Categorias
91ª Leva - 05/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Marcantonio

 

Com o tempo, fica a marcante impressão de que as coisas precisam seguir um curso natural, sem a geração de expectativas demasiadamente projetadas. Vontades existem, isso é fato inegável, mas o bom mesmo é fazer delas uma peça favorável à instigante engrenagem das descobertas até mesmo involuntárias. Em que medida a palavra resistência pode representar o principal mote dos caminhos que norteiam a Diversos Afins? De modo especial, o convívio e, por conseguinte, o aprendizado estabelecido com as pessoas que se aproximam de nosso projeto à frente da revista torna a trajetória um tanto mais serena. A busca pela qualidade é uma meta editorial que não sofre os efeitos de regramentos limitadores da criação. Entendemos que critérios pautados no bom senso, razoabilidade e, sobretudo, sensibilidade são definitivamente aspectos fundamentais em nossa jornada de pesquisa e seleção de materiais publicáveis. E é sempre bom frisar que, nesse ponto, o apego a verdades universais nada contribui para que novos diálogos se consolidem. Então, é preciso rechaçar a imutabilidade do pensamento, principalmente quando ela impede que o entendimento sobre os fenômenos que nos cercam possa se efetivar. Talvez aqui o termo resistência possa ser empregado, tendo em vista a importância de combatermos a mediocridade do pensamento. Sem dúvida alguma, o grande lado benéfico dessa reflexão é sustentar a amplitude da busca pela diversidade sem perdermos os referenciais indispensáveis a uma adequada análise e difusão dos conteúdos. O comprometimento maior que se opera a cada nova publicação está na perspectiva de estreitar laços entre criadores e o público almejado. A partir do momento em que uma obra se lança ao mundo, já não é mais a mesma, pois seus leitores e apreciadores, com suas esferas interpretativas próprias e quiçá singulares, conferem a ela um status de renovação sem a perda do seu ímpeto originário. Nesse exercício permanente e dinâmico de aglutinações, traçamos percursos dotados de certa autonomia quando, por exemplo, contemplamos e também internalizamos as sensações tidas a partir da expressão de Marcantonio, artista que expõe entre nós a espinha dorsal de sua epifania mundana. Compartilhando também desse sentimento libertário, apreendemos as vivências poéticas de gente como Juliana Krapp, Dheyne de Souza, Zeh Gustavo, Madjer de Souza Pontes, Winston Morales Chavarro e Pedro Du Bois. Na entrevista com a escritora Helena Terra, os densos caminhos da palavra atravessam a vida de uma autora que veio fazer morada entre nós. Na seara da música, o mais recente disco dos pernambucanos da Nação Zumbi vira alvo dos apontamentos de Larissa Mendes. Os diferentes modos de usar a vida enredam os contos de Paulo Bono, Thays Berbe e Mariza Lourenço. O mais novo livro do poeta Zeh Gustavo é tema das precisas observações de Leonardo D’Avila. No caderno de cinema, todas as atenções estão voltadas para o intenso Tatuagem, filme dirigido por Hilton Lacerda. O espírito reinante na Leva que agora surge rende homenagens ao saudoso escritor e parceiro Nilto Maciel, autor que dedicou imensa parte de sua vida à sua cumplicidade com as palavras. Com ele, aprendemos, dentre outras coisas, a cultivar a continuidade dos caminhos editoriais. Assim, fundamos mais uma especial edição.

Os Leveiros

 

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

NAÇÃO ZUMBI – NAÇÃO ZUMBI

 

 

Veias, coração, desejos, legado. O trecho de Cuidado, faixa do oitavo álbum da Nação Zumbi parece sintetizar a capa e o sentimento presente no mais recente trabalho da banda. Vinte anos depois do icônico Da Lama Ao Caos (1994), o sexteto pernambucano afaga as cicatrizes deixadas pela prematura morte de seu idealizador Chico Science, em 1997, e lança um disco calcado nos primórdios do manguebeat. Com uma roupagem solar e dançante, Nação Zumbi (2014) traz 11 faixas inéditas, depois de um intervalo de 7 anos desde Fome de Tudo (2007) – hiato este marcado por projetos paralelos de seus integrantes, pelo lançamento do DVD Ao Vivo no Recife (2012) e do duelo Mundo Livre vs. Nação Zumbi (2013), no qual a trupe comandada por Fred 04 canta músicas do grupo de DuPeixe e vice-versa.

Produzido por Kassin e Berna Ceppas, o conceito do novo álbum parece inspirado na passionalidade narrativa de Nelson Rodrigues. Isso talvez explique a visceralidade que permeia toda a obra. A matriz manguebeat eternizada por Science é mantida, porém, vez ou outra, pop e rock se fundem de maneira exótica, o que pode causar certa estranheza aos fãs mais radicais, ávidos pelo compasso dos tambores. Como frisou o vocalista em uma entrevista, ‘é um caminho diferente para a mesma casa’. Distribuído pelo selo Natura Musical/SLAP (Som Livre), o trabalho está disponível em diversas plataformas digitais, incluindo o canal oficial da banda no YouTube. Todas as composições são assinadas por Jorge DuPeixe (vocais), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Pupillo (bateria) e pelos percussionistas Gilmar Bola 8 e Toca Ogan.

