para ruir de vez com sua sanidade.

Do punho fechado, ela dobrou os dedos, aferrando as unhas no tampo. A mesa avariada, conforme Airam, trazia singularidades daquela vida vulgar. Inanidade era a principal delas. A mesa era indiferente aos castigos da estação, não se importando com o surro que se alojava nos sulcos da madeira, com os insetos escrotos que escalavam seus pés. A mesa não reclamava ou sentia. Não se apegava ao desespero da criança. Airam tampouco. Não conseguia, por outro lado, deter a libido do marido que evoluía mesmo sem complacência. Neste caso, ela simplesmente se colocava de quatro, deitava a testa na palha e se entregava à condução dele. O calor certamente tivera a sua parte nos primeiros coitos, mas, de maneira paulatina, o desejo foi minguando à medida que eles pagavam a consequência nociva do ato: a cópula aumentava a fome e atraía mais moscas.

3.

Havia outra razão para a secura sexual entre Airam e o marido. Alisando o tampo da mesa, ela sentia no contato dos dedos as cicatrizes e lascas na madeira, que era a mesma sensação de acariciar o próprio corpo. Airam nua era uma tábua sem espessura e desidratada. Criatura minguada, tinha pernas na feição de galhos secos. Os seios flácidos pendiam num abdômen desenhado por faixas de costelas, pelos pubianos lhe arvoravam do ventre ao umbigo. A tez era escura e lustrosa do tom da resina que antes cobria a mesa. Rosto encovado, olhos grandes e escuros, cabelos crespos na altura dos ombros. Airam tinha em si a vida insustentável daquele deserto, a própria esterilidade do solo. Sua aparência era algo de dar pena. Um corpo fraco, um útero doente. Por duas ocasiões, antes de Iové, ficou grávida durante alguns meses, antes de abortar naturalmente. No primeiro caso, três meses; no segundo, dois. De modo que, ao constatar o atraso da regra, crescia o temor quanto à possível gravidez e, inevitavelmente, a sua descontinuação. Sendo assim, a gestação de Iové foi o pior período em que Airam passou sozinha, mais que os dias perseguidos pela fome ou pelo exício. Assistir às mutações do seu corpo numa contagem regressiva até o momento em que a primeira nesga de plasma deslizou por entre as suas pernas foi cruel o suficiente para anular qualquer traço da felicidade que acomete a mulher que ganha um filho. Airam pensava nisso, alisando ainda o tampo, depois agarrou uma cumbuca e encheu com a água concentrada no fundo da caçamba. Engoliu o líquido com as larvas. A gravidez foi um erro; ter se completado, uma tragédia. Dando vida ao filho, ela se matava.

4.

Iové trovoava a valentia da tempestade que nunca virá. O gume da voz rasgava o ar em golpes grosseiros, lanhava as paredes do casebre sem compartimentos distintos. Em Airam, penetravam as ideias a ponto de fabricarem pensamentos cruéis. Na companhia das moscas, ela se postou sobre o ninho feito de palhas e panos, fitando o berreiro da criança através da proteção de filó. Iové estava uma bola de sangue. Cinco meses com a compleição de um feto, todo em pele e osso senão pela barriga dilatada, um reprodutório de vermes. Tinha cólera, a causa da pasta lodosa que manchava os panos e os flancos do corpo franzino. Por isso chorava, estava sujo e doente. Subalimentado. O cheiro das fezes deixava as moscas em polvorosa, afastando-se do corpo de Airam, e desabando feito contas escuras à procura de rasgadelas no filó que cobria o ninho.

A falta de amparo transfigurava o rosto macilento num esgar afogueado. Chacoalhava os braços em busca de ar nos finos intervalos entre berros e soluços. Iové bramia, rugia, balia, clamava, esperneava e, quanto mais o fazia, mais recendia o ódio em Airam. Era um embuste, ela conhecia aquele pequeno verme. Sabia que toda a choradeira se valia ao único desejo de sugar seus seios. Mas chupar o quê? Estavam tão secos quanto os poços que circundavam o casebre, as árvores que se retorciam até estalar. Se quisesse extrair dali seu sangue, ela estava à disposição. Ainda que, depois de tantas secas, ela soubesse que o sangue deles se tornara uma massa escuriça que não mais derramava da carne. Airam voltou a pensar no sentido da gravidez. Para que vir a esse fim de mundo? Para berrar contra ele? Por que simplesmente não morre em silêncio, da mesma maneira que fizeram os cachorros, as galinhas e os porcos?

