De quantas faces é feito um coletivo de expressões? Eis um questionamento sempre complexo de se responder. Tendo em vista o universo particular e significativo que brota de cada indivíduo, poderíamos dizer que uma edição de uma revista como a Diversos Afins é, na verdade, um inventário de vestígios. Nesse processo todo, talvez o que seja mais difícil de projetar é o corpo definitivo das criações, ou seja, a maneira pela qual as vozes se orquestrarão rumo a um sentido final e amalgamado. Como a arte é uma eterna equação sem soluções exatas, cabe-nos sempre a tentativa de harmonizar as diversidades de pensamento que permeiam o mosaico de autores publicados. Assim, pesquisamos, pensamos, idealizamos e, sobretudo, acolhemos aquilo que vislumbramos ser o componente imprescindível de um organismo vivo que é a cultura. O estímulo necessário para a continuidade vem do entendimento tanto de autores quanto dos leitores. Aqui, entendimento significa compreensão dos caminhos e propósitos que norteiam nosso trabalho, isto é, um conjunto de características que consolidam cada vez mais uma identidade para a revista. E mais gente vem se juntar a esse solo comum de andanças. É o caso de Leonardo Mathias que, com o vigor significante de suas entrelinhas poéticas, compartilha conosco uma exposição de seus desenhos e ilustrações. No compasso do mistério que permeia a vida, nossas janelas de versos abrem seus compartimentos para que ecoem as palavras de Leandro Rafael Perez, Marcelo Ariel, Vanessa Carvalho, Luiz Brener, Adriana Aleixo e Luís Filipe Marinheiro. Numa conversa sobre poesia, a escritora Clarissa Macedo entrevista a poeta peruana May Rivas de la Vega. Num resgate sonoro, Rogério Coutinho escreve sobre um dos discos solo do ex-mutante Arnaldo Baptista. Nos Dedos de Prosa, toda a particularidade narrativa dos contos de Maurício de Almeida, Tere Tavares e Abilio Pacheco. O escritor Luis Benítez esboça um breve panorama da poesia argentina contemporânea. No território da sétima arte, Larissa Mendes anota suas impressões sobre a mais recente produção dos irmãos Coen. Conduzida por novos ímpetos, a 89ª Leva movimenta outros tantos verbos, sentidos e imagens. Mais uma vez, seja bem-vindo, caro leitor!
Gostava de seguir tendências
leu certa vez em uma vitrine
: menos é mais!
despiu-se do cavalo.
***
Rotas
Eu seguia rio lento
de certo, meio assoreado
mas manso profundo calmo
conhecidas encostas.
De repente você vem
me irrompe em fúria
me alaga em púrpuras.
***
Fonemas
Ele inaugura linguagens
no percurso do meu corpo
língua
morfemas
cartografias
e eu sou toda epifanias.
***
Leitura
Eu nunca soube de bússolas ou distâncias
nem sei contar luas
apenas aprendi que elas
vociferam
e sinalizam
o corpo:
seio
calafrio
cio.
***
Etéreo
O poeta sabe
que todo
verso
tem
fome
de gente
e epifanias.
***
Corpo
É sempre inverno em mim
e tudo são sinos, tambores
sina
querência de toque
Coisas que
arfam chispam
olhos que leem
regaço
remanso.
Adri Aleixo é poeta mineira nascida em Conselheiro Lafaiete, mas hoje vive em Belo Horizonte onde presta consultoria em Linguagens. É graduada em Letras pela UEMG. Possui textos publicados em outros sites e revistas literárias. Escreve também contos e literatura infantil. Publicou em 2014, Des.caminhos, pela editora Patuá.
Em 1981, o ex-Mutante Arnaldo Baptista realmente andava só, mas não se pode dizer que ele brilhava tanto assim para os olhos do grande público, que ignorava suas andanças e incursões musicais por aí. Após gravar o seminal Lóki em 1974 (disco que passou em branco na época e que a partir dos anos 90 viraria objeto de culto) e montar a banda Patrulha do Espaço, que bateria ponto no underground paulistano durante os anos 80 mesmo sem seu fundador, Arnaldo tentou uma reciclagem pessoal e profissional no Rio de Janeiro. Durante sua temporada carioca, tocou com os então iniciantes – e desconhecidos – Lulu Santos e Lobão, e gravou com gente como Walter Franco e Guilherme Arantes.
Essas experiências não trouxeram para Arnaldo seu reencontro com as plateias que lotavam ginásios na fase áurea dos Mutantes, mas ajudaram a gestar parte de seu mito e culminaram no seu retorno a São Paulo, onde foi registrada uma de suas apresentações solitárias no Teatro da (Pontifícia) Universidade Católica de São Paulo, o TUCA, que finalmente vieram a público – oficialmente – no final de 2013, no álbum digital Shining Alone.
Munido apenas de um piano elétrico, de um simulacro de órgão Hammond (“coisa de americano”) e de um violão (“o que rima com violão? Tesão…”), é um Arnaldo em estado bruto, despido de qualquer produção ou dos experimentalismos da sua época mutante ou mesmo do hard rock da Patrulha do Espaço. Surge aqui o Arnaldo motociclista (Ai Garupa, que seria regravada no álbum Let It Bed, mais de vinte anos depois), remanescente de sua viagem até o Panamá, a bordo de uma BMW 1951, e o caronista na Europa (Sentado ao Lado da Estrada). Voltando mais ainda no tempo, há o garoto que teve aulas de piano clássico com a mãe, concertista, que não tem o menor constrangimento de tocar a Marcha Turca de Mozart ou um movimento dos Concertos de Brandeburgo de Bach em um suposto show de rock.
