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86ª Leva - 12/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Bruno Kepper

 

Na transição de um ano para outro, é inevitável a feitura de algumas reflexões. No caso da Diversos Afins, não poderia ser diferente, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que caminham por aqui traçando as linhas de suas mais difusas expressões artísticas. De novos a experientes, não foram poucos os autores que compartilharam conosco suas visões de mundo. Seja na construção de palavras, seja na composição e concepção de imagens, vislumbrou-se muito além do que um mero exercício do ato de criar. O que cada um traz em si é a tal perspectiva de despertar em nós lugares adormecidos ou ofuscados pela névoa dos dias. E é tão significativo quando um criador nos surpreende com viagens a espaços inimagináveis e nunca dantes habitados. Por vezes, a racionalidade excessiva ofusca-nos a possibilidade de darmos força aos rumos mais promissores da subjetividade, afastando-nos do mergulho no lago íntimo das coisas que são deveras especiais. Nesse sentido, a arte e a literatura são capazes de nos resgatar do marasmo encerrado na rotina aborrecida do mundo, promovendo encontros e engendrando vias diferenciadas de percepção. Com o findar de 2013, um ciclo importante de publicações se completa e a busca por outros caminhos se torna verdadeiro desafio. A edição atual corrobora com tal sentimento ao procurar mesclar um conjunto de vozes expressivas da seara cultural. Em toda a sua extensão, a 86ª Leva aparece entrecortada pelas imagens do fotógrafo Bruno Kepper, jovem artista que nos apresenta seu traço de leveza ante os densos contornos propostos pela vida. Saberemos também um pouco sobre histórias que nos atravessam ao pisarmos o solo dos contos de Anderson Fonseca, Yara Camillo e Pedro Costa Reis. As paisagens poéticas de Leonardo Mathias, Lou Vilela, Inês Monguilhott, Nydia Bonetti e Marília Miranda Lopes evocam odisseias intimistas. O escritor Marcos Pasche traz à tona algumas observações sobre as Novas Cartas Chilenas de José Paulo Paes. Rogério Coutinho celebra escutas em torno do primeiro disco de , Rodrix e Guarabyra. O olhar inquietante do fotógrafo Silvio Crisóstomo é tema de uma virtuosa entrevista. Larissa Mendes aposta suas fichas em “A Grande Beleza”, novo filme do diretor Paolo Sorrentino. O poeta Jorge Elias Neto reflete sobre alguns lampejos da pós-modernidade. Tomados pelo sentimento de continuidade dos percursos, compartilhamos com você, querido leitor, essa celebração de vida. Que em 2014 outras tantas alamedas se configurem sólidas. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Inês Monguilhott

 

Foto: Bruno Kepper

 

Pedra

 

Na terra
como n’água,
tudo que em mim vibra
quer erguer onde afundo,
fosso,
líquidas muralhas.
Concêntricos,
inúteis labirintos.

 

 

***

 

 

Pomar

ao meu filho

 

À distância de um braço,
sumarento,
o  mundo se oferece
fruta.

Convém não esquecer:
se vai polpa,
vão casca e caroço.

 

 

***

 

 

Brechó

 

Escolho vestidos habitados,
decotes bambos,
curvas desbotadas,
barras invariavelmente puídas.

Recolho na concha dos sapatos, a marca,
outra pisada.

Caminho com fantasmas.

 

 

***

 

 

Tarde

 

Hoje me visitam as cigarras
das folhas verdes de antes.
Bocas sujas de terra,
segredam raspantes fios de facas.

Tardam
os dias no tempo esgotado.
E é só isso, é só isso,
é só.

Ferem
os seres mitológicos exultantes
de sussurros e estrondos que traspassam.
Sangue e raízes, dizem desses dias,
são só esses dias, só esses dias,
conformados.

 

 

***

 

 

A outra face

 

Aprenda a dar-se,
inteiro
feito um tapa,
esgotando-se por completo
a cada safra.
Grãos na mão aberta,
bagas aos insetos fermentando.

Os dias,
todos,
todos os dias,
laudas, vésperas,
e completas.

Assim, dá o mundo a outra face,
dando-se
e perdendo-se.

 

(Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

A Grande Beleza (La Grande Bellezza). Itália/França. 2013.