Sem resposta, Airam arrastou-se até um canto da parede, onde repousava um cesto de vime. Ali guardava vestimentas e panos, tecidos conservados à temperatura da fornalha. Catou um pedaço de malha branca e retomou a posição sobre o ninho. Iové chorava aos gritos, no entanto, à menção de desatar o nó que prendia as duas caudas do filó, foi aquietando-se de maneira paulatina, prestes a não emitir um silvo. O rosto recuperava a palidez, olhos vidrados nos movimentos pendulares dos seios da mulher acima. O silêncio tão esperado deu-se então. Sobraram apenas os zumbidos das moscas. Um mal menor, contudo. Os insetos se aglomeravam nos pulsos e dedos dela, ferrenhamente em busca de um acesso ao ninho desfeito. Tomada por um gesto só legitimado pela maternidade, Airam umedecia a malha em toques na ponta da língua, em seguida apagava o desasseio no corpo da criança. Iové assistia ao zelo calado; talvez confuso, talvez se sentindo vitorioso. Certa apenas era a avidez para abocanhar os seios doces como as frutas que não sabia existirem.

5.

Minutos depois, Iové estava limpo o suficiente para não causar asco. Airam então o alçou pelas axilas e o retirou da redoma. A entrada franca foi um convite mais que irrecusável para as moscas, que avançaram a toda sobre a pasta lodosa com suas sedes por imundície. Airam sentia a criança. Tão leve e frágil, que seria fácil demais matá-la com uma queda. Um descuido, juraria ao marido. Simplesmente ela teria de recolher os dedos, um por um, e naturalmente Iové bateria de cabeça na dureza do chão. Quebrar o pescoço, uma saída sedutora. Airam puxou um dedo, depois outro, o terceiro e desceu a criança até o alento do colo, apoiando suas costas no antebraço dobrado, a testa colada na armação ossuda da clavícula. Iové se inquietava com o cheiro do leite ressecado no seio, balançando as pernas no ar. Olhos grandes e escuros semelhantes aos da mãe, ela o encarava. Um rumor de excitação, um agito de súplica. Insânia, Airam entoava à medida que descia o braço até a medida do desejo da criança, antevendo a pressão que lhe cobraria um grito. Iové abocanhou seu seio com gana. Uma mordida de gengivas, dolorida e malograda. Matar é bondade aqui, disse para si mesma. E tomada por um nojo próprio, cuspiu, com toda força, no rosto daquilo que tentava extrair dela a vida, tola criatura.

6.

Sob a ditadura do Sol, eles aprenderam a viver entre perdas e punições. A sobrevivência desvalida dessa condição era não só impossível como inarrável. O Sol não permitia rebeliões. Controlava o tempo, os imperativos do corpo, a textura do cenário e os flagelos diários; um reinado fundamentado em repetições. Na aragem da manhã, o avanço do manto nácar vestindo a terra; ao meio-dia, o fervilhar do ar e a explosão das cores; à tarde, o céu maciço em tela de delírios de fogo e o peso do desencanto; à noite, uma ausência furtiva, sabotada pelo cheiro ferroso e o halo de vapor entre as constelações. Os que viviam sob sua tutela, aprendiam a sobreviver segundo sua permissão. Os cárceres do Sol eram ceifados de livre-arbítrio, criados numa colmeia de dissidência e torpor. E, a quem relutasse, o calor se encarregava de ruir a sanidade, perambulando sem trégua entre as rachaduras do solo até esfarelar. O Sol transformava o espanto da vida em condenação desde o parto, preservando a imutabilidade dos dias a fim de não decifrar passado e presente, tampouco futuro. Semeando a desesperação entre os sobreviventes da seca, revelava que suas existências dependiam restritamente de seguir os mandamentos. A vida que tinham era o barro que pisavam, cuspiam, construíam suas moradas, enterravam os mortos e viravam ossos. O barro eram eles; eles eram o barro cozido pelo Sol. Airam, Iové e o marido, todos feitos à Sua semelhança.

