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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Victor Prado

 

Arte: Cristina Arruda

 

(sem título)

para Juliana

 

 É estranho dormir
sem os cachorros latindo.

É estranho esse exercício mental
de relembrá-los.

Me acostumei a dormir sozinho no escuro
mas o silêncio é excruciante.

#
…..Teu silêncio sem matéria
………..é excruciante

………..(Teu silêncio sem corpo)

#
…..Sem corpo teu silêncio possui órbita
…………………………..em torno de mim.

 

 

***

O mundo regira infinito
enquanto eu canto refrigérios pra acalmar

minha alma

eu desmonto desse potro-tempo
dessa comiseração que são as lembranças

são esmolas

e me deixo acomodar no aconchego

me deixo definhar esperando
a gente cansa de esperar, (mas tá demorando pra isso acontecer comigo)

Então saio,
pra me esconder

 

 

***

 

 

Movimento Dialético

 

Faço-te bruscas lembranças,

aquelas de nascentes,
antes de desembocar
no teu sentido.

E tinham estradas de terra
que cortavam o fundo da casa.

Nessa hora nem te sei,
Mas é fato que as formigas ensinavam minúcias
e mapeávamos juntos as árvores.

Demorei-me com coisas digitais,
Quando voltei-me ao manual
já haviam asfaltado as imaginações.

Procurei-te
Sem mapas
Pra facilitar
O caminhar.

Tu estavas repleta,
Despi-me de tudo que carregava
e te envolvi,

Então, o mundo se reconstrói
protuberâncias divisadas.

Tu és sequoia
e de ti surgem cataclismos em vermelho.

 

 

***

Epifania 3

 

tudo que carregava era pouco. desse pouco, tudo era poroso. e essas frases em branco continuam a aparecer. próprias, conscientes de si e de sua abrangência descontextualizada.
me vejo andar. ando e me vejo andar. a consciência é mais forte que o fazer.
não é momento, nem passagem. não é um mito. nem um ritual. não é porra alguma.
as fendas se abrem.
eu caio, despenco: aceito.
te submeto. te encaminho. te mando pelos correios. por sedex. com aviso de recebimento e tudo mais. me despeço, despedaço. extravio.
desmantelo, e nem mesmo sei onde se encaixam as lacunas, os nós, os conchaves. nem mesmo sei o que é desmantelar.
entendo bem de inutilidades, desmoronamentos, laços, maquinações, permanências e substantivações.
o centro de tudo é consequência, por isso generalizações se formam na minha continuidade e as pausas necessárias remontam céus azuis de dias regulares. tudo isso para que o fio da meada não me perca como perco a mim em botões de repetitivas funções padronizadas e opções limitadas.
a gente é cópia. transmutação; sei a prática. nossa teoria é sombra embaixo dos pés.

 

Victor Prado tem 19 anos, é do interior de São Paulo. Reside em Franca (SP) e cursa Relações Internacionais na UNESP.  Tem poemas publicados pelo Canal SubVersa, Revista Grito, Portal Guata e Jornal RelevO, além de uma menção honrosa no XV Concurso Nacional de Poesias – Edição Álvares de Azevedo realizado pelo CBE. Em outubro de 2014, lançou para leitura e download gratuitos o e-book de poesia Mamute (edição independente).

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97ª Leva - 11/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – CONVOQUE SEU BUDA

 

Criolo

‘Eu não venci nada, ninguém vence nada. A gente só passa’.
(Criolo)

 

Três anos se passaram e Criolo – codinome de Kleber Cavalcante Gomes – permanece honrando as raízes africanas do pai (meu lado África, aflorar, me redimir) e subvertendo a candura cearense da mãe (é que eu sou filho de cearense/a caatinga castiga e meu povo tem sangue quente). O álbum com nome de mantra é o terceiro registro de estúdio do rapper e um dos mais aguardados do ano. Lançado em novembro e novamente produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, ambos integrantes de sua banda, o disco está disponível para audição e download gratuito no site do artista. O trabalho comprova o amadurecimento sonoro do homem com olhar de profeta, que quase abandonou a música antes de gravar o impactante Nó Na Orelha (2011).

É preciso lembrar que no ínterim de um álbum e outro, o músico lançou o CD/DVD Criolo & Emicida – Ao Vivo (2013), filmado todo em GoPro (vencedor do 25º Prêmio da Música Brasileira), além de canções para projetos específicos. A exemplo de seu antecessor, as 10 faixas de Convoque Seu Buda (Oloko Records) continuam aproximando o rap aos mais diversos ritmos, como samba, reggae, soul e até mesmo ao baião. Criolo não só imprimiu definitivamente o gênero na música popular brasileira, como dividiu o palco com alguns de seus maiores expoentes, como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Milton Nascimento, comprovando que, de fato, não existem barreiras para sua poesia.

Criolo
Criolo nos trilhos de “Convoque Seu Buda” / Foto: Divulgação

 

A faixa-título, o rap-oriental Convoque Seu Buda (ao trabalhador que corre atrás do pão/é humilhação demais que não cabe nesse refrão) abre o álbum invocando Shiva, Ganesh e demais deuses para que mantenham nossa fé e equilíbrio diante do panorama atual. A letra incisiva de Esquiva da Esgrima (hoje não tem boca pra se beijar/não tem alma pra se lavar/não tem vida pra se viver/mas tem dinheiro pra se contar) mantém a tônica social, tecendo críticas que vão do racismo ao abuso de autoridade: é o ‘céu da boca do inferno esperando você’. O contagiante soul setentista Cartão de Visita – um dos momentos mais ensolarados do álbum –, parceria com Tulipa Ruiz, discorre sobre o consumismo-ostentação e relembra com bom humor a controversa entrevista concedida a Lázaro Ramos no programa Espelho, do Canal Brasil (Lázaro, alguém nos ajude a entender!), que virou meme na internet. Casa de Papelão (prédios vão se erguer/e o glamour vai colher/corpos na multidão) aborda a especulação imobiliária do centro de São Paulo, enquanto o samba Fermento pra Massa (eu que odeio tumulto/não acho um insulto manifestação/pra chegar um pão quentinho/com todo respeito a cada cidadão) – que bem poderia integrar a roda do Pagode da 27, nos domingos do Grajaú –, discute as manifestações populares.

