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87ª Leva - 01/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Vera Lluch

A primeira Leva de 2014 assinala a reunião de novos personagens ao redor da mesa que partilha os feitos culturais. Como não poderia deixar de ser, a busca por outros atores que movem o surpreendente mundo das palavras e imagens é tarefa das mais complexas, porém jamais algo desanimadora. À medida que nos aproximamos de artistas e autores das mais variadas orientações, percebemos que as possibilidades de diálogos formam um rico painel de renovação. Nesse intervalo, pensamos caminhos, tentando promover um frequente exercício de escutas. Todo esse trajeto remonta a mergulhos necessários no microuniverso contido em cada voz que tenciona estar conosco desfrutando dos anseios comuns da arte. Sem as diferenças trazidas pelas peculiaridades de cada um, não seria possível vislumbrar um painel de diversidade pretendido desde sempre pela revista. É justamente através dos traços da individualidade que cada autor encontra morada no meio de nós. Sendo assim, é impensável tencionarmos qualquer espécie de avaliação preliminar das expressões que dê força a aspectos meramente objetivos. Pelo contrário, interessa-nos perceber o quão estimuladoras e sensíveis podem ser as criações, sobretudo que tipo de aproximação efetiva elas podem gerar junto aos leitores. Arte e palavra precisam muito mais do que uma couraça hermética e superficial a lhes adornar a face. Necessitam de alma, de algo que faça parte de um universo notadamente amplo de apreensões. Daí não ser nada fácil tentar definir o comportamento imprevisível da subjetividade.  Autores como Carina Castro, Ana Elisa Ribeiro, Danilo Gusmão, Fernanda Pacheco, Caio Carmacho e Beatriz Bajo, que por aqui desfilam agora seus versos, são a prova viva dessa jornada rumo a outras paragens literárias possíveis. Em meio a estes e outros verbos dispersos nesta edição, as ilustrações de Vera Lluch inundam com sua vastidão de cenários os espaços habitáveis pela sensibilidade. No terreno dos contos, Mariel Reis, Jorge Mendes e Larissa Mendes nos apresentam suas visões particulares de mundo. Numa entrevista, a cantora Selmma Carvalho fala sobre o seu novo disco e de como o tempo tem sido seu aliado na evolução da carreira. O escritor Sérgio Tavares apresenta suas impressões sobre “A condição indestrutível de ter sido”, primeiro romance de Helena Terra. O mais novo disco da banda carioca Tono roda em nosso Gramofone. Em mais uma de suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes percorre as vias da produção “Her”. O ano que se inicia reafirma os impulsos editoriais da Diversos Afins, cuja missão maior é a de promover encontros. Que você, caro leitor, possa trilhar conosco mais uma caminhada pelos ventos da arte e da literatura. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Danilo Gusmão

 

Ilustração: Vera Lluch

 

sol

 

– não sei vocês,
porque cada um tem seu destino,
mas eu que sou pobre e sou fraco
não consegui viver em são-paulo
Antônio Estrela
(contador de vida e morador de Ribeirão de Areia)

 

num dia quente
desse inverno

sobrevivendo
sem descanso
na cidade
à revelia

dou graças
(coagido)
à sombra
que os prédios
………..simulam
impunes

…………….e dela
…………………..me desvio
(de olhos semiabertos)

 

 

***

 

 

cavalo solto

 

a passear o peito de quem ama
Carlos Drummond de Andrade

 

meus poemas, os dos outros,
especialmente os de
amor que lhe dedico
nunca servirão de nada
não provocarão um suspiro
só que seja

e você nem vai lembrar
do que eles dizem

porque
por mais
….que eu creia
assim,
………deste modo tão secreto,
….que um poema
……………possa
………..carregar amor

o amor, esse asceta
……………………….,
..não se locomove
 …………….por essas
…………e nem
 ……………..pelas
………………………..mais frias
…………e férreas
 …………………..maquinarias humanas

 

 

***

 