 

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Frances Ha (Frances Ha). EUA. 2012.

 

 

‘Gosto de coisas que se parecem com erros’.
(Frances Ha)

“Ninguém passa incólume aos 27”. Seja você um astro do rock ou um reles anônimo, colecione sucessos ou fracassos, a verdade é que tal combinação numérica parece desencadear uma crise existencial em qualquer jovem-adulto. Com a cativante e atrapalhada Frances (Greta Gerwig) não seria diferente. Assistente de uma companhia de dança de Nova York, seu sonho é integrar a trupe no cargo de bailarina e atuar no aguardado espetáculo de Natal. Inocente, sonhadora e quase infantil – mesmo próxima a tornar-se uma balzaquiana –, a moça divide um apartamento no Brooklyn com Sophie (Mickey Sumner, filha do cantor Sting), por quem nutre uma amizade incondicional que, em determinado ponto, mostra-se praticamente unilateral, pois a amiga não pensa duas vezes antes de abandoná-la por uma morada em melhor localização. A partir disso, observamos (e nos identificamos) com as agruras da personagem em busca de realização pessoal e profissional. Além, claro, de um novo lar.

Dirigido por Noah Baumbach, que assina também o roteiro em parceria com a própria Greta, e filmado em preto e branco, Frances Ha possui certo ar nostálgico e quase atemporal: presta uma bela homenagem à nouvelle vague (sobretudo na lacônica passagem da protagonista por Paris), remete ao emblemático Manhattan (1979), de Woody Allen (Frances herda o estilo neurótico do nova-iorquino) e possui certa aura loser de O Balconista (1994), outro clássico P&B, de Kevin Smith. Comparado à série Girls (ao menos o ator Adam Drive está presente em ambas as produções), talvez a originalidade desta comédia dramática resida justamente em sua simplicidade e no inquestionável carisma de Frances, uma espécie de Amélie Poulain monocromática.

 

Frances (Greta Gerwig) em performance pelas ruas de NY / Foto: Divulgação

 

Mesmo sem decretar julgamentos, Frances Ha traça um perfil bem-humorado e sincero dos confusos jovens do século XXI, estes adolescentes tardios, equilibristas entre tantos anseios e poucos resultados. Leve, mas nem por isso menos complexo, a narrativa verborrágica jamais chega a soar filosófica ou fatalista: ao contrário, a personagem é só mais um ser “bagunçado” e “inamorável” tentando administrar suas frustrações cotidianas. Impossível não se emocionar, por exemplo, com a descrição de Frances do que seria “a sua pessoa nesta vida”, uma das únicas passagens “românticas” do filme. Outro ponto de destaque é a animada trilha sonora, com David Bowie (ela dança ao som de Modern Love pelas ruas de NY), Paul McCartney e o oportuno hino Every 1’s a Winner, do Hot Chocolate.

O longa (nem tão longo assim, pouco mais de 80 minutos de exibição) retrata as relações e rupturas que se estabelecem na vida dos imaturos kidults. Inspirado na própria experiência de Greta Gerwig e na vida de seus amigos artistas que vivem na Big Apple (a atriz contracena inclusive com sua família real na sequência da cidade natal, Sacramento), Frances Ha (aliás, o significado de Ha é elucidado nos minutos finais) tem a verdade e o improviso que a vida coreografa. Apesar da atmosfera cult, não se trata de um enredo hermético ou experimental: é a história de altos e baixos de qualquer ser humano errante e passional. O erro aqui é perder este pequeno clássico moderno.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é uma Frances Ha tupiniquim, sem Sophie e sem o lance da dança)

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Whisner Fraga: um fundador de mundos

Por Anderson Fonseca e Mariel Reis

 

Whisner Fraga / Foto: divulgação

 

Fernando Gabeira, escritor e político, escreveu Sinais de Vida no Planeta Minas, contando as peculiaridades desse estado da federação repleto de causos e personagens curiosos. O endosso de que Minas Gerais é mesmo outro planeta vem de outro escritor Humberto Werneck, no livro Os Desatinos da Rapaziada, onde elenca a rica e longeva vida intelectual da Belo Horizonte dos anos vinte. No livro de Werneck encontramos nomes respeitáveis das letras nacionais como Pedro Nava, Murilo Rubião e Carlos Drummond de Andrade. E acrescente-se a informação de que tanto Fernando Gabeira e Humberto Werneck são mineiros, afirmando os sinais de Vida do planeta Minas.

