vieram de onde o tempo é aragem funda nos olhos.
trouxeram o despenhadeiro ao fim dos pés.
a luz os percorreu e pôs, em suas bocas,
rios afundados em vozes, amuletos.
a terra sangrou os confins de seus corpos,
suas mãos peregrinas dos sargaços de um vento.
***
linha do tiro
ela caminha na linha do tiro.
sete anos de pesadelos escoados pelo corpo.
ata o ar, com arame, aos fossos de seu vestido.
martelo de pele e cartilagem,
o tempo a trai quando não a envelhece.
ao largo do sorvedouro,
ela resta antiga.
***
matéria bruta
no fundo das mãos há o ponto cego
em que ninguém pode tocar.
por onde passa a corda usada pelos presos
para a fuga.
posso começar pelo fosso.
pela sombra em que éramos a vertigem do pai.
a luz golpeada nos pés ao nascer.
ao nascer
e não estar na vida.
a água toma o fôlego restante dos dias.
***
uma só terra
desce-me como uma sede
a réstia do que sou, amortecida, fundida em pedra.
dálias ladeiam os vergões do corpo,
as frestas da casa na abertura dos olhos.
há uma voz que não pronuncia o dia seguinte.
água de minhas mãos
despenhadeiro rodeando
meu pescoço.
***
houvera
o tempo não se lembra de nós
nem os girassóis nos conhecem mais.
a nossa mão é uma lenda para o fogo
a água
o ar
a terra que não mais nos habita.
desde que as asas morreram no pulmão dos homens,
a esperança migrou para a placenta dos rios
onde seres se curvam às suas fontes
de calcário, erva, peixe, nuvem.
Luciana Marinho nasceu em Recife, onde atua como professora universitária e psicóloga clínica. Participou da antologia “Desvio para o vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos” (2012), organizada por Marceli Andresa Becker, em uma produção do Centro Cultural São Paulo.
Um escritor e a força de sua obra. Nada melhor do que a conjunção desses dois componentes para conferir sentido a qualquer tentativa de desferir linhas a respeito de um criador. E não há dúvida de que o motor da leitura é a gênese de todo o processo criativo, bem sabemos. No caso de Anderson Fonseca, o que ousamos denominar por propriedade narrativa vem dotado dessa noção primeira de que um autor, em matéria de escrita, é parte integrante e viva daquilo que lê. Mas eis que isso não basta e, no caso específico de Anderson, um aspecto chama atenção em especial: o domínio sobre a condução das histórias.
Como todo percurso autoral impõe sabermos de suas epifanias, nada melhor do que abordarmos alguma essência que perfaz obras. Com o vigor de quem cria mundos paralelos, reforçando dimensões possíveis do humano, Anderson Fonseca estreia em livro com os arremates densos de “Notas de Pensamentos Incomuns”. Naquele instante, fica claro para quem lê que o território complexo e instigante do realismo fantástico irá marcar a trajetória do autor com pungência. Nesse primeiro momento, além de vislumbrar dimensões paralelas ao mundo tangível, Anderson mergulha de cabeça na vastidão de mistérios que nos atravessam. Mais tarde, a capacidade inventiva e o controle sobre as estratégias narrativas vêm somar esforços e, ainda com o encantamento proporcionado pelos ímpetos do fantástico, surge “Sr. Bergier & Outras Histórias”, livro cujo tom confessional e quiçá epistolar envolve o leitor e o conduz como testemunha dos acontecimentos minuciosamente relatados.
Hoje, o momento que marca essa entrevista feita com Anderson aponta para uma outra faceta importante do escritor, qual seja a de não passar impune sobre os imperativos de seu tempo. E ele o faz, impregnado de lucidez e sensibilidade, quando oferta ao mundo seu mais novo rebento, “O que eu disse ao General”. Os contos presentes ali encerram uma atmosfera de resistência e poesia, através da qual a voz do autor se insurge contra a tirania universal, que não se restringe àquela associada a determinados personagens da história do mundo, confinados a contextos geopolíticos, mas sobretudo aos pequenos grandes delitos do cotidiano que protagonizamos. Diante desse rico painel de constatações, esse carioca que hoje reside em Brejo Santo (Ceará), expõe um pouco de si numa conversa regada fundamentalmente aos sabores proporcionados pela Literatura.
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal
DA – “O que eu disse ao General” é uma obra que, fazendo alusão a figuras e situações históricas, rompe barreiras e se situa num plano bastante amplo, capaz de dialogar com práticas cotidianas tão nossas. Diria que o livro pode ser também entendido como um levante contra a tirania sob as suas mais variadas formas?
ANDERSON FONSECA – Eu diria que sim. Mas a questão central em relação à tirania é a opressão do Estado sobre o indivíduo. O indivíduo, ao abrir mão de seu poder e doá-lo a outro, permite que este, seja quem ele for, oprima sua liberdade, seu desejo, seu erotismo. Quando o Estado decide e age em vista de reforçar essa liberdade (o erótico, a fruição do corpo movente no espaço), estabelece-se uma harmonia. Quando não, surge a opressão do poder e a morte. A realização do indivíduo está associada intimamente à Vida em sua plenitude Erótica. Os conflitos que assisto pela TV são uma negação do erótico, da afirmação da vida.
DA – A frágil liberdade que gozamos, sobretudo numa era de abundante informação, faz parte de um ciclo transitório ou dificilmente seremos livres para conjugar pensamento e ação?
ANDERSON FONSECA – Enquanto o homem tiver certeza, ele será escravo de qualquer ideologia, sofisma, dogma. É necessário, para que haja uma liberdade efetiva, de forma pragmática e não conceitual, que a dúvida se torne um exercício do pensamento. Para ser mais claro, o homem é escravo de suas certezas, porque estar certo de algo é mais confortável ao espírito. Entretanto, quando a incerteza emerge no pensamento, o homem com todas as suas forças, temendo a verdade, ergue contra este terrível “monstro” as mais fortes muralhas dogmáticas, as quais são reforçadas com novos dogmas. Não ter certeza, contudo, seria a plena liberdade, pois a incerteza em sua essência abarca qualquer afirmação autoconsistente, ela não rejeita e não invalida, apenas desconfia. Entretanto, para que a dúvida se torne pragmática, a mudança deve partir da educação presente nos sistemas de ensino, deve partir de sua principal base, o professor. O mestre, hoje presente nas escolas, ou defende sua fé religiosa, ou seu ateísmo, e ambos levam como fundamento de suas certezas os livros sagrados ou a ciência. O mestre, antes, deveria exercer a dúvida para que o aluno escolha seu caminho e, em sua jornada, respeite outros caminhos. Hoje, além da religião e ateísmo, em que seus defensores tomam como referência livros de autores cujas culturas e visões são reféns do tempo, surgem os fiéis da mídia. Vejo muitos crentes da internet e que a usam como meio de propagação do ódio, intolerância, preconceito contra a diferença. Eles não têm dúvida. Não tenho fé e nem por isso não tenho paz de espírito. Meu pensamento é uma porta aberta para outros pensamentos. Busco exercer a dúvida como uma forma de abertura para outras percepções. E, enquanto houver crentes a defenderem com armas seus dogmas, haverá guerras e massacres. Enfim,acho que a dúvida é chave para a tolerância e a liberdade.
DA – O cenário de tensões presente em “O que eu disse ao General” vem também revestido por um manto poético. Nessa perspectiva, o exercício da subjetividade entra em cena e conduz as narrativas num contraponto às situações extremas ali relatadas. O que dizer desse tão vigoroso recurso?
ANDERSON FONSECA –Escrevi essa obra mergulhado em um insondável silêncio, durante a noite,para ouvir apenas as palavras que sussurrariam em minha mente. A poesia, segundo Bachelard, “é um olhar silencioso que suprime o mundo para fazer calar seus ruídos”. A guerra é um ruído em nossa realidade, a melhor forma de entendê-lo é silenciando sua voz para que as imagens sobressaiam. Se o ruído fosse permitido a invadir as letras, as palavras não se fariam ouvir. Bachelard ainda escreve que a poesia “deixa vivo, sob as imagens, o silêncio atento”. O silêncio emergiu no instante em que, vendo as imagens da guerra, não poderia ser narrado como era diante dos olhos, mas de outro modo, como um símbolo do homem, de sua decadência moral, metafísica e política.
Eu poderia ter escolhido outra forma, mas essa forma não corresponderia à necessidade que a minha alma buscava.A linguagem escolhida é um reflexo dos conflitos internos que eu sofria naquele momento. Essa mesma linguagem não é somente um reflexo, mas a expressão máxima de meu espírito. Eu deveria dizer daquele modo, porque de outro, estaria me traindo.
DA – De algum modo, escrever é um ato de redenção?
ANDERSON FONSECA – Sinto certa repulsa com palavras cujo significado é teológico. A palavra redenção inevitavelmente me remete ao mito messiânico da religião judaico-cristã. Quando termos como esse são aplicados à Literatura, fico apreensivo. Não consigo ver a Literatura com uma ótica teológica e evito termos que carreguem esse sentido. Creio que o escrever não é a expressão do pensamento, mas seu construtor. Acho equivocada aquela frase do Descartes: “penso, logo existo”. Descartes não faria tal afirmação se não fosse pela linguagem, ou seja, a linguagem constitui o pensamento, o elabora. Em seu lugar, eu diria: “escrevo/falo, logo existo”. Portanto, no instante em que me debruço sobre o papel, pego a caneta (não tenho o costume de escrever primeiro no computador) e traço a primeira frase, estou aprimorando meu pensamento, estou o construindo.
DA – Em “Sr. Bergier & Outras Histórias” você transita pelo instigante e complexo território do realismo fantástico. Que desafios engendram essa sua vertente criativa?
ANDERSON FONSECA –Creio que o realismo fantástico não seja tão fácil para trabalhar, porque é preciso distorcer a realidade para revelar sua natureza oculta. Penso em Murilo Rubião, que obsessivamente revisava seus contos até a exaustão, penso em Ivan Bunin, outro obsessivo pela revisão de suas obras, e Buzzati, mais um obsessivo. Nunca me sinto satisfeito com o texto, e confesso que me sinto mais feliz enquanto estou escrevendo, mas, depois que o conto é publicado, fico melancólico e frustrado, pois passo a pensar que poderia estar melhor, e aí começo a revisar. O maior desafio é encontrar o argumento adequado para a ideia, e nem sempre é fácil. Depois se inicia a luta com a palavra até o ajuste final. É claro, tudo feito com bastante humor. Lembro que Flaubert escreveu: “eis o que a prosa tem de diabólico, ela nunca está terminada”. Flaubert foi outro autor obsessivo na tentativa de conciliar o significado que a palavra carrega a uma forma proporcionada pela literatura. Acho que é a luta de todo autor.
DA – Essa, digamos assim, angústia criativa é capaz de impactar radicalmente as suas convicções de autor?
ANDERSON FONSECA –Sobre esta questão colocada, eu diria que se trata da história de uma ideia. A ideia que tenho para um conto não surge do nada, mas contém em si uma história, ou seja, uma relação com outras ideias apanhadas de diversas leituras, essa história que a ideia carrega consigo, que a estrutura, eu não posso negar, mas admiti-la. O que acontece comigo é que esta ideia será reformulada, assumirá um novo sentido em outro contexto (forma). Nesse sentido, eu reinvento a cadeia de ideias que construíram esta última, quando atribuo a ela um novo formato, o qual é a narrativa em que ela se reflete. A dúvida, portanto, de se estou sendo original ou não, não me preocupa. Acho importante o diálogo de uma obra com outra, até porque a própria história em si é uma sucessão de ideias.
Quando se escolhe ser escritor, trazemos conosco a glória e a miséria. Depois de sermos escritores, apenas o texto carrega nossa glória e felicidade, tudo demais se torna miserável. Tornamo-nos miseráveis financeiramente, no amor, na amizade, na vida e na saúde. A certeza que temos é que a obra viverá. Eis a condição que assumimos: sacrificamos as demais coisas (efêmeras)pela perenidade da palavra, e então nos tornamos miseráveis. É como um deus que assume a forma humana, despindo-se de sua glória para sofrer as vicissitudes do tempo. Ele se torna miserável para que sua palavra dure pelos séculos vindouros. Não há glória em ser escritor, a glória pertence ao texto.Por isso, a humildade diante do Mundo e do Verbo, o qual veneramos.
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal
DA – Partindo da ideia de que tudo sempre esteve no mundo, o que confere mais propriedade à obra de um autor?
ANDERSON FONSECA –Se tudo sempre esteve no mundo, se tudo é eterno, se a existência é simultânea ao espaço e ao tempo, o que resta ao autor?As imagens, porque elas surgiram quando o homem surgiu, pois são o fruto de uma relação sujeito/matéria. Lembro-me de uma parábola do profeta/poeta Jeremias. Um dia, Jeremias desceu as escadas da casa e viu o jarro de um vaso quebrado. O oleiro pegou o vaso quebrado, trabalhou o barro, e reconstruiu o vaso. O vaso já estava ali (a forma), assim como o barro (a matéria); foi necessária, contudo, a visão (ideia) de um artista para (re)modelar o barro e dar-lhe a forma imaginada. A matéria preexiste, mas o artista a destrói (destrói seu signo), refaz (atribui-lhe outro significado) e doa-lhe a forma que lhe “parece bem aos olhos” (Jeremias 18:4).
Se tudo já existe, se a matéria sempre existiu, a propriedade do autor encontra-se no modo como ele trabalha as imagens, como ele atribui a elas um conteúdo, uma relação de sentido. Este molde é um reflexo do sujeito criador, do indivíduo.
DA – O modo como você articula as imagens é fundamental na percepção de um livro como “Sr. Bergier &Outras Histórias”, algo que promove aproximações com a linguagem cinematográfica. A sétima arte é um universo de referências que lhe atrai conscientemente?
ANDERSON FONSECA –Não, sou atraído mais pelas histórias em quadrinhos como as da editora Vertigo e DC Comics. O que me atrai nelas é a ciência vista como uma fantasia humana. Além disso, o enquadramento e a sequência de ação e diálogo me chamam bastante a atenção. Nos últimos meses, por exemplo, tenho lido Planetary e O Inescrito, duas revistas esplêndidas.
DA – O quanto a sua feição de educador reflete no seu olhar sobre a literatura? Você busca pontos de convergência?
ANDERSON FONSECA –Ser um educador é um imenso desafio.Diariamente, nos confrontamos com realidades mais absurdas que a ficção, realidades que nos põem a indagar sobre a estupidez humana, como também sobre sua graça e beleza. Estou em confronto com a realidade a todo instante. Minha literatura é uma forma de devolver o soco que recebo. Quando estou em sala de aula, além de ensinar a língua e sua poética, busco apresentar o campo de batalha que é a vida. Saio com a vontade de socar o mundo, e aí a palavra carrega em sua força o soco devolvido. Meus alunos sentem a mesma vontade, mas é através da escrita que eles, como boxeadores, nocauteiam o mundo que os aflige.
DA – Somos um país de potenciais leitores subestimados?
ANDERSON FONSECA –Somos um país de leitores e autores subestimados. Vivemos ainda a velha frase de Lautréamont: só os poetas leem poetas. Só escritores brasileiros leem escritores brasileiros, ou só os escritores brasileiros se leem. Esta frase necessita sofrer drásticas mudanças, porque ainda hoje, embora se veja uma grande produção de livros de autores nacionais, não existe projeto de distribuição desses livros para atingir os leitores brasileiros, de forma a disputar de igual para igual com autores estrangeiros. Percebo a juventude brasileira cultuar estes autores estrangeiros, e menosprezar alguns autores nacionais (nem todos, há quem escape). Isso precisa mudar.
DA – Na sua opinião, de que forma podemos alterar esse cenário?
ANDERSON FONSECA –Não sei como alterar esse cenário, sinceramente. Trata-se de algo enraizado em nossa cultura. Talvez devêssemos começar pela educação, atualizando os professores a respeito dos autores brasileiros da geração 00 até os mais recentes. O professor é o canal certo para atingir leitores jovens e famintos de obras boas, mas se eles não estiverem atualizados e propensos a conhecer o cenário atual, os alunos muito menos estarão.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
ANDERSON FONSECA –A questão “pós-modernidade” é ambígua.Quando a ouço, sinto-me lançado contra a frase de Rimbaud: “é preciso ser absolutamente moderno”. Ter uma posição a respeito da pós-modernidade deixa-me estranho, pois não sei claramente o que é. Mas quando se fala em mercantilização da arte, penso isso ser necessário, porque a arte é uma forma de mercadoria. Nessa ótica, o livro é um produto que deve ser vendido. Entretanto, o artista não pode se despersonalizar e se tornar ele uma mercadoria, isso leva a uma descaracterização de si mesmo, de sua obra e arte. Não endosso, portanto, que escritores que hoje assumem uma postura diante de sua obra e arte, amanhã, depois da fama, mudem essa postura. A crítica deve desvincular-se um pouco do jornalismo que, em geral, direciona o discurso a favor de certas obras de duvidoso mérito. O artista deve abandonar a República, porque ela não o quer dentro de seus muros.
DA – “Notas de Pensamentos Incomuns” marca sua estreia em livro. Depois disso, vieram os outros dois que mencionamos anteriormente por aqui. Diante desses percursos, quem é hoje Anderson Fonseca e quais marcas traz consigo?
ANDERSON FONSECA –Sou um homem mais paciente graças à palavra. E graças à literatura conservo alguns sonhos, mas percebi, ao olhar para o mundo, que todo bem só existe em sua relação com o mal e, diante disso, não há utopia, tenho que aceitar a realidade como ela é.Valorizo, hoje, a simplicidade, a beleza e a elegância das palavras e das coisas. O universo é deslumbrante e fico pasmo ao olhá-lo. Desde o momento em que passei a olhar o universo com os olhos do poeta, deixei o medo para trás e comecei a ter esperança.
Quer saber? Eu quero mesmo é um tigre pra me comer. Valente, potente, crescente, varando a noite da cidade com seu brilho de tigreperigoso, feroz e desabrido, mas também mavioso.
Cheguei a vê-lo sábado, no parque, pela manhã. Coincidentemente, ou nem tanto assim, nos encontramos lá, eu e o tigre. Abobalhados que ficamos, mal conversamos. Não pude decifrar com as sutilezas necessárias os seus rugidos e balbucios. Acho até fui grossa. Raiva de ele ter dado pra trás, recuado, desistido.
Por isso agora quero outro, outro tigre, mais valente, mais feroz, mais impetuoso. Mais estrondoso e mais doce. De pelo estonteante, pra me lanhar o rosto e os calcanhares. Caninos fortes, incisivos, pra me deixar marcada da posse.
De papel? Sim, pode ser um tigre de papel, não há restrições quanto a isso. O fundamental é que desempenhe bem seu papel. E que faça surgir flores e bichos onde (aqui dentro) só há ausência. Podem ser bichos peçonhentos, venenosos pra valer, não importa. Mas que sejam bichos vivos, esvoaçantes, com movimentos leves e rápidos, intrépidos. É isso que eu quero.
Um tigre que plante em mim a vida que não tenho mais. Que faça a seiva do sonho me preencher de energia nova, e que eu abandone de vez o melodioso chamado da sacada doce, a rua profunda lá embaixo me acenando, oferecida.
Um tigre que não seja um tigre de verdade. Seja só o desejo do tigre, o enigma do tigre, a imagem do tigre. Signo oco mas fecundo, pleno. Carregado por dois ou até três homens mascarados, atores, que o façam se movimentar pelas ruas e avenidas. Eu quero é isso mesmo. Atores. Que finjam com emoção pungente e suficiente para me envolver, me enlaçar, me aprisionar e assim quem sabe me libertar do feitiço do tigre primeiro, menino do parque, com sua juba que mais parece de leão e que cravou fundo em mim suas garras, rasgando-me o peito, deflorando-me a carne, deformando meus olhos, inchados e atordoados do espanto de tanto chorar.
Tigre ator, ainda por cima. Por isso quero outro. Não igual, mas mais avassalador, mais ator, e que não me leve para os abismos e penhascos da alma dolorida nem da natureza ressequida, e sim projete em mim o brilho luminoso dos painéis e dos carrosséis meninos, onde eu possa sentar nos cavalinhos e girar sob o olhar de sua proteção. E vez em quando um elefante branco…
Tigre ator, ordeiro, atroz. Desestabilizador das certezas que a angústia obsessiva da parede de pedra procurava evitar fossem vistas. O sintoma: toctoctoc. Mas com você não há toc, só que também não há mais toque. Eu quis te beijar, falei: Posso? E você: Ai, parece uma criança pedindo posso, mas não, não pode não. Por quê? Não quero mais, somos amigos a partir de agora, nada mais, mas eu gosto de você, tigresa, gosto sim. Não me chame assim que é vulgar. Ué, você não gosta da música do velho moço baiano? Gosto, mas ele estava apaixonado por ela, e aqui, se pode haver um paralelo, é o inverso.
Quero, quero sim, um tigre de bocarra. Nada de doçura, nem fragilidade. Quero a posse literalmente animal, que não quer saber de mais nada a não ser do desejo dos corpos, desejo das almas-bocas que se procuram e se querem unidas, sem saber do amanhã, mas inteiras no hoje da natureza como ela é.
Cíclica.
E por isso, meu tigre, fique em paz que amanhã tudo recomeça, ou depois de amanhã. E você virá, eu irei, e nós iremos. E vez em quando um elefante branco…
***
Comilança
A Marcelino Freire, que me fez olhar melhor para o título do livro de Francine Prose (Para ler como um escritor), o que acabou originando esta brincadeira, e a Francine Prose, autora desta obra deliciosa.
Para ler, como um escritor. Ou uma escritora.
Às vezes dois ou três ao mesmo tempo. Mas um de cada vez costuma ser mais saborido saboroso gostoso demais.
De lambedela em lambedela, me lambujo, cravo os dentes. Mordo pedaço por pedaço, degluto, engulo ele inteiro. Pasto e repasto.
Pelos, cabelos, axilas, umbigo e cotovelos. Mas também pés, costas, nuca, espáduas, olhos e nádegas. Nariz, coxas, batata da perna, canela.
Neurônios em movimento, remastigo cada uma de suas sinapses sentimentos, adentro suave sua mente e nela me faço hóspede por algumas horas, dias, anos. Às vezes, quando a comilança é boa pra valer, por uma vida inteira.
Contamino-me por ele, deixo que me coma também, de dentro pra fora e de fora pra dentro, como quiser, que essa inundação fertiliza minhas águas, que rebentam abençoadas, venturosas, integradas e sempre mais esperançosas de haver guardado em meu útero-flor uma sementinha, pequena que seja, dos olhos do escritor. De sua mirada para o mundo e para as palavras, seu namoro com o mundo que se faz pelas palavras, estas suas palavras que são o seu meu nosso mundo.
E saio satisfeita, plena, devassa, dormida, encontrada, recriada, desfigurada, para o próximo banquete amor.
Marina Ruivo é doutora em Letras pela USP, professora da Unimonte (Santos/SP) e colaboradora freelancer de várias editoras. Escreve ficção desde a adolescência, mas por muitos anos tentou se convencer de que deveria ficar somente no terreno da crítica. Como o desejo da escrita não morria, resolveu voltar à prática e vem participando de diversas oficinas de criação literária. Seu conto “Riozinho” fará parte do número 6 da Revista Sexus. É mãe do Pedro, um menino de 5 anos que ainda não sabe ler, mas é amante de histórias e livros.
…– despétala a vi ………….olência flo ..rindo sem nome – ……entre cercas .do asfalto violáceo
***
CADA SINAL cada passeio
por onde o carro
inadvertidamente …………………passa
cada ferida na forma
fractabilizável
de um sorriso ………………..passa
ainda que no beijo
– rasgo de carne corpo ………..entrementes –
alienado a preços módicos
nos dedos sem assunto
duma datilógrafa
desempregada
nos pés aquáticos
da tua presença fabulada
ou nos sesquipedais contornos
deste último desejo ……….passa
***
NOITE DE NEVE (mentira) …………….no fundo
do olho ……….(nada se encontra ……….nada resta
pra além de uma palavra feito …………………undo
noutra língua ……….noutrora que não esta)
noite de neve paira sobre o mundo
(mentira cadavérica ………………….não presta
não desfaz a miséria deste mundo
nas brancuras do gelo ………………….(mera esta-
fa …..– feitio de metáfora – mera
imagem do silêncio mera estátua
calcinada ………..nos olhos do futuro)
mentira gorda mentira …………………fátua
mero cabresto sobre besta-fera)
noite de neve (noite de monturo)
***
SE CANTAR FOSSE O CANTO
da cotovia do
bem-
te-vi do rouxinol
se os ruídos da codorna
do jacu………..das águas
que murmuram de tédio
por entre as árvores
se o próprio som sentido
das árvores……do ninho
que nas árvores
se aninha
se o canto que ali se encontra
fosse caso concreto …………………de imitação
de tudo quanto cerca
um canto além do canto
engloba o através
da mata que deixou
aquela moto o ronco comburente
do caminhão de transportes ………..& por fim
o canto elétrico
que anulou seu ninho
o próprio canto-serra
sem conto sem pranto
da inaudita …………………motosserra
que encontrasse ninho
na voz deste pássaro-lira
Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latina na UFPR. Lançou traduções de “As janelas”, seguidas de poemas em prosa franceses, de Rainer Maria Rilke (2009, Ed. Crisálida, em parceria com Bruno D’Abruzzo),” A anatomia da melancolia”, de Robert Burton (2011-2013, 4 vols, Ed. UFPR, ganhador do prêmio APCA e finalista do prêmio Jabuti), entre outros. Publicou os poemas de “brasa enganosa” (2013, Ed. Patuá, finalista do prêmio Portugal Telecom) e do poema-site Tróiades. É editor do blog coletivo e revista impressa escamandro.
“No princípio era o Verbo (…) E o Verbo se fez carne”.
Os fragmentos copiados do capítulo primeiro do Evangelho de João remontam ao Gênesis. A criação do mundo dos homens, a corporificação a partir do léxico. ‘A puta’, romance-nocaute da paulista Marcia Barbieri, igualmente se vale da plenitude vocabular para compor seu núcleo seminal, uma engenharia onde as palavras têm a insaciedade de organismos, reproduzindo-se, proliferando-se, compondo um corpo febril, um ser multiforme cujo nome é Verbo.
O processo de gestação que, por conseguinte é o de criação, é a que se dedica a trama. A voz que narra, a fala, o dom que nos distingue das bestas. Não obstante um fluxo incontido, uma loquacidade voraz que, ao invés de verter sentido, causa o caos. Parece não haver racionalidade, somente o instinto. Portanto tudo é mobilizado por um mecanismo primitivo. “Não tente me tornar menos animalesca”, repreende a narradora. O Verbo é um impulso natural.
Continuamos todos feras, não evoluímos. Somos prole de “uma simples partenogênese”. Os símios nos rodeiam e nos escudamos com a lógica e a razão, enquanto escorre pelos trilhos das costelas um suor “tão escuro e fétido quanto a urina”. Temos de invejá-los, incita a puta, a voz reinante nesse curso paginado, “seus sexos à mostra, a facilidade como fodem e parem sem prestar contas a ninguém”. Afinal, existimos ao pagamento de nossas necessidades fisiológicas, da parturição. “O prazer e a dor são frutos do mesmo escarro”. A puta expulsa seus fetos pela glote, vocábulos encarnados que exibem minúsculos rins, pulmões, genitálias úmidas e intumescidas.
Mas o que é o romance, de fato? Uma tempestade de consciência, um solilóquio vazado por vozes incidentais, a um só tempo um réquiem e uma ode à literatura. Tachá-lo a um gênero seria unidimensioná-lo. Para constar, talvez, aparenta-se com o erotismo, o relevo pornográfico, a reificação da libido. Um discurso que é explícito, porém não gratuito. Com força imagética capaz de firmar paralelos com ‘A história do olho’, de Bataille, e a O., de Anne Desclos, narrativas cujo eixo aciona um confessionário de vivências sexuais.
Num bloco único de texto, Barbieri esquadrinha essa vida multívaga. Ou melhor, escava a fundura dos segredos mais escusos, dos rancores, das perdas e das depravações. A memória são os vestígios deixados pelo corpo, a soma dos pesos dos “homens refratários” que sujaram sua pele na busca por orifícios. Parecem gritos rasgados das entranhas, uma história contada aos murros.
Passado e presente se alternam ao salto de uma vírgula, de um ponto final. A puta recorda a infância, o pai nulo, a estadia da mãe no sanatório, a defloração, a ciranda de parceiros, pessoas boas, pessoas ruins, o filho não quisto que depois não a quis. Durante esse trânsito desenfreado, algumas contravozes tomam às rédeas da narração, deslocando o olhar e revelando outros aspectos do trecho em foco. A autora recorre a uma polifonia que também é uma orgia linguística.
A essas conjugações somam-se camadas que impregnam a estrutura; vislumbres, passagens, viagens oníricas e maquinações delirantes. Uma guerra num país latino-americano, um território nevoso, os efeitos do uso da cocaína, o sexo servindo ao culto ao profano e ao sacro. Com uma prosa que sustenta um verniz poético ainda que deslinde “os dias que nascem na vulva”, o romance se alicerça em metáforas para transcender a matéria e acessar questões metafísicas; o cosmo e a autoridade divina, o panteísmo versus os mitos cotidianos, o livre-alvedrio e a condição de bípedes (onde vale uma menção ao ‘Cock & Bull’, de Will Self). “Amanhece apesar de Deus”, dispara.
O mesmo tom ácido é conferido ao papel da escrita sobre a existência humana. O escritor, esse ser arbitrário e tirânico, que se apodera dos vocábulos, explora-os, corrompe suas naturezas, e mesmo assim fracassa ao traduzir a realidade em ficção. “A escrita não passa de uma tentativa idiota de dar vida a marionetes, a criação não é capaz de suprimir a representação e a representação é uma banalização do real”. O principio sempre será o Verbo, a autora parece nos atentar, porém todos nós vivemos sob o signo do Caos.
Na abertura da ficha técnica do livro está a seguinte informação: “Todo conteúdo do texto aqui apresentado é de inteira responsabilidade do autor”. Algo posto como alerta, mas que, de fato, lança luz sobre a prosa pujante e bem elaborada de Barbieri, capaz de causar espanto e maravilhamento na mesma medida.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.