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	<title>88ª Leva &#8211; 02/2014 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<title>88ª Leva &#8211; 02/2014 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Mar 2014 13:54:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[Alberto Pucheu]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 88ª Leva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna3.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna3.jpg" alt="" class="wp-image-7053" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna3.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna3-300x199.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Caminhar com o tempo, e não ao largo dele. Sentir o vento investir em nossos rostos suas rajadas sem rumo. Entender tudo o que nos cerca com um sentimento de dinamismo e alguma ponta de mistério. Entre passados inalteráveis e futuros projetados, melhor ficarmos com o que agora explode diante de nossos olhos vacilantes. Fora do presente, tudo são instantes em suspensão, emoldurados no coágulo de eras internas. O tempo que nos rege é inquilino assaz de nossos silêncios, um sorrateiro habitante das entranhas que nos são caras e indomáveis. O novo, falseando a mutabilidade das coisas, usa máscaras para sair às ruas. Acaso existirá o ainda não-dito? Sempre fomos os mesmos por mais sedutoras que possam parecer as transformações mundanas? Perguntar ou responder mais? E quanto ao exercício das escutas, o que fazer? Ao passo que nos achamos pretensamente munidos de certezas, percebemos o quão frágil é nossa espinha dorsal. Subliminarmente e em doses terapêuticas, vamos provando o gosto indefinido de tudo aquilo que não temos domínio aparente. Será o invisível que nos impele? Ante tamanhas indagações, é preferível viver em suspensão, supondo ritmos próprios e não profetizando auroras. Assim, testemunhando o curso imprevisível da existência, compartilhamos da mesma substância que impregna a arte do fotógrafo <strong>Ozias Filho</strong>, cujas imagens curvam-se diante do ritual indomável das horas. Nessa mesma trajetória de mistérios, as janelas poéticas de <strong>Tadeu Renato</strong>, <strong>Ana Peluso</strong>, <strong>Caco Pontes</strong> e <strong>Vagner Muniz </strong>convergem em densidade. Revivendo uma porção fundamental do legado do cineasta <strong>Eduardo Coutinho</strong>, a jornalista <strong>Claudia Rangel </strong>fala sobre o documentário Jogo de Cena. Numa aproximação com a ótica de <strong>Jorge Luis Borges</strong>, o escritor <strong>Anderson Fonseca</strong> caminha filosoficamente pelas complexas apreensões do nome de Deus. A entrevista com a escritora <strong>Ana Peluso </strong>traça painéis em torno do intricado mundo das palavras. Cenários difusos de vida compõem as estruturas narrativas dos contos de <strong>Isabela Penov</strong>, <strong>Alberto Pucheu </strong>e <strong>Sérgio Tavares</strong>. O poeta <strong>Gustavo Felicíssimo</strong> discorre sobre a crônica em consonância com a obra de <strong>José Saramago</strong>. Os olhos apaixonadamente cinéfilos de <strong>Larissa Mendes </strong>voltam suas atenções para a odisseia familiar do longa Nebraska. Somos todos ouvidos ao mais novo álbum da banda mineira <strong>Graveola e o Lixo Polifônico</strong>. Assim, o contar do tempo nos fala de 88 Levas vividas. E, a cada edição que surge, permanece a sensação de que olhamos tudo como se fosse a primeira vez. Que você, caro leitor, também possa desfrutar de tal perspectiva! </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Janela Poética II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-ii-23/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Mar 2014 13:49:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[Caco Pontes]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[maloqueirista]]></category>
		<category><![CDATA[O incrível acordo entre o silêncio & o alter ego]]></category>
		<category><![CDATA[Sensacionalíssimo]]></category>
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					<description><![CDATA[A percepção da modernidade nos versos de Caco Pontes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Caco Pontes</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA7.jpg"><img decoding="async" width="500" height="334" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA7.jpg" alt="" class="wp-image-7003" title="Ozias Filho" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA7.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA7-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho.jpg"><img decoding="async" width="500" height="334" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho.jpg" alt="" class="wp-image-15484" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Ozias Filho</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Clarividência virtual</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;</span>lê-se tarot pelo skype<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;</span>baixa entidade via download<br />
<span style="color: #ffffff;">..</span>cura vírus na força do pensamento<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;</span>trazacurtidapostadaemsetesegundos<br />
faz amarração no perfil da celebridade<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>(de qualquer lugar do mundo)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">se é sina<br />
elucubrar<br />
a sintaxe<br />
é o máximo<br />
que´se possa´<br />
alcançar</p>



<p class="wp-block-paragraph">(desafiando a gramática<br />
uma vez necessário)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De repente<br />
notou<br />
a pintura<br />
que seria<br />
o céu<br />
não fossem<br />
tantos<br />
pensamentos</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ascender às alturas<br />
e vez por outra<br />
visitar os grotões</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que tanta polícia, meu Deus, pergunta minha alma.<br />
Porém meu juízo<br />
não pergunta nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">amor<br />
não dá<br />
assim<br />
sem<br />
com<br />
paixão</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">romance pós-moderno<br />
(ou amandhum vitae)</p>



<p class="wp-block-paragraph">pra se envolver<br />
nos tempos atuaes<br />
é tudo uma questão<br />
de gênero</p>



<p class="wp-block-paragraph">antes trans<br />
do que poli<br />
saturados</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">oceanos de distância<br />
pelas diferenças<br />
&#8211; trocando torpedos<br />
no mesmo ambiente &#8211;<br />
teleguiados carregados<br />
em mensagens<br />
de texto</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Não precisa fiador</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">poesia<br />
é o aluguel da vida</p>



<p class="wp-block-paragraph">e quando tiver cansado<br />
da especulação imobiliária</p>