 

Nação Zumbi / Foto: Divulgação

 

Cicatriz, faixa de abertura e primeiro single do disco, fala das marcas estampadas na derme da nossa vida (fica bem desenhado só pra ser bem lembrado/risco do erro malvisto, malquisto e mau-olhado). Os versos crus de Bala Perdida relatam a fração de segundo que separa a vítima do sobrevivente (vi quando você passou/pra se esconder em outro alguém/senhora bala, me deixe passar/logo eu que sou pacífico/senhora bala, me dê licença/eu não sirvo pro seu destino não). Defeito Perfeito tem uma levada funk e os sempre potentes riffs das guitarras de Lúcio Maia. O Que Te Faz Rir ensina, entre outras coisas, a manter ‘a leveza num dia de cão’ e conta com os backing-vocals de Laya Lopes (cantora da banda cearense O Jardim das Horas) e de Lula Lira, filha de Science.

As três canções seguintes compõem o momento mais suave do álbum. A primeira delas é a ‘ciranda que não para’, A Melhor Hora da Praia, balada com arranjos de cordas e participação de uma onipresente Marisa Monte. A cereja do bolo (ou o caranguejo do mangue) fica a cargo da onírica Um Sonho (estão comendo o mundo/ pelas beiradas/roendo tudo/quase não sobra nada), onde DuPeixe empresta toda sua verve melódica, até então pouco explorada, para cantarolar sobre um doce devaneio. Os versos de Novas Auroras (feliz pelo que ainda não veio/saudades do que nem foi/esperando o melhor dos agoras/nem temos o antes e já queremos o depois) encerram o bloco analisando nossa insatisfação com o tempo, ou com o ‘Hoje, Amanhã e Depois’, parafraseando a canção de Futura (2005).

Se Nunca Te Vi (vivo na promessa de encontrar você/me perco na incerteza disso acontecer) aborda a busca por alguém idealizado, a intensa e belíssima Foi de Amor – já presente em shows da banda antes do lançamento do álbum, inclusive em sua apresentação na edição brasileira do Lollapalooza deste ano –, compara o amor a ‘uma droga mais que letal/quando não mata, aleija/faz esse temporal/não tem nem contraindicação/dependendo da dose/acelera e racha o coração’. As sirenes de Cuidado (quando você não ouve seus passos/você perde o chão) anunciam uma espécie de indie-rock preventivo que deságua na explosiva Pegando Fogo, encerrando o álbum com todo o amor e fúria dos mangue-boys.

É bonito de ver que, duas décadas depois, como profetiza Mateus Enter, faixa que abre Afrociberdelia (1996), o coletivo permanece ‘com Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão’, fazendo um som vibrante, renovado e sem síndrome de underground. E se ‘você dá um passo à frente e não está mais no mesmo lugar’, nada mais justo que todos os caminhos levem à Nação Zumbi.

 

 

Larissa Mendes é uma mangue-girl do oeste catarinense.

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Madjer de Souza Pontes

 

Arte: Marcantonio

[estrema]

 

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca
da alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

 

 

***

 

 

[alheio]

 

o estranho se reconhece
no que de estranho em nosso olho
como quando um turvo espelho
cruza num outro o seu rosto:

face a face dois espelhos
gera-se mais um abismo
e sejam turvos ou limpos
não se calcula preciso:

é que num semblante alheio
pretendemos qualquer fim:
um reflexo que no espelho
soe semelhante há dois sins –

são dois mares desiguais
dimensão sob dimensão:
se água límpida ou toldada
mergulha fundo a visão

 

 

***

 

 

[outra parte]

 

dentro em pouco serei cinza
que volve ao leito primeiro
como se dentro de casa
duma vez puxado – inteiro –

ou o arcabouço de uma imagem:
restos de fotografia
para quem ali os visse:
é esse que há pouco vivia –

talvez só me reste o nome
quiçá dito em certa prece
que o precário que se deixa
tem o silêncio que merece –

ou nem o nome sequer
só uma coisa transparente:
como uns resmungos à noite
feito um eco inconsequente

 

 

***

 

 

[o poeta sonâmbulo]

 

cedo vieram bater à minha porta
perturbaram-me o já baldado sono
prenunciaram-me sem chances de fuga
tudo que pelo dia vário serei

na rua interrompe-me a cada degrau:
homens sedentos vasculham os bolsos
à procura de um ímpeto de vida
e sempre cedo – minha dor é cedo –

passeiam na confusão de meus braços
minhas mãos gravam seus sonhos em mim
e quando ausentes chaves recupero
é uma nota que incha na garganta –

a janela me abre à rua-do-dia-curvo
e o mundo afora me pesa no lápis –
mas quando me virem beijando a noite
permitam-me o delírio das essências

 

 

***

 

 

[truque]

 

logro: medida precisa
que no ouvido do traído
concretiza-se na língua
do paladar corrompido:

a fala dá um passo a frente
mas um passo cauteloso
que o ouvido do outro se feche
ao que o verbo leva no bojo –

e a palavra realizada
assenta pedras precisas
e quando o outro se depara
não credita ao passo ferida –

é dizer não como sim
ou sim embutindo o não
na balança o dito posto
a alma se põe noutra mão

 

Madjer de Souza Pontes nasceu na cidade de Pedra Branca, Sertão Central do Ceará. Editor da Revista Pechisbeque e da Editora Substânsia. “o núcleo selvagem do dia” é o seu primeiro livro de poemas.