Os sinais de Minas logo se tornam visíveis nos céus brasileiros. Não se pode ignorar um mineiro por muito tempo por sua tenacidade. E se ele tiver talento será impossível. E tenacidade nesse país pode ser tomada como sinônimo de teimosia e o mineiro é um ser teimoso ou tinhoso. De lá, desse planeta, Whisner Fraga, de Ituiutaba, tem enviado à literatura brasileira sinais inequívocos de que quer marcar sua passagem por ela. Empenhando-se em concursos literários e tornando-se vencedor dos mais ilustres, aumentou sua notoriedade e alcance. Mas não precisaria se valer do recurso, se quisesse. O livro de contos Coreografia dos Danados, elogiado por Dionísio Silva, garantia o lugar do ficcionista nas estantes dos leitores mais exigentes.

Whisner Fraga é um escritor fluido, plástico e poético. Não é um criador rendido às técnicas narrativas que preconizam as orações curtas como meio de enredar o leitor. É um autor caudaloso, porém exato, porque é um rio que não transborda as próprias margens. O contista talentoso detectado nos concursos também não escapou do olhar arguto da brasilianista Marlen Eckl que o catapultou para a Feira de Frankfurt, juntamente com outros autores brasileiros, para brilhar na maior feira literária européia onde o Brasil era o país homenageado. E não há dúvida do acerto em sua escolha para integrar o casting de escritores levados para as terras alemãs.

A errância, o não-lugar e a consciência fraturada das personagens constituem a danação explicitada na coreografia ensaiada pelo autor para as suas criações. O romancista Whisner Fraga radicaliza as experiências do contista, espiralando o universo deste e ampliando em um jogo de esconde e revela que atravessa as sombras que a sua criação traz. Na literatura brasileira, Fraga pode ser situado como descendente de Raduan Nassar, embora sua descendência não indique uma devoção castradora.

Em seu romance O Abismo Poente se entrelaçam diversos registros para construir o efeito desejado sobre o não-lugar de seus personagens. Obra considerada experimental, o autor equilibra o conteúdo e a forma na linguagem.  Em sua obra percebe-se o signo da errância do estrangeiro como painel do destino daqueles que ajudaram a construir o país.

O estranho estrangeiro

 

Fraga é um poeta encerrado dentro do prosador. No espírito de sua narrativa misturam-se amargor, ternura e raiva. Descreve quadros intensos em que a condição humana é explorada minuciosamente e parece requerer para si o título de indisciplinador de almas. A danação de seus personagens é constante, debatem-se nas teias perversas de seus próprios destinos como Helena e Afif, e as linhas que os conduzem pendentes dos dedos de seu criador não transparecem em momento algum.

A literatura de Whisner Fraga é uma literatura que investiga aquilo que Caio Fernando Abreu denominou como o estranho estrangeiro. O homem exilado em si mesmo ou de si e de sua terra, cruzando o território inóspito do humano em busca de si mesmo e de sua identidade, construindo-se com os cacos que espelham a sua cultura natal ou tentando conformá-la às exigências circunstantes que nem sempre o favorecem.

E também não é apenas uma literatura de exilado, ou de mera observação antropológica sobre o olhar do estrangeiro ou daquele que está no não-lugar para a terra que por ora habita. O escritor não reedita somente a noção do errante, há nela uma fratura que impede o homem de ligar-se a si mesmo, uma danação que consome os personagens como estava prenunciado em seu primeiro livro de contos, um bailado macabro de intenções que se não se confirmam, enchem o espaço, entre a intenção e a realização, de alegrias e estertores, de desejo e proibição, do claro e do escuro, do permitido e o interdito.

Whisner Fraga, mineiro de Ituiutaba, escritor brasileiro é outra das apostas de um novo caminho no cenário da literatura atual. É outro sinal do planeta Minas para o qual o futuro terá que estar atento, porque, em sua precipitação, pode achar que se trata de um cometa, quando, na verdade, é um sol, não poente, mas à pino, ardendo sobre um novo mundo constituído.