Por Larissa Mendes

 

 

Viajar é útil, exercita a imaginação. O resto é desilusão e fadiga.
A viagem é inteiramente imaginária. Eis a sua força. Vai da vida para a morte.
 Pessoas, animais, cidades, coisas, é tudo inventado.
É um romance, apenas uma história fictícia. Disse Littre, e ele não erra.
Porém, qualquer um pode fazer o mesmo.
Basta fechar os olhos. E está do outro lado da vida.
(Louis-Ferdinand Céline)

 

O prólogo do pensador Céline, em Viagem ao Fim da Noite, antecipa que as mais de duas horas do novo filme de Paolo Sorrentino são dotadas de verdades e ilusões desse ‘blábláblá’ que é o ínterim que separa vida e morte. Seja qual for seu conceito de beleza, em algum momento, ele estará em cena: uma paisagem, uma escultura, uma canção, um diálogo. Seja qual for sua idade, em algum momento, você sentirá certa nostalgia, um clima de fim de festa, uma saudade de não-sei-quê. Exótico e ímpar, A Grande Beleza é uma comédia dramática – com elementos do realismo fantástico de Fellini – que celebra os expoentes do cinema italiano dos anos 60 e fotografa como ninguém a Cidade Eterna. Com uma trilha sonora que passeia do clássico ao eletrônico, da ópera ao pop, o filme aborda o envelhecer de uma maneira crítica, festiva e moderna.

Jep Gambardella (Toni Servillo) chegou à Roma aos 26 anos com a expectativa de tornar-se “o rei dos mundanos”. E de fato conseguiu. Hoje, já sexagenário, é um escritor e jornalista bem-sucedido, mesmo sem concluir nenhuma outra obra após a publicação de seu best-seller O Aparato Humano, lançado há décadas. Vivendo da reputação de outrora em sua bela cobertura com vista para o Coliseu, sua rotina é um vai-e-vem de festas e jantares da alta sociedade. A boemia, porém, não exime o bon vivant, que acaba de saber da morte de seu grande amor de juventude, de refletir — sempre em conversas sagazes e existencialistas com os estereotipados amigos intelectuais, especialmente com sua editora anã Dadina (Giovanna Vignola) — sobre o tempo, a vida, a morte, o amor, a religião (destaque para a etiqueta de um funeral e a sequência da “santa” Irmã Maria, interpretada por Giusi Merli) e, é claro, a beleza. Afinal, o elegante escritor é “um homem destinado à sensibilidade”.

 

Jep Gambardella (Toni Servillo) em seu aniversário de 65 anos / Foto: Divulgação

 

O roteiro, assinado por Paolo Sorrentino e Umberto Cantarello, tece uma infinidade de críticas à superficial e decadente sociedade contemporânea, seja na representação dos “nobres de aluguel” — condes falidos contratados mediante cachê para aparições em reuniões sociais, na sessão de botox coletivo ou mesmo na necessidade de registro de tudo que é visto/vivido, a exemplo do turista japonês da primeira cena ou da mulher que acaba de fazer amor com Jep e ainda assim quer mostrar a ele suas fotos nua. Ao mesmo tempo em que ironicamente adula, A Grande Beleza aponta cada defeito do jeito Berlusconi (sem máfia) de ser: em determinado ponto, um dos amigos do escritor afirma que a velha bota é “um país de tecelões e pizzaiolos”, em alusão ao que lhes dá notoriedade no exterior.

Aclamado em Cannes (foi até mesmo comparado à La Dolce Vita) e premiado em diversos festivais por onde passou, o primoroso sétimo longa-metragem de Paolo Sorrentino acaba de ser eleito como o melhor filme europeu do ano pela European Film Award. Além disso, recebeu uma indicação ao Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e é o representante italiano (e forte candidato) ao Oscar 2014, na mesma categoria. Se os trenzinhos das festas de Jep não vão a lugar nenhum, o mesmo não se pode dizer de sua inspiração e d’ A Grande Beleza do cinema de Sorrentino.

