Foto: Nathalia Bertazi
Leandro Rafael Perez

Gosto das coisas que às vezes não existem:
gelo e formigamento,
covinhas, a ficha
criminal de um amigo,
simetrias no escuro,
a necessidade de uma estrofe,
o prazer em ler Clarice.
***
POÉTICA I
A visão fura a maquiagem de olho aberto
sem rasgar as pálpebras fechadas de leve
Há cães e dedos nesta pequena enxergância
densa como o mundo quando vê.
Uma inocência a pôr óculos em pedras:
Seres maiores e estranhos.
***
O medo que sinto desta chuva baixa e traiçoeira
que a gravidade se casa com o vento para derrubar
das árvores molhadas até o chão encharcado
não me deixa ir ver o buraco que um vizinho fez
para do teto da varanda com um cabo de aço
pendurar um vaso de flor abaixo do chão do quintal.
***
POÉTICA II
O espelho me conta mais uma vez a lenda
deste duplo círculo de cílios vivos, –
mas eu reconheço a morte na ponta de um dedo
quando me deparo com tamanha falta de agulha
negra xenófoba temerária frígida primeiro-batalhão
contra a sedução tátil de qualquer imagem vista,
não este pequeno projeto de sombra platelminta –
que faz do espelho uma sala de espelhos alcova.
***
alinhaves de misericórdia
encerram um animal colérico
contra aquela criança que sonha
um céu inteiriço de nuvem azul
durante tardes nem tão amenas assim
de uma vida um senfim de promessas:
Não chego a cumprir sequer percurso.
***
Pronto a abandonar o navio
pela primeira vez percebi
a ilha de barcos em chama
que era o sol a se pôr
na ânsia do mar, horizonte,
este ciúme incurável
que as ondas regressam contra
tudo que ondula sem sal, mágoa,
esta partilha perfeita que o mundo fez do espelho,
cacos inconsúteis, o marulho das árvores na espiral das
conchas,
a nuvem verde da criança que sonha o silêncio astronauta,
o mar nunca deixou de berrar
e eu só ouço agora no zunido dos meus braços abertos,
meus pés pedalam ainda na órbita do encouraçado estéril,
a vastidão me espera em vão gorada nas orlas
e de uma crueza triste junto ao cerne mofado.
Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.
***
QUOTIDIANA
Depois do alento,
há uma vitória ingrata
aos que não sabem cantar,
todos nós, ao fim do mundo
já descalços tropeçamos em saltos
ainda, ruído ainda lamento
melancolia perdendo sons por dentro:
desalento descanso desdém dia
até sobrar uma única letra
a ser acrescida antes que tudo fim:
Algo algo antes que tudo some,
melodia.
Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com chapéu-coco. Mora quase em Diadema, SP. É autor de Pálpebras Amareladas (pdf, 2008) e Lança além do real só (Patuá, 2011). Turnê a meio mastro será o próximo. Mantém o blogue fumante entre cavalos.
Por Clarissa Macedo
A poesia atravessa, não se sabe ao certo desde quando, um processo descontínuo de rejeição e acolhimento. Rejeição, por um lado, de um grande público, e acolhimento, por outro, de uma leva de escritores que algumas vezes não têm um verdadeiro compromisso com a palavra – objetivo maior. A produção literária, em especial a poesia, requer um ciclo de estações imprecisas, com tempos longos, por vezes intempestivos, para que o sumo necessário à existência da obra seja esgotado e colhido.
Por isso, quando nos deparamos com uma poeta de carreira sólida, construída com base num pacto com a leitura e a escrita, somos, inquestionavelmente, levados a notá-la, ao menos, com maior atenção.
Uma dessas poetas de tempos trabalhados é a peruana May Rivas de la Vega, que tive o presente de conhecer no XX Encontro Nacional e Internacional de Mulheres Poetas em Cereté, na Colômbia. Desde o princípio, não apenas pela sua poesia precisa e madura, mas pelas suas ideias equilibradas, May Rivas despertou meu interesse. Com uma postura poética decidida, arejada por imagens corpóreas, seu trabalho com as palavras revela o movimento da vida em direção ao embate amoroso e à consagração ao enigma “natureza”, condensando uma poesia de sombras luminosas. E é a mulher – a mulher May e todas as outras – que sublima reinos e fomenta a saga lírica, feminina, humana e universal quem habita os poemas da escritora.