TRECHO:

 

sob o gesso dos olhos o desespero coagulado, o mistério  rastejando nas barras da sua sobrancelha, um comício de dúvidas revestindo o vitoriano manto da incompreensão, mas são assim as coisas não sorvidas pela goela da vista, as invisibilidades tardias, mesmo o vento só é plenamente vento quando se revela por meio da poeira, ah, tomes, ah, helena, este nosso mundo é uma espessa cratera de inexistências, da qual nos desviamos com as córneas empoladas de medo e arrogância.

(Abismo Poente, Ed. Ficções, 2009).

(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)

(Mariel Reis é autor dos livros Vida Cachorra (2011) e A arte de afinar o silêncio (2012))

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

João Filho

 

Arte: Julia Debasse

 

 

 

NITIDEZ SUBMERSA


Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
— avenidas, becos, praças —
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.

 

 

***

 

 

SALVADOR, 1996-2013

 

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

 

 

***

 

 

Para José Luís Franco

 

Esteve aqui, durante a tarde e nunca mais…
E lenta, lentamente, sua ausência cresce.

Mais uma. Porém, perdas não são sempre iguais,
e o tempo, irmão, nem tudo amadurece.

Dói e assusta qualquer resquício de presença,
falta é peso e não vácuo e silêncio,

pois arrastamos nossa carga imensa
nesta margem extrema que nos vence, e o

que temos e tocamos é tal solidão,
e mesmo as coisas mais amadas são amargas:

os valores sem níquel perdidos ou não:
dedicatórias, fotos, versos, as recargas

da memória tão vária na mesmice.
A carne arde só e não há lágrima

para dessedentá-la. Luz franca sem lástima.
No travo dos adeuses fica o que eu não disse.

 

 

***

 

 

DIDÁTICA

 

O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa —
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

 

 

***

 

 

LUZ PRIMEIRA

 

É possível que tão inquieto quanto este,
menos o acúmulo de desacertos de sua rota,
mais o céu primevo
e o azul bruto.
É provável que já fosse isto,
porém tosco a palmilhar seu sentido
e se assombrasse de estar desperto na disposição geral de tudo;
melhor não, nem mais puro,
não isso,
talvez intactos alguns caminhos,
e a relva e as águas e os bichos
fossem realmente mais livres.
A luz primeira veio com o primeiro grito,
e o invisível foi o medo mais duro,
porque o visto era em sua metade crível;
ao perceber que negar não era resolver,
a morte
foi o mistério mais agudo.

 

 

(João Filho nasceu em 1975, em Bom Jesus da Lapa/BA. Participou de algumas antologias, dentre elas: Contos sobre tela, Editora Pinakotheke, 2005, Brasil; Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña, Emecé Editores, 2007, Argentina; Travessias singulares – Pais e filhos, Casarão do Verbo, 2008, Brasil; Geração Zero Zero, fricções em rede, Língua Geral, 2011, Brasil; Popcorn unterm Zuckerhut, Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha. Publicou Encarniçado, contos, Editora Baleia, 2004; Três sibilas, poesia, Dulcinéia Catadora, 2008, e Ao longo da linha amarela, contos, P55, 2009)

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Lara Amaral

 

Arte: Julia Debasse

 

Bolo de pelos

 

a língua áspera estala o lodo. de meia em meia hora um novelo sobe à úvula. engulo novamente – o estômago vazio –, vai que amanhã só coma os restos das baratas. a geladeira cheia, mas até alcançá-la abate-me a aeronáutica de cismos voadores. sem contar depois de abrir a porta, o frio desarticulado arma as travas dos lábios. ah, sobreviver no errante estado para-raio. acostuma-se, sabe? não precisa de beleza: eu ponho a mesa baixa pros ratinhos, mastigo o vidro estilhaçado da visão-quebravento a favor do rasgo e enrijeço até o ponto em que estremeça os ócios. próxima, ouça, cavalga a trovoada – não tarda o horizonte romper-me-á em sobremesa.