 

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Memória e rasura: a “Pedagogia do Suprimido” de Zeh Gustavo

Por Leonardo D’Avila

 

Um poeta não se forma sozinho. Ao mesmo tempo, não há pedagogia ou maneira de ensino que dê conta dessa tarefa. Não apenas por uma questão de intersubjetividade, mas principalmente porque, paradoxalmente, a poesia não surge das conclusões, porém das passagens, das metamorfoses. Assim, a artimanha poética precisa de algum tipo de fetiche para que alguém se coloque nas fronteiras do funcionamento da linguagem. Quando o poeta não conta mais com alguma aura de heroísmo ou prestígio social, atividades muito mais corriqueiras podem ser o impulso inicial da escrita para o vates contemporâneo. A cena do escritor perante a máquina de escrever para ver o que simplesmente “sai de dentro dela” é clássica, mesmo ao se saber que a máquina em si seja vazia de conteúdo. Suponhamos, pois, que o poeta tenha perdido seu objeto-oráculo, esteja ele no teclado do computador, no papel A4 ou na caneta “bic”. Sim, a poesia é queda, mas que se tente imaginar por um momento o que acontece quando o poeta já não está tão afinado com seu instrumento de trabalho, isto é, toda a sua parafernália, que já era frágil. A “Pedagogia do Suprimido”, livro mais recente de Zeh Gustavo, põe o leitor diante dessa tentativa. Enquanto em seu trabalho anterior, intitulado “A Perspectiva do Quase”, havia uma boa dose de recursos que demonstravam erudição, metaliguagem e experimentalismo, em uma tentativa de evidenciar a potência vazia que tece o fazer poético, em “A pedagogia do Suprimido”, editado pela Verve no final de 2013, o foco não é mais esse. Pelo contrário, nota-se um menor comprometimento formal acompanhado de coloquialismos e pensamentos que fluem de maneira direta até serem violentados com as palavras, a exemplo da proliferação viral de neologismos, e da impressão forçada de sons rompendo com o sentido que seria esperado, como já se anuncia no título.

A supressão que nomeia o livro não cabe na dialética entre oprimido-opressor (com uma alusão clara a Paulo Freire), pois não persiste a esperança de sujeito emancipado, formado, lúcido ou qualquer coisa do gênero para sustentar utopias como a emancipação ou a desalienação. Os prefixos são extremamente significativos para entender essa mudança de sujeito oprimido para suprimido. Na (ob)pressão ainda existe olho no olho, combate frontal no qual um leva a pior. Na (sub)pressão, não existem dois sujeitos de mesmo nível num confronto. Há apenas o resto da tentativa de formação do impossível, um vestígio de sujeito que nunca consegue se estabelecer, que nunca se forma de maneira definitiva. Na verdade, diferentemente da opressão, na supressão já não há nem mesmo confronto, senão uma miríade de pisadas tão vertiginosa que já torna impossível a separação daquilo que pisa daquele que sofre. Em suma: quando o tédio ou a descrença chegaram em palavras e em coisas, “neste giro sem sina / sem sal nem viço”, não há mais um privilegiado: principalmente a função “poeta”, afinal, o artifício já se emancipou. A face daquele que escreve está na perda dos dispositivos (de máquinas de escrever a princípios poéticos) e não mais apenas na do sentido.

 

CONTO FUNESTO

Perdi um som quando ele tava a se encostar
Na ponta da minha língua
Perdi depois a língua.

Perdi uma palavra quando ela pendia já do traseiro
Para a ponta de minha caneta.
Perdi depois a caneta.

Achei um cinzeiro desbarafutado de utilidades.
(Eu que achara tão-cedo as inutilidades!)
Despejei as minhas cinzas
Que não havia visíveis.

Achei minha face.  (p. 47)

 

Zeh Gustavo demonstra que o desespero de um mundo pré-governado por dispositivos só não é maior do que o de um mundo no qual já nem mesmo haja a interação com os dispositivos. A perda da língua, da caneta e da urna funerária para depositar as cinzas chegam a dar um tom nostálgico do momento em que as coisas tinham função, seja a palavra para escrever ou o caixão para sepultar. Contudo, o poeta não quer uma volta à funcionalidade. Apenas constata que, por mais que as coisas continuem a fazer sofrer, pois talvez até não tenham nunca deixado de operar, não é mais possível interagir com elas. Por isso, neste seu último livro já não há um escrever sobre o escrever ou um escrever sobre o não-escrever, como acontecia em “A Perspectiva do Quase”, já que os instrumentos, se não se perderam, estão completamente desafinados. E não há nem corpo, nem linguagem nem inconsciente suficientes para acalentar o suprimido.

