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96ª Leva - 10/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Tomás Casares

 

Cantar porque o mistério existe. Assim pode ser também representada a sina de um criador. Quanto mais simples as suas vestes, alijadas do fogo da vaidade inútil, mais próxima e quiçá autêntica será a sua epifania. O sentido de verdade também pode ser tomado como uma expressão honesta daquilo que se sente, algo que, materializado sob a forma de um texto, imagem ou som, ganha autonomia para fundar mundos no mundo. O autor cria personas e as atira aos quatro ventos, sugerindo-nos que também façamos o mesmo a partir do que engendra a nossa imprevisível percepção das coisas. É gozosa a possibilidade de sermos outros, rompendo amarras sedimentadas pela rotina. É fora de série a ideia de que a arte nos propõe um exercício contínuo de libertação. Nesse movimento, consumir a obra de um determinado autor é, possivelmente, amalgamar-se a ele. Essa espécie de pangeia humana, outrora ligada por sentimentos entrelaçados, passa a alimentar uma multiplicidade de expressões que harmonizam tanto o individual quanto o coletivo. Assim, os caminhos da liberdade não significam imposição nem tampouco a pronta concordância com o todo sugerido, mas a mais pura perspectiva de nos edificarmos enquanto sujeitos conscientes e condutores de nossas míopes trajetórias. Tudo isso para dizer que o mistério existe e que por ele somos atraídos pelas razões das mais imponderáveis. Mesmo tendo inclinações prévias a algum tipo de abordagem ou vertente criativa, a sensação é outra quando somos tomados de surpresa por alguma obra. Do mesmo modo, viver à cata disso desavisadamente por ser um bom indicativo. Sinal de que nos desarmamos um pouco para permitir que um outro alguém seja escutado. Como parte dessa despojada atitude, deixamos o canto sensível de poetas como Luciana Marinho, Guilherme Gontijo, Marilia Kubota, Stefanni Marion e Nuno Rau ecoar suas singularidades. No trajeto entre o visível e o invisível, as fotografias do argentino Tomás Casares instauram uma sublime acepção para a existência. Para falar um pouco sobre sua lida com as vias literárias, o escritor Anderson Fonseca responde a uma pequena sabatina de ideias. No Gramofone de Larissa Mendes, toca o mais novo disco da cantora e compositora Tiê. A leitura atenta de Sérgio Tavares nos convida a um deleite sobre o mais novo romance de Marcia Barbieri. Há difusas perspectivas de olhar o mundo nos contos de Marina Ruivo, Vássia Silveira e Caio Russo. O texto de Mayrant Gallo exalta a importância do escritor Patrick Modiano, recentemente agraciado como o Prêmio Nobel de Literatura. O mais novo filme do diretor Jim Jamursch é o centro das anotações de Guilherme Preger. Cá estamos, caro leitor, a sugerir um caminho que consolida sua etapa de número 96. Seja bem-vindo!

Os Leveiros

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marilia Kubota

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível

 

 

***

 

 

metamorfose

 

sob a casca
a lagarta da seda
arredonda a redoma
e sonha asas.

a sombra do luto
anuncia:
breve aqui
mais um fruto

a metamorfose

 

 

***

 

 

imensidão

 

escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria

 

 

***

 

 

acordar, susto único
súbito sol subindo o peito
no púlpito de agosto
sob estandartes de luto.

eliminar a dor
do pensamento, um minuto,
o isopor do silêncio,
branco absoluto.

a alma, mesmo fora
desse sol, estala
a um toque de luz. e agora,
acesa por dentro, exala.

 

 

***

 

 

folha a folha
destruir o vestígio
do gafanhoto
na rosa verdejante
que sóis salvam
e a palavra mata.

 

Marilia Kubota é escritora e jornalista, é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, em 2012. É autora dos livros de poesia Esperando as bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008) e organizadora da antologia Retratos Japoneses no Brasil (2010). É editora do MEMAI – Revista de Artes Japonesas e colaboradora do site Interrogação.  

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96ª Leva - 10/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Amantes Eternos (Only lovers left alive). Alemanha/Reino Unido/França/Chipre. 2013.

 

Amantes Eternos

 

Amantes Eternos, de Jim Jarmusch, é um filme típico de vampiros. Neste estão presentes muitos dos clichês e signos icônicos que cercam os sombrios descendentes do conde VladDracul, tais como a vida noturna fugidia da luz solar, a necessidade imperiosa desses misteriosos seres para se alimentar de sangue humano, a vida eterna ou a longa juventude a que só pode dar cabo uma bala de madeira.

Jim Jarmusch sempre trabalhou em seus filmes com clichês pops e referências icônicas da cultura de massas mais sofisticada. Seu desejo nesse filme, claramente, não era fazer um filme de vampiros heterodoxo ou inovador, mas sim compor uma alegoria dos tempos terminais, ou como poderíamos chamar mais apropriadamente, do sistema capitalista “tardio”. É, por assim dizer, um filme de “fim de época”.

Adam e Eva (vividos por Tom Hiddleston e Tilda Swinton) – nomes simbólicos – são vampiros aristocratas, casados centenariamente, que vivem em cidades diferentes separadas por um oceano, Detroit e Tanger. Adam está deprimido e Eva sente necessidade de vir a Detroitr e animá-lo. A reunião amorosa do casal é interrompida, no entanto, pela presença inesperada de Ava (Mia Wasikowska), uma vampira junkie que é irmã de Eva. Após uma confusão causada pelo comportamento adolescente e hedonista de Ava, o casal é obrigado a viajar de volta a Tanger, onde se encontram com o velho poeta Christopher Marlowe (vivido por John Hurt), rival de Shakespeare que, sendo realmente um vampiro, simulou sua própria morte há 500 anos, e em nossos dias jaz moribundo escondido na casa de um comerciante de Marrocos.

Assim descrito, o filme parece ter uma narrativa banal e, de fato, como em muitos outros filmes de Jarmusch, não há quase peripécia a acelerar a trama. Quase todos seus filmes são compostos de deambulações erradias dos personagens, perdidos em divagações tediosas ou melancólicas. Desde seu debut, com o aclamado Strangerthan Paradise, que o diretor novaiorquino é conhecido por enfocar personagens em trânsito, porém paradoxalmente em situações que parecem nunca avançar, numa inércia existencial. Em uma de suas entrevistas, o diretor disse que gosta de “filmar a América com olhos de estrangeiro” e é esse deslocamento que gera um efeito “mais estranho do que o paraíso”.

E ninguém melhor do que vampiros, personagens errantes e estranhos por natureza (ou por anti-natureza) para incorporar esse deslocamento existencial. Remanescentes de uma aristocracia que perdeu seu lugar na história, vampiros, a partir do personagem literário de Bram Stoker, tiveram que vestir os hábitos da burguesia ascendente do período romântico. O vampiro literário seria assim a personificação grotesca do burguês que sobrevive literalmente drenando o sangue da classe trabalhadora, como uma sanguessuga.

Na era burguesa, afinal, a figura do vampiro, como a do fetiche da mercadoria, é sobretudo um signo vazio, errante, que atravessa os tempos devendo sua vida e seu valor à imaginação dos outros, como o Nosferatu para o cinema expressionista representava o fantasma das pestes sociais ainda não assimiladas do cenário do entre-guerras, como o surgimento pavoroso e intuído do nazismo.

E é com esse signo vazio que Jarmusch explora a figura do vampiro trazendo-o para um mundo do capitalismo globalizado, onde os cidadãos burgueses podem se comunicar mesmo em cidades afastadas por oceanos, onde as compras podem ser feitas instantaneamente por cartão de crédito, como as passagens que Eva adquire para viajar aos Estados Unidos, e onde a qualidade do sangue decaiu assustadoramente, por causa de doenças, drogas e alimentos químicos ingeridos à profusão, para desespero dos vampiros.

Os personagens Adam e Eva em cena de Amantes Eternos - Foto - divulgação
Os personagens Adam e Eva em cena de Amantes Eternos / Foto: Divulgação

 

Eva vai aos Estados Unidos reanimar Adam, que está à beira de um ato suicida. O personagem de Hiddleston é músico e poeta e não suporta a decadência do rock e o processo de digitalização sonora. Sua Detroit, por sua vez, é uma cidade em decadência e em processo de esvaziamento, cheia de montadoras de automóveis inutilizadas.Num passeio noturno em um carro antigo, Adam mostra a Eva, com certa nostalgia,as fábricas abandonadas das grandes montadoras. A cidade é o símbolo moderno do desaparecimento do trabalho na era do capitalismo financeiro e da virtualização das relações produtivas e do consumo.

Aristocrata vindo de outras eras, Adam menospreza os mortais humanos a quem chama de Zombies. O Zumbi sempre foi a antítese do vampiro. Zumbis são os mortos-vivos, enquanto um vampiro é o vivo-morto. Vampiros são burgueses que pensam que são aristocratas. Zumbis são proletários que vivem como trabalhadores robotizados, sem autonomia e consciência. Adam tem simpatia, no entanto, por Ian, um típico humano-zumbi que não trabalha, mas vive do tráfico de todo o tipo de artigo do mercado negro. Assim, como não há trabalho nas fábricas de Detroit, seus habitantes são obrigados a se virar em pequenos negócios clandestinos. A aproximação entre Adam e Ian – que venera o vampiro – trai o lado burguês do primeiro.

Eva, vivida por uma magneticamente pálida Tilda Swinton, é uma vampira que não tem outra ocupação a não ser recuperar a energia vital e criativa de seu marido. Há um problema de gênero nessa situação, como se mulheres, vampiras ou não, estivessem destinadas a serem fontes periféricas da criatividade de seus cônjuges. Mais interessante é sua irmã Ava, que tem uma presença passageira, mas decisiva na trama. Odiada por Adam, ela é uma vampira totalmente junkie, consumista, hedonista e ociosa, cujo vício e sede irrefreável acabam por trazer o desastre para o casal e particularmente para Ian.

Adam e Eva retornam a Tanger, uma cidade do terceiro mundo, para recuperar a vitalidade perdida, o que é um paradoxo para vampiros, que vivem eternamente como mortos. Eles presenciam a morte derradeira de Christopher Marlowe, envenenado por sangue contaminado, que representa para eles o fim de toda uma época de fineza e beleza (e ele confessa ser o real autor das peças de Shakespeare). Em muitos filmes do gênero, vampiros desejam ardorosamente a mortalidade de seus amados, pois só em face da finitude é que a vida recebe seu sentido. Mas a decadência espiritual do mundo na banalidade burguesa de nossos dias virtuais elimina toda promessa de sentido.

Numa conversa em um de seus “passeios noturnos”, Adam diz a Eva que 80% do corpo humano é feito de água e pergunta quando terminarão as guerras do petróleo para começarem as guerras pela água. Lutar pela água seria ainda uma luta por algo vital e não mais pela morte e pela banalidade. Num pequeno cabaré de um beco estreito de Tanger, eles ouvem a belíssima canção de uma cantora libanesa (Yasmine Hamdan, cantando “Hal”). A cantora sussurra em árabe que “eu não tenho solução”. Adam dedilha um banjo medieval comprado por Eva com o resto do dinheiro que possuíam e veem um casal marroquino se beijar apaixonadamente. Os filmes de Jim Jarmusch são reconhecidos não apenas pela bela e bem selecionada trilha sonora, mas por serem realizados e idealizados como canções visuais. E este filme-canção diz em algum refrão insistente que não há outra escolha a não ser persistir no amor, pois somente aos amantes será permitido viver e sobreviver.

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro.

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96ª Leva - 10/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Vássia Silveira

 

Vássia Silveira
Ilustração: Vássia Silveira

 

Inocência

 

Tinha vontade de arreganhar a boca e cravar no outro os dentes. Era a chuva. O barulho dela e os relâmpagos alimentavam o desejo. Desde pequena os temia. Sentia-se acuada, as pernas trêmulas na companhia de fantasmas. Não gostava da escuridão nas noites de tempestade. Perdia o poder de imaginar vaga-lumes.

A chuva era a lembrança da mãe, — “Corra, filha, suba! Esconda-se no armário” —, dos pingos grossos no teto de zinco, da louça quebrada e da voz dele abafada pelos estampidos do gesto. Era o retrato da menina esquálida, no armário. A bexiga apertada, a respiração presa. Era a ausência. O pão dormido na casa da tia distante, os pés descalços, o frio sem cobertor.

E não importava que o telhado agora fosse de barro e que a louça estivesse intacta na cozinha: o barulho da chuva despertava-lhe os demônios. Ouvia os mesmos gritos, sentia o mesmo medo. Queria trancar-se no armário — mas lembrava-se que não tinha um em casa. Tapava os ouvidos na esperança de que o silêncio lhe devolvesse a lucidez. Queria afastar a lembrança, a ira guardada nas entranhas e ouvir apenas o ressonar do marido, que dormia inocente, sem suspeitar dos desejos da mulher. Sem saber que um dia, sem explicação, ela viraria uma cadela enfurecida, rasgaria os lençóis, lhe cortaria as carnes e encheria de sangue, a boca.

Sem imaginar que até lá, em noite de tempestades e na falta do armário, ela enroscava-se na cama. E esquecendo-se dele, cobria-se com a ponta do lençol que restava — cantando para os fantasmas a canção de ninar da mãe: “Boi, boi, boi… boi da cara preta… pega essa menina, que tem medo de careta”.

 

 

***

 

 

O gato

 

Um gato histérico arranhou o teto. Estava pendurado pelo rabo, o imponente bichano. E sobre ele refletiam-se as últimas luzes da madrugada – as estrelas caídas de sono, a noite ardendo pela chegada da manhã: Pobre gato! Pobre moça que ficou a olhá-lo no teto, enquanto arranhava o ar procurando por sua existência.

 

 

***

 

 

O colecionador de moscas

 

Tudo é uma questão de tempo – ou do que você faz com ele. Aprendi isso na infância, enquanto minha mãe cronometrava os minutos que eu deveria levar para sair da cama, trocar o pijama, escovar os dentes, tomar banho, vestir o uniforme, engolir a comida e entrar no ônibus que me levava à escola.

Todos os dias, a mesma rotina. As frases matinais coladas num aviso de recados imaginário e os sorrisos grudados na face gelada da mulher. Éramos sós – e não me atrevia a perguntar-lhe sobre a ausência do pai. Não que eu não tivesse curiosidade, mas porque imaginava que a interrogação lhe custaria um tempo não previsto na mesmice dos dias.

Ela trabalhava como secretária num escritório no centro da cidade e de noite fazia bicos numa lanchonete. Saía logo depois do jantar, deixando na geladeira e em cima da mesa, uma variedade razoável de doces. Não gostava deles, mas me acostumei a puxar um banco e ficar olhando as moscas que vinham pousar nos glacês e confetes.

O que teriam em comum as moscas e essa mulher?

A pergunta me veio aos 12 anos, enquanto eu assistia à lambança dos insetos no bolo de aniversário que cortamos, comemos e depois ficou no balcão da cozinha para me fazer companhia em mais uma noite de trabalho dela.

Foram anos de observação até conseguir encontrar uma resposta e quando enfim encontrei-a, era suficientemente maduro para intuir que aquele conhecimento me renderia alegrias fortuitas e nenhuma preocupação com as mulheres.

Porque ao contrário do que imaginam os galanteadores de plantão, o segredo para conquistá-las não está em conhecer os melhores vinhos, o cinema de vanguarda, ou alguns poetas e artistas plásticos aclamados pela crítica.  Dinheiro? Músculos? Isso também é balela!

As mulheres gostam de abismos e foram treinadas pela genética para acreditar que possuem o dom da salvação. Aí entram as moscas. Foram elas que me ensinaram – em seus sublimes voos para a morte – que é necessário juntar ao doce, um pouco de tristeza, espécie de amargura disfarçada: podem ser lembranças da infância ou mesmo uma fraqueza.

O importante é que elas, as mulheres, sintam-se não só atraídas pela confessa (ainda que mentirosa) angústia, como irremediavelmente presas a ela. Feito isso, voam como as moscas em direção ao abismo.

E por falar em abismo, ia esquecendo o principal: aprendi que as moscas têm vida curta. É uma pena que as mulheres não saibam disso.

 

 

***

 

 

Descoberta

 

Ela acordou e descobriu que estava sem rosto. A cabeça estava no lugar. Mas havia algo de morto na face, nos olhos e mesmo no nariz, que antes achava arrebitado. Olhava-se no espelho e não encontrava as rugas nem as mancha escuras que trazia desde a infância. A imagem provocou uma sensação nova, um desespero sem dor. E quanto mais a olhava, mais sentia a inutilidade das coisas. Por que, afinal, os seus choros? E onde estavam agora, se não os via marcados na pele fina e alva? Lembrou-se da cicatriz do último acidente e levou a mão na altura dos cílios. Estavam inteiros, negros e sem nenhum sinal que denotasse o ocorrido: o natural seria que a expressão da face se contraísse e que a boca, por instinto, se mantivesse aberta por alguns segundos. Mas nenhum músculo mexeu-se. E como também não era mais possível denotar naquele rosto o espanto, deixou-se ficar olhando o espelho como quem assiste – sem crer – a um milagre.

 

Vássia Silveira é inquieta, mas por hábito diz que é jornalista e escritora. Já plantou árvores e fez filhas. É autora de Febre Terçã (poesias; Selo Off Flip,2013), Indagações de Ameixas (crônicas; Multifoco,2011); e dos infantis Quem tem medo do Mapinguari? (Letras Brasileiras, 2008) e Braboletas e Ciuminsetos (Letras Brasileiras, 2007).

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96ª Leva - 10/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

TIÊ – ESMERALDAS

 
Esmeraldas

 

Depois de trocar as passarelas pela música, pousar em um independente Sweet Jardim (2009) e dividir-se entre A Coruja e o Coração (2011), eis que a ‘menina-pássaro de rubro passional’ lança seu terceiro voo. Batizado de Esmeraldas – em alusão à cidadezinha mineira que recepcionou suas composições –, as 12 faixas do mais recente trabalho da paulistana Tiê despontam sua verve mais pop e visceral.Produzido por Adriano Cintra (ex-CSS) e Jesse Harris (parceiro de Norah Jones),e gravado entre São Paulo e Nova York, o álbum conta com as participações do músico escocês David Byrne (ex-Talking Heads) e de Guilherme Arantes. Lançado em setembro pela Warner Music, Esmeraldas revela um profundo amadurecimento da cantora de 34 anos, que desta vez transita por distintos estilos musicais – pero sin perder la ternura jamás – com uma despretensiosa segurança. Irônico, se pensarmos que, contrariando a síndrome do segundo disco, Tiê confessa ter entrado em crise criativa em seu terceiro trabalho.

 

Tiê
Tiê / Foto: Divulgação

 

A balada Gold Fish – primeira das duas canções em inglês presentes no álbum – abre Esmeraldas em ritmo sussurrante para desembocar num sofisticado arranjo e funciona como uma prévia do que se verá ao longo de toda a obra: a voz doce de Tiê desfilando por diversas sonoridades. Se o pseudo-blues Par de Ases (nem sempre a gente acerta em tudo/e muitas vezes fala demais/mesmo assim/se você me pedir, eu mudo/e ainda prometo um par de ás) aborda o sempre desgastante jogo de amar, a divertida Máquina de Lavar traz o piano de Guilherme Arantes e a guitarra de Tim Bernardes (O Terno) numa sensual pegada radiofônica. Apesar da letra densa, Urso (errava a dose/errava sempre/erradicava a palavra/e ouvia com o coração) mantém a animação, desta vez, utilizando bases eletrônicas, enquanto o rock de Mínimo Maravilhoso (eu nem vi dezembro passar/tanta coisa boa que aconteceu/destranquei a porta para entrar/o que um dia já foi meu) contrasta com o regionalismo épico da canção-título Esmeraldas (e nesse silêncio/meu sotaque vai mudar/e então meu pensamento vai divagar).

A romântica Isqueiro Azul (e quantos quase cabem num segundo/me vi chegar no fim do mundo/me vi sofrer na solidão/de um jeito que não suportei) dá início a um imaginário lado B do álbum, lembrando a suavidade das composições de Sweet Jardim. Depois de um Dia de Sonho (nunca fugi, nunca escondi/os meus desejos por você/eu sempre fui o seu brinquedo/mas tudo tem um tempo pra durar) – uma das melhores do álbum e os violinos de Vou Atrás (posso fingir/que não mexeu comigo/posso inventar/que sou só seu amigo/mas na verdade/essa canção/é um recado/à solidão) dão uma tônica mais dramática ao disco. A Noite (qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços/me entorta as costas e dá um cansaço/a maldade do tempo fez eu me afastar de você), primeiro single do álbum, é uma versão da balada La Notte, da cantora Arisa, sucesso na Itália e México. Meia Hora – escrita curiosamente em 15 minutos– é um rockzinho de bateria marcante que aponta para o final do álbum em alto astral, junto com All Around You (na minha vida catalogada/podem até me dar um search e coisa e tal/mas ninguém sabe do que eu sinto), cantada em português por Tiê e em inglês por David Byrne e aborda a nossa controversa [falta de] privacidade atual.

Por não se acomodar entre a simplicidade de Sweet Jardim e a alegria de A Coruja e o Coração – que teve até canção executada em novela global –, a compositora firma-se definitivamente no rol da nova geração da MPB, composta por nomes como Tulipa Ruiz, Céu, Marcelo Jeneci e Thiago Pethit. Tiê segue compondo suas próprias histórias de letras simples sobre o cotidiano e o amor, talvez agora de modo ainda mais refinado e liberto: se os instrumentos e arranjos das canções agigantaram-se, o mesmo aconteceu com sua intérprete. Em tempo, a cantora com nome de passarinho ‘reescreveu as memórias, deixou o cabelo crescer’ e já têm sua própria ninhada de três álbuns e duas filhas. A vida ainda é nossa joia mais preciosa.

 

 

Larissa Mendes tem olhos de esmeraldas e só pia no twitter.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Stefanni Marion

 

Foto: Tomás Casares

 

o enforcado

 

me ame ou me enforque
sou o seu bluegrass boy
e esse disco você já tocou
quando cantarolou aquela
triste canção com seu banjo.

com você eu sinto o ritmo
do tilintar do drink no copo,
ouço rifles, vejo a sangria
escorrendo no centro
de minha testa ferida.

me ame ou me enforque
sou seu fracasso favorito
um escombro, um tropeço.

oh baby, não seja tolo
amarre as pernas
de sua calça jeans
em meu pescoço
e tente tente tente.

querido rei, querido réu
os anos fatalmente passarão
feito mariposas no verão
e eu não estarei mais aqui
para amar você tão denso.

querido rei, querido réu
fique no canto da sala vazia
e pela última vez eu peço
cante suas tristes versões
do peter, paul and mary.

sou um cubo de gelo
em seu copo de whisky
vou derreter
e você sabe que será fatídico.

voltarei para casa,
mas não vou contar para deus
que você é meu assassino.

me ame ou me enforque.
me enforque e me ame
frio.

 

 

***

 

 

lana, ele não virá para jantar

 

um dia você cantou
e éramos nós três
em uma king size.

ele foi embora tempos depois,
você tranquei no armário
e eu fiquei só, vagabundeando
com os filmes do john waters.

dia desses li que seu sonho
era ser poeta, seguir a estrada.
uma transmutação lúcida
que tanto me sobrecarrega
da escuridão dos dias.

hoje fiz o jantar em silêncio
tem vodka de cannabis
talvez você goste.
fiz uns quibes,
talvez você os rejeite.

quando libertá-la
talvez eu não suporte a dor
e a jogue pela janela suja
para calar sua voz impudica
nesse intenso verão abatido.

quando libertá-la
verá que eu fiz um ritual
mas a dor ainda rasga
e a casa está triste triste triste.

sua vagina tem gosto de pepsi cola
desande a cantar sufocando
me faça esquecer
vamos soltar
os prisioneiros
às vezes vale a pena
deixar morrer para não voltar.

lana, agora somos só nós dois
ele não virá para jantar.

 

 

***

 

 

beautiful fucker man

 

o amante foi embora
o chuveiro pinga solidão
seus cigarros apagados
ainda ocupam a falta de palavras.
ele deixou mentiras pirotécnicas
espalhadas junto ao jardim
e não quero mais adubá-las.

a chaleira apita três vezes
meu nariz é rabdomante
fareja desafetos um a um
meu desejo é peregrino
onze andares acima
onde meus abismos
não são tão atrativos.

o amante foi embora
e me deixou lamentando
no canto da fétida sala suja
e ele sabe que isso terá seu preço.
meu belo homem filho da puta,
um fodedor, em breve irei enterrá-lo.

meu coração é um arquivo
de cenas perigosas.

 

 

***

 

 

luver, drunk, lover

 

pigalle 303, pernoite
num torpor envelhecido
do motel o desconhecido se foi,
mas dentro de mim mora um outro.
paguei a conta, devolveram meu rg
voltei para casa, tudo de volta
fora do lugar, valkiria 42.

e nesse jogo, quem eu acho que sou
andando por aí ganhando cicatrizes?

coloquei gelo num copo
despejei vodca negra

e escrevi uma linda canção rock ‘n’ roll
respirei fundo, outra vez, outra vez.

se nem deus ou o amor
salvaram e lavaram
minha alma impura,
então não tenho nada a perder.

 

 

***

 

 

dor

 

ingredientes:

01 escroto cozido
01 coração partido
01 escroto cru
01 pitada de ira
02 colheres de solidão
220 gramas de agonia
¼ de silêncio
½ xícara de saudade

modo de preparo: nunca saberemos como temperar a dor. então leve ao forno e deixe queimar queimar queimar…

 

Stefanni Marion é autor dos livros “Temporário”(Patuá, 2012) e “Inventário” (Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto “Arte na Balada”, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia “É que os hussardos chegam hoje” (Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Caio Russo

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

Cinzas

 

Para Pedro, que das baforadas de seu cachimbo tantas vezes aqueceu minha enregelada existência

 

Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me por pincel — Não sabia que você fumava, Luciana … Não? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e tem meus pais também, sabe como é… Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: até que a morte os separe o quê, deixa disso. Não está essa minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não mãe, por favor, foi sem querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio que nesses lábios não tocarei. Não hei de ser tragado, a não ser em seu corpo.

 

 

 

***

 

 

Campinas

 

Beatriz: viva por uma cidade inteira

 

Acordou cedo sem nem bem ter dormido. Prolongava a noite no arroxeado de suas pálpebras carregadas. Lavou o rosto com a pressa de quem pouco tem a fazer e por isso adianta-se à espera do compromisso que não vem. Ouvia ele na escada os passos da novidade. Parecia poder tocá-la por detrás da porta. Não era nada. Ele só morava em Campinas. Lugar difícil. Metrópole que guarda nostalgia do interior solapado sob o acre cheiro de urina da praça da matriz. Ainda pior. Cidade rápida quanto mais parada é. Desprovida de estrelas para se observar. Campina que se suicidou em asfalto escaldante. Escapamento sufocante. Íris lacrimejante da manhã ainda a desabrochar. Lépido, jogou o casaco em seu corpo esguio. Nem bem escovara os dentes. Sabia que tinha todo tempo. Entretanto, o fluxo das ruas atulhadas de gente desprovida de gente falava-lhe o contrário. Seguiu os passos de um rapaz. Entrou inopinadamente no velório. Não conhecia o defunto. Nem aquelas pessoas iguais, todas de preto por respeito. Curioso, olhou de esguelha. Despreocupadamente, observou o produto daquela embalagem de madeira. Um velho. Acho que já passado do prazo de validade. Bigodes curtos. Acinzentados tal qual a rala cabeleira. Fios espalhados na morena cabeça. Nariz mal entalhado. Lasca de toco cortado sem cuidado. Grossas mãos inchadas da enxada soada em grama seca. Queria fugir aquele terno do peito do homem. Creio que se fosse dado como à Sansão um último fôlego ao senhor imóvel, teria ele rasgado aquela pompa ao meio. Colocado para correr aquelas lombrigas que jamais tomaram leite de vaca. Só da caixa. Todos esses parentes estranhos. Próximos distantes. Ecos de seu sangue repisado. Teria ele chamado as galinhas. Porcos. Cavalos. Vacas. Insetos variegados. Tão mais gente que essa gente. Desinteressados. Tristes por não mais compartilharem o silêncio desse matuto. Nada de herança. Fazenda. Divisão de bens enquanto o presunto ainda nem endureceu. Queimaria as rosas do caixão com seu cigarro de palha. Enchê-lo-ia de capim molhado de sereno. Sem ter o que fazer, seguiu Azazel no tédio alarmante da eternidade sem lembrança. Pensava ele: — Mataram a morte.

Caio Russo estuda História na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Assis. Atualmente pesquisa História da Arte e Estética, com enfoque em Nova Música do Século XX e o conceito de Feio na Teoria Estética de Theodor W. Adorno. Dedica-se à prosa, com predileção pelo conto. Escafandrista de nascença, põe-se a relatar sobre os microscópicos animais, objetos e resíduos, que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro do capacete um instante antes de nunca mais serem vistos nas turvas águas dos dias. Escreve para não afogar-se em si mesmo.

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Nuno Rau

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

matiz

 

não dá pra chamar de plúmbeo este céu, tampouco
argênteo, que um
afunda a sua dor num espectro
engalanado e o outro
aspira a um brilho que
não tem e assim
disfarça o céu que é por tudo cinza,
apenas cinza em sua solidez e lixa
em nossos olhos o que a  superfície opaca e rarefeita
aflora  de áspero: resíduo, pó, rescaldo
de um incêndio, também chamado, às vezes,
vida.

 

 

***

 

 

o que é a poesia?

 

depois que os pais morreram
voltou à sua cidade
para vender a casa antiga
onde passou parte da infância

cambiou a quantia obtida na venda
por euros
e transferiu o montante para sua conta
em Bruxelas
onde vivia num pequeno estúdio
alugado, 3 peças dando para os fundos
o que tornava muito silencioso
estar ali, exceto
nos dias de chuva quando as gotas
tamborilavam nas folhas
de zinco sobre a varanda

no ano passado foi encontrado
morto, um assassinato sem pistas que
deixou a polícia aturdida
mas a chuva
nas tardes em que chove
ainda reverbera no telhado
de zinco, a sua música
apenas abafada pelos
relâmpagos, quando isso
acontece.

 

 

***

 

 

loopingsufi

 

o ponto onde você dança é um ponto cego, na roda
do seu rodopio você lança um sorriso
para o mundo e ele devolve
um esgar, o mundo
tem a carne impressa com grafismos
ardentes que incineram
todos os planos quando os tocam, no ponto
onde você dança sua coreografia é a mesma
acupunturamasô em que você
dissimula imóvel as espirais
de seus pés cada vez
mais fundo na lama-glitter
do mundo.

 

 

***

 

 

prosa completa

 

se, como quem não quer
nada, sobre os lençóis (neste momento
os dedos se perderiam na maranha
reluzente e tão negra como o artifício
de um céu noturno um átimo
depois da explosão
dos fogos) fossem mencionadas ruínas
sob o azul, tão brancas
em sua opacidade
aflitiva sem dar
conta do sol
que as ilumina, e explodir (quando os mesmos
dedos se perceberem
úmidos e quentes) a lembrança
do púrpura e do carmim
que as revestia, o que está no centro é a vertigem
do corpo, e isso quer dizer
labirinto, ou a cara do anjo que agora
fecha os olhos, e se uma palavra
comoamorvier à tona
foi por apuro ou mera
distração – não se fala mais
nisso, e agora isto quer dizer clímax,
anticlímax, refluxo das horas,
espera, segredo,
surdina.

 

 

***

 

 

aquelas flores que sangram, se abrindo por dentro da sua carne

 

para helena n.

 

foi numa primavera hostil que deixei de entender você
e semeando ausências nos seus calendários
não vi as flores mortas nos jardins
onde depositei os simulacros de outros dramas
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou no cedro dourado pelos crepúsculos dos adros
em naves escuras e vazias

já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo tão antigo
que ainda amanhecia:
foi no mesmo lugar que deixei o mapa
que ia nos levar de volta a um presente que não mais termina

agora
com todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que forjei um rosto
que representa a ilha
num mar transbordando cinza bruma e gelo

nesta outra primavera
nos acalenta o fio
que abre feridas sem resposta
aquelas em que (lançando imprecisões
nas cartas do destino)
definitivamente não
sei mais

 

Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

NENHUM MODIANO NAS ESTANTES

Por Mayrant Gallo

Modiano
Patrick Modiano / Foto: Thomas Samson

 

Há algumas semanas, ao saber que tinham outorgado o prêmio Nobel de Literatura 2014 a Patrick Modiano, fiquei duplamente feliz: como leitor e autor. Na condição de leitor, porque acompanho as publicações de Modiano no Brasil desde os anos 1980, e é como se ele, junto a mim e outros leitores, “esculpisse” sem o saber, livro a livro, o ambicionado prêmio; na de autor, sinto-me naturalmente recompensado, porque, de fato, um escritor recebeu o Nobel por fazer Literatura, e não política literária ou por praticar atividades de arredor, usando a Literatura como cabide ou degrau. Prêmio justíssimo, portanto.

À parte Dora Bruder, que reconstrói um fato real da perseguição alemã aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o que por si só já constitui uma lição de humanismo, todos os demais livros de Modiano publicados no Brasil, e que se assemelham na condição de romances breves, de pouco mais de cem, 120 páginas, apresentam aspectos altamente relevantes para o prazer e o proveito do leitor, bem como para a sua formação e seu aprimoramento. São peças de um virtuose de sua matéria. E não importa o assunto, se o nazismo ou o amor, o tratamento é sempre o mesmo: os personagens parecem assombrados, engolidos pela realidade, que não conseguem compreender, muito menos dominar. E, como num sonho, vão se deixando conduzir e imolar. C’est la vie.

Há anos que recomendo a leitura de Modiano a amigos e alunos, mas, infelizmente, poucos me levaram a sério. Ou talvez só este e aquele, mais próximos, o tenham feito. Agora… Bem, agora é realmente outra história. Mas a verdade é que todos os livros de Modiano publicados pela Rocco no Brasil estão esgotados. O leitor vai ter que esperar por edições novas. Enquanto alguma editora ou mesmo a Rocco as preparam (de forma apressada, certamente), o leitor mais afoito terá que se aventurar em idas aos sebos e se contentar, não raro, com exemplares surrados, enxovalhados, oferecidos a preços não mais assim tão convidativos, afinal o cara agora é um Nobel, e o livreiro espera lucrar com esta rubrica.

Livros de Modiano
Livros de Modiano

 

Não sei se por influência do gosto do leitor brasileiro ou se por circunstância de nossa educação, sempre uma lástima, entra governo sai governo (e o atual, firmado na trapaça, constitui o paroxismo desta vocação para o desprezo ao conhecimento e às artes), o certo é que nossas editoras insistem em publicar mais do mesmo (autoajuda sempre, “coelhos” enquanto dure a inocência dos leitores, “vampiros” por um tempo de sangue, “tons de cinza” a par de ereções e mamilos tensos etc.), ao passo que esnobam a Literatura em quase todos os seus gêneros e idiomas. E, então, de súbito, somos surpreendidos por um fato como este: o autor prêmio Nobel de Literatura de 2014 não tem, muito embora sua extensa obra, sequer um livro em catálogo no Brasil. “Nenhum Modiano nas estantes”, poderíamos dizer.

Afortunada foi a CosacNaify que, ao  programar para este ano a publicação do infantojuvenil Filomena firmeza, que reúne o texto de Modiano aos desenhos do extraordinário Sempé, demonstrou mais uma vez a sua vocação para as boas escolhas e a qualidade literária. E, se tornou, não por acaso, a porta de entrada de Modiano ao leitor brasileiro.

Certa vez escrevi este poema, breve como deve ser: “À tartaruga a linha de chegada parece longe,/ Mas, passo a passo, ela a transpõe,/ Enquanto aos coelhos cabe alcançar o horizonte”.

Claro que estou citando a velha fábula tantas e tantas vezes referida por tantos e tantos autores, nos quatro cantos do mundo, mas que parece compor uma alegoria perfeita desta inusitada situação: de que um autor como Modiano, paciente e cioso do seu ofício, chegue naturalmente, e talvez sem o desejar, aonde muitos coelhos afoitos gostariam de estar desde o primeiro momento. Ao menos para mim, seu fiel leitor, esta ironia tem sabor de desforra.

Mayrant Gallo é escritor e professor. Autor de “Os encantos do sol” (2013) e “O inédito de Kafka” (2003).

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96ª Leva - 10/2014 Destaques Olhares

Olhares

Nas tessituras do etéreo

Por Fabrício Brandão

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

Por entre as arestas dos dias, há este senhor que apazigua e exalta ânimos. Como num carrossel de cores vivas, são muitas as faces possíveis do misterioso ser que rege as entrelinhas do mundo. Os homens, por vezes, tentam arregimentar ciclos e detê-los nalgum canto da memória esparsa. Há que se reconhecer que a humanidade ainda desconhece tudo que o correr das horas inaugura. Com toda a sua imperiosa fidalguia, é o tempo o senhor daquilo que nos escapa entre os dedos.

O mundo, tal como o vemos, bem que poderia ser subserviente aos nossos caprichos e instintos mais primitivos. Mas não o é. Revela-se mesmo um aglomerado de dissonâncias tão típicas de um organismo que não mais sabe distinguir quais corpos estranhos invadiram-lhe as entranhas. E é bem assim que, mirando paisagens inventadas pelos sentidos, flertamos sobretudo com fantasias, delírios e algumas desejadas doses de amenidades.

Diante das observações postas acima, é possível perceber que encontramos artistas cujo trabalho revela um acentuado gosto por uma zona de intersecção entre o real e outras searas intangíveis aos olhos. Muito dessa sensação está presente na obra do fotógrafo argentino Tomás Casares. Nela, pulsa forte muito mais do que um desejo de apresentar os homens e seus lugares, mas principalmente a ideia de que a arte é capaz de servir como um instrumento de transcendência, através da qual o visível é tido como uma extensão do espírito humano.

É interessante notar como o efeito pretendido pelo criador torna seu trabalho dotado de uma singularidade tamanha. É dessa forma que Tomás nos apresenta o mundo através de suas imagens, fazendo-nos suspeitar que o cotidiano abriga uma viva poesia em seus interstícios. E tal conclusão não é tão simples de elaborar. Há que percebermos que, acima de tudo, estamos a contemplar uma densa e intricada poética dos mistérios, como se a nós fosse dada sempre a perspectiva de questionar convicções.

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

Pelos registros de Tomás Casares, a matéria das coisas e pessoas não é um mero objeto a ocupar lugar no espaço e no tempo. Dela, emanam sentimentos difusos, capazes de vislumbrar uma noção pretendida de unidade. A partir daí, o que o fotógrafo chama de expressão da verdade resulta da harmonização entre o visível e o invisível, todo um ambiente de sensações fortemente marcado por um caráter místico.

Há, por parte de Tomás, um interesse em conceber o homem como um agente ativo de um entendimento deveras sublime: a viagem ao seu interior. Segundo o artista, isso será possível quando tomarmos consciência de nosso processo de liberdade, algo fundamentalmente precedido por uma libertação espiritual. Agindo dessa forma, compreenderíamos melhor a relação entre as coisas, sobretudo as que estão situadas no hiato entre o visível e o invisível.

Quando a arte nos sugere seguir mistérios, suas epifanias não valerão a pena se tentarmos olhar tudo como um incansável fluxo de apreensões exclusivamente racionais. Há que captarmos a distinção crucial entre conhecer e compreender. Há que nos deixemos levar por um delicado e sensível caminho no qual a afirmação das certezas é o que menos importa.

 

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

 

* As fotografias de Tomás Casares são parte integrante da galeria e dos textos da 96ª Leva