 

 

 

***

 

 

 

Herança

 

Confiou-me a história pelas rachaduras em minhas mãos. Mãos de anciã que acariciam o mundo às costas como se carregasse um bebê morto rumo ao milagre extinto. É-se sempre um bom tempo para morrer e eu perdi homens em conflito consigo. Choro mais por não ter ido, corroendo a boca pelo excesso de sal e a falta de chuva. No entanto em casa a umidade não para de aumentar e não há reza que acuda os quartos vizinhos transbordando por debaixo da minha porta. Só me restaram cartas de quase-amor de despedida e ainda dizem para eu sorrir pois volta o sol às cinco e quarenta e cinco todo dia. Mas perco o fôlego na cama, deitada, a cada madrugada ao escutar o galo que canta por uma hora seguida, desfalecendo às três da manhã sem nenhuma luz antecipar-se para acudi-lo. Troco toda a esperança traíra pela tempestade que se perdeu na estrada no instante do choque de suas fendas vulcânicas. Seu corpo adormeceu por lá entre magma e faróis que passavam lentos observando o cataclismo, o qual herdei de ti – nessas horas deus devia estar em sua escotilha à prova de som, intocável pela fragilidade humana. Há tanto que só falo comigo mesma porque os monstros têm medo de mim e se escondem mantendo a lâmpada da consciência acesa. Abdico das enganosas cartas, elas que se virem em pipas, origamis, balões de seda. Este ano anuncia a maior seca no meu peito encalhando todos os barcos de papel. Mina em rebanho a areia e o amor que veio imaturo me encontra velha, arrebentada, com os olhos vazados de ampulheta. Perdi a contagem que regressa para me lançarem como âncora. O aceno desde o cerne habituado ao meu adeus.

 

(Larissa Amaral Teixeira usa o pseudônimo de Lara Amaral como assinatura poética. Nasceu em Brasília em 1986. Formada em Jornalismo, escreve poesia desde os 13 anos e arrisca alguns contos de vez em quando)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Do sonho ao pó… ou breves considerações sobre o livro  O Chão e a Nuvem de Heitor Brasileiro Filho

Por Silvério Duque

 

 

 

 

ao poeta e amigo Antônio Brasileiro,
pois tudo que, aqui, se aplicar ao brasileiro de Jacobina-Ilhéus,
aplicar-se-á, muito melhor, ao brasileiro de Feira de Santana…
Esquecida no tempo, a alma procura
algo que, já não é, porque era tanto…
Emílio Moura

 

Fui presenteado, por seu próprio autor, com o livro O chão e a nuvem (Mondrongo, 2013), de Heitor Brasileiro Filho, e, sem perder tempo com a tamanha falta de tempo que muito me desagrada ultimamente, li-o de pronto e com muito apetite. E posso confessar que, com o manjar poético que Heitor Brasileiro Filho preparou para mim, bem como aos seus outros leitores, dei-me muito por satisfeito.

Poeta de alma e coração de ouro – por ter nascido na cidade baiana de Jacobina – e de verso e prosa atrelados a uma consciência tão lírica quanto rebelde – pois é escritor radicado em Ilhéus –, Heitor Brasileiro Filho revela-se um poeta de temas e formas tão engenhosos quão bem realizados, por mais que lhes faltem, muitas vezes, as técnicas clássicas que formaram nossa consciência literária ao longo de séculos e lhe sobrem aquele impulso de liberdade e, muitas vezes, de libertinagem, que nos é inerente desde a aurora do século passado. Dizer mais o quê, então…?!

Vejamos… À primeira impressão, o livro (com uma primorosa edição, diga-se, bem típica à qualidade que a Editora Mondrongo tanto gosta de prezar e presentear aos seus consumidores) não poderia me parecer melhor, porque os elementos estruturais da poesia de Heitor Brasileiro Filho revelam-se frutos de uma consciência artística muito vigorosa, sem que, em algum momento, venham perder-se de uma identificação realista tanto com a vida, em suas mais diversas impressões, quanto com a natureza, em seus mais diferentes sentidos, mostrando pouquíssimos traços com as influências românticas e modernas das quais a expressão poética brasileira, em sua atualidade, ainda se fia e se confia. Não que Heitor Brasileiro Filho não as possua; só não se dá ao luxo idiossincrático de revelá-las, sem nenhum pudor, a um público tanto preparado, bem como àquele pouco afeito a discussões poético-formais de quaisquer tipos, como é o caso deste que vos fala… – Oh, meu Deus!

