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118ª Leva - 03/2017 Galeria

Foto: Kristiane Foltran

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117ª Leva - 02/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Bianca Lana

 

À frente de um projeto editorial, como é o caso da Diversos Afins, não há nada que nos estimule mais do que a continuidade dos caminhos. E é realmente uma renovação que, por estar inserida numa condução marcantemente cotidiana, acaba por nortear sempre o desejo pela descoberta do novo. Quando falamos em novidade, pensamos muito mais numa noção de abarcar eventuais aproximações que se configuram de modo natural numa jornada como a nossa, e não numa busca forçosa pelo inusitado. De fato, o que a experiência tem nos revelado é que ideias e colaboradores surgem em nosso caminho como consequência de um fluxo autônomo de movimentações. Significa dizer que, para além das rotas que projetamos alcançar, marcadas essencialmente por intenções de busca e pesquisa, existe um fator que permanece imensurável: o interesse crescente de pessoas no que se refere a integrar nosso painel de diversidades. Nesses pouco mais de 10 anos de trajetória, a revista vem construindo um largo espaço de convivências, o qual é marcado fundamentalmente pela convergência de perspectivas criativas. Palavras e imagens pavimentam as vias editoriais trilhadas até aqui através dos diálogos, do entrecruzar de olhares e estilos. O resultado é um universo no qual trafegam identidades e representações as mais distintas possíveis. Nada é uniforme, pois sempre há uma voz que nos conclama a olhar para uma direção raramente pensada. Do mesmo modo, não precisamos fazer uso das vestes da vanguarda para justificar toda e qualquer investida que se pretenda realmente nova. Nunca é demais lembrar que tudo sempre esteve no mundo e que a construção de sentidos também pode passar pelo crivo da subjetividade. Então, quem seriam os sujeitos que por ora compartilham seus mundos conosco? A Leva 117 apresenta alguns valiosos nomes. Nas searas poéticas de agora, vemos Vinícius Mahier, Rita Santana, Nayara Fernandes, Diego Vinhas e Mariana Basílio desfilarem seus versos entre nós. Numa entrevista concedida a Floriano Martins, a fotógrafa e poeta Leila Ferraz divide conosco um pouco das suas impressões sobre suas experiências imagéticas. É através da cuidadosa análise de Vivian Pizzinga que tomamos ciência dos caminhos propostos pelo espetáculo teatral “Redemunho”, baseado na obra de Ronaldo Correia de Brito. Quando o assunto é prosa, os contos de Izabela Leal, Tatiana Faia e Matheus Arcaro ocupam um especial lugar no contexto de narrativas de vida. São de Bianca Lana os desenhos, pinturas e ilustrações que perpassam todos os recantos desta edição. No quesito cinema, Guilherme Preger traz à tona uma série de reflexões em torno de “A Garota Desconhecida”, novo filme dos irmãos Dardenne. Alexandra Vieira de Almeida aborda a importância de se ler o mais recente livro de ensaios de Igor Fagundes. “Canções para depois do ódio”, mais novo disco de Marcelo Yuka, é objeto das escutas de Fabrício Brandão. Com o estímulo permanente de seguir adiante, caro leitor, convidamos você a descortinar mais uma etapa de publicações.

Os Leveiros

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117ª Leva - 02/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Tatiana Faia

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Tudo o que não tem remédio

 

