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94ª Leva - 08/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Dizer que Pernambuco, com sua multifacetada expressão artística, ocupa um lugar mais do que especial na cena cultural brasileira é revisitar uma condição que certamente muitos já sabem de cor. Desde manifestações populares até os ímpetos mais modernosos, a música daquele estado guarda relações cada vez mais universais e reforça uma dinâmica que vai de dentro de si para o mundo. Com os matizes peculiares de suas paisagens, a cultura pernambucana pode falar de suas ambiências a qualquer habitante desse nosso complexo planeta. E o interessante é perceber que, apesar das distâncias geográficas com outros recantos mundanos, o espírito das coisas vividas e manifestadas na via musical pode perfeitamente comungar com o pensamento de quem quer que seja.

Por trás das cortinas da virtuosidade, a capital Recife abriga artistas também comprometidos em não somente expandir as fronteiras de seus trabalhos, mas principalmente dotá-los de uma consciência crítica capaz de repensar o caos. Nesse aspecto, os chamados independentes, dada a sua condição de desbravadores de espaços, conhecem com propriedade o significado do que seja resistir ao tempo e aos ditames dum modelo fonográfico desgastado e desigual. E assim vão conduzindo seus trabalhos, tendo como mote a coerência presente em suas trajetórias pessoais. Um dos novos representantes dessa perspectiva lúcida de manifestação é o cantor e compositor Ricardo Chacon. Integrante de uma geração disposta a arregaçar as mangas e viver intensamente o ofício musical, Chacon traz em si uma visão bastante aguçada dos temas que compõem seu meio. Quando nos concede a entrevista que agora segue, sabe falar não somente dos caminhos que o motivam a seguir adiante, mas sobretudo da forma como vislumbra um cenário ideal para si e seus pares.

Em 2008, Ricardo Chacon, ao conceder, juntamente com Piero Bianchi, uma entrevista para a Diversos Afins, já dava mostras dos voos que pretendia alçar com sua carreira. Àquela época, o assunto girava em torno de seu primeiro disco, Terra Papagali Coffee Shop, trabalho que marcou de modo especial sua caminhada pelo fato de representar um consistente resumo de brasilidade. De lá para cá, outros trabalhos se desenvolveram, a exemplo do EP Chacon (2010) e o single Nonsense (2012). No meio dessa jornada, há que se considerar também o projeto conduzido com a banda Nós4. Mas ao chegarmos ao momento presente, vemos um artista profundamente comprometido com novas maneiras de se comunicar com o público. E isso fica bem claro quando escutamos Chaka Nigths, álbum que acrescenta ao rock do artista recifense uma pitada de psicodelia. Tal como é possível perceber do seu testemunho, Chacon se mostra pronto a dar continuidade a seu caminho. Com opiniões sinceras, enxerga seu tempo nitidamente, certo de que, apesar dos entraves vividos, elegeu a melhor maneira de respirar o ar que lhe foi confiado pela vida. Por aqui, fica o testemunho de toda essa atmosfera.

 

Chacon, divulgação - por Bruno V. Guimarães
Ricardo Chacon / Foto: Bruno V. Guimarães

 

DA – Antes de se chegar num determinado estágio, um artista sempre traz na bagagem as vivências de outras eras, sobretudo quando elas apontam para um projeto consistente já realizado. E aqui podemos falar na experiência marcante com o disco Terra Papagali Coffee Shop, álbum que revela virtudes duma brasilidade. Qual o legado maior desse trabalho para sua carreira?

RICARDO CHACON – A musicalidade do disco, acho, foi o maior legado deixado. A junção dos ritmos, os artistas que reunimos. Acho que a própria parceria musical entre mim e Piero, o momento que a gente vivia musicalmente, acabaram contribuindo para isso. Ousamos fazer esse disco, usamos as nossas economias e montamos uma viagem incrível, levando sempre conosco uma base gravada ainda em Recife. Foi um trabalho bastante rico, muito percussivo, muito brasileiro. Acho que o aprendizado desse disco, de todo o processo de gravação, é o que trago comigo.

DA – Depois do Terra Papagali Coffee Shop, a sua afirmação enquanto músico ficou impregnada de desafios mais complexos? 

RICARDO CHACON – A gente sempre busca algo novo, criar algo diferente, e depois do Terra Papagali busquei me encontrar, achar minha música ainda mais. O processo de gravar um disco é algo que consome você de uma forma, que você quer fazer aquilo novamente. É sempre um desafio expor algo, colocar para fora as músicas. Há sempre um grande aprendizado por trás disso.

DA – Ao chegar em Chaka Nights, seu mais novo disco, você aposta num caminho mais ligado ao rock, sobretudo com uma atmosfera de nuances psicodélicas. Como se deu o processo de concepção do álbum

RICARDO CHACON – Tive a ideia de fazer esse disco em 2010, mas não tinha dinheiro. Então gravei um ep com quatro músicas, chamado EP Chacon. Montei uma banda e fizemos alguns shows. Então, começamos a trabalhar novas músicas nos ensaios, junto com a banda, e foram surgindo os primeiros arranjos, até gravarmos o primeiro single, Nonsense. Foi uma fase difícil, porque fazer disco sem apoio e sem grana é muito desgastante. Consegui terminar o disco com muita dificuldade. E o som dele tem muito a ver com o momento e com os músicos que me ajudaram na produção. Busquei parcerias para as letras, já que não quis, nesse disco, escrevê-las. Foquei mais nos acordes, os poucos que eu sei…

DA – Diante daquelas dificuldades que você passou, infelizmente comuns à maioria dos artistas, esse disco surge como uma espécie de tentativa de se manter firme no ofício?

RICARDO CHACON – Eu precisava fazer esse disco e passar por todas essas dificuldades. Tudo para eu aprender cada vez mais e entender também o mercado atual. Como havia dito anteriormente, era algo que precisava fazer e fiz. Não pretendo passar por isso, sozinho, novamente. Um dia espero ter um bom material para mostrar para os meus filhos, e que outras pessoas também possam conhecer mais os meus trabalhos.

DA – Na sua tentativa de entender o mercado musical, a que conclusões chegou?

RICARDO CHACON – Percebo uma dificuldade muito grande de se conseguir meios que te deem acesso a recursos para financiamento dos projetos. Desde o Terra Papagali, buscamos participar dos editais, mas pelo menos aqui em Pernambuco sempre são as mesmas pessoas que conseguem ter acesso ao recurso, pessoas e produtoras que vivem de todos os anos “arrumarem” um projeto para obter o recurso, enquanto outros artistas que não têm certo perfil são ignorados pelas curadorias, muitas delas viciadas em aspectos que acabam desmotivando jovens produtores e músicos. Poucas bandas, com bons trabalhos, é verdade, quase todo ano aprovam recursos, às vezes altíssimos, e muitas vezes nem dão continuidade ao projeto. Em Pernambuco, é absurda a forma como as curadorias trabalham, sem levar em consideração o esforço de quem nunca conseguiu qualquer recurso público e sempre fez tudo do próprio bolso. Repito, apenas poucos têm acesso, os mesmos iluminados, escolhidos por critérios duvidosos e mil interesses. Pessoas e produtoras que todos os anos aprovam projetos e vivem dos recursos que deveriam ser mais democratizados.

DA – De alguma forma, a cena musical de Recife, quiçá Pernambuco como um todo, está dividida em antes e depois de Chico Science?

RICARDO CHACON – Chico, sem dúvida, resgatou algo muito forte, principalmente nos músicos da nova geração. Não muito diferente das grandes cidades, surgiu um movimento muito forte de novos artistas com diversas linguagens, num primeiro momento seguindo o formato de banda com percussão de maracatu. Mas junto com ele veio Mundo Livre, Otto, Eddie, China. Não menos importante, temos a influência gigante de Alceu e Lenine, que também sempre estão por aqui. Pernambuco é realmente um estado em que a todo o momento surgem novas bandas, buscando o que Chico fez: criar uma música, uma identidade, uma batida que é nossa, com nosso sotaque. Hoje o experimentalismo e a psicodelia estão superando um pouco o uso das alfaias, que passaram a soar meio clichês. Também tem muitos grupos que tocam música instrumental, naquela linha mais de trilhas de filmes. Pensar no movimento mangue é pensar muito plural porque também impulsionou novos cineastas e designers, ou seja, realmente revolucionou. Desde lá, ainda não houve outro movimento que realmente tenha causado tanto impacto, mas continuam tentando. Enfim, esse nosso país continente e seus diversos estados e culturas e “personalidades”.

ChakaNights, a banda - por Tiago Calazans
Chaka Nights, a banda / Foto: Tiago Calazans

DA – Somos um país que carece de vanguardas?

RICARDO CHACON – Fabrício, eu sinceramente acho que não. O que falta é espaço mesmo para essas vanguardas. Em algumas situações, também acho meio forçado alguns movimentos, repetições apenas do que já houve. Volta e meia, aparecem “novos baianos” (não necessariamente baianos), mas sem uma qualidade como os originais. A mídia e os espaços estão voltados para músicas de momento e de jabá. As rádios, que sempre foram canais de escoação de novas músicas, hoje estão também voltadas às músicas internacionais. O que resta ainda são festivais e editais. Mas como te falei, a mentalidade radical dos curadores em busca da “vanguarda” acaba por tirar a oportunidade de pessoas com talento em favor de outras que não são de verdade como aparentam ser. Não acredito que isso seja um problema apenas daqui de Pernambuco, onde muitas bandas e artistas bacabam desistindo de criar por falta de apoio. Se houvesse realmente uma política de incentivo que acabasse com a mamata que alguns têm de todo ano aprovarem algo, artistas e produtores viciados nesse esquema, outros que nunca tiveram acesso poderiam ter vez. Às vezes, ou melhor, muitas vezes, você até consegue fazer um disco, mas falta grana para uma divulgação, prensagem de cds, ou para fazer uma tour por algumas capitais. Hoje, os artistas autorais são verdadeiros heróis. Poucos mesmo ganham algo com sua arte, tendo que tocar na noite ou trabalhar no comércio, ou qualquer bico que aparecer. Nunca irei achar isso normal. Nosso país é desumano, as políticas públicas são logo corrompidas, sempre em favor de poucos. Quem já sabe como usufruir delas, não cede para os novos. E por isso nossa música está enfraquecida. Pouca coisa nova realmente aparece e tem continuidade muito por conta disso.

DA – Diante desse cenário, e como costumamos testemunhar o vaivém de ciclos, acredita que chegaremos num ponto no qual um novo e alternativo modelo possa surgir?

RICARDO CHACON – Como te falei, existem tentativas como foram o fora do eixo, coletivos, etc. As vanguardas sempre irão surgir ou, neste momento, estão acontecendo. Mas o mercado mudou, tudo caminha para novos modelos de distribuição dos discos, das músicas. Hoje é só jabá, muita grana para as assessorias caríssimas te divulgarem e pouca demanda, a não ser que a música toque numa novela da globo ou que a banda apareça em um dos seus programas. Mas às vezes nem é o que realmente almejamos. O que realmente queremos da música é podermos pagar nossas contas dignamente e ter apoio, sem cartas marcadas. Ou será que é só no futebol que acontecem os 7 a 1 da vida? Não, definitivamente.

DA – O fato de voltar a tocar na noite trouxe outros sentidos para sua carreira?

RICARDO CHACON – Eu, na verdade, sempre toquei na noite, foi a minha escola desde sempre. E assim toquei meus projetos paralelos, sem precisar de grana pública, principalmente durante a Nós4. Depois que a banda parou, em 2012, foquei no meu novo disco e busquei trabalhar mais nesse mercado, mas não tive apoio na minha cidade. Os festivais daqui não me deram espaço pelo preconceito. Preferiram artistas que forjam uma vanguarda, alguns até sem disco gravado, ao invés de valorizar o meu esforço e ouvirem meu trabalho, sem qualquer recalque. Por isso, em 2014, foquei em reconquistar meu espaço na noite pernambucana. Precisava voltar a ganhar dinheiro para pagar as contas. Mas a obra está aí. Quem sabe um dia irão ouvir melhor o Terra ou o Chaka Nights, sem qualquer preconceito porque não faço a linha vanguarda forçada. Sou de verdade.

DA – Há planos concretos para um possível retorno da Nós4?

RICARDO CHACON – Nada concreto, apenas sondagens.

DA – Muitos artistas, sobretudo os independentes, têm aderido à prática do crowdfunding como forma de bancar seus discos e projetos. Mais do que uma perspectiva de sobrevivência, essa realidade aponta para uma negação ao modelo imposto pela indústria fonográfica tradicional? Há muito mais por trás disso?

RICARDO CHACON – É um modelo interessante para quem tem um público ou para quem consegue de alguma forma mobilizar uma galera, principalmente através das redes sociais. Mas para a grande maioria é difícil mobilizar e arrecadar a quantia suficiente. Mas não deixa de ser uma alternativa de conseguir o recurso.

DA – No caminho que vai do homem ao artista Ricardo Chacon, quais sentidos melhor definem a música em sua vida?

RICARDO CHACON – Eu tenho plena ciência da minha escolha, de seguir esse caminho de incerteza, mas também de um prazer que nunca encontrarei fazendo outra coisa que não seja cantar e estar no palco. Neste caminho, a persistência e a paciência são extremamente importantes. Como te respondi certa vez, meu trabalho não para por aqui. Estarei sempre em busca de um aprendizado maior e da verdade no meu trabalho, mesmo que isso não signifique sucesso para os outros, mas para mim estarei realizado.

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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Munique Duarte

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém a reparava no vestido amarelo imundo. Até quando o café estava ruim as pragas iam todas para a lenha. Rodopiavam no fogo e se desmanchavam na chaminé. Ela era invisível, esquálida e empoeirada. Ratazana completando o grupo que sempre rodeava o fogão quando o calor esmorecia à noite e os sapos coaxavam. Dormia sem perigos no quartinho dos fundos. Nem cadeado precisava. Enquanto batia a mão no vestido para limpá-la e mexer na panela, ainda ouviu o último que saiu da cozinha dizer que Pintassilgo era um fracote de pernas bambas. Dali a pouco voltaria para tomar café e se esconder na aba do chapéu amassado.

Isso não aconteceu. Pintassilgo sumiu três dias e três noites. Apressado, bateu à porta de Mariinha no meio da madrugada. Morrendo de susto, abriu. Ele cheirava mal e pediu para que ela guardasse um saco para ele. Estava pesado e ela o empurrou com o pé para debaixo da cama. Quando voltou para falar com ele, era só breu. Ainda escutou com as orelhas de gato-do-mato um barulho longe nas folhagens das bananeiras cortadas. Ele haveria de voltar e o suspiro saiu pela boca com vontade e ruído. E seria no meio da madrugada, batendo na sua porta com punho de macho. Adormeceu Mariinha sonhando até despertar no dia seguinte com o vestido amarelo surrado, assoprando lenha úmida, difícil de pegar fogo. Não mexeu nadinha no embrulho do Pintassilgo. O que importava para ela era o seu olhar pequeno e preto de passarinho afugentado. Freou o suspiro na garganta. Um sujismundo já pedia café com voz deseducada. O sumiço de Pintassilgo foi assunto que se apagava dia a dia na cozinha. Mariinha não se afligia. Sabia que ele voltaria para pegar o saco pesado. Não contaria a ninguém da visita. Era borboleta mirrada desacreditada. As pragas pulavam as lenhas e se desfaziam no ar com a fumaça escura.

Com a tempestade o dia terminou mais cedo na cozinha. Mariinha sem seu ofício era vela apagada no escuro. Voltou para o quartinho e pôs lata de azeite aparando a goteira perto da porta. Chovia água morna. Deitou na cama dura com os joelhinhos para cima. O vestido ensebado escorregou pelas coxas finas. Pensava nos olhos de passarinho dele. Nem se lembrava do saco escondido debaixo da cama. Cochilou e sonhou com Pintassilgo alisando seus cabelos enfumaçados de lenha. No sonho ela estava mais bonita, mais gorda, antes ainda das tosses e do quartinho frio. Ele abria o saco escondido debaixo da cama, revolvia a terra e tirava de lá um anel dourado grosso. Era para Mariinha. Ela suspirou com força diante dele. O suspiro deu cambalhotas no ar e sumiu como grilo miúdo. Ela sorria um sorriso que vinha com força do peito. Escutou batidas na porta. Abriu os olhos assustados e foi atender. Chutou sem querer a lata de azeite esparramando água. Antes de abrir a porta, ainda escutou um barulho de casco de cavalo. Pintassilgo empurrou a porta e arrastou o saco escondido para a luz do quartinho. Sem nem olhar nos olhos da borboleta, montou no cavalo e saiu sem palavra alguma. Ainda de relance, Mariinha viu a perna grossa de uma mulher vestida de azul. Não ouve barulho de folhagem de bananeira cortada. O suspiro saiu do estômago, espetou o coraçãozinho, e se desmancharia no calor da lenha pelos próximos dias.

 

***

Ampulheta amarela

Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. A areia fina passou pelo buraco estreito correndo com pernas inacreditáveis. O grisalho apareceu ali e depois. Dentro da cabeça ainda um resto de novas tentativas. Faria tudo outra vez. Ou não. Cada um sabe o que lhe cabe dentro das memórias encardidas. No meio da selva inteira havia resto de compaixão. Um olhar mais fundo, mergulhador sem pés-de-pato.

Cada centímetro da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira já havia sido percorrido em noite em claro. Tentativas inúmeras. Mãos na maçaneta. Mãos à obra. Sair com a roupa de sempre, cruzar a rua e fumar uma porcaria qualquer. Depois, ler de longe as manchetes salobras dos sensacionalistas. Daí, um café sem palavras óbvias sobre sóis ou temporais. Caminhar mais, mais longe, mais fundo, mais depois de quatro ou cinco esquinas. Sentir os pés querendo sentido contrário. Sentindo o coração querendo sentido contrário. Sabe que a mente não fará o contrário. Pedaços de rotina com pedaços de realidade. Realidade chata, necessária, ampla, morna.

Cruzou a última rua sobre o chão zebrado e bem na frente comprou duas dúzias de uma flor amarela que esqueceu o nome logo após ter perguntado. Era preciso salvar o dia, os amores, a azia, os temores. Calado. Voltou e fez o mesmo caminho. Nada de café, fumos ou jornais. Cumprimento rápido pela vizinha de olho vazado. Triste a vida daqueles que a vivem pela metade.

Flores amarelas sobre a fronha amarelada. Sonhos amarelados. Paredes amareladas. Justificativas amareladas. O amarelo tomou a casa inteira por um instante depois de tanto cinza nos cabelos. Dias, dias, mais dias. Mais areia passando pela cintura da ampulheta em forma. Mais dias, dias, dias. Flores amarelas se tornaram cinza-tempo. Tudo ficou de uma cor só. Em vão. Fora do tempo. O homem só acertará o tempo quando se transportar para dentro da ampulheta e sentir a areia inundando seus pés imundos de realidade.

Tarde demais. A fronha apodreceu e dali em diante a esquina inteira da rua perdida. Tarde demais para outras cores, outros vícios, outros entrementes. Tropeçando. Fim da escada.

Muitas areias depois, ele ainda a viu do outro lado da cidade, de vestido azul e presilha no cabelo. Ela estava muito mudada. Rosto mudado. Boca mudada. Perdeu a olhos vistos a cintura de ampulheta. Tão diferente. Tão sem forma. Tão sem a forma do tempo, de corpo de miss. Sentiu-se fora de realidade chata.

Foi ao lugar de sempre tomar café, e aceitou o bate-papo óbvio. Estava tudo tão estranho. O cinza da vida já não incomodava. Era o começo de uma nova fé. De novos estalos mentais. Tarde demais. Ou não.

Quer voltar logo para a casa. Tirar o cheiro de mofo do ar. Se jogar em novos jogos, novas ampulhetas. Os pés ardem há tempos sobre essa areia fina, amarelada, acinzentada, mal vestida e mal falada.

***

 

Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade.

Os rios trotam com patas d’água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peças cinza. Um xale enorme amarelo que sempre estava a secar. Os rios trotam ruidosamente, e talvez nunca soubesse o tom de voz da velhota, com cara de solidão recente. Não tinha luz. Não tinha gás. Tinha chaminé com fumaça embocada da lenha que esquentou o bule de café. Ou de água quente para tantas e tantas infusões. A velha estava agora lavando batatas em uma bacia. Eram muitas batatas para uma pessoa só. O tempo agora estava cinzento, com ar agitado. Segurava a saia com as duas mãos. Maldita chegada do inverno. Hora de regressar.

As pedras dos rios são traiçoeiras. Nem sempre a água as doma. Pé sangrando e dolorido da passada mal dada. A casa ainda a três quilômetros de distância. Pensou na senhora e no chá de hortelã recém-fervido. Queria só observar, mas não tinha jeito. Atravessou mancando o ruído dos cavalos d’água. As janelas cresciam. As cortinas eram roxas, e não azuis. O xale amarelo imenso, com franjas embaraçadas, era uma toalha de mesa surrada. A bacia com as batatas não estava mais do lado de fora. Não sentia medo. Era lembrança de algo. Era cheiro familiar. Engasgou-se ao chamar pela senhora. Não podia confiar tão cegamente na bondade dos dias atuais. Mesmo estando tão longe, em mata limpa e rios caudalosos. Já havia entrado. Estava na cozinha, com o fogão de lenha. Nada de bule, café ou hortelã. Gotas de chuva ecoavam nas telhas ralas. Entrou no quarto da velhota. Na parede um terço pendurado. Nem sentia mais o corte no pé. Sentia moleza, vontade de ficar.

Ficou meia hora ouvindo o estalar da lenha queimando no fogão. De fato, a senhora de lenço xadrez não apareceu. Nem naquela hora. Nem nas seguintes. O calor do fogo é bom quando chega o inverno. A saia verde já não tremia. Naquela cadeira no canto da cozinha permaneceu até a noite chegar. O dia nublado traz lembranças de tantas casas, de tantos rios, de tantas cortinas pequenas.

 

Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de contos “Espelho Oxidado”, pela Editora Multifoco. Em 2015, lançará seu primeiro romance.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Charles Marlon

 

Foto: Luciana Bignardi

 

“Conversaciones nocturnas”(*)

 

O poema ao
pôr-se na
página está
a perder-se
a desperdiçar-
se

e é como se
houvesse – agora –
amor de menos
para com a tua
voz belicosa. E
sei

que em tempos
de guerra, o
coração – desejoso –
de bater cansa
e – de cansaço –
pede

mais.

 

 

   
***

 

 

Não há sombra de alegria neste regresso

 

Sai-se à rua
para buscar fugir-
sem o obter –
ao itinerário
repetitivo
do calendário. Mas

há – ainda –
a espessura do ar
a preencher as
ruas vazias: ruas
de res-
sentimento, desejo
e desengano. Ou

a correspondência
de uma sobra de sombra
a correr a cortina
na contramão do
aceno que por força
do frio não chego a
ceder. Sob o fino

fio da iluminação
em led, arrumo
arrimo num muro
acendo um cigarro
e pre-
vejo ao longe o ruído
do trem que passa – quiçá –

em retorno.

 

 

***

 

 

O calvário

 

As folhas – sempre – em queda livre
e o calendário é como um homem calvo

quando chega o verão; pois
outro ano, transplantado,
há de sobrevir.

Os dias, o costume e as noites,
sim, principalmente, as noites,
não fazem mais que encher de

verdades vencidas, uma caixa
de mentiras. O próprio coração
é – agora – outra mera

f(r)icção.

 

 

***

 

 

Biografia não autorizada

 

Esta vida,
quem foi que autorizou?

Depois da primeira manhã,
tudo é atraso do fim que

não se vê, e já se sabe, a se
arrastar atado ao calcanhar.

Trocando minhas mãos pelas
tuas, o que? Viver é dividir

um engano, a vida:

outra coisa.

 

 

***

 

 

O pêndulo

 

As ruas não
indicam qual-

quer direção, e
não, é certo, darão

no mesmo lugar.

E, no entanto, só
sei ser o que me

ensinaram, estar sem-
pre a meio caminho:

Não dar um passo.

 

(*) Título retirado de “Cien años de soledad” de Gabriel García Márquez. Referência: García Márquez, Gabriel. Cien años de soledad. 1ª ed. Buenos Aires: Sudamericana, 2007. Pg.104

 

Charles Marlon Porfirio de Sousa é poeta e mestrando em Literatura Portuguesa – poesia contemporânea – pela Universidade de São Paulo- USP. Em julho de 2012, publicou seu livro de estreia, Poesia Ltda., pela editora Patuá e em junho de 2014 seu segundo livro, Sub-verso, também pela Patuá.

 

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94ª Leva - 08/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Pícaro

Por Pedro Reis

 

 

Manter sob controle a impossibilidade de controlar a vida. Umas das falas do Dr. Fiss, personagem misterioso que guarda uma estreita e não menos misteriosa relação identitária com Ahab, pai do narrador do livro intitulado Pequod, do escritor gaúcho Vitor Ramil, cujo título é também o nome da embarcação do capitão Ahab do livro Moby Dick, de Herman Melville.

Este primeiro emaranhado de relações que pus de início delimita somente algumas das muitas conexões que constroem o emaranhado da pequena novela, guardando uma significação que extrapola suas pouco mais de cem páginas.

A história ocorre de forma fragmentada, em vários episódios que separam o tempo atual – a relação de Ahab e seu filho – do tempo passado, onde se narra a infância de Ahab e a mudança de sua família para o Brasil, saindo do Uruguai. Há outros personagens na trama: os avós, a mãe e os irmãos, o estranho Dr. Fiss e alguns amigos de Ahab. Não há uma separação clara entre os dois tempos, e a descoberta da situação de cada capítulo deve se dar no decorrer da leitura.

Dois intertextos principais têm de ser destacados para o leitor deste livro. O primeiro é sua relação com o livro de Melville citado acima. Não é por coincidência que o nome de um dos principais personagens seja o mesmo do capitão do Pequod, Ahab. Os dois guardam uma obsessão monomaníaca: um, pela baleia branca monstruosa que dá nome ao clássico americano; outro, pela perfeição metafórica que vê nas teias das minúsculas aranhas encontradas em sua casa e sua relação com a linguagem poética.

O Ahab latino-americano tem um comportamento habitual de ajustar sempre um grande relógio em sua casa. Esse hábito, exato como o próprio funcionamento do relógio, por vezes perde o tino quando ele se tranca em um quarto, negligenciando o hábito de dar corda, esquecendo-se do tempo na reclusão do aposento. Ninguém de sua família sabe o que ele faz nessas ocasiões, mas o menino, investigando a relação de seu pai com o Dr. Fiss, entra escondido na casa daquele homem, mas é flagrado, passando pelo momento mais delirante do romance: a noite das oportunidades.

É neste momento que o doutor explica as motivações mais profundas de seu pai, e também um dos momentos mais interessantes do livro. Semelhante às temáticas borgeanas, Dr. Fiss, de posse dos poemas que Ahab escrevia, explica ao pequeno “espião” como cortava cada palavra dos escritos de seu pai, abria um livro qualquer de sua extensa biblioteca, procurava a palavra que havia recortado, e quando a encontrava, no livro, colava a mesma palavra por cima da palavra do livro, anotando de forma cifrada a localização daquela palavra do poema em sua biblioteca. Podemos encontrar uma dessas cifras em meados do livro.

O outro intertexto é com o pintor florentino renascentista Paolo Uccelo. Sua pintura, Relógio com Cabeças de Profetas, ou pelo menos seu esboço, serve de imagem inicial de cada capítulo, tendo no centro a fotografia que, descobre-se durante a leitura, é de seu pai quando pequeno.

A relação do livro com o pintor se colocaria na obsessão que Uccelo teve em vida com a perspectiva, técnica plástica inovadora na época. A novela de Ramil tem relação com esta técnica, pois também é estruturada em perspectiva, tendo como ponto de fuga o conflito entre o pai e o filho, e os acontecimentos que fazem a narrativa ocorrem em constante resgate do passado, que serve de centralização do presente, representado pelo filho.

A narração, apesar de posta na mente da criança, cria cenas ou situações líricas, em uma escrita onde prevalece o cotidiano simples, mas pincelado de visões poéticas. Ramil se arma da inocência infantil para adensar o lirismo das narrações, construindo cenas poéticas belíssimas, como quando ouve seu pai falar espanhol:

“O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. No fundo daquela poltrona, naquele saguão sombrio, eu estava no fundo dele, no fundo de Ahab em sua poltrona sob o relógio. O espanhol era então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo.”

Ou quando, em sonho, o menino chama ao pai, mas este não o ouve, e ocorre a pergunta fundamental:

“’Não ouviste eu te chamar?’ ‘Não. Talvez o ruído das ondas não tenha me deixado ouvir’, responde. Eu paro. E pergunto então como nunca em tempo algum: ‘Por que não gostas que eu te chame de pai?’ Ele para, me olha e diz: ‘Porque eu não quero que haja distância entre nós.”

Os dois personagens fisgam o leitor, por sua relação de poder, cumplicidade e fantasia. O narrador se vê como satélite de Ahab, mas também se vê como um semelhante, e vai carregar o legado vazio construído pelo seu pai para o futuro. Como dá por si ao final do livro: tratava-se, agora, de seu tempo.

Pequod é um livro sobre revelações, sobre descobertas. A descoberta da fotografia de seu pai, escondida pela avó. A descoberta da semelhança entre aquele ser enorme e admirável que é seu pai. A descoberta dos mistérios que cercam seu pai e o Dr. Fiss. O passado de sua família em Montevideo. Todas essas descobertas formam a narração do livro, bem como são parte importante da formação do pequeno narrador.

Pícaro é um dos termos que mais se repete no início do livro, quase um xingamento atirado pelos familiares ao infante narrador. Não pude deixar de notar que o adjetivo, que significa matreiro, malicioso e astuto, tem uma importância exemplar na história da literatura. Desde Homero, criando o Ulisses de mil ardis, costurando sua narrativa épica por meio das façanhas ladinas deste herói, nesta novela, Vitor Ramil, no papel do pequeno pícaro, trava sua batalha contra o caos incontrolável da vida, tecendo as palavras de seu passado, mantendo-as sob controle, sob a forma de literatura.

 

Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Olhares

Olhares

Sinfonia do invisível

Por Fabrício Brandão

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

A menina adentra as veredas da adolescência, perfazendo as primeiras noções de olhar o mundo com necessário cuidado. Seu método de observação é, no mínimo, curioso. Deita-se sobre um beiral do terraço do prédio em que morava na maior cidade brasileira e faz com que o corpo, capitaneado pela visão de quem procura detalhes, incline-se a noventa graus. Com isso, intenta ver o oceano urbano explodindo seus signos lá embaixo, além de experimentar o horizonte recortado. Seu mundo idealizado era em preto e branco.

O tempo passa e a menina, hoje mulher, fez questão de levar adiante a sua particular maneira de apreender a luz. Seu nome, Luciana Bignardi. Sua nova morada, Portugal. De lá para cá, pouco mais de duas décadas se passaram e a chama continuou acesa. Com o desenvolvimento do olhar, especialmente marcado por nomes como os de Sebastião Salgado e Cartier Bresson, a escolha da moça pelo ofício de fotógrafa cada vez mais ganhava corpo e certeza.

É o olhar que perscruta a vida quem comanda as ações na trajetória de Luciana. Interessada em transpor as barreiras mais aparentes, ela vislumbra como desafio maior a perspectiva de captar a alma humana da forma menos invasiva possível. Nesse aspecto, o que fica em boa medida é o entrelaçar silencioso de mundos, estreitando distâncias entre observador e observado. Assim, uma pergunta sempre se faz presente: terá a fotógrafa a capacidade de praticar o taciturno pacto do registro sem alterar as esferas íntimas de seus personagens prediletos?

A resposta parece ser positiva, embora saibamos que os olhares que lançamos ao universo de coisas que nos rodeia não são impunes. E não se trata aqui de levar em conta a possibilidade de alteramos o sentido daquilo que vemos a partir de nossas convicções, mas pelo modo como também nos sentimos parte viva do que é apresentado via lentes. Então, ao refletirmos sobre o trabalho de Luciana Bignardi, entendemos também que ela nos mostra um ponto essencial de convergência, no qual criador e criatura são cúmplices duma mesma e complexa existência.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Afora as especiais abordagens humanas, as fotografias de Luciana conferem um lugar de destaque para a, digamos assim, geometria dos espaços retratados. Isso fica mais claro quando notamos a maneira através da qual a artista evidencia o caráter urbano de suas observações. Nesse ínterim, flutuam linhas, retas, curvas, sombras e diversos contornos a promover uma verdadeira sugestão de espaços. Mas o que seria tal propósito? Quiçá o de apresentar aos nossos olhos que, para além do concreto embrutecido das cidades, outras dimensões espaciais se operam, podendo estas serem tanto físicas quanto abstratas. O resultado é todo um caminho feito de aspectos também simétricos e dotados de uma significativa sensação de profundidade de campo.

E eis que a natureza também é tida em boa conta no ofício de Luciana. Basta ver o modo como ela nos traz à baila folhas de árvores, que, conforme a própria artista confessa, também fazem parte de um processo de se perceber o que extrapola o meramente visível, entrevendo desenhos nos lapsos deixados por ramos e galhos.

A predileção pelos detalhes é, sem dúvida, um fio condutor da trajetória criativa de Luciana Bignardi. Basta lembrarmos da criança curiosa, mencionada no início do texto, e a deslocarmos para o momento atual. Os ímpetos fundamentais continuam os mesmos: tentar apreender nos interstícios da existência o idioma secreto que abriga simultaneamente pessoas, lugares, coisas e outros seres. Enquanto o olhar avulta o tempo, a sonoridade discreta da vida rege os instantes embalados pela indispensável descoberta do mundo.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

 

* As fotografias de Luciana Bignardi integram a galeria e os textos da 94ª Leva

 

 

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Foto: Luciana Bignardi

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