 

mandíbula

 

vou me sentar aqui
nesses cacos de vidro
nesse tapete de lanças

e esperar que a
pele endureça
que a carne
envelheça

a tal ponto que
nada penetre
que a língua
amorteça

e sua tinta
– a de minha
única caneta –
jorre
na atmosfera

esquivando-se
dos significados
dos nomes
dos quais padeça

e comunique

até que cometa
o crime negro
de adentrar
esses pulmões à volta
veia a veia

gerando insuficiência
(respiratória, cardíaca, horária)
………………………….temporária
e necessidade
de se sentar
aqui ao lado
para descansar
em silêncio

até que não haja desejo
que os verbetes
…………se esfacelem
que as verdades
…….se confessem
que as ideias
………….. se enraízem

e todas as coisas,
…………..sem saída,
….tenham que renascer

 

 

Autor do livro Contíguo, Danilo Gusmão nasceu em Limeira-SP, em 1990. Vive em São Paulo desde 2009 e cursa Letras na USP. Seus textos estão no blog Poemismo, o qual mantém ativo como principal via de publicação autoral até os dias atuais. É um dos integrantes e idealizadores do coletivo A Mandíbula, com o qual disponibiliza seus textos e os de outros autores em revista, blog e intervenções urbanas.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Larissa Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

BIOTÉRIOS DOMINGOS

 

O poeta é um cientista com preguiça.
(Michel Consolação)

O lar-laboratório, casulo e consolo. Morada biotéria.

O [tubo de] ensaio de um amor líquido-gasoso. De solidez, apenas nossa efêmera química. Sentimentos sublimados, condensados, vaporizados. Jamais pistilo e pipeta, cadinho e pompete. Instrumentos descabidos, codinomes impronunciáveis.

Eu, a ruiva-alva, de polipropileno coração, cobaia de uma experiência virtualmente planejada.

Ele, uma espécie de professor Pardal. O cientista maluco, de peito-autoclave.

Ironicamente a televisão aberta e suspensa da antessala anunciava uma matéria qualquer de um Domingo Espetacular. E de fato foram noites agradáveis do mais enfadonho dos dias da semana. Lembro de uma em particular, onde a chuva batia na janela e o vento dedilhava a persiana. Barulhinho bom.

– Preciso de uma bebida para relaxar. – Disse eu, ainda confusa.

– Se eu soubesse tinha trazido. Só tenho água para te oferecer.

Sua voz é marcante como brasa em pele. Tem um quê de rouquidão que se assemelha a um constante resmungo. Gosto de suas gírias desencontradas, que colocam na mesma frase, lado a lado, várias gerações. Os olhos são de um magnetismo que ocultam até mesmo sua cor. O bater de asas dos cílios longos e negros emana a liberdade de um pássaro selvagem. O cabelo e a barba escura contrastam com a lucidez de seus gestos. Corpo quente [e rijo como sua mente], personalidade polar. Mãos pequenas, ego inflado como um colchão de ar.

Não caberia [ou não saberia] classificar o que se sucedeu nas duas horas seguintes. Era um misto de paz e urgência, desejo e pânico, riso e lástima. Uma intimidade, ainda que artificial, pré-fabricada em minutos. Não lembro de ter me sentido tão à vontade com alguém tão distante. Mesmo opostos [ele médico, eu monstro; ele criador, eu criatura], uma empatia de angústias e pesares.

Não saberia [ou não caberia] explicar o que se sucedeu nas duas semanas seguintes. Tudo foi tomado pelo silêncio. Uma cidade vazia como nossos copos, nossos corpos.

Não mais bom dia.

– O que você vai fazer hoje?

– Nada. E você?

– Nada também.

– Vamos fazer nada juntos?

São diálogos bloqueados, desfeitos, deletados. Afetos liquefeitos. Experimentos previamente testados e engavetados. Arquivados nos labirintos da memória que insistimos em perder.

Às vezes pareço um rato correndo em círculos numa esteira invisível. Um animal de teste engaiolado. Manipulado e reprovado. Não mais monitorado. Pronto para ser substituído. Morto numa câmera de dióxido de carbono ou ingerindo uma carga enorme de anestésicos. Aliás, é assim que me sinto: entorpecida. Um ser apático, desprovido de razões e pretextos. Sequelada e incapaz de novas experiências. Incinerada junto ao lixo hospitalar.

Amores voláteis não resistem às segundas-feiras. Não merecem segunda chance.

