Um tempo que gira sem parar. E cada instante desfrutado tem a capacidade de se manter perene quando as experiências vividas são assimiladas com certa dose de leveza. Mesmo sabendo que frequentemente somos tomados por visões que nos desafiam, ainda assim cabe perceber tudo com serenidade. São bons combates aqueles que travamos na busca pelas palavras. São dignos combates os que mantemos na construção de imagens que representam o mundo em que vivemos. Nos últimos anos, autores e artistas variados fizeram da nossa revista um espaço de convergência de sentimentos de mundo. É como se precisássemos de suas vozes para atestarmos que todos estamos amalgamados pelas mesmas razões. E quando a revelação vem, entendemos que a arte é, sobretudo, uma forma de ultrapassarmos as barreiras dos mistérios. Talvez por isso o ato de criar seja um duradouro processo de reconhecimento não somente daquilo que vislumbramos alcançar, mas também do que nunca dissemos conscientemente a nós mesmos. Há um casamento de particularidades do ponto de vista de quem cria e quem recepciona as obras produzidas. Nesse movimento de dupla via, o grande efeito é supor o que o outro não pensou. É transpor barreiras de interpretação até mesmo como se uma nova obra surgisse a partir do que originalmente nos foi apresentado. Enquanto a tradição nos dá referências, a intuição, somada a nossas revoluções internas, redimensiona nossas percepções sobre as coisas. Assim, vamos tecendo um longo e imprevisível caminho de descobertas, cuja marca maior está sustentada no desejo de conceber a arte como um verdadeiro movimento de autoconhecimento. Hoje, ao celebrarmos oito anos da Diversos Afins, sentimos que permanece bem vivo o propósito de fazer da revista um território efetivo de aproximações. Seguindo esse fluxo, novos criadores fazem da 92ª Leva seu habitat natural. Gente como o amazonense Luiz Navarro, que com suas fotografias põe em evidência as faces ignoradas de um mundo. Dentro das janelas poéticas aqui apresentadas, vigoram os versos de Regina Azevedo, Paulo Sérgio Lima, Carla Diacov, Inês Monguilhott e Carlos Barbarito. Compartilhando as marcas de sua vivência literária, o editor e poeta Gustavo Felicíssimo é o nosso entrevistado de então. No Aperitivo da Palavra, o livro de Lima Trindade é objeto da leitura sensível e atenta de Sérgio Tavares. O escritor Geraldo Lima celebra o teatro de Ariano Suassuna. Com sua devoção à sétima arte, Larissa Mendes nos conduz até o mais novo filme do diretor espanhol David Trueba. Nos ambientes da prosa, Andréia Carvalho, Lima Trindade e Márcia Barbieri desfilam as densas narrativas de seus contos ante nossos sentidos. Das paragens goianas, o rock lisérgico da banda Boogarins exibe seus acordes em nosso Gramofone. Aos nossos leitores e colaboradores de todas as eras, dedicamos mais uma especial edição. Boas leituras!
1.
embeba-te dum canto do quarto
em lá
louco de tua sombra
listas
objetos para a tua despedida
um limão partido
para que não lhe seque a boca
uma chinela só
para que um dos teus pés fique à procura
um rumo de poeira traseira
para que possas subir
seguir à esquerda
então à direita
para que possas passar a orbitar outras horas que não esta
só agora que agora é então
portanto
só então
feche os olhos e a boca
respire mais uns segundo
e mais um e mais um
inspire como que vomitando tudo o que te enfiaram goela abaixo como definição de coisa
que
agora
agora que é então
tu sabes bem
não são
ah, Marcelo! as coisas que finalmente não são.
2.
corte
ou fure
um pedacinho do teu dedo
ó
o teu dedo
a pequeníssima dor
em ondas
em pequeníssimas ondas
ó
corte ou fure ou
destampe a ponta do teu dedo
com ele
o dedo sangrento
toque o contorno do teu rosto refletido no puxador da gaveta
sabes bem que nesta gaveta
estão
as cartas que não mandaste
ó
as cartas
dentro destas
os cheiros de tudo o que …
é de lembrar?
é de saber desses cheiros, não?
não!
não tome as cartas nas mãos
sequer abra a gaveta
poderíamos com a crueldade neste segundo?
há uma luz no rabo dum inseto que se diz musical
há um verso repetindo a tua cabeça
há um nó desarranjado dos outros nós na embarcação:
enterra-te neste.
onde o sangue fez garças no teu rosto
deverá nascer um espaço para as memórias do novo chão.
3.
beatifico um broche que tenho
um par de botas ao estilo cowboy
há dia de não me saber
caso eu não use o broche
se já estou longe de casa
sinto que estou muito mais
longe
só
desembestada
grito COMO PUDE? ……..COMO LARGAR MEU ORÁCULO SEM MIM?
agora sabes que também o tenho como oráculo
e ainda logo
e dizer
AINDA LONGE
ainda
AINDA LONGE E SEM MEU ORÁCULO DA SORTE
sorte
benção
proteção
escudo
dado
agora tenho de entrar num elevador
entro de costas
como manda o bom e velho costume que acabo de inventar
no caso da ausência do broche
a entrança em elevadores
somente pelas costas
ando desejando viajar
até onde não possa mais a excursão do toque
daí que penso em não levar o broche comigo.