Tinha tão pouca energia que pensei até em apanhar o autocarro para percorrer a ridícula distância de seiscentos metros entre o posto de saúde e a farmácia. A farmácia ocupa boa parte de um quarteirão e vende tudo e mais alguma coisa que ocupe o espectro de produtos e serviços entre os cosméticos, a morfina, e a impressão de fotografias. Enquanto esperava na fila, ela deu-me uma pancadinha no ombro. Por aqui? Estás bem? Explico-lhe que hoje sou uma personagem num filme de Woody Allen, nada está bem e tudo me aflige: uma gripe, um abcesso num dente, uma alergia em redor da boca que me anestesia o queixo. Paramos de falar porque me chamam para ir levantar a receita. Ela desaparece entre as sucessivas estantes de produtos enquanto eu espero e respiro de alívio. Penso de imediato em adoptar o meu subterfúgio típico, desaparecer sem me fazer notar. Entendo ser esta uma das manifestações mais naturais da minha misantropia, com a vantagem de ser ambígua o suficiente para não permitir que o visado alguma vez se sinta inteiramente ofendido. Mas assim que me aproximo da promessa de luz das escadas rolantes, ela emerge sinistramente do quarteirão dos comprimidos de alergias. O que é que se está a passar ao certo contigo, é o que ela quer saber. Exactamente como num filme de Woody Allen, isso eu só vou saber quando a acção chegar ao fim. Tenho dificuldade em explicar isto a pessoas pragmáticas como ela, mas o inteiro significado de certas coisas que tenho vivido tende a levar um longo tempo até acertar contas comigo e o facto de que ultimamente não tenho escrito nada só adensa essa falta de percepção. Claro que o que ela quer saber é o que eu tenho escrito ultimamente e onde tenho publicado e eu vai para um ano e meio que nada, nem uma linha, bem, há os poemas, mas eu nunca consegui arrumar isso muito bem na categoria de escrever, e, de resto, ninguém quer ouvir falar desses textos e é muito raro eu discuti-los com alguém. Enquanto trocamos inanidades eu noto que ela perdeu peso, noto que quando a conheci há dois anos num curso organizado noutro país, quando passámos duas semanas sentadas na mesma sala de aulas e a correr de teatro em teatro e de bar em bar e eu a vi brincar no mar como uma criança, ela não era bem esta pessoa aqui à minha frente. Ela deve estar agora na segunda metade dos vinte, vinte cinco ou vinte seis anos, e temos em comum o termos, entretanto mudado de óculos, noto que na Grécia ela falava inglês com sotaque americano e que aqui fala inglês com sotaque britânico, com um resíduo levíssimo de um sotaque que ninguém poderia associar ao italiano original, enquanto eu, um pouco numa corruptela de algo que Eça escreveu, faço sempre questão de que o meu sotaque se note, mesmo que as inflexões da prosódia do inglês britânico me sejam agora mais do que exaustivamente familiares. Mas o meu objectivo não é confundir-me com a paisagem ou erodir a minha própria estranheza ou tentar camuflar o facto do meu estatuto estrangeiro. Daqui a dez minutos, quando eu e ela nos sentarmos no café, o sotaque dela vai vir ao de cima uma vez e apenas uma vez, ao tentar pronunciar a complicada palavra xenophobia, um desafio prosódico à altura desta mulher despachada e inteligente por quem, não sentindo verdadeiramente simpatia, não consigo deixar de sentir empatia, e não é só por causa do que escreveu Sebald em Emigrantes, que os emigrantes naturalmente se aproximam uns dos outros. Isto para dizer que sigo alimentando as minhas próprias contradições, que depois de começarmos a conversar na farmácia eu não consegui não a convidar para beber um café, apesar da febre e do cansaço. Ela aceita imediatamente a minha proposta com entusiasmo, enquanto penso que é errado estar aqui a ter uma conversa, num dia em que não fui trabalhar por me sentir doente e esta jovem mulher que me é familiar sem nunca deixar de me ser estranha me explica que desde a última vez que falámos se casou, mas que o marido, entretanto voltou para Itália, para entregar a tese de doutoramento e, porque, claro, não conseguia arranjar trabalho aqui. Este café em St. Michael Street há-de ser o mesmo há quarenta anos. Recordo-me de que, ao contrário da amizade que quase de imediato me ligou a algumas pessoas naquele curso, nunca me consegui sentir verdadeiramente próxima dela, e penso que provavelmente nunca nos tornaremos amigas em parte por causa da catástrofe da minha personalidade, em parte porque há nela uma imaturidade profundamente simpática que adensa a minha impaciência, que me deixa ver um pouco do meu próprio desdém, e ao mesmo tempo, da minha resistência, na atenção com que discutimos a actual conjuntura política, a incerteza do futuro, até mesmo o reconhecimento de que há semanas que não me era tão fácil ter uma conversa inteligente com alguém, sem, no entanto, ser capaz de me iludir a mim própria e vir agora aqui apontar cobardemente, diariozinho, que nada disto é da ordem da amizade fraternal, perto do perfeito arquétipo platónico da coisa real, onde está bem vivo o tipo de diálogo pelo qual até a mais estúpida conjuntura política que tem animado este país no último ano se podia corrigir.

 

Tatiana Faia. Portugal (1986). Vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Nayara Fernandes

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Vésperas de um acontecer

 
não sei se sei, serei
no fim, talvez, eu seja
concreta o que não sei
sendo, melhor, o que nunca pensei
sem passado passeio nas paisagens das surpresas
sem futuro flutuo nas justaposições dos agoras

às vésperas d’um acontecer
sou tudo o que não foi.

 

 

 
***

 

 

 
Pele, à flor da carne

 
o vazio
no torso da poesia, o infértil
rubra vastidão de boca surda
rouco vão de olhos mudos –

a pele
à flor da carne do cerne do
excesso

quente doce inacabada
certeza do nada
quente doce inebriado
certame do tudo
um parto rasgado de vício
viço e delírio.

 

 

 
***

 

 

 
Ontens afins

 
uma vida curta
para dias longos
sonhos selados
para destino sem rédeas
a realidade me atravessa

num tráfego de segundos
sentidos me atropelam
sem defesas nem definições sigo – às cegas
não mais espero respostas
respondo as perguntas que me interrogam

todo o agora me define
todo o depois me duvida
todo o antes me recorda
todo o futuro me esquece
sou ontens afins de hojes infindos.

 

 

 
***

 

 

 
Já não sinto

 
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
sou corpo que chama
suo poros em chama
sou inteiro alma queimando

na pele, em toque, o arrepio
na pele, em frio, o calafrio
na pele o fogo – (a)brasa viva

já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
já não sei dizer

o que sou
o que soou
onde estou
o que sobrou

de mim mesmo acabou
acabou de acabar
foi embora pr’um mundo imenso
o mundo intenso da tua alma
um mundo onde imerso emerso em mim

peno sem tua doçura
peno sem tua ternura
te preciso como cura
te preciso como escudo contra meus eus fantasmas
te pertenço inteiro pra me pertencer em parcelas suaves

sem ti não sou comigo
contigo sou inteiro
sem ti sou metade ignorada de mim
contigo meu sentir não mente
sentimento em suma transborda:
bordando em mim o amor que me salva com glória.

 

 

 
***

 

 

 
Pecados líricos

 
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
verbos versos vícios
ilícitos líquidos explícitos

quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
sedes súbitas
securas sólidas
alma insana

que nunca me nega
um verso santo
: milagre de um peito morto
ateu na santidade – atado no amor sacro
que me salva das misérias interiores.

 

Nayara Fernandes nasceu em Teresina, PI, em setembro de 1988. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Alagunas, Mallarmargens, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times e nos sites LiteraturaBR e Livre Opinião – ideias em debate. Participou da coletânea Quebras – uma viagem literária pelo Brasil, lançada em novembro de 2015.