O principal gesto que se destaca em “A Pedagogia do Suprimido”, diante dessa condição da supressão, está no fato de que quem perde a sua caneta “bic”, seu mecanismo de escrita, arranha com prego mesmo. A grande força da lírica de Zeh Gustavo está na rasura, procedimento indeterminado, porém teimoso daquilo que descreve como “ânimo-vândalo”. Se são observados traços da inventividade de Paulo Leminski no autor, este, ao brincar concomitantemente com o som e a escrita das palavras, já não causa a mesma liberação de tensão típica do cômico. Neologismos como “teimoazia” ou “autoboicorte” imiscuídos em variações de tons menores, expressam-se na recorrência do grito, do rabisco. Rasuras insistentes de um livro de poemas com um forte teor autobiográfico, sem velar sua ficcionalidade, sendo, possivelmente, “desmemorialístico”, à maneira de Manoel de Barros. Nesse sui-gênero, o autor até consegue prender a atenção do leitor a ponto de fazê-lo acreditar brevemente, como em um sonho, na investida introspectiva, fazendo jus a uma pedagogia apenas por um lapso, em uma prosa-poética de formação. Isso se reforça ainda mais pela coloquialidade e pelo descompromisso de muitos pensamentos, os quais, muitas vezes fazem parecer que há perante o leitor um sábio contador de histórias. Porém, o próprio texto se assume eventualmente como nada mais que um texto, e todo um hermetismo que parecia surgir entre os poemas sem mais nem menos vai ser comparado, de uma hora para outra e sem aviso prévio, por exemplo, a uma tela de pintura, uma justa superfície mais a ser observada do que propriamente lida. Eis que surge para aquele que lê um autoarremeter, uma troca de olhar para destacar a pura tipografia, meros caracteres sobre uma tela, antes de ser um fluir da imaginação proustiano sobre papel A4 ao qual o leitor fora previamente induzido. É o que discretamente se declara no poema “Na gare, com Delirium Tremens”: “Eu me exprimo em papel-tela / Qual prosa já sem contador nem / Personagem / Só fatos tortos jorrados em borro tarde morta / Tetos em desabares sob picotes-edifício do céu / Texto surrupiado”.

Fatos tortos e desafinados porque estão borrados pela superposição de sílabas a surrupiar o texto a todo momento. É bem notável a esse respeito que o título convidativo do livro já na contracapa vem como “Pedagogia do Suprimido”, o que também acontece na subdivisão interna, onde os capítulos aparecem tachados. Essa rasura, também mostra seu incômodo e sua força, desmontando um fluir lírico, nos inúmeros neologismos e paronomásias, através dos quais o poeta é pródigo ao rabiscar sufixos e prefixos constantemente. Como ele mesmo superpõe, a escrita da rasura no “ânimo-vândalo” vem em conjuntos notáveis de experimentação, por exemplo, quando o autor aproxima as palavras descalamento, desrecalcado, dessupressão, desvio, desafogo e desabrigo. O uso do prefixo des-, entre muitos exemplos, prova que aquele que escreve não se interessa mais tanto pela linguagem como promessa de desconstrução (diferença e adiamento), tendo em vista que faz dela um vírus, uma des-qualquer coisa. No vaivém de cair no poema e grifá-lo, para logo acordar do sonho, é provocada uma imersão em uma experiência expressionista que parte de uma autobiografia declaradamente ficcional, mas muito envolvente, que é logo marcada pelas repetições dessas rasuras, em que os sentidos são concentrados até a estafa sem que se consiga fazer uma transubstanciação. Qualquer tentativa de heroísmo se esvai quando Zeh Gustavo arranha o disco com suas repetições de um experimentalismo despretensioso, porém de extrema sensibilidade, algo que se relaciona com o que o autor chama de “alto exaustão”.  Paralelamente ao rumo da introspecção que não chega nunca a formar um personagem, manifesta-se o gesto deformador (mas não formalista) da rasura, como de um vândalo que descobriu que todo objeto à sua volta lhe pode lhe ser útil como projétil quando abre mão de encontrar a marreta perdida. O risco de prego, a escrita que grita com o rabiscar sobre o sentido, é capaz de concentrar toda a dúvida, a agressividade e a impulsão dos que assumem que já perderam a caneta ou o papel, isto é, que há força, mesmo quando se põe em dúvida a formação, esteja ela em entusiasmo ou em procedimentos poéticos.

Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Leonardo D’Avila é tradutor da poesia latina de Arthur Rimbaud, publicação do editorial Cultura e Barbárie (no prelo).