4.
parei de contar estrelas
no dia em que parei de contar aos outros
que contava estrelas
que já havia um catálogo iniciando-se
que em minha metodologia
gostava de fazer uso de medalhas como
irmandade
loucura
xarope, quilograma e medalha
parei de contar as estrelas
não paro de contar mentiras
(ossos das imagens que ainda)
sou imprudente demais, Ana.
e atravesso a nado o mar da miopia.
5.
já podes fazer tuas próprias meias!
o homem sentado diante do abajur azulado
sente tanto o frio lhe agarrando pelos pés
e nada faz
além de sentir
olha a fiação do telefone
o caminho no rodapé
força a memória
a cor antiga
o tempo em que a tia Sandra ensinou
CEBOLA? OU CÊ PICA MIUDINHO
OU NEM PICA!
que frio
o restolho da quentura escapando pelos pés
e nada faz
olha pela janela central
a vizinha a desenrolar um imenso cartaz
já podes fazer tuas próprias meias!
e nada faz
além de sentir:
6.
há o alcance
há uma coisa ou um vagão onde se chegar
há a tua e a minha vontade
há
nalgum lugarejo que não este e nem aquele
a aproximação
se eu fosse de cascas
iria pelada
para sentir no sumo
no suco do que sou
a agonia
se eu fosse de cera
eu não iria
se eu fosse você
eu pediria
COMA-ME E LEVA-ME CONTIGO
PELO TEU LADO DE DENTRO
EM LÁ
VOMITA-ME
se você fosse eu
você perguntaria
LÁ ONDE?
daí que há também a transpiração
e a transpiração dos objetos.
e então?
should we?
há essa chance ainda. agora.
agora que é então.
7.
uma corda
uma pequena corda
e levantar-se pela manhã
pela noite
deitar-se
e uma corda
de ter junto
a dizer
poder dizer
com a corda em punho
dizer de monstros
desorganismos
alergias
e de cadeiras que não se encaixam ao mundo
há um desenho
(iria pelada se eu fosse de cascas)
há um desenho
no fundo do fundo
daquela mesma gaveta que não
nele
no desenho
uma corda puxa uma baleia morta e a amarra na pontinha da tua barba puta.
então tua necessária cadeira
desencaixada do mundo inteiro.
e eu te amo.
e nem te amo tanto, mas amo.
e tua barba é puta.
8.
pois é.
há o alcance.
há uma coisa ou um vagão onde se fazer.
está nos novíssimos catálogos de ser
coisa e deus.
coisa de ninguém.
coisas devolvidas pelo mar.
gaguejante.
crente.
engolidas e depois arrancadas de suas apropriações.
irremediavelmente.
arruinadas de suas cores.
pois é
é jamais.
regurgitar.
uma oração
um par de luvas de orar.
deus!
coisa!
que jamais seja também a violência inevitável e de afetuoso traço
nas coisas que.
caneta
caneca
caçarola e corrente.
cada pedido de cada coisa.
porque coisa pede, ora.
sou Carla Diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci em São Bernardo do Campo e moro em Itanhaém e brinquei na praça-dos-meninos em S.B.C.. morei em Londrina e ela em mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de fôrma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando. agora dei de bulir com as plásticas também. e elas comigo. sei que vou. sei que volto. sei de mim, parada, medindo os dedos, os meus e os dos outros.
Viver é fácil com os olhos fechados (Vivir es fácil con los ojos cerrados). Espanha. 2013.
‘A vida é como os cães. Se fareja o medo, te ataca’.
Você já gritou ‘Help!’ uma vez na vida? Pois, segundo o protagonista do novo filme de David Trueba, deveria. Todos temos um pedido de socorro sufocado na garganta, seja ele por algo ou alguém. Um grito contido que só o tempo é capaz de ouvir, calar ou ecoar. Viver é fácil com os olhos fechados utiliza o acaso, a música e o verso de Strawberry Fields Forever (living is easy with eyes closed) como pretexto para contar uma história sobre o medo e a solidão que sentimos em qualquer etapa da nossa vida. É uma mensagem otimista e nostálgica de uma geração que foi embalada pelos Beatles, Rolling Stones e Kinks e permanece em nossos vinis e mentes.
Antônio San Román (Javier Cámara) é um carismático professor de inglês (e latim) em Albacete, numa Espanha regida pela ditadura de Franco, nos anos 60. Fã incondicional dos Beatles e, sobretudo de John Lennon, ele leciona suas aulas aos pequenos infantes utilizando as canções do quarteto de Liverpool, onde disseca não somente o idioma, mas discute a simbologia de cada letra. Segundo ele, seria uma honra um aluno seu dizer um dia que aprendeu inglês com I Want To Hold Your Hand. Quando descobre que o músico está na pequena Almería, na Andaluzia, rodando um filme, Antônio viaja para o interior para ter finalmente um encontro com o astro. Durante o trajeto ele conhece Belén (Natalia de Molina), uma jovem grávida, dividida entre assumir a maternidade ou entregar seu filho para adoção, e Juanjo (Francesc Colomer), um menino de 16 anos que fugiu de casa (e do pai autoritário) e vive a típica rebeldia adolescente.