<p class="wp-block-paragraph">basta se tornar proprietário<br />
de uma obra<br />
literária</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">o maior inimigo<br />
mora do lado<br />
(de dentro)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://cacopontes.net"><strong><em>Caco Pontes</em></strong></a><em> é poeta e multiartista. Integrante do Coletivo Poesia Maloqueirista, autor de diversos livretos artesanais e&nbsp;</em><em>dos</em><em>&nbsp;livros &#8220;O incrível acordo entre o silêncio &amp; o alter ego&#8221; e &#8220;Sensacionalíssimo&#8221;, além de ter textos traduzidos para espanhol e catalão. Recentemente fez curadoria e mediação do evento de abertura da Mostra Tuiteratura, no Sesc Santo Amaro, e do ciclo Epivanias. Pesquisa a palavra nas performances oral, corporal, visual, sonora e musical.&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-21/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Mar 2014 13:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[Alberto Pucheu]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Em outras palavras]]></category>
		<category><![CDATA[rascunho em quarto de hotel]]></category>
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					<description><![CDATA[O estranho traçado da palavra na prosa de Alberto Pucheu]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Alberto Pucheu</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna1.jpg" alt="" class="wp-image-6967" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/interna1-300x199.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EM OUTRAS PALAVRAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">havia se passado oito ou dez anos desde a data em que diziam ele ter nascido, ainda que isso não fizesse, então, qualquer sentido para ele, nem agora, quase quarenta anos depois. ele havia sentido diversas vezes o que só conseguia expressar pela palavra esquisito (e com nenhuma outra), mas, quando se lembra disso, lembra-se de ter dito a palavra à sua mãe na garagem do prédio em que moravam, entre carros, azulejos, um vão central, alumínios e lâmpadas fluorescentes. não era uma palavra mágica, sua mãe não entendia o que ele se esforçava em dizer. era uma palavra insuficiente, equivocada, que não funcionava, que ele sabia não dar minimamente conta do que estava sentindo, da mesma maneira que nenhuma outra serviria a tal fim, inclusive as que vieram mais tarde, e ainda vêm, carregadas de peso, como ausência, nada, vazio, angústia, morte&#8230; em algum lugar, ele intuía a verdade, e ainda hoje a confirma: nenhuma palavra pode expressar isso que, uma vez sentido, não deixou de retornar, imprevisível e incansavelmente, encontrando-o até não mais o largar, até se tornar seu cotidiano, até se tornar um mais cotidiano que o habitualmente chamado cotidiano, isso para o que nunca houve um antes nem um depois, sendo por fora do que se costuma chamar de tempo, isso para o que ele não tem nem nunca teve nem jamais terá nenhum acesso, nenhuma língua, nenhuma tradução, nenhuma gramática. diante da impossibilidade que lhe comparecia, acatou que a única saída para ser fiel à partilha do acontecimento era traí-lo, traí-lo amorosamente. a solução encontrada foi falar por sobre isso, em torno disso, com isso sendo uma espécie de buraco negro para todo o dito, que sofria sua atração irresistível. quem sabe um dia, ao menos, um quanto qualquer dessa força deixaria um vestígio, pequeno que fosse, no dito. ele permaneceu bem ali, no meio, entre uma experiência para a qual não havia palavras e palavras desprovidas de toda e qualquer experiência, entre não dizer nada e falar o que pudesse, como a memória paradoxal desse esquecimento das palavras que, sabendo de cor, lhe concernia mais que todo o resto. talvez, o melhor que ele conseguisse fazer fosse um murmúrio indecifrável de todas as frases soando juntas, homogeneamente monótonas, ao fundo de cada palavra que não quisesse se sobrepor às suas vizinhas. talvez seja isso que ele tenha passado a vida buscando, explico, não exatamente a palavra que dissesse enfim o impossível de ser dito, mas uma tranquilidade qualquer com o inacessível, um poder estar à vontade com a ignorância do que, nele, sem deixar de ser o mais estranho, sempre foi e é o mais íntimo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><br />
</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RASCUNHO EM QUARTO DE HOTEL</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">as marcas de uma vida que se exila em palavras, que, desde o tempo presente, para ofertá-lo ao outro, o abandona, transformando-a – uma vida – numa sintaxe, num murmúrio, num resquício de paisagens mais ou menos esperadas de afetos e pensamentos cruzados, são nervos expostos, são corações expostos, uns pedaços do cotidiano expostos, de tal maneira que haja ali (ou talvez por isso tudo seja mesmo melhor dizer logo aqui) a pulsão de uma vida diária, de uma alegria diária, de uma melancolia diária, a mensagem de um amigo denominado ou anônimo, tanto faz, dá no mesmo, a minha mensagem, a de um eu, denominado ou anônimo, tanto faz, dá no mesmo, para um amigo que me escreveu, uma trepada de um amor denominado ou anônimo, tanto faz, dá no mesmo, umas palavras eróticas ou políticas ou quaisquer que sejam que se mostram fora de sua proveniência, a radicalidade de um esporte que não se sabe a que nível foi de fato feito, se é que foi feito, tudo, enfim, está ali, ou talvez por isso mesmo seja logo melhor dizer que tudo enfim está aqui, ou talvez que o ali e o aqui não precisam se encontrar, que é melhor que não se encontrem, que é melhor que se mantenham irreconciliados, que mantenham sua fresta, seu fosso, sua distância, para que nenhum dos dois queira se tornar uma condição preponderante sobre a outra, para que seus resíduos sobrevivam disparatados, para que inclusive você que me acompanha, para que você que está aqui comigo agora, possa estar também, a um só tempo, como eu posso dizer que estou, aqui e ali, ou em um intervalo qualquer entre o aqui e o ali, mesmo que eu nem saiba muito bem onde seja este aqui e esse ali,</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Alberto Pucheu</em></strong><em> nasceu em 1966. Em 2007, reuniu seus livros de poemas em &#8220;A fronteira desguarnecida&#8221; (poesia reunida 1993-2007), pela Azougue Editorial. Em 2013, publicou &#8220;mais cotidiano que o cotidiano&#8221;, pela mesma editora. Tem publicado livros de ensaios, realizou a exposição &#8220;Palavras&#8221;, na Oi Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual. Alguns de seus poemas participaram de videos de Danielle Fonseca e Gabriela Capper, todos no youtube.</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Drops da Sétima Arte II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/drops-da-setima-arte-ii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Mar 2014 13:23:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[Alexander Payne]]></category>
		<category><![CDATA[Bob Odenkirk]]></category>
		<category><![CDATA[Bruce Dern]]></category>
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		<category><![CDATA[Will Forte]]></category>
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					<description><![CDATA[Larissa Mendes e os dramas familiares do filme Nebraska]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Larissa Mendes</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nebraska (<em>Nebraska</em>). EUA. 2013.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/poster-menor1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="321" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/poster-menor1.jpg" alt="" class="wp-image-7101" title="Nebraska" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/poster-menor1.jpg 321w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/poster-menor1-192x300.jpg 192w" sizes="auto, (max-width: 321px) 100vw, 321px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading"><em>“— Seu pai tem Alzheimer?</em><br />