Arnaldo Baptista / Foto: Grace Lagoa
Vai de Mozart e Bach a Bob Dylan (Don’t Think Twice, It’s Allright – onde comete a molecagem de responder o trecho da letra que diz “it ain’t no use in callin’ out my name” com um “Arnaldo!”) e Rolling Stones (Honky Tonk Women), passando por standards norte-americanos como Cry Me A River, curiosamente gravado por sua ex-parceira Rita Lee em seu Bossa’n‘roll de 1991. Rita, aliás, também é lembrada numa versão comovente de Ovelha Negra, como se não bastasse ela ter sido a destinatária de canções como Te Amo Podes Crer. Todo esse caleidoscópio musical estranhamente nada tem do repertório dos Mutantes, exceto a engavetada O A e o Z (“uma marcha guerreira”), aqui em versão instrumental e abreviada, que só viria a público nos anos 90.
Em que pese seu notório sofrimento e a insalubridade do ambiente musical que Arnaldo vivia naquele final dos anos 70 e começo dos 80, pré-explosão do rock brasileiro, fica aqui um registro imprescindível da melhor fase artística do mutante, fundamental para conhecer não só o artista, mas o homem. No caso de Arnaldo Baptista, essa distinção praticamente não existe, sendo alguém que fundiu sua história com sua arte até as últimas consequências (e pagando um preço alto por isso), como raras vezes se vê.
Rogério Coutinho é malandro velho e não se mete no enguiço.
Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronômicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento das coisas profundas,
contra os tendões severos a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco, a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a desvastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.
***
fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante
entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias
e andas no meu imenso chão
um chão embalado p’los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se
porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados
decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afetos
e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver
a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos
como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas
***
Uma vez
atei lençóis ferrugentos
aos membros lisos
da claridade daquele céu tatuado,
como deslizava lasso ao longo
da corrente sanguínea
de um qualquer envenenamento.
Após sobrepostas vibrações
retalharem a sombra da minha fechadura.
São terríveis os afetos.
***
houve uma ensinada tarde
em que a luz se esticava dentro de mim
agitava-se cruelmente longamente
e eu expandia sem parar
quando subi demasiado humano
por entre avenidas de escadas povoadas
vizualizava esquecidos sábios
quem seriam? quem serão? existirão?
depois da meditação sentado na última abóbada do planeta
descobri a diferença entre a palavra origem e proveniência
essas asas d’ouros em tudo bizarras
acorreram-me uma a uma amando o vento
retina de minha oriunda consciência
outros arrastaram o espaço do meu concreto corpo
e a profundeza do mar a avistar as feridas palavras
eis que me amarram de ponta a ponta
uma infinita espuma movida por rostos
meu coração recluso do impróprio choro doce
contempla o tempo desafinado por raros
perfumes deslizantes
dessas hirtas pétalas ligeiramente oblíquas
e noctívago danço a sinfonia em que morro loucamente
Luís Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Portugal, Cidade de Aveiro. Poeta.
Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum (Inside Llewyn Davis). EUA. 2013.
“Se não é nova e nunca fica velha, então é uma canção folk”.
Se o folk é o gênero que combina elementos de música folclórica e do rock’n’roll, ninguém melhor para documentá-lo do que Joel e Ethan Coen, a dupla que transforma banalidades em pequenos clássicos. Baseada na vida do nova-iorquino Dave Van Ronk (1936 – 2002) e na cena musical de Greenwich Village, nos anos 60, bairro de onde despontaram Bob Dylan (aliás, em sua biografia Chronicles, Dylan afirmou que Ronk era seu guru), Joan Baez, Joni Mitchell e Phil Ocs, Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, no entanto, está longe de ser uma cinebiografia do artista. A atmosfera melancólica e quase apocalíptica do filme ilustra a vida de mais um jovem adulto perdido entre seus próprios anseios e escolhas.
O homem comum em questão é Llewyn Davis (Oscar Isaac, em seu grande papel no cinema), um talentoso, porém desafortunado músico em busca de reconhecimento. Dormindo de sofá em sofá, cedidos por amigos, com pouco dinheiro no bolso e com um violão embaixo do braço – e durante boa parte do tempo, com um gato amarelo, em outro – Inside Llewyn Davis é o título de seu vinil solo, cuja dupla formada com o parceiro Mike, que cometeu suicídio, fez certo sucesso outrora.
Errante convicto, Llewyn vê frustradas suas aproximações com a família, as ex-namoradas e com o estrelato. Ele é incapaz, por exemplo, de perceber que a exclamação do pai não é resultado da empolgação com sua canção e sim porque o idoso fez as necessidades nas calças. Até mesmo o zelo com o gato do casal Gorfein não o impede de perdê-lo ou confundi-lo. Aliás, Ulysses, o gato, é uma boa metáfora para o sucesso: algo que Llewyn, inconscientemente, persegue, porém, sempre deixa escapar. A música parece mesmo ser sua única forma de ligação com o universo e conexão com as pessoas. De mais a mais, o personagem segue andando em círculos, incapaz de qualquer tentativa de redenção.
Llewyn Davis (Oscar Isaac) e o gato Ulysses / Foto: divulgação
O filme tece uma crítica velada ao próprio glamour de Hollywood e da ‘profissão: artista independente’. Se o personagem teme vender-se ao sistema e abdica inclusive dos royalties da canção radiofônica ‘Please, Mr. Kennedy’, composta por um popular Jim (Justin Timberlake), o mesmo acontece com a dupla de cineastas. Joel e Ethan Coen jamais se curvaram à indústria e imprimiram uma marca bastante autoral em sua filmografia (não por acaso, já estão em seu 16º longa-metragem). Render ou não uma bilheteria expressiva é mera consequência. O que, aliás, não aconteceu com Inside Llewyn Davis, principalmente após o sucesso do remake Bravura Indômita (2010).