 

(Larissa Mendes, partilha da mesma melancolia de Jep e, em se tratando de beleza, concorda com Vinicius de Moraes)

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nydia Bonetti

 

Foto: Bruno Kepper

 

há um jardim qualquer
em qualquer
canto
onde uma flor qualquer
brotou
de qualquer
cor
de qualquer forma, flor
e eu a oferto
a quem souber cuidar

 

 

***

 

 

que gosto tem o verso e que
textura?

só sei da cor – vermelha
do coração na boca

da alma – na palma da mão

 

 

***

 

 

silencioso e raso passa o rio
não posso ouvi-lo
pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem — ávidas
de lua e mar

 

 

***

 

 

hoje nada me move – sou pedra
perdidos
……..olhos
……………no vazio
que cresce em minha face feito
………………………………..musgo

 

 

***

 

 

quando chove – desejo de não
……..chover
e quando faz sol – brilha
desejo  de chuva
……..a vida
parece mesmo ser
………..uma questão de tempo

 

 

***

 

 

o pássaro – com seus olhos de céu
me olha

buscando em mim – as asas
………………que já não tenho

 

 

***

 

 

assim, então dentro de mim
nasce um poema
enquanto
outro morre
moto perpétuo
roda d’água
que move a lâmina
que faz serrar a pedra / bruta
e faz brotar a flor

 

(Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker. Oficialmente, o Sumi-ê será lançado em janeiro de 2014, mas já se encontra para pré-venda no catálogo da Editora Patuá)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

SÁ, RODRIX E GUARABYRA – PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 

 

Numa encruzilhada formada pela junção de três caminhos, surge uma estrada ao mesmo tempo empoeirada e pavimentada, com um pé no Brasil interiorano e outro na contemporaneidade dos anos 70. Essa é a viagem de Sá, Rodrix e Guarabyra na sua estreia em Passado, Presente e Futuro, usando o expediente, relativamente comum à época, de assinar o nome de um grupo como se fosse um escritório de advocacia. Qualquer semelhança com Crosby, Stills, Nash & Young não teria sido mera coincidência (“Só faltou achar nosso Neil Young”, disse Rodrix certa vez). Mas não há meandros jurídicos na música de SR&G, apenas o fluir de uma longa rodovia, com seus percalços típicos da nossa malha rodoviária. Ainda que tenha sido uma viagem breve, foi bastante proveitosa para a música brasileira.

Como boa parte dos compositores daquela geração, Luiz Carlos Sá, José Rodrigues Trindade – o Zé Rodrix – e Gutemberg Guarabyra militaram no circuito de festivais de música da década de 60, televisionados ou não. Rodrix, que chegou a fazer parte de grupos como Momento Quatro e Som Imaginário, ganhou o Festival de Juiz de Fora de 1971 com a canção Casa no Campo (dele e de Tavito), que posteriormente viraria clássico na interpretação de Elis Regina. Guarabyra, um baiano radicado no Rio de Janeiro, chegou a ser diretor musical da TV Tupi e do Festival Internacional da canção. Sá, por sua vez, além dos festivais, já atuava no meio publicitário como compositor e produtor de jingles. A estética musical do trio logo recebeu a alcunha de “rock rural”, pegando carona num trecho da letra de Casa no Campo.

 

Sá, Rodrix e Guarabyra / Foto: Reprodução

 

O resultado concreto dessa “sociedade” culminou em Passado, Presente e Futuro, lançado em 1971. O resgate de uma vida interiorana para o urbanóide dos anos 70 se faz presente em faixas como Cumpadre Meu, onde Guarabyra faz questão de ressaltar o vernáculo do sertão brasileiro: cumpádi, sôdade. Se em Cumpadre Meu a preocupação é com a nova geração “respirando o que a cidade envenenou”, em Crianças Perdidas há o retorno à própria infância idílica. As intervenções orquestrais ora soam georgemartinianas como em Zepelim, quase uma fantasia beatle de Sá, ora soam delicadas o suficiente para prover o folk-barroco de Ouvi contar e a cantiga de ninar Boa Noite. Me Faça um Favor de certa forma antevê o trabalho que a dupla Sá & Guarabyra faria após a saída de Zé Rodrix. E é exatamente Rodrix quem fornece o lado “rock” da equação “rock rural” em Ama Teu Vizinho Como a Ti Mesmo, com um belo trabalho de bateria e percussão, e Hoje Ainda é Dia de Rock, praticamente uma carta de intenções: “Eu descobri olhando o milho verde / Mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock”. Nos anos 80, quando Zé Rodrix fez uma campanha publicitária para a Chevrolet, o jingle foi jocosamente apelidado de “última canção da estrada”, uma referência ao conto de liberdade adolescente Primeira Canção da Estrada.