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Winston Morales Chavarro

 

Arte: Marcantonio

 

ABEL

 

Caín
Hermano de vientos, nubes, diluvios y ríos
Un mar de luces opalinas gravita en los guáimaros de la ciénaga
Y se aglutina en mi espejo
Como un prisma que nos dice:
La muerte es una puerta
Y el tiempo una ventana
Por donde nuestros pasos presurosos
Perciben otras cosas, otros mundos.
Bello Caín
La quijada de burro con la cual me mataste
Tenía el olor de las encinas y los pinos,
De tus labios venían hasta mi norte
Unos chopos amarillos
Que enhilaban mis pétalos melancólicos
En el hilo de la muerte.
Hermano profanado por los cielos
El dolor de tu hacha cavernoso
Penetraba mi topografía más remota
Mi geografía y mi valle más sagrado.
Ante el golpe subceleste
Que yo he encontrado sutil y generoso
Y que tú asestaste con una sabiduría infinita
Yazgo en la orilla de tu río, pensativo.
Oh, amado Caín
Tus huellas de madreselva
Van decorando mis entrañas,
Van vistiendo de semillas, de hiedras y resinas olorosas
Mi cuerpo fatigado por los viajes.
Mi sudor se impregnaba de tus frutas;
Tus piñas, toronjas y zapotes
Decoraban mi cabeza
Con coronas tejidas por cientos de cuchillos.
Nada soy sin tu golpe
Herrero milenario;
Tus manos son el yunque
Que moldean, a la sombra de estas islas misteriosas,
La herradura, los cristales y los cuarzos
De otras Islas en el hado de la muerte.
Caín
Hermano de mis antepasados
Hay en ti un pretexto para silenciar la historia
Como si la memoria de las dagas
No aceptaran la muerte de Goliat
Como una templanza de David,
Mi muerte es una templanza tuya.
Amado Caín
Por tu golpe y tu palabra
He conocido el paraíso.

 

 

***

 

 

A EVA EN EL DESTIERRO

 

Qué hermosa es Eva
Qué hermosa la serpiente que le rodea
El árbol que crece en su talle
El fruto carnoso que despliegan sus labios
Al posar sobre la ocarina
Su música en las orillas del bosque.
Qué hermoso su cabello
-Grajillas oscuras que caen sobre sus hombros perfumados-
su nariz que respira otros mundos
y crea para tantos laberintos
el azahar y las guirnaldas que los sustituya.
Qué hermosa es Eva
Qué hermosos sus tobillos
Las huellas que dibuja sobre la arena
Para marcar el camino hacia la luz y hacia las sombras.
Qué hermosos los hijos que le ha arrojado al mundo
El río que desciende por las colinas de su vientre
El volcán de sus ojos de fuego.
Qué hermosa esta costilla pensante
Este polvo sagrado
Esta caña aromática
Que guarda en sus pechos fragantes
Otra manzana para las épocas de lluvia.

 

 

***

 

 

CARTA  DE UN ESCRIBA A MAGDALENA

 

Yo no sé de dobleces de campanas
De sanear o purificar sepulcros
Pero un torbellino de hojas secas me conduce hacia tu vientre
Y alguna parte de esa música secreta
Que tú reinventas y traduces.
Yo no sé de multiplicación de pájaros y peces
Ni siquiera escanciar las ánforas de vino
Pero busco tu cuerpo Magdalena
Como si fuera ese santuario
Donde redimir mis carnes y mis velas
Agobiadas por los golpes de las sombras.
Yo no sé de resurrecciones
-Acaso mi carne no soporte tantas instancias-
No se perdonar las querellas con el polvo
Pronosticar las épocas de lluvia
Pero estoy seguro Magdalena
Que mi amor te reivindica de las culpas
Y talla en tu ofertorio
Una parvada de pájaros azules
Donde sopesar tus deudas y tus vinos.
Yo no sé de estrellas y ovellones
De esferas cuyo fin esté más allá del cosmos,
Pero mi conocimiento en tu cabello
Quiebra los mapas
Y mis manos no poseen otro lenguaje
Que el mismo que tú diagramas
En el río de la muerte.
Desde las selvas sirias
Hasta el mar occidental,
Desde el monte Nebo
Hasta el río Rogitama
Irá mi ancho y dulce amor, bella Magdalena,
Revestido de luz para tus hombros
Y un collar de caracolas
Hará tejido con peces de distintas geografías
Para adornar tu pubis
Y tus cabellos crispados por los astros.
Yo no sé de oratorias y viejas enseñanzas
Mi lenguaje no supera los silencios de la tierra
Pero acaso me domina la palabra
Y un Te Amo
No sea otra respuesta
Que el peso enamorado de esta cruz.

 

 

***

 

 

LÁZARO

A Jader Rivera Monje.