<em>— Não. Ele acredita no que as pessoas dizem”.</em></h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se você confiasse que aquela mensagem de sua operadora de celular, de fato, lhe premiou com um automóvel 0 km? Em <em>Nebraska</em>, o idoso desmiolado Woody Grant (Bruce Dern, pai da atriz Laura Dern) foi mais longe. Ele crê que a mala-direta de uma editora de revistas o fez ganhador de 1 milhão de dólares e, para tanto, precisa ir até Lincoln, estado de Nebraska, para retirar o prêmio. O detalhe é que Billings, cidadezinha onde mora, localizada em Montana, meio-oeste americano, fica distante mais de mil quilômetros da sede da editora. Escondido da esposa Kate (June Squibb), Woody tenta algumas vezes, sem sucesso, ir a pé até seu destino, até que o filho David (Will Forte), um pacato vendedor de eletrônicos, decide embarcar na sandice do pai e levá-lo de carro, afinal ‘<em>não se trata de dinheiro, mas de quanto tempo ele ainda vai viver</em>’. Assim, pai e filho embarcam em uma desventura pelas planícies norte-americanas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante o percurso, Woody tem um pequeno acidente e David decide desviar o caminho para fazer uma visita aos parentes que vivem em Hawthorne. Neste momento, Kate e Ross (Bob Odenkirk), o outro filho do casal, juntam-se à dupla. O boato que o velho está milionário se espalha rapidamente pelo lugarejo, provocando inveja e cobiça: há aqueles que tentam cobrar dívidas passadas e tirar vantagem de qualquer espécie. Como diria Kate, em determinado ponto: <em>&#8220;Normalmente, a pessoa tem que morrer antes de os abutres circularem a sua volta&#8221;.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="225" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA4.jpg" alt="" class="wp-image-6978" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA4.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA4-300x150.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Família Grant reunida em cena de Nebraska / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A complexidade dos personagens talvez seja o grande trunfo do filme. Eles são cativantes, introspectivos e singulares em toda sua normalidade. Woody (provavelmente o melhor desempenho de toda a carreira de Dern) sempre foi um pai ausente, alcóolatra, que nunca sequer discutiu com a esposa o desejo de ter ou não filhos. Aliás, somente na viagem, David fica sabendo, por intermédio de uma antiga namorada do pai, que ele esteve na Guerra da Coreia e ficou profundamente marcado pela experiência. Kate é uma verborrágica e despudorada senhora, que tece os comentários mais ásperos acerca da família (só a cena do cemitério já valeria à June Squibb o Oscar de coadjuvante). O tenro David (o comediante do <em>Saturday Night Live</em> empresta uma comedida carga dramática ao personagem) encarna a figura do fracasso e talvez projete no pai seu próprio futuro. Seu contraponto é representado pelo irmão mais velho, Ross (o Saul Goodman, de <em>Breaking Bad</em>), um ambicioso apresentador de telejornal local.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nebraska</em> é um <em>road movie</em> familiar, singelo e de humor refinado. A fotografia em preto-e-branco e a bela trilha instrumental garantem um sentimento melancólico e atemporal à película, como se aquelas vidas fossem monótonas e sem cor, como um dia nublado. O sétimo longa de Alexander Payne, diretor dos premiados <em>Sideways </em>(2004) e <em>Os Descendentes</em> (2011) <em>— </em>que pela primeira vez não assina o roteiro, deixando o cargo ao estreante Bob Nelson <em>—</em> é um filme de pormenores: é tanta delicadeza, tanta sutileza, que é impossível não sair da sala do cinema com um sorriso recompensador no rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez por falta de jeito ou de comunicação dos personagens, a narrativa carrega nas entrelinhas uma infinidade de sentimentos contidos, amores não-declarados, afetos reprimidos que saltam à tela e aos olhos. Sua temática aborda a passagem do tempo, o comodismo, a ganância e a força dos mal-entendidos nos núcleos familiares. A jornada pessoal de Woody é um pouco a marcha da vida de nós todos (exceto pelo “compressor de ar”): uma visita às raízes e o eterno [des/re]estruturar do ser. E a lição, de que, no final, o que vale na vida é ter algo em que se acreditar. <em>Nebraska</em> concorreu ao Oscar 2014 nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (Bruce Dern, vencedor em <em>Cannes</em>), Atriz Coadjuvante (June Squibb), Roteiro Original e Fotografia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" src="//www.youtube.com/embed/ELCl3jeSA-0" width="560" height="315" frameborder="0"></iframe></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Larissa Mendes</em></strong><em> não mora em Nebraska, mas também espera pela ‘good life’. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-20/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Mar 2014 13:05:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson Cavaquinho]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson e as flores]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Tavares]]></category>
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					<description><![CDATA[O escritor Sérgio Tavares homenageia Nelson Cavaquinho ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Sérgio Tavares</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA.jpg" alt="" class="wp-image-15491" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Ozias Filho</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nelson e as flores</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deixe-me ao menos as flores que te emprestaram o perfume, pois agora, espalhadas pelo caminho, são como um sorriso teu que não me deixa passar com a minha dor, de modo a impedir que vás assim, magoada, bateando a porta e derrubando em mim a culpa que não é par de um ato tão leviano, quando te disseste, abraçado ao violão, que iria partir sem saber se voltaria, que não me quiseste mal, pois era carnaval, e tu riste, um tanto distraída cantarolaste meu samba, mas verdade é que, entre as estrofes, exaltavas a aurora de uma mágoa que não souberas esconder dos dias foliões, e quando voltei (veja, é claro que eu voltaria!) a encontrei pelos cantos, com os olhos rasos d’água, para me inundar com amargura e injustiça, dizendo que a partir de hoje eu era espinho em teu amor, que nosso jardim, ontem viçoso, secou, e eu, ainda confuso e embriagado, tentei afrouxar teu desprezo, alegando que espinho não machuca a flor, mas isto só serviu para aumentar tua raiva, chamando-me de cínico, rei vadio, que sempre guardaste teus sorrisos para mim, teu zelo, e o que eu te reservaste?, a revelação, logo no primeiro carnaval, que foi um erro ter juntado minha alma à tua, que és sol que não pode viver perto da lua, aí conseguiste me inflamar, pois o carnaval amo antes de ti, então repliquei que poderia sorrir para quem quiseste, e mesmo dizer que não me queria, mas não precisava me humilhar, pois nos olhos da mulher, teus olhos, eu sei quando ela quer abandonar o lar, e tu se calaste e, do caminho até porta, ouvi somente teus passos, o vaso com as nossas flores se despedaçar pelo chão e meu último rompante, um tolo ultimato que pregava que se me disseste adeus, não pensaste mais em mim, que eu ficaria com Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sei que a fé não consegue confortar o vazio do amor, mas tenho fé que tu voltes, pois as flores, embora agredidas, ainda conservam o lastro do teu perfume como a certeza de que não foste por completo. Sinto, no meu peito, que, mais alguns minutos, a porta vai abrir uma fresta dos teus olhos e tu vais entrar, catando os cacos e as pétalas, e assumir que tudo não passou de um mal entendido, que o sol há de brilhar mais uma vez a clara luz que chegará aos nossos corações, queimando, do mal, a semente e tornando o