A parceria ainda renderia um segundo disco, Terra, de 1972, até a dissolução do trio. Sá & Guarabyra seguiram com sucesso como dupla nos anos 70 e 80, compondo até trilhas para telenovelas e Zé Rodrix seguiu em carreira solo, emplacando o hit Soy Latino Americano e participando do grupo de rock-deboche Joelho de Porco, além de se lançar como escritor. Em 2001, o trio se reuniu e lançou o ao vivo Outra Vez na Estrada e ainda deixou o derradeiro Amanhã, lançado após a morte de Rodrix em 2009. Mas as canções, essas continuam com o pé na estrada, mesmo que seja de carona até a cidade mais próxima.

 

 

(Rogério Coutinho não sabe se é capixaba de Brasília ou candango do Espírito Santo. De bancário a estudante de literatura, de pesquisador do IBGE (mas não recenseador) a publicitário, de estagiário de rádio a gestor cultural, tem sua casa na cidade onde planta alguns amigos, discos, livros e nada mais)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Foto: Bruno Kepper

 

A NORA

Yara Camillo

 

– Chegaram, Juliana!

A Mãe corre até a janela: o filho vem com a nova mulher, que nem de longe condiz com sua expectativa.

Pequena, magra, cabelos rebeldes, olhos muito vivos – deve ser por conta deles o sorriso que brilha.

Desconcertante: é a palavra que ocorre, à Mãe, para explicar a decepção. Tanta moça em São Paulo e ele foi se engraçar com essa, pensa, tomando fôlego para ir à sala.

Chega a tempo de ver o Pai abraçando o filho e recebendo a nora:

– Seja bem-vinda. E que sorriso bonito! Foi assim que você pescou esse caboclo?

Pronto, lá vai o Pai, com a corda toda. E ela, a Mãe, como fica? Não tem vocação para rapapés, o máximo que consegue é ser educada.

– Gostei dessa menina, Juliana, porque quando entrou, em vez de reparar nos móveis, olhou para as pessoas.

Que pessoas? – a Mãe suspira. Faz tempo que só restam ela e ele, na casa.

– Muito prazer – ela diz, num esforço.

– Oi – diz a Moça.

Oi? Isso é jeito de se cumprimentar? Pensa a Mãe, abraçando o filho.

– Venha tomar um café, menina – o Pai convida, esbanjando o encanto que só ele tem, quando lhe dá na veneta. – Aqui o café a gente mói na hora, quer ver?

Por insegurança, ou porque gostou mesmo do Pai, a Moça se desmancha em sorrisos e, justiça seja feita, ela sorri com os olhos também. A mãe concede o veredicto: Simpática. Não digo encantadora, mas simpática.

O café saiu amargo, pensa a Mãe. A Moça parece ignorá-la, condescender a cada pergunta que ela faz, enquanto, com o Pai, nossa, até parece que os dois se conhecem há anos.

Quero só ver essa menina, lá no sítio.

Pois o Pai já começou a falar do sítio, que ele conserva à moda antiga, na base do lampião e fogão de lenha, horta, cafezal, passarinhos como já quase não há por essas bandas, morcego, cobra, tatu…

A surpresa da Moça é tudo que o Pai precisa para se espalhar, pensa a Mãe. Quando ele se cansar, talvez ela possa oferecer os presentes que separou para a Moça, para o filho: roupas de cama, mesa e banho; é o mínimo que se pode dar a quem se casou assim, sem avisar a família.

A Moça surpreende, fica muito à vontade no sítio, prova as frutas, acompanha o Pai num passeio pela horta, pelo cafezal, pergunta de tudo e vai repetindo o nome das plantas, dos passarinhos… À tardinha, se deslumbra com o pôr-do-sol, já ganhou uma cor, parece mais assentada, agora.

A Mãe acende o lampião, mostra o álbum com fotos das antigas terras da família. A Moça admira as paisagens, os detalhes:

– Qual dessas fazendas era do seu avô?

– Todas – responde a Mãe, feliz pela primeira vez, no dia que se finda.

– Meus avós eram colonos numa fazenda assim.

A simplicidade das palavras, sem revolta nem pejo, confirma a impressão da Mãe: a nora é, decididamente, desconcertante.

– Moça esquisita, não? – ela comenta com o Pai, antes de dormir. – Magrinha, espevitada, vai ver nem tem boa saúde.

– O que lhe falta em corpo, sobra em alma – diz o Pai.

– Sabe o que eu acho?

– Sei, Juliana, sei.