No criatório das palavras, Larissa Mendes é mais uma cobaia da inspiração.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O amor enquanto privacidade

Por Sérgio Tavares

 

 

Superado o queixume sobre a disseminação irrefreável da tecnologia portátil, o escritor norte-americano Jonathan Franzen chega ao baú onde guarda as velhas cartas de amor compartilhadas por seus pais, no terço final do ensaio ‘Só liguei para dizer que te amo’, abrigado na coletânea ‘Como ficar sozinho’ (Companhia das Letras, 2012). Para ele, os registros dos vocábulos sedimentares para a edificação do amor de que foi resultado servem para confrontar o uso indiscriminado do ‘eu te amo’ ao término de uma chamada telefônica, um tipo de código vulgar do século XXI para dar fim a uma conversa. Franzen questiona a qualidade do sentimento. Se há, em sua manifestação pública e suplementar, a mesma textura conservada naqueles papéis enviados com a carga de quem, debruçado sobre as margens, perdeu-se em horas a fio, exilado num universo bidimensional, para condensar em poucos parágrafos a imensidão dos desejos, das angústias, da vontade incessante de estar junto. O amor a sério, conclui-se findada a leitura, carece de pertencimento. Ocorre num grau sobrelevado de intimidade necessário para projetar no outro a mesma voltagem que pulsa em si.

Em seu magnífico romance de estreia, a escritora e artista plástica gaúcha Helena Terra trata da complexa gestação do amor enquanto privacidade. Narrado em primeira pessoa, ‘A condição indestrutível de ter sido’ (Dublinense, 2013) traz a lume a amostra de um movimento nato da era hipertecnológica: os flertes firmados no mundo virtual que, justamente por prescindir de pessoalidade, acabam por minguar sem culpados e feridos. A protagonista, de quem não se sabe o nome, entretanto, vai além. Depois de criar um blogue com conteúdo munido por postagens coletivas, ela se atrai por um participante em especial, Mauro, um sujeito que se apresenta bem letrado e cativante, propondo um diálogo privado, uma troca rotineira de e-mails suscitada à base de elogios correntes e versos de Baudelaire. A narradora de pronto se envolve e, à medida que o interlocutor virtual vai trazendo à tona aspectos da sua vida real, um estreitamento de afeto se consolida, bombeando, interações após confissões, combustível necessário para rutilar um sentimento incapaz de ser expresso apenas com a ortografia computadorizada. A maneira de lidar com essa emoção sem freio é o ponto de partida da trama.

Helena Terra propõe acompanhar o erguimento de uma construção que, a qualquer instante, inevitavelmente se demolirá. Por certo, desdobramentos malconformados para relacionamentos não são nenhuma novidade na literatura contemporânea. Basta escolher um livro do Ian McEwan, a seu gosto. O diferencial (e o brilho) fica por conta da visão sobre o tema. Nesse caso, a tessitura da relação compete efetivamente ao relato de apenas um dos envolvidos, fornecendo um ponto de vista, senão suspeito, ao menos desfalcado. O outro, enxergado sob um anteparo, se desenvolve a partir das qualidades e dos defeitos que se convencionam a ele, portanto uma projeção dos próprios desejos e aflições daquele que narra, o produto idealizado de um processo psíquico. Ao situar o despertar dessa paixão no plano virtual, a autora potencializa o mergulho às cegas na experiência de amar. As veracidades das palavras e da própria afeição, a armadilha do anonimato, perdem atenção diante da ansiedade do próximo contato, do piscar do novo e-mail na caixa de entrada, uma espécie de dependência que ocorre de um sentimento transtornado já sem nome, uma condição intratável.