Também, não é preciso, todavia, um diploma universitário de qualquer tipo para perceber que, em sua poesia, Heitor Brasileiro não é um homem de comportamento fechado – defeito terrível de muitos pequenos e grandes bardos –, digo: de se apresentar (enquanto poeta que é) fechado ao mundo. Como queria um T.S. Eliot, o autor de O chão e a nuvem não foge “ao desenho de autorretratos nem de confissões pessoais”, sem que sua veia poética se perca por causa disso. Tudo que se lê, em O chão e a nuvem, é de uma autonomia muito sagaz, e digo até sem vergonha, pois se lá existem temas fortes à pessoa de Heitor Brasileiro Filho, os mesmos poderiam ter um alto preço ao poeta.

Uma coisa é certa, este versificador de formas livres e, às vezes, até descuidadas, sabe (como poucos) captar a essência espiritual de pessoas de modos e vidas simples, somadas, evidentemente, aos modos e, quem sabe, à vida simples dele próprio. Seus versos, diga-se não só de passagem, têm uma espécie de engenharia que muito contribuem para isso. E, se não bastasse, aglomeram um imenso cabedal de sons, imagens e efeitos sinestésicos tão dissonantes, muitas vezes, que só poderiam terminar numa mistura tão inusitada quão intensamente reveladora. É o caso de versos como os contidos em Soluços Sísmicos:

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado.

 

os do intricado e revelador O grande espetáculo da terra:

 

Hoje não vou à Broadway –
pois não é que nunca vou à Broadway –
que importa fogo ou neve em New York?
Vou ficar para o grande espetáculo da terra

como o circo de Maru
com a rumbeira Margareth
e os clowns Chega-Chega e Batatinha
no ritmo inebriante de Tijuana Taxi

meu Deus, que fim levou a rumbeira Margareth
delírio da criançada de perdida infância
casou-se e foi para Feira de Santana

véus – muitos véus – iam-se dissolvendo um a um
agora grinaldas, o buquê, girândolas de pétalas
uma tiara de corações partidos
e aquela calda toda
……………………………..de branco

imagino-a sob o altar da Catedral
da sagrada Nossa Senhora de Sant’Anna
ao eterno som de Tijuana Taxi

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

(apoteose dos grotões de minha terra:
na aurífera
na agrícola
nessa imensidão distante e tão próxima
como a antiga cidade de Jacobina

sem o arpejo, o canto, o desespero de Bob Silva
sem o auto-faltante da Rádio Nacional
nem a doce viola de Paulo da China
numa esquina perdida da Rua Ana Nery
mas cristalizada numa antiga cantiga)

Há um momento em que os malabares
…………………………………..eternizam-se no ar

e o trapezista projetava-se
para o alto e precipitava-se
sobre um assoalho de taipás
para o delírio da meninada
………………………sem infância
sem rede
sem coração

e lá estava o homem-borracha
estatelado em linha reta
– e a linha tênue –
Na linha oblíqua do chão

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

Têm-se infância e memória?
A quem importa a ruína do Empire State?
Que importa a estrutura vítrea do Louvre
o burburinho do Quartier Latin
as ruínas gregas e as pirâmides no Cairo
o Coliseu e o túmulo de Tutacamon?

Meu Deus, o que importa
a privada de ouro de um sultão em Omã
se o levante do Oriente
é o que há de mais moderno?

Que importa aquele edifício em Dubai
ante o singelo pedido da natureza –
subcutânea tatuagem e a fina estampa da pele?

Deem-nos infância e memória
e ficaremos para o grande espetáculo da terra.

 

ou mesmo nos versos, como dirá Jorge de Sousa Araújo, de “solução simples e grande gozo estético”, contidos em Lirium:

 

quem
bem me
quer
não me
despe
……ta
……la

 

Mas cuidado, confissões de poetas não têm valor algum para a obra de arte se não forem compostas como obras de arte. E versos como os contidos em Soluços Sísmicos e O grande espetáculo da terra, bem como a todos pertencentes em O chão e a nuvem são bem mais que meras confissões de um menino ainda presente num homem adulto – tema, aliás, caríssimo ao velho Manuel Bandeira – mas que não se encaixa muito bem à obra de nosso jacobino-ilheense que, acima de tudo, quer se vestir de muita maturidade em tudo que faz e escreve. É preciso, antes de qualquer interpretação ligeira, ler tais poemas como uma grande crítica à política, ao mundo, ao cotidiano, à hipocrisia dos homens e outras tantas temáticas ali presentes e tão prontamente reveladas por uma poesia muito fácil de compreender; contanto que não se entenda “fácil”, aqui, como sinônimo de coisa pouca ou sem grandes significados, pelo contrário: um bom poeta, formal ou não, erudito ou afeito às cantigas populares, tem de saber dialogar com o público que carrega sua poesia e a quem ela pertencerá quando este se for deste mundo para se misturar ao húmus dos monturos e coisa e tal.