Gestora cultural, editora, poeta da geração de 80 e feminista, May Rivas tem seguido um percurso de força na literatura, com vasto e feliz currículo. Formada em literatura e também em ciências políticas, trabalha pela promoção do Livro e da Leitura. Participou de diversos programas e eventos literários, além de publicações em revistas, e como jurada de concursos. É autora de Con ojos propios, de 1996, pela Magdala Editora, e Si Dios fuera mujer, de 2006, pela AzulVioleta Editores. É frequentemente convidada para vários eventos literários pelo mundo.
Faz sua estreia na Diversos Afins, contando-nos um pouco de sua trajetória poética, suas inclinações literárias e posicionamentos ideológicos e políticos como gestora cultural, ativista da leitura e feminista que é, num mundo no qual as mulheres ainda precisam de leis para conseguir outros espaços.

CLARISSA MACEDO – Assinalando uma experiente jornada na matéria poética, seu livro mais recente, Camino de Regreso, marca uma carreira literária de mais de 20 anos. A poesia, no entanto, geralmente indica uma origem que precede quaisquer datas. Por isso, May Rivas, conte aos leitores brasileiros quando, melhor, como a poesia apareceu na sua vida chegando mesmo a determinar sua atuação profissional.
MAY RIVAS – Pois sim, são muitos anos de carreira literária. Sempre penso que é a poesia quem escolhe seus adeptos. Em meu caso, poderia dizer que começou com as leituras em voz alta que minha mãe me presenteava desde muito pequena e a bem nutrida biblioteca que meu pai deixava ao meu alcance. Porém, minha escrita poética começa em meu primeiro ano de universidade, aos 16 anos. Primeiro vieram as publicações em revistas universitárias, logo revistas literárias, para dar lugar, posteriormente, aos poemários próprios e antologias nacionais, assim como de outros países. Através dela é que de alguma maneira se conduziu minha atuação profissional, não somente no aspecto laboral, mas na forma como percebo o entorno. Desde sempre, tenho trabalhado como gestora cultural, conduzindo a gestão no campo literário em todos os seus aspectos, desde a criação, passando pela edição, até a indústria do livro e da leitura. Com a firme convicção que o consumo da leitura alimenta uma parte importante do ser humano: a alma. Assim mesmo, se converte em sanadora de quem a escreve e de quem a lê.
CLARISSA MACEDO – Partindo desse alimentar da alma de que você fala, e de sua íntima convivência com a literatura, qual o significado disso para você?
MAY RIVAS – É a porta para o conhecimento não apenas das pessoas que participam de sua criação e do processo pelo qual passa um livro para chegar ao leitor e leitora, mas também de quem se relaciona com ela. Através da literatura, encontramos a liberdade e a integração com o outro. Também poderíamos dizer que a literatura cumpre uma função de terapia, de cura. E como disse o escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura: “A literatura é uma forma de insurreição permanente e ela não admite as camisas de força”.
CLARISSA MACEDO – Lendo seus poemários, percebemos algumas nuances insistentes: o próprio tema da liberdade, através de uma espécie de “grito de livre-arbítrio”, os caminhos traçados ao longo da vida, o elo materno, o desconforto do estar no mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade de sê-lo; há um grande tema, ou grandes temas, em sua poesia? Se sim, quais são eles?
MAY RIVAS – O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher independente é um eixo bastante presente em minha poesia, contudo, não é o único. Como sabemos, o que escrevemos é totalmente autobiográfico, somente em uma porcentagem, portanto, é o que percebo também em outras mulheres. Por outro lado, o escritor ou escritora é um testemunho de sua época. Ao sermos testemunhas de um momento determinado em um mundo como o que nos rodeia, dificilmente estaremos em conformidade com o que vemos, sentimos, etc. Portanto, há desconformidade. De outro modo, a literatura é insurreição pura.
CLARISSA MACEDO – “O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher” é, certamente, uma tônica bastante abordada na literatura. Embora nem sempre tenha sido assim e isto seja uma das molas propulsoras desse ciclo. Nesse aspecto, há algo que, me parece, a inquieta: a situação da mulher, não só na literatura, mas na política e em todos os setores da sociedade. Como você vê este processo nesses últimos anos e como está sendo no Peru?
MAY RIVAS – É um tema bastante abordado na literatura e, efetivamente, é um assunto que me interessa em sua totalidade como feminista que sou. Em meu país estas reivindicações têm tomado corpo, com idas e vindas. Entretanto, o constante trabalho organizado dos grupos feministas tem logrado uma certa autonomia da mulher em diferentes campos da sociedade. Isto não quer dizer que o trabalho tenha culminado, pelo contrário. Por exemplo, faz uns poucos anos, temos um Ministério da mulher, que, de acordo com diferentes governos, se dá maior ou menor importância; também há uma maior presença de mulheres no campo político, o que originou a lei de cotas que estabelece uma porcentagem mínima de mulheres em altos cargos do Estado. Porém, neste momento não vem sendo cumprida pelo governo, mas se está trabalhando para reforçá-la. Sem dúvida, é fundamental que se siga trabalhando em cima da mudança de mentalidade, sobretudo das mulheres: a consciência de gênero e equidade em todos os âmbitos.

CLARISSA MACEDO – Pensando nas suas respostas anteriores e nesse envolvimento declarado com o feminismo, é possível dizer que sua poesia seria de alguma maneira comprometida com tais questões?
MAY RIVAS – A poesia, assim como a literatura, não tem que estar circunscrita ou a serviço de um movimento ou ideologia política.
CLARISSA MACEDO – Vinda de uma escola literária, digamos, moderna, como você vê a poesia contemporânea, que está permeada pelo fascínio da velocidade e do alcance das redes sociais?
MAY RIVAS – Pessoalmente, gosto, já que também se pode dialogar com outras disciplinas. As redes sociais facilitam a difusão e conhecimento do que acontece, desde o ponto de vista da literatura, em outros lugares, e chega a muito mais pessoas de maneira mais direta.
CLARISSA MACEDO – Partindo desse ponto, há um espaço genuíno para a poesia hoje?
MAY RIVAS – Sim. Todavia, há que se seguir fomentando o consumo da poesia, que, dentro da literatura, é um dos gêneros que menos se consome.
CLARISSA MACEDO – Diversos poetas partilham dessa opinião: a poesia como um dos gêneros que menos se consome. A que se atribuiria isso?
MAY RIVAS – Diria que não só vários poetas compartilham deste ponto de vista, mas também editores. Aventuro-me a dizer que a razão poderia ser que não é um gênero que se saiba ensinar adequadamente nas escolas e/ou que não aproxima a poesia dos meninos e meninas nos primeiros anos.
CLARISSA MACEDO – Em sua carreira como escritora, é notória a participação que você desempenha em encontros literários em várias partes do mundo, como Cuba e Colômbia. Em que medida estas experiências enriquecem a matéria poética?
MAY RIVAS – Enriquecem muito, porque se aprecia olhares diferentes sobre o que se escreve e de como se é percebido por outros públicos, assim como escritoras e escritores de outras latitudes, com uma carga diferente da nossa.
CLARISSA MACEDO – E daqui pra frente, quais são os planos de May Rivas como escritora?
MAY RIVAS – Terminar o terceiro poemário que estou escrevendo, e, claro, os que estão por vir. Não sou uma pessoa que tenha pressa em publicar, mas bem, sou das que frequentemente demoram nas publicações. Por outro lado, e de maneira paralela, continuar com o trabalho de editora e gestora cultural focada em projetos que tenham a ver diretamente com a criação, o livro e a promoção da leitura, este último como um compromisso.
Clarissa Macedo (Salvador – BA). É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.
Luiz Brener

Das vantagens da ficção
Como de costume,
sem ter hora ou ocasião,
a verve me espreita
os sonhos mais sórdidos.
Ela se debruça sobre mim
e com seus lábios melífluos
me beija
ardentemente.
Somos o próprio caos.
Depois de algumas horas de
gozo trocado,
eu, ainda distante de mim,
me lembro de Dulce,
a bibliotecária que lambe
dicionários.
Recordo-me também de Agenor,
o velho que cultiva bonsais
em torradeiras.
Me vem a mente, por último, a persistência
de Hugo, o menino que empilha grãos de arroz
com um apuro sobrenatural.
O que
por acaso
nos aproxima
é justamente
o fato
de que sonhamos sozinhos.
O que
curiosamente
nos mantém ligados
é aquilo que
nos denuncia.
A consciência de que meu eu
só existe em lírica
não é um incômodo.
Muito pelo contrário,
é o que
dá ao meu aglomerado de células imprecisas
alguma verossimilhança.
O mundo seria ainda mais infindável
se todo espírito pudesse desfrutar do
prazer
de
inexistir.