A Mãe fecha os olhos. Não era isso que queria, para o filho. Mas nessa noite sonha com a filha que nunca teve: as duas de mãos dadas, fugindo da chuva para o rancho à margem do Tietê. No tempo do sonho resumem-se os dias e os anos, Natal, São João, uma festa noite adentro, um café ao amanhecer. Nos cabelos rebeldes da filha, o primeiro fio de prata: Olha só, mãe! As duas riem, se olham. Mas aquele rosto não é o da filha, é o da nora.

– Será? – pensa a Mãe, ao acordar.

Já na cozinha, passando o café, vê a nora junto à porta:

– Quer ajuda, Dona Juliana?

– Quero, filha.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marília Miranda Lopes

 

Foto: Bruno Kepper

 

Posso entornar
raiva
desmesura de medos contidos
sem que me prendas
dentro das tuas sílabas de aço

Posso aliviar
o chumbo dos ombros
nos passeios e becos onde tropeças
embriagado…embriagado.

A dor é uma rua anônima
onde já não mora ninguém

Guardamos tanta inutilidade

Ainda haverá espaço
nos silos da memória?

Posso dizer-te a poesia que faço e desfaço
nas minhas viagens
Sem que me leias
Na distância das tuas margens

Assim estou só e não espero nada
A não ser o espanto…a não ser o espanto.

 

 

***

 

 

Não lhes dês acesso ao teu estado
vigilante ou adormecido, inquieto ou sereno
nenhum sopro de vigilância
onde a pele se queime de píxeis

Não lhes dês réplicas e cerimônias de caixões de vidro
ou a face pálida, diante do melodrama da história

Dá-lhes o cerne desse gosto natural
onde o romper do caminho é o nascer de uma ovelha
e o seu primeiro berro

Esta estrutura de ferro e betão tem-nos mendigos
em tecidos quase rotos

A caligrafia social é uma tragicomédia
Encenam-se códigos de conduta
liberdades adulteradas
escritas com revolta e humor forçados

Tudo está viciado e iminentemente caótico
Terreno fértil e propício
à serpente fascista
subliminarmente esperta

Há um gélido pavor
onde o rastejo espreita.

 

 

***

 

 

Quanta discussão
argamassa
e betão

Nos compartimentos
pesam lajes
Dor
neste cimento

Sem térmica a pele
Sem vigamento
metálico

Quase sufoco no pó
neste resto de dia gris

As plumas azuis bailam alto
Tangem
como acordes
a fluidez do sangue

Há uma paixão inexplicável

Ouço um Bach de prelúdios
e fugas.

 

 

***

 

 

Está frio e rebentam ecos
arquitectados
outonos

As folhas tremem
Os pássaros recolhem-se

O abandono é esta ausência velada

A terra húmida das chuvas
o caminho multiplicado
por gotas inteiras
sobre a curva dos ombros

Está frio e continuo a olhar
Estremeço
Como árvore despida

Abrigo-me: pássaro
Vertigem
em nenhum solo.

 

 

***

 

 

A cidade é um disco compacto
fervilhante
titânico
Os corpos de ipad editam
cada trajecto mínimo

A nave da Web
é uma barca antiga
atracada no precipício do tempo

Cruzam-se chips
entre nós, passantes em catálogo

Nas radiofrequências
um cibercéptico manipulado
um antibiónico em deslumbre
um hologrâmico
poema

Colapso

Já não funcionas
Sozinho

Colapso

Tens entranhas vigiadas
webcams na cama onde imerges
sem gotas de orvalho reais.

 

(Marília Miranda Lopes nasceu no Porto, em Portugal. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu, entre outras obras, “Poesis em Oásis” (poesia, 1994), “Framboesas” (Teatro, 1996), “Aqua” (conto, 2012 – incluído na antologia Pegadas com autores portugueses e espanhóis – de A Porta Verde do Sétimo Andar) e “Castas” (Poesia, 2012 – Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar – Galiza, Espanha). Tem participado, com poesia e prosa, em algumas revistas literárias e antologias (Portugal, Espanha, África e Brasil))

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A SOBREVIVÊNCIA DO EFÊMERO E A FALÊNCIA DO PASSADO

o contorno só interessa aos apressados

Por Jorge Elias Neto

 

Foto: Bruno Kepper

Afinal, é chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balburdia multimidiática de nossos dias.

Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias, um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

Mas deveríamos contestar a sutileza do instante e a beleza do efêmero? Faz-se necessário então conceitualizar o que costumamos chamar de instante e de efêmero.

