Pensar a vida como uma rota imprecisa, longe de perfeições ou viciosos determinismos. Seres, recantos, o concreto e o abstrato, tudo amalgamado por um sentido essencial. O substrato de uma existência flerta com um estrangeiro desejo de eternidade. O tempo estanca boa parte dos equívocos tão nossos. A arte liberta na medida em que expande nossa consciência, nossa apreensão do pertencimento a um universo de coisas passíveis de imersão e, porque não dizer, catarse.
Ante os mergulhos, a conclusão: a vida é verdadeiro labirinto. E a obra de gente como Alessandra BufeBaruque nos comprova isso. É como se um gigantesco novelo, sem começo e fim, desenrolasse suas tramas e nos envolvesse sorrateiramente. É necessário tomarmos cada ponto desse tecido como parte de uma trajetória que pode muito bem representar a de qualquer mortal. Quais pistas, então, a artista nos propõe?
Tal qual o mitológico fio libertador de Ariadne, a arte de Alessandra Bufe vai construindo um caminho criativo cuja expressão maior reside na perspectiva de sugerir vias alternativas de apreensão dos sentimentos. Sua intenção não é a indicação de rotas de fuga, tampouco determinar soluções para dilemas ou enigmas, mas desfilar diante de nós as múltiplas e possíveis representações das epifanias humanas. À medida que avançamos nesse território, identificações podem surgir.
Arte: Alessandra Bufe Baruque
O novelo de Alessandra transborda por todas as frentes de sua obra. E é no uso especial das linhas que ele encontra morada, seja para introduzir acessos ou simplesmente continuá-los. Essa característica se expande através de gravuras em metal, desenhos a lápis, monotipia, pintura a dedo, xilogravuras, esculturas e, especialmente, na linóleogravura.
Conforme confessa a própria artista, há um claro encantamento seu pela forma das coisas. De nuvens a megaconstruções, tudo pode ser motivo de registro e concepção. Formada em Artes Plásticas e Desenho Industrial, ela desenvolve um trabalho que prima fundamentalmente pela liberdade de expressão. Assim, sem amarras predeterminadas, o resultado aponta para um convergente fluxo de intuição e observação.
No universo de perspectivas abrigadas em sua obra, Alessandra firmou a ponta do seu longevo fio num lugar inimaginável. Entre investidas e vislumbres, cada um de nós pode intentar algum caminho de volta.
Arte: Alessandra Bufe Baruque
* A arte de Alessandra Bufe é parte integrante da galeria e dos textos da 99ª Leva
Com quais arroubos se faz um poeta? Por mais que tentemos mensurar, a resposta é imprecisa. E é bom perceber que supostas definições para tal indagação não seguem uma orientação cartesiana das coisas. Mais ainda, é preciso que nos alimentemos da falta de explicação. Noves fora nada, o saldo da dúvida é muito mais atraente.
Quem escreve poesia não intenta clarificar verdades absolutas. Pelo contrário, semeia interrogações e alguns desassossegos. Não é um ser divino. Apenas olha o mundo com a sensação de que se não flutua em torno dele, mergulha fundo no oceano dos mistérios para depois constatar que é tão comum quanto qualquer mortal. Se o resultado dessa experiência implica em estranhamento ou encantamento, talvez consigamos ler tais marcas travestidas em versos.
Ler a obra de um autor não é suficiente. O ato da leitura demanda uma boa dose de envolvimento, quiçá cumplicidade. Quando se opera o despertar de um reconhecimento ou identificação, os indícios da aposta nos levam adiante. Ao percorrermos as veredas poéticas de Geraldo Lavigne de Lemos, uma miscelânea de sentimentos nos vem fazer companhia. Nada ali é gratuito. Cada verso advém de vertentes emblemáticas na trajetória do seu criador. Nesse ínterim, agigantam-se olhares especiais em torno da memória, duma visão crítica de mundo e, também, do amor.
Nascido em Itabuna, na Bahia, mas radicado na vizinha Ilhéus, Geraldo canta seu solo e sua gente como quem redimensiona laços de pertencimento. Com o passar do tempo, soube apurar sua percepção diante das complexidades da vida, tendo em vista que sua obra encerra um marcante componente filosófico. Publicou em jornais e revistas e integrou a coletânea Diálogos – Novo Panorama da Poesia Grapiúna (Ed. Via Litterarum/Editus – 2010 – 2ª edição). O livro À Espera do Verão (Ed. Mondrongo – 2011) marcou sua estreia solo. Recentemente, dois novos rebentos sedimentaram seus arremates criativos: Alguma Sinceridade e Amenidades, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.
Ainda sob o efeito de suas novas investidas literárias, Geraldo nos revela um pouco de si. Hoje, sua obra denota um alguém comprometido com a maturidade da escrita diante de temas nada simples de confrontarmos. Tudo isso, somado às manifestações presentes nessa entrevista, faz com que consideremos a importância das escutas em torno desse talentoso poeta.
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal
DA – “Alguma Sinceridade” é um livro no qual vislumbramos os efeitos da lucidez. Nele, as indagações são maiores do que as certezas, todas elas flutuando sobre um oceano de constatações. Quais marcas assinalam esse trajeto poético?
GERALDO LAVIGNE – Estou sempre tentando acertar e, por isso, sempre pensando na coisa certa a fazer. Não quero que confunda esta postura com qualquer sentimento que se alinhe ao egocentrismo. Trata-se apenas de depurar as atitudes, fazer o bem. Acredito que são estas reflexões que ensejam os meus pensamentos expostos em “alguma sinceridade”. A tentativa de amadurecer e ampliar a compreensão. A tentativa de dialogar isto com o leitor; não para ensiná-lo, mas para refletir. Lógico que os mais variados sentimentos vêm à tona no itinerário da criação (que antecede o da escrita), desde os afáveis aos censuráveis. Exponho-os e exponho-me. Deste modo, as constatações que você aponta na pergunta são as certezas que acredito ter angariado, mesmo sabendo que maiores são as dúvidas. Os poemas apresentam a minha visão sobre o mundo e o homem, bem como sobre mim e minha cidade.
DA – Na medida de sua exposição, um poeta se revela. “Alguma sinceridade” parece trazer um Geraldo muito conectado com uma espécie de sentimento do mundo. O saldo dessa percepção lhe apresenta mais espantos ou contemplações?
GERALDO LAVIGNE – Cada conjuntura pode ter um saldo avaliado. Às vezes os dissabores são maiores, às vezes não. Cada dia que vivo, novas experiências renovam a minha percepção sobre o mundo e sobre o homem, modificam a minha visão ou confirmam os meus pensamentos. Quando comecei a escrever rotineiramente, há mais ou menos 10 anos, sem dúvida o saldo era de espanto. Hoje busco converter este saldo para contemplação. Isto tem acontecido de fato nos últimos tempos. 2014, por exemplo, foi um ano decisivo para aprender que há abrigo em qualquer tempestade. Dele sobreveio um extremo sentimento de gratidão. No mais, permaneço antenado para captar as informações que vagam em cada experiência que temos. Continuarão a surgir espantos e contemplações e eu espero poder continuar a transcrevê-los para o papel.
DA – No terreno do “Amenidades”, seus versos se voltam fundamentalmente para a memória afetiva. Esse, digamos assim, encontro consigo mesmo, serve como uma espécie de renovação do olhar?
GERALDO LAVIGNE – Sim. Em “amenidades” eu perenizei temas diletos. Reuni neste livro as pessoas que me iluminam, apresentei a ternura da minha infância, resgatei a memória de minha família e discorri sobre meu querido solo, Ilhéus, entre outros lugares. Os poemas de “amenidades” trazem o meu lado afetivo, até então não publicado. Daí, posso dizer com certeza que há nele minhas boas lembranças e o agraciado presente. Nele também há um certo descanso sobre as demais questões. Sabe aquele momento, deitado na rede da varanda, ao lado de quem ama? É assim.
DA – Em que medida as lembranças desse “Olimpo do afeto” são capazes de fazer frente às inquietudes do presente? Um poeta pode afugentar suas dores?
GERALDO LAVIGNE – O sopesamento de o que prevalecerá entre lembranças e inquietudes depende da valoração que atribuímos a elas em dado momento. Acredito que as boas lembranças sempre oportunizarão felicidade na angústia, seja durante a própria recordação, seja na esperança do que virá. Destarte, e levando em consideração que recordar é viver, não só um poeta, mas toda e qualquer pessoa pode afugentar as suas dores se permitir que as boas lembranças nutram a felicidade em seu coração.
DA – “Alguma Sinceridade” e “Amenidades” estão agregados num mesmo volume. Enquanto o primeiro livro observa o mundo com olhos desnudos e certa intranquilidade, o segundo exalta um percurso sereno diante da vida. Equilibrar tais distintos hemisférios pressupõe algum significado especial para você?
GERALDO LAVIGNE – Sim. Hoje os livros impressos em um mesmo caderno representam para mim a dualidade: saber que as alegrias não são irrestritas e que as tristezas não são eternas. Saber ainda que a alegria convive com a tristeza quando levamos em consideração a vida. Para além destas questões, saber que convivemos com erros e acertos e com um mundo benevolente e cruel. Compreender esta dinâmica me parece o caminho para estar bem consigo e com os outros. Ela também nos auxilia a fazer e a respeitar escolhas, a entender o mundo – mesmo com irresignação. Quando levei os originais para o editor, Gustavo Felicíssimo, eles estavam, como ainda estão, separados, e eu disse para ele que eram livros distintos. A conformação conjunta surgiu ao longo do processo editorial. Já a revelação deste sentido mais apurado sobre a dualidade me ocorreu quando ele já estava impresso.
DA – Você faz parte de uma geração que exercita com mais habitualidade o desengavetar dos escritos, seja em sites, blogs, revistas literárias ou em livros. Com que olhos você observa esse cenário?
GERALDO LAVIGNE – Eu enxergo a literatura como expressão e diálogo. Não expor os escritos é como calar frases pensadas em típicos casos que nos arrependemos de nada ter falado. Esta geração que você diz e da qual participo está mais à vontade com a divulgação. E, a partir daí, penso que a literatura parece possível para pessoas comuns como eu, e não apenas para os extraordinários. Além disso, a divulgação está mais acessível: a internet é uma porta constantemente aberta; novas editoras têm surgido no mercado e oportunizado a publicação de autores inéditos; revistas digitais, blogs e sites criaram espaços qualificados voltados para a literatura. Assim, entendo que o cenário atual de desengavetamento de originais resulta da confluência entre a maior liberdade pessoal dos autores e a disponibilidade de meios.
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal
DA – Um autor deve estar comprometido com sua verdade pessoal ou com as expectativas dos leitores?
GERALDO LAVIGNE – Ambos são importantes, porém deve estar antes comprometido com a verdade pessoal. A verdade pessoal traduz a identidade do autor. Já as expectativas dos leitores representam o que ele tem provocado nas pessoas. Parece-me que a partir dos reflexos da obra recente de determinado autor surgem tais expectativas. Elas podem servir como guias para trabalhos futuros. No entanto, o autor jamais deve negar o seu espírito, sob pena de se ver descaracterizado e possivelmente infeliz com a própria obra. Isto, claro, levando em consideração que literatura é forma de expressão. Se o autor omitir a verdade pessoal, ele será mero veículo, não voz.
DA – O poeta está preparado para compreender as complexidades mundanas?
GERALDO LAVIGNE – A complexidade do mundo tem aumentado dia a dia. A qualidade intersistêmica dos conhecimentos tem avançado em todas as áreas. Compreender tecnicamente algo demanda cada vez mais informação. Elas estão aí para quem quiser. Por outro lado, as relações humanas dependem muito da sensibilidade. E de sensibilidade, todos nós somos dotados. É possível compreender as questões mundanas, basta se permitir. Estar preparado é um quesito difícil para todos. Por isso digo que o importante é manter a mente aberta e o coração limpo, ser prudente, estar atento para as experiências, aprender o que for possível e guardar o que for verdadeiro.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
GERALDO LAVIGNE – A falta de realidade. Contarei isso em algumas frases. As pessoas convivem menos. As crianças brincam em ambientes virtuais, muitas vezes sem sair de casa. Elas também não conhecem os alimentos naturais ou as coisas simples da natureza. A ficção está presente no cotidiano. A pessoa é frustrada por não possuir características de personagens ou se decepciona quando o outro não as tem. Há um culto exacerbado da perfeição. A pressa é implacável. O futuro é uma sombra que as pessoas dizem se preocupar. Posso relatar aqui ainda um longo conjunto de exemplos, mas tudo se resumirá à falta de realidade. Precisamos reencontrar o ser humano.
DA – Qual a diferença do Geraldo de hoje para aquele de “À espera do verão”?
GERALDO LAVIGNE – Muitos fatos sobrevieram neste interregno. Tentei aproveitar as lições da experiência. Delas eu consegui alguma maturidade, pude me conhecer melhor e aprendi os valores da gratidão e do amor. Hoje consigo exercitar melhor os meus pensamentos e princípios. Sobre a produção literária, acredito que tenha acompanhado este amadurecimento. Os poemas estão mais fluidos e rítmicos. A linguagem melhorou. A mensagem está mais apurada com o que pretendo. Também houve uma participação acentuada de temas afetivos, sem dispensar a continuidade da temática existencialista e metafísica, nem tirar os olhos do homem e do mundo.