***
Como fazer
Mantenha
em território livre.
O recomendável é que se
refugie na parte da cabeça onde
a verve
nunca anoiteça.
Regue de três em três instantes,
com choro, suor, sangue ou qualquer
outra fagulha humana.
Se possível,
acenda um incenso.
Não são poucos os que apregoam
que o gesto confere ao objeto
um certo ar de efeméride.
Não se preocupe
em lapidar.
Não se deixe assombrar
por devaneios quanto
a forma.
O único desejo que deve prevalecer
é o de que
a joia floresça.
A coisa estará perto de se concretizar
quando estiver menos matéria sólida e
se tornar algo fino.
Mas ainda assim tão tátil
quanto o próprio vento.
E, por fim,
para assegurar
a garantia
de todo o processo,
sem remorso ou indecisão
você deve
atirar a pedra
no meio
do
caminho.
Observação pertinente: você deve atirar
a pedra
no meio do
SEU
caminho.
***
A aranha
A aranha,
sempre humilde tecelã,
constrói a própria cama.
Eu atiro-me a minha
sem contestar sua
origem.
A aranha, essa decorosa mãe,
faz da cama
berçário para
acomodar sua
numerosa prole.
Eu abrigo na minha
pesar e ossos cansados.
A aranha, sábia raposa,
sabe que sua cama também
é engenhosa
armadilha.
Eu deito na minha, certo
de que é um santuário
de sonhos concernentes.
A aranha, sempre inventiva,
também faz da cama
um modesto refeitório.
Eu me vigio pra não manchar
os lençóis da minha.
A aranha, indubitavelmente,
sabe se virar.
Eu só durmo de bruços.
***
Sob nova direção
Herdei do velho dono
uma coleção de LPs
e um cão de olhos gastos.
O quadrúpede choraminga
toda vez que a vitrola evoca
a voz de Joplin
ou a juventude inesgotável
dos Besouros.
O cheiro de incenso perdura.
Há dezenas de pinturas mal-acabadas.
Tentativas frustradas
de autorretratos.
Nada é igual.
Nada é unânime.
Tudo se condensa de forma que
cada um dos arredores percorra
uma ala do coração do
antigo inquilino.
Cada um dos móveis,
cada peça que compõe a mobília,
tudo reverbera a falta.
A saudade é um hino estridente
que ressoa de forma violenta e é
cantado por cada um dos tijolos que
integralizam a ossada de
minha nova residência .
As inúmeras infiltrações soam
como veias puídas
que pulsam lembranças
em tom de sépia.
Eu, tão ausente, quanto
o avoengo proprietário
destoo desta alvacenta cenografia.
Sou elemento sobressalente de
uma plástica já sacramentada.
Um fio de azeite temeroso
em meio a um oceano de decomponível
quilometragem.
Não tenho feito nada a não ser
esperar.
Sonhar com o dia em que, finalmente,
hei de me habituar
à maneira indecorosa
com que esta casa
respira.
***
Visita
Servira-me uma dose
generosa
de uísque na xícara.
Corria pelos seus aposentos
ilustrando seu vigor com
gestos efusivos.
Entoava de novo seu
cancioneiro de
auspiciosos
anexins.
A. estava feliz.
Na poltrona,
o acordeão.
Ao que consta,
ele fora recobrado.
Partituras se acumulavam
pelo chão a exemplo de post-its
de toda a sorte de cores
nas paredes.
Minha querida A. dispunha
de um vestido amarelo.
Imitação original da luz do dia
e tão radiante
quanto ela própria.
Valsávamos incautos ao som de um
de seus blues.
Quando, por alguns breves minutos,
ela se ausentou
me aproximei de um
dos coloridos memorandos
que vestiam sua alvenaria.
Em todos eles
estava escrita, com a mesma delicada
caligrafia,
uma audaciosa máxima: o câncer
não sobreviverá
a mim.
Luiz Brener nasceu em Caraguatatuba/SP em 1994. Segundo a cultura de prognósticos, o mês e a hora exata de seu nascimento indicam que ele é capricorniano e o seu signo ascendente é o de peixes. Em outras palavras: Luiz é um obstinado sonhador. Publicou nas antologias literárias O Segredo da Crisálida e Entrelinhas-Vol.2, ambas da Andross Editora. Fotogramas é seu livro de estreia e integra a Coleção Patuscada, premiada pelo ProAC- 2012 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.