nosso amor eterno, sempre, novamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentado na beira da cama que é nossa e não minha, não posso aceitar que tudo se acabe neste dia de cinzas, marcado por sentimentos e costumes opostos ao que é a nossa vida, e sim o espelho do que fui antes de te descobrir, quando o sol me era raro e a luz negra do destino cruel iluminava meu teatro sem cor, onde eu desempenhava o papel de palhaço, um louco de amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nestes dias sempre só, eu vivia procurando alguém que sofria como eu também, mas não conseguia achar ninguém, até que, naquela roda de samba, fingindo-me alegre, tocava meu violão, quando te vi, entre as cabrochas e as passistas, sozinha em um canto, desenhando em uma folha de papel de pão. Passei toda a noite acumulando coragem para falar contigo e, quando finalmente me aproximei, tu me recebeste com censura, pensando que o convite era de dança, mas o convite era de silêncio, e descemos até a praia onde sentamos na areia e deixamos que nossas tristezas se conhecessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante horas, foram só as nossas respirações miúdas se perdendo na estrondosa respiração do mar, então tu me perguntaste se eu carregava tanta dor no peito, por que o samba? E eu respondi que sempre soube esconder a minha mágoa, sem que me vissem com os olhos rasos d’água, fingindo-me alegre pro meu pranto ninguém ver e achando feliz os contentes, aqueles que sabiam sofrer. Nem a mágoa pode calar meu violão, eu disse, e tu me beijaste e, a partir deste instante, graças a Deus, minha vida mudou, quem me viu quem me vê, a tristeza acabou, pois contigo aprendi a sorrir. Escondeste o pranto de quem sofreu tanto e organizaste uma festa em mim, que comemoramos enlaçados, quietos, para não descompassar o batuque que ainda hipnotizava o morro. Na manhã seguinte, trouxe-te o desjejum e um buquê verde de rosas, que pediste para pôr em um vaso, como um pedido para que ficasses para sempre com o meu amor. E tu sorriste, ajeitara-te com sonolência e, cobrindo a nudez com o lençol, disseste:</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amor é como a flor, Nelson. Ele nasce e morre quando não se espera.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem braga, aproximei-me de teu ouvido e confessei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode haver outra mulher tão carinhosa, mas para mim é apenas tu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos dias que se passaram, construímos um amor tão duradouro quanto as flores que nunca perderam o viço. Agora caídas, penso o quão ingrata foste por não considerar ao menos o que elas representam. Se bem que, avaliando a frieza das tuas primeiras palavras, assalta-me uma suspeita de que tu usaste o carnaval como pretexto para se livrar de um amor que, para ti, nunca de fato existiu. Pesando o rigor dos teus protestos sobre um ato tão banal, sinto aflorar em mim o medo de que isto seja verdade e, inesperadamente, percebo uma lágrima descer pelo o meu rosto, anunciando o brotar do meu desgosto. Pois sempre fui bom para ti e, por ti, sem que soubeste, quase passei fome, apenas para honrar teu nome: o nome que te dei. Temo que, o princípio de flores, tenha me feito tão cego de amor que não percebi que eu era demais entre seus amores, e acabei tropeçando nos erros de uma mulher sem alma, que, no meu peito, abria uma ferida a sangrar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se assim for, sei que só a fé é que me trará consolação para tanta humilhação que viverei a suportar. Olho para o relógio: são duas da manhã. Contrariado espero por ti. Aguardando amanhecer o dia e findar minha alegria, imagino qual será o teu paradeiro, que até agora não voltou. Já mesmo nem sei se voltarás ou se me abandonaste de vez? A minha esperança está morrendo, e a saudade, no meu peito crescendo, é o meu coração que me diz que sem ti eu não serei feliz. Nada me resta, além da tristeza. Mas espere um pouco: não fui eu que te quiseste mal, foste tu que quiseste a mim. Posso ser um rei vadio, um poeta sem lei, porém nunca vivi em vão, fiz tantos amigos, muitos irmãos. Sempre plantei o bem, e, por que não iria colher o que mereço? A felicidade pode tardar, mas tem meu endereço. E, quando chegar, trará o samba: o desfile das campeãs, o último suspiro de um repique, um cavaquinho ao longe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levanto-me para fechar a porta, dizer-te adeus e esperar o próximo bloco atravessar, mas logo percebo que tudo não passa de ilusão. Pois, quando passo perto das flores, elas me dizem assim: vai, Nelson, que amanhã enfeitaremos o seu fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nota do Autor:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nelson Cavaquinho era mestre da poesia de botequim. Sempre nas rodas dos boêmios, pernoitando numa mesa acessada por uma soma de parceiros musicais, trazia a lume histórias de indivíduos à sombra de desilusões amorosos, ébrios, sustentando sobre a vida uma tonelada de pessimismo e de melancolia. Dizem que são de sua autoria mais de 400 composições, muitas das quais negociadas por uma ninharia ou usadas como vales para hospedagens em pensões baratas. Nascido no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em outubro de 1911, era filho de um policial militar, rumo que tomou até ser sequestrado pela malandragem, pela comunidade da Mangueira, pelo samba. A princípio, tocava cavaquinho, depois abraçou o violão, que fazia soar com o uso de dois dedos. Também peculiar era a sua voz roufenha, que trazia naturalmente um senso lamuriento para suas letras desditosas. Gravou quatro discos próprios e foi regravado por artistas do quilate de Nara Leão, Elizeth Cardoso e Elis Regina. Morreu em fevereiro de 1986 como Nelson Antônio da Silva. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Esse conto-colagem é um tributo (certamente não o melhor, mas um honesto) montado com trechos das composições ‘A flor e o espinho’, ‘Juízo final’, ‘O bem e o mal’, ‘Mulher sem alma’, ‘Quando eu me chamar saudade’, ‘Luz negra’, ‘Pode sorrir’, ‘Rugas’, ‘Vou partir’, ’Duas horas da manhã’, ‘Palhaço’, ‘Amor que morreu’ e ‘Ninho desfeito’.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Viva Nelson Cavaquinho!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Sérgio Tavares</em></strong><em> é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-24/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-24/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Mar 2014 23:38:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[70 Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Ana Peluso]]></category>
		<category><![CDATA[Editora Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[inquietude]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[versos]]></category>
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					<description><![CDATA[Sete caminhos da inquietude nos versos de Ana Peluso]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ana Peluso</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-in.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="300" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-in.jpg" alt="" class="wp-image-15495" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-in.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-in-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Ozias Filho</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>N</strong>arrar os pequenos acontecimentos do dia<br />
uma lâmpada que queimou<br />
um conceito lógico sobre a fofoca<br />
cheiros e temperos<br />
a salvação da humanidade<br />
se um novo mar abriu<br />
-se em óleo<br />
os erros mais comuns da ortografia<br />
se os pássaros aprenderão a fugir<br />
se a ciência chega a tempo<br />
se virão tropas de choque<br />
e colidirão imagens sobre todas as cabeças<br />
o ouro das imagens sobre as cabeças</p>