Cámara, Molina e Colomer em cena do filme / Foto: divulgação
Baseado em fatos reais – a sinopse é inspirada na história do docente Juan Carrión –, a comédia dramática passeia brevemente pelas locações de Como Ganhei A Guerra (1967), de Richard Lester, onde Lennon interpreta um soldado, para relatar o encontro casual de três estranhos que têm suas vidas modificadas para sempre. Vida esta que é ‘alegre e melancólica, como uma canção dos Beatles’, já diria Antônio. Aliás, o filme é repleto de frases de efeito proferidas pelo professor, o que garante ao espectador um sorriso cúmplice a cada observação do protagonista. Vencedor de 6 categorias (melhor filme, diretor, ator, atriz revelação, música e roteiro original) na 28ª edição do Prêmio Goya (o Oscar espanhol) deste ano, a película dosa de forma bastante inteligente as narrativas paralelas, de modo a não soar apenas como o delírio de mais um fã sob seu objeto de culto.
O road-movie convence ainda pela bela fotografia e comove principalmente pela sua simplicidade, por tratar a docência, o fanatismo e o sentimento de inadequação por um viés de doçura e lucidez. Entre as curiosidades, destaca-se que a canção Strawberry Fields Forever foi composta justamente quando Lennon filmava na frutífera Andaluzia. Além disso, do suposto encontro entre fã e ídolo teria vindo a decisão da banda em incluir as letras das canções nos encartes dos álbuns, revolucionado a indústria musical da época. E se uma canção é capaz de salvar a sua vida, Viver é fácil com os olhos fechados tem potencial para salvar seu final de semana inteiro, seja você um beatlemaníaco ou não.
Larissa Mendes tem gritado ‘help!’ constantemente.
mergulhei em tua mente como havias solicitado em prece antiga. não sonhava com asas, e brânquias esfareladas eram tudo que restavam de heranças do leito dos oceanos amnióticos. assim, cruzei-te no intercâmbio fluídico com a confiança que os líquidos entornam nos primeiros tecidos epiteliais. mórulas, gástrulas e diferenciações histológicas compreendiam-me e me doavam poderes espectrais. o fiz, digo-te, o contornei como um lago plácido em noites de pós-tempestade vulcânica – sorrateiramente. farelos, cascas intactas de fuligem contorcionista abriam caminhos cada vez mais gêmeos de um antigo mar vermelho aberto em brasa por façanhas bravias de cavaleiros enigmáticos.
como te caminhei. como te caminhei. léguas e submersões. eu aprendi a linguagem de anêmonas solitárias e suas tentaculares projeções efervescentes no pranto mais escuro do útero marinho.
tu não me sabias.
sempre dardejando fiapos de nuvens altas e leves. que tua missão terrena é sondar pluma e levitação aérea no carrossel das vagas brilhantes que tombam pelas falésias. no galope de unicórnios submarinos seguia um rastro que sabia teu intuito. onde gotejam pequeninas facetas de corais em formação. pulsantes, cordatas, fissuras pelas quais o céu tomba e se oculta e se revela crepúsculo depois aurora depois eclipse até que o raio cristalize uma passagem violeta entre galáxias acobreadas. tão ave, tão alva, tão ave, tão alva.
não me soube assim tão em fuga de águas. não percebi que uma chuva tão pura poderia ser azul devoluto no seio das terras. não me soube alada criatura.
meus tentáculos rizomas fibras e fertilidades não poderiam esvoaçar além do inferno aquático assombrado por seres tão desconhecidos. que me foram surpresas alcoviteiras sedentas de submundos. segui-as como se segue em vida a curva da tumba que é certeza de sonhos nunca interrompidos. pela suprema corte dos rios subterrâneos.
e pelo desejo de um mundo além de mundos, desviei de tua rota soberana, que me era redenção.
encontrei um mestre abnegado de paraísos flutuantes. grave como um desfiladeiro desenhado no centro de um campo claro de arrozais. olhos de chacal. veias de betume e carvão. assustador o fascínio desta gravidade que me sugava como se a sede fosse um cordão nos unindo pelo umbigo. nutrição estonteante. parasitas de nós, inventamos vórtices de sumidouros.
então me soubeste.
no tombo de um olhar ofegante em grimórios de revelação.
hermético. soube-me com teu conhecimento. mas não pude voltar. e não poderei jamais. vejo um afastamento cada vez mais profético entre tu, meu coração e tu, meu espírito. onde a epístola retumba nos corredores de sangue e febre, formulo um medo qualquer de face horrenda e harpia de astrais vênulas, arremesso o corpo etéreo e me deixo saciar nas águas redemoinhos que nada voam.
assim será, pela jornada zodiacal. escorpionídeos prateados caminham em salinas provocando ventos boreais. e a água move moinhos cada vez mais próximos das quedas milagrosas que mistificam desertos inóspitos.
tu continuas cintilando, coração mercurial. eu, astro e invisibilidade, mergulho bíblico no manto das imortalidades bizarras. tenho oceanos tridentes vestais. outras mentes portais.
Andréia Carvalho, autora dos livros A cortesã do infinito transparente (2011), Camafeu Escarlate (2012) e Grimório de Gavita (2014, no prelo), ambos publicados pela Lumme Editor. Participa do corpo editorial das revistas Zunái e Mallarmargens. Chartis é texto do livro “Grimório de Gavita”, que será publicado em 2014 pela Lumme Editor.
A superfície das coisas pode refletir
de volta, concêntrico e ciclópico, o olhar.
