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95ª Leva - 09/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

Do lastro da imaginação, emanam cenários, personagens, espectros emblemáticos de nossa condição sobre a Terra. Divisamos o que foi e o que será em tênues fronteiras de percepção. Cada um sabe de si no complexo desafio de apreender os caminhos da arte. Interpretar é, antes de tudo, viver o que está sendo ofertado aos nossos olhos e sentidos difusos. É banhar-se em águas que já não são as mesmas de quem criou. É trazer a si mesmo para um território antes estrangeiro. Ao cruzar os acessos, traduzir-se como protagonista de enredos por vezes inusitados. Ler é aceitar convites, embora nem sempre tal ato represente um sinal de concordância com o que nos é proposto. E também as recusas e negativas podem encerrar alguma espécie de reinvenção. No hiato que constitui a alteridade, cruzamos bem mais do que desertos. Ali, podemos também estabelecer aproximações como quando alguém nos sugere trilhar veredas nunca antes forjadas de alguma coragem. E o termo coragem vem dotado de um ato de se permitir experimentar o que está situado além de domínios certeiros e controláveis. Diante desse ponto específico e à medida que caminhamos, parecemos buscar algo que seja capaz de proporcionar algum arrebatamento em termos de originalidade e emoção. Sob a ótica do receptor, indagamos se a visão autêntica das coisas não estaria na percepção de quem lê ou observa os produtos artísticos. Caberia tão somente ao criador o ímpeto do novo? A questão só não se perderá embalada por algum vento aleatório caso alguém ouse também a aceitar que, sob a pele de um leitor, habitam camadas passíveis de criação autônoma. Assim sendo, vamos cruzando novas zonas de vivência no que tange à articulação de conteúdos. Para saber se poderemos de fato manipulá-los conforme nossa conveniência, só a fluidez dos enredos será capaz de atestar. Acima de tudo, esse caráter, digamos assim, libertário funda instâncias potencialmente criativas, redimensionando os tradicionais papéis de criadores e receptores. E a arte com seu movimento constante de signos nos revela entendimentos sobre nós mesmos, desses muitas vezes revestidos de instigantes descobertas. É tal como ocorre com as narrativas de Mariel Reis, Helena Terra e Yara Camillo, a nos mostrarem cenários alternativos de vida. Num caminho sedimentado em sutilezas, a arte da ilustradora e desenhista mineira Rebeca Prado abre passagem por todos os recantos dessa nova edição. Num trabalho de refinada pesquisa musical, a escritora Daniela Galdino chama atenção para o disco “Acorde”, registro precioso da cantora baiana Roze. Entre versos e destinos, os poetas Patrícia Porto, Willian Delarte, Lourença Bella, Jorge Augusto da Maya e Cleberton Santos. Numa entrevista que promove reflexões sobre o fazer literário, o poeta Roberval Pereyr é o centro dos questionamentos de Clarissa Macedo. O mais novo livro de contos de Anderson Fonseca é tema das apreciações de Sérgio Tavares. A inusitada produção “Boyhood”, novo filme do diretor Richard Linklater, aparece marcada pelas percepções de Larissa Mendes. O poeta Gustavo Felicíssimo recorda seu último encontro com o saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro. Atingimos 95 levas, certos de que você, caro leitor, é nosso principal protagonista. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Os deuses da carnificina

Por Sérgio Tavares

 

 

Cidade do México, 1968. Tomando as ruas, centenas de estudantes protestam contra o presidente Díaz Ordaz e seu governo autoritário. Avançam, compassados e compactos, uma parede viva que entoa palavras de revolta. Na praça Tlateloco, ocorre uma cilada. Soldados do exército bloqueiam todas as saídas e, armados com tanques e metralhadoras, atacam parte do grupo. Trezentos são mortos, covardemente. Horas depois, o escritor José Revueltas, preso tantas vezes por conta de seus discursos e manifestos, denuncia os donos do poder que acabaram de patrocinar uma carnificina, rasgar em partes jovens desarmados. “Os senhores do governo estão mortos”, acusa. “Por isso matam”.

O relato acima poderia facilmente ter sido extraído de uma página de jornal arquivada nos porões da história. Contudo, faz parte de ‘O século do vento’, último livro da trilogia ‘Memória do fogo’, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Recorrendo a fatos e figuras de diversas naturezas e relevâncias para retratar as transformações e os conflitos que moldaram o continente sul-americano a partir dos anos 1900, o autor promove uma espécie de colagem verbal onde a verdade latente se sobrepõe à historiografia oficial. A memória passa a ser a sua guia e, justamente por revisitar o tempo coletivo através de pequenos momentos filtrados por um olhar particular, realidade e ficção se estreitam de maneira indistinguível. Um efeito utilizado com semelhante destreza em ‘O que eu disse ao General’ (Oitava Rima Editora, 68 pgs.), antologia recém-lançada de Anderson Fonseca.

O que é verdadeiro, o que é inventado? O que pode ser revisto em favor da literatura? O escritor carioca, radicado no Ceará, parece não se preocupar com o formato, mas com os temas, suas implicações e seus alvos; e, neste caso, não resta dúvida quem são. Grande parte dos 36 textos, que podem ser rotulados de contos, ou vinhetas, ou aforismos, é dedicada a um senhor de estado, de um ditador genocida a um governador fluminense, de Alvaro Uribe a Hosni Mubaraki, de Saddam Hussein a Sérgio Cabral. Perpetradores da barbárie, da fome, da guerra e da injustiça. A coletânea, de fato, salta da criação imaginária para fazer denúncia, criticar o mal do tempo, as mazelas que não mais nos afligem escudados pelo tubo da tevê, mesmo quando diante da dor dos outros.

Autor de ‘Sr. Bergier & outras histórias’, volume alimentado umbilicalmente pelo realismo fantástico, Fonseca agora tem em mãos os fatos, ainda que provenientes de um cotidiano infiltrado por uma outra tonalidade de absurdo, episódios de clara virulência que conseguem mapear o contexto de onde foram capturados. Um exemplo é a narrativa ‘O tanque’: “A cidade está tranquila. A manhã é calma. Uns meninos jogam pião”, chega então o general e sua tropa de guerra; “A cidade permanece tranquila. Tudo é o mesmo, só que agora se acrescenta à imagem os tanques”. O mesmo ocorre em ‘Festa’: “Havia uma festa na cidade. Havia sol e alegria”, de repente, surgem homens com armas e máscaras; “Sim, era uma festa, era a festa dos homens que chegaram”. A normalidade nunca é demolida com brusquidão, mas minada de maneira furtiva por uma ação indelével, à surdina, um tipo de gás tóxico que só é notado quando já se dobra nos últimos suspiros. “A verdade é sempre outra”, alerta. A que vemos tarde demais.

E, por ser incontornável, o único caminho de resistência é reinventar o mundo com o bisel das palavras. Fonseca trabalha muito bem a linguagem, quando recorre a metáforas e parábolas a fim de amortecer o impacto sumário da perversidade e da vilania. Assim é em ‘Ratos’: “Os ratos invadiram a cidade”, que traz à memória ‘Maus’, de Art Spiegelman, e em ‘Davi e Golias’: “Havia um menino e um soldado. O menino segurava um livro (…) O menino atirou o livro com força acertando o soldado que, em seguida, caiu morto”. Por outro lado, quando se escora na fabulação, alcança um efeito inverso, potencializando a gravidade das ocorrências naquilo que não é tão aparente. É o caso de ‘Como o poder se conserva’, que traz a história de um rei dormente traído por um ministro, que manda matá-lo e assume o poder. No trono, este inclui o filho no ministério, garantindo a futura transferência do cargo, numa alusão ao governo Kirchner, marcado pela perpetuação de um revezamento familiar. “Ai de quem buscar quebrar o ciclo, a pena é a morte”. A violência que serve para destruir igualmente serve para inovar. Tudo depende da capacidade de encontrar o ângulo em que a narrativa submersa se revele do tecido social.

Não por menos, os registros em que o lirismo desloca esse olhar para o plano das subjetividades é onde o autor encontra seu arroubo estético. Fonseca é detentor de uma prosa fina, lapidada, e textos da estirpe de ‘Dos que voltam da guerra’, ‘A tarde’ e ‘Sinfonia’ incomodam por provocar fascínio ao tratar de situações tormentosas. “Posso imaginar que as balas são gaivotas de papel deslizando na superfície do vento. Posso imaginar que são borboletas e o bater das asas acalme as dores que sinto. Posso imaginar que habito o silêncio e o silêncio me habita. Posso negar que as balas rasgam o espaço, mas não posso negar que o espaço também me rasga”. E: “O terror e o medo são iguais ao sonho e a morte habitando-nos involuntariamente, e, por mais que desejemos o refrigério de uma nova vida, a memória permanece como uma coluna de pedra com nomes gravados”.

A morte nasce conosco, morremos a cada dia, temos medo, mas não conseguimos padecer ao presenciarmos a morte alheia. As narrativas examinam este vazio, a cavidade de sentimentos preenchida por um senso de alívio, por existir algo divino que nos protege de todos os males. Vendas que permitem obliterar os erros fatais, descarregar o impacto do choque nas ações de destruição que parecem distantes, mas que também compreendem a nossa história. O que remete novamente a Galeano e seus pequenos momentos extraordinários, listados agora no formidável ‘O livro dos abraços’, num episódio intitulado ‘A linguagem da arte’:

“Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova Iorque.

Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma câmara nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:

— Você olha por aqui e aperta ali.

E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmara e olhou por aqui e apertou ali.

Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.

Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu”.

Do mesmo modo, ‘O que eu disse ao General’ expõe instantâneos de nosso tempo, a barbárie de cada dia que, de uma forma ou de outra, será capturada pelo nosso campo de visão. É claro que há sempre a opção de se fechar os olhos. Mas nunca a de ficar indiferente.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Lourença Bella

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

emanações do ser

 

não presto
nunca prestei para ser em série

tentaram me colocar numa forma
o máximo que conseguiram
foi me ver flertando com a morte

assustaram
e me reacordaram de um sono de gilete
e me aumentaram o tamanho dos dias

não presto
não sei se algum dia vou prestar

tentei óculos escuros nas minhas perdas
queria ter coração mesmo que rude
só consegui lacrimejar meus sapatos

tenho fomes
e só presto para o uso geral e irrestrito
do anormal dos anos que ainda me gritam

 

 

***

 

 

o frágil correr dos dias

 

ainda que saibamos
que os heróis não cunham suas moedas
nem as esfinges devoram seus enigmas
falta-nos entender
esta lâmina que vem com a ausência
e que nos corta onde nunca há costura

mas há o tempo
este que se apresenta em fatias
que é capaz de nos mostrar à nossa cólera
e nos leva a reconhecer-nos sobreviventes
dos nossos circos e das nossas próprias guerras

é quando descobrimos:
imperioso é reconhecer-nos em nossos afetos
e seguir carregando as nossas marcas
indelevelmente

 

 

***

 

 

rios da fala

 

gosto de frases tontas
doentes do gosto
que se soltem
na garganta

frases que despertem
sonos e rumos
em caminhos
que já perdi

gosto de frases bêbadas
que sejam o prumo
do coletivo
em mim

e que rolem as necessárias pedras
nos rios da minha fala

 

 

***

 

 

em dias mortos

 

não encare
sem dor
a tela vazia

nem se acostume
à arritmia
da falta de versos

não se cale
não se sele
não se apague

nas esquinas
dos desfavores
é no poema que se acende
o sexto sentido

 

 

***

 

 

à maneira dos sonhos lúcidos

 

triste como quem carrega pedras
alimentava silêncios
caminhava devagar

e me queria

eu não sabia
em que compartimento de mim
ele cabia

eu sorria
só sorria

um dia
ele sorveu meu riso
deixou-o enrodilhando-se
na língua
como se nunca tivesse provado
o gosto da alegria

tornou-se parte de mim
mesmo não tendo sido meu

 

 

***

 

 

em redefinição

 

para Ser
preciso aceitar
impotências e calmarias
tempestades e girassóis
promessas e muralhas

para Ser
preciso enxergar
ratos e miragens
entranhas e oitavas
camélias e adagas

para Ser
preciso antes
me perder
e em novos
espelhos
me reconhecer

 

Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mariel Reis

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

O Invasor

 

Para Anderson Fonseca, o fabulista fabuloso

 

O homem parado no quintal veste roupas sóbrias. O chapéu largo, a capa de chuva e os sapatos impermeáveis protegem-no do frio e da chuva.  Ele mantém-se imobilizado durante todo o tempo. Uma vez ou outra é possível percebê-lo fazendo anotações. Escreve compenetradamente. O bloco e a caneta, escondidos sob a capa de chuva, são retirados com rapidez. E, ali, é registrada alguma informação preciosa. O semblante sério não o deixa mentir quanto a isso, embora não se possa vê-lo totalmente. Os olhos, sob a aba do chapéu, faíscam durante a noite. Vasculham-na inutilmente, em busca de não se sabe qual segredo. Frustram-se por não encontrá-lo. Não desanimam, repetem insistentemente a operação. Quando o dia amanhece, ele, o homem, está lá. De pé. Permitindo-se um alongamento discreto dos braços e das pernas. As cãibras, as malditas cãibras. A família acostumou-se à presença dele, embora, no início, se sentisse incomodada com o relatório das atividades de cada membro da casa.

Quando completava um dos blocos, encerrava-o em um envelope pardo e o remetia para um destinatário desconhecido. A família, receosa por sua segurança. A atitude quebrava o protocolo da imobilidade – o único conhecido daquele homem. E, portanto, a salvaguarda de seu caráter. O deslocamento até a agência dos correios representava alta traição. Passaram a ignorá-lo. Não lhe serviam água ou o almoço. Nenhuma gentileza a mais foi praticada. Sempre que era visto com o bloco de anotações passara a ser ridicularizado. Os membros da família saíam e conversavam todos ao mesmo tempo. Tornava-se impossível o registro do que quer que fosse. O homem parado no quintal redobrava sua concentração. Percebia-se seu esforço para a realização de seu trabalho, mas era inútil. Acentuaram a confusão ainda mais: da arrumação dos cabelos às roupas. Vestiam-se de modo extravagante ou saíam nus para as atividades fora do lar. A situação parecia sair do controle. Ele desesperava-se. Desfazia-se.

A traição do estatuto da imobilidade e da vigilância contínua atentou contra a reputação do homem parado no quintal. A instituição que o havia incumbido da tarefa, indispôs-se. Ele não tinha permissão para deixar o posto. Fariam chegar a ele todo material necessário para o cumprimento de sua tarefa. Retirariam a documentação produzida. Porém, a precipitação atentou contra a credibilidade junto à família. Ele deveria passar a impressão de que estava ali para protegê-los. E não espioná-los. E se os espionava, era por motivo de segurança. A alta cúpula admitiu despedi-lo. A cogitação de dispensa o abalara. Outro protocolo foi quebrado. O homem mais velho da família entrou em contato com a organização que colocara o homem parado em seu quintal para a resolução do impasse: sugeriu que o transferissem. E outro viria para o seu lugar. A agência não apenas negou a sugestão, mas reforçou uma decisão tomada de última hora em mantê-lo no quintal. Tudo isso foi comunicado num exíguo bilhete, que em suas linhas finais dizia: Espero que aceitem e entendam. Seguido da assinatura com as misteriosas  iniciais  J.K.

 

Mariel Reis é contista, ensaísta e editor. Publicará, pela editora Oitava Rima, no 1º semestre de 2015, o livro Bordel de Bolso (narrativas).

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Jorge Augusto da Maya

 

Ilustração Rebeca Prado

 

 

Postal

 

O
sol eletriza
o corpo
da negra-cidade

recarregando
baterias solares

que a gente daqui
porta:
orgânica e uterina

(africarnada
na alma da cidade)

qual
pilhas de energia
intestina

assim: se
a engrenagem do
dia arde
sua fisionomia

o sol
acende o
cio da cidade

– Em simetria: solamaresia

 

 

***

 

 

Em casa

 

cada dia se dizia menos
o silêncio foi comendo toda palavra
até que não sobrou mais nada
mesa vazia, afeto desfeito
sem tato, sob o mesmo teto
alegria desbotando no porta retratos
estante escorada na parede
tv dizendo o que ninguém mais escutava
aquela ferida aberta no meio da casa
como um buraco negro
uma vala q aberta no meio da sala
cabia qualquer palavra
– boa noite pai.
não havia mais nada

 

 

***

 

 

Open

 

Exit. Êxito. Exílio.
quanto mais digo
me afasto
do que persigo.

palavra por palavra
armo
poemas que hesito

por todas as portas
de entrada saiu
do lugar q não existo.

melhor calar agora,
que ficar
falando em círculos.

o que busco é algo
algum alguém
pra além deste q digo
depois do exit

 

 

***

 

 

Os verões do corpo

 

A madrugada côa,
em seus escuros, ecos de luzes
restos do dia.
…………….. dejetos do dia.

no breu minguante da madrugada,
vagalumiava clarões no pensamento:

A imagem dela se acendendo

Faz a febre,
de um sol aceso dentro do corpo,
com seus todos fogos

a noite escoando seu escuro
surrealiza tuas  pernas abertas na
neblina do sono

a noite, toda consumida
em seus infernos,

me enterra nas cinzas do sono.

 

Jorge Augusto da Maya publicou poemas no livro “Antilogia” e na antologia “Poesia quebrada de quebradas”. Tem poemas e textos publicados em jornais e revistas, entre eles, Germina Literatura, Revista Cronópios, Revista Diversos Afins, Jornal Bahia Notícias. Atualmente, é docente na Universidade Estadual da Bahia e editor na Organismo editora.

 

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95ª Leva - 09/2014 Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

ROZE – ACORDE

 

Capa Roze

 

 “quanto mais eu ando mais vejo estrada
mas se não caminho não sou é nada”
(Plantador, Geraldo Vandré e Hilton Acioli)

Acorde. Palavra ambígua, título do primeiro disco solo da cantadora baiana Roze. Acordar é de dentro, primeiramente. Acorda-se em explosão interior e o estopim ultrapassa o deslimite do corpo (em si). Mas acordar, sendo de dentro, pode dilatar a percepção e gerar um desacordo com tiras, pedaços, fragmentos do mundo. Não digo com o mundo inteiro porque hegemonismos transformam particularidade em totalidade… e bem sabemos que mundo é vastidão (melhor seria dizer nos plurais). De modo que acordar para o desacordo vem acompanhado da encenação, da construção de outros mundos possíveis. Roze, sendo artista, parece confirmar isso.

Lançado em 1979, Acorde impressiona pela avidez misturada com doçura. Segundo o estudioso baiano Telito Rodrigues, “Roze canta como se tivesse fome”. Procede. Roze, trazendo consigo as pulsações de Tucano (seu lugar de origem), é toda apetências. Ela canta no limite, espalha ecos poderosos e nos envolve: a fome é compartilhada. Em estado emergencial a artista se apresenta com ânsia de dizer. Somente o canto apazigua ou sacia a fome. Cantar, portanto, é crucial, condição de sobrevivência, mas também tem algo de cíclico – quanto mais é apaziguada a fome se refaz.

Oco, povoações, vasculhamentos interiores. Roze chega, toma assento e não vem sozinha. Está acompanhada por rezadeiras, andarilhas/os, marisqueiras, tropeiras/os, romeiras/os, lavradoras/es, índias/os, caboclas/os. Na visualidade que “Acorde” provoca está essa procissão desses seres que não tomam assento na santa ceia do progresso. Talvez seja por isso que o disco doa e instale vácuos, ao mesmo tempo em que desperta esperanças no meio do dia abrasante.

Ainda sobre “Acorde” é importante dizer que traz composições de Geraldo Vandré e Hilton Acioli, Candinho de Jesus, Jorge Alfredo e Antonio Risério, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Capenga e Patinhas, Carlos Pita. O resultado é um disco que pulsa dores e esperanças, exala cheiro de mato seco, poeira de estrada, traz desertos e anoitecimentos por dentro. Correntezas de rios que transportam sonhos não se sabe para aonde. E ouvimos, na íntegra, sem conseguir pular nenhuma das doze faixas. O disco talvez seja uma ampla narrativa de nós.

Prefiro não dizer que Roze teve uma carreira meteórica. De 1979 datam a sua intensa participação no álbum “Águas do São Francisco” (de Carlos Pita) e o disco solo “Acorde”. Em 1980 foi lançado o compacto duplo “Roze”, seguido do terceiro disco também intitulado “Roze” e datado de 1984. As décadas de 80 e 90 foram marcadas pelas participações na coletânea musical “Som Brasil” (organizada por Rolando Boldrin) e em discos de Gereba, Fábio Paes, João Bá, dentre outros. Depois disso ela continuou transitando por mostras musicais, cantorias, eventos de celebração das culturas populares.

Roze, nos tempos atuais, segue cantando com avidez e doçura (cantar é crucial). Não está desaparecida, nem invisível. Canta onde é impossível. Tem “a boca preta de tanto sonhar” (Acorde, Candinho de Jesus). Se há desconhecimento da sua obra, culpa dos hegemonismos que transformam particularidade em totalidade e impõem modos de “consumo” musical, alastram o mero entretenimento com prazo de validade. Então, por (im)pura desobediência precisamos ouvir o canto faminto de Roze.

Agradeço a Telito Miranda e Renailda Cazumbá pelas contribuições que geraram esse texto. As impressões que aqui se apresentam são dedicadas, antes de tudo, a Roze.

 

 

 

Acorde (1979). Ficha técnica:

 

Produtor fonográfico: Gravações Chantecler LTDA.
Diretor Artístico de Produção: Luiz Mocarzel
Assistente do Produção: Candinho
Arranjos de Cordas: Wilson Moura
Arranjos de Base: O Grupo
Estúdio: Gravodisc
Técnico de gravação e Mixagem: Elcio Alvores Filho
Corte: Adenilton
Capa/Direção de Arte: Sergio Grecu
Produção Gráfica: Antonio Luiz
Past-up: Trinkão
Fotos: Candinho

 

Daniela Galdino é Poeta, por vezes Performer. Professora de Literatura na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Nasceu nas brenhas sulbaianas (em Itabuna) e vem se espalhando pelo mundo. Mantém o blog Operária das Ruínas.

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95ª Leva - 09/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

E lá se foi João Ubaldo Ribeiro

Por Gustavo Felicíssimo

 

João Ubaldo Ribeiro / Foto: Divulgação

 

Todo mundo tem um dom qualquer, ele dizia, e o grande pecado que se pode cometer nessa vida é o de trair esse dom. Acho que João Ubaldo Ribeiro chegou a essa conclusão com um empurrão de Jorge Amado. Explico. Não sei ao certo em que local do mundo se encontravam, mas o correto é dizer que João e Jorge estavam no saguão de um hotel e preenchiam, como de praxe, uma ficha cadastral. No campo dedicado à profissão do hóspede, João grafou o termo “jornalista”, no que foi repelido pelo amigo que lhe exigia a substituição do termo por “escritor”, e dizia: Escritor, é isso que você é!

“A morte não existe, todos sabem”, diz-me um poema. Que tolice! Morreu João Ubaldo Ribeiro, estampam os jornais. Mas o fato é que morreu um escritor que soube nos mostrar um país verdadeiro, um país Made in Bahia, feito de gente comum, como os seus convivas da Ilha de Itaparica, com suas falas e trejeitos, muitas vezes tornados personagens de suas histórias, um escritor que exibiu o que de melhor e mais autêntico tem a nossa gente, ofuscando o grande mar de lorotas produzidas pelas vanguardas. Vanguarda, coisa nenhuma! Aliás, a única vanguarda que existe se encontra na linha direta que une, na língua portuguesa, Camões a escritores do porte de um João Ubaldo Ribeiro.

E quando morre um autor dessa envergadura, que nos traz a sensação de sermos herdeiros de uma tradição cultural fora do comum, pois edificada em nossa própria história, acontece o que estamos vendo: em todo o mundo leitores de João Ubaldo Ribeiro se consolam exibindo mensagens, em meios virtuais, que expressam o seu pesar, como se a literatura tivesse hoje todo esse prestígio, são linhas breves que parecem conter mais do que de fato apresentam. Como suportar tantos dias com um abalo emocional de tal intensidade?

Ainda ontem, sabendo que novamente assistiria Deus é brasileiro, resolvi reler “O santo que não acreditava em Deus”, crônica de Ubaldo que deu origem ao longa-metragem, mas não farei comparações. Não direi que a crônica é melhor que o filme. Deixemos isso pro Nelson Pereira dos Santos, que é da Academia Brasileira de Letras, como o João foi, e estamos conversados.

Sei apenas que a definição do gênero literário “crônica” é muito ampla e variável, até já escrevi sobre o tema, defendendo que o caráter ficcional amplifica a sua qualidade artística. Entretanto, me parece que “O santo que não acreditava em Deus” está mais para o conto (anedótico) que para a crônica, pois não encontramos no texto nenhum resquício do hibridismo entre a ficção e a realidade como tal, excetuando a possibilidade de analisá-lo através dos meandros das entrelinhas, ou seja, pelo viés da alegoria.

Disse anteriormente que ontem li uma crônica do João Ubaldo Ribeiro, isso equivale, ao menos para mim, dizer que ontem estive com João Ubaldo Ribeiro. Agora, essa notícia. Lembrei-me inevitavelmente da última vez que estive na festa do seu aniversário, em Itaparica, creio que em 2010. Estava na companhia do poeta Bernardo Linhares, vizinho de João. Encontrávamo-nos no saudoso Bar do Capitão quando ele chegou acompanhado por uma filha. Bebíamos, mas João, por recomendação médica, estava na fase do guaraná. Ele tinha lá a sua marca preferida do refrigerante, mas como não ganho nada a mais com isso não revelo qual era. Como se isso tivesse alguma importância para essa crônica. Relevante mesmo é dizer que a filha insistia a todo instante para voltarem à casa, mas João reiterava pedidos por minutinhos a mais. E assim, outro dedo de prosa.

O papo, como de costume, suscitava em nós largas gargalhadas e fazia a alegria dos que se encontravam próximos, o motivo da pilhéria foi o resultado da eleição para Miss Gay, que acabara de acontecer e que elegeu como rainha uma figura muito sem graça, contrariando a opinião do público e em especial a de Bernardo Linhares, o rei da galhofa, que, insatisfeito com o pleito, a todo momento recitava epigramas contra a comissão julgadora e contra o pobre do Sapoti, organizador do evento e agitador cultural durante os verões itaparicanos.

Não demorou muito e estávamos descendo o cacete nos escritores que vivem de afagar o ego alheio e de conchavos escusos. Tudo em nome da boa literatura. E Bernardo, como sempre, recitando epigramas contra os seus desafetos, trago um deles até hoje na memória:

 

………………….Desde que penetrou
………………….lá na velha academia,
………………….a cadeira que ocupou
………………….não é mais vaga, é vazia.

 

João, que era compadre de um dos maiores desbocados da Bahia, o mestre Ildásio Tavares, adorava. Quando o papo pendeu pro campo minado da política, ele encontrou a deixa que precisava para ceder aos apelos da filha, não sem antes deixar-nos uma anedota digna da sua verve cômica. Debruçado sobre a mesa e com um tom de voz mais baixo que de costume, gesticulava e pronunciava um calão monossilábico indicando o orifício em que o ex-presidente Lula havia perdido, segundo ele, o dedo mindinho. Não houve santo que ficasse indiferente.

E lá se foi João Ubaldo Ribeiro. Acompanhei seus passos desassossegados até o perder de vista, sem imaginar que seria aquela a última vez que estaria na sua companhia. Agora o sacana vai contar as suas histórias em outra freguesia e eu acho que Deus está muito contente com isso.

 

Gustavo Felicíssimo é escritor e editor da Mondrongo Livros.

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95ª Leva - 09/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Yara Camillo

 

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

CHEGAR JUNTO

 

Desta vez chego sem voltas. Acabo de cortar o parágrafo que abria este conto, a introdução considerável que escrevi para evocar prima Jaci e nossos jogos-meninos. Explicar quem é Jaci, como fomos parar na mesma escola e na mesma casa depois da morte da avó, como isso e como aquilo, até que o miolo das coisas se perca, se esfarele em minhas mãos, desta vez não.

Digo apenas que eu e Jaci, quando crianças, gostávamos muito de cantar, e como perturbávamos demais os semelhantes e dessemelhantes com esse costume que nos arejava a alma, desenvolvemos uma habilidade notável, de modo que nos passeios com a turma do colégio, no ônibus ou metrô, conseguíamos às vezes cantar uma estrofe inteira de boca fechada ou quase, os lábios se movendo de forma imperceptível, o suficiente para a passagem do som, que como um gato se alongando entre grades flanava pelo coletivo, encafifando uns e outros. No final da estrofe, a coisa começava a pegar. A turma se olhava com ares de quem ouviu o galo cantar, sem saber onde. Não haveria, para nós, aplauso mais lisonjeiro. Com a corda toda, passávamos para a segunda estrofe, abusávamos do volume e da sorte, até que o professor se levantava, olhos e dedo em riste, buscando o criminoso. Acabávamos delatados, não pelos colegas, mas por nosso ar de bem cuidada inocência.

Já quando tomávamos o metrô sozinhos, a tática era outra. Buscávamos bancos separados e, com um rápido olhar, decidíamos a música.

Começávamos baixinho, com o trem ainda parado, mas já de portas fechadas. Depois ele partia, ganhava velocidade e nós volume, num crescente, fortíssimo, fortissíssimo, até o máximo, além do máximo. Daí chegávamos à próxima estação, ou ela que chegava a nós, de vez em quando era assim que acontecia.

Com o trem de portas abertas e nós de goela fechada, esperávamos o próximo ato. Nesse momento, que precedia a continuação do jogo, aprimorávamos nossa arte, exercitando em bocca-chiusa a próxima melodia, para que a voz, liberta, fosse de novo o gato que vencendo as grades ganhasse a rua e uma boa farra. Em palavras outras, para que nossa música tocasse o passageiro ao lado que, se portador de bom ouvido, daria um sinal de vida, ou seja, nos olharia de relance, com aquela dissimulação – que nunca enganou ninguém – travestida de bom-tom.

Quando isso acontecia, quando o passageiro ao lado nos olhava de lado, era uma alegria só, porque a ponte estava armada e isso nos franqueava outro estágio do jogo, muito mais arriscado, um pulo no vazio, o contato. Para confirmar a legitimidade do dom musical, ou ao menos auditivo, do passageiro, repetíamos o primeiro estágio… O metrô parava e nós também; o metrô começava a andar e nós começávamos a cantar; o metrô acelerava e nós também; o metrô gritava nos trilhos e nós gritávamos como loucos; e com o coração aos saltos, em contraponto com o ar impassível e a boca-de-siri, recebíamos a resposta: se o passageiro nos olhasse de repente, na nota mais aguda e com indisfarçável estranheza, a confirmação ali estava. O homem tinha ouvidos mesmo. Se não, se abrisse um jornal ou mexesse na carteira ou apenas consultasse o relógio, indicando uma disposição de indiferençafinal de jogo.

A dificuldade seguinte resumia-se em controlar o impulso de chutar a canela do pobre idiota, ou gritar um palavrão. Era um parceiro que não valia a pena. E quase não havia nada que nos deprimisse mais.

Agora: se estivéssemos com sorte, se o parceiro chegasse junto – como costumávamos dizer –, mostrando-se mais curioso ainda, aí sim, o jogo decolava, coisa de veteranos, não de principiantes.

Dividíamos esse estágio em sete tempos: 1, entrega-se o intrigado. 2, posicionam-se os palhaços. 3, vamos ver essa esperteza. 4, é mais que certo que o tipo não tira os olhos de nós. 5, que vai fingir-se atento ao geral. 6, menos ao que realmente lhe interessa. 7, porque agora tudo pode acontecer.

Desfechos memoráveis não faltam para coroar os jogos daquele tempo, desde um maestro que nos levou para um coral formado por ex-delinquentes e bancado pelas bibliotecas municipais, com direito a uma bolsa que era quase o que meu pai ganhava nos Correios, até uma encrenca dos diabos, uma dona dizendo que era professora de violino e nós encantados, porque eu sempre quis aprender violino, pinicar aquelas cordas, empunhar aquele arco, seria minha chance, eu pensava, a anos-luz da realidade, mas a mulher só queria nos seduzir, e não estou falando daquela trepadinha rápida, isso aí geralmente me agradava, Jaci não, fazia um drama danado, já eu era tranquilo, a sedução que me arrepiou foi o negócio dos escoteiros, a dona era chefe-não-sei-do-quê, quando dei por mim havia me empulhado um hino pavoroso; com a desculpa das aulas grátis arrancou-me a promessa de que no dia seguinte, às cinco da manhã, eu estaria na praça para hastear a bandeira e prestar juramento, mas acordei a tempo. Já o mesmo não se deu com Jaci, que acabou embarcando na estória a sério, e isso durou meses, com severo prejuízo de nossos jogos a dois, todos eles.

Depois, não vi mais a prima Jaci. É verdade que nos encontrávamos naquelas reuniões de família, todo mundo sabe que quase não há como escapar… Nos encontrávamos, mas não voltamos a nos olhar com aquilo que, para mim, era a mais-valia de nossa infância desperdiçada por tanta aporrinhação da ala séria da família que agora cobrava, de nós, a continuação da novela: tínhamos crescido e pretendíamos o quê? Sempre achei difícil, senão impossível, responder a isso. Eles, não. Pareciam ter certeza do que queriam: que atormentássemos os pequenos com a mesma gana que tinham nos dedicado. Recusei-me e, ao que parece, Jaci também. Nunca nos casamos. E se tivemos filhos foi por aí, fora dos sagrados laços com que as famílias sufocam seus bebês, manufatura de imbecis em franca progressão. Não há como escapar, dizem eles a qualquer sinal de rebeldia, por mais tímido que seja, até que a incansável repetição estabeleça de vez a desesperança, levando a crer que não há porquê. E perder o porquê (assim falou Jaci, num porre de Páscoa) é perder o eixo. Eu não seria tão veemente. Não fui.

Agora, depois de todos esses anos e eternidades, a caminho de um fim que me assusta quase tanto quanto me seduz, um dia ou outro, quando acordo de bom humor, eventualmente esquecido do desconforto e das dores, arrisco uma viagem de metrô e volto a jogar… É verdade que já não sou meticuloso na escolha do parceiro, que me sento em qualquer banco (muitas vezes quase me sentam, porque todo mundo sabe o quanto é insultuoso um velho recusar tamanha gentileza), enfim, não sou mais aquele veterano. Que falta me faz Jaci, alguém a quem piscar um olho. É verdade tudo isso. Mas quem é rei não perde o cetro, o sestro da majestade, ainda sei cantar de peito aberto e boca fechada.

O problema não é esse. O problema é que ninguém liga para um velho cantando no metrô. Nesses tempos de obsolescência programada, ou já em qualquer tempo, não há viagem que sempre dure nem loucura que nunca se acabe.

Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cleberton Santos

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

Insolubilidade

para Mário Quintana

Da insolubilidade das coisas
nasce uma canção petrificada.

Enquanto a violeta da tarde
agoniza sob meus olhos
fincados no horizonte chumbo.

 

 

***

 

 

Escombros

 

Em cada passo destas horas
a imbecilidade do amor
aguda dor sobre meus ombros.

Em cada escombro desta noite
a terneza do esquecimento
silêncio marítimo que me devora.

 

 

***

 

 

Minotauro

 

Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.

Esfaqueado, Teseu perambula entre
as muralhas,
inutilmente lúcido.

 

 

***

 

 

Poema Sexagenário

a Antonio Brasileiro, com chapéu

Um poeta caminha sob teu chapéu. É ríspido.
Em passos largos de ternura e demência
caminha sem mapas sem deuses.

Em teu peito ardem solidões esquecidas.
Um poeta é mais que horizontes. É poesia.

Teu canto fere a surdez dos loucos
e embriaga a lucidez dos pássaros.

A poesia renasce na aba do teu chapéu.

 

 

***

 

 

Concerto para ninar calangos

 

Silêncio tecido de dor e violinos
crava em meu peito
concerto estapafúrdio
para ninar calangos opalinos.

 

Cleberton Santos é poeta, crítico literário e professor do IFBA campus Santo Amaro. Foi vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima, da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, em 2002. São de sua autoria os livros de poesia Ópera Urbana (2000), Lucidez Silenciosa (2005), Cantares de Roda (2011) e Aromas de Fêmea (2013). Em 2007, recebeu o Prêmio WALY SALOMÃO da Academia de Letras de Jequié/BA. Tem poemas e artigos publicados em antologias, jornais e revistas literárias. Publicou ainda o livro Estante Viva: crítica literária (2013).

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Patrícia Porto

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

 Animatopia

 

Porque era um corpo de imagens,
uma ciência fugaz, como a vida,
carregava sonhos e sopros que não cabiam fora de si.
Do si mesmo inventou a solidão,
Do si mesmo deu para falar
e entender uma nova linguagem,
a dos corpos não-domesticáveis
no corpo nu da poesia, uma cicatriz propositada.
Um corpo que se dobra à curvatura do espaço e tempo
que deu para saltar com os pés
as dobras do tempo, um labirinto.
Deu para ser o tempo dobrado sobre seu corpo.
Na solidão fabricada de novas memórias, seu desafio:
conhecer a anatomia desse novo animal
curvando-se ao espaço.
Amar esse animal
e deixar-se avistar por Ele.

 

 

***

 

 

Nessas horas pequenas

 

espiava por dentro
à minúcia
na imagem da imagem
na imagem: a mise
flores de árvores pequenas
flores adultas delicadas
istmo de partitura
sombras da melhor cama de deitar um nu

Com sua lente macroscópica de verdades
ampliava ao máximo as dúvidas sobre se eu era mesmo
a flor a rocha o poeta o vaso

e sempre me angulava em lupa
a incerteza do olhar
É você aqui nesta dobrinha de hora?

Nessas horas pequenas sutilezas me fogem.

 

 

***

 

 

Devaneio

 

O verso úmido de devaneio
Nenhum salto sobre a língua
nenhum sobressalto
e os dias são de frieza
e o sentido cego
em suspenso

Eu de vaneio
traindo o verso,
amolando a rima
na pedra

 

 

***

 

 

Entrei!

 

Essa porta eu inventei
Eu abri com minhas próprias mãos,
às vezes com os punhos cerrados
Não me arrependo do caminho,
eu também estava perdida
Fui violenta. Fui mártir. Mas, sobre tudo, fui doida
A doida que inventa portas onde nada mesmo
foi construído pra ela

 

 

***

 

 

Grande desafio

 

Manter-se vivo
Manter-se com os olhos abertos
e ser ao mesmo tempo comunicável
Cada homem carrega a sua cela
Cada mulher, o seu útero
Cada cidade, o seu beco
E o Rato, cada rato carrega a liberdade
do incomunicável

Cada rato carrega o susto
do incomunicável

 

Patricia Porto é professora Universitária e Poeta, especialista em Alfabetização e com Doutorado pela Universidade Federal Fluminense. Publicou o livro acadêmico indicado pela UFF ao prêmio Capes: “Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura”, o livro coletivo “Professora-pesquisadora: uma Práxis em Construção”, os livros de poesia “Sobre Pétalas e Preces” e “Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos”.