O resultado é a quebra de todas as regras, a perda das rédeas do próprio domínio. Em dado momento, a narradora condiciona que não trocariam imagens, não obstante a promessa será desfeita por ela mesma numa decisão extrema. Mauro conta ser casado, com dois filhos. Fato moralmente questionável diante do rumo do envolvimento, mas ela frivolamente não leva em conta. O mundo inventado para ambos, que se deslinda à redoma que a protege em frente ao monitor, é sustentado por uma sobrecarga sensorial, ou melhor, unicamente pela idolatria. Tanto que, ao surgir uma pausa na comunicação, o efeito é de abstinência, uma avalanche de autoquestionamentos sobre o motivo do sumiço que a arrasta para fora dos limites interiores, numa viagem tomada em revide para o mais longe possível daquilo tudo (um país insular espertamente escolhido pela autora, cujo acesso a internet é caso de censura). Em território estrangeiro, a narradora interage com outro homem, porém Mauro, o seu Mau, é uma sombra constante, dado que, apesar da distância geográfica e da escolha de não ligar o computador, o mundo segue funcionando dentro de si, um mundo imantado pela carência. Não por menos, quando retorna, ela resolve agir de forma contundente, derrubando a barreira dos caracteres na tomada da tal decisão extrema com o uso de fotografias.

Sem precisar recorrer a centenas de páginas para dar profundidade e alcance ao enredo, Helena Terra demonstra habilidade e segurança ao ir fundo na análise da vulnerabilidade humana. O risco de dar voz a uma personagem definida por uma confusão de emoções, aferrada numa busca indomável pela completude em outro corpo, é anulado por uma prosa delicada e bem polida, que recorre a paralelos e metáforas sem derrapar na pieguice, encontrando, em capítulos curtos, a dinâmica perfeita para provocar no leitor o interesse pelo desdobramento até a última página. A escritora propõe o amor como uma reação incendiária dentro de uma cápsula que, ao entrar em contato com o exterior, não queima, sofre desnaturação ao alcançar intimidade. Se existe uma cumplicidade em seus atos, a narradora dessa história de (des)amor é cúmplice exclusivamente de si.

No passado visitado por Franzen, sua mãe questiona o grau de afeição do seu futuro esposo, dado que este nunca tinha assinado uma carta com ‘eu te amo’; fato contestado pelo filho-escritor diante de outros gestos do pai que igualmente exprimiram amor de uma forma particular. Antes e depois do advento da internet, quando alguém tenta conformar um outro a ser amado, paixão e ilusão se confundem.

 

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fernanda Pacheco

 

Ilustração: Vera Lluch

 

prazer, você

 

dentro de mim mora o infinito
e dos olhos pra fora,
um íntimo enquadramento
do desconhecido,
da ilusão condicionada
e consumida pelo hábito do absoluto
que desobedece minha imaginação,
tão genuína e desabitada.
isso me acostumou a ignorar os detalhes,
fez do meu corpo aliado do tempo,
calou meus sentidos
me colocou os olhos de outro
que nunca me reconheceu
e eu solucei por isso:
por ter me reconhecido
como se eu tivesse nascido postumamente.

 

 

***

 

 

marcha da cronocracia    

 

as árvores de raízes velhas
marcham na pista molhada.
as velhas cobrem o rosto,
viram as costas pra puta calada.
a intransigência disputa espaço
com o bafo do inevitável disparate,
do desassossego que me aponta o dedo,
que me crava a alma no ponteiro.
cada moleque de pé no chão
já me afronta com a rouquidão de um reencarnado
enquanto eu deformo meus dedos
com golpes de ansiedade.
por mais que viver seja um alento em hipótese
o regresso do mundo cão é evidente:
agora parou um homem cego
me pedindo em nome de deus uma aguardente,
implorando por um sono que dure pra sempre.

 

 

***

 

 

Em nome do santo

Meu desejo é a falência do tempo,
A cristalização do escorrimento da vida,
O estancamento dos passos dados absortos no fim,
A conformidade com as injustiças do tédio.

Multiplicam o silêncio em troca de conhecimento
E alcançam o fundo do poço num grito errante
Que não satisfeito com a agonia de ser sozinho
Cava ainda mais fundo com as mãos o prelúdio da morte.

Não há crítica que perfure tal desolamento.
A dor deixa de se superar para virar rotina
E o que ultrapassa a retina cansada
É o reflexo de uma luz incompleta.

Imagino a solidão como a finitude do mar
Num dia frio de abandono da vida
Deitada na fronte encolhida
Aguardando a eternidade do ponto final.

 

 

***

 

 

sem título

 

de copo
em corpo
amo
e sofro.