Apesar do grande elenco coadjuvante, formado por John Goodman, Carey Mulligan, Ethan Phillips e outros, Inside Llewyn Davis é mesmo ‘a balada de um homem só’, em que nem o performático Timberlake é capaz de ofuscar a atuação e o carisma de Oscar Isaac: seu olhar distante é a personificação do fracasso e seus diálogos contêm o peculiar sarcasmo coeniano. Aliás, quando a ironia não está contida nas falas, ela é expressa nas próprias canções – todas executadas na íntegra. Escrito e dirigido por Joel e Ethan – que em vários momentos tentam driblar sua própria narrativa, indicando uma ação do personagem para, em seguida, desmenti-la –, vale lembrar que o filme foi indicado ao Oscar 2014 nas categorias de Melhor Fotografia (uma paleta de tons outonais e uma perspectiva às vezes claustrofóbica) e Melhor Mixagem de Som. Como um belo folk, Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, talvez seja o filme mais light do duo, mas nem por isso o menos profundo.
Larissa Mendes divide o mundo em dois tipos de pessoas: aqueles que gostam de gatos, de folk e dos Coen; e os que não sabem o que estão perdendo.
A alma era de atriz. O gesto também. E a impostação da voz!…
Qualquer dia teria sua chance. Recebeu com naturalidade o convite para um musical.
Conhecia bem seu papel e agiria com desenvoltura.
No instante exato, atirou-se da frisa.
***
Curvas Perfumadas
Para Antonia e Iskarlett
A filha era muito alta e a mãe queixava-se dos namorados que sempre a menina trazia pendurados debaixo do braço.
Sorte as curvas serem perfumadas. Mas os rapazinhos fracos não se resistiam ali; caíam.
Um dia a mãe admirou-se da filha com os francos vazios. Havia depilado as axilas.
***
Espólio
Vivia numa alegria enorme, cabendo mal em si. Havia nascido grande, perto de adulto. Seu pai-demiurgo o havia feito assim. Completo; à base de tinta em face lisa, alva e chã. Tinha amigos, nome e cor de olhos. Mais que isso, cosido e recosido, desfiado e retecido, tinha já história: plena, embora de curto enredo, intriga simples, desfecho claro. Sentia-se brioso.
E mais ainda, ao ter por certo, quando posto num cubículo escuro junto a outros parelhos seus, que dali sem tardança partiria rumo ao prelo. Ansioso sempre, de mais a mais, notava um fio de sol e a luz cegante, sentia ímpeto de… Antes, contudo, aumentado o aperto, o espaço de novo escurecia.
Às vezes, de surpresa, eram recolhidos e postos à mesa; ele ficava convicto da viagem à prensa. Eram remexidos, embaralhados, uns apartados, outros riscados, uns amassados, outros dobrados… mas ele sempre voltava à gaveta fria e bafia. Com o tempo se foi recolhendo, perdendo todo o gáudio. E mesmo quando sentiu bruscos vacilos no móvel, fado algum lhe apontou a mais remota edição.
Da escrivaninha ouvia vozes raras, portas rangentes, mastigados silêncios. Sentia-se estático e inconcluso, década a fio em meio trevoso. A face desalvecia. Seus parelhos encarunchavam, bafiavam mais. Até que, às vozes próximas, ouviu: “escritor”, “morreu”. Súbito, a luz! E de novo trevas. Desentendeu-se. Solavancaram seu casulo e saculejaram por via custosa a termo baldio. A convicção precária voltava de lenta e – sendo desfolhado de todos – sentia que, enfim, vinha a lume.
***
Sinfonia
Por conta de crescente aperto nas finanças, pouco a pouco tiveram que se desfazer dos móveis e utensílios, a começar pelos menos essenciais. Até que venderam o piano de gabinete, que ocupava espaço, mas preenchia o tempo vão com ledos solfejos e suaves sustenidos.
No lugar, puseram uma mesa sem graça de madeirite a esgarçar-se. Nela, a pianista se punha como antes. Nos mesmos horários, deslizava os dedos – com a costumaz habilidade – pela superfície de teclas imaginárias. Inclinava a cabeça, fechava os olhos, balançava o corpo, às vezes cantarolava, mas na mesa não resvalava, tocava ou triscava.
Os demais da casa mantinham a mesma rotina. Punham-se calados ao chá ou café, ao tricô ou crochê, ou apenas folgavam deveras ao som do instrumento ausente.
Não custa que logo, logo, empolgada e distraída, a moça tocou mais forte o teclado. A melodia inebriou mais ainda os presentes. As notas trouxeram não sei que contentamento. Preencheu espaços da casa e transbordou pela confusa e incrédula vizinhança.
***
Implícito
Não queria perder os sentidos do que lia, por isso sublinhava trechos mais difíceis com traços largos.
Tarde se deu conta que cobria as entrelinhas.
Abilio Pacheco é professor universitário de Literatura (UFPA – Bragança). Autor de “Em despropósito (mixórdia)” – romance e “Canto Peregrino à Jerusalém Celeste” – poemas, ambos pela LiteraCidade – 2013. Atualmente cursa Doutorado em Literatura (THL-UNICAMP) e é Assistente Editorial (da LiteraCidade).