 

Ahora que soy tantas cosas al tiempo
Ahora que asumo mis vidas pretéritas
Y las lanzo a la carne o al barro
para que se vuelvan poemas
o pequeñas hojas que se enfrenten
al aire rizado del Zaire
me llaman Lázaro.
Soy Lázaro
El hijo de Betania
El hermano de Martha y de María
He conocido la muerte
Su río de rosas, gladiolos, violetas, mirtos y lirios
Que he transitado, navegado y respirado
En los cuatro días que duró
Esa odisea por el mundo fascinante de las sombras.
Soy Lázaro
Tengo setenta nombres
Música, viento, pájaro, buey, lluvia
Son algunos de ellos
Creo en la resurrección
En la pervivencia
En el soplo cálido que trasciende
Más allá de estas tribus.
Me he levantado del barro nueve veces
Y ahora
Soy el polvo que no vuelve al polvo.
Mis manos y pies
Todavía están atados con envolturas de entierro
Pero también es cierto
Que bajo mi cuerpo crece la hierba
Circundan el gusano, el ciempiés, las calambrinas olorosas,
La gaviota que remonta su vuelo
En busca de otras corrientes de aire.
Soy Lázaro
Habitante de Betania
Amigo de las sinagogas
De Canaám, de Cafarnaum, de Nazaret, de Galilea
Y de otras tierras lejanas
Cuyos nombres no entenderían
Tengo el rostro cubierto con un paño
Pero cada vez que me levanto a la vida
Cada vez que una mariposa
Me recuerda que he nacido de nuevo
El paño va cediendo paso
A otras estrellas, a otras luces, a nuevas especies de animales,
A otros caminos.
Soy Lázaro
Y en este viaje al final de la vida
Me sentaré sobre otra roca
A hilar el cordón sagrado
El pedazo de río
Que me devuelva a otra corriente
En donde todas las voces clamen,
Todos los músicos canten,
Todas las lluvias digan:
“Lázaro, levántate!”

 

Winston Morales Chavarro nasceu na Colômbia, em Neiva. É jornalista e professor universitário. Seu trabalho poético logrou vários prêmios dentro e fora de seu país. Dentre outras obras, publicou: Aniquirona (Trilce Editores, 1998), De regreso a Schuaima (Ediciones Dauro, Granada-España, 2001), Memorias de Alexander de Brucco (Editorial Universidad de Antioquia, 2002), Camino a Rogitama (Trilce Editores, 2010) e La Douce Aniquirone et D’autres Poemes, Somme Poétique (Editorial Gente Nueva, 2014).

 

 

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mariza Lourenço

 

Arte: Marcantonio

A HERANÇA

Os pequenos olhos de Lúcio ficaram ainda menores quando viu a mulher pendurar cuidadosamente na parede, e em lugar de honra, o enorme retrato de seu tio-avô Aurélio, morto recentemente.  Feio demais, pensou o marido. A boca, no entanto, salivou, quando pensou que a feiúra nada significava se comparada à fortuna do velho.  Após a leitura do testamento, que foi presenciada por meia dúzia de gatos pingados escolhidos a dedo, a mulher não deu um pio. Ele esperou pacientemente por uma boa notícia, mas o tempo passou e nada. A conta bancária continuava da mesma maneira. E ele em queda vertiginosa rumo a mais absoluta miséria. Rico jamais havia sido, é bem verdade, mas nunca, como agora, precisara tanto de dinheiro. Questão de vida ou de morte, mais de morte, se computadas as ameaças dos agiotas a quem devia uma boa quantia. Resolveu perguntar a ela o que, afinal, o velhote lhe deixara. “Ora, o retrato e a coleção de armas brancas. Ele sabia que eu adorava polir suas facas.” “Estúpida! Em que mato sem cachorro fui me meter!” Ela não deu um pio. Em homenagem ao tio, escolheu as segundas para polir as armas. Lúcio observava a mulher desembainhar as facas, limpá-las e, novamente, guardá-las dentro das bonitas caixas de madeira. O ritual exasperava Lúcio. Ela sabia. E gostava. Ela sabia dos jogos, das mulheres, das dívidas, da ganância, do desprezo. E do coração fraco, além do caráter. Ela sabia. Tão pequena e serena. Tomou gosto. Todas as segundas desembainhava e polia. Todas as segundas experimentava o fio e o corte. Às vezes, nos dedos, outras, nas coxas. O sangue ralo gotejava como uma mísera torneira sem conserto. E a tudo ele espreitava. Com irritação, de início. Depois, com pavor. Pior era a calmaria dos olhos de Emma, a placidez medonha da satisfação. O coração era fraco, ela sabia. Mais fraca e providencial, porém, foi a veia partida, esmigalhando a razão. Melhor tivesse morrido. “Adonaldo, por favor, apronte Lúcio, vista-lhe um terno bem bonito. Hoje, às dez, vem aqui um retratista argentino, o mesmo que pintou o quadro de meu falecido tio. Não sei se já lhe contei, Lúcio, mas conheço muitos artistas e o retrato de titio foi um presente meu, pouco antes de sua morte. Ficou tão feliz, o pobrezinho. Tão vaidoso.” “Senhora, será que ele a compreende?” Ela não respondeu. Colocou-se cara a cara com o homem na cadeira de rodas. Olhou-o demoradamente e, com satisfação, percebeu os olhinhos apequenarem-se ainda mais.

 

 

***

 

 

TERROR NOTURNO

 

Acordou suado à hora de sempre. Nessa noite, no entanto, além do suor, sobreveio o sufocamento. Não aguentou, cutucou a mulher. Ela abriu um olho.

