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97ª Leva - 11/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ana Estaregui

 

Arte: Cristina Arruda

 

fim

 

jogamos tudo pro alto
tudo o que equilibrávamos
com o dedos
todos os nossos dias
todas as nossas coisas
nosso pinguim de geladeira
o despertador dourado
as nossas músicas do caetano
nossos livros trocados
arremessados ao alto
tudo
até que atingissem a velocidade de zero
quilômetro por hora
e começassem a cair
um a um
página a página
pelo chão.

 

 

***

 

 

não posso escrever como uma pessoa de 52 anos

 

não posso escrever como uma pessoa de 52 anos
não quebrei pratos o suficiente
não fui ao cinema depois de matar alguém
não regurgitei metáforas depois de muito mascá-las
não aprendi a dizer amor em suaíli
não fiz amor na tanzânia
não enxerguei as dálias que ressurgem depois da morte
não superei o transa, o borges, a pedra, o matisse
não me dei por satisfeita com as redlights
não mistifiquei palavras tão cretinas como bliss
não marchei querendo dançar
não amanheci feito pão, mais murcha
não posso escrever como escreve uma pessoa de 52 anos.

 

 

***

 

 

quarta de cinzas

 

queria escrever um poema pra falar sobre o amor que senti ao varrer a casa, hoje. no meio da poeira e dos confetes e restos de serpentina encontrei os seus pelos pretos. muitos pelos pretos pelo meu branco lençol e pelo taco de madeira e no felpudo da toalha de banho branca e incrustados no sabonete cor-de-rosa pálido. varri tudo, como que juntando você aos poucos, como se pudesse te reconstituir por pedaços e te fazer aparecer de novo no meio da madrugada.

 

 

***  

 

 

assim

 

isso de lavar lençóis
com amaciante
lilás
preparar a brancura
sabão pedra
pra te receber em casa
em cama passada
a limpo
ainda vai me quarar
os olhos.

 

 

***

 

 

ismália II

 

te ver dormir assim
tão consistente
e sólido
me faz querer
escrever,
por exemplo,
sobre despenhadeiros
sobre acácias
sobre aviões de caça
sobre quedas d’água
sobre crostas de corais do mediterrâneo
sobre as pupilas pretas que dormem
debaixo de pálpebras.

 

 

***

 

 

ossos

 

não triturei
ainda
estão em blocos
minerais
os versos
que acabo de morder.

 

 

***

 

 

café

 

estou pondo em risco
o meu estômago
a alvura
dos meus dentes
a pressão das artérias
o meu próprio
metabolismo
por estes versos.

meu café é meu cigarro
bebo pra escrever
estes versos
depois de trabalhar o dia
todo na firma
dentro de uma baia
de uma planilha
simétrica
um espelho de ponto.

coo o café
de noite
analogicamente
enquanto
a mortadela frita
ruidosa, eu
meto no pão francês
pondo em risco
a minha própria
vida
pra escrever
estes versos.

 

Ana Estaregui (1987) nasceu em Sorocaba, mas vive em São Paulo desde 2005. Formou-se em artes visuais pela FAAP e pós graduou-se em design editorial. Publicou alguns livros independentes de poesia e fotografia com baixas tiragens, e outros como “Eu me livro” e “Porta Poema” (antologia) pela Publicações Iara. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmagens e Ellenismos. Seu livro mais recente, Chá de Jasmim, foi contemplado pelo ProAC Poesia de 2013 e publicado pela Editora Patuá.

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Relatos Selvagens (Relatos Selvajes). Argentina/Espanha. 2014.

 

Relatos Selvagens

 

O cinema argentino tem se mostrado cada vez mais robusto, presenteando os amantes do cinema com excelentes películas nos últimos anos. Filmes como O Segredo dos seus Olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, O Filho da Noiva, Um Conto Chinês e Medianeras vêm contribuindo para firmar o interesse internacional pelo cinema latino-americano. No recém-lançado Relatos Selvagens (2014), nossos “hermanos”, mais uma vez, acertam a mão e constroem um filme pujante, que tem como grande qualidade o potencial de agradara diferentes tipos de público, dos mais exigentes aos que não buscam nada além de uma boa diversão no fim de semana.Temos, assim, uma exuberante tragicomédia apresentada em seis histórias que não têm nenhuma relação entre si, a não ser a demonstração da ira, intolerância e insanidade humana.

A primeira história já vale o filme: partimos de um encontro casual a bordo de um avião de passageiros que se segue à efusão de estapafúrdias coincidências e culmina em um desfecho surpreendente, que consegue ser tão hilário quanto macabro. Eis um humor de primeira, escrachado, criativo, passando a compor certamente uma das cenas memoráveis do cinema. Após assisti-lo, temos a certeza que fizemos um bom proveito do nosso tempo. Mas isto é apenas o começo, degustamos mais cinco contos urbanos que nos trazem situações cômicas que beiram ao absurdo, mas ao mesmo tempo trágicas, pois nos reconhecemos nelas, e, por mais improváveis que pareçam, sentimos que estão fortemente presentes em nossos dramas cotidianos e afetivos.

A obra percorre os mais inusitados temas, seja uma briga no trânsito, reduzindo os seus condutores a uma situação de selvageria animalesca, ou a burocracia pública que atropela o bom senso, desrespeita a dignidade humana e atenta contra a sanidade até mesmo do mais equilibrado dos cidadãos. A trama flerta, ainda, com o suspense ao explorar de forma precisa o dilema de uma garçonete dividida entre seus valores morais e o indomável instinto de vingança. Em seu episódio menos eloquente, mas não menos engraçado, a farsa para livrar um jovem da responsabilidade de um atropelamento revela, em tons de um cinismo escarnecido, a falência moral e a ganância sem limites do homem. O final se dá de forma frenética, em uma alucinada e angustiante festa de casamento ou, melhor dizendo, “descasamento”, que tira o fôlego e deixam atônitos, e com os olhares perplexos, os expectadores até o apagar das últimas luzes. Estas que poderiam ser chamadas de parábolas modernas trazem à tona sempre alguma mensagem subliminar de fundo moral que nos fazem indagar e refletir sobre a realidade em que vivemos.

 

Ricardo Darín em cena de Relatos Selvagens / Foto: Divulgação

 

A película é uma coprodução espanhola assinada pelos irmãos Augustin e Pedro Almodóvar, mestre do cinema espanhol que se encantou pela pulsante vitalidade da história. Tanto a direção como o roteiro são assinados por Damián Szifron, que, aos 39 anos, dirige o seu terceiro longa. Szifron tem se destacado também à frente de seriados de TV que são veiculados por toda a América Latina. A excelente trilha sonora fica ao encargo de Gustavo Santoalalla, responsável pela sonorização de filmes como Diários de Motocicleta, Amores Brutos e Babel, pelo qual foi premiado com o Oscar em 2005. Embora a imprensa dê grande destaque à participação do astro Ricardo Darín na trama, em uma atuação realmente brilhante como o técnico de implosões soterrado pelos descaminhos burocráticos, o elenco conta com muito mais do que a sua presença, desfilando em cada novo episódio uma constelação de excelentes atores latinos.

Relatos Selvagens foi escolhido para realizar a abertura do último Festival de Cannes e ainda da 38ª Mostra Internacional de São Paulo, evidenciando o seu prestígio no circuito internacional. Em seu país de origem, levou mais de três milhões de expectadores às salas de cinema, marca impressionante para os padrões nacionais. A película foi indicada pela Argentina para representá-la na disputa ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, possuindo, segundo a crítica especializada, grandes chances de levar a estatueta.

Esta preciosa obra de humor negro se destaca por seu apuro técnico e pelo excelente roteiro, elemento tão caro ao cinema e, por vezes, tão descuidado em nossas produções nacionais. Felizmente este quesito tem se mostrado um dos grandes diferenciais da filmografia argentina, que vem realizando trabalhos coesos, coerentes e dotados de uma enorme originalidade. Um filme para ser assistido com sorrisos soltos e largos, mas, muitas vezes, com o rosto contorcido pelo espanto.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

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97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lucia Fonseca

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Manhã

 

Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e presságios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, só depois de escancará-los no escuro e permanecer um instante com o coração aterrado e os ouvidos à espreita, é que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prodígio, ela tivesse se habituado a aguçar os olhos e ouvidos e perscrutar o coração em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a única a perceber que eram avisos:

“Começou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, não tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distraí varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fogão, vi da porta que o leite já ia derramando, o balão estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que não derramava, alvo que nem camélia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco não se desprendia em direção ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou tão depressa, as pétalas de magnólia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, é essa marca de queimadura e aviso que tenho até hoje. Em cima do coração.

Nessa mesma semana, começaram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o açucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Também começou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, não tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem vocação de asa, já reparou que formiga voa diferente de pássaro e borboleta? Morcego também, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doença da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. Até que não houve pedaço de chão ou parede que não estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, só serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhança, as formigas aumentando sempre. E então resolvemos esperar.

A terra passou sete dias vomitando insetos e, então, na tardinha do último dia, fui ao quintal procurar uma abóbora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas começou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de pó na estrada, chamuscou as árvores e deixou o mar transformado numa chapa de aço polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contrário, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.”

Quando começou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. Só no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite já se espalhavam numa frente que escurecia o céu. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa Bárbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o último grito de pássaro rasgou os ares.

Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens não se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de névoa, ou estilhaçar os cascos de encontro às ondas de vidro. Mas iam todos os dias à beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a maré deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam até a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam à flor das águas os cardumes que entravam barra adentro.

Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa procissão serena. A lagoa chegou a ficar tão cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aquário em frente às vidraças das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sargaços e medusas nos canteiros da praça. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armazém.

Choveu seis meses e todas as casas mofaram. Não houve teto, parede ou chão que não amanhecesse com desenhos de borboletas e pássaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos lívidos, serpentes e dragões de óxidos alaranjados que avançavam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esforçaram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro mês, perceberam que não adiantava lutar contra aquela flora que ameaçava invadir-lhes também os ossos e convenceram-se de que já era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, à volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.

Na última noite do sexto mês de trevas, Rosa acordou com um silêncio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ruído constante das águas caindo, fossem os tamborins da chuva miúda, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele silêncio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clarão assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado à penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e calçou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabeça e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via Láctea inteira, caminho de leite no céu. Estrelas riscavam o horizonte e caíam no mar, acendendo espumas frias.

– Acorda, Pedro, olha, vem ver o céu, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos à praia, anda, as outras casas estão se acendendo, olha, todo mundo nas ruas… – Rosa, parou de chover?  O que foi? – Tanta estrela, o chão está fresco e cheio de frutas, dá a mão, vamos, não precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, põe uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.

E quando chegaram, já os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. Não havia naufrágio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promontório. E Padre Salustiano benzia as águas agradecendo a provação passada, “…e não faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um céu cheio de estrelas…”

Mas não se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam água e espuma e as estrelas caíam em chuveiro. E quando um menino com olhos de sonâmbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cordão dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crianças, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.

Não se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortilégio dos ouvidos e o murmúrio das rezas, o fascínio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a força de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do céu, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi invenção, cuidado com o sacrilégio, mas nós vimos, os botos já se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num céu lívido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as águas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.

 

E então era o Sol no horizonte.

 

Lucia Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.Dentre outros livros, são de sua autoria:“Invenções do silêncio”, pela Livraria José Olympio Editora, “Rede fluvial”, ainda pela José Olympio,“Cadernos de geografia”(Editora Mitavaí), “Confissões de penumbra” (Ed. Rosa dos Tempos/Record), “Cantares”e “O paraíso era antes” (estes dois últimos pela Editora da Palavra). Mantém o site Vestígios.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Alberto Bresciani

 

Arte: Cristina Arruda

 

CHOICE

 

Um corpo arrastado
pelo rio
Ainda vivo
esbarrando nas pedras
atravessando a trama
de raízes das margens
Ainda vivo
como se tivesse
guelras

Toca o fundo
Corta os pés o sexo
os joelhos os lábios
Aceita quase o fim
Ouve o chamado
pra voltar
– “entra
tá na hora
já vêm te buscar” –
Vê outra vez
os livros no chão
descrença
brinquedos quebrados
o preto e o branco
Cruz
em cada perda

Então sobe
engole ar arranca ar
Aceita exércitos
invisíveis
palavras de gente distante
curativos nas datas
velhas
Sobe sai da água
tem asas tem forma
tem chave uma porta

E pode
abrir

 

 

***

 

 

FANTASMA

 

Dobrar o lençol
acalma
mas não mata
o fantasma

O abstrato
de seu corpo
é composto
de lembranças

Como líquido
infiltrado nas trincas
paredes

Descendo
pelas torneiras
É rio
É mar

: não se apaga
a memória
da água

 

 

***

 

 

PAZ

 

Atados
à aridez
de fendas rochosas
cactos respiram
sem receio
seus espinhos
sua flor

 

 

***

 

 

AVENTURA

 

Esta é a história
Sim o traçado é sempre
irregular
sobe e cai sem aviso
tudo entre lacunas emboscadas
ou a sorte de um desvio bom

As vozes muitas vezes
são de anjos
(não estranhe desalinho
cabelos revoltos)
Já as unhas outras tantas
de demônios
(atenção a relógios de marca
um certo ingênuo rubor)
Estão todos juntos
sem crachás
na mesma calçada

Assim
muito cuidado
ao escolher o botão
do elevador
O inferno não está mais
só no primeiro
andar

 

 

***

 

 

DEUS DISFARÇADO

 

I

Não seremos
os nomes na árvore
Nem as palavras a lápis
na página do livro

O gosto que sobra
é o silêncio
rasgando a garganta

 

II

É preciso contar
da fuga imensa
pra dentro do corpo

 

III

Esperamos

Quem nos dê um poema
crença alguma alegria

Como um filho
que nasce

 

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília. Poeta e ficcionista, tem trabalhos publicados em jornais e revistas impressas ou virtuais, em portais e blogues da internet. Publicou “Incompleto movimento”, poesia (José Olympio Editora, 2011). Integra a antologia “Hiperconexões – realidade expandida”, poesia (Editora Patuá, 2014). Escreve em Nóstres e em Zonadapalavra.

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Claudio Parreira é um destemido. Ele acaba de lançar um livro influenciado pelo realismo fantástico num país que subestima a literatura de Murilo Rubião e de J. J. Veiga. Um livro de contos, gênero que causa arrepios nas grandes editoras, pois não vende, “salvo se você for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan”, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brevíssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhamaço de 800 páginas.

Claudio Parreira é, de fato, um artesão. Percorridas as primeiras páginas de “Delirium” (Editora Penalux/2014), é possível reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da consonância entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz poético que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do insólito, porém não o destitui da capacidade de impacto. Há uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem é a isca.

Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colaborações na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo literário, mas que se relacionam diretamente à sua ficção. Rotina criativa, formato digital, autores contemporâneos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e segurança, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de viés. “Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar”. Venham, caminhem junto.

 

Claudio Parreira / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – “Delirium”, seu recém-lançado volume de contos, tem influência direta do realismo fantástico, cujos expoentes na literatura brasileira são o mineiro Murilo Rubião e o goiano J. J. Veiga. Na condição de leitor, qual a sua relação com esses autores e por que decidiu transitar por esse gênero ao tecer sua ficção?

CLAUDIO PARREIRA – Só fui conhecer Murilo Rubião e J. J. Veiga lá pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cortázar, Borges e Gabriel Garcia Márquez. Eu simplesmente não sabia que se produzia realismo fantástico no Brasil. Li pouco de Rubião, apenas “O Pirotécnico Zacarias”, mas esse pequeno livro, por uma razão misteriosa – ou seria fantástica? – ainda se faz presente na minha experiência como leitor. Já o Veiga, esse eu li mais. “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “A Estranha Máquina Extraviada”, mas pouco perdura na minha memória afetiva. Quanto ao gênero que pratico na minha ficção, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fantástica – ou realismo fantástico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. “Delirium” nada mais é que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.

 

DA – Curioso mencionar Cortázar e Borges antecedendo Rubião e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de mão única. Aliás, há muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate literário desse gênero no Brasil, dando conta de que o realismo fantástico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o gênero é tão subestimado no Brasil? Por que Rubião e Veiga não detêm a mesma exaltação cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, provém do regionalismo?

CLAUDIO PARREIRA – Acho que o gênero ainda não atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso está mudando; basta ver a quantidade de autores contemporâneos que de certa forma estão resgatando o realismo fantástico e acrescentando ao gênero curiosas misturas e experiências que vêm sendo muito bem recebidas pelo leitor.

Murilo Rubião e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava — e ainda causa, de certa forma — estranhamento. O leitor brasileiro não conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e intenção. Mas elas ainda estão aí, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.

 

DA – Diante das narrativas de “Delirium”, podemos dizer que “seu caminho” é uma vertente que Italo Calvino, organizador da coletânea “Contos fantásticos do século XIX”, classificou de “fantástico cotidiano”. Perceber por trás da aparência corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante é atribuído à busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstrações. E isso, penso, só é possível mediante uma forma muito sensível e diferente de observar o que está a nossa volta. Essa percepção, no seu caso, é o mais próximo que se pode chamar de inspiração? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?

CLAUDIO PARREIRA – Não gosto muito da palavra inspiração. Isso me parece algo bem próximo do clichê do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, ficção. É um processo bem objetivo. Acredito no fazer literário, na disciplina. Talvez aí esteja a experiência do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferença é que os fatos com os quais trabalho são de natureza poética.

DA – Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo é o brevíssimo ‘A Flor’. Perceber todas as nuances que o compõem é justamente trazer à tona essa perícia, essa habilidade incansável e quase cirúrgica que significa o exercício da escrita. Como isso funciona para você? Nem sempre o texto mais curto é o mais fácil de se escrever?

 

CLAUDIO PARREIRA – Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por intermédio dele, os haicais de Matsuó Bashô. Achei que aquela forma poética era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve possível. E tentei, mas logo percebi que o gênero poesia não era bem a minha praia. Já a forma do poema japonês, a sua concisão, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto — numa época anterior à internet, que acabou por popularizar o gênero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a força de cada palavra, o seu peso, o arranjo harmônico do qual surgem pequenos contos como “A Flor”. E sim, concordo: o texto curto não é o mais fácil de se escrever. Requer, no mínimo, paciência. E um bom conhecimento dos elementos que o compõem.

 

DA – Esse olhar, que é íntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a crônica e o conto. Alguns textos de “Delirium” parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo passível de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor é uma busca na sua literatura? O quanto a preocupação com aqueles que lerão o seu livro influencia seu processo criativo?

CLAUDIO PARREIRA – Sim, sempre. É ótimo quando um texto causa impacto em quem lê. Significa que a intenção dele alcançou o seu objetivo, que é encantar, ou até mesmo indignar o leitor. Mas a preocupação com quem lê, quando escrevo, só vem depois. No princípio do conto é tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse período de névoa dura horas, dias até. Quando finalmente assumo o controle do conto, aí sim entra a figura do leitor: tudo é feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.

 

DA – O leitor brasileiro é mal formado, mal informado ou mal influenciado?

CLAUDIO PARREIRA – Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que é um pouco de tudo isso. O bom é que estatísticas provam que o número de leitores está crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado é o que mais se destaca nessa história: simplesmente consome aquilo que a mídia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E aí voltamos aos dois primeiros, que são mal informados porque foram mal formados. Mas isso é uma generalização, e toda generalização é perigosa. De qualquer maneira, já podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que há dez, vinte anos. Já é um progresso.

 

DA – Digo isso por conta da percepção de que, apesar de termos hoje um número maior de novos autores, não contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produção. O que me parece é que são os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contemporânea brasileira passa a ser confinado a um grupo mínimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a análise que faz dessa observação? Há livros sendo escritos para nenhum leitor?

CLAUDIO PARREIRA – Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produção. Mas tudo isso é um processo, um trabalho que ainda não alcançou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos são os tipos de leitores. O quanto essa nova produção chega até eles, de qual maneira chega? Esse fenômeno, se é que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, já é um fato um tanto antigo que continua aí. Errado? Acho que não, uma vez que se pretende que todo autor seja também ele um leitor. Mas é insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse é o grande nó que deve ser desfeito, é a distribuição dessa nova produção. Como ela tem sido feita, por quem, quais são as estratégias? As redes sociais têm facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas mãos dos leitores através delas – mas isso, só isso, não é o suficiente. Não basta publicar o livro, é preciso fazê-lo circular, chegar às mãos dos verdadeiros leitores e não apenas dos nossos pares. Com raríssimas exceções, somos autores pregando no deserto – escrevendo para ninguém, como você diz. É muito mais fácil publicar hoje do que tempos atrás, mas e daí? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues à própria sorte. Acho que também é papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torná-los visíveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contrário, os livros continuarão sendo escritos para nenhum leitor – e assim perdemos todos nós, hoje e no futuro.

 

Claudio Parreira
Claudio Parreira / Foto: Mariana Parreira

 

DA – Esse é um ponto interessante, pois hoje temos uma geração perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extensão da biblioteca é medida pela capacidade da memória interna do dispositivo eletrônico. Você, embora da geração dos livros físicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas mídias têm sido producentes para sua literatura? Lançar livros em formato digital, no Brasil, é uma opção ou a falta dela?

CLAUDIO PARREIRA – Sempre me relacionei bem com os meios de divulgação digital. Uma parte significativa do que escrevo e já escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, são ferramentas que considero fundamentais para a divulgação do que produzo — sejam e-books ou livros físicos. Não tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lançar livros digitais é uma opção, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e não me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lançar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relatórios detalhados nos quais você sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remuneração é clara e certa!

 

DA – Falando em remuneração, o que é mais difícil ser no Brasil: jornalista ou escritor?

CLAUDIO PARREIRA – Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conheço muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. Já escritores, eu não conheço nenhum.

 

DA – O que acaba por nos levar a uma questão que, a um só tempo, tem inúmeras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cortázar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E você, o que ainda lhe motiva?

CLAUDIO PARREIRA – Costumo dizer que escrever é um ofício de trevas. Sou um cego em busca de luz.

 

DA – Essa busca, inclusive, é reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de “Delirium”; personagens que tentam lançar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multifária. Em ‘A Terceira’, em que um homem inventa mulheres, essa escuridão é o próprio processo de criação, uma metáfora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composição da antologia, da escolha dos contos.

CLAUDIO PARREIRA – “Delirium” é mesmo o que se pode chamar de coletânea de contos, pinçados aqui e ali, cobrindo diversas épocas e formas de escrever. Um inventário, digamos assim, da minha produção recente e mais antiga. “Z”, o conto que abre o livro, por exemplo, é o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com João Silvério Trevisan. Quanto à composição da coletânea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por aí. Fiz questão mesmo do estranhamento — mas só como superfície. O que me interessava na composição de “Delirium” era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. Não era a minha intenção juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.

 

DA – O estranhamento, que você cita, é uma das nuances mais retintas do gênero fantástico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a saída encontrada por muitos escritores para canalizar suas críticas. No ápice do movimento, nas décadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metafóricos. Hoje a que propósito serve a literatura fantástica? Contra quem ou o que novos escritores podem utilizá-la?

CLAUDIO PARREIRA – Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fantástica, hoje, já que o cotidiano social e político nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que não esta, insuportável, à qual estamos submetidos. A literatura fantástica continua servindo para dizer Não! E os novos escritores devem utilizar o gênero contra tudo o que ameaçar esse direito.

 

DA – Diante dessa observação, o que ameaça sua literatura?

CLAUDIO PARREIRA – Não gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma ameaça muito perigosa, uma ameaça de silêncio, de pensamento único, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avanços tecnológicos nada significam. Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar.

 

DA – E para onde seguirá sua literatura depois de “Delirium”? Há caminhos que apontam para narrativas de longo fôlego?

CLAUDIO PARREIRA – Sim, venho desenvolvendo um romance já há algum tempo. Mais uma vez, não é apenas literatura fantástica: é um grande exercício com diversas vozes, vários focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, é o que espero.

 

DA – Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?

CLAUDIO PARREIRA – Sim. Acho que é por isso, em busca disso, que escrevemos todos nós.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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Arte: Cristina Arruda

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