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117ª Leva - 02/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Santana

 

Ilustração: Bianca Lana

 

 

ADUSTO

 

Primeiro Movimento

 
Ele me invade, árcade selvagem!
E lança suas mãos ávidas sobre
A minha pele de avelã madura,
Sobre a minha casca de aroeira.
Abeira-me de abismos e abis.

Toca a minha pele de tâmara –
Qual trovador em cítara –
Matura o tempo do meu luto
E engravida-me de avencas.

Vejo-o mascar nêsperas de esperas
Para ver a flama do meu Desejo.
Vate do Alentejo!

E eu, que tanto tramara muros,
Furto seu nome que
– de eloquência e loquacidade –
Excitara precipícios de manhãs
Em minhas planuras de Poeta.

Entanto, nada me alenta!
E, ao relento, clamo por seu epíteto,
Eu, bastarda pantera de pântanos!
Contemplo-o aliciar palavras
Que serão doadas ao meu Oratório!
Ao meu templo de dispersões e cordilheiras.

Manifesto a minha Divindade
Em protestos de fúria.
Eu, toda feita de ínsulas e rudezas,
Uma ilhoa sacerdotisa
A cultivar papiros
No Oráculo de Sapho.

Vejo o meu Vate
Assistir ao itinerário da trepidez da Mulher
– toda eu!
Que tremula em sua presença.
Tocada pela arquitetura dos seus gestos
E pelos alicerces e declives
Da palma da sua mão.
A mesma mão que alimenta o gado
E que me alivia a fome,
O estado de viuvez
E de ausência.

 

 

Segundo Movimento

 
– Vem, Adusto!
Consome meu ventre
E adentra meus poros!
Sê justo, derrama teu sêmen
E tua semeadura de Servo
Sobre as minhas alfombras,
Sobre os meus alfarrábios,
Alforrias, o meu tratado de veias,
Tramelas, arcas, eras, heranças e plagas.

– Enterra a tua fidelidade de Sáurion
Em sarcófagos da memória.

Eis-me toda cômoros
E comoção de cavidades,
Toda inumação de abrasamentos,
E de brasas.
Toda inumação de archotes de vontades acesas.

– Grado!

Assim, chamo-te, pois há muitos nomes
Para te ocultar da avidez das mulheres
E da sordidez tirânica dos homens.
Eram tuas, Grado, as candeias,
Os candelabros, os candeeiros
Que arfavam luzes sobre os nossos pelos
E sobre as nossas bocas desmaiadas,
Ante os cânticos de Salomão e a sapiência da Rainha de Sabá!
Naquele campo noturno das avenas,
Fizeste–me revelação de árias e templários.
Desvelaste, em anunciação de mistérios,
Sacros nomes: Baobá, Barriguda, Imbondeiro!

Desses tempos, Adusto, tenho feito minha homilia,
Minha hóstia, minhas oferendas.
Meus sacrifícios de animais, de sangue,
De penas, de mortes e de vidas.
Sulcos rompem meu corpo
E, nauta e louco, o teu olhar
Ainda imprime em mim desígnios
De fome e tormentas!

– Gótico Senhor dos Passos,
Senhor dos meus Vestígios,
Senhor dos meus tormentos de Escriba!
Vem, criva-me de cravos, bromélias, anêmonas!
Vem, criva-me de fados, fandangos, fagotes!

Em Carcassone, Árcade Selvagem,
Quedam-se meus burgos.
Abro minhas defesas para tua epiderme,
Tu, verme gentil que me consumiste a pele,
Entrego-te