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87ª Leva - 01/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O caminho musical é como um grande deserto a se cruzar. E encontrar algum oásis parece ser algo cada vez mais raro nos dias de hoje. Em meio aos desafios trazidos pela modernidade, construir uma carreira tornou-se também uma verdadeira luta contra a uniformização, seja ela de comportamento ou simplesmente situada no campo das ideias. Para que uma obra tome algum sentido de permanência entre os mortais, há que se reconhecer a sua capacidade de não ser mais um agente pulverizador na multidão de caras e bocas.

Talvez os novos tempos tenham causado uma sensação de um “salve-se quem puder”, sobretudo para os artistas que ainda almejam um certo lugar ao sol. Diante de cenários múltiplos de expressão, e levando em conta a velha e desgastada discussão sobre juízos de valor, viver da música no Brasil se assemelha a uma missão tortuosa, repleta de incertezas e algumas imposições de desvios. São poucos os que resistem a tais provas de fogo e, ainda assim, conseguem manter sua fibra inicial. Com o tempo, a perspectiva da originalidade acaba sendo um fardo para muitos. Para outros tantos, como é o caso da cantora mineira Selmma Carvalho, ser genuíno é fonte incondicional de seguir adiante.

Com uma carreira que soma quatro discos na bagagem, Selmma se mantém firme no propósito de fazer do seu canto um instrumento de contemplação da vida. Ao longo dos anos, vem conferindo à sua trajetória uma fidelidade significativa, cuja importância maior está no prazer em incorporar a música em plenitude. Como se não bastasse a sua tradicional entrega como intérprete, vivenciando canções de figuras importantes do cenário nacional, a artista revela agora a sua face de compositora. Em seu disco mais recente, “Minha Festa”, a maturidade musical da artista é algo que preenche bem os cenários. E o que vemos agora é uma Selmma bem à vontade com tudo o que o tempo foi capaz de lhe proporcionar. O resultado não poderia ser outro: a afirmação de um sentimento de devoção à arte. Na conversa que agora segue, a cantora fala da construção de seu caminho, especialmente da atitude que a faz trilhar as alamedas dessa majestosa e enigmática senhora chamada música.

 

Selmma Carvalho / Foto: Miguel Aun

 

DA – “Minha Festa” é um disco orgânico, algo que compõe uma unidade viva de sentimentos que se harmonizam em torno de imagens fortes e quiçá íntimas. Há ali uma sensação de leveza a dominar os ambientes todos. A ideia de uma celebração de vida está no centro desse seu novo rebento?

SELMMA CARVALHO – Sim, celebrar sempre, as conquistas, sonhos, desejos íntimos realizados. “Minha festa” foi uma celebração, uma vitória, em todos os sentidos. Me senti amparada por amigos imprescindíveis e construímos juntos essa festa! A cada dia de gravação, sempre uma surpresa, uma ideia bem-vinda, um carinho, um beijo, um abraço, e o mais importante, a sintonia incrível que  tomou conta de todos os envolvidos.

 

DA – Há um sentido de brasilidade muito especial no disco. Prova disso é o modo como os arranjos das canções se delineiam no conjunto, com destaque para os elementos vocais e instrumentais. Como se deu o processo de concepção do álbum?

SELMMA CARVALHO – Mesmo sem ter fechado o repertório, que foi definido ao longo do processo de gravação, eu e o produtor/arranjador Rogério Delayon conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos que participariam, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.

DA – Diferente dos seus discos anteriores, seu novo trabalho traz algo em especial: a Selmma Carvalho compositora. Essa sua nova feição é algo que já estava sendo maturado? Que desafios ela encerra?

SELMMA CARVALHO – Com certeza, essa é a grande novidade. Desde que lancei meu primeiro cd, venho escrevendo, compondo, mas ainda não me sentia à vontade para divulgar as canções. Cheguei a tocar uma delas em show,  mas nunca quis gravá-la. Sou muito crítica e exigente comigo,  achava prematura essa investida. Mesmo assim, continuei a compor, foi sagrado reservar um tempo do meu dia para isso. Muitas vezes não saía nada; noutras, sentia mais confiança. A perseverança e a minha insistência foram fortes e fundamentais pra quebrar essa insegurança. Enfim, criei coragem, mostrei as canções,   vieram parceiros, incentivos e taí o resultado, quatro canções inéditas com bons retornos.

 

DA – Num futuro próximo, qual seria a real dimensão de você vislumbrar um caminho inteiramente autoral?

SELMMA CARVALHO – Já abri o caminho, creio que vai acontecer se tiver que acontecer. Até porque gosto muito de interpretar novas canções de compositores que admiro, dar novas cores ao nosso cancioneiro popular tão rico. Isso tudo me dá muito prazer. No “Minha Festa”, foram quatro canções. Quem sabe no cd que está por vir aumento esse número para 6 ou 7? O futuro dirá! E que venham mais parceiros!

DA – Os novos tempos forçaram a indústria fonográfica a reajustar seu comportamento. Nesse ínterim, até mesmo artistas consagrados também tiveram que se adequar a certos imperativos do momento. Fazer shows parece ter se tornado mais importante do que apenas vender discos, sobretudo na era dos downloads. Diante desse cenário, como fica o caminho dos artistas independentes?

SELMMA CARVALHO – O mercado musical é particularmente complexo. O artista independente enfrenta dificuldades na gestão, organização, estruturação de projetos e de carreira. Não é nada fácil projetar com credibilidade a identidade e o trabalho, quer junto à mídia, quer junto aos amantes da música e ouvintes.
Ter  consciência dessas dificuldades é importante para não gerar frustrações. Apesar de tudo, é importante insistir. Se o trabalho for bom, dia menos dia ele vai acontecer. Temos muitas ferramentas de trabalho, muitos canais interessantes na Internet, muitas opções. Mas é preciso estar sempre ligado e não desistir.

 

Selmma Carvalho / Foto:Miguel Aun

 

DA – É curioso imaginar que vivemos num país que convive com tamanha diversidade cultural mas não sabe conciliar os contrastes. Na música, isso é bastante revelador. Ao passo que nos orgulhamos pelo grosso caldo que produzimos, temos uma enorme dificuldade em afugentar os preconceitos. O que pensa a respeito disso?

SELMMA CARVALHO – O preconceito é gerado por um problema cultural que engloba, além da música, outros aspectos do Brasil. Num país em que a educação não é tratada como prioridade, o que dirá a cultura?!

 

DA – Além da educação básica, outros caminhos podem surgir quando pensamos nas vias culturais, no quanto um ambiente favorável à democratização do acesso pode fazer a diferença. Guarda em sua lembrança algum projeto em especial que você testemunhou como sendo uma valiosa aposta de mudança de rumos? 

SELMMA CARVALHO – Me lembro sim. O grupo Tambolelê, de Belo Horizonte, criou uma oficina de percussão para crianças carentes usando vários instrumentos. Essa oficina teve sede própria e, além de acontecer em BH, foi levada para cidades mineiras também. Era lindo ver a alegria, o entusiasmo da garotada nas apresentações! Sei que existem muitos outros e torço para que eles se multipliquem, pois faz um bem danado para quem faz e para quem recebe.

DA – Não lhe parece que o mercado da música tem se preocupado muito mais com a imagem do que propriamente o conteúdo? Algum dia, o tempo saberá dividir bem tais porções?

SELMMA CARVALHO – A imagem é importante sim, claro! O conteúdo e boa imagem juntos é bacana demais, é cuidado. O que desanima são imagens apelativas, que infelizmente são muitas. E o pior: vendem!

 

DA – Uma obra é marcada notadamente pelos desafios dos intervalos. Dentro do contexto musical, sempre se espera algo quando um disco novo surge. No seu caso, e falando das expectativas geradas ao longo de toda sua carreira, como foi lidar com tais entreatos?

SELMMA CARVALHO – Quantos desafios! O espaço entre o terceiro e o quarto cd foi muito inquietante para mim. Projetos de leis de incentivo eram aprovados, mas não captados. Aconteceu comigo e com vários companheiros músicos. Foi geral. Essa fase causa muita ansiedade e até descrenças. O artista é muito sensível, ainda bem, e de alguma maneira transformamos todos esses sentimentos que nos atordoam em música, em novas composições, em ideias. Assim se deu comigo. Sempre acontece uma reviravolta quando o querer é forte. Uma força tamanha toma conta, o desejo enorme de concretizar, de fazer acontecer. E para acontecer, o foco e o trabalho são fundamentais. Está aí o novo cd,  feito com muito suor, muito trabalho, amor, união e que me encheu de alegria. O que vai acontecer com ele? Não sei. O mais importante agora é manter o foco para divulgá-lo, mesmo com todas as dificuldades que conheço bem, mas sigo em movimento.

DA – Sem dúvida alguma, sua voz é seu bem mais precioso.  A intérprete Selmma agora consolida seu trajeto não apenas com o verbo de outros compositores, mas também com o seu próprio. Saberia dizer o que a música espera de você?

SELMMA CARVALHO – Eu espero aprimorar esse meu outro lado, o lado mais criativo que é o da composição. Quero dizer mais e ouvir a música me dizer mais ainda.


 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Elisa Ribeiro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

 

Peças em pau-marfim

 

A linha dos olhos
faz flechas
da cor de futuros

As mãos formam conchas
de pegar contentamentos

Os pés são grandes
como as telas
holandesas realistas

O corpo inteiro
é um tabuleiro
de jogar jogos de azar

As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada

Onde eu me finjo
de dama

 

 

***

 

 

Raso

 

Não me movo
neste espaço
por acaso.

Entre um lado e outro
destes braços
tem um raso.

Ímã, fivela, argola,
nada disso
cola.

 

 

***

 
Desvão

 

desvão esconso
tonto

cérebro torto
corpo oco

seu rosto flagrado
no topo
no cume mais morto

do meu próprio
torso
em fogo

 

 

***

 

 

Crise

 

É sempre por dois trizes
Que desistimos dos passos
Dos dias, das tentativas

Sempre por um triz de perder
E outro de ganhar
e não saber manter

 

 

***

 

 

Foram pingando umas estrelas no céu preto
Pintando umas nuvens no céu breu
Uns desassossegos, entreveros
Você, o abismo e eu

 

 

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte e faz 39 anos em 2014. Publicou Poesinha (Poesia Orbital, 1997), Perversa (Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (InterDitado, 2008) e Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), todos livros de poesia. Tem poemas em diversas antologias, no Brasil, em Portugal e no México. Na crônica, publicou Chicletes, Lambidinha & outras crônicas e Meus segredos com Capitu, pela editora Jovens Escribas. É professora do CEFET-MG.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Olhares

Olhares

A virtude das tensões

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Vera Lluch

Levar a cabo as inquietudes do mundo. Ainda assim, perceber que a existência não é uma só e que outros cenários convivem paralelos bem diante dos olhos. Quiçá invisíveis, tais lugares serpenteiam sob certezas e outras tantas ilusões cotidianas. Não há nada melhor do que rasgar o manual da objetividade que tanto vicia nossos dias aqui no planeta azul. Ou seria melhor planeta água, no qual as esperanças se liquefazem tanto na dor quanto no prazer?

Em meio a tudo, é sempre bom poder falar na epifania de um artista. De como esse ser incomodado projeta esferas do pensamento, o tal subproduto da alma. No caso específico de Vera Lluch, é bom ter em conta que o caminho trilhado através da arte reflete não apenas um motivo crucial de expressão da vontade e do olhar, mas principalmente uma forma de entender a vida como sendo um corpo orgânico, amalgamado por sentimentos que habitam na morada secular dos contrastes humanos.

De modo hábil, Vera sabe conjugar o verbo de nossas interrogações diante do pathos mundano. De suas ilustrações, explodem certeiros alguns arremates da consciência. Da avalanche fragmentada que atravessa o relógio do tempo, a artista reúne os cacos de um mundo ainda pouco sabedor de suas reais contradições, tomado que está pelo desfoque das ideias.  O resultado disso fica por conta de um delicado jogo de embates entre matéria e espírito, parceiros inalienáveis do ponto de vista da natureza das coisas, mas que, simultaneamente, se atraem e se repelem no fosso monumental da pós-modernidade.

Ilustração: Vera Lluch

Os recortes humanos presentes na obra de Vera Lluch demonstram que a gênese de nossos estados do ser são a consequência mais pura das escolhas intuitivas. Desse modo, o curso interno das coisas, com toda sua necessária carga de abstração, molda o leito do rio da sensibilidade, sem negar fogo ao terreno da provocação e do espanto diante de tudo o que presenciamos no continuum do tempo.

Nascida no Peru, a artista cresceu dividida entre o Brasil e o Chile. Atualmente, vive e trabalha em Burlington, no Canadá. Diante de todo esse seu deslocamento territorial, ela encontrou na arte um motivo valioso para fundar seu próprio universo, transcendendo a mera noção de pertencimento geográfico.

Na mescla de desenhos, pinturas e colagens, Vera repensa o ato de existir. O efeito maior de seu trabalho talvez seja o de experimentar caminhos e deslocá-los a um ponto mais próximo do cume de nossas hesitações. Mesmo nos pontos de tensão, as ilustrações sugerem uma convivência com a porção lúdica das coisas. Revestidos de um olhar lúcido, os personagens da artista mergulham fundo no lago límpido, sedutor, porém imperfeito, da vida.

 

 

Ilustração: Vera Lluch

 

* As ilustrações de Vera Lluch são parte integrante galeria e dos textos da 87ª Leva.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Ela (Her). EUA. 2013.

 

“O passado é só uma história que nos contamos”.

 

No poema Não Deixe, o escritor Charles Bukowski adverte:

‘Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
(…)
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
(…)
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa’.

Influenciado ou não pelo conselho do velho safado, o homem tem procurado na tecnologia seu firmamento. São jogos, gadgets, aplicativos. Redes sociais que, ao clonar nossa melhor versão, expõem nossas maiores fragilidades. É da mente fecunda do cineasta Spike Jonze – responsável por obras como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) – que surge um dos mais instigantes filmes sobre a era digital. Com estreia prevista nas salas brasileiras no próximo dia 14 de fevereiro, Ela analisa de maneira bastante peculiar a mecânica das relações humanas estabelecidas a partir dos avanços tecnológicos.

Em uma futurista Los Angeles retrô, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é um introspectivo escritor que trabalha na agência “cartasescritasamao.com”, redigindo correspondências de pessoas com dificuldade em expressar seus sentimentos. Separado da esposa Catherine (Rooney Mara) há quase um ano, ele ainda se culpa pelo que possa ter minado a relação com seu amor de adolescência. Certo dia, movido por curiosidade e carência, Theodore adquire um revolucionário sistema operacional com inteligência artificial, cuja tecnologia permite que o software evolua e se adapte conforme sua interação com seres humanos. O OS1 apresenta-se como “uma consciência que promete ouvir, entender e conhecer” seu operador.

E assim nasce sua relação com Samantha (Scarlett Johansson), uma entidade intuitiva de voz suave, espirituosa e inteligente (quem mais conseguiria ler um livro ou compor uma canção em frações de segundos?) que se encanta com o mundo e faz com que o autor recupere seu entusiasmo pela vida. Tal encantamento transforma-se no mais legítimo afeto. Porém, estabelecer uma relação amorosa com “alguém” tecnicamente perfeito e ao mesmo tempo limitado pela ausência de um corpo físico, é de fato criar um vínculo real?

 

Theodore (Joaquin Phoenix) em seu contato inicial com o OS1

 

A delicadeza com que o diretor trata o assunto e a sintonia entre “o casal” é tão grande que em nenhum momento Theodore soa bizarro por apaixonar-se por uma máquina. Ao contrário, a impressão é que qualquer um poderia ser cativado pela voz (e é somente este seu recurso cênico) de Scarlett Johansson. Aliás, como diria a vizinha Amy (Amy Adams) em determinado ponto: “qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração”. Escrito e dirigido por Spike Jonze e vencedor do Globo de Ouro como Melhor Roteiro, Ela concorre ao Oscar 2014 em cinco categorias: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora (executada pela banda canadense Arcade Fire), Canção Original (The Moon Song, composta por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs e interpretada pela própria Scarlett, acompanhada por Joaquin no ukulele) e Direção de Arte.

Apesar da atmosfera científico-ficcional e da crítica ao cativeiro tecnológico do qual o homem se faz refém, Ela foge do lugar-comum para contar uma história genuinamente de amor. O filme apresenta um romance em seu estado mais puro e com toda a complexidade que o sentimento compreende. Sensível até em sua paleta de cores, o longa alia de forma genial passado e futuro, confrontando uma das mais primitivas formas de comunicação – a carta – com o que há de mais avançado em um computador. Certamente Samantha seria a destinatária da mais bela carta de amor já publicada por Theodore. E quanto ao poema de Bukowski, um adendo: Não deixe… de assistir esta pequena obra-prima do século XXI.

 

 

 

 

Larissa Mendes também quer um OS1 para chamá-lo de Him.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 Mariel Reis

 

Ilustração: Vera Lluch

 

O Peixe


Ele tinha transtornos. Os transtornos impediam que se relacionasse com mulheres. As mulheres evitavam-no a todo custo.

O custo era alto. Alto porque contratávamos prostitutas. As prostitutas tinham que ser louras. Louras e peitudas. Louras, peitudas e altas. Altas, altas, depois de tanta bebida. Bêbadas, elas começavam a olhar para o meu amigo. Ele tinha transtornos. As prostitutas eram fadas.

Ele não notava o desprezo, o nojo, o desconforto. As prostitutas depois de rodadas de bebida esqueciam por um tempo o desprezo, o nojo e o desconforto. Permitiam-lhe tocar nos seus seios.

Ele tocava, agarrava e mordia as prostitutas. Prostitutas lindas, louras, altas. O atlas do mundo dele. Torto, na cadeira de rodas.

O dinheiro comprava toda aquela felicidade. As prostitutas passeavam em sua cadeira de rodas elétrica, dançavam com ele, colavam os ouvidos à sua boca para escutarem a sua voz fraca.

Tudo custava dinheiro, muito dinheiro.

Eu bebia uísque nacional. Uísque falsificado. Ele, lá, na pista de dança, com as prostitutas altas, louras e peitudas. O meu dinheiro escasseava. Toda vez ele me pedia as prostitutas louras, altas e peitudas. Agora queria prostitutas louras, altas, peitudas e de olhos azuis.

Chamei as mesmas da festa anterior. Comprei lentes de contato para todas. Todas tinham agora olhos azuis.

O médico dele deu-lhe mais três meses. Ele repetia O PAI , O FILHO E O ESPIRITO SANTO. Repetia. Repetia. Três meses. Ele se apaixonou pela prostituta alta, peituda, loura e de olhos azuis. Queria casar com ela. Casou bêbada. Era um casamento de mentirinha. Dormiu com ele a primeira noite. Cobrou alto. O meu dinheiro acabando. Fiz um pacote de uma semana.

Ele não queria mais as festas com tantas louras, peitudas, altas e de olhos azuis. Só queria ela. Eu bebia litros de uísque, trabalhava pelo computador, saía pouco de casa. Descansava na piscina. Ele ria. Os cabelos afagados por aquele sonho comprado caro.

Começou a me pedir coisas impossíveis. Viagens a lugares distantes, sagrados ou não. Ele me pediu para morrer em um submarino. Havia aquele parado no velho cais do centro que servia para a visita de estudantes. Ele não sabia quando morreria. Morrer fora de um submarino estava fora de cogitação.

A prostituta–esposa me pedia mais dinheiro, mais bebida. Eu me enojava de tudo aquilo: Por que ele não poderia levar uma vida normal? Por quê? Os médicos não se mostravam satisfeitos. Suspendi os remédios. Quer dizer, ele suspendeu.

Morávamos no velho submarino do cais da cidade. Todo vivente que o visitasse nos encontraria por lá.

As garrafas de uísque vazias boiavam ao redor do casco do submarino, repletas de cartas.

Um dia, acordei tarde, de ressaca. Ele estava vendo o nascer do sol. Levantou-se com esforço da cadeira, a prostituta-esposa molhava os pés delicadamente n’água. Escorregou até o mar. Nadou de costas uns duzentos metros.

Afundou.

Reapareceu, mais à frente.

Ele queria ser um peixe. Despedi a prostituta. Consultei o saldo de minha conta bancária. Deveria comprar um barco. Vendi o que me restava. E me tornei um pescador.

Mariel Reis é escritor, publicará em 2014 o livro de narrativas  “Bordel de Bolso” pela Editora Oitava Rima. Escreveu os livros: “Linha de Recuo” (contos), “John Fante Trabalha no Esquimó” (contos), “Vida Cachorra” (contos), “Cosmorama” (poesia), “Cidade Tomada” (crônicas políticas), “A Arte de Afinar o Silêncio” (contos) e “A Fábrica” (narrativas – inédito).

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Galeria

Ilustração: Vera Lluch

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Ilustração: Vera Lluch

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Ilustração: Vera Lluch