<p class="wp-block-paragraph">em um dia comum de pequenos acontecimentos<br />
homens negociam<br />
ideias de enriquecimento</p>



<p class="wp-block-paragraph">homens como novelos<br />
de uma lã tão tosca</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>M</strong>uros gelados<br />
como aqueles que separam almas<br />
muros gelados<br />
na polônia gelada<br />
na pelada gelônia<br />
no meio de auxivitiz<br />
no meio de nothingtrix<br />
no meio do nazix<br />
morto – ?<br />
ora, não nos condene por perceber</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>N</strong>ão fiz as unhas esta semana<br />
gastei-as<br />
percorrendo teclas eternas<br />
formulando perguntas<br />
serrei-as<br />
clicando em cores<br />
formatando<br />
a métrica<br />
da ideia<br />
da busca<br />
de soluções</p>



<p class="wp-block-paragraph">montei estruturas sem luxo<br />
anéis de saturno<br />
circulares<br />
paralelos<br />
em eterno movimento<br />
olhei-as buscando a palavra<br />
o sentido exato<br />
risquei a pele<br />
na ânsia por respostas</p>



<p class="wp-block-paragraph">apoiei-as na língua<br />
entre os dentes<br />
e meu olhar se congelou num ponto<br />
o limite</p>



<p class="wp-block-paragraph">indignada, cortei uma delas<br />
com uma mordida</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>R</strong>efém do primeiro verso<br />
a palavra não encontra mais caminho<br />
verbo<br />
não concretiza mais destino<br />
ponto<br />
não aborda reticências<br />
vírgula<br />
não carrega interjeições</p>



<p class="wp-block-paragraph">não há sujeito<br />
nem provas que houve<br />
o artigo não define mais nada<br />
ou indefine</p>



<p class="wp-block-paragraph">metáforas<br />
métricas<br />
rimas<br />
elipses<br />
são só dores fantasma</p>



<p class="wp-block-paragraph">estrofe perdeu a língua<br />
ninguém cogita resgate</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A</strong> incapacidade de compreender o furacão<br />
quando falta o ar<br />
e a devastação é a respiração da terra</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>F</strong>izeram do poeta uma estátua<br />
parada na orla de uma cidade<br />
que não é Itabira</p>



<p class="wp-block-paragraph">fizeram do poeta uma pedra<br />
parada numa rua<br />
que não é um caminho<br />
fizeram do poeta um ser calado<br />
como sempre fora<br />
e sozinho</p>



<p class="wp-block-paragraph">agora repouso metamórfico<br />
metálico<br />
de partículas filosóficas do ar<br />
que o rodeia</p>



<p class="wp-block-paragraph">ele não ri nem de soslaio<br />
antes odeia</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>I</strong>ntergentes falais<br />
por códigos análogos<br />
semiólogos espiais<br />
pela espinha e sob o dorso<br />
do dragão<br />
a curvatura de um código-fonte<br />
subdesenvolvido para ser manipulado<br />
num grande laboratório de códigos-fonte</p>



<p class="wp-block-paragraph">epistemólogos e matemáticos decifrais<br />
se o movimento<br />
qualquer movimento<br />
é concebido a priori<br />
se for<br />
e de fato parece ser,<br />
juristas compadecei-vos<br />
das inúmeras rédeas sem dono<br />
que constam nos autos</p>