A poesia argentina atual: um recorte de temas e autores
Por Luis Benítez
Tradução: Fabrício Brandão
Arte: Leonardo Mathias
Longe das valorações realizadas pelos inevitáveis lobbies literários e editoriais, no panorama atual da poesia argentina se destacam trabalhos de autores que, dentro de um espaço de frequente introspecção e pesquisa, têm forjado obras maduras, dotadas de uma voz própria, facilmente distinguíveis no conjunto. Um fator comum a essas obras deriva não somente do resultado de anos de experiência com a linguagem, das possibilidades estilísticas com as quais o gênero contempla os autores, mas, fundamentalmente, do caminho de tentativa/erro a que têm recorrido os poetas que vamos assinalar. De pronto, esta generalidade envolve a muitos outros, hoje presentes e em plena atividade dentro do fenômeno que representa a poesia argentina contemporânea, mas obrigatoriamente devemos fazer um recorte, uma seleção desse conjunto, confiando que a obra de cada um dos integrantes desta breve seleção representa também as buscas estéticas de muitos outros, os quais ou alcançaram aquilo que se propuseram – uma obra consolidada – ou estão imersos na procura dessa obra, com valiosos resultados alcançados pelo caminho. Assim, esta seleção deve ser entendida como uma mostra de algumas realizações presentes, não como uma exclusão de outros poetas.
Dentro de uma perspectiva ampla, como fator comum entre os autores selecionados, destacamos que os caracteriza a busca de uma identidade que excede os limites do meramente subjetivo, pois, se proponham ou não tais poetas, um de seus feitos têm sido incorporar em seus versos aquilo que o poeta argentino Alberto Girri (1919-1991) chamava de “a voz da tribo”, com diversos matizes e recorrendo a diferentes recursos estilísticos; neste sentido, para vislumbrar as diferentes tonalidades de alguns dos melhores feitos da poesia argentina contemporânea, esta seleção deve ser lida como um inventário de pistas e indícios, presentes em cada poeta, que ajudam a compreender – lendo o todo como seções que se complementam, influem e modificam mutuamente – qual é o perfil atual do gênero na Argentina. Cada um destes autores poder ser situado dentro da grande tradição da poesia argentina – e isto não é um alarde canônico, estamos muito distantes de tal intenção – por mérito próprio, mas aquilo que definitivamente nos interessa é compreender de qual maneira têm contribuído a ela com sua produção, como sua obra se insere no contexto. Mais uma vez, apreciamos outro fator comum: são autores que têm dispensado ligações com este ou aquele movimento literário, vigentes em sua etapa de formação, optando por concretizar uma obra pessoal e mantendo tal postura desde os primórdios de seu trabalho com a língua até a atualidade. É bem verdade que, na Argentina, os movimentos literários perderam campo de ação e até desapareceram no final dos anos oitenta, uma consequência da pós-modernidade ter varrido, em geral, com as ideias vanguardistas tão caras à modernidade. No entanto, salientamos que envolvendo nesta mostra autores de diversos estilos, trajetórias e idades, estes bem poderiam ter sofrido tais influências, mas não as tiveram, pelo menos de modo determinante.
Outro aspecto a considerar é que os autores em análise procedem, na sua maioria, de campos culturais da Argentina não restritos às proximidades de Buenos Aires, a capital, que concentra o poder literário e editorial em suas estreitas margens (algo, por outro lado, muito comum em outros países também). Habitualmente, as antologias poéticas, os artigos jornalísticos e as apresentações públicas da poesia argentina no plano internacional tendem a exibir obras e autores que repetidamente coincidem em possuir uma legitimação proporcionada pelos meios, a crítica universitária e os interesses editoriais, que os publicam em Buenos Aires, enquanto a maioria dos autores argentinos vivem e realizam suas pesquisas estéticas fora dos arredores da capital. Além do mais, devemos destacar que várias pesquisas estéticas das mais importantes e interessantes que se levam a cabo na Argentina não são impulsionadas por autores residentes e atuantes em Buenos Aires, mas em outras regiões do país.
Cremos que esta breve seleção, uma vez que inclui algumas dessas interessantes pesquisas estéticas as quais mencionamos acima, tem, por isso, um valor agregado. O limite do trabalho jornalístico-literário é o espaço. Em função disso, relacionamos cada autor com uma breve ficha bibliográfica e um comentário sobre os mesmos, que facilitarão ao leitor interessado sua pesquisa e melhor compreensão do fenômeno ao qual chamamos de poesia argentina atual, através de alguns de seus melhores representantes.
***
Concepción Bertone – Nasceu em Rosário, Província de Santa Fé, em 1947. Dotada de uma voz intensamente pessoal, a breve obra desta poeta acusa a melhor influência de Eugenio Montale, entre outros, finamente decantada. Bertone atinge uma grande perfeição formal e um notável equilíbrio entre ideia e emoção, que transmite ao leitor sem alardes e desnecessárias afetações.
Obras: “De la piel hacia adentro” (1973), “El vuelo inmóvil” (1983), “Citas” (1993), “Aria Da Capo” (2006), entre outras.
INVIERNO
La mujer de la bata gastada barre las hojas de la vereda ajena a la mirada que la desnuda. Barre una llamarada de hojas de fresno y enciende un fósforo para que el fuego la apague.
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Jorge Boccanera – Nasceuem Bahía Blanca, Província de Buenos Aires, em 1952. É uma das figuras chave da atual poesia latinoamericana, graças a uma linguagem voltada para o inesperado, para uma mudança de direção surpreendente, aspectos conjugados sempre a uma alta precisão de sentido. Como poucos, Boccanera une os conteúdos sociais de sua obra com seus vastos conhecimentos literários. Uma voz original, que não deixa de lado o humor nem a ironia para estabelecer um contato muito direto com a sensibilidade do leitor.
Obras: “Los espantapájaros suicidas” (1974), “Noticias de una mujer cualquiera”, (1976), “Contraseña” (1976), “Poemas del tamaño de una naranja” (1979), “Música de fagot y piernas de Victoria” (1979), “Los ojos del pájaro quemado” (1980), “Polvo para morder” (1986), “Sordomuda” (1991), “Zona de Tolerancia” (1998), “Bestias en un hotel de paso” (2001), “Antología personal” (2001), “Poemas” (2002), “Servicios de insomnio” (2005), entre outras.