 

 

***

 

 

A culpa é do Chet Baker

 

Seu rosto é todo neblina.
Apaga esse cigarro.
Deixa que eu me apago
Sozinha.
Agora vê se destoa de mim
E não me encare à toa.
Que embaraço essa coisa
de ter que amar como quem adivinha.

 

 

Fernanda Pacheco é professora, tem vinte anos, mora em São Paulo e é formada em História. Seu primeiro livro de poemas, “A culpa é do Chet Baker”, será lançado pela Editora Patuá em fevereiro. Admira a crueza, o desequilíbrio e o improviso da poesia. Sua primeira publicação saiu pela revista Mallarmargens.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TONO – AQUÁRIO

 

A possibilidade de ressignificar estados da alma é uma das grandes benesses proporcionadas pela música. No caso da banda carioca Tono, isso parece ganhar um sentido ainda mais amplo. Basta observar a trajetória do grupo para perceber que os caminhos sempre estiveram voltados ao modo sublime de olhar e sentir as coisas da vida. Em Aquário, mais novo trabalho da banda, prova-se não somente do sabor dos temperos do tempo, que só fez bem aos músicos, mas principalmente da afirmação de um jeito muito particular e consistente de se fazer música.

A moçada da Tono chega a seu terceiro rebento sendo fiel a tudo o que fez até aqui.  Ressalte-se, sobretudo, a força autoral de letras e músicas, traço marcante deles. E tudo ali se harmoniza favoravelmente ao conjunto da obra. O que se vê nas onze faixas do disco é uma verdadeira profusão de melodias, arranjos cuidadosamente pensados e um preciso equilíbrio entre vocais e instrumentos. O saldo disso é que cada canção, além de possuir roupagem própria, funda em si um microuniverso de sensações. São mundos num mundo, fazendo do disco um organismo único, porém com onze momentos autônomos.

O jeito suave e delicado da voz de Ana Cláudia Lomelino é uma verdadeira marca da banda. E ela não está sozinha nesse quesito, pois a presença vocal do baterista Rafael Rocha, compositor de boa parte das canções, é outro ponto de destaque. Diga-se de passagem, os dois artistas já são fiéis representantes da proposta sensível e poética da trupe carioca. Só para se ter uma ideia da sintonia musical dessa dupla, prestemos atenção no modo como eles passeiam sublimes pelas vias delicadas da bela Sonho com Som, canção que discorre tanto sobre levezas quanto densidades do amor.

Pelos quatro cantos do disco, fala-se de amor e outros tantos temas que absorvem a natureza humana sem, no entanto, pesar a mão nas questões da alma, o que fatalmente poderia tornar mais labiríntica a tarefa da banda, com sérios riscos de algo essencial se perder no caminho. Para a felicidade de quem aprecia a boa música, os rumos aqui não se desorientam. Ao contrário, observa-se a vida sem deixar que a consciência das coisas se atole num fundo de poço qualquer.

Tono / Foto: divulgação

Por ser um álbum completo em todos os seus arredores, é bem ingrata a ideia de eleger faixas que se destacam em Aquário. Instantes como os de Murmúrios, Como vês, Leve e Do Futuro (Dom) dão uma boa mostra da viagem musical vislumbrada pelo grupo. Diluído pelo jogo sonoro das palavras em Tu Cá, Tu Lá, emerge um caminho feito de ímpetos filosóficos. Merece também atenção a roupagem especial dada à canção Chora Coração, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aqui, a banda trouxe sua identidade para interpretar e viver a música do maestro soberano. Nesse sentido, a composição ganhou novo ambiente, mantendo a carga lírica que lhe é peculiar.

A flauta de Danilo Caymmi (Sonho com Som e Como Vês), a percussão de Gustavo Di Dalva (Leve e Do Futuro) e a voz e violão de Gilberto Gil (Da Bahia) acrescentam um ingrediente a mais no consistente caldo sonoro de Aquário. Marcado por elementos do rock, jazz, samba e música eletrônica, o álbum conta com a produção do experiente Arto Lindsay.

Pensar o disco é imaginar uma morada onde coabitam versos, sons e imagens dotados de uma estética pura e que prima por um sentido descomplicado para celebrar a existência.  Assim, pegando o gancho da canção A Cada Segundo, tudo pode se condensar num único e fugidio instante, inclusive nossa mais tímida percepção da beleza. Ana Cláudia, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo, Bem Gil e Eduardo Manso são valiosos mensageiros dessa ainda espantosa constatação.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Caio Carmacho

 

Ilustração: Vera Lluch

 

livre-me III (ensaio & conclusão)

 

livre-me como um pedido do livro-objeto
um mendigo que dá moedas no semáforo
um slogan de modess

livre-me como passe de mágica
oferenda de réveillon
abolição da autorreferência

livre-me: um mantra
uma proposta
um estratagema

livre-me dos rótulos
dos complexos
olheiras
correntes

literárias ou não

livre-me dessa cruz pesada
leve-me para casa
lave-me com buchinha

and love me
como se não houvesse amanhã

 

 

***

 

 

porção para dois

 

amar
é substância estranha
insuficiente quando não boba
desnorteada

porque
antes de tudo
é palavra avulsa
solta no boçal
da boca louca

vai se metendo em tudo quanto
é brecha – clara e escura

por presságio,
quando damos conta do estrago,
já era

virou coração viajado

e uma romântica porçãozinha
de frango a passarinho

 

 

***

 

 

ESTE LADO PARA CIMA

 

não se deixe enganar caro leitor,

para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado

sua arquitetura branca e
FRÁGIL
pode não impressionar no princípio

afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso
familiaridade e um manual prático
para interpretação de tipos

porque nem toda surpresa vem embrulhada
em papel de presente

nem toda surpresa
inclui pilhas

nem toda surpresa
chega lacrada com um
cartão: de: para:

que nem todo entregador não
consiga violá-la

porque o poema, caro leitor,
é um eterno convite

conteúdo que cabe
numa embalagem que se abre

 

 

***

 

 

informe publicitário

 

é necessário dizer
em caráter de urgência
que a vida não é só alarde

que a coisa mais sensacional do universo
está em falta no mercado

que o horário de funcionamento
varia de acordo com o feriado

que o preço da prateleira
não corresponde com o do caixa

que ser eleito o bebê hipoglós amêndoas
é uma vergonha desnecessária

que a promoção relâmpago
do amor-próprio
encerrou semana passada

 

 

Caio Carmacho  nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora, atualmente, em Piracicaba. Publicou Livre-me (2013, Editora Patuá). Escreve no blog Noutratez, organiza todo ano o sarau poético Picareta Cultural e é um dos curadores da OFF FLIP de Paraty.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Jorge Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

balada da vida ordinária

 

na vida ordinária você varre a sujeira pra debaixo do tapete, faz clareamento dentário e fica limpo e asséptico como os cadáveres da hora sublime. na vida ordinária você usa óculos escuros renascentista, um coração de grife e lê livros que fazem você ser um filhodaputa cada dia melhor. na vida ordinária você sente piedade e compaixão, entra em transe quando vai às compras e é dotado de poderes mágicos tecnológicos. na vida ordinária você compra/vende/aluga/negocia corpos, mentes, cargos públicos, ignomínias. na vida ordinária você se exercita na arte da dissimulação, cita os clássicos e vai virando alma penada. na vida ordinária os amigos que você nunca teve, as mulheres que nunca o amaram, estão todos mortos bebendo chopes na orla da praia. na vida ordinária você consome frutas químicas, amores desidratados, imagens de santos e mártires. na vida ordinária você não sente medo nem torpor, só psicose e rancores frígidos. na vida ordinária tudo tem preço, peso e sabor e é tão artificial com corantes que dá vontade de morder. na vida ordinária você higieniza o desejo, acumula gorduras, segue o comando da voz. na vida ordinária existem dívidas, apólices, banco de dados e catálogos que explicam. na vida ordinária você trapaceia, ilude, ludibria e finge como todos fingem. na vida ordinária você é célula, parafuso, número, uma coisa entre coisas. na vida ordinária todos os sonhos estão em liquidação e você ainda pode pagar no cartão daqui a 30 dias. na vida ordinária você gasta o seu salário em culpas e acessórios, constitui família, constrói muros, patrimônios e agoniza místico e feliz todas as horas do fim.

 

***

 

ânima

 

crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. faça adormecer os móveis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um cálculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pescoço, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me faça respirar.

 

***

 

manual da trapaça

o truque é ter medo até derreter os ossos. o truque é virar estátua de sal e correr com os cães. o truque é ser de gelo e não evaporar. depois é o lodo corrosivo, o torpor na curva escura, a lógica dos falsários. depois é a solidão comendo pelas bordas, os narcisos do paraíso digital escrevendo líricas sintéticas. depois são só os ratos pedindo perdão. o segredo então é ser ulisses na caverna com os ciclopes e não ser ninguém. o segredo é entrar no invisível com sangue escorrendo pelo nariz. o segredo é viver no agora descartável, indolor, sóbrio como os mortos. o segredo é investir na prótese dentária, no artifício lúdico, no verniz da auto-promoção. depois é o vôo raso sobre os escombros, teatro infanto-juvenil, kardecismo e psicose. depois são os alcoviteiros do bairro, o churrasco, a porção de fritas, o chopps. depois é o tráfico, a corrida de obstáculos e o grande espetáculo diário dos horrores.

 

***

 

hell paraíso

agora assinamos leis que matam crianças, tatuamos o nome do medo e da cobiça em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estimação. cientistas políticos, agências publicitárias e poetas irascíveis negociam o céu azul enquanto queimamos índios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de nós sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes aos focas e as hienas. agora os falsários e os corruptos se multiplicam nos corredores das repartições públicas, vampiros almoçam em fast-foods como príncipes das trevas que são. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores minúsculos e o hálito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora é o futuro em ruínas, a ilha dos tubarões, o paraíso dos assassinos.

 

***

 

esfinge

o que você fez? mexeu nos meus papéis? vasculhou meu lixo? fez despacho pra iansã? o que você fez? coou meu café na calcinha, colocou veneno de escorpião na minha bebida, deu um nó nas minhas meias, quebrou meu espelho, escreveu meu nome na pedra de gelo, o que você fez? espetou um alfinete no meu peito? sussurrou em meu ouvido enquanto eu dormia? o que você fez? deu prus meus amigos? emborcou meus sapatos? queimou minhas cartas, meus planos de vôo? roeu minhas unhas, meus ossos, todos meus sonhos? o que você fez? deixou meu nome na encruzilhada? chamou a polícia? jogou minhas cinzas prus ratos? envenenou minha comida? o que você fez? colocou minhas coisas numa mala e jogou no mar? riscou um x vermelho na minha cara no porta-retrato? o que você fez? mastigou minha sombra com os seus caninos? mergulhou meus cabelos no inferno? tocou com a ponta dos dedos em minha testa e enlouqueci? o que você fez?

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Beatriz Bajo

 

Ilustração: Vera Lluch

 

INFINITIVOS

 

e se meu coração estiver na boca?

um beijo para assaltar o tempo perdido
na esquina canalha da navalha
desafiada
da rua sem saída

acordar a flor intacta e sonolenta
simulacro encantado no caule tortuoso
da árvore primitiva no sertão
úmido dos meus lábios sábios

a cor da arma de voo da libélula incrédula
é irresistivelmente a brancura infinita
das rendas tramadas nas fibras líquidas
âmagos imantados pelas intimidades luminares

 

 

***

 

 

TÊMPERA

 

ela roga entre escândalos dos sândalos
que exalam de seu rosário
raízes misericordiosas que se enovelem
por todos os segredos
tato intacto alma nua concreta pra ele
a cintilância que se curva ante o amante
todo despertar é fiança enfiando-se
na agulha do tempo desfeito de amor
aço da têmpera costurada
de esperas

 

 

***

 

 

LUX

 

um homem constrói sua mulher
pela beira de si, pilares
altares de singelezas
arquitetados de aleluias

por milênios dentro
dos momentos
acende colunas e
tonifica músculos
no peito aberto
para o sempre

inventa hélices
alianças
amálgamas

assim
eternamente
apalavrados
– no franco
caminho
de seus corpos –
despertam a linguagem
intraverbal
que os ultrapassa:

“nós
nos
vivemos”

 

Beatriz Bajo (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são domingos em nós (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, a face do fogo (SP) e : a palavra é (PR), os dois de 2010. Mantém o blogue Linda Graal e o Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .