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98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

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98ª Leva - 01/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Jorge Mendes

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

suíte para amores em estado de ebulição

 

errática

o amor tem tudo pra dar errado e você descalça, sem sutiãs, de cabelos curtos, exorcizando a luz do sol. o amor tem tudo pra dar errado e seus olhos grandes e persecutórios sobre mim, a cidade e suas febres, seu corpo por cima do meu. o amor tem tudo pra dar errado e você levitando no vapor, sua voz praticando malabares com as proparoxítonas, os sintomas, os sinais e os arrepios da sua língua. o amor tem tudo pra dar errado e você dança no fogo desconstruindo sombras, apagando as coisas ao redor. o amor tem tudo pra dar errado e mesmo assim o salto, o passo no lugar escuro. mesmo assim sopro no seu ouvido minha palavra brutal, seguro sua mão e você sorri e entende o lance.

……

anamnese

estou envolvido com essa doença chamada amor. as corais brancas da vodca, a bola oito na caçapa do meio, bar do paraíba às cinco e meia da madrugada. baladas de simon & garfunkel, o silêncio que sai dos corpos. estou envolvido com essa doença chamada amor. a chuva contra o meu rosto, os demônios da demolição trabalhando duro dentro do peito, o medo nos olhos fixos do anjo de vidro, o tifo epidêmico na pele de gesso. estou envolvido com essa doença chamada amor. o calor da febre na ponta da língua, o torpor nas pontas dos dedos, as flores de plástico dentro do copo com água e açúcar, as pedras dentro da cabeça. estou envolvido com essa doença chamada amor. as espirais de fumaça do cigarro, os medicamentos do entorpecimento, as longas horas diante da geladeira, as paredes. estou envolvido com essa doença chamada amor e não sei se tenho cura ou se escapo dessa com vida.

……

claro enigma

o que existe em você que me entorpece? qual palavra elétrica pronunciar? seu corpo salgado e sem sombras aparece dentro de meus sonhos causando erosões. o que existe em você que me paralisa? onde extrair o veneno? você sairá das águas e me fará voar entre os prédios mais altos? irá gritar meu nome na tempestade? sentirei dor? o que existe em você que me seduz e me faz suar frio? onde encontrar o pote de ouro? ouço seu nome no fundo do mar. você irá morder meu desejo, evaporar minhas tristezas? o que existe em você que perverte os sentidos? deixa mudo meu português caótico, invade e destrói territórios e os ambientes tóxicos? serei morto pelos fabulários? morderei do fruto? serei um outro? o que existe em você que me deixa volátil e lírico? o que existe em você que me apaga o medo, me faz voar entre corvos, sorrir prus que me desprezam? o que existe em você que me acalma o incêndio, ilumina as trevas, desanuvia o domingo e me deixa assim quase feliz?

…….

das necessidades do amor

você precisa de adrenalina e eletricidade pra desobstruir  o ar dos pulmões. você precisa mastigar com dentes de fogo a imagem congelada. você precisa sangrar até perder os sentidos e estabelecer paradoxos. você precisa decifrar o gelo e os signos da carnificina. precisa conhecer os homens ocos do t.s elliot. precisa deixar de ser crisálida e virar pássaro em chamas. você precisar deixar de lado os renascentistas de pedra e mergulhar de vez no atlântico. você precisa levar choque térmico nos mamilos adormecidos e acender as luzes do quarto escuro. precisa desligar o automático, entrar em curto-circuito. você precisa virar clave de sol, romper a barreira do espelho, cortar os cabelos, abrir asas e alçar vôo seja lá pra onde for, meu amor.

…….

sim!

se você esfaqueasse o orgulho numa noite fria e saísse correndo nua na tempestade, se você sorrisse na cara do carrasco, se colocasse na boca e comesse o desejo dos pássaros, se você saísse das águas com flores nos cabelos e ressuscitasse os mortos, se você incendiasse o sangue de todos os poemas, se fizesse explodir os bancos e desaparecesse na cidade em chamas, se você tivesse os olhos vazados pela luz magnífica e dançasse de braços abertos na beira do mundo, se você deixasse de lado sua vaidade de mulher má, me estendesse a mão e dissesse venha, eu juro que iria.

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Neuzamaria  Kerner

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Contenda

 
Eu remo.
Em algum canto hei de chegar.
Meu remo
……….chicote que espanca o mar.

Remo e navio navegam
Sobre um mar que é sem fim.
Remo e navio disputam
………..quem navega mais em mim.

 

 

***

 

 

Movimentos

 
Minhas tempestades
não são cerebrais
– são na alma…
chego a sentir
o meu corpo estremecer
todos os dias
a cada disparo do céu!

 

 

***

 

 

Como Tantos…

 
Como tantos
luto para aceitar a carne
que recobre o meu espírito.

Como tantos
canto mantras para a Lua
que de longe, silente, me escuta.

Como tantos
vivo entre eus e eu…
e como dói viver
num mundo que não considero meu!…

 

 

***

 

 

Eva

 

“Não é bom que o homem esteja só;
far-lhe-ei uma auxiliar igual a ele.”
Genesis 2,18.22-24

Disse a Ti um dia o sim.
Disseste a mim: tu és mulher!
Bênçãos me deste
e em todo o teste a mim imposto
saí vitoriosa.
Até reinei num paraíso…
Pueril, a todo tempo mostrei riso
e nesse riso me fiz rosa.
Explorei o chão que me foi dado
vi tudo o que ali havia
provei até do que não podia
– não me fora permitido provar.
Tu
Temendo o desabrochar que me possuía
disseste: “pecadora, vai embora,
não serás mais a senhora
do jardim que preparei!”

Aquele momento de queda
eu nomino salvação para as minhas
descendentes, insubmissas, conscientes,
sacerdotisas guardiãs da fábrica da vida
– presente sem medida para o mundo do
amor.

Tua cria – Te louvei
Tua alma habitando em mim.
Me deste o conhecimento
da bondade, da malícia, da perícia em parir.

Não carrego culpa ou dor
dentro ou fora do jardim,
posto que onisciente
me soubeste pura e sã,
e eu Te sei meu conivente
no episódio da maçã.

 

 

***

 

 

Jogo

 
Jogo com palavras
e elas comigo
no eterno dos espaços.

Opção:
jogar xadrez
no tabuleiro dos textos.

Quando sonolentas e frágeis
eu nelas
…………….– xeque-mate!

Quando tomam vestes guerreiras
me aprisionam
me checam e matam!

 

Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso.

 

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98ª Leva - 01/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

PASTEL DE MIOLOS – NOVAS IDEIAS VELHOS IDEAIS

 

The Weapons of Mystery

 

Não seria coerente falar em longevidade quando o assunto aqui é simplesmente um CD, ainda mais se tratando de uma banda de punk rock baiana surgida numa década em que, ao menos para mim, frequentador raso e esporádico da cena, parecia perder seus melhores representantes. A palavra longevidade, quando metida no contexto do que me proponho a fazer agora, poderia ser citada quando falamos de Stones – só para ficar no óbvio terrivelmente ululante. Ou seja: ao falar de rock and roll, e vincular tal palavra ou qualquer um de seus sinônimos a esta resenha, corro o risco de converter tudo em exagero e banalidade.

Mas antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que é exatamente nisso que pensava toda vez que tentei escrever (e reescrever) esta resenha: longevidade. Ao falar do mais novo lançamento da Pastel De Miolos, Novas Ideias, Velhos Ideais, é impossível não lembrar meu sentimento nas noites em que acompanhei a banda. Era uma sensação nova e incomum, coisa que de quem está acostumado a observar por hábito – situação reforçada pelo fato de que eu era uma espécie de câmera/roteirista de um documentário abortado; ou seja, eu tinha que absorver tudo ao meu redor.

Minha conclusão, talvez equivocada e muito simplória, foi a de que uma banda se faz com uma mistura de elementos que não são pra qualquer um: vocação artística, paixão, vontade de se expressar, amizades duradouras, muito trabalho e talento. Afinal são 19 anos ININTERRUPTOS e envolvidos numa rotina de ensaios, shows e tudo o mais inserido nesse contexto: plateias ruidosas, casas de show quase desconhecidas ou badaladas, bares, festivais independentes, sessões exaustivas de ensaio, tudo isso desembocando numa recente e merecida turnê por países do velho mundo. Tudo o que uma banda necessita para pensar seriamente num legado consistente e verdadeiro. Na tal longevidade. Como algo possível.

Em seu novo CD, mixado no Canadá e produzido por Jera Cravo, encontramos tudo aquilo que faz parte do que podemos chamar “grande disco”. E antes que algum de vocês perceba a existência de exageros de minha parte, aqui vai a defesa: o que a PDM nos apresenta em seu novo trabalho não é simplesmente uma obra impecável, tecnicamente falando (incluindo aí a parte gráfica do artista carioca Flávio Flock, que também já trabalhou para a Pitty, entre outros), cheia de qualidade e de “pegada”; não são simplesmente letras corrosivas com imenso poder de fogo e reflexão; nem a combinação certeira de guitarra, bateria e baixo: Novas Ideias, Velhos Ideais é o resultado de um trabalho que surge numa sequência de outros, feitos ao longo desses anos, que foram sendo aperfeiçoados em sua produção sem nunca dever nada em seus shows.

 

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Pastel de Miolos / Foto: Júnior Américo

 

Novas ideias, velhos ideais, a primeira faixa, dentro de sua simplicidade absurda, já nos mostra aonde a coisa pode chegar: a frase repetida, o peso – realçado pela presença do novo baixista, André, que trouxe à banda uma maior aproximação com outros estilos de rock and roll, um peso e uma coesão maior -, tudo, enfim, conspira pra uma grande festa, “como antigamente”. Em Desobediência Civil, cujo clipe presente na internet vale ser assistido, a gente pode pensar em cada momento de nossas vidas em que desistimos de agir com alguma coragem: poderia ser uma pedra arremessada ou simplesmente se recusar a votar em qualquer canalha cujo discurso hábil nos enche a paciência.

Na próxima, Insegurança Masculina, com a presença ilustre de Vital Cavalcante (da banda Jason), o que vale é bater de frente com os machos que escondem sua fragilidade doentia nas atitudes violentas que por vezes surgem nos noticiários. A Ilha traz em si uma série de questionamentos sobre para onde finalmente iremos algum dia (se é que isso será possível). E na faixa Sem Nome E Sem Razão a bola da vez é a destruição gradativa que presenciamos todos os dias ao nosso redor, em nome de um sonho equivocado de progresso. Vou Tentar, composição de Tony Lopes, cujo som desacelera um pouco para dar maior sonoridade a outra letra simples, o que vale é o olhar certeiro e sensível do compositor. Já em Hardcore a ordem é pogar, sem deixar de atentar para a mensagem evidente – afinal em todas as letras existe algo a ser captado. Porcos, em minha opinião, a melhor do disco, contém tudo que um punk rock deve ter: coragem, metáforas corrosivas, peso, veemência, inquietação e fúria. Logo depois Homem Ao Mar, com seu estilo surf music, também parece servir de base para outra daquelas mensagens nada subliminares que fazem de Alisson um compositor de respeito. Quarteto II é na verdade uma junção bem feliz de textos, dentre eles o do grande poeta Lupeu Lacerda, e em Quando A Vítima Se Transforma Em Algoz e A.E.P, sincera homenagem a uma banda paraibana, o que vale é enlouquecer. E admitir que a essa altura não se pode mais achar o caminho de volta. Homem Sério, que conta com a participação de Frango Kaos (Banda Galinha Preta), serve como uma crítica aos que de alguma forma entregaram completamente os pontos. Essa Porcaria Que Me Faz Feliz encerra o CD, como uma espécie de celebração aos que ainda hoje – apesar dos cabelos grisalhos e das barrigas proeminentes -, estouram os próprios tímpanos com aqueles clássicos sem ligar para o resto.

E aí talvez todo esse papo sobre longevidade finalmente não tenha feito sentido algum, apesar de saber que os anos serão generosos com Alisson, André e Wilson; e que a PDM cumprirá com raro louvor seu papel na cena rocker de qualquer lugar do mundo. Mas, sinceramente, pouco importa. A essa altura dos fatos, depois de ouvir o Novas Ideias, Velhos Ideais uma dezena de vezes, o que vale é celebrar. Com algumas cervejas honestas, ou uma dúzia de granadas nos bolsos.

 

 

 

Gustavo Rios é baiano e escritor.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Guarnieri

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

o átomo de carbono (i)

 
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que […]

 

 

***

 

 

|( os órgãos internos )|

 
\ ( persegue as vértebras a massa
dos sangues coligidos / ( dentre os quais
há indício, de que alguns ( mais ou menos
líquidos ) \ cada qual a seu tempo, distintos,
consolidem sacos do caldo biológico,
coagulados \ ( carnes que existem da diferença
entre si de seus tecidos / ( se especializaram
as células, em aparelhos e sistemas ) /
delas monta-se um puzzle cujas lacunas
se completam ) \ o corpo expande,
tanto quanto se destrói ( por escasso o cálcio )
no rígido osso que esfacela / ( conforme
a vida lhe habita, o conjunto luta
sob o mesmo pulso \ ( o mesmo insumo bruto
lhe insufla a labuta / ( plantada já
na samambaia dos nervos \ ( enclausura-lhe
a elástica amarra dos músculos / ( a obstrução
sob medida de uma única fornalha viva
) \ trocam fluidos entre si tantas partes
aparentemente separadas \ ( interno
o mar hemorrágico, apenas visitável numa
viagem fantástica / ( mas quando lhe autopsiam
a frio \ ( sangria & bisturis / ( se mostra,
um monstro sob as próprias ataduras \ (
o frankenstein exposto, que, apenas por medo
do escuro, só morto poderiam demonstrá-lo ) \

 

 

***

 

 

(| o crânio humano |)

 
compósito ósseo por sobre cujos orifícios inteiramente
desobstruídos, encaixam-se os módulos dos olhos,
narinas, da boca, e ouvidos; a tampa de louça calcinada
pelo couro (marfim fissurado sob cabelo) um trono
ocupa o topo desta cúpula; uma armadura de juntas,
parcialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais,
de sua furna interna (o antro intracraniano), escapam-lhe
tantos juízos – são pássaros em fuga deste recep
táculo craquelado; lacrado sob a caixa manchada do
crânio humano, jaz, moldado aos miolos, à forma de uma
noz que alucina e racionaliza, o gerador unigênito – razão
pela qual congelam o cérebro de um gênio –, de cada
inédita eureka, e de todas as idéias velhas, de séculos,
de décadas, guardadas em antiquíssimas bibliotecas; sob
o palato, escondida, esteve a língua quase retilínea (um
único músculo infatigável para modular todos os dialetos),
a dentição se encaixava, cobrindo-a, esta fila de lanças
fincadas, abaixo das maxilas, e na base da mandíbula.

 

 

***

 

 

[| a pele |]

 
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pêlos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor vigiados de uma
torre de comando, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto)
como a máxima peça, de uma alfaiataria das mais
complexas: seria tão errado reduzi-la ao tato costurando
ao tecido apenas um, dos cinco sentidos?

 

 

***

 

 

mecânica dos fluidos

/ o suor

 

c a d a   p o r o
u m       e s c o a d o u r o
p e l o   q u a l
c a d a     g l â n d u l a
s u d o   r í p a r a
………….r e s p i r a

s e    r e   p e l e
s e u      l í q u i d o
s e    r e     m o v e
s e u           v i s g o

é     o   q u e
…….p e r         m i t e
q u e      a
……..e p i d e r m e
s e     l i m        p e
e       t r a n s p i r e

 

 

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens e integra (desde 2012), com o artista plástico, músico, ator e poeta, Alexandre Dacosta, o espetáculo mutante [versos alexandrinos]. Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (no issuu.com). Publicou poemas em revistas e jornais. Em 2014, participou das antologias “Essas águas” (Org. Vagner Muniz, 2014 [ebook]) e “Hiperconexões: realidade expandida, volume 2” (poemas sobre o pós-humano; Org. Luiz Bras, Patuá). Seu mais recente livro, “Corpo de Festim” (Confraria do Vento) será lançado em breve. Email: alex.guarni@gmail.com.

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98ª Leva - 01/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Garota Exemplar (Gone Girl). EUA. 2014.

 

Garota Exemplar

 

‘Quando penso em minha esposa, eu sempre penso na cabeça dela.
Me imagino abrindo seu lindo crânio e desenrolando o cérebro na tentativa
de obter respostas para questões básicas de qualquer casamento:
“No que você está pensando?”
“Como está se sentindo?”
“O que fizemos um ao outro?”’.
(Nick Dunne)

 

David Fincher sabe como ninguém dissecar o que há de mais sórdido no ser humano, que o diga Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995), um de seus filmes mais impactantes. Em Garota Exemplar, seu décimo longa-metragem, o cineasta explora a vaidade, o cinismo e a superficialidade da instituição casamento: você entra em um relacionamento tentando fugir de todos os clichês convencionais e no final, encontra-se soterrado por sua própria ruína com alguma dose de exagero, é claro. Para acompanhar a complexa temática matrimonial, o thriller é pontuado cadenciadamente e apresenta um clima de tensão constante, além de uma pitada de sarcasmo. Embora o ritmo de sua primeira parte seja um pouco mais lento, o desenvolvimento do enredo e a apresentação dos protagonistas não ficam comprometidos.

A garota em questão é Amy Elliot Dunne (Rosamund Pike), bem-sucedida escritora de livros infanto-juvenis que narram as aventuras de Amazing Amy, seu alter ego teen. Jovem, rica e bonita, é bem verdade que no momento ela é uma frustrada dona de casa, que mudou-se para Cape Girardeau, no Missouri, para cuidar da sogra doente. O marido Nick (Ben Affleck), fracassado no ofício da escrita, é sócio do The Bar juntamente com a irmã Margo (Carrie Coon). A vida dos Dunne muda radicalmente quando Amy desaparece em suas bodas de cinco anos de casamento e as suspeitas recaem sob Nick. E qualquer coisa que se diga além disso é passível de spoiller, capaz de estragar as reviravoltas que a trama apresenta, incluindo a crítica sobre a televisão, o sensacionalismo midiático e a manipulação da opinião pública diante de um crime ou sequestro.

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Nick (Ben Affleck) na coletiva sobre o desaparecimento de Amy (Rosamund Pike) / Foto: divulgação

 

Apesar da tradução em português soar como título de comédia – é uma pena que Procura-se Amy (1997), de Kevin Smith, já tenha se apropriado de um nome mais oportuno –, Garota Exemplar é um suspense de primeira grandeza que figura entre as listas de melhores do ano e recebeu quatro indicações (Melhor Atriz, Diretor, Roteiro e Trilha Sonora) ao Globo de Ouro, porém não faturou nenhuma estatueta. As duas horas e meia de projeção garantem bons diálogos e personagens não-lineares – marca registrada do cinema de Fincher – vividos com maestria por Rosamund Pike (sua aura “Emily Thorne” está impecável; não por acaso acaba de ser nomeada ao Oscar 2015 como Melhor Atriz, aliás, única indicação do filme na premiação) e Ben Affleck (o papel de marido apático lhe caiu como luva). A propósito, a edição é outro ponto de destaque: a trama é alternada entre o nebuloso presente de Nick, utilizando uma paleta de cores sombrias e um flashback da vida de Amy (fundamentado em seu diário e narrado em off), em tons mais claros.

Baseado no livro homônimo da jornalista americana Gillian Flynn – que também assina o roteiro –, Garota Exemplar é conduzido com a mesma destreza de quem filmou clássicos como Clube da Luta (1999), O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), A Rede Social (2010) e Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2011), todos adaptações literárias. David Fincher continua em grande forma, seja na produção executiva de House of Cards – série de grande sucesso no Netflix, protagonizada por Kevin Spacey –, flertando em outros formatos de mídia ou na velha e boa direção da sétima arte.

 

Larissa Mendes não é uma garota fantástica, tampouco exemplar.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Lia Beltrão

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

A coisa

Em algum lugar uma coisa se esconde esperando minha mão. Um dia, o acaso me levará para um canto sombrio da casa, onde uma caixa de sapato ou a gaveta de uma antiga cômoda guarda a coisa que me espera. Vago pelas sombras da casa e minha pele eriçada me avisa da proximidade da coisa. Então me afasto até que a pele sossegue e me permita caminhar sem sobressaltos. Mas o caminho oposto também me leva a sombras e novamente sinto o arrepio. A coisa é móvel. Pisca para mim de sombra em sombra. Não sei o que quer de mim nem o que tem para me dar. Sei que me atrai e me repulsa. E é grande o medo que tenho de encontrá-la.

***

Covardia

A única vez que ele mentiu pra mim foi quando disse que não me amava. Amava, sim. Do jeito que amam os covardes. Amava a casa arrumada, a roupa limpa, bem passada, o cheiro dos lençóis. Amava a comida de todos os dias e amava mais o almoço dos domingos. Mas dizer que me amava, nunca disse. Também nunca me chamou de meu amor. Nem mesmo antes ou depois do gozo, muito menos nos meus tempos de agonia. Quem visse de fora, podia pensar que era dureza de macho. Mas eu sabia que era pura covardia. Porque se dissesse que me amava, eu podia querer mais coisas dele. Que se casasse comigo, que me desse filhos, que me pagasse as contas. Mas eu nunca dei esse gosto a ele. Sempre tive meu dinheiro. Costuro pra fora, faço bolos, vendo avon. Ele é que um dia chegou mais calado do que de costume. Tomou banho, jantou, ligou a televisão e ficou ali, um mortovivo. Quando perguntei o que se passava, disse com voz de choro: preciso de dinheiro pra pagar uma dívida de jogo. Era pouco, eu tinha, entreguei a ele dentro de um envelope. Ele pegou o dinheiro, levantou-se do sofá e disse que ia embora e não voltava mais. Eu não te amo, disse. E eu vi nos seus olhos e ouvi na sua voz que ele mentia.

***

Pés

Por muito tempo, meus pés serviram para caminhar. Levar-me pra lá e pra cá, pisar na lama, torrar nas pedras quentes do meio-dia. Sempre tive muitas cócegas nos pés. Você descobriu por acaso e passou a me torturar com os dedos leves. Depois vieram os beijos e depois a língua. Aos poucos, meus pés não queriam mais caminhar. Desejavam a boca que os tinham desviado dos antigos caminhos. Hoje, meu corpo começa pelos pés.

*** 

O estranho que me visita

Eu sei quando ele chega. Gosta de me pegar distraída dentro de um livro, aparando as unhas ou bordando com meus bastidores. Quando me dou conta, ele já sumiu lá para os fundos do corredor. Nas primeiras vezes, tremia de medo e me distraía ligando a tv, cantando alto, telefonando para qualquer pessoa. Até que ele sumisse.

Mas teve um dia em que criei coragem e fui caçá-lo pela casa. Entrei no quarto, ele deu sinal de estar no banheiro. Abri de um brusco a porta do banheiro, ele mexeu na torneira da cozinha. Acendi a luz da cozinha, ouvi o seu suspiro lá na sala.

Com o tempo, aprendi que ele não queria ser visto. Me acostumei com a sua presença pela casa. Quando ele chega, finjo que não percebo. Continuo presa no livro, na serrinha de unhas ou na agulha que passa de um lado a outro do tecido esticado nos bastidores. Faço falsas poses distraídas, sabendo que ele gosta de me ver assim, vivendo a vida, passando o tempo, pensando coisas. Gosto desse estranho que me quer assim, na mais banal intimidade. Gosto que vasculhe minha casa, que me vasculhe por fora e por dentro. Gosto que me mostre a estrangeira que eu sou dentro do meu próprio território.

 

 

Já fui do lar. Hoje faço doces para lares alheios. Faço textos, também. Mas não os envio aos lares. Prefiro que andem pelas ruas e encontrem ao acaso quem os leia. Entreguei vinte e três anos de minha vida a um homem, uma casa e uma filha. Só depois que o homem se foi e a filha se casou, pude ler o que quis, escrever o que quero. E algumas pessoas gostam do que escrevo. Por isso, sou teimosa e vou aos poucos construindo um olhar novo sobre as coisas do mundo. Às vezes dói, mas sempre me dá prazer. Tive alguns textos publicados em Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Já é um bom começo.

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98ª Leva - 01/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

GERALDO LAVIGNE – Ameno e sincero

Por Jorge Elias Neto

 Alguma Sinceridade

ALGUMA SINCERIDADE

Qual a idade do poeta Geraldo Lavigne? Pergunta que fiz a Gustavo Felicíssimo ao receber esses dois livros que se embrincam.  Pergunto-me por quê? Talvez por achar necessário alguma intimidade com o autor para quem se aventura a escrever uma orelha de livro. Talvez pela surpresa da promessa.

A poesia atual, em sua vertente mais celebrada pelas mídias do eixo Rio-São Paulo, se embriaga com o concretismo paulistano. Uma poética que brinca com as palavras, poética da forma, poesia da desilusão, do nada, egoísta, despida do deslumbramento.

Já a poesia de Lavigne ―… ―, ele mesmo a define “com alguma sinceridade” ao nos dizer suas meias verdades, já não escondidas atrás de uma máscara. E vai dizendo que “é no âmago que reside a centelha”, na “seiva que corre o motivo do visgo”. Lembra-nos que vivificamos o mito de Sísifo e nos avisa sobre a falácia de quem joga o bilboquê de pedra neste “mito de democracia”. E é enorme a generosidade do poeta ao nos alertar da “tirania maior” – o que nos faz recordar de Montaigne quando disse do medo dos homens que leem sempre um único livro.

Mas o “eu lírico” se percebe diferente, pois ser afeito ao silêncio e a contemplação é ser um transgressor, ser anacrônico, neste Mundo multimidiático. O homem não se irmana na globalização e sim no reconhecimento de que o “normal é diferente”. Compreende leitor?

E que bela imagem, a do coração, palimpsesto de pedra, onde é preciso “muita água da rara fonte dos olhos” para apagar o já escrito. Vejam a seriedade de um poeta jovem que se propõe buscar a síntese, o esmero técnico, sem que para isso necessite prescindir do coração. Um “eu lírico” que mantém a esperança de na busca ilusória do poema definitivo, perpetuar um coração minúsculo onde seja possível se escrever “com diminutas palavras”. Que bela imagem poética!

E o que dizer da ironia em Lavigne ― algo raro e necessário no enfrentamento das verdades ― quando no poema “aturdido” nos diz que “quando a água do chuveiro afaga meu corpo, posso ver, através da densa cortina, a minha vida com você é um filme de Hitchcock”.

Sim, a vida também é feita de perdas, e como emociona – e este é o maior objetivo da poesia – o poeta ao nos dizer da dor, no poema “meu velho”: “Faltam poucos dias para quatro anos nesse tempo dos homens que meu coração não reconhece”. E, consciente diante do absurdo do nada ― “a morte te espreita vereda por vereda” ―, ensaia o renascimento, um retorno mal sucedido ao ventre da inocência, pois já se impregnou com a verdade e se encontra “cheio de dentes e fantasmas”. Ressurge mais forte dessa viagem pela introspecção por ter “o gérmen do verde que brota quando o céu desaba”. Após o processo necessário de desconstrução, entende o silêncio, ergue os braços, toca as nuvens e “conversa com os anjos”.

Já no lúdico poema “Ocaso” Lavigne se questiona: “será que cupins alados pousarão sobre o lastro que me sustenta?”. Mas rebate, agudo, “ talvez seja mais um poente, talvez o ocaso seja o acaso em mim”. E acaba por definir ser o poeta o “tutor das plumas solúveis, que pousou altivo no patronato das aves domesticadas” e atinge a perfeição ao reconhecer que “a gota d´água não se sustenta nas asas do pássaro silvestre”.

Por fim, o poeta desafia os “borbotões de vento” que nos desfolham e nos tombam, ensaiando a transcendência “desafiando a longevidade dos ciprestes milenares”.

Agora, só nos resta tratar das amenidades …

Amenidades

AMENIDADES

O poeta do ameno deixa aqui seus fragmentos luminosos.

Toda singularidade do olhar lançado sobre o cotidiano pessoal traduz seu povo e sua terra.

Poemas imagéticos, sem dúvida; poemas de uma lentidão contemplativa, de saber de sua insignificância relativa e da importância de prosseguir no sem sentido, pois, “perfeição na terra – não há exceto o amor”. Para o ser imperfeito e portador do “fardo da consciência” o amor é “semidivino porque tem um quê de pecado” no lado debaixo do Equador…

O “chegar e partir, são dois lados da mesma viagem” nos diz Bituca, e também o fez Lavigne, autêntico poeta Grapiúna (confesso aqui minha admiração por esse nome e seus poetas) ao apreciar o entardecer neste “paraíso dos anjos”.

Como disse Ildásio Tavares: “Nada penso. Estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte”. Não será também esta atitude de Geraldo Lavigne nessa Ilhéus onde o céu se abre imenso, idílico, onde o “carvão abraçava a lua. A lua fogo abrasava o céu”?

Dá vontade, poeta, de apreciar esta “primeira claridade da manhã, com sabor de fruta madura, café coado em pano e tapioca”. Ver “as gotas caírem qual sais de banho” e, por saber-se nada, caminhar descalço sobre os seixos na ilha da Pedra Furada. Pois Cipango fica logo ali, onde aportou o sonho, que persiste e “cresce ao redor” e, apesar “do Mundo”.

Sabe, Lavigne, já “bebi menino as águas frias da mata” e meu mundo “era tão curto e tão vasto”… “mas o tempo dissipa as palavras como a aura dissipa a fumaça da lenha”. E por isso, também, sinto saudades de Senô, pois desejo a benção com água de coco, para quem sabe, também tornar-me doce…

É isso, leitor, já que me foi dado o privilégio de recebê-lo, o convido a entrar. O poeta é generoso, lhe oferece duas portas – dois livros: um que diz do homem como objeto refletido e repisado; outro mais ameno e bucólico, impregnado de memórias e imagens da bela região grapiúna.

Jorge Elias Neto é poeta, médico, ensaísta e membro da Academia Capixaba de Letras. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Secult – 2013). Recentemente, lançou seu mais novo rebento poético, Glacial (Editora Patuá – 2014).

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mariana Fernandes

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Colheita

 

Aquieta-te,
ainda é tempo de molhar a terra
Das raízes ascender
para desafogar-te
em mar de espera
De pastorar os lobos
que correm em teu peito
Inundar-te do sabor afável
que é esvair-se
De amar-te
como se outra fosse
Apressa-te,
enquanto a água não seca.

 

 
***

 

Percurso

 
Premido pela falsa couraça do corpo
inutilmente domável
entre labirintos singelos

Prepara incessantemente,
em que pesem os festejos da carne,
o sumo que conduz em fragilidade
o fio da vida

Escorrem-te pelas frestas,
ávidas pelo encontro tardio,
lágrimas tingidas em vermelho ocre

Pois divido contigo o grande fardo
que me trazes a cada ausência vivida
A longa espera do silêncio absoluto
em que te firmas e consome o todo.

 

 

***

 
Sobreviventes

 

Espesso,
grita o vento a galope
envoltos de orvalho
talvez cinzas
deitamos sobre a terra
nossos sonhos

Noite densa, pungente
corta a carne, estanca a fala
no olho do silêncio
dividimos a escassez
de nós mesmos

O riso, a cólera
e o estatelar dos ossos
contra o mundo

Fomos tanto de nós

Somos outros
Somos os muros
e queremos ser água.

 

 

***

 

 

Recorte

 
Como um sopro frio
que se prolonga por tempo demais
Da tua companhia
ficaram os copos vazios, lírios
Os punhos suaves cerrados em prata
estendendo-se timidamente
à noite branda que se inicia
Adivinhamo-nos invisíveis
e cedemos em vertigem
às estrelas
do caos a complacência
da língua a mudez
dos pés o cansaço
da lucidez o desatino
dos olhos caleidoscópios
no canto da memória
giram.

 

 
***

 

 

Outra e Nada

 

Debruçada sobre
as águas de vidro,
vejo-me turva
Borrões não
decifrados em traços

Ilusionista, o corpo
Dentro do vazio constrói
a tua casa para desmoroná-la
sem alarde

Restam dezenas de mim,
mas nenhum pedaço
me veste com agrado

Não sou aquela de quem falas,
Não vejo o que vês
Fui lapidada na tua mente

Pluma sobre a água
ou pedra lançada

Que se faça esquecer
a memória de mim.

 

Meu nome é Mariana Fernandes, tenho 27 anos, nascida em 22/01/1987, na cidade do Rio de Janeiro, onde vivo até hoje. Sou estudante de Direito, graduada em Letras – Português/Inglês, funcionária pública, tradutora e ex-professora de língua inglesa. Escrevo para preencher silêncios, vazios, abafar vozes e enfeitar a realidade.

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carla Carbatti

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

tremulações do azul

 
os carros e os pensamentos passam
tão ilógicos
agora demoro o corpo numa canção do Miles
all blues
bebo água viva
………………………………para fluir
………sua presença
escorre pelos órgãos
pelas avenidas
os carros e os pensamentos passam
na contramão
dobrar a esquina exige uma força extraordinária
sentir o tempo, fibra por fibra, muscular a solidão
mas eu pertenço a uma geografia frágil
às modulações de calor dos seus braços
às nuvens, aos orgasmos,
………………………………………….ao húmus, aos ismos
a todas as viscosidades e inconsistências da carne
não defino, não explico,
compartilho
o outro não é meu objeto
aquilo que digo e domino
ao contrário
o outro é o que me expande
que faz outros mundos possíveis
kind of blues
têm tons que só existem nos seus olhos:
love: agitation: tremulações do azul

 

 

***

 

 

bailarina

 

antes que eu ponha meu exército intelectual
para invadir e sitiar um texto
antes mesmo de capturar e enclausurar o sentido
o próprio texto me envolve
num exercício respiratório e rítmico
como se soltasse pássaros nas minhas artérias
como se elas
as palavras
fossem música

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a palavra

 
[ ]: penso na primeira vez que alguém disse: palavra. o silêncio seco do seu sopro sussurrando a solidão. o cheiro vermelho do nascimento. havia um abismo pintado sobre um mapa. um espaço infinito aberto pela curva. aos poucos, os pássaros e as crianças ocuparam as praças, as esquinas e uma mulher montada num cavalo negro estilhaçou a vidraça: ¡palavra!:
inventa-me este lugar, esta distância. cria-me o mundo a partir deste vazio: [ ]

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a jardinheira

 

… então o rio. a solidão fluindo no mês de junho, em tudo. eu sei, escrever é isso, este infinito diálogo íntimo. talvez, entre uma sílaba e um desconforto, pudesse sentir suas mãos narrando o silêncio no meu corpo. as digitais desenhando nuvens no mapa da existência. o amor é uma tênue penumbra presente na película da palavra. inventou o rio e noite que molham meus olhos. por onde andávamos antes das margens e o medo indicarem o caminho? agora passam aves e frases no descampado do pensamento. dilatam o tempo, os objetos, os lugares. eu construo janela para estender o olhar e as viagens. é verdade que somos só uma tremura na entranha de deus? noite alta, vejo o vento esvoaçar a saia da madrugada. um relâmpago fugaz fulminar o verso. cato as fuligens vermelhas e deixo as azuis para os vermes. as águas da chuva iniciam seu percurso pela memória do rio.
eu remo rimo regresso, rego as raízes das plantas

 

 

***

 

 

unreal letter

 

escrever a palavra cansada
o amor em cartas registradas
nos abismos da pele

trago na boca
borboletas e vermes – selados em saliva
numa caligrafia de haver reticências
cartão-postal
rascunho de poesia
viagem pro Nepal
disco do Pixinguinha

tome nota: [nasce um pedaço de eternidade]:

é preciso catar parafusos em noites de chuva
e nem me venha com sombrinha!

 

sou qualquer, carla, como tantas Carlas que há, filhas de Marias. nasci onde brilham as estrelas de Três Pontas e jorram luz até BH. disse amor e atravessei o Atlântico.  hoje habito um Campus Stellae. amo, amo demais duas menininhas de olhos acastanhados, mais brilhantes que o sol. nos feriados solto pipas e escrevo com todos os átomos. nos dias de feira faço um mapa losing steps das heterotopias de Clarice, pra isso que chamam de tese, mas eu chamo mesmo é de saltar no abismo com um verbo infinitivo nos lábios …