O adjetivo efêmero é derivado do grego ephêmeros, -os, -on, que dura um dia. Em sua origem, a palavra efêmero nos diz da poesia das águas perenes dos riachos que só existem durante o degelo ou a estação das chuvas; da flor da noite que desabrocha e fenece ao longo da madrugada. Efêmero é a imensa amplidão da transitoriedade fugidia.

Daí, se dizemos: Está suspensa a transitoriedade das insignificâncias, não é uma imposição, é muito mais, é uma exposição. Nos expomos ao deixar transparecer o desespero por resgatar o sentimento do homem pelo efêmero; dizer do que repica no peito, da percepção da urgência de que o homem reaprenda a aquaplanar o momento, ocupando com silêncio e reflexão o espaço que sucede à transitoriedade do instante.

É isso – buscar no instante o paradoxo da pausa.

Mas é outra a definição de instante que nos coloca à deriva. E os dicionários são precisos, diria premonitórios, quando nos apresentam o adjetivo instante (derivado do latim instans, – antis, – are) como aquele que insta, que insiste com obstinação, que vai logo, iminente, URGENTE – que diz uma necessidade premente. O sufixo – are diz da soberba humana, da vontade de poder, estar de pé, erguer-se (o deus bípede, que se aproxima – ameaçador). Quando utilizado como substantivo masculino, a palavra instante traduz-se no “menor espaço apreciável de tempo, momento, ocasião”.

E eis o homem colocado à deriva no mar da pós-modernidade, sujeito às intempéries dos instantes impostos e desejados. E esse ser fluido, partícula em suspensão nesse mar batido de uma sociedade de consumo, torna turvas as águas do Planeta.

Onde encontrar tempo para o espasmo diante de uma imagem fulgurante, não a imagem digitalizada, pixelada no écran da mídia de bolso, mas a imagem efêmera, construída pacientemente, pela evolução do deus Darwin?

Quando jovens, aprendemos com nossos ídolos a valorizar o momento,    o agora. Vivificar o instante se mostrou a melhor forma de ter uma vida saudável e feliz. E o homem “sábio” incorporou, em graus variáveis, essa máxima.

Acontece que o mercado e as grandes corporações sempre estiveram atentas a esse fato e se desdobraram, e continuam se desdobrando, para ampliar e diversificar as “ofertas de instantes”.

Mas o que acontece quando o instante se fluidifica demasiadamente, se torna cada vez mais instantâneo, insatisfatório? Quando o instante passa veloz; quando um piscar de olhos nos impõe uma limitação fisiológica para vivenciá-lo? Ocorre a desertificação da vida, pois uma frustração insustentável passa a dominar o indivíduo.

E é com essa noção insalubre do instante e esperançosa do efêmero que devemos observar o homem que se adentra no século XXI.

Decreto

(para ser lido tomando água de coco à beira-mar)

Atenção!
Está suspensa a transitoriedade das insignificâncias.
Não é permitida a inspirabilidade do óbvio.
É mandatório o afogamento das circunstâncias.
O statu quo deverá ser limpo com papel higiênico.
Será suprimido do vocabulário o beijo sem língua.
No cardápio das quartas-feiras
o prato principal será o ócio.
Cada bocejo deverá ser celebrado como profecia.
Ao homem, que não lhe faltem
ovos fritos com torresmo, chicletes e água fresca.
Que todos os reflexos sejam queimados
nas piras da reflexão.
Para cada ser humano, um momento lento de aurora.

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Foto: Bruno Kepper

 

Trancelim

Pedro Costa Reis  

     

Canções. As canções de pequeno. O trancelim dourado no qual me pendurava pelos dedos, deslizando e rodando suavemente pelo pulso da mãe. Real ou não. Às vezes era só trancelim. Quando não, era melhor, com as canções, que passeavam detalhadamente por cada assobio meu quando maior, entre os trabalhos na horta e no curral atrás da casa, com Noite, Lobisomem e os outros bichos, padres de minhas confissões. Se falava dentro da casa, era chibata, por isso penso, mais que falo. E ouço. E guardo essa lembrança dentre as meias e panos do meu quarto. O bater das agulhas da minha mãe à janela. Desta vez eu saio, pra não ouvir mais.