DA – Afinal, por que escrever?
GERALDO LAVIGNE – Literatura é linguagem e arte. A comunicação é a finalidade precípua da linguagem, enquanto a libertação, a da arte. Existem vários porquês nestes dois universos interseccionados. Há neles substrato em abundância, inclusive para os casos aquém das questões essenciais. O meu primeiro foi a necessidade premente de expressão. O seguinte foi a busca da compreensão. Vieram mais; uns eu abandonei, outros não. O império do pensamento lógico incentiva a procura pela verdade mediante o cotejamento da causa com a consequência. Por isso nos deparamos com dúvidas como a da presente interpelação. Afinal, é mesmo preciso algum porquê?
saia por escrito
como se nada
valesse mais
do que a língua
sem concordância
verbal – entre as partes –
se a arte arrebenta feito
um pássaro suicida
sem medo do escuro
sem medo das mulheres
sem medo dos pássaros
saia por escrito
como se nada
valesse mais
***
ora
na verdade
sou um caramujo
eu já fui outras coisas
interessantes:
calcinha, genuflexório
mancebo, guardanapo
todos os apelos passaram
– pelo meu corpo –
ainda guardo marcas
joelhos, bocas, sexos
perdi meu olho direito
numa passagem bíblica
mas o escândalo maior foi
me tornar caramujo
***
sumo
todos os meus
acertos foram aflitos
até o último gole
(até quando morri
em agosto)
todos os meus
sotaques doeram
defeitos
e todos os meus
seios – numa boca só –
sacana é a vida que
te espreme num canto
e te come
miúda
***
dócil
eu brinquei no
labirinto do teu corpo
fui fiel em todas as
entranhas
errei – ao desdenhar –
o passado é um cão
valente, sem coleira
***
o que ela imaginava
ela nunca viu
amores de perto
– vendo um filme
comendo pipoca
e se beijando na boca –
ela imaginava que o
beijo engolia a alma
e que no meio das
pernas das mulheres
havia uma passagem
– secreta –
ela achava que era
coração aquilo
que latejava
***
taurina do primeiro decanato
ela nunca vai
embora
– parece vigia
noturno –
senta na soleira
do mundo
e observa:
saturno
amansar
o touro
Luciane Lopes é poeta e letrista, nascida em Mirassol, interior de São Paulo. Seu primeiro livro, “A casa dos sentimentos” aguarda oportunidade de publicação. Escreve diariamente nas redes sociais. Suas poesias já foram publicadas pela revista eletrônica Mallarmargens e também no The São Paulo Times (coluna Poesias para Sexta- Feira) Poética Urbana.
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). EUA. 2014.
“Uma coisa é uma coisa. Não o que é dito dela”.
Crédulo de que a montagem é um elemento crucial da história, o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu – que já surpreendeu com a edição de sua trilogia da morte, composta por Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006) –, desta vez desconcerta pela filmagem em [falso] plano-sequência e por uma marcante bateria (por vezes irritante) fazendo as honras de trilha sonora. Com 9 indicações ao Oscar 2015, Birdmanou (A Inesperada Virtude da Ignorância) foi o grande vencedor da Academia e conquistou as principais estatuetas, nas categorias de Melhor Fotografia, Roteiro Original, Diretor e Filme do Ano.
O ator Riggan Thomson (Michael Keaton), ex-astro de Hollywood, fez muito sucesso nos anos 90 interpretando o homem-pássaro em questão. Entretanto, sua sorte mudou quando recusou-se a filmar a quarta sequência da franquia. Vinte anos depois, submerso no esquecimento, ele decide montar, atuar e dirigir What We Talk About When We Talk About Love, adaptação para o teatro de um conto de Raymond Carver, para tentar o voo de fênix de sua carreira. A trama se passa durante os ensaios que antecedem à estreia – a ausência de cortes aproxima ainda mais o filme a uma peça teatral – e tem no elenco o egocêntrico Mike Shiner (Edward Norton, numa espécie de paródia de si mesmo), Lesley (Naomi Watts), a atriz que finalmente chegou à Broadway, e Laura (Andrea Riseborough), namorada de Riggan. Nas coxias, sua filha Sam (Emma Stone), recém-saída da reabilitação e o agente Brandon (Zach Galifianakis) dão suporte ao casting.
Riggan Thomson (Michael Keaton) e seu alterego Birdman / Foto: divulgação
As tramas paralelas protagonizadas por um visceral Michael Keaton, Edward Norton e Emma Stone – não à toa os três receberam indicações individuais ao Oscar – atenuam o ritmo sufocante da câmera e dão a carga dramática necessária para fazer de Birdman um filme completo, no que tange enredo e técnica. O ponto alto fica a cargo das cenas de realismo fantástico e os diálogos entre Riggan e seu alterego, o próprio herói, que o atormenta e tenta convencê-lo a todo instante que o seu lugar é o cinema e não o palco do Teatro St. James.
Birdman não chega a ser revolucionário como seu concorrente direto Boyhood (2014) – que, aliás, foi praticamente (e injustamente) ignorado durante a cerimônia –, porém é provocador o suficiente para fazer público, crítica e classe artística repensarem seu papel na indústria do entretenimento. De forma irônica e superlativa, questiona o processo criativo e existencial, a dependência emocional da mídia e a [in]sanidade de um artista que vive na sombra de seu maior personagem (à propósito, na ficção, o último Birdman data de 1992, curiosamente o mesmo ano em que Keaton reinterpretou o homem-morcego em BatmanReturns, de Tim Burton, e também caiu no ostracismo). Em suma, o filme tece uma contundente crítica aos blockbusters, zomba de diversos astros hollywoodianos e acirra o embate entre arte x entretenimento e a figura do ator x celebridade.
A verdade é que o mais novo filme de Iñárritu conquista pela maneira arrojada e pouco convencional de filmagem e pelo elenco de renome. Algo semelhante com o que aconteceu com o superestimado Gravidade (2014) – protagonizado por Sandra Bullock e George Clooney – do também mexicano Alfonso Cuarón, vencedor de 7 Oscar (todos os prêmios técnicos, além de Melhor Fotografia, Trilha Sonora e Diretor) ano passado. Talvez seja a merecida virtude do cinema latino-americano. É, Sean Penn, por que foram dar um Green Card para ele(s)?
Larissa Mendes não é um ser alado, mas compartilha a parte da ignorância.
Este espinho que guardo na boca, você não o entende, mas finge. Eu, uma mulher amarrada pelas pernas, também finjo. O espaço sempre manso com seus odiáveis pássaros que caem e caem sempre caem como um som que abre um céu, um caminho, e também aquele barulho que não se sabe o que é e é tudo o que está no mundo, aquela coisa que os débeis chamam de vida e que eu chamo de tempo maldito que nunca cala a boca. Este espinho cuja estupidez de uma revista chama de tpm, a estupidez do psiquiatra chama de depressão, a estupidez do poeta de melancolia e toda estupidez sempre chama. Eu com essa chaga maldita a buscar no alcoolismo um reverso medicamentoso, não me enganam aquelas caixinhas com suas faixas medonhas dizendo que podem te matar ou te salvar ou qualquer coisa que te atingisse, e você ainda finge que funcionam, porque dorme, e isso deveria bastar. Por que diabos o mundo tem mil anos e ainda a verdade não é coisa que escorra dessa boca espinhenta feito sangue novo e fresco? O cheiro, sempre o cheiro, de morte, de agressão, de penetração repentina, qual é o corpo que está preparado para essa desordem do mundo? A faca cotidiana não pode fazer buracos nos meus pulsos. Alguém poderia dizer qual é a utilidade deles senão essa ponte pulsando sangue, um toque, uma junção, uma coisa sem forma-face-sentido, um caminho disfarçado até sabe-se deus onde, porque não sei por que é que tenho mãos. Não gosto da poesia. Assim como não gosto de flores plásticas com seus espinhos metafísicos patéticos.
***
O movimento do luto não é um movimento, é um avesso da ação, é um movimento em rewind, uma espiral entortando seus espinhos ao fundo, abaixo, sempre em direção à cova. Um velar desfeito do olhar do tempo, a persistente vigília desse aparelho cardíaco ligado ao coma. Seu barulho, seu batimento, uma tortura japonesa. Nenhuma janela é aberta nesse quarto, o vidro sempre embaçado encobrindo a morte, faz crer que os mortos não são privados da vida. Ninguém chega a esse tipo de doente. O silêncio é a eterna espera dessa avaliação selvagem. Médicos-monstros ao redor da cama, ou da cova, segredam uma temida desesperança que suja os dedos, as unhas, e por debaixo das unhas, um cheiro que não se lava.
***
Ando cansada de você, fantasmático, de ter você na minha mesa de jantar toda noite. Estou sem voz a gritar que saia. Já não me importo. Já te olho nos olhos de morto, a te imitar no olhar que nunca pretende, que não percebe o arredor, que não olha nem pra fora, nem pra dentro, mas cravou-se em si, como um embrião que se engole pra tentar a vida. Estou machucada de ter você por perto, já não me importo. Desisti de pedir que saia, e agora eu reparto o pão nessa mesa, essa trilha cujo pássaro reteve dentro, cruelmente faminto, esse caminho que retornou até onde não havia mais luz.
***
Meu pé preso na cela do cavalo. Meu pé quebrado na cela do cavalo. Meu pé inchado, impedido, encaixado na cela. O animal dorme e sonha. Eu o observo, ameaçada. Meu coração espera que ele acorde e corra. Minha mente está embaixo d’água. Sob o falso silêncio da água. O horror silente aperta meus os ouvidos. Ideias morrem uma a uma, engolindo o sal. Meu peito intoxicado, um componente estranho o engrandece. O silêncio o engrandece. Meu pé quebrado embaixo da água, encaixado no silêncio do fundo do mar. Minha mente um cavalo assustado que dorme e sonha.
***
O desmaio alcoólico, a fluidez para o lugar nenhum. Um escorrer de olhos para baixo, as pálpebras apenas. O tempo é uma macumba mal feita. O meu corpo era o tempo distorcido. Teus dedos sinais enfermos que eu engoli. Um coágulo intra-uterino deslocado. Não era sexo. Não era corpo. Não era aquilo que não é matéria. Não era aquilo que não sabemos. Um tapete manchado na tua sala. Uma história feita da fumaça do cigarro que eu não fumo. Teu corpo buscando esconder teus segredos. Eu, um depósito. Era um amor de mulher vadia, daquele tipo que te abraça.
***
Um grito dentro de um grito, então mais outro, chupando-se, um a um e em sequência, uma ciranda maldita, e eu nunca alcançava a minha voz primeira. Aquela que tocava a goela, o sangue bem dentro. No máximo, era me dado uma imagem esfumaçada dos gritos, meio branca, meio cinza, tudo tão leve, e eu a andar a cavalo aos berros, a selvageria sem me entender, mas sem perguntar e era por isso que eu a amava. E quando eu queria pular do cavalo ele nunca parava, eu tinha que me jogar e eu sabia que não tinha chão nenhum embaixo, era apenas essa fumaça, não havia nada. Quem é que se jogaria? Mas eu escuto um grito, vindo lá debaixo. Talvez a minha goela.
***
Eu tenho os cabelos pretos, naturalmente, quero dizer. Acima do cabelo preto natural, eu aplico uma camada de tinta. Também preta. Eu gosto de ser uma farsa, então eu aplico a máscara que é idêntica à minha cara original, e finjo que sou uma mentira. Eu gosto de entrar na água e ver escorrer a tinta preta cheirando a amoníaco. Não quero ser a única manchada. Quero que escorra. Eu gosto de escrever mentindo para poder dizer a verdade, porque é o único modo suportável. Uso a tinta no cabelo, mas aproveito pra manchar um pouco a cara, me dá um ar de mulher perdida, o que é bastante excitante e adicionado o nível certo de álcool, consigo até sentir tesão. Eu finjo que não acredito em nada porque acredito que os descrentes fodem melhor. Vou tirando minhas máscaras, então, na cama, os pelos pubianos expostos a julgamento, uma máscara original que uso para me cobrir da minha nudez identitária.
***
Estou no corredor de um prédio, que sem pilares, flutua no escuro. Imitações de portas sem maçanetas, nas placas, a minha ausência de sonhos. Pisei num buraco, e não era um buraco, era um grito a agarrar meu calcanhar. Perdi a aberração que pariu a minha história, a matéria pulsante. Mesmo sem lugar, eu me sento, porque andar e chorar me assusta. Pego a foto do meu monstro, penduro na parede que não existe. Meu cativeiro fantasmático feito de fumaça. Estocolmo em chamas. Meu corpo carbonizado, o coração ainda batendo e sangrando. Líquido vermelho em cima da fuligem. Título do meu livro em branco que está muito perto do fogo. E então, queima.
Marieli Adriani Becker (1986) nasceu e vive em Passo Fundo, RS. Atualmente está cursando Psicologia pela IMED, e tem interesse especialmente na área de psicanálise. Tem na escrita uma via de escoamento para questões internas, sendo que escreve por hobby e com uma frequência mais estável há pouco tempo.