Enquanto o reggae Pé de Breque (o Criolo Doido respeita o rastafári/e pede licença pra poder cantar/essa nossa teoria secular/és responsável por tudo que cativar) celebra o estilo Bob Marley de ser, o baião Pegue Pra Ela tem um quê de Chico Buarque e deixa qualquer um com vontade de puxar seu par para dançar. A densa Plano de Voo (e por mais que eu tente explicar, não consigo/de tornar concreto abstrato que só eu sinto/é como se eu ficasse aqui nesse cantinho/vendo o mundo girar no erro abusivo), que flerta com o hip hop de Ainda Há Tempo (2006), seu primeiro álbum, tem a intervenção do rapper Neto (Síntese) e atinge o clímax do álbum. Duas de Cinco (e eu fico aqui pregando a paz/e a cada maço de cigarro fumado/a morte faz um jaz entre nós), lançada inicialmente em 2013, em EP homônimo, faz as honras para ‘tombar o mal de joelhos’ no experimentalismo regional de Fio de Prumo (Padê Onã), que tem participação de uma onipresente Juçara Marçal e fecha o álbum no melhor estilo africano.

É notável que o discurso de Criolo está cada vez mais contundente e aprimorado para além da crueza periférica. Em sua poesia abstrata, ele responsabiliza a miséria, a inveja, o desamor e principalmente o consumo de drogas pela falência do ser humano. E cita ainda a depressão como “a peste entre os meus”. Os arranjos estão cada vez mais experimentais e ousados, assim como a arte do álbum, que se apropriou do acervo digital liberado pelo Museu Nacional da Holanda (Rijksmuseum) para construir uma bela colagem, onde a figura central é um oficial da Corte da Ilha de Java (Indonésia) de saiote, pintado a óleo, em 1820, por um artista não identificado – e que se assemelha muito ao rapper.

Em tempo: assisti o terceiro show de lançamento da nova turnê, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, que contou com os convidados especiais Síntese, Tulipa Ruiz e Ricardo Rabelo (Pagode da 27) e afirmo que Criolo continua em perfeita comunhão com seu público. Ao final da celebração como costuma chamar seus espetáculos , o artista recebeu calorosamente os fãs. Posso dizer que o abraço apertado do messias do Grajaú conforta e abençoa. Convoque Seu Buda é o relicário do ano e Criolo não passará tão cedo.

 

 

 

Larissa Mendes não é uma pessoa de muitas crenças, mas ainda acredita no ser humano.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Jogo de Cena

Jogo de Cena

O teatro e o mercado editorial: um olhar a partir do Nobel de Literatura

Por Rodrigo Conçole Lage

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

Quando Mo Yan conquistou o prêmio Nobel de Literatura de 2012, tivemos a publicação de um de seus livros, Mudança, traduzido direto do chinês. O fato de Alice Munro ter conquistado o Nobel em 2013 teve um impacto muito maior no mercado editorial, como podemos ver pelos muitos títulos publicados posteriormente. Com Patrick Modiano, em 2014, não tem sido diferente. A editora Rocco vai relançar três obras que já estavam esgotadas há muito tempo e outras editoras irão publicá-lo também.

A partir disso, podemos dizer que o fato de um escritor receber o Nobel de Literatura tem impacto no mercado editorial, despertando o interesse das editoras. Anatole France, Thomas Mann, Ernest Hemingway, Albert Camus, Jean-Paul Sartre e outros ganhadores tiveram um grande número de livros publicados no Brasil e, hipoteticamente falando, também poderão ter sido “beneficiados” pelo fato de terem sido premiados, algo a ser devidamente estudado.

Contudo, quando olhamos para os dramaturgos que receberam o Nobel, vemos que o mercado editorial nem sempre os acolheu com o mesmo interesse. Das mais de sessenta peças de José Echegaray, foram traduzidas, por R. Magalhães Júnior, apenas a Mancha Que Limpa e A Morte Nos Lábios, as quais estão esgotadas há décadas, o que é muito pouco. No que se refere a Jacinto Benavente, não foi diferente. Das mais de cento e setenta peças escritas por ele, foram traduzidas, também por R. Magalhães Júnior (um dos mais importantes tradutores de teatro do Brasil), somente Os Interesses Criados e Rosas De Outono, também esgotadas.

Maurice Maeterlinck, importante nome do teatro simbolista, também teve somente duas de suas peças traduzidas: O pássaro azul, por Carlos Drummond de Andrade, e Peléas e Melisanda, por Newton Belleza. Do importante dramaturgo Gerhart Hauptmann, também temos somente duas traduções: Michael Kramer, de Herbert Caro, e a de Os tecelões, de Marion Fleischer e Ruth Mayer Duprat.

Harold Pinter foi ainda menos valorizado, pois a única peça traduzida, por Millôr Fernandes, foi A Volta ao Lar. Outras peças foram traduzidas apenas para o teatro, nunca tendo sido publicadas em livro. Da imensa produção teatral e teórica de Dario Fo, temos somente as peças reunidas no livro Morte Acidental de um Anarquista e outras peças subversivas (que inclui História de uma tigresa e O primeiro milagre do menino Jesus), tradução de Maria Betânia Amoroso, e o livro Manual mínimo do ator, traduzido por Lucas Baldovino e Carlos David Szlak.

Elfriede Jelinek e Mario Vargas Llosa têm uma importante obra teatral, principalmente Elfriede, mas as editoras brasileiras têm se concentrado em seus romances e não publicaram nenhuma de suas peças.

Dentre os dramaturgos, George Bernard Shaw foi o mais traduzido, com mais de uma dezena de peças (Pigmaleão, Quatro peças curtas, O homem e as armas, O altruísta, O discípulo do diabo, Santa Joana, A profissão da senhora Warren, Aventuras de uma negrinha que procurava Deus, Major Bárbara, A Conversão do Pirata, O homem do destino, Casa de Orates, Matrimônio Desigual e César e Cleópatra). Contudo, as traduções não correspondem à metade de sua produção.

 T. S. Eliot teve todo o seu teatro traduzido por Ivo Barroso para o segundo volume de sua Obra completa, publicada pela editora Arx (2004). Eugene O’Neill foi outro dramaturgo com várias traduções (Longa jornada noite adentro, Quatro peças, Além do horizonte, Dias sem fim, Desejo, A juventude não é tudo, Piedade cruel e Electra enlutada).

William Butler Yeats também teve seis peças traduzidas por Paulo Mendes Campos, publicadas no livro Teatro da Coleção Prêmio Nobel, e O Poço do Falcão, traduzida por Fernanda Mendonça Sepa no livro O Teatro de William Butler Yeats teoria e prática.

Albert Camus tem uma produção teatral pequena, seis peças, sendo que quatro foram traduzidas (Oração para uma negra, Calígula, Estado de sítio e Os justos). Jean-Paul Sartre também foi bem traduzido (As moscas, Entre quatro paredes, A prostituta respeitosa, As mãos sujas, Os Sequestrados de Altona, O diabo e o bom deus e As troianas).

Luigi Pirandello tem uma grande produção teatral, contudo, as seis traduções existentes (Seis personagens à procura de um autor, Os Gigantes da Montanha, O Enxerto: o Homem, a Besta e a Virtude, O Marido de Minha Mulher, Assim é (se lhe parece), Vestir os nus e Liolá) correspondem a uma pequena parte de sua dramaturgia. As traduções têm se concentrado principalmente na sua obra ficcional.

A produção teatral de Samuel Beckett também foi pouco traduzida (Esperando Godot, Fim de Partida e Dias felizes), diante da importância de sua obra. As editoras também têm se concentrado em sua ficção.

Por fim, podemos dizer que, com algumas exceções, a dramaturgia dos ganhadores do prêmio Nobel de Literatura não despertou o interesse das editoras. Mesmo os que o despertaram foram, com o passar dos anos, esquecidos e a maior parte das traduções está esgotada. Isso, em parte, se deve ao fato de que o público leitor contemporâneo não tem o hábito de ler textos teatrais, e do próprio papel secundário que o teatro exerce na contemporaneidade.

A leitura teatral não tem sido incluída no processo de formação dos leitores, e mesmo o público frequentador de teatro não tem por hábito a leitura de peças teatrais. Consequentemente, o mercado editorial dedica pouco espaço à publicação de textos teatrais, seja de traduções, seja dos grandes nomes do cânone da literatura brasileira.

Rodrigo Conçole Lage é professor de história. Possui artigos e resenhas sobre Literatura e História publicados em revistas acadêmicas.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Myriam de Carvalho

 

Arte: Cristina Arruda

 

Monção

 

Este ar irrespirável. Quente. A chuva, o vento. Pela janela, olha a agitação que vai no Mar de Java. Onde ela veio parar.

Que raio de homem, maldito anúncio, maldita a hora em que respondi. Mais temível que a aproximação da monção, mais asfixiante que a atmosfera sulfurosa do Krakatoa que ainda paira sobre a cidade, a tempestade que ele veio cravar na minha vida. Uma mulher nativa, e uma concubina – o que eu vim encontrar. Vá para o inferno – mais a posição, o exército, a carreira, e mais o dobro da minha idade. Alcoólico. Violento. O que é que eu faço? Meus dezanove anos, que mal empregados…

Mas ela não perde tempo. E esta sensualidade esculpida nos deuses e deusas que bailam nos portais e paredes dos templos hindus, o corpo é sagrado, o amor para ser completo, tem rituais a cumprir.

Gostei do templo de Krishna. Experimentar a escola do templo. Aprender as tradições, tudo o que é daqui. As danças, a música, é que me fascinam.

Regresso à Europa. Decide-se. O divórcio.

Paris é e será sempre a cidade dos exílios famosos, dos grandes recursos. A cidade das artes, do livre pensamento. Lady MacLeod. Um nome exótico, bom para uma amazona de circo. Ou uma modelo de artistas. Usar o nome do ex-marido? Que é que isso importa? Funciona. Funciona muito bem. Mas não chega.

Começa a ganhar fama como bailarina exótica. Vê que pode competir com Isadora Duncan, ou Ruth St Denis. Toda a gente vai procurar inspiração à Ásia, ou ao Egipto.

Felizmente, não perdi tempo enquanto estive em Jakarta. “Princesa de estirpe sacerdotal, educada nas artes hindus desde a mais tenra idade”. Oh, como fui prevista. E como o público gosta de ser enganado!

Mata Hari, o olho do dia, ou do sol, na realidade, o sucesso das noites. A ostentação do corpo com uma mística única, a cativar o público em geral, e um mundo mais privado, restrito, cada vez mais no círculo dos poderosos, quanto mais abastados, melhor.

Quem na Europa está preocupado com as longínquas Índias Orientais Holandesas? A história que eu conto não oferece dúvidas.

 

*

E a tômbula da fortuna vai novamente desandar. Ninguém ignora que quando se sobe com tanta avidez, se desce com grande estrondo. Antes da guerra, era vista como uma artista livre, independente, boémia. Mas agora, à medida que a guerra se aproxima, começam a falar da artista. Libertina, devassa, promíscua. Pior, uma perigosa sedutora.

Os seus apoios começam a afastar-se. Olho-me ao espelho, e só confirmo que a idade começa a notar-se… Ai a beleza vai-se-me diluindo.

As suas deslocações através da Europa, em tempo de guerra, chamam a atenção. É a cortesã das muitas altas patentes entre os aliados. É interrogada pela espionagem britânica. Diz que trabalha como agente para a espionagem francesa. Os franceses não confirmam.

*

1917. Da janela da prisão, vê a sua vida deslizar na sua frente. Sabe que não passa da folha de Outono, muito bela, do ocre ao vermelhão, mas que cai da árvore porque está morta. Ninguém a pode suster. Sabe que alguém deixa que seja acusada para se ocultar. Foi assim com Dreyfus. É o que faz ser mulher, mulher só. E essa barriga atulhada de leis, inútil e sem alma, de que é que me serve?

41 anos. Será que vivi tudo? E a soturna da sotaina, a dançar ao vento como uma bandeira negra, não me vai salvar das armas… 41 anos… Já?! Tão depressa?

 

 

***

 

No Café, com Mrs Robinson

 

Esqueci-me de apontar na agenda que trago sempre comigo o número do seu telefone. Despachei-me cedo, mais cedo do que pensava, entrei no café para lhe telefonar, quem sabe, talvez você estivesse livre, quem sabe, poderia querer descer aqui ao Café. Poderíamos dar à língua.

Mas contrariada constato que me esqueci de apontar na agenda o número do seu telefone. Não percebo por quê.

A alta-fidelidade põe no ar canções dos velhos Beatles. Quanto mais o tempo passa, mais belas são. Mary Lane. Cantam em surdina os amplificadores do Café. Abafam-lhes o som os motores dos carros que passam na rua, as máquinas das bicas*, as conversas das mesas ao lado e as do balcão. Mrs. Robinson. Acho que vivias sozinha, Mrs. Robinson. Há coisas que doem muito, na medula dos ossos da alma é que certas coisas doem. Mrs. Robinson. Onde se meteram os filhos que criaste, o homem, ou os homens quem sabe, que tu amaste?! E agora, imagina, poderia falar com este fulano, se ele estivesse livre, claro, mora mesmo aqui por cima. E depois, o que é que ele pensaria de mim?! Chiça, é melhor estar quieta, quer dizer, é uma sorte não ter aqui o telefone dele. Oh, Mary Lane, sabes muito bem como odeio os homens. Odeio os homens. E detesto as mulheres! Mesmo assim, eles ainda conseguem ser mais sofríveis do que elas. Mary Lane, nunca confies numa amiga. Nunca confies em ninguém. Olha, Mrs. Robinson, venho das compras. Ouves? É o Paul Anka. Há quantos milénios não ouvia o Paul Anka! Interessante, não é? Crazy Love.

Crazy Love. You are my crazy love. De facto, minha querida Mrs. Robinson. É mesmo uma loucura. Porque um amor morre e uma pessoa procura logo outro. Não é a força da vida, nem o tanas. É auto-destruição. Uma pessoa, enquanto tem um pouco de esperança, consome-a. Não a utiliza em proveito próprio. Consome-a, desbarata-a. Claro, é isso mesmo, destrói-se. Depois, quando fica sem nada, vem para aqui como nós, senta-se à mesa do café e fala com as cadeiras. Sabes, Mrs. Robinson, tenho pena da Mary Lane. Ainda tem esperança. Ainda tem quem lhe dedique canções de amor. Ainda tem com que se auto-embalar. Ainda não lhe bateu à porta a hora da verdade. Sweet Caroline. Sweet Caroline. Há pouco eras Mary Lane, agora és Sweet Caroline. Mas daqui a pouco serás apenas a velha Mrs. Robinson, a pobre da vizinha a quem alguém mandará um pratinho de filhós (as que sairem quebradas ou um pouco mais fritas do que a conta) no dia de Natal, coitadinha, consola-se a velhota.

Bem. Ainda bem que não apontei na agenda da minha mala de mão o seu número de telefone. Sinceramente, gosto de falar com homens inteligentes. Sabem coisas que eu não sei, pensam em coisas que eu não penso, analisam a vida com lentes que eu não tenho nem nunca terei. Aprecio isso. As mulheres não. Mas ainda bem que não apontei nesta agenda o seu telefone. Hoje, estou triste.

O meu irmão veio visitar a nossa mãe, com a mulher e o filho. Há anos que não me telefona. Não sei que bicho lhe mordeu. Foi o bicho da vida. Já lhe disse tantas vezes o quanto isso me magoa que hoje preferi ignorá-lo. Pronto. Fui às compras. Comprei muito e gastei pouco. Até me portei muito bem. Claro. Depois não tenho aonde levar tanta roupa, não vou a nada, meto-me em casa a fazer festas aos gatos, a ver o canal 7, até fico com a sensação que tive alguém a conversar comigo sobre coisas que eu gosto. Mas tudo espremido, desliga-se o aparelho, não ficou cá nada. Os gatos são mudos, os filmes dão saltos nas partes conclusivas, passou tudo muito depressa. É só tempo perdido.

Tempo perdido.

Bem vistas as coisas, meu caro, ainda bem que não apontei o seu telefone nesta agenda, não sei porquê, cheira-me a medo.

Com efeito. Imagine que você percebia como estou triste. Imagine que você se punha a pensar que eu lhe estava a pedir apoio. Qualquer coisa como apoio.

Chiça! Mil vezes melhor é ir às compras. Gastar dinheiro que não tenho, gastar tempo que me falta, comprar coisas que não preciso.

Mentir a mim própria. Imaginar que existo.

(*) Em Portugal, chamamos bica à pequena quantidade de café servida nos cafés e restaurantes.

 

Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Dois livros de poesia publicados.

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97ª Leva - 11/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Carolina Calvo

 

Arte: Cristina Arruda

 

Tradução: Floriano Martins

 

COMPAÑÍA REMOTA

 
Sombras que sin ti
caminan conmigo.

Ecos del ayer
golpean desafiantes las nuevas huellas.

Su presencia pendular en el aquí y en el allá
– en el allá y en este aquí sin ti-
acalla todo intento de palabra naciente,
desdibuja con pincelados recuerdos
bocas que quieren ser una.
Siempre así, oscilante,
tu ausencia se derrama como lágrima contenida
sobre inexploradas formas que quisiera besar…
pero nunca puedo.

Impiden tus sombras
…siempre así, oscilantes,
mi tránsito por caminos luminosos.

Seguiré entonces permaneciendo a tu lado sin ti
hasta que el mismo sol, compasivo,
baje y queme sin herirme
la oscura presencia de tu ser en mi ser.

 

COMPANHIA REMOTA

 
Sombras que sem ti
caminham comigo.

Ecos de ontem
golpeiam desafiantes as novas marcas.

Sua presença pendular aqui e ali
– ali e neste aqui sem ti –
desfaz com pinceladas lembranças
bocas que querem ser uma.

Sempre assim, oscilante,
tua ausência se derrama como lágrima contida
sobre inexploradas formas que quisera beijar…
porém nunca posso.

Tuas sombras impedem
…sempre assim, oscilantes,
meu trânsito por caminhos luminosos.

Seguirei então permanecendo a teu lado sem ti
até que o próprio sol, compassivo,
desça e queime sem ferir-me
a escura presença de teu ser em meu ser.

 

 

 
***

 

 

 
LEJANÍA

 

Tras la remota contemplación
de tu sonrisa en el firmamento,
sólo me resta
reordenar las estrellas
y seguir viviendo.

 

DISTÂNCIA

Após a remota contemplação
de teu sorriso no firmamento,
apenas me resta
reordenar as estrelas
e seguir vivendo.

 

 

***

 

 

AUTORRETRATO SIN MÍ

 

Tal es la ausencia
de mí esta noche,
que me conformo
con lo que
éstos versos
puedan decir
de lo que soy.
Punto.

 

 

AUTO-RETRATO  SEM MIM

 

Tal é a ausência
de mim esta noite,
que me conformo
com o que
estes versos
possam dizer
do que sou.
Ponto.

 

 

***

 

 

PUNTO MUERTO

 
Este ir sin mi,
este recorrido pendular
entre el suspiro y el silencio
¿Acaso es por repentinos tropiezos
con el polvo enrarecido del ayer?

¿Acaso envejecí antes de tiempo
y fueron inútiles los intentos
de borrar las líneas de mis manos?

No lo sé.

Sólo miro por la ventanilla del bus
las calles, semáforos, casas
y todo me es ajeno.

Recorremos sin sentido los caminos
sin nosotros
sin los otros,
siempre son miradas pasajeras
las que se posan sobre quien duerme en el asfalto.

 

PONTO MORTO

 
Este ir sem mim,
este percurso pendular
entre o suspiro e o silêncio
acaso é por repentinos tropeços
com o pó raríssimo de ontem?

Acaso envelheci antes do tempo
e foram inúteis as tentativas
de apagar as linhas de minhas mãos?

Não sei.

Apenas vejo pela janelinha do ônibus
as ruas, semáforos, casas
e tudo me é alheio.

Percorremos sem sentido os caminhos
sem nós,
sem os outros,
sempre são olhares passageiros
os que pousam sobre quem dorme no asfalto.

 

 

***

 

 

LLUVIA

 

Estos objetos que no escapan del dilatado suspiro
observan sigilosamente mis movimientos,
ante ellos
llovió esta tarde

No fue una lluvia simple. No.
Del ayer vino.

Azotó mi rostro con una danza
que aturdió mi alma
e inmovilizó mis pasos
sobre la cabeza de las piedras.

Socavó mi piel
con sus finos hilos contundentes
y abrazó mis huesos con ansías de calor.

Quise también abrazarla toda
curar su tristeza
bajo un manto de palabras
resistentes al agua de lluvia triste.

Pero las vocales necias
se ahogaron en su grito,
mis manos abrazaron mi espalda
y las piedras abrieron su coraza
para calentar mi cuerpo
con un calor escondido.

Allí comprendí
que era yo
la lluvia triste
y que son estos observadores
mi eterno invierno de diciembre.

 

CHUVA

Estes objetos que não escapam do dilatado suspiro
observam sigilosamente meus movimentos,
diante deles
choveu esta tarde.

Não foi uma chuva simples. Não.
Veio de ontem.

Açoitou meu rosto com uma dança
que aturdiu minha alma
e imobilizou meus passos
sobre a cabeça das pedras.

Escavou minha pele
com seus finos fios contundentes
e abraçou meus ossos com ânsias de calor.

Quis também abraçá-la toda
curar sua tristeza
sob um manto de palavras
resistentes à água de chuva triste.

Porém as vogais imprudentes
se afogaram em seu grito,
minhas mãos abraçaram meu dorso
e as pedras abriram sua couraça
para esquentar-me o corpo
com um calor oculto.

Ali compreendi
que a chuva triste
era eu
e que estes observadores são
meu eterno inverno de dezembro.

 

 

***

 

 
SIN ALCOHOL

 

Mala elección
pedir coctel de estrellas muertas
en esta noche sin luz

El hielo de mi vaso no se derrite
y la vela de la mesa se extingue
sin que sacie mi sed

Silente,
observas desde la otra orilla
la fría levedad del trozo transparente, sólido,
flota como tus pasos
sobre ruinas de papel.

 

SEM ÁLCOOL

Péssima escolha
pedir coquetel de estrelas mortas
nesta noite sem luz

O gelo de meu copo não derrete
e a vela da mesa se extingue
sem saciar minha sede

Silencioso,
observas da outra margem
a fria leveza do pedaço transparente, sólido,
flutua como teus passos
sobre ruínas de papel.

 

 

***

 

 

ECO

 

Grité olvido al eco
para que retornara
el sonido de paz perdida…
para que regresara sin Él.

Y nítido oí tu nombre.

 

 
ECO

 

Gritei esquecimento ao eco
para que retornasse
o som de paz perdida…
para que regressasse sem Ele.

E nítido escutei teu nome.

 

 

***

 

 

CLAVANDO CLAVOS

 

Sigo allí en esa pared
esperando que un clavo para retrato nuevo
perfore mi frente,
sangre tu nombre por la herida
y despierte pensando
que sólo fue un inquietante dolor de cabeza.

Sin embargo,
la casa se cae a pedazos.

Por misión,
orificios en cada muro
buscan inútilmente aquel lugar
dónde sonámbulas levitan tus palabras.

Ojalá no sea otro clavo
el que despoje a mis poemas
de tu sombra,
no quiero barrer
las ruinas perforadas de mi poesía

 

CRAVANDO CRAVOS

 
Sigo ali nessa parede
esperando que um cravo para retrato novo
perfure minha fronte,
sangre teu nome pela ferida
e desperte pensando
que foi apenas uma inquietante dor de cabeça.

No entanto,
a casa cai aos pedaços.

Por missão,
orifícios em cada muro
buscam inutilmente aquele lugar
onde sonâmbulas levitam as tuas palavras.

Quisera não fosse outro cravo
a despojar meus poemas
de tua sombra,
não quero varrer
as ruínas perfuradas de minha poesia.

 

 

***

 

 
CÁRCEL

 

Turbia es la mañana,
………………..  la tarde,
…………………………..la noche.

Veladas siempre las horas mientras duermes
y no me dejas escapar de tu sueño.

Despierta ya,
¡Qué se acabe la pesadilla!

 
 
CÁRCERE

Turva é a manhã,
…………….a tarde,
…………………….a noite.

Veladas sempre as horas enquanto dormes
e não me deixas escapar de teu sonho.

Desperta já,
que tenha fim o pesadelo!

 

Carolina Calvo-Pérez (Bogotá, Colômbia, 1988). Poeta, inédita em livro. Integra a oficina de criação poética da Universidade Pedagógica Nacional, coletivo que dirige o jornal Aldabón, publicação com destaque para as novas vozes da poesia colombiana, incluindo a poesia étnica de diferentes nações indígenas. Participou do Festival Internacional de Poesia de Bogotá e do Festival Internacional da Cultura, em Tunja. Neste último evento acompanhou o poeta brasileiro Floriano Martins em uma leitura de poemas incluindo vídeo, música e fotografia. Participa ainda do grupo de pesquisa Merawi, cuja linha de trabalho é a interculturalidade e seu reconhecimento em espaços educativos.

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97ª Leva - 11/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

TETELESTAI -sobre GLACIAL, o novo livro de Jorge Elias Neto

Por W. J. Solha

 

Glacial

 

Como diz T.S.Eliot, no meu começo está meu fim e em meu fim está meu começo, daí otítulo acima, que encontrei encerrando a obra em pauta, como se o volume editado pela Patuá fosse resultado de muito sofrimento:

Tetelestai *

João, 19:30,

………*Está consumado!

Descobri, ali, o fio da meada: a fé e sua perda estás empre ostensiva ou dissimuladamente presente em todo o GLACIAL. O poema “Paisagem”, por exemplo, tem como epígrafe trecho de um poema de Luís García Montero:

Cada tiempo de dudas
Necesitaunpaisaje

O céu se fecha.
Nuvens se entrelaçam
― íntimas .
Onde encontrar
um caminho sem cruzes?

Vê a montagem?:“Cada tempo de dúvidas”, “O céu se fecha”. E, com “Nuvens se entrelaçam – íntimas”, percebe-se que há no estilo de Jorge Elias uma certa combinação de palavras à maneira de Lorca: Árbol de Sangre, la tristeza sinojos, méduladel alma, Verde viento, silencios de goma oscura,  rosa de lacircuncisión, etc. O surrealismo – movimento a que o espanhol pertenceu – foi fortemente influenciado pelas teorias de Freud, enfatizando a função do inconsciente na atividade criativa. Justamente como uma reação a uma arte que estava destruída – olha a pedra no sapato do poeta capixaba – pelo racionalismo. O tom, aqui bem leonardesco – todo non finito e sfumato – se torna mais poético, fala mais.

“Onde encontrar/ um caminho sem cruzes?”

O trágico é que o poeta sabe, todos sabemos, que isso não existe. Passei minha mui distante infância ouvindo Orlando Silva cantar:

Sou um covarde e bem sei
que o direito é levar
a cruz até o fim,
mas não posso,
é pesada demais
para mim.

Há um poema de GLACIAL,“Rês”, em que Jorge Elias assume o papel da vítima, já que o dito uso da razão lhe é doloroso, uma cruz. Como se tivesse nascido em local demarcado pela estrela de Belém, diz:

Eis o meteoro /da impaciência / que destrincha a carne,/que fratura/o tempo e/me descobre/tenro,/palatável,/em meio/aos estilhaços/da urgência.

“Tenro” e “palatável”, porque está pra virar hóstia na própria Ceia. Por que, se perdeu a fé? Justamente porque resfriado nas /evidências da razão / – que não basta.

A razão não lhe basta. E ele diz em “Reinício” – entre mensagens cifradas:persigo sua imagem,/ Deus dos homens. Daí que ficamos com um poeta… relutantemente… místico, feito um Eliot, William Blake, um San Juan de la Cruz … “gauche”, como que por ordem do mesmo “anjo torto” de Drummond. No poema ‘Cronópio”, inclusive, ele se diz – contrariando Cristo – serfiel depositário de um torrão de açúcar, mas termina concluindo que Caronte – o barqueiro o inferno – aguarda o sal da terra. E aí, curiosamente, entramos no clima que justifica o título do livro:

O inverno é longo,
o bastante
para que a neve
reaja a esses
rudimentos de liberdade
extinta.

Que inverno? Suponho que seja o “inverno do nosso descontentamento”(the winter of our discontent, conforme diz Ricardo III na peça homônima de Shakespeare ). Seguem-se poemas que falam em desandada tristeza, desespero (“Simetria do Caos”), condenação de loucura (“Assim & Assado”) e, doutoralmente, concluo que – parece-me – nosso Doutor Jorge Elias Neto já sofreu muito, viu sofrer… e talvez tenha feito sofrer muita gente…

– Havia uma alternativa / em alguma gaveta / queimada para não morrer /de frio.// Uma aspirina /entre duas torturas.

Ele diz, no poema “Matilha”:

Nomeados
os lobos,
desembainhei os caninos
………..– incógnitos –
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão austral.

A vida, já dizia Voltaire – maniqueísta – quando não é complicação é “Tédio” – título, por sinal, de outro poema tenso, onde O nada /é um cansaço/que dá sono.

E eis aí outra forma do branco eterno, de GLACIAL: o nada. Jorge Elias fala, em “Fração do indizível”, numa …biografia/ de renúncias /e equívocos.Fala de solidão: Minha distância / não é exercício de retórica,/ apontamento /de um ególatra.

Mas por que é tão racional?

Não me cabe
o sedentarismo da crença,
o fervor
no púlpito.

Não me envaidece,
não me encoraja
(…) escovar os pelos
que agasalharam
erros.

Isso faz dele um dos “desterrados Filhos de Eva” – como diz a antiga oração –“gemendo e chorando neste vale de lágrimas”

Amanhecer

É setembro.
escorrem
as primeiras lágrimas
das montanhas dos Andes,

Veja – no final do poema “Sobre anjos e blasfêmias” – o Gênesis numa versão conto de fadas:

Só que um toque atrevido,
por delicado que seja,
faz desabar o enigma
(Chamam a isso: pecado.)

Enigma = pecado. Isso nos leva à velha estória:

E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás;

Há uma culpa – máxima culpa, talvez- em jogo. E Jorge Elias diz, em Portal dos anjos:

Anjos …
Dou-lhes de presente
minha sanidade.
Sei o que me custará
rolar a cabeça no acaso …

Anjos de poeta não implodem,
esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.
Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.

Anjos …
Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o patibulum e a culpa.

“Esvaem-se da cabeceira / da cama do menino”. Ah, caramba, eu mesmo tinha, em minha… cabeceira de menino…, um quadro em que um belo anjo da guarda acompanhava um casal de garotos atravessando uma decrépita ponte de madeira sobre o abismo, numa tempestade!

Anjos de poeta não implodem,
esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.

Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.

Ele sente isso. E o que faz?

Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o patibulum e a culpa.

O que tem o apóstolo da epístola com isso? Creio que Lacan tem parte na estória. Em 1960, em seu Seminário sobre a Ética da Psicanálise,

retoma textos antigos, como a Epístola aos Romanos, de São Paulo, “tu, que te glorias na lei, desonras a Deus, transgredindo a lei”(…) “porque pelas obras da lei não será justificado nenhum homem diante dele. Porque, pela lei, vem o conhecimento do pecado”.

Aí está, novamente, o pecado, o enigma que faz o poeta se sentir perdido no

gelo intransponível.
Daí esse tatear – essa procura.

Adam Smith disse em A Riqueza das Nações, 1776:

…não é da benevolência do padeiro, açougueiro ou cervejeiro que se pode esperar o jantar, e sim do empenho deles pelo que irão… lucrar.   

Luis Büchner,em O Homem Segundo a Ciência, 1869, sobre o comunismo:

– Todas as tentativas do gênero têm falhado vergonhosamente e afirma-se que, por causa da fraqueza, da insuficiência da natureza humana, falharão sempre.

Insuficiência. Em GLACIAL, de Jorge Elias Neto, há um poema chamado “Insignificância”, em que ele fala:

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

Insignificância, é o título do poema. Insuficiência, diz o também médico Büchner. E veja isto, em “O Arco e a Lira”, de Octavio Paz:

– A necessidade de expiar, como a não menos imperiosa da redenção, brotam de uma falta; não no sentido moral da palavra, mas em sua acepção literal: somos pouco ou nada diante do ser que é tudo. Nossa falta não é moral: é insuficiência original. O pecado é ser pouco.

Temos aí, portanto, uma bela correção ao Gênesis, que tem a ver com a “insignificância” de Büchner e Jorge Elias.

Veja, mais uma vez, o começo do mundo, no primeiro poema de GLACIAL:

Compondo o sitio arqueológico

A vastidão
é uma pedra
redonda e fria.
Grande esfera
onde deslizam
e desabam as criaturas.
O horizonte ‒ gelo
intransponível.
Daí esse tatear – essa procura.
A obscura arqueologia de esconder-se.

E, no silêncio,
no cu
desse branco profundo,

aguarda,
e se expande,
e fulgura,
o jardim das epifanias.

Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência de algo. E com a última estrofe, Jorge Elias cria, de cara, um choque estético. Mas, curiosamente, no poema “Insignificância”, repete a cena com outro palavreado:

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

O que faz o Inconsciente! Substitui no cu / desse branco profundo, pelo Self do poeta, ponto / sujo no útero / da neve.

A faca yanagui
despregou da glande
a gota de sêmen.

Resgatou da solidão
o vicio cuspido.

“Solidão”, “Vício”, “faca” – é difícil não pensar em “vício solitário” – masturbação, como também em castração. Mas estamos… dissecando um poeta, e – segundo seu colega Paul Valéry – A meditação é um vício solitário que cava no aborrecimento um buraco negro que a tolice vem preencher.

“Tolice”? Ou… “epifanias”? Ficamos pasmos, sempre, com o inter-relacionamento de tudo que é humano. Voltemos aos poemas: eles falam em “gélidos desfiladeiros ladeando avenidas”, “enormes geleiras que sentenciam à morte os que ignoram a cronologia do desespero”, “cristais, cristais e mais cristais desabam e lancetam a alvura”, um caos, enfim. E aí lemos:

No caos, chupando manga

O poeta se debruça no caos
chupando manga
e a Lei suprema
se mistura

         — indissoluta —
às fimbrias que teimam
em persistir
agarradas
entre os dentes.

Daqui do Nordeste, de onde escrevo esta resenha, saiu a avó de Jorge Elias, a quem ele passava horas ouvindo cantar e recitar cordéis, como ele diz numa entrevista a Hilton Valeriano. Pois bem: “cão chupando manga”, aqui, significa alguém muito especial no que faz. “Ariano Suassuna? É o cão chupando manga!”“No caos, chupando manga”, portanto, é uma volta por cima, num hábil jogo de palavras. Porque se trata do desprezo pela fonte de seu tormento:

e a Lei suprema
se mistura

         — indissoluta —
às fimbrias que teimam
em persistir
agarradas
entre os dentes.

E tudo termina como se houvesse, por fim, um acomodamento. O poeta está produzindo… e basta. Será?

Inércia

(…)

O gelo conservou os corpos.
Os gestos
 ….— consumidos pelo desespero —
permaneceram.

Mas nem Baudelaire, Poe, Augusto dos Anjos… ou Jorge Elias – como todos nós – permanecem o tempo todo “pra baixo”. O que os faz, o que nos faz assim? A vida. C´estlavie. E isto é um belo poema:

Um resto de sol no desalento

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir do descomunal
segredo da vida …

Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.

Eis a última pele ― a palavra ―
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013.

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97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Lourença Bella

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Declive

 

Com os braços debaixo da cabeça, era só ouvidos. Barulhos de passos na escada de madeira, gritos agudos vazando pelas paredes, o grasnar rude da dona das chaves. Motel de terceira – única espelunca que podia pagar. A mulher roncava aquele ronco de vaca saciada de capim verde. O ar era podre, o cheiro era podre, tudo apodrecia. E eu, um porra dum fracassado. Nunca saía do meio. Sempre entre o fundo e a borda do poço. Não servia nem pra chafurdar nas trevas. Levara um par de chifres e só conseguira pegar a primeira puta pra afundar nela toda frustração que rasgava minhas entranhas. Cheguei a pensar no tiro. A bala varando o peito e explodindo no colchão. Cheguei até a ver a cama chupando, sôfrega, o sangue enquanto a pilantra ia-se de olhos arregalados sem acreditar que eu puxara o gatilho. Não suportei a cena. Covarde. Preferi bater a porta e me esconder na escuridão. Agora estava ali, de frente pra minha caída no purgatório – o berço dos canalhas sem culhões. O lugar onde passaria a vida me arrependendo do ato que não saíra da imaginação. Outro ronco alto. Cabelos escuros cobriam o rosto que eu nunca vira. Aquele corpo mexera-se debaixo do meu. Fingida. Gritara como se eu estivesse arrombando o que nem porta tinha. Cuspi nela. De nojo e de raiva. Ela devolveu a cusparada e grudou os dentes em minha boca. Bem na hora em que me livrava do sêmen podre de covardia. E o gosto de sangue invadiu meus sentidos. Lambi o lábio e a ferida se fez novamente viva na ardidura. Raiva. Da mulher, da puta, de mim mesmo. Levantei. O coração estava mordido, espicaçado pelo desprezo da mulher. A noite me olhou. Escura e vazia. As estrelas pareciam esconder-se de mentes castradas – a minha. Saí sem fechar a porta, direto pra mureta. Fiquei ali olhando o rio escuro, sentindo seu cheiro fétido se misturando aos meus pensamentos. Fiquei ali segurando o saco. E pensando, sentindo e pensando na água inundando-me os pulmões. Acordei com dor no peito e tubos no nariz. Nem pra morrer eu nasci.

 

 

***

 

 

O voo da mariposa

 

Ela estava se revirando internamente. Desde que fizera quarenta anos era só um rodopio frente ao espelho. Não compreendia o que lhe acontecia. Os sentidos não chegavam à razão. Sabia apenas que dentro dela algo mudava quase que a cada nascer do sol. E o sol ultimamente estava nascendo de um alaranjado quase vermelho. É que dentro dela tinha um fogo doido e doído. Fogo que adivinhava a chegada do pôrdosol.

Havia uma urgência no ar do banheiro. O espelho mostrava as pequenas rugas que ela ignorava solenemente. Nunca antes se preocupara com o corpo. Agora ele parecia crescer à sua frente. E por detrás dele a imagem do menino. Aconteceu. O menino. Foi um encontro casual, destes que poderiam acontecer a qualquer pessoa. Entrou nela como forças opostas duelando-se. E rompeu a barreira da idade. Deixou-a equilibrando-se à beira do precipício. Porque havia nele uma parte da vida dela. A parte não vivida. E porque havia naquela espécie de loucura a esperança de salvação.

Durante os dias anteriores esteve numa voragem de expectativa. O fogo dentro dela buscava a carta do menino. O gelo lembrava os vinte anos que os separavam. E era o gelo que fazia afundar-se a linha entre as sobrancelhas. Tinha uma vida dentro da vida dela. Uma vida que se escondia. Vida sem causa ou efeito, mas que parecia querer explodir na pele.

Amava tudo à sua volta. O marido, os filhos, o verde das árvores. Ainda assim, sentia-se incompleta. Sabia. Só se completaria com esta vida secreta tão recém descoberta. A vida que faria o eterno transformar-se em intensidade do momento. E esta vida já não era apenas sonho. Tinha um corpo. E boca. E uma tensão que a fazia corda afinada de instrumento musical. Ou mariposa de voo incerto e esfuziante, perseguindo o fogo mesmo sabendo do risco de queimar-se.

Ajeitou os cabelos e foi em busca da bolsa. Ela iria se queimar, sabia. Mas sabia também que precisaria experimentar. Nem que fosse uma única vez. Viver era imperiosamente preciso.

 

Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.

 

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97ª Leva - 11/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Adriane Garcia

 

Arte: Cristina Arruda

 

Espinhos

 

Amar sozinha
No meu espelho
As rugas de um
Silencioso desespero

Andar parindo
Os meus vermelhos
Calar ouvidos
A cada voz do vento

Carpir lembranças
De uns pensamentos
Mãos na cabeça
Enlouquecer de dentro

Colher as rosas
Manchar as mãos
De apertar caules
Para gozar o amor.

 

 

***

 

 

Que até dói

 

Eis que seu rosto
É imagem de um sonho obsessivo
Eis que
Sua pele gruda-me em memória
De células
Eis
Que não durmo
A menos que tivesse alguma
Certeza de encontrá-lo
Oniricamente
Eis que
É loucura apegar-me
Assim
À loucura
De amá-lo assim
Eis que
Tem-me
À flor
Dos ossos.

 

 

***

 

 

Se

 

Se você tivesse sido amado
Na hora improvável
Se apenas naquele momento
Estéril
Da crença de que só se poderia
Ver com os olhos
Tivesse havido o meu sopro
Na curvilínea do seu pescoço
E se pequenos pelos tão
Imperceptíveis
Tivessem se eriçado à
Luz da minha boca

Você seria outro homem
Eu seria outra mulher.

 

 

***

 

 

Privacidade

 

Antigamente eu mexia
Na tua carteira
Na tua mochila
Nos teus bolsos
Na gola da tua camisa
No teu celular
Eu lia os teus perfis
Os teus murais
Hoje, jamais
Ninguém vai
Invadir-me desse jeito.

 

 

***

 

 

Clave de sol

 

Esperei você de silêncios
E durezas
Enganada, eu nem ouvia
Que o amor vinha
Devagar
Com música.

 

 

***

 

 

Antes do ponto final

 

Ame-me logo
Ame-me agora
Ame-me antes
Que

 

Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte/MG, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenis, contos e dramaturgia. Venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná, Helena Kolody, com o livro de poesia Fábulas para adulto perder o sono.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Olhares

Olhares

Sob tramas da alma

Por Fabrício Brandão

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Dizer do manto que recobre o universo feminino significa mergulhar em profundezas de mistério. Na medida em que tentamos desvendar sua complexidade, o sabor crescente do indecifrável acaba tomando corpo vigoroso diante de nossas percepções. E não funciona ter em conta a visão simplista e limitada de que tudo é acometido apenas por sinais de delicadeza e sensibilidade.

Definitivamente, a desgastada noção de que o feminino navega águas de fragilidade vem perdendo sua razão de ser entre nós. E não se trata também de ressaltarmos aspectos que apontam para uma mera afirmação de gênero. Pelo contrário. Significa levarmos em conta a genuína expressão que brota dos olhares particulares de mundo. Assim o faz Cristina Arruda quando nos propõe pungentes observações sobre as epifanias que brotam das mulheres.

Fazendo uso de curvas, traçados, contrastes entre o preto e o branco, além duma profusão de cores, Cristina nos convida a viajar por uma espiral dotada de contornos poéticos. E mencionamos poesia aqui pelo caráter sintético da apreensão dos sentimentos humanos. Trata-se de uma condução sem afetações ou contaminações imediatas e apressadas, ou seja, sem viciar o olhar em torno duma acalorada visão restrita de mundo. Segue-se um fluxo natural e deveras intuitivo de recortes existenciais sem que isso possa resultar num arroubo apoteótico.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Quiçá seja a simplicidade o que buscam os poetas em seu engenhoso ofício. Quiçá seja também essa condição a melhor forma de significar o trabalho de Cristina. E, como a própria artista nos confessa, há uma imersão diária nos cenários que compõem seus domínios, principalmente quando se trata de vislumbrar a mulher em sua interação com o ambiente externo.

Seja nos desenhos, munidos a giz, lápis de cor e nanquim, seja nas pinturas em aquarela e acrílica, essa mineira de Belo Horizonte ressignifica os espaços e os personagens do seu entorno físico e imaterial, dando margem também a uma apreensão mística da vida. Perfazendo mais de 15 anos de trajetória autodidata, Cristina Arruda apresenta em seu currículo as exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, além de outras de cunho coletivo.

Na edificação dos cenários e seus habitantes, a artista apropria-se de um tenro fio que sutilmente costura a vida. É como se tudo estivesse mesmo sustentado por um sentido de leveza. Caminhos de ida podem ser levados aos da volta com natural facilidade, ou o contrário também pode acontecer. Para a essência que nos abraça, as linhas e curvas de Cristina são um lembrete de que somos feitos pela substância inexata da alma.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

 

* Os desenhos e pinturas de Cristina Arruda são parte integrante da galeria e dos textos da 97ª Leva