ESPEJITO DE MANO
Mírate bien, hoy eres una cara de trapo al fondo del aljibe, un perfil oxidado que ondea bajo el agua. Te advertí, te lo dije, el espejo, ese imbécil, compra muebles usados y trabaja en el rostro con cuchillos sin filo. Mírate bien, hoy somos el ladrido del viento, te advertí, te lo dije, es un sepulturero que cobra como artista. Seguro ya te olió. Su corazón helado vende casas de polvo en los despeñaderos. Mírate bien, hoy eres un hospicio, un extraño, reverso de una imagen que se repite y dice : uno de los dos está muerto.
***
Leandro Calle – Nasceu em Zaraté, Província de Buenos Aires, em 1969. Poeta do elegíaco, desenvolveu até a atualidade uma obra breve, porém dotada de uma grande densidade, uma profundidade que nela cabem tanto as ressonâncias religiosas de seus primeiros poemas como também os matizes sociais e a preocupação metafísica. O poeta está voltado a alcançar a síntese expressiva e, nesse processo, consolidou uma obra muito valiosa com seu último livro, Blasfemo, no qual se intensificam seu apelo a imagens originais e o emprego da ironia como canal de expressão.
Obras: “Tatuaje de fauno” (1999), “Una luz desde el río” (2001), “Los Elementos” (2003), “pasar” (2004), “Almas del Boquerón” (2005), “Kindheit” (2006), “Noche extranjera” (2007), “Entonces” (2010) e “Blasfemo” (2013).
DESPEDIDA II
Tengo todas las certificaciones necesarias para realizar el viaje. Pasaporte al día visa traducción al correcto francés de todos los documentos pertinentes. La burocracia ha sido un ejercicio de paciencia. De más está decir que todo papel todo sello todo trámite tiene un precio a pagar. Sin embargo nadie quiso examinar mi corazón ni sellarlo, ni traducirlo. Yo tampoco he querido. Lo voy a pasar de contrabando.
***
César Cantoni – Nasceuem La Plata, Província de Buenos Aires, em 1951. O dizer poético de Cantoni está munido de um estilo depurado, polido, até chegar a uma espinha dorsal mais íntima e expressiva de cada verso, que lhe é tão característico. O poeta pode aludir e evadir – os dois métodos por excelência da poesia – nos temas abordados, sem necessidade de recorrer aos atrativos vãos de uma ambígua metáfora e nem apelar a um cenário rebuscado de pesquisa. Sua escolha é a palavra mais desnuda, direta, aquela que mantém seu efeito natural.
Obras: “Confluencias” (1978), “Los días habitados” (1982), “Linaje humano” (1984), “La experiencia concreta” (1990), “Continuidad de la noche” (1993), “Cuaderno de fin de siglo” (1996), “Triunfo de lo real” (2001), “La salud de los condenados” (2004), “Irlanda” (1998), “Intemperie y otros poemas” (2006), entre outras.
LO MÁS DIGNO DE NOSOTROS
Siempre pensé que los huesos, con su destello mineral de piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros: sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carne y no tienen la astucia ni la maldad del alma.
***
Leopoldo Castilla – Nasceu em Salta, em 1947. A obra de Leopoldo Castilla incrementa a realidade, ao se referir a temas universais por meio de uma linguagem direta, acrescentando significados e descobrindo a polissemia inerente a cada verso, realizada com maestria, que é a marca registrada de seus trabalhos.
Obras: “El espejo de fuego” (1968), “La lámpara en la lluvia” (1971), “Generación terrestre” (1974), “Versión de la materia” (1982), “Teorema natural” (1991), “Baniano” (1995), “El árbol de la copla” (1999), “Nunca” (2001), “Antología Poética” (2001), “Libro de Egipto” (2002), “Bambú” (2004), “Línea de Fuga” (2004), “El amanecido” (2005), entre outras.
ARRIEROS CHINOS
A Héctor Berenguer Siglos van que no llegan que la misma polvareda y una misma hora los persigue, en Laos, camino a Natha, lejos de este mundo, desencadenados del jardín mudo de la edad media y de la voluntad del emperador, libres por la sierra arriando rumbo a la antigua China.
Ahí van, el presente inmortal, airado, en el penacho de plumas que corona las mulas; enarbolando un bastón, y en la punta del bastón un papagayo, flor carnicera de los resucitados.
Fuera de la historia, pasa la historia, invicta, viuda, prodigiosa.
***
Rodolfo Godino – Nasceu em 1936,em São Francisco, Província de Córdoba. Dotado de um estilo depuradíssimo, o trabalho de Godino oferece uma alta perfeição formal, pontuada por uma sutileza de sentido que deriva de uma profunda reflexão estética.
Obras: “El visitante” (1961), “Una posibilidad, un reino” (1964),”La mirada presente” (1972), “Homenajes” (1976), “Gran cerco de sombras” (1982), “A la memoria imparcial” (1995), “Centón” (1997), “Elegías breves” (1999), “Ver a través” (2001), “Estado de reverencia” (2002),”Tríptico” (2003),”Lengua diferente” (2005) e “Diario” (2008), entre outras.
DICTADO POR LA MAÑANA
Todo el proceso, incluido el resplandor siguiendo a la mano adiestrada -la mente se excluye y trata de apartar a la razón, de limpiar el camino-, duró hoy quince minutos. Ahora cubriré lo aparecido y esperaré sin instrucciones el trabar de los huesos, que hilos carnales los envuelvan. A veces nace sin ojos, sin pies: quizás escuché mal o era demasiado pronto, demasiado temprano.
***
Esteban Moore – Nasceu em Lobos, Província de Buenos Aires, em 1952. Um dos poetas mais originais das últimas gerações, Moore oferta uma visão polifônica, na qual história, sensibilidade, estética e referência literária se conjugam para contemplar um trabalho formal de ampla ressonância no leitor.
Obras: “La noche en llamas” (1982), “Providencia terrenal” (1983), “Con Bogey en Casablanca” (1987), “Poemas 1982-1987” (1988), “Tiempos que van” (1994), “Instantáneas de fin de siglo” (1999), “Partes Mínimas” (1999), “Partes Mínimas y otros poemas” (2003), “Antología poética” (2004), entre outras.
“IN THE MAIN OF LIGHT” 8
en un escenario dispuesto por la luz/ -las rocas extienden en sombras alargadas su inmensa redondez/ -en el aire al zumbido en vuelo de los insectos/ -el escape de un motor señala con el agobiado paladeo de furiosas erres flotantes dilatadas en una nube ácida de combustible quemado/ -el ritmo de la sierra mecánica/ la tala de los árboles
Arte: Leonardo Mathias
Alejandro Schmidt – Nasceu em Villa María, Província de Córdoba, em 1955. Sua obra é uma das mais extensas e interessantes da Argentina, assim como uma das mais complexas e relevantes das últimas gerações. A poética de Schmidt é uma poética da insatisfação, algo que o leva a se aprofundar e buscar sempre uma superação do quer foi feito antes, como se nunca fosse o bastante percorrer os territórios indizíveis da poesia. Sua obra poética é uma das mais prolíficas do país.
Obras: “Clave menor” (1983), “Serie Americana” (1988), “Dormida, muerta o hechizada” (1993), “El diablo entre las rosas” (1996), “En un puño oscuro” (1998), “El patronato” (2000), “Silencio al fondo” (2000), “Esquina del universo” (2001), “Oscuras ramas” (2003), “La vida milagrosa” (2005), “Nace tu lámpara” (2012), “Mi metafísica” (2012), “Romper la vida – Antología Existencial” (2013), “La impropiedad” (2013), entre outras.
ESTA LLUVIA
deja que pase lejos y en tus ojos como un aire total la rosa del agua así sabré que la lluvia atravesó tu casa
árboles de la poesía calles de la poesía
un día estuvo la lluvia entre nosotros.
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Santiago Sylvester – Nasceu na Província de Salta, em 1942. Sua poesia é eminentemente uma poesia de ideias, conceitual, o que não compromete a grandeza lírica alcançada pelo poeta no refinamento de suas obras. Autor temático, explora profundamente os núcleos de significado que aborda em seus trabalhos, com uma relevante depuração expressiva.
Obras: “En Estos días” (1963), “El aire y su camino” (1966), “Esa frágil corona” (1971), “Palabra intencional” (1974), “La realidad provisoria” (1977), “Libro de viaje” (1982), “Perro de laboratorio” (1986 e 2008), “Entreacto” (1990), “Escenarios” (1993), “Café Bretaña” (1994), “Antología poética” (1996), “Número impar” (1998), “El punto más lejano” (1999), “Calles” (2004), “El reloj biológico” (2007), entre outras.
(…)
EN esta esquina se habla solo: solo y a gritos como si hablar fuera otra cosa: y lo es. Lo difícil es darle sentido a todo esto: aquí no se habla de otra cosa. Un chico todavía pulcro, con acento del norte, me pregunta si el barrio está cerca: simplemente el barrio, sin saber a dónde va con su helado en la mano: recién llegado a esta esquina en la que se habla solo: y es fácil adivinarle el futuro: el futuro no existe, pero lo va exhibiendo su cara indefensa, su pregunta abstracta. No existe pero es fácil: lo difícil es saber dónde está el barrio y que tenga sentido hablar en esta esquina.
(Königsberg)
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Alberto Szpunberg – Nasceu em 1940, em Buenos Aires. Dono de um estilo coloquial, Szpunberg aborda as vertentes sociais de sua obra a partir de uma perspectiva humanista, munindo seu discurso de uma avassaladora energia expressiva. É um dos poetas fundamentais da geração dos anos 60.
Obras: “Poemas de la mano mayor” (1962), “Juego limpio” (1963), “El che amor” (1965), “Su fuego en la tibieza” (1983), “Apuntes” (1986), “Luces que a lo lejos” (1993), “La encendida calma” (2002), “Notas al pie de nada ni de nadie” (2007), “El libro de Judith” (2008), “La academia de Piatock” (2010), “Traslados” (2012), “Como sólo la muerte es pasajera” (2013).
III
Todas las mañanas tomás mate en la cocina de tu casa, pero desde hace unos días encendés el fuego, tu pequeño fuego, en medio del mar. Donde sea, las gaviotas chillan como si el ancla temblara en el barro más profundo. A lo mejor hoy es el día, nunca se sabe, pero llueve como si lo fuera.
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Susana Szwarc – Nasceu em Quitilipi, Província del Chaco, em 1954. Dotada de uma linguagem despojada – graças a um intenso trabalho que lhe permitiu dominar os aspectos da alusão e elusão – a breve, porém substancial, obra de Szwarc se destaca entre as melhores produções do gênero na Argentina.
Obras: “En lo separado” (1988), “Bailen las estepas” (1999), “Bárbara dice” (2004), entre outras.
SITUACIONES
En otro continente nos sueño proletarios. Me invitás (antes de que amanezca).
—No: el cansancio. —Sí: el deseo.
Flaquea la fuerza de trabajo. Nos dormimos disueltos.
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Fernando Toledo – Nascido na Província de Mendoza, em 1974, Toledo emprega uma linguagem falsamente simples para expor um desenvolvimento de sentidos que irá se multiplicar até o verso final, desenhando um atroz e fascinante universo, sua própria versão da condição humana.
Obras: “Hotel Alejamiento” (1998), “Diapasón” (2002), “Secuencia del caos” (2006), “Viajero inmóvil” (2009) e “Mortal en la noche” (2013).
PERO AVANZO
La diferencia entre lo que no sé Y lo que aúlla detrás de la puerta O se cuela en la entreabierta pregunta Que la luz formula está en la palabra Así el silencio se viste de un cuerpo Que no consigo abrazar Nadie espera Y los papeles raspan su vacío Según las reglas que impone la noche Pero avanzo Quizás para perderme O porque quedan resquicios de blanco Y yo necesito encender un fuego Para el invierno de estas viejas letras Quizá para dejar que todo huya Y un verso destruya lo que he callado.
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Rubén Valle – Nasceu na Próvíncia de Mendoza, em 1966. A poesia de Valle possui uma naturalidade que esconde o minucioso trabalho de lapidação que o fez alcançar tal linguagem, o qual surge fluido e rico de sentidos, com uma marcante capacidade de comunicação. Para o leitor, fica fácil elaborar uma tradução dos códigos e imagens de Valle de modo pessoal.
Obras: “Museo flúo” (1996), “Los peligros del agua bendita” (1999), “Jirafas sostienen el cielo” (2003), “Placebos” (2004), “Tupé” (2010).
ÚLTIMOS AUXILIOS
Caíste Te fusiló el pincel de Goya Sangraste por la herida del ojo ajeno mientras adentro te crecían alas Alas como las del sueño Ahora que sos una silla rota sobre tu mesa hay un libro que respira que late
Tu sangre lo está escribiendo
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Paulina Vinderman – Nasceu em Buenos Aires, em 1944. Vinderman é uma das maiores poetas argentinas graças ao seu magistral manejo da língua e sua reconhecida capacidade de percorrer os recantos da condição humana com imagens definidas e diretas.
Obras: “Los espejos y los puentes” (1978), “La otra ciudad” (1980), “La mirada de los héroes” (1982), “La balada de Cordelia” (1984), “Rojo junio” (1984), “Escalera de incendio” (1984), “Bulgaria” (1998), “El muelle” (2003), “Cónsul honoraria, antología poética” (2003), “Transparencias” (2005), entre outras.
EL PASADO ES UN PAÍS EXTRANJERO…
El pasado es un país extranjero, donde no sé nombrar mi desajuste con el mundo ni los árboles frondosos de las riberas de los ríos secretos (secretos-ríos), que corren hacia la eternidad llamada mar.
No, no hablaré del porvenir: es un cuarto oscuro donde sólo puedo votar por la muerte. Sus afiches son bellos, pero irritantes de tan verosímiles.
“¿Y el presente?”
Ah, María, el presente es una piedra azul, opaca, libre, cubierta de polvo, que me recuerda al poema balbuceado anoche en mi libreta, que deshilaché después, sin fiebre y sin compasión
Luis Benítez nasceu em Buenos Aires (1956). Recebeu numerosos reconhecimentos nacionais e internacionais por sua obra poética e narrativa. Seus 36 livros de poesia, ensaio, novela e teatro foram publicados na Argentina, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, México, Romênia, Suécia, Venezuela e Uruguai. Seus últimos livros publicados foram: “Les Imaginations” (Éditions L’Harmattan, Paris, 2013), “Short Poetic Anthology” (Ed. Littoral Press, Inglaterra, 2013), Manhattan Song. Cinci Poeme Occdidentale” (Ed. Ars Longa Editura, Romênia, 2013), entre outros.
E nem era primavera. Ajustou as meias e os cordões dos sapatos. O tom flamingo se espelhava em cada partícula da paisagem. Dialogando com as abstrações, o instinto persistente da consciência desprovido de qualquer disfarce. As formas brancas, curvas, de centros amarelos e perfumes inolvidáveis permaneciam num emudecido encontro com tudo. A intolerante pergunta era só mais um pássaro entre outros dez mil pássaros pousados em suas vestes. Por que tudo é encontro? A partir dali não haveria brisa.
Reconheceu de imediato o desassossego entrelaçado das árvores. Chegara, finalmente. E era como se também tivesse chegado o ardor pulsante do que não se extinguiria.
Quem sabe do regresso, quem pode dizer sobre o que parte e acorda da sombra, da saga vulgar dos impulsos, das substâncias e rupturas floridas da ilusão que, a cada irromper do amanhã, desprezam algo de si mesmas? Desabrochar é um vício necessário. Do espírito.
Haveria de se perder tantas vezes quantas fossem sublimadas as suas forças. Tinha a impressão de levar consigo mais do que lhe era possível.
Soprando de um lugar ignorado um retalho igualmente irreconhecível debruçava-se sobre a nudez da claridade – a segregação de tudo quanto era conhecido e tênue. “Talvez não fosse eu” disse sobriamente.
Tudo parecia se materializar, a despeito das folhas caídas e dos anseios impacientes.
No jardim, no instante lento e perplexo do luar, nem o pai, nem o irmão, nem os filhos. Só uma crédula brancura. A que, irredutivelmente, colhia na sinuosidade do próprio rosto.
***
Me ninas dos olhos
“A nitidez é uma conveniente distribuição de luz e sombra.”
Goethe
Resolveu conversar com as pupilas. Não havia como isentar-se dos reflexos – apropriar-se é perder.
Voltou para a rua. Sentiu, secretamente, uma indizível sensação de alívio ao perceber a possibilidade de atravessar grande parte do percurso sem permitir atormentar-se com sentimentos comuns. Multidões de visões perdidas. Afinal, quem assumiria sem o risco do erro, a licença para aferir com exatidão, ou total isenção, o condenável?
Investigou com toda a suavidade possível, detendo-se nos semblantes, tentando não infringi-los, como se adentrasse em sulcos intermináveis – usava materiais conhecidos e desconhecidos para percorrê-los, acreditando ter desenvolvido, ainda que rudimentarmente, um método eficaz de observação. Não se curvaria diante de nada imóvel, opaco. Altares da alma – assim chamava os olhares – como afugentar aquelas perseguições vivazes?
De algumas pupilas retirou distâncias, sorrisos plásticos, todas as fundições do arco-íris. De outras, frases inteiras que mais pareciam um enorme lual de estampas confusas e céu.
Era possível ver um imponderável manto de cores e interpretar o que nem imaginava compreender. De modo que lia os olhares difusamente e, retratados na sua incredulidade interior, também seus corações.
Não havia outra aparência que não fosse a que definitivamente se destacava da estranha profundidade de todas elas, pela simples razão de não haver razão para serem diferentes do que realmente eram.
Havia um par, pulsantemente castanho e singular, que conseguiu prendê-lo, talvez, por toda vida: o que vagava dizendo-lhe o que via sem nada revelar, e que o fez absorver-lhe a voz com selvagem interesse: “Sou a dos sentidos de cristal, a afortunada sofredora que tem à sua frente o rol das futilidades repletas, a que nada promete, exceto que haverá encanto enquanto durar o mistério”.
***
Clemente
O sol sumia por entre as pedras entristecidas. As ondas, como enormes maços de nostalgia, esparramavam-se incansavelmente sobre a imensidão difusa da praia.
Era uma vez um desvairado pairando sobre a vastidão. Atravessou a crueza da sombra e foi ter com os rochedos. Era possível que estivesse num lugar onde provasse toda a sorte de sensações. Seu objetivo era o lado oposto. Lá encontrou ondas maiores e ameaçadoras. Alguém vendia ilusões a cinco reais.
Resolveu retornar ao lugar de onde viera. Sentia-se vigiado. Sequer se lembrava dos seus. No brilho dos finos grãos de areia, como redigidos por uma estrela de meio-dia, lia-se o motivo de cada ser que ali houvesse aportado. Seriam legíveis aos outros os passos que dava na mesma proporção que lhe eram nítidos os rastros dos outros?
O desvairado, contorcido pelas bifurcações do pensamento, almejava estar diante de outro cenário. Mal podia conter o torpor da sua terrível ansiedade. “Deves sentir cada direção escolhida, seja como for”. Aplaudiu ao sinal como quem se agarra ao intransponível. “Terás de sentir também esses ares recém plantados, e os infinitos. Queres? Quem sabe as areias movediças? Não recomendo que te satisfaças tão rapidamente”.
Atendeu sorrindo com a febril consciência de um ponto sem ponto. Provara a todos e a si mesmo – a mente liberta o fazia sentir-se lucidamente fecundo, eufórico. O primeiro nascimento, o segundo viver, o terceiro término. Não lutou contra a canção espiralada no peito. Brincou com os seixos. Guardou alguns búzios. Não se tornaria opaco outra vez. Era como se repartisse a própria vida sobre um tabuleiro interminável, o delírio cinza e sublime – sem perceber a loucura que o acompanharia até o céu.
Tere Tavaresé escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras.
gelo e formigamento,
covinhas, a ficha
criminal de um amigo,
simetrias no escuro,
a necessidade de uma estrofe,
o prazer em ler Clarice.
***
POÉTICA I
A visão fura a maquiagem de olho aberto
sem rasgar as pálpebras fechadas de leve
Há cães e dedos nesta pequena enxergância
densa como o mundo quando vê.
Uma inocência a pôr óculos em pedras:
Seres maiores e estranhos.
***
O medo que sinto desta chuva baixa e traiçoeira
que a gravidade se casa com o vento para derrubar
das árvores molhadas até o chão encharcado
não me deixa ir ver o buraco que um vizinho fez
para do teto da varanda com um cabo de aço
pendurar um vaso de flor abaixo do chão do quintal.
***
POÉTICA II
O espelho me conta mais uma vez a lenda
deste duplo círculo de cílios vivos, –
mas eu reconheço a morte na ponta de um dedo
quando me deparo com tamanha falta de agulha
negra xenófoba temerária frígida primeiro-batalhão
contra a sedução tátil de qualquer imagem vista,
não este pequeno projeto de sombra platelminta –
que faz do espelho uma sala de espelhos alcova.
***
alinhaves de misericórdia
encerram um animal colérico
contra aquela criança que sonha
um céu inteiriço de nuvem azul
durante tardes nem tão amenas assim
de uma vida um senfim de promessas:
Não chego a cumprir sequer percurso.
***
Pronto a abandonar o navio
pela primeira vez percebi
a ilha de barcos em chama
que era o sol a se pôr
na ânsia do mar, horizonte,
este ciúme incurável
que as ondas regressam contra
tudo que ondula sem sal, mágoa,
esta partilha perfeita que o mundo fez do espelho,
cacos inconsúteis, o marulho das árvores na espiral das
conchas,
a nuvem verde da criança que sonha o silêncio astronauta,
o mar nunca deixou de berrar
e eu só ouço agora no zunido dos meus braços abertos,
meus pés pedalam ainda na órbita do encouraçado estéril,
a vastidão me espera em vão gorada nas orlas
e de uma crueza triste junto ao cerne mofado.
Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.
***
QUOTIDIANA
Depois do alento,
há uma vitória ingrata
aos que não sabem cantar,
todos nós, ao fim do mundo
já descalços tropeçamos em saltos
ainda, ruído ainda lamento melancolia perdendo sons por dentro:
desalento descanso desdém dia
até sobrar uma única letra
a ser acrescida antes que tudo fim:
Algo algo antes que tudo some, melodia.
Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com chapéu-coco. Mora quase em Diadema, SP. É autor de Pálpebras Amareladas (pdf, 2008) e Lança além do real só (Patuá, 2011). Turnê a meio mastro será o próximo. Mantém o blogue fumante entre cavalos.