Ou, desavisados, os olhos podem,
se não se mantiverem bem presos ao umbigo,
– sem tremular sequer um risco –
romper as superfícies como fossem água ou ar.
E, navalha ou navio,
perderem-se feito pedra
num oceano,
arrastados.
***
Antífona
(ao Señor de los temblores)
A tudo agradeço:
raízes,
espinhos,
escuridão,
a pálpebra cerrando o olho cego,
branco de caridade.
Cravos
escorrem largos das mãos;
a misericórdia serpentelínea,
de saia alvíssima.
Em mim os tambores,
terrores,
a carne fria,
uma auréola de suores.
O beijo rente a costela floresce
em descuidada ferida.
Perante a lei .as flores são santas e proclamam a inadiável ruína.
***
Compaixão
No claro de uma selva,
incerto tempo de monções,
um céu verde abre-se apaziguado
das findas luzes amarelas.
Mostra, alta, dissipados os vapores,
uma tigela branca, de arroz.
Ao pé de uma árvore
ele terá avistado em outros tempos,
assim, solta na seda verde,
uma lua cheia, próxima, feito essa.
Num inspirar ou noutro, quem sabe,
tocou-lhe a falta
da samsara
e das dores humanas.
***
Diz a Lagarta a Alice
Escuta o germinar
das unhas aos céus, a lenta escalada.
Não, agitam-se as árvores
as setas verdes murmurando:
não se pode crer! …..Corre nelas um alarido …..contra o vento abusado, …..contra tudo.
…..E se pergunta a dama de copas: …..quanto é preciso marchar para permanecer?
Nesta hora,
se vier dar a teus pés alguma lisonja,
um trapo colorido, caco deste mundo sitiado,
deixa que sangre seu perfume, se tiver.
Não te curves, não o apanhes,
já não é.
***
…que tanto me doem rosas quanto espinhos…
Reis
Trancemos uma coroa,
das rosas que já se largam das mãos.
Trançaremos outras mais, mais adiante,
ao calor de outros verões.
Deixemo-nos a ver-nos nas rosas,
ser carne de rosas.
Desejando, breves, os seus dias
e dar-nos por inteiro aos verões.
Coroas menos belas,
por mais que durem, todas vão.
Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras.
No dicionário, o termo lisérgico remonta a algo que tem a propriedade de alucinar ou explorar os recursos da imaginação. Da mesma forma, poderia ser aquilo que se torna passível de descortinar outros estágios da consciência. Com isso, cenários alternativos se configuram rompendo a barreira da materialidade e sugerindo ambientes nos quais o ato de transcender é uma das principais vias de percepção.
Em meio ao contexto do rock, a atitude lisérgica sempre esteve relacionada à capacidade de se percorrer outras terras através da música. A possibilidade de experimentar níveis diferenciados de entendimento das coisas marcou toda uma geração e até hoje vem deixando seu legado vivo. No caso da banda Boogarins, esse sentido de permanência fica bem evidente. Munidos por arranjos e letras que apontam para um caminho amplamente psicodélico, essa trupe de artistas goianos aposta vigorosamente na densidade de suas incursões sonoras.
É só colocar o disco para tocar que logo nos deparamos com um cartão de visitas bem representativo do espírito da banda. Trata-se de Lucifernandes, canção que evoca a transformação de uma visão pessoal de mundo para uma fase de clareamento das ideias. Por aí, já se pode supor o que está por vir na sequência das faixas. E o fluxo segue preciso até Erre, verdadeira viagem ao centro do eu, num movimento de revelações que atestam que a existência nem sempre nos direciona boas notícias.
Da combinação de verbos e arranjos, resulta um agregado de sentimentos que não se dispõem de forma desordenada. Pelo contrário, As plantas que curam pode ser visto como uma tentativa de dar algum sentido ao caos que assoma nossos dias. Esse movimento de sensações parte primeiramente das esferas íntimas do ser para depois se amalgamar ao mundo que nos desafia com seus vastos contrastes.
Boogarins / Foto: divulgação
Algumas influências são bem perceptíveis no álbum. Sem dúvida alguma, paira no ar uma atmosfera que ressoa tanto a Beatles quanto a Mutantes. E isso fica apenas no terreno das inspirações mesmo, pois a Boogarins consolida sua própria personalidade, reprocessando os estímulos valiosos e transformando-os na sua genuína forma de ver o mundo e imaginar-se além dele. Como toda boa viagem pressupõe algum sentido de brevidade, não poderia ser diferente com o disco. Afinal, são apenas seis faixas que, após consumadas, nos deixam com a impressão de que as palavras não se diluem na exiguidade temporal da vida.
Mesmo com o meteórico repertório, o álbum é feliz pela sua fundamental capacidade de síntese. Com letras que trazem o colossal desafio de dar significado a percepções diversas, aos poucos vamos sentindo que o efeito do disco é contínuo, ou seja, mesmo que os sons encerrem seu trajeto, as canções têm um poder de permanecer na mente de quem as escuta e lá causarem desdobramentos.