— Na festa do nosso casamento você me perguntou quem era aquele ‘cara estranho e triste’, e eu respondi que não sabia, lembra?

— Não…

— Mas eu sabia, ele era bacana demais. Bem mais do que um amigo. Inseparáveis: cama, mesa e banho. E eu sacaneei. Arrependimento, se matasse…

Ela abriu o outro olho. Não fez questão de conhecer o resto da história.

— Peça desculpa a ele, ué.

— Nem sei por onde ele anda.

— Peça perdão a Deus, dá no mesmo.

— Você sabe que eu não acredito em Deus.

— Então não encha a minha santa paciência.

Voltaram a dormir. Pela manhã, à mesa do café, ele estava recomposto e ela, absolutamente encantadora, enfiada num vestidinho lilás.

Mariza Lourenço, advogada e escritora, é coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas.

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pedro Du Bois

 

Arte: Marcantonio

Paredes

 

Ficamos juntos
….na indivisibilidade dos opostos:

………..anéis de casamento
………..filhos da mesma casa.

O corpo banhado sobre a cama
e a janela entreaberta: a justeza
da imaginação prisioneira
entre quatro paredes frágeis.

 

 

***

 

 

Textos

 

Sonâmbulo
…..perambulo textos

…………….navego pessoas
…………….e me oriento
.……………em ícaros
…………….de asas cortadas

tudo feito
na minha passagem.

 

 

***

 

 

Igualdade

 

A igualdade sonhada
.não se revela
.no que mostra.

…..A conquista
…..é passo inicial
…..na desigualdade.

…………O caminho
…………percorrido em entregas
…………e o desmoronar
…………do corpo no ferimento
………………………….aberto.

 

 

***

 

 

Grandeza

 

Fui começo
…….sou metade
….fui princípio
……sou continuação

o final se oferece
em lendas
e o mito
perde sua grandeza
na igualdade do mistério.

 

 

***

 

 

Janela

 

Nada me vale a janela
se não posso
ver as construções
de igualados prédios
em vistas circunscritas
aos arredores: a janela
…………………..do novo prédio
…………………..me contempla.

 

Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Itapema, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP) e “Iguais” pelo projeto Passo Fundo.

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Paulo Bono

 

Arte: Marcantonio

 

Jaca, os peitinhos e a galinha

 

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

– E a cachaça? – Jaca disse.
– Tá aqui – eu disse.
– Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
– Que galinha?
– Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
– Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
– E o bode?
– Que bode, caralho?
– O bode que enterram em seu quintal?
– Ok. Cadê a galinha?
– Na mala.
– Na mala?
– Lavei o carro hoje.
– A porra vai morrer sufocada.
– Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

– Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

– Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

– Esse merda não vai falar nada – eu disse.
– Será que é doente?
– Quero que ele se foda.
– Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
– Vamos sair daqui, caralho!
– Tô quase metendo a porra nesse moleque.
– Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

– Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
– Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
– Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
– Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
– Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
– É, tô no cu da cobra – eu disse.
– Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
– Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

– Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
– Ham?
– Tá sentindo o quê, porra?
– Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

– Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
– O quê?
– Porra, você tá suando pra caralho.
– É o calor, porra.

Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

– O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
– Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
– Jaca, você tá branco.
– Dor de cabeça…
– Porra, será que você tá dando santo?
– Eu tô tranquilo…

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

– FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
– Vai tomar no cu, Jaca!
– FOI VOCÊ QUE DISSE!
– Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
– E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
– Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
– Ele me pegou desprevenido.
– Mas você viu aqueles peitinhos?
– Jesus é mais forte!

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa). 

 

 

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

Tatuagem. Brasil. 2013.

 

O ano era 1978. No Brasil, experimentava-se um cenário de ditadura ainda inglório e obtuso. Nem o que se convencionou chamar de “abertura lenta e gradual” serviria como motivo para amenizar o efeito altamente negativo que tal estado de coisas causou à nação. A cidade de Recife abrigava em seu seio tradicionalmente cultural um coletivo de seres impactados pelas vias da arte. Em seu microuniverso, pautado por uma expressão marcantemente libertária, a trupe do cabaré “Chão de Estrelas” afirmava-se como sendo muito mais do que um espaço de expressão artística.

Comandados por Clécio Wanderley, personagem vivido por Irandhir Santos, os artistas daquele espaço ousavam ser algo além do seu ofício natural. Com seus espetáculos críticos e sarcásticos, intentavam resistir a um tempo no qual as liberdades individuais há muito estavam minadas. Diga-se de passagem, essa noção de liberdade possui uma dimensão especial, pois vai tocar no delicado terreno das amarras do corpo e da mente.

Olhando por esse prisma inicial, Tatuagem até poderia aparentar ser um filme motivado pelas torpezas da ditadura militar oriunda do Golpe de 1964. Mas logo fica claro que esse não é o mote da obra. O período negro de nossa história é mero coadjuvante diante da necessidade que a produção traz de evocar a temática da liberdade em sua acepção mais vasta possível. A um só tempo, o filme engendra temas complexos como homossexualidade, amor, crítica social e política, dentre outros.

