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95ª Leva - 09/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood). EUA. 2014.

 

Cartaz Boyhood

“– Sabe quando dizem ‘aproveite o momento’?
Não sei, mas acho que é ao contrário.
Como se o momento nos aproveitasse”.

 

Você recebe um telefonema. O interlocutor pergunta:

“– O que você vai fazer nos próximos 12 anos?”

Se tal questão já seria suficientemente inusitada num diálogo qualquer, saiba que o autor da ligação era o cineasta Richard Linklater convidando a atriz Patricia Arquette para um verdadeiro experimento cinematográfico. O diretor que idealizou rodar um filme por década com o casal Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), em Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), desta vez propunha algo ainda mais audacioso: acompanhar a vida de um garoto (e de sua família), dos 6 aos 18 anos (ou da infância à juventude, como reitera o redundante subtítulo nacional). O processo – mantido em sigilo – teve início em 2002 e a cada ano os atores se reuniam para alguns dias de filmagem (um total de 39 dias em 12 anos). Apenas o argumento de Linklater já valeria um Oscar, uma Palma, um Urso, porém Boyhood vai além de qualquer premiação plausível.

Durante quase três imperceptíveis horas, acompanhamos cronologicamente o crescimento de Mason Evans Jr. (Ellar Coltrane) e de sua família, formada pela irmã mais velha Samantha (Lorelei Linklater, filha do cineasta e dona de algumas pérolas do filme quando pequena) e pelos pais Olivia (Patricia Arquette) e Mason (novamente Ethan Hawke), que já estão separados desde o início da trama. O garoto precisa lidar com a distância do pai, que tenta reestabelecer o vínculo com os filhos, com os relacionamentos amorosos da mãe (por que diabos escolhemos sempre o mesmo tipo de parceiro?), com as mudanças de cidade e escola, as primeiras paixões, entre outras agruras do viver. É bem verdade que o cabisbaixo Mason não é uma pessoa qualquer, é observador, introspectivo e sensível como poucos. Sua vida é tão comum quanto a minha ou a sua, e é exatamente essa magia da banalidade que Linklater consegue retratar. A narrativa faz uma ode ao tempo, com todos seus pormenores cotidianos e [in]significantes. É a vida como ela é: uma sucessão de dias bons e ruins, com transformações internas e externas, ora sutis, ora arrebatadoras.

Cena do filme Boy Hood
Mason filho (Ellar Coltrane) e Mason pai (Ethan Hawke) / Foto: Divulgação

Com roteiro e direção impecáveis, Linklater constrói uma história universal e de uma simplicidade ímpar, sempre calcada em longos diálogos – sua marca registrada – e atuações seguras e carismáticas. A passagem dos anos se dá de modo natural, pontuada discretamente por um novo corte de cabelo de Mason ou uma canção da época. Aliás, a trilha sonora funciona como um personagem à parte, que vai de Coldplay à Arcade Fire, de Paul McCartney à Family of the Year, assim como referências culturais e políticas, como Harry Potter, Star Wars, Bush e Obama. Boyhood é um daqueles clássicos modernos que visitam memórias e tomam chá com nossa nostalgia. Impossível não esboçar um sorriso ou uma lágrima cúmplice com o protagonista ou qualquer outro personagem. Somos todos da família de Mason – às vezes fazendo escolhas, outras sendo surpreendidos por elas –, narradores desse enigmático acaso chamado viver.

 

 

 

Larissa Mendes deve parte de sua ‘girlhood’ à Linklater e sua trilogia do Antes.

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Olhares

Olhares

O idioma das sutilezas

 Por Fabrício Brandão

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

São mãos a percorrer rostos e gestos. Pequenos universos a abrigar também a intensidade natural das cores escolhidas. O resultado aponta para o surgimento de um traçado irreverente na observação da vida. Dada a multiplicidade de tons, a arte da mineira Rebeca Prado revela-se um misto de doçura e inquietude, quiçá um contraponto dentro de um jogo necessário de equilíbrios.

Eis que não nos basta mencionar a convergência entre sentimentos supostamente opostos. De fato, não. E o que Rebeca propõe reside num plano simultaneamente concreto e intangível. Palpável na medida em que nos incita a sermos personagens de suas representações de mundo. Imponderável quando os ambientes sugeridos fazem parte de uma ampla dimensão na qual a abstração pretende-se inteiramente livre.

Há sutileza nos temas propostos. No entanto, o convite da artista é para que façamos um uso muito mais reflexivo sobre tudo. Num rico painel que agrega níveis complexos de delicadeza, Rebeca incita-nos à provocação. Assim, pequenos fragmentos cotidianos e seus cenários perfazem arremates certeiros em nós. Seja pela pungência do elemento crítico, seja pela evocação de alguma serenidade, ilustrações e desenhos servem a um ideal vigoroso: não passamos impunes diante da beleza e do espanto da vida.

E como, por natureza, somos seres recorrentemente míopes, a acidez do tempo vem quebrantar os laços confortáveis. Ainda assim, os incômodos não conseguem superar os dotes de uma ternura reinante, verdadeira arma do olhar. Tanto nos postais quanto em boa parte de seus desenhos e ilustrações, Rebeca não abre mão de suas lúcidas leituras de mundo. Se a atitude crítica permanece vigilante, os recursos poéticos também assumem seu lugar. Nesse movimento, as tensões internas harmonizam-se a favor de um conceito orgânico em matéria de arte.

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

 Apesar de sempre ter gostado de desenhar, já passou pela cabeça de Rebeca a vontade de ser astronauta e bióloga. Hoje, sobretudo como ilustradora, quadrinista e professora de desenho, ela revela-se ávida por tudo o que o mundo é capaz de lhe proporcionar em termos de imagem. E verter isso em criações também deriva de influências das mais variadas possíveis, como o design gráfico, quadrinhos, arte urbana, animação e ilustração infantil.

O momento atual da artista contempla a feitura de tirinhas, divididas em duas séries, “Navio Dragão” e “Sutil ao Contrário”, ambas publicadas semanalmente em sua página. Vale ressaltar que, nesse território, o humor aguçado e inteligente pontua marcantemente as criações. Rebeca também confecciona diversos materiais gráficos para venda, como pôsteres, postais e quadrinhos, além de integrar o “Selo Maritaca”, de quadrinhos independentes.

A arte tem uma propriedade bastante especial de romper estruturas embrutecidas. Quando se afirma isso, podemos considerar que uma das facetas dela é a de viabilizar uma apreensão menos pesada de tudo que nos acomete. Sem perder a porção inquieta e incomodada da existência, carregamos conosco os dotes inalienáveis da fantasia. No curso dos mares da abstração, ir além é um imperativo. Expondo sua rota, Rebeca Prado nos empresta sua bússola.

 

Rebeca Prado

 

* Os desenhos, ilustrações, tirinhas e postais de Rebeca Prado são parte integrante da galeria e dos textos da 95ª Leva

 

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Willian Delarte

 ADORE AS ALMAS

 

tape os olhos e verá
que o mundo é um mar
de pontos de vistas

torne-se surdo e ouvirá
o que tanto
e tanto
as plantas falam

tente tocar
sem usar os dedos

ouse falar
com mais silêncios

e sentirá o fino sabor
de um deus redescoberto
na fôrma ou na forma
de ingredientes

(secretos)

 

 

***

 

 

SEU NOME

 

os amigos passaram, passou o amor,
a hora de morrer passou. a cadeira de balanço.
a palavra que não veio. a chuva lá fora.
o vento e seu nome.

passou a hora do lamento, a hora da chegada,
o momento de partir.

os olhos se voltam contra si.
há sombras por trás da retina.
há fantasmas corroendo os escombros.
há eco nos escombros. espectros desidratados.
a cadeira de balanço assovia seu nome.
a palavra que não veio.

no piscar dos olhos
passou o tempo de chorar. o sorriso que passou.
seu cadáver maquiado no meio da praça.
a palavra que não veio.

os pombos e a dança dos mortos.
seu nome na boca dos pombos.

 

 

***

 

 

INCENSÁRIO

    “à Fabiana Cozza”

sobe das frestas
das tumbas funestas
dos faraós

mira o ocidente
ó mirra, oriente
as cinzas, o pó

arruda
na porta, espada:
cada muda uma rajada
na lâmina da fé

de queimar, romper, rasgar
a redoma densa do ar –
fumaça imensa da guiné

se debilitado me sinto,
o escudo do absinto
no amor tece uma âncora

tal raio ou faísca
que no amuleto de almíscar
abrasa acácia, anis e cânfora

rosa branca, rosa amarela
erva doce, cedro e canela
defumam quarto e terreiro

irrompem portas do mundo inteiro

queima a dor
– incensa, defuma, queima
cheira a flor
– incensa, defuma, queima

o universo que arde o fim
dilata o cosmos dentro de mim
expande sândalo, cravo e jasmim

(sob as frestas de tumbas funestas
o amor é filho do pó de alecrim,
alfazema, benjoim –

e cheira a flor de laranjeira)

 

 

***

 

 

PAKU-PAKU

 

o santo come
o que é do homem
o homem come
o que foi deus

o céu come
canja
de verme

anjos na terra
quem come é ateu

a morte come
todos os planos

a morte come os anos

come os meus
come os seus

come< come< come< come<

 

Willian Delarte é autor dos livros “Sentimento do Fim do Mundo” (poesia, 2011) e “Cravos da Noite” (contos, 2014), ambos pela Editora Patuá (SP). Premiado no II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras (FFLCH) e finalista da 15ª edição do “Projeto Nascente”, todos da USP. Tem publicações em diversas revistas e antologias. Foi co-editor da revista Rebosteio Digital.

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

Articulador cultural, doutor em Letras, professor universitário, editor e fundador das editoras alternativas Estrada e Tulle, co-fundador da revista Hera (1972-2005), criador das coleções literárias Olho D’Água (1982) e Bocapio (1991), além da revista de poesia Duas Águas, com Pablo Simpson (Campinas – SP, 1997), estudante de flauta doce, compositor (parceiros: o catarinense Márcio Pazin, além de Carol Pereyr e Tito Pereira, seus filhos) e, sobretudo, poeta, Roberval Pereyr, filho de Antônio Cardoso – BA (1953) que sempre esteve ligado a Feira de Santana, onde reside desde 1964, é autor de diversos livros, dentre eles As roupas do nu (1981), Ocidentais (1987), O súbito cenário (1996) Concerto de ilhas (1997), Saguão de mitos (1998), Amálgama – Nas praias do avesso e poesia anterior (2004), Acordes (2010), Mirantes (2012) – prêmio da Academia de Letras da Bahia (2011) e 2º Prêmio Brasília de Literatura (2013) – e 110 poemas (2013). Publicou, ainda, A unidade primordial da lírica moderna (teoria da literatura, já na 2ª edição). Tem no prelo o livro A mão no escuro (desenho artístico).

Nesta vasta lista de feitos, aponto, como mencionei acima, Roberval Pereyr principalmente como poeta. Não apenas pela quantidade de livros publicados ou pelas premiações, mas pela dedicação à palavra, à literatura. Na entrevista que aqui segue, onde arrisco algumas longas perguntas, o caráter de cuidador do verbo, da poesia como instância fundamental da vida e de alguém que não se desvincula da escrita como orientação do ser em nada do que realiza, fica nítido. Quando penso na obra de Roberval ou na sua figura em sala de aula, lembro com insistência da música de Milton Nascimento, com letra de Caetano Veloso, inspirada no conto rosiano A terceira margem do rio. Não aventuro fazer qualquer analogia direta com o teor – enigmático – da composição ou da narrativa. O que acho que penso quando reflito sobre essa lembrança evocada pela “simbólica” de Roberval é na musicalidade metafórica e densa, tanto da canção de Milton e Caetano quanto da obra de Guimarães Rosa como um todo. Nessa estrofe certeira da música A terceira margem do rio, “Asa da palavra / Asa parada agora / Casa da palavra / Onde o silêncio mora / Brasa da palavra / A hora clara, nosso pai”, a despeito de qualquer interpretação, salta de imediato aos ouvidos e ao coração um ritmo longilíneo, marcado por assonâncias, aliterações e rimas intrigantes. É a força, a gravidade e a influência da palavra – fora toda uma referenciação ao universo do conto rosiano – que emergem de uma possível “leitura musical” dessa peça. Na história que inspirou a canção, o protagonista, que parte para o ermo do rio, tem a palavra silenciada; o que fala são seus gestos, seu vagar pelas águas, sua busca pela terceira margem. Na narrativa rosiana, a exploração da palavra (símbolo/significante/significado) é levada às últimas consequências. E é nisso que penso quando leio Mirantes, por exemplo. É o impacto de uma construção literária imbuída de musicalidade soberana que em momento algum compromete o jogo semântico do texto ou a fluidez de um dado tema, nem se dilui em excesso ou se pretende hermética. Pelo contrário. A obra desse multi-autor revela uma solidez pouco encontrada, que equilibra vigor semântico/temático e cadência rítmica de modo preciso. Na poesia de Pereyr, há o momento do silêncio e o tempo do embate:

Duo

 

Tenho um mestre que não conheço
e que me guia sem saber.
Não sabe meu endereço,
não sei seu nome: pra quê?

Só sei que me guia, e bem
ou mal
me deixo reconduzir
aos mesmos vãos do real
em que me perco sem ir.

E ele, sem me dizer,
me diz que tudo está certo;
ao que eu, sem responder,
respondo: fique por perto,
mestre,
que estou perdido.
E ele, sem existir, me diz:
sim, meu filho, sim.
E tudo perde o sentido.

 

E em todo o andamento há uma poética de pura música:

 

GALOPE

 

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).

Meus pensamentos são meus cavalos
Meus pensamentos são meus camelos

(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).

Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

 

Música feita do extrato da poesia plena, assim como a obra ficcional de Rosa. É poesia que não se mede, e que vaza na asa da palavra.

 

Roberval Pereyr
Roberval Pereyr / Foto: Arquivo pessoal

 

CLARISSA MACEDO – Roberval, trilhando uma longa e feliz carreira literária, conte-nos como tudo isso começou, como a literatura surgiu na sua vida e nela fez morada.

ROBERVAL PEREYR – Comecei a escrever aos 14 anos, mais ou menos (poemas, narrativas, etc.). Mas, antes mesmo de começar a escrever, me sentia tomado pelo que depois vim a identificar em Drummond como o sentimento do mundo. Sempre escrevi por uma necessidade: inscrever no mundo da linguagem o que o mundo escreveu (ou escreve) em mim. E escrevo porque tenho o que Rollo May chama “a paixão da forma”. Entre os vários poemas que criei pela necessidade de dar forma a essa necessidade de escrever (cada um deles trazendo facetas diferentes em torno do assunto), um, que está em Mirantes e que se intitula “Silhueta”, é assim:

……………..Escrevo: o tédio me ameaça.
……………..O tédio a que não tomo
……………..sequer uma data.

……………..Escrever não salva
……………..mas desdobra em calma
……………..o sofrimento, instaura
……………..o silêncio
……………..onde enfim me enredo contra o horror da estrada.

……………..Escrever é meu credo:
……………..credo que consiste em não crer em nada.

 

Mas também escrevo pelo gosto da “Cantiga” (primeiro poema de Mirantes):

…………….Mares do avesso
…………….navego.
…………………….Perigoso, o ego
…………………….mil endereços me dá.

……………São falsos, eu sei, são falsos.
……………Mas é bom navegar.

 

Poderia continuar com a citação de muitos outros poemas que fiz na tentativa de traduzir a minha necessidade de escrever, e ainda assim não estaria satisfeito. Sei que se trata de uma necessidade, mas uma necessidade que não se deixa traduzir, jamais, de forma cabal e definitiva. A origem da criatividade (como, de resto, qualquer origem) perde-se no insondável, tem sua reserva de mistério. Mesmo que esse mistério, como queria Fernando Pessoa, não seja, ao final das contas, mistério algum. Mas dizer isso (ou ler isso) pode deixar-nos, paradoxalmente, ainda mais inquietos. Voltando à questão proposta, poderia simplesmente dizer: escrevo porque escrevo. E é tudo. E é só. E não é. O problema, assim, se repõe inteiro. Por isso, neste ponto sinto-me tentado a calar-me. A propósito, Fernando Pessoa, ele mesmo, é o tradutor exímio de um livro difícil e belíssimo, inspirado na sabedoria tibetana, intitulado A voz do silêncio. Quem está apto a escutá-la? Mais ainda: a dar-lhe uma (não)forma? Talvez os poetas e os grandes mestres orientais. Eu, não. Mas espero.

CLARISSA MACEDO – Partindo dessa necessidade mencionada acima, desse “escrevo porque escrevo”, que se alarga e se confunde em sua própria indefinição, o homem que não escreve – por falta de expressão melhor –, paradoxalmente, busca cada vez menos a epifania literária. Como você vê o escritor – esse ser que não sobrevive sem a escrita – na sociedade contemporânea? Há um lugar, ou um entre-lugar, para aquele que escreve?

ROBERVAL PEREYR – Em primeiro lugar, não acho que, necessariamente, “o homem que não escreve busca cada vez menos a epifania literária”. O leitor criativo, mesmo não sendo escritor, pode muito bem vivenciar, no seu envolvimento com o texto literário, momentos luminosos e reveladores. Quanto à pergunta que você faz, posso respondê-la dizendo que o lugar do escritor é, primeiramente, aquele que ele cria com (e na) sua própria linguagem. O escritor é um criador de mundos, que ele habita e que o habitam. No ato criativo, ele se encontra consigo mesmo, e esse encontro inclui o seu mundo e a humanidade. Esse mundo da obra (refiro-me a obras autênticas, escritas com engenho e arte, e por necessidade) se ergue estabelecendo tensões com o mundo de todos (ou de ninguém). Essas tensões se traduzem não raro como testemunho, recusa e denúncia. Portanto, é de se esperar que o mundo utilitário, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos (retratado e denunciado de muitas formas e em muitas dimensões nas obras literárias) retire dos álbuns o retrato do escritor e dos catálogos os títulos dos seus livros. Exceção feita, é claro, aos best-sellers, quase sempre dóceis e sempre lucrativos. Assim o escritor, em sua normalidade, vai precisar fazer outras coisas para sobreviver. Ser, por exemplo, professor, como eu. Mas, de uma forma ou de outra, sempre foi assim, e não acho, sinceramente, que as coisas possam mudar. E quando digo “as coisas”, quero dizer: a humanidade. Ao escritor cabe então levar em conta o que Octavio Paz denomina “as imensas minorias”. Felizmente, elas de fato existem e podem ser encontradas no mundo inteiro.

CLARISSA MACEDO – O homem que não escreve – por falta de expressão melhor – referido acima, seria esse grande público que não se interessa pelo literário e que vivencia o “mundo utilitário, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos”, do qual, de alguma maneira, ninguém está livre. Nesse sentido, grandes polêmicas têm cercado a literatura, como as acusações de preconceito racial dirigidas à obra de Monteiro Lobato e o rótulo de elitista direcionado a Machado de Assis. Por isso, seria necessário simplificar Machado e retirar Monteiro Lobato das livrarias. Tais investidas, por assim dizer, teriam o objetivo de democratizar a literatura. O que você pensa sobre isso?

ROBERVAL PEREYR – Em primeiro lugar, acho que tais investidas não poderiam jamais contribuir para democratizar nada, pois me parecem frágeis e autoritárias: ao que tudo indica, refletem uma postura daqueles que, em função de seus interesses e de suas ideologias, se acham no direito dizer como as coisas, as pessoas e as obras de arte devem ser, ou têm de ser. Todos nós, pelo fato mesmo de lidarmos com conceitos, tendemos a ser preconceituosos, isto é, a usar nossos conceitos de forma irrefletida e inadequada. Por isso mesmo penso que toda crítica, para ser libertadora e produzir conhecimento válido, tem de ser também autocrítica, no sentido de pensar a realidade pensando a si mesma, buscando permanentemente adequar-se às situações e indagações que o seu objeto suscita. Preciso lidar cuidadosamente com meus conceitos e meus preconceitos, sob pena de me transformar na primeira vítima deles.

Em segundo lugar, essas investidas parecem evidenciar uma ignorância básica sobre a arte (entre elas, a literatura): qualquer obra de arte que seja didatizada (para “facilitar” ou “simplificar” o que quer que seja), ou criada colocando em primeiro e único plano uma ideologia, tende a virar propaganda. Vira meio para, vira instrumento, unilateraliza-se. Ou seja, se transforma em tudo que a arte não é. A obra de arte, mesmo quando eventualmente incorpora uma limitação (da sua época, do seu autor, ou de ambos – o que, até certo ponto, é inevitável), existe para, sob certo sentido, tensionar com essa mesma limitação, ou com quaisquer outras. E isso se dá pelo fato de que toda autêntica criação artística é, constitutivamente, multidimensional, polifônica, plurifacetada, não porque suprima a ideologia (o que seria impossível e até indesejável), mas por multiplicar e entranhar em seu tecido as mais diversas visões, e em situação, isto é, de forma dramática. A obra que tiver, de fato, essa característica traz em sua própria “natureza/função” os sinais e as possibilidades da diferença. É o que podemos constatar, por exemplo, nesta passagem de um poema de Antonio Brasileiro, que de forma muito oportuna me vem agora à cabeça: “A verdade é uma só: são muitas./E estamos todos certos. E sem rumo.” Na obra de arte, as “verdades” do seu próprio autor, que porventura nela estejam explicitadas, oscilam, vacilam, e isso é suficiente para que o leitor (com suas verdades e limitações) possa se posicionar, mas ao mesmo tempo sentir a oscilação de suas próprias convicções, desde que seja um leitor sensível, aberto, flexível: desarmado em relação ao novo e ao outro, mesmo que com ele não se identifique. A propósito, a literatura é uma desarticuladora de identidades fixas, isto é, artificialmente constituídas, e o faz precisamente por encenar e fazer proliferar as visões de mundo e os móveis lugares de onde essas visões vão se evidenciando e se problematizando. Ou seja: no que se refere ao labor com as palavras, penso que a literatura é, no melhor sentido, a linguagem mais generosa e democrática que pode existir. Tolera inclusive a contradição, quando é fecunda, como a que se evidencia, por exemplo, na afirmação: para ser eu mesmo tenho que ser sempre outro (afinal, ainda hoje repetimos com Heráclito: ninguém desce duas vezes o mesmo rio). O que não significa, evidentemente, que o bode tenha que se transformar em carneiro. Feita a ressalva, podemos dizer que a singularização não exclui nem a mudança, nem a pluralidade. Indivíduo é aquele que se singulariza porque não se divide, porque está enraizado no todo, e o todo, no caso, é o que há de comum a todos. O todo é a mãe invisível que pare todas as singularidades. Assim, às diferenças de superfície, penso que devemos associar uma identidade básica, que, no meu entender, está aquém e além das ideologias, sob pena de transformarmos originalidade em intransigência, singularidade em identidade fixa, respeito à “Verdade” em fanatismo e cegueira. Ou de pregarmos a democracia com um discurso que traz a marca da intolerância para com a diferença em sua radicalidade. É muito comum a aceitação da diferença apenas dentro do enganoso círculo do mesmo. Para respeitarmos efetivamente a diferença, devemos ter, com Sartre, a coragem de aceitar que “o inferno são os outros”. Essa aceitação me parece ser um ponto de partida sincero que nos fará compreender até onde podemos ir no terreno do outro, que é, a um só tempo, fonte inesgotável de fascinação e repulsa, e não necessariamente uma instância da realidade a ser erradicada.

Diante de tudo isso, censurar, excluir, “simplificar” (que muitas vezes, além de uma intolerância em relação às inesgotáveis e necessárias possibilidades de lidar com as formas e os significados, implica ainda uma subestimação da capacidade do leitor) são verbos que não têm nenhum cabimento, embora reflitam posturas que estão na moda, e em larga escala, inclusive na academia. Arremato, então, com um breve poema de minha autoria, intitulado Nudez, aparentemente contraditório em relação a certas afirmações que acabo de fazer, e que por isso mesmo vem a calhar: “Não quero ser simples./Uma flor não é simples:/é uma flor. E não cede.”.

Roberval Pereyr
Roberval Pereyr / Foto: Arquivo pessoal

 

CLARISSA MACEDO – Além de escritor, como já foi dito, você é professor e também investe na produção cultural, organizando, por exemplo, parte da Feira do Livro de Feira de Santana. Como conciliar atividades que, ao mesmo tempo em que estão relacionadas, exigem tanto? Em que medida o poeta Roberval mergulha em cada uma delas? O que o outro, ou outros, essa “[…] fonte inesgotável de fascinação e repulsa” (aproveito essa fala de forma ressignificada), tem a dizer?

ROBERVAL PEREYR – Já disse em outras oportunidades que tudo que faço é como criador. Quando edito o livro de um amigo ou de um aluno, o que tenho feito ultimamente através da Tulle, editora alternativa sem fins lucrativos que criei e coordeno, sinto uma grande alegria. É a alegria de participar do surgimento de algo. Quando entro numa sala de aula, tenho sempre a sensação de que algo novo pode ou vai acontecer. E o que vai acontecer é o que Rollo May aponta como algo indispensável a todo ato criativo: o autêntico encontro. A minha participação voluntária na Feira do Livro – Festival Literário e Cultural de Feira de Santana, por exemplo, é também motivada pela expectativa de contribuir, ao lado de muitas outras pessoas, para que certas coisas significativas aconteçam em Feira de Santana, e que aconteçam como encontros desejados, porque criativos. E desejados não só por mim, mas por várias pessoas que organizam e/ou aguardam o evento.

A minha atuação como orientador no Mestrado (UEFS), para dar mais um exemplo, é também encarada como uma jornada criativa, que implica encontros, cumplicidades, achados, o que inclui, sem dúvida, incertezas, angústias, mas também momentos luminosos. Tudo, obviamente, com muito trabalho e envolvimento, e esperando, por parte do outro ou dos outros envolvidos, o mesmo grau de empenho e dedicação. Em tudo isso, é preciso frisar, fica implícita uma coisa: o que faço com empenho e criatividade é o que gosto de fazer. Somente dessa forma podemos nos aproximar do que Henry Miller afirma ter alcançado na maturidade e que expressou com esta frase exemplar: “Tudo que faço é por pura alegria”.

CLARISSA MACEDO – Falemos um pouco de Hera – importante revista que por mais de 30 anos divulgou literatura e artes plásticas. Como foi a experiência de estar na gênese dessa que foi/é, além de uma revista, um movimento artístico?

ROBERVAL PEREYR – Hera (1972–2005) foi uma grande experiência coletiva. Uma experiência que perdura, já que muitos daqueles que constituíram a base do movimento por ela protagonizado (a exemplo de Antonio Brasileiro, que foi o iniciador de tudo, Assis Freitas Filho, Iderval Miranda, Juraci Dórea, Luis Pimentel, Luiz Valverde, Nanja, Rubens Alves Pereira, Trazíbulo Henrique Pardos Casas, Washington Queiroz e Wilson Pereira de Jesus) continuam atuando. E são muitos os desdobramentos de sua atuação, sob a forma de livros, revistas, exercício da docência, encontros, oficinas, projetos de pesquisa, intervenções, dissertações, teses, artigos, etc. Disso tudo resultam novos desdobramentos, diretos e indiretos, cujas repercussões fogem, felizmente, ao nosso controle. Para mim, esse é o primeiro e o maior dos sentidos relacionados à Hera, isto é, ao movimento que ela gerou, para além mesmo da literatura.

Enquanto co-fundador da Revista Hera, que dirigi, sempre em parceria, em 17 dos seus 20 números, posso dizer que, sob certos aspectos, e a partir dos meus 18 anos, confundo a minha história com a dela. Acompanhei (muitas vezes, em companhia de Brasileiro, Wilson, Cremildo Souza, Gastão Correia, Washington, Wilson e Juraci) a preparação e a feitura de cada um de seus números (cerca de metade deles impressa em tipografia), em várias gráficas de Feira de Santana (somente 2 números foram impressos em Salvador). Além disso, fui o único a publicar em todos os números de Hera. Esses números foram reunidos e publicados em edição fac-similar, volume único, em 2010, pela Universidade Estadual de Feira de Santana, em parceria com a Fundação Pedro Calmon. Trata-se de um volume de mais de 700 páginas, que reúne quase mil obras de 100 autores diferentes, cerca de 50% deles neófitos, muitos ainda inéditos à época em que se candidataram a publicar na revista. E o que mais impressiona, sobretudo por ser uma revista que publicou – ao lado de poetas consagrados – muitos autores iniciantes, é a sua qualidade. Hera foi, efetivamente, uma revista geradora. Enquanto existiu, plantou e colheu. Aliás, continua colhendo. Para mim (e para meus companheiros) ter participado (e continuar participando) desta história, desde o início, tem um sentido muito especial.

CLARISSA MACEDO – Mirantes ficou entre os vinte finalistas do prêmio Portugal Telecom 2013, recebeu o Braskem Academia de Letras da Bahia, em 2011, e venceu na categoria Poesia do 2º Prêmio Brasília de Literatura. Um marco e tanto para qualquer escritor. O que essas premiações significam na sua carreira?

ROBERVAL PEREYR – Significam que minha obra aumenta suas chances de alcançar um número maior de leitores qualificados, num país de poucos leitores e num mundo em que os criadores, no campo da arte, com raras exceções, são escanteados pela lógica do consumismo desenfreado em função do lucro e invisibilizados pelos meios de comunicação a serviço dessa lógica. No lugar dos criadores, a bem sucedida legião da mesmice (que já cheguei a chamar de “mesmice dinâmica”) e da mediocridade. Aos membros dessa legião, basta apenas um atributo: algo que eles mesmos chamam de carisma. Mas voltemos aos prêmios e à minha obra: alcançar um número maior de leitores significa a possibilidade de multiplicar encontros com – e entre – aqueles que constituem “as imensas minorias” e que, como já disse, podem ser encontrados em todas as partes do mundo. Quando me refiro a encontros, estou querendo dizer que não me interessaria alcançar uma quantidade maior de leitores a qualquer custo, já que, a qualquer custo, quantidade subtrai qualidade. Seria colocar a vaidade e a estupidez (e – o que não é o caso – o dinheiro) acima, por exemplo, da indescritível alegria que significam os encontros que a arte (no caso, a poesia) pode proporcionar. “Uma coisa bela é uma alegria para sempre”, já disse um poeta. “Tudo que faço é por pura alegria”, disse Henry Miller, num importante ensaio em que ele afirma, ainda, que “a arte nada ensina a não ser a significação da vida”. Isso me interessa, e espero que para isso os prêmios atribuídos a Mirantes possam contribuir.

CLARISSA MACEDO – E de agora em diante? É possível pensar no futuro?

ROBERVAL PEREYR – Sei que sua pergunta não é propriamente filosófica. Minha resposta, no entanto, vai ser. Então digo que sim, é possível pensar no futuro. Mas futuro e passado são aqui e agora. Aliás, só por isso é possível pensar neles. Num vaivém, muitas vezes tortuoso, somos o que já fomos e o que ainda não somos: somos um projeto. Mas sempre no Presente, que, por sua vez, nos escapa incessantemente. “Ninguém se banha duas vezes do mesmo rio” (Heráclito). O desafio é, apesar de tudo (isto é, apesar do óbvio), manter-nos atentos, despertos, vivenciando com plenitude o aberto, a clareira – em estado poético. Hölderlin (que foi adotado por Heidegger) afirma: “…poeticamente o homem habita esta terra.” Acho que qualquer projeto só tem sentido se não nos rouba o presente, ou seja, se nos gratifica e nos ilumina, desde a sua gestação. Isso é possível, por exemplo, na criação e na recepção criativa da arte, tão necessária quando se trata de despertar. Acho que é nisso (e afins, a exemplo do zen budismo, que associo, entre outras coisas, ao ócio criativo) que vou mergulhar cada vez mais. O futuro ao Presente pertence. Carpe diem.

 

Clarissa Macedo é licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.

 

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95ª Leva - 09/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Helena Terra

 

Ilustração Rebeca Prado

 

A mecânica do trucidamento

 

A cadência do tempo corrói e aumenta a dor de uma criatura mesmo quando a esvazia. E não adianta o coração bater mais forte, o sangue se derramar, o comprimido mergulhar em um organismo. Quanto mais lenta, mais forte ela se torna. É o processo. É a mecânica. O trucidamento é sua matriz. O útero que a expulsa em milhões de pedaços, em partículas de angústia e de verdades sem amor. E quando tudo isso acontece, quando alguém é escolhido, não há cor que permaneça e não há vida que não exploda em coágulos. E foi, por isso, que no momento em que eles se encontraram no quarto, ele veio correndo até ela com os olhos fixos em um corpo invisível, obcecado pelo reflexo da ausência. E ela, indiferente, não disse nada. Atravessou o espaço, guardando os frascos do sentimento espancado, surda aos movimentos do afeto. Ele parou, surpreso. A mão roçando a cabeça, prevendo as inflexões de uma ruína. Quer tomar um banho? Ela sentou-se na cama. Não tive culpa por essa demora. Só agora liberaram o leito, minha querida. Onde está minha mala?, ela o interrompeu, vasculhando, com os olhos, o ambiente. As paredes se aproximando, perdendo largura, caindo profundas. Irradiando o calor opaco. Transformando os seus restos de fêmea em um concentrado disforme. E ele, ao lado, contínuo, homem ambivalente dos bastidores, estático em sua permanência secundária, incapaz de romper a cena de inércia e desalento. Onde está a minha mala, ela voltou a perguntar, dessa vez, mais alto. Não está vendo o sangue escorrendo por essa roupa horrível? O vermelho revelado na altura do ventre e das coxas. A solidão revelada nas manchas, em seu papel de mãe túmulo, mulher sepultura encarregada de abrir a própria carne e desenterrar, espasmo por espasmo, célula por célula, o filho. Também sinto muito, ele disse, também sinto muito, e, então, encolhendo-se, bombeou uma lágrima e mais outra e mais outra até ela, exausta, deixar-se levar, repousando o sofrimento sobre a água multiplicada, e desdobrando, finalmente, o seu colo destroçado sobre o do marido.

 

Helena Terra nasceu em Vacaria. Mora em Porto Alegre. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários. Publicou, em 2013, o romance A condição indestrutível de ter sido, pela editora Dublinense. É jornalista e ilustradora.

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Ilustração: Rebeca Prado

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