Formada por Fernando Almeida Filho (voz e guitarra), Benke Ferraz (guitarra e voz), Raphael Vaz (baixo) e Hans Castro (bateria), a Boogarins também navega por mares filosóficos no teor inteiramente autoral de suas composições. Exemplo disso está na faixa Infinu, a qual denota uma vontade de também abraçar o universo das coisas com o ímpeto de desfrutar de tudo em doses terapêuticas, sem freios morais nem tampouco juízos pré-concebidos. O grupo investe pesado na incursão pelos sentidos, celebrando uma harmonização entre corpo e alma, e enaltecendo um exercício de transcendência.
Curiosamente, a banda é mais conhecida fora do que dentro do país e sua agenda de shows por lugares como os Estados Unidos e a Europa é algo intensa. No entanto, não cabe aqui lamentar por ainda haver um espaço discreto de atuação da Boogarins em seu próprio habitat, mas sim levar em consideração que isso, mais cedo ou mais tarde, deverá acontecer. Afinal de contas, quem tem algo tenaz a dizer afugenta sabiamente o esquecimento.
Esto, y no otra cosa, debe ser la vida.
Un vino agrio para saciar la sed,
un escaso alevino para poblar ríos y estanques.
Nada más. Por qué, entonces,
su obstinación en hablarnos
de las nupcias del viento con el mar y los ajenjos,
del árbol pequeño y aislado
como la más tierna y frágil de las imágenes,
del desacuerdo que sin embargo ilumina,
del canto de las cigarras
a mitad de camino entre el amor y la miseria.
En qué punto, entonces,
ahora se lo pregunto, la pánica divinidad,
el sólido corazón que se abre a la música,
la noche pura que se bebe,
la pasión que se encamina hacia las lágrimas,
los olores de la tierra y la sal,
el verano adormecido, el sereno o voraz decurso
hacia el pavor, el éxtasis, la ira, las uvas.
***
A la pregunta no responden…
A la pregunta no responden
aquellos que debieran responder
desde el fino apetito,
la conciencia calibrada
a un palmo por encima de la tierra.
Cómo decir blanco
sin quedar desnudo ante desconocidos,
cómo decir negro
sin lastimar lo que apenas admite roce.
En qué lengua hablar.
En qué medida esa lengua
alcanzará oquedades, jorobas, ardores.
Cómo entablar diálogo,
cómo inquirir acerca de pulsaciones
y destellos, la manera
en que el mundo se dispone
para que brote una flor
y en la flor se hagan el color y el perfume.
Hay todavía más. Y más.
Tal vez no alcance para contenerlo
cuanto hay a mano, lo ancho
y profundo, lo advertido
y lo ignorado, cuanto
vibra, fluye, se tensa, sube o se precipita.
A la pregunta, el aire fijo,
la llave de paso bloqueada.
Hacia la luz una polilla,
choca una y otra vez contra la lámpara;
a cada golpe el tiempo
hunde un poco más su aguja,
avanza a través de la carne
hacia el nervio central, la médula.
***
Intraducible, incluso para un demonio…
A Susana Wald y Ludwig Zeller
Intraducible, incluso para un demonio
y más allá del lento agotamiento
de las lámparas, único, permanece.
¿A qué flujo o reflujo,
entonces, encomendarlo
y hacia qué polo sonoro
o con sordina dirigir el magnetismo?
No saber, jamás, si razona
o desvaría, si expresa
una vía de lava, un encuentro de amor,
si anda bajo soles errantes,
bajo la tierra, sonámbulo,
si alcanza la orilla,
si se configura como nube o vértebra,
si habla de yescas,
rayos, traiciones, esquinas,
amparos, intemperies, escudos.
***
Tal vez toda la luz del mundo…
Tal vez toda la luz del mundo
sea sólo el reflejo de un sol entre nubes
contra el cristal oscuro de un cuarto vacío;
quizás el que, en busca de agua,
cava tras la orden del rabdomante
no guarda dentro de sí
más esperanza que aquella que se quita,
pliega su vestido sobre una silla,
y espera cada día la llegada del desconocido
en una casa plantada en el desierto.
¿Y la constante mudanza
de la piel y las plantas,
la hora en que a tientas la beso y la penetro,
el tosco florero vacío
ante la colmada vastedad de la muerte,
el vuelo de la polilla de cuarto en cuarto?
Ahora que la hija del sueño se consume
y un único pájaro canta
desde el borde de una larga rama inclinada,
quema la lágrima y el río
no se convierte en mar ni lo que hablo
en idioma exacto y puro.
***
Bebe agua ajetreada, descompuesta…
Bebe agua ajetreada, descompuesta
y el gusto es como una sensación
de un mal futuro, extenso y enceguecido.
Escucha: un sonido sin húmero
ni sustancia. Acaece un descolorido meteoro
donde debiera haber caos de muslos,
cavidades húmedas a un paso
de la gracia y del abismo.
Sosténganme – pide. Piel
de ofidio, frío
contra el que la vigilia se disemina
en actos repetidos, sin significado;
¿y el sueño? ¿Escena
que aguarda su idioma amplio,
su desnudo? En el centro
de cuanto ocupa la mirada,
un animal huele un poco
y luego, antes de que pueda gritar,
se convierte en aire.
***
Trakl
Antes que yo, en cólera y sangría.
Como yo, un ojo hacia los próximos ramajes
y el otro hacia las remotas estrellas.
Antes que yo, en dolor sin anestésico,
a la luz de lámparas agónicas,
cerca de los caballos, sus cuartillas y antebrazos.
Como yo, ante el entierro del sol,
el negro vuelo de los pájaros,
la hermana en otoño, el purpúreo sueño.
Después que yo, en cuanto pulse,
respire, pernocte, se despliegue como un mapa
o se contraiga como una santa,
en la flor de artificio, en la flor verdadera,
en el abrazo de los amantes,
en los insectos sobre la carroña.
O escritor Carlos Barbarito nasceu em Pergamino, Buenos Aires, Argentina. Dentre outros livros, publicou: Poesía quebrada (Mano de Obra, Buenos Aires, 1984), Caballos y otros poemas (Hojas de Sudestada, La Plata, 1990), El peso de los días (Ediciones Electrónicas Altamira, Buenos Aires, 1995), Puntos de fuga (Colectivo ZonAlta, Toluca, 2002), Cenizas del mediodía (Praxis, México D.F., 2010) e Paracelso (Excodra Editorial, 2013).
Há uma força imagética no subtítulo escolhido por Lima Trindade para o seu novo livro, que se espraia além das bordas que confinam a significação a qual se relaciona o título, ‘O retrato’ (P55 Edições, 46 páginas). A princípio, parece claro que capturar o tempo é o que sustenta esse impulso paginado, porém tudo adquire outra perspectiva ao se topar com o complemento ‘Um pouco de Henry James não faz mal a ninguém’. A menção ao escritor estadunidense do século XIX dispara uma série de imagens e conexões bibliográficas de uma zona temporal específica, das quais o enredo se contamina apenas com a imanência e não com o espaço da figura do personagem evocado. James não está presente em momento algum, mas é uma referência conceitual e estética determinante para a história. Ou seja, o autor não se preocupa com o que se vê, mas a interpretação do que é visto.
‘O retrato’ pode ser lido como um conto comprido ou uma novela, ainda que a finura tenha substância para suportar os alicerces linguísticos que constituem a estrutura romanesca. A trama, dividida em três partes, inicia-se com um casal de brasileiros excursionando pela Lisboa contemporânea, em meio a um grupo de diferentes nacionalidades e motivações turísticas. Numa visitação guiada, um dos personagens, o narrador, decide conhecer o museu anexo à igreja de São Francisco, onde se encontram as catacumbas. Lá, fará uma descoberta surpreendente, de caráter sobrenatural. Por conta da brevidade do texto, não cabe aqui revelar mais detalhes, para não comprometer o fio que se tenciona até o desfecho. No entanto, a sombra do autor de ‘A volta do parafuso’ deixa pistas que Lima Trindade sabe utilizar com maestria, conquistando dualidade semelhante a da leitura da novela mais celebrada de James.
A partir de então, a história dá um longo salto para trás, até Portugal de 1900, durante o reinado de D. Carlos de Bragança. O narrador passa a ser um serviçal da corte, um ajudante de campo que traça, com seu olhar de restrito alcance, um panorama desarticulado dos costumes da monarquia e dos movimentos que contextualizam o espírito da época em que vive. Do mesmo modo, a prosa ganha um tom mais coloquial, reconfigurando a narrativa em densidade e lirismo, uma preocupação latente em sofisticar a descrição dos ambientes e refinar o desenho dos personagens e a construção dos diálogos. É notório o longo esforço de pesquisa feito por Lima Trindade, na busca de detalhes e situações que, mesmo alheias ao eixo temático, incidem no poder de concisão da história. Entretanto, não há aqui um tipo de cleptomania literária. Nada é furtado, mesmo que involuntariamente, da realidade para abrir espaço para se preencher com ficção. O tecido histórico é usado como cenário para a análise de uma erupção subjetiva, algo que se mostra parecido com amor, só que não conserva todas as características intrínsecas ao sentimento, uma intimidade entre dois mundos desiguais apresentada de maneira primorosa.
Essa liberdade não para com os fatos, e sim para com os atores da época, deixará na terceira parte, de volta ao presente, a dúvida se o que se passou foi uma reinterpretação ou a transcorrência de uma história paralela. Lima Trindade parece propositalmente sobrepesar essa carga de sugestividade, instigando o leitor a fazer o seu próprio retrato do que acabou de ler. “Não havia nenhuma segurança quanto à veracidade daquelas informações”, suspeita o narrador; e todos suspeitamos, ao final. De fato, se há alguma certeza, é de que uma narrativa tecida com tamanha precisão acaba por servir de moldura para o autorretrato de um escritor maduro, inteligente, com domínio técnico pleno. Fazendo jus a seu título (e ao belo projeto gráfico), um registro intemporal de literatura de alta qualidade.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.
Eram coisas minúsculas que me faziam não entender o mundo, como dois interruptores para apagar a mesma luz ou o som vindo da Ásia e saindo de uma caixa negra ou morangos mofarem tão rápido ou o gosto das pitangas serem tão parecidos com os das cerejas ou as flores que terminam em um falo ou a teta alimentar o universo ou um espelho esférico invertendo meu pânico ou dois homens se amando com o desespero que nunca conheci ou o amor ser um criadouro de moscas estéreis zunindo zunindo zunindo dó ré mi fá sol lá si cataclismas no meu cérebro larvas obesas ruindo a carne vespas negras no fundo do quintal ou o tédio enferrujado esburacando a manhã ou buchada ser uma iguaria ou crianças comendo testículos de bois ou um escorpião amarelo atravessando o deserto comendo a própria cria ou a diáspora das nossas mãos durante as masturbações ou bonecas infláveis serem tão perfeitas ou o ódio insano dos homens pelos touros ou a beleza dos chifres espiralados dos antílopes negros ou mulheres clonando-parindo como animais ou a disputa selvagem dos homens pela buceta das fêmeas. O pensamento da aranha tecia absurdos sobre minha tíbia rótula patela minha vizinhança meus membros eram uma máquina de encaixes arruinados e eu era um ser obtuso e ter o crânio de um animal era o menor dos meus problemas. Coma logo a aranha antes que suas ideias se tornem matéria coma logo a aranha antes que ela teça a revolução coma logo a aranha antes que cem luas despenquem de suas patas peguem a faca e cortem o verbo ao meio só sobrará a ação. E nossa cópula fosse a união de mil garras, armistício, campo minado, fratura de invertebrados. Não entendi quando percebi que essas coisas pequenas entre as pernas num ângulo diálogo monólogo obscuro não fosse capaz de provocar asco, não entendi quando percebi que existiam idiossincrasias em todas as genitálias, eram todas tão diferentes uma das outras… Olhei de novo para minha e tive vergonha. De que espécie eu era¿ Por que meus buracos e seus contornos eram tão pavorosos¿ Ela era rosada e grande, uma membrana pesada e com bainhas desproporcionais os pelos cresciam em direções variadas perdidos entre uma ordem e outra. As estrias formavam ramificações difíceis de entender. Desviei o olhar não gostava de encará-la por muito tempo. Eu jamais deixaria que ele me visse, não assim, onde eu não era normal, onde a duração do tempo se distendia nos meus pequenos-lábios, pensei na solidão dos ornitorrincos… na feiúra incompreensível dos peixes abissais… nas dobraduras se desdobrando na minha pele fina. De novo os ornitorrincos e os peixes abissais. Eles como eu não eram daqui e eu pensei: é bem estranho ser estrangeira no próprio corpo é bem estranho ser estrangeira no seu país é bem estranho estar sitiada nas escórias da própria carne é bem estranho conhecer apenas as superfícies das coisas inanimadas.
Olhei para seus olhos castanhos e clamei, você que não me conhece não me deixe nunca sair da minha terra não me deixe pisar em outros solos áridos não quero conhecer outros países não quero conhecer outros dementes não quero lamber a falência de outro corpo não quero sentar na rigidez de outro pau não quero enrolar minha língua em outras línguas não quero ter certeza que a felicidade não existe em parte alguma, quero ter essa esperança rasa de que em alguma parte o ar é rarefeito, as palavras são todas francesas e a lama é branca…
Você me olha com um olhar idiotizado, o olhar de todo homem que já passou dos trinta e eu desfaleço. Você podia me fazer parar, agarrar meus pulsos, amarrar minhas mãos nas grades da cama. Você não faz nada, só me olha, um gato paralisando sua presa. Retiro a armadura do eu penduro na parede texturizada grandes rosas secas arabescos que não existem mais a arquitetura falida nostalgia rococó retiro as carrancas retiro as máscaras japonesas enfio o dedo na sujeira do umbigo retiro os caranguejos da minha última morte retiro a penugem do buço agora sou não eu essa cor opaca massa mole matéria quase morta parecendo o abdômen de um inseto ou um incesto de dois irmãos.
Você sussurra no meu ouvido surdo labirinto bigorna eu eu eu eu o eco ensurdecedor de todas as suas ideias olho seu palato em decomposição e você continua agora num grito sufocado eu eu eu e eu coloco a corda frouxa e suicida em torno do seu pescoço vejo a língua enrolada e a baba grossa de um epilético.
Você sopra no meu olho sem cílios eu eu eu e recorda um velho refrão cavalos cavalgam na cartografia do seu dorso–cavalos negros selvagens cavalgam no seu leito– mas isso não é importante–o eu está morto. Sou uma massa amorfa e coalhada e o sol apodrece minhas vértebras e o líquido que me tirou das penúltimas meninges explode na minha garganta há um pêndulo enferrujado entre minha laringe e minha traqueia falar não é tão indolor quanto parece ainda mais nesse lugar suspenso onde cada palavra cai um rifle ainda mais nesse campo de marionetas onde não perdura a consciência íntima do tempo.
***
Gênese
Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com uma faca, duvidando da sua entranha oca, do seu corpo sem órgãos, como se através dessa manobra pudesse resolver sua demência ou seus problemas de ancestralidade.
Olhando-a assim, acreditei que ela jamais morreria, estava enganado, ela era uma barata branca e logo seria esmagada.
Não foi fácil ver seu corpo estendido na pedra. Aqueles seres estranhos, vermelhos e mascarados (sempre considerei a máscara uma repetição desnecessária), falando línguas estrangeiras, dançando e urrando, imitando o som gutural dos animais. Ofereceram-me um cálice de sangue, eu deveria celebrar a morte, sacralizar o útero que foi meu abrigo, minha origem. A caverna era escura, úmida. Havia na parede da rocha, atrás do seu corpo, o desenho de uma vulva aberta e gigante, em volta caçadores com seus membros em ereção, em outra gravura um antílope estava montado em uma mulher nua e grávida, aos seus pés demiurgos ejaculavam.
Colocaram em minhas mãos um instrumento pontiagudo, fizeram gestos que indicavam que eu deveria retirar as vísceras do cadáver e fazer uma trepanação. Hesitei, mas concordei, a matéria era uma abstração e nunca foi sólida, era uma rachadura, uma trinca no tempo-espaço.
Sei que existe um animal rastejante que circula em sentido anti-horário pelo meu útero (sou um homem castigado com um útero) se espreguiça nas minhas trompas, se enrosca nas paredes do meu intestino, como um cão de rua que não morde, mas fareja, mas fede. Trêmulo começo a estripar aquele corpo-origem. Partenogênese. Ovo cósmico.
O ritual de sepultamento continua e eu sigo fazendo a trepanação. Lamento porque nunca me senti parte desse mundo, porque quando cheguei o mundo já estava instituído. É como se eu fosse uma orelha implantada no organismo de um sapo. É como se eu tivesse despencado em um país estrangeiro e por todos esses anos continuei um exilado no meu corpo-máquina. Preciso ser civilizado, sou homem e preciso entender o sorriso fingido dos hipócritas, a boca banguela, desnuda dos desalmados. A humanidade se alimenta parindo ovos chocos. Preciso ser homem, trabalhar, acasalar, conversar, entender de política, entender a rosa dos ventos, fingir felicidade, matar os porcos que aparecem nas noites sujas, quando tenho as vértebras trincadas e pinos na mandíbula.
Nasci no corpo-simulacro de um homem evoluído. No entanto, minha alma tem uma corcunda feia e incurável, minha alma é de um egiptopiteco, um primata franzino de seis quilos.
Então, diga, como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as casas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime. Ela me falou que eu era fraco e por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava Eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus. O meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro.
Um enxu de moscas andam tontas e circunspectas em torno do meu mamilo. Não sinto cócegas, não as expulso, acompanho sua coreografia macabra nas redondezas do seu peito. A angústia não é muito diversa de um amontoado de larvas de inseto. Barroca.
Coagulo a noite. Navalho a face profícua de Deus. Continuo a trepanação. Depois de um tempo eu era só o exoesqueleto de uma cigarra, vazio, solitário, oco.
Não havia dúvida do que eu deveria fazer. Abri a vulva da minha mãe e voltei ao seu útero. Invaginação do fora. As esporas, os cascos, os trotes, a noite, o beco deixaram de me incomodar.
Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestranda em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (independente), As mãos mirradas de Deus (Multifoco) e o romance Mosaico de rancores (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen). No final do ano, lançará A Puta.
a gente olha e procura
os pássaros, as margaridas
e tudo acaba em raiz, nó, recomeço.
não tem problema
só correria na floresta
os índios montados em seus cavalos
com suas lanças, caras pintadas
e todos os animais
correndo sempre no mesmo círculo
como se o mundo estivesse
des
c
e
n
d
o
pelo ralo.
ainda bem que nós
estamos grudados
nalguma coisa
e morremos, morremos
lenta e infinitamente
juntos.
***
o rio tigre
castiga feroz a minha cintura
numa tarde corajosa
de respiração firme e
precisa
mergulho
sem visão do mundo
apenas imagino os peixes e
plantas na água que
é quente e ao mesmo
tempo fria
água morna que às vezes congela
a espinha dos homens
e dos peixes
me afogo
porque mais pro fundo
o oceano é ainda mais bonito
e azul
***
você quebra o aquário
de peixes pretos que me atormentam
em pesadelos eu te
agradeço e você me diz que
o amor é um experimento químico
eu me viro rio e digo
baby eu curto toda essa explosão
outro riso quebra os outros
aquários e eu salvo a vida
dos peixes salvo
a vida das baleias que encalham
na areia da beira do
forte e a gente chora, se
molha, mergulha gostoso
o amor também é aquático
de carne e osso
***
nove entre os dez
batimentos cardíacos
são vestígios
do seu corpo inteiro
***
de que tens medo?
o tempo corre e a gente perde
uma parte de si que fica
refugiada num canto
INALCANÇÁVEL
chega o dia
e nem a chuva fina açoitando
o corpo
causa qualquer
sensação.
você se sente
humano
cem por cento cada poro
do teu corpo precisa
de outro
vê vivo
e pulsante
sabe
que é animal & monstro
ao mesmo tempo
chega o dia
em que escrever poesia é
sangria na esperança
de continuar mesmo que a vida
tatue uma ferida na alma
do seu
corpo
a mesma alma
que se perde e fica num canto
inalcançável
***
muita gente não sabe.
mas o amor é simples,
victor.
o amor é só um limite
rompido no ventre.
o amor é aquilo que você
não me diz
nunca.
o amor é tudo que ainda não
descobrimos.
o amor é o calor que escapa
do corpo e explode
a terra
o amor é o coração
que fica na boca
o amor é o coração
que foca na cama
o amor não é só coração
amor é
a porta aberta
que você chega
e a fechada
que nós chegamos.
Regina Azevedo nasceu em Natal. Publicou Candura (conto, online), Das vezes que morri em você (poesias, ed. jovens escribas) e Carne viva o amor estanca (poesias, ed. tribo). Além do blog, escreve prosa jornalística para O Chaplin. Mora em Natal, ainda não está no ensino médio e já quer o mundo.