O romance que se estabelece entre Clécio e Fininha (interpretado por Jesuíta Barbosa) opera aproximações entre dois mundos fundamentalmente opostos. Enquanto Clécio representa um símbolo de irreverência e contestação, utilizando-as como ferramentas de difusão artística, Fininha, um jovem soldado do exército, traduz um universo até certo ponto pueril, cuja inocência aponta para a afirmação de suas descobertas pessoais em meio aos primeiros passos da fase adulta. Quando se encontram pela primeira vez, os dois correspondem à paixão numa fluidez de entrega que só respeita à lei do desejo irrefreável. A questão da homossexualidade é muito mais uma aspiração libertária e genuína do que qualquer outra coisa. Longe de trabalhar com rótulos, o filme explora a relação de amor entre dois homens da forma mais natural possível, sem levantar inúteis tensões de gênero.

fininha-e-clecio-em-cena-de-tatuagem-foto-divulgacao-menor
Fininha e Clécio em cena de Tatuagem / Foto: divulgação

De modo especial, Tatuagem é uma obra que se impõe pelo seu caráter fortemente teatral. Assim, os espetáculos do “Chão de Estrelas” parecem transbordar para o mundo circundante, instaurando uma estética muito voltada para os apelos da representação. Nesse ínterim, vida e arte se confundem e proporcionam a compreensão de mundos através duma atitude encenada da existência. E o que parece favorecer esse ambiente de criações é justamente o espírito de comunidade que permeava a trajetória do grupo. Todos eles moravam num mesmo casarão do Recife, compartilhando os territórios de uma verdadeira república das artes.

Dirigido por Hilton Lacerda, a obra merece destaque por enaltecer o saber e o sabor da experiência coletiva das sensações. Os movimentos de câmera são soltos e mergulham nos ambientes de forma a conferir um sentido de naturalidade aos cenários abordados. A própria câmera, ao flagrar as ações teatralizadas, deixa de ser um corpo estranho e invasivo para se tornar um componente intrínseco da obra.  E é justamente nesse ponto que Tatuagem revela um comportamento híbrido quando propõe uma valiosa interposição entre teatro e cinema.  O resultado dessa zona de convergência aparece muito bem pontuado pela forma como a narrativa, nalguns momentos, é dividida em esquetes.

Outro ponto forte do filme é a utilização do corpo como instrumento máximo de representação, seja sob a forma de resistir à ordem sócio-política do contexto, seja na afirmação das potencialidades de construção dos diálogos da arte. As apresentações do “Chão de Estrelas” serviam como um painel vivo para as expressões corporais de seus artistas, sobretudo porque simbolizavam um rico cenário de expansão da consciência.  Para os membros da trupe, o ato de estar no palco significava ir mais além duma aparição exaustivamente ensaiada. Servia também como uma perspectiva de integração ao mundo através de um prisma notadamente ideológico. Tudo isso bem longe de qualquer atitude panfletária.

 

a-trupe-do-chao-de-estrelas-em-acao-foto-divulgacao-m
A trupe do Chão de Estrelas em ação / Foto: divulgação

Por se tratar de uma produção na qual a expressão teatral é traço abundante, era de se esperar que o trabalho do elenco tomasse o centro das atenções. E isso ocorre com a maioria dos atores. No entanto, é impossível não mencionar as destacadas atuações de Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa, na pele de protagonistas cujas sinas pessoais sustentam densamente os polos de tensão principal da história. Outro ator que se destaca por sua relevante aparição é Rodrigo García, ao encarnar o espalhafatoso personagem Paulete.

Com seu enredar de delicadezas, Tatuagem é uma obra atemporal, sobretudo porque privilegia o exercício ativo e consistente do pensamento. Dentro de nós, é bem provável que tenhamos alguma dificuldade em saber lidar com toda a vastidão de um horizonte que sempre se delineia complexo, o da liberdade. E isso o filme nos lembra a todo o tempo. Então, resta a pergunta: se marcadas a ferro e fogo, até onde nos levam nossas aspirações e desejos?

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Juliana Krapp

 

Arte: Marcantonio

casa

no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam

a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira
….em casa
…….vibra
a clausura dos ratos

não estão em nós
….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono

entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam

sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco
……….guincham
e permanecem

não estão como nós
…..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles
……..têm um corpo quente
……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração
……..exausto ao cair da manhã

mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças

quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido
..– a infância estranha
a falta de sangue

à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível

um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza

querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente
– ante a opressão das paredes
…..sobre nossas cabeças
…..a alteridade se excita

os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo

ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca
– talvez de uma fenda ou concha de alguma
…..cavidade morta

serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido
……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância
……..dessa inútil oferenda

 

 

***

 

 

tipografia

 

às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece

porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza

 

 

***

 

 

Roteiro

 

O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir

Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz

Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia

Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops

Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso acidente

 

Juliana Krapp é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Publicou poemas em revistas como Inimigo Rumor e Modo de Usar&co. Teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.