É impressionante a capacidade que Heitor Brasileiro Filho tem em criar uma espécie de background emocional em seus poemas, fazendo com que a força dos elementos significantes de seus versos pouco precise dever aos elementos de sua estrutura sonora ou rítmica, ao tempo que tudo isso nasce de uma disposição muito engenhosa, como já disse. Assim sendo, Heitor Brasileiro Filho pode muito bem se sentir à vontade para reivindicar temas tão pessoais e que lhe trazem conflitos tão arrebatadores, pois, ao se reportar novamente à infância, e com ela, por exemplo, a um circo de onde a alegria e a ingenuidade de menino dão lugar aos primeiros delírios eróticos de rapaz – como se pode facilmente perceber em O grande espetáculo da terra –, fica fácil, ao leitor, mergulhar no turbilhão composto tanto de alegrias bem como de profunda angústia; de esperança e tristeza; fantasia e realidade… e tudo o mais que se pode extrair mesmo de uma leitura menos cuidada de versos como os de Heitor Brasileiro Filho e que, em certos momentos, nos parece ser tudo que ele possui de real e de valor. Eis a força da sinceridade de sua lírica e da maneira apaixonada com a qual o poeta entrega-a ao seu público.

A facilidade em captar diferentes planos para um mesmo tema ou efeito imagético, independentemente de se tratar de um tema autobiográfico ou uma evidente intertextualidade, é, quem sabe, a parte mais bem elaborada de O grande espetáculo da terra e um caractere muito revelador em tudo que diz respeito ao seu livro, O chão e a nuvem. Com isso, Heitor Brasileiro Filho consegue poemas ao mesmo tempo tão belos quanto elaborados dentro da melhor técnica artística possível e compreensível, ou como dirá o professor Jorge de Souza Araújo, na apresentação deste mesmo livro: “um poeta que se chama Heitor – evocando acordes de um Villa Lobos – e é brasileiro no sobrenome e na natividade de ações afirmativas, tem, neste O chão e a nuvem, um agudo repertório de espantos, uma frequência de ironias, uns remates de mímeses, coincidências fabulares, diálogos e interlocuções com outros comparsas (a exemplo de Ferreira Gullar) a que não podemos deixar de apreciar e refletir”. Em suma: a poesia de Heitor Brasileiro Filho se quer uma poesia plena em sua essência, ou seja, quer nascer e se firmar através da documentação dramática que só a perplexidade aliada a uma carga lírica, tão técnica quanto emotiva, pode nos trazer.

Se há algo de realmente muito agradável na poesia de Heitor Brasileiro, mais até que a sua evidente capacidade poética, é a sua total incapacidade para o “mascaramento”, tão comum tanto ao poeta moderno quanto ao contemporâneo. Por isso mesmo, é mais que evidente que um poeta que escreve um livro como O chão e a nuvem se sinta tão livre para eleger temas como os que nele se encontram; capazes mesmos de fazer com que uma linguagem que não se pretende mais do que simplória adquira conteúdos às vezes tão mágicos e cujas metáforas possam abrir mãos de suas relações analógicas criando imagens tão dissonantes e símbolos tão dissolventes que, aliados a temas tão pessoais, e, não raramente, caros ao seu autor, capazes de trazer à superfície dos versos uma pesada carga de emoções – nem sempre agradáveis – possam criar poemas como esses: frutos de sonhos e de pó.


(Silvério Duque é poeta, professor, formado em Letras pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), e músico. É autor de “A pele de Esaú” (Via Litterarum, 2010), “Ciranda de Sombras” (É Realizações, 2011), “Do coração dos malditos” (Mondrongo, 2013). Seu próximo livro, “A moldura vazia”, está no prelo)