<p class="wp-block-paragraph">e<br />
poetas<br />
afundais<br />
porque já é ávida<br />
e movediça<br />
a lavra da palavra<br />
cuja grafia começou<br />
ontem</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Autora do livro 70 poemas,&nbsp;<a href="http://umsite.tumblr.com/"><strong>Ana Peluso</strong></a>, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. O livro 70 poemas integra a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC &#8211; Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-23/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Mar 2014 23:22:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[2 e ½ - Vozes Invisíveis]]></category>
		<category><![CDATA[banda mineira]]></category>
		<category><![CDATA[Clube da Esquina]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Fabrício Brandão]]></category>
		<category><![CDATA[Gramofone]]></category>
		<category><![CDATA[Graveola e O Lixo Polifônico]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[O quarto disco da banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Fabrício Brandão</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO – 2 e ½ &#8211; VOZES INVISÍVEIS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/CAPA-MENOR.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/CAPA-MENOR.jpg" alt="" class="wp-image-15497" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/CAPA-MENOR.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/CAPA-MENOR-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/CAPA-MENOR-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inventariar fragmentos da memória, esta ciranda de lembranças que recende a pó da estrada. No meio do trajeto, também não se deve esquecer de cultivar raízes e frutos duma cumplicidade. Se a vida é feita de momentos compartilhados, os sentidos da amizade revelam muito mais do que meras marcas do tempo. É o gosto primevo das coisas quem deixa a face de coadjuvante e atua com destaque no palco duma existência que pode ser mais leve do que se supõe. Mas por que carregar mais fardos do que suportamos quando nada na vida pode ser mais urgente do que apenas respirar os instantes?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o parágrafo acima ouse definir uma pequena parte do ambiente de sensações que pairam pelo mais novo disco do grupo <a href="http://graveola.com.br/ "><strong>Graveola e O Lixo Polifônico</strong></a>. Tal como a vida nem sempre nos dá a chance de reescrevermos através das suas vacilantes linhas, assim o é quando vivemos saboreando o gosto incerto dos esboços. E esse sentimento de permanente incerteza parece reinar nos arremates poéticos do álbum <em>2 e ½ &#8211; Vozes Invisíveis</em>. Certo mesmo é que em seu quarto disco, os mineiros da Graveola depositam suas impressões sutis sobre o tecido inexplicável dos dias sem buscar razões que se dignem a qualquer tipo de exatidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a própria vida jamais será uma equação matemática, é porque os caminhos não formam desenhos lógicos. E como saber disso nos serve de alento para continuarmos respirando sem os achaques científicos. Definitivamente e em matéria de sentimentos, a orientação meramente cartesiana das coisas é algo pronto a ser repelido. Assim, ao ouvirmos as composições musicadas da Graveola, temos a mínima noção de que estar no mundo é, acima de tudo, reverberar os acordes dissonantes dos devaneios que nos acometem por todos os cantos da mente. Para cada ouvido, uma experiência de percepções próprias se instala. E é justamente isso que faz de <em>2 e ½</em> um disco incompatível com bulas e manuais de instrução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA10.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="301" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA10.jpg" alt="" class="wp-image-7041" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA10.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA10-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Graveola e o Lixo Polifônico / Foto: Flávia Mafra</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A julgar pela escolha do título, o álbum já nos traz certa atmosfera de provocação e algum questionamento, pois as ações humanas, travestidas que estão pelo jogo das emoções e das ínfimas certezas, cabem num espaço de incompletude absurdamente colossal. É nesse momento que o novo trabalho da Graveola ganha proporções que flertam com traçados existencialistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As vozes invisíveis da banda evocam uma poesia que se situa no plano das ruas, dos becos errantes ou em sinas mergulhadas na rotina do tempo. Ao passo que revisitam afetos compartilhados, cantam a saudade, a transformação dos caminhos, as escolhas, o lado sublime das coisas e o gosto incessante pelo mistério. Numa tentativa de autodefinição, o próprio grupo se considera uma comunidade em movimento, repleta de investidas não necessariamente finalizadas. Pelo somatório de cenários, conduzidos pelos laços das afinidades em vida, fica a impressão de que ouvimos a expressão moderna de um outro clube da esquina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da escuta de faixas como <em>Vozes Invisíveis</em>, <em>Cafeína</em>, <em>Canina Intuição</em>, <em>Escadaria</em>, <em>Maquinário</em> e <em>Da Janela</em>, percebe-se que os caminhos percorridos não são nada uniformes. Refletem elementos rítmicos e melódicos bem típicos duma brasilidade carregada de pluralidade sonora. Assim, vocais e instrumentos estão a serviço de um verdadeiro mosaico de intenções puramente comprometidas com um certo ímpeto de acolher a porção sublime e indescritível da vida. Noutros momentos, há referências explícitas ao legado da MPB, como é o caso da canção <em>Envelhecer</em>, que entoa um “preciso aprender a ser só”, frase presente na composição dos bossanovistas Marcos e Sérgio Valle.&nbsp; Em a <em>Lenda do Homem Pássaro</em>, há um pungente sentido de reflexão sobrevoando resultados de algumas escolhas nossas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o Graveola resume seu novo rebento como sendo fruto de andanças entre amigos, é porque o melhor significado é resultado direto e inexplicável da arte do encontro. A despeito de se levar em conta a capacidade que temos de alimentar o jogo das complementaridades, reconhecemos que a inteireza do ser não passa de uma quimera. Entramos e saímos dos inefáveis cenários da existência sem ocuparmos todos os espaços eterna e teimosamente vazios. A vida não passa de uma obra em construção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-25/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Mar 2014 23:17:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[acausa do tempo]]></category>
		<category><![CDATA[desaguar]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[mergulho]]></category>
		<category><![CDATA[Serenidade]]></category>
		<category><![CDATA[último sopro]]></category>
		<category><![CDATA[Vagner Muniz]]></category>
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					<description><![CDATA[As sutilezas entrelaçadas nos versos de Vagner Muniz]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Vagner Muniz</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-F.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-F.jpg" alt="" class="wp-image-15502" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-F.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-F-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Ozias Filho</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SERENIDADE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algo de água no ar<br />
uma suspeita Na pele</p>



<p class="wp-block-paragraph">das coisas a busca de marcas<br />
em contraluz, de sombras<br />
(a face escura da ínfima gota)<br />
a mão pela janela: o que não se vê</p>



<p class="wp-block-paragraph">Respira-se água o vento<br />
(vivência primeva de peixe)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chuva-não<br />
vem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MERGULHO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bicho pequeno lambendo<br />
água na margem<br />
Um gole e o gesto rápido (a fuga)<br />
um gole um gesto mudo (tanto medo)<br />
E um e outro se muito Apenas<br />
a leões dá-se o direito<br />
de enfiar a língua.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A CAUSA DO TEMPO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo para<br />
fazer-se presente<br />
veste e reveste<br />
as paredes da casa</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo para<br />
ocupar um espaço<br />
investe-se<br />
nas paredes da casa</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo para<br />
fazer-se vivente<br />
(e não ser para sempre)<br />
ergue paredes em si<br />
para morrer pela causa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ÚLTIMO SOPRO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então ao tom da flauta a flor se abriu:<br />
era de o som escoar pela pele de pétala<br />
&#8211; Gélida pele da pétala<br />
(repete em trote um eco)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mínima breve<br />
pétala ao pulso de lâmina &#8211;<br />
grave (é um corte)<br />
Do alto da pauta<br />
o hálito alisava cílios, pálpebras<br />
Cerrados<br />
Vê de perto ao rés da pele os sinos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DESAGUAR</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">para Miguel</h6>



<p class="wp-block-paragraph">Plantado por ele<br />
fosse a terra<br />
antes uma água</p>



<p class="wp-block-paragraph">água em ondas<br />
braço de mar, do pai<br />
um mar, o maior de todos</p>



<p class="wp-block-paragraph">Defluente<br />
a vida à sua margem<br />
não nadei de peito</p>



<p class="wp-block-paragraph">(monstros marinhos<br />
à espreita sob espumas<br />
dos meus olhos)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E hoje manso meu mar<br />
mais lento o pulso<br />
anoitece</p>



<p class="wp-block-paragraph">as águas<br />
mais deitadas<br />
quase um rio</p>



<p class="wp-block-paragraph">(ainda vejo a linha<br />
onde a onda nasce:<br />
no espelho d&#8217;água, um mar acima)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rebento enfim mergulho<br />
além da linha, mais ao fundo<br />
antes tarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Vagner Muniz</strong> (São Paulo &#8211; SP) é poeta, designer e professor universitário. Tem poemas publicados na Germina &#8211; Revista de Literatura e Arte, no Portal Cronópios &#8211; Literatura Contemporânea Brasileira e na Mallarmargens &#8211; Revista de Poesia e Arte Contemporânea.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavra-ii-4/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavra-ii-4/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Mar 2014 22:58:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[A crônica e a crônica de José Saramago]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Blues para Marília]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Felicíssimo]]></category>
		<category><![CDATA[José Saramago]]></category>
		<category><![CDATA[Mondrongo]]></category>
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					<description><![CDATA[Gustavo Felicíssimo reflete sobre a crônica a partir de José Saramago]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>A crônica e a crônica de José Saramago</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Gustavo Felicíssimo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/J-Saramago.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="352" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/J-Saramago.jpg" alt="" class="wp-image-15506" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/J-Saramago.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/J-Saramago-300x235.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">José Saramago / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre fiz da literatura uma espécie de sacerdócio. Organizei encontros com escritores, editei jornais e revistas, publiquei uns tantos livros, colaborei para a publicação de outros tantos e fiz um percurso literário priorizando a publicação de poemas, afinal, era perda de tempo um autor tão pouco lido, e naquele momento tão jovem, se precipitar a publicar contos e crônicas apenas porque era conhecido de meia dúzia de leitores dessa nossa imensa Bahia de todas as dores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como durante algum tempo mantive-me publicando em jornais, revistas e no meio virtual, artigos sobre poesia, algumas leituras que fiz se deram um tanto por obrigação de ofício, outro tanto por conta de uma vontade insana de colocar à prova as leituras teóricas que detinha a fim de adequá-las à minha visão particular sobre o fazer poético, e por fim, sobre o poema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora me sinta poeta em tempo integral, todos os dias, as leituras que sempre e mais animam meu coração sucedem da crônica, essa forma literária que nos impele à reflexão, em que o narrador está desnudo e desvelado, especulador e concludente, poeta e ficcionista. Um gênero literário cujo conceito é altamente variável e que pode englobar tudo: páginas de memória, lembranças de infância, flagrantes do cotidiano, comentários metafísicos, políticos, considerações literárias, filosóficas, poemas em prosa, trechos de romance. Mas é o tratamento com feição ficcional que muitas vezes lhe é dispensado, aproximando a crônica de verdadeiros contos, que lhe dá a qualidade artística digna de grandes mestres, como é o caso de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino ou de um Saramago, a respeito de quem passamos a tecer alguns comentários a partir das próximas linhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devo admitir que não li ao todo mais que três ou quatro romances de Saramago, e que pouco ou quase nada soubesse de suas crônicas até ler algumas, dessa vez por ofício de estudante, graduando que sou em Letras. Delas o que me ficou foi a certeza que trazia comigo há tempos, que sua prosa é um exemplo de apuro do instrumento literário, para dizer o mínimo, dado que atualmente é impossível qualquer análise da prosa em língua portuguesa sem o conhecimento e o inevitável reconhecimento de sua obra, como atesta a imensa lista de estudiosos e críticos que possuem consciência do seu legado, à qual não falta em doses certas, reflexões existenciais, críticas, ironia, humor, a mais íntima relação com suas crenças ideológicas e observações ligadas às fontes da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelas crônicas de Saramago abundam exemplos do seu compromisso com a sociedade e o desconforto sentido com a circunstância do homem entre os homens, coisificado, como em “O grupo”, mas que procura dentro deste mesmo universo uma ressignificação dos próprios valores, da existência, assim como vemos também em “O cego do harmónio”, texto que ainda apresenta em si, assim como em “O inevitável poente”, uma narrativa de envergadura onírica, em que se nota acentuada inclinação do escritor para os domínios da poética.</p>



<div class="mceTemp"></div>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA-II.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="253" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA-II.jpg" alt="" class="wp-image-15507" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA-II.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/INTERNA-II-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">José Saramago / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os textos selecionados, um em especial chama a atenção, é “A palavra resistente”, em que o autor sugere ao leitor a escolha de uma palavra qualquer a fim de dizê-la seguidas vezes até que <em>sentido e densidade</em> se esvaiam ao ponto de se transformarem<em> num articulado sonoro, que nada exprime</em>. É evidente que a sugestão de tal experiência pouco ou nada importaria se o próprio autor não a tivesse vivenciado pessoalmente. E viveu. A palavra escolhida por Saramago foi “horizonte”, repetida insistentemente por ininterruptas cinquenta vezes para enfim descobrir que o prestígio que ela possui advém <em>do caráter particular daquilo que exprime</em>. Ou seja, para Saramago o horizonte não simboliza apenas o espaço que a vista abrange ou a linha que limita circularmente todas as partes da terra que se podem ver de um ponto determinado. Para ele, tal palavra possui dois sentidos: o próprio, que exprime a realidade contra a qual nada se pode fazer, posto nos ser impossível estar no horizonte, esse lugar que tanto mais se afasta quanto mais queremos nos aproximar. E há também o figurado, o que em verdade mais importa, pois é o lugar no qual se aclaram as perspectivas do amanhã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste ponto tudo parece palpável, lava-se com o poder da palavra o rosto da realidade de pedra, afinal, existimos sobre o mesmo chão e sob o mesmo céu, muito embora cada um de nós traga consigo seu horizonte pessoal mais ou menos alargado, a depender do ponto de vista. Saramago nos guia para o ponto nevrálgico do texto: a questão da realização pessoal. E assim, horizonte não é mais um fenômeno dado apenas ao sentido da visão, mas às perspectivas que a palavra revela em si e na confluência com tudo o que é humano. Para uns significará a realização de um propósito, para outros, se revelará na satisfação de se empreender qualquer tipo de esforço e não apenas no resultado final de sua consecução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escolhi também a minha palavra, e foi “silêncio”, algo que uma alma irrequieta como a minha necessita em altas doses. Descobri muitos silêncios, o primeiro deles encontrei naquilo que faço agora. Escrever é refletir e silenciar. Por sorte, o lugar onde escrevo é o meu santuário, nada comparado à turba que se faz lá fora. A cidade e seus pregões. E como escrever não se faz sem o ato de ler, o que requer penetrar <em>surdamente no reino das palavras</em>, como aconselha Drummond, um e outro verbo estão intimamente relacionados ao substantivo silêncio. Mas existe outro silêncio, maior e mais duro, incrustado no íntimo de cada um de nós. Ele nos emudece aos gritos e se o conseguimos ouvir, lá no fundo do nosso ser, estará dizendo de nós o que pouco estamos acostumados e que a ninguém necessitamos revelar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escuta-me, leitor, pois me revelo mudo. Disse isso em um poema. E se me coubesse fazer uma pergunta ao Silêncio, uma pergunta apenas, certamente seria a seguinte: O que anseia dizer? Ele responderia: de nada adiantam as palavras se não me conhece por dentro, se não consegue me ouvir. Eu sou a pedra de toque que a tudo transforma, arremataria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chega de divagações existenciais. Melhor voltar ao Saramago e suas crônicas, pois nelas, assim como em tudo, e a tudo que faz, Saramago parece impor seu modo particular de enxergar vida e existência, sua atividade de escritor e o papel de intelectual, nunca se resignando, antes se indignando com todo tipo de iniquidade, certo de que um homem digno é um vagabundo a menos no planeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito mais poderia dizer sobre as crônicas do bardo lusitano, mas como se aproxima o horário de estar na universidade e entregar o texto à professora, pois como dizem os mais antigos: manda quem pode, atende quem tem juízo, arrisco dizer, enfim, que, embora o gênero pareça estar destinado a temas limitados no tempo, escritos para um leitor que compartilha desse tempo, a crônica, pelo seu valor intrínseco, ou seja, pelo seu hibridismo, encontra em José Saramago um dos cultores mais originais &#8211; quer pela graça, quer pela seriedade dos temas que aborda &#8211; e determinantes para a definição da real dimensão e <em>status</em> do gênero entre os gêneros literários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Gustavo Felicíssimo</em></strong><em> é escritor e editor da Mondrongo Livros. Publicou “Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna” (Editus/Via Litterarum, 2009) e “Blues para Marília” (Mondrongo, 2013). </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Janela Poética I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-23/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Mar 2014 15:52:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[88ª Leva - 02/2014]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Alêntodo]]></category>
		<category><![CDATA[corte certo]]></category>
		<category><![CDATA[das obras]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Legenda]]></category>
		<category><![CDATA[Salivaginádegas]]></category>
		<category><![CDATA[Tadeu Renato]]></category>
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					<description><![CDATA[Os rumores poéticos de Tadeu Renato]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Tadeu Renato</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-1.jpg" alt="" class="wp-image-15509" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2014/03/Ozias-Filho-1-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Ozias Filho</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Alêntodo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">o poema não<br />
esconde<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>nem responde<br />
se depois da vida<br />
põem-se as dúvidas</p>



<p class="wp-block-paragraph">não clama no claro da noite<br />
o aro ralo da lua<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>relendo as ruas da cidade<br />
cala os verbos diante<br />
das cortantes realidades da<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>fala</p>



<p class="wp-block-paragraph">o poema entre<br />
tanto<br />
atormenta de espanto<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>todo momento de trevas<br />
e faz de sua glória<br />
um atrevimento</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Salivaginádegas</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">um pássaro-poema passa<br />
da minha<br />
para<br />
sua língua, com alívio<br />
de saliva</p>



<p class="wp-block-paragraph">voa entre dentes<br />
seios dedos<br />
bate asas na vagina</p>



<p class="wp-block-paragraph">com instinto cor de vinho<br />
resplandece a flor<br />
que faz<br />
num instante<br />
este seu cultor<br />
esquecer o fim de tudo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Das obras</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No canteiro de obras,<br />
as flores que brotam são flores de pedras.<br />
Nem tanto, nem flores:<br />
espelhos e torres que riscam e impedem<br />
e perdem-se as linhas<br />
e as vilas e as ilhas que são as pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levanta a montanha<br />
na manhã das pontes<br />
&#8211; no horizonte, o sol vem à tona.<br />
Migalhas de sim e de não,<br />
minha mãe, seus irmãos,<br />
desconhecida gente<br />
descendo à cidade:<br />
de todas as partes<br />
vem trabalhadores<br />
e pombas e graças<br />
e atores de praça e a fome tropeça<br />
pé de maravilha</p>



<p class="wp-block-paragraph">A força do espanto<br />
(mareja suor<br />
da máquina-mundo)<br />
pergunta e segreda:<br />
será um bom dia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Corte Certo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">senhor impostor: sei que tem<br />
andado por aí<br />
dormido com minha mulher<br />
usando o nome que tive<br />
tomando benção de vó<br />
corrido com os cães:<br />
canalha</p>



<p class="wp-block-paragraph">aproveite a morada<br />
no corpo que não te presente</p>



<p class="wp-block-paragraph">não demora nada<br />
outro ocupa seu lugar<br />
despedaça seus membros<br />
sem tempo de se despir<br />
aluga os amigos<br />
imposta a voz navegante:</p>



<p class="wp-block-paragraph">navalha</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Legenda</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ainda é insuficiente<br />
dizer<br />
palavras nos colecionam<br />
sustentam toda estrutura<br />
no caos das horas</p>



<p class="wp-block-paragraph">revela pouco mais que nada<br />
o trabalho transformando<br />
pedra em casa<br />
casa em lar<br />
lar em vida<br />
vida em morte</p>



<p class="wp-block-paragraph">o tempo que passamos ocupando<br />
mais cala<br />
quanto mais<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>fala</p>



<p class="wp-block-paragraph">quase o quê<br />
é essência ou criação<br />
no que somos?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;</span>desde os primatas<br />
até a hora passada<br />
carregada de lendas e teses</p>



<p class="wp-block-paragraph">nada serve de legenda<br />
para esta tarde em que fervem<br />
esta chama sem nome<br />
estes sons pela casa<br />
nossos corpos na cama<br />
sob a luz deste sábado</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Tadeu Renato</em></strong><em> (1981) é formado em Filosofia. Professor, compositor e contista. Tem palavras escritas, cantadas e faladas por aí. Dramaturgo do Coletivo Quizumba, entre outros grupos. Seu primeiro livro,&nbsp; Alêntodo (letras para melodias corporais),&nbsp; será publicado em 2014</em>.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