“estes xales e colchas eternos que faço. Motivo que seja, pra esquecer-me das horas. Somos somente três nesse fim de mundo pra onde Aurênio me arrastou, puxou e fincou com mais força do que as folhas que ele planta e arranca todo dia atrás de casa, com aquele menino burro. Arranca e liberta. Menino, não serve nem pra modelo das meias que faço pro pai dele, mas mesmo assim divide e gasta pra eu ter que fazer mais, todo dia. Perdi as contas. Tanto faz, sou mais ele que eu mesma.”

Luarina entoa discretamente uma das canções antigas enquanto tricota. Tensiona as bochechas com força pra não chorar, pois era sexta, e Noite já estava pronto pra levar Aurênio. O canto sai rouco e forçado.

Meu pai sai sem falar com ninguém. Entra em meu quarto, talvez para procurar meias. Relógio invisível de ponteiros iguais com os quais meço o tempo lento. Mãe tece a vida eterna entre sonos ocos da madrugada de sexta, entre a revolta e a resignação, espadas de horas, constantemente a estalar. Meu pai deu a volta na casa, ainda dentro da névoa. Só lembro-me da cidade, longe, de dia, quando novo, depois nunca mais ela precisou de mim. Antes era uma infinidade de pernas, lixo, vozes, gritos, pombos e muitos brinquedos. Pendurava-me nas tábuas e via difícil os bonecos que olhavam assustados ao redor, os cavalos olhando assustados para frente. Brisa quente. Olhava para a mãe de olhar sério e queixo forte, como o do pai. Será que sempre foi assim? Nem dava trela para a curiosidade, e não era doido de falar coisa que fosse. Voltava aos pés levando os sacos verdes fedidos, pesados.

Otávio persegue atento a intervalos de janelas os cascos de Noite névoa afora.

Por um momento esqueço dos sons dos ponteiros da mãe atrás de mim. Esqueço da sua presença, por pouco, sei bem. Mas sem acalanto hoje, deixa ela sozinha dormir em paz o sono vazio de canções. Dá saudade. Dava. Pensa bem, Tavito, olha a chibata ali atrás, é doido é? Medo de tudo, pavor de nada. Antes eu ia mais, de dia, até com meu pai. Agora meus amigos sumiram. Antes era correria. Agora também, mas sem sorriso ou gritaria.

Afasta-se da janela, ouve o distanciamento de Aurênio, cujo som dos cascos possantes de Noite emudece a canção que Luarina discretamente entoa.

O estalar novamente. Ela mal me olha de frente, muito menos na sexta. Se esquece no meio desses panos, as bochechas tesas. Sempre novas linhas no sábado, costurando as semanas em meses e anos. Mas essa sexta eu saio. Sete anos costurado nesse meio de nada. O silêncio é dono deles por aqui, mas hoje não. Vou-me em Lobisomem.

Sai da casa por detrás, pega a sela, a chibata e a rédea tateando pelas paredes e usando do costume apronta Lobisomem velho pra seguir. Luarina cochicha a melodia enquanto ouve Otávio por detrás da casa.

“Devia ter levado algo pra agradar as raparigas filhas da puta de sexta-feira, e agora o menino grande quer putariar também. Só pode, de fora tem tudo do pai, o demente. Meia é não era que foi procurar no quarto do menino. Só quero que volte. Essa música sempre, sempre”

Tricota com mais força, estalando forte as agulhas, uma na outra.

Agora não quero saber o porquê de ela nunca sair com meu pai toda sexta. Que fique. Aqui, as pegadas, mas longe, como vou ver? Luz. Sim, pela luz. Não ouvi sequer o som das cobras debaixo dos cascos do velho Lobisomem, perdi a noção e cheguei aos portais da cidade. Um vazio, e suspeitei que fosse o inferno, só dos gritos ao longe que vinham me receber. Das almas loucas ao longe passando bruxuleavam silhuetas na névoa corrente. Um vazio, e os balcões não estavam lá, na rua que senti nos pés ser a dos dias, antigos. Puxei com força Lobisomem e avancei. Segui a música alta, animada, e vi umas pessoas passando cheirando forte. Uma lâmpada fortíssima cobria de verde os passantes e a entrada do bar era ensurdecedora. Mar de gente se debatendo por dentro. Conhecia aqueles rostos velhos e desconhecia os novos. Havia um balcão úmido à frente, onde as pessoas se penduravam esticando as mãos e gritando um não-sei-o-que-de-mel-limão-tangerina-canela-pimenta-troco, e virei de lado numa entrada sem porta com uns dizeres obscenos em volta. Fui empurrado para dentro, olhei para trás e não vi alma que pudesse culpar. Me viro e de um susto pensei ter visto minha mãe sentada com uma puta no colo. Trancelim em pulso falso. Era meu pai que a sentava no colo, dourada com as memórias de criança. Acordei sem lembranças, caído na esquina do bar, entre gritos e o crocitar das sirenes. “Foge, foge, pirralho!”, um mendigo gritava. Corri tropeçando em poças, com o trancelim vermelho no bolso.

De uma das janelas, enquanto não entrava, ela se levantava de um susto, observou-a cruzar a sala até olhar para trás antes de entrar no quarto. Olhou para trás e foi deitar-se. Estava, ouviu? Mas ele não está dançando. Estava. Vai pro quarto, velha, que ele não volta mais. Cadeira de frente à janela e o xale meio acabado com as agulhas no chão. Foi pro quarto, limpou com os dedos o trancelim. Ela se virou, apertando o xale contra o corpo, a outra apoiada no rosto do menino dentro do quarto, que cheirava a velhice, a brisa gelava o suor debaixo dos lençóis. Não dormiu. De um susto levantou, sob a luz: viu o pai no rosto velho da mãe. Tirou a mão da corrente gasta em pulso seco. Virou a cabeça e o riso demente, desaparecendo à medida que calava o riso, desaparecendo de cabeça até embaixo como se subisse a cabeça primeiro e calava para algo que o suprimia como um desenho de giz sendo apagado da lousa.

(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

leonardo MAthias

 

Foto: Bruno Kepper

manchas mínimas

reter, da travessia instável
sob retinas degeneradas de outro
agora
aquilo qual aflige
e deforma o que some
ignóbil, extirpar o medo
dos braços; estocada
– à frente –
abrir bem os olhos, horizontalmente
fixar o osso na pálida
pele,
dentro do som das sacolas, seus cortes secos,
manchas mínimas desfolham
sob um falso oco, o susto
– o cloro da manhã volta,
cerze tons, todos
os sabores quais não mais
se sente –
leveza esquecer
sobre a branca pelagem das horas, àquilo;
respirar
fundo, tudo o que pouco importa

 

 

***

MASSAS: recline

você fuma
você vai até a esquina
e carrega cigarros entre os dedos:

você tem sono mas
queima:

você vai aos poucos perdendo as qualidades

e em gesto resulta o peso
e o fogo adensa o vago

do que se ocupa em corroer
o que te escapa:

e você reclina

– não se sabe mais
onde encaixam-se
essas massas de coisas
que você vê –

e você perde
se cerca de um ecossistema construído aos poucos
e você parte
e ele permanece sem você:

ele pára em você
ele te arranca

 

 

***

 

 

dentro das gretas
dos sonhos,
presas debaixo
do espelho dos olhos,
as coisas,
ensejam seus ritmos secretos,
descobertos,
num impassível
talvez.

 

 

***

 

 

adaptar é romper:
abre-se a porta.
enfrenta-se a fina brisa.
é esboçada uma coisa ou outra.
a dúvida não aumenta nem diminui, segue num esgar a esmo.
desce-se a rua, odiando os outros transeuntes.
senta-se, vê-se um filme.
o homem é ritmo, vertigem de si mesmo.

como soubesse exatamente do que precisa, repete: “para a eternidade a estática”; continua a caminhar.

 

 

***

 

 

nivelamento:
ainda insiste em restaurar seu ânimo,
talvez isso o canse tanto.

apenas um imã estranho mantém tudo aquilo. delicadamente.
sentado, lendo não-sei-o-quês, teme a pressa dos outros, pela periferia dos olhos.

por vezes já considerou a caminhada, prefere não colidir, destroncar vetores: percebe, de relance, a momentânea mudança na composição de cores.

(leonardo MAthias (São Paulo, SP, 1987) atua em literatura, artes visuais e design. No setor editorial, mantém parceria com a Editora Patuá, pela qual ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de cem títulos. Publicou seu livro de poemas “de pé”, em 2011, pela Editora Patuá. Colaborou para veículos como os jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Em 2012, realizou sua exposição individual “As Janelas de Rilke”, premiada pelo ProAC Artes Visauis (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). Atualmente desenvolve projetos direcionados à pesquisa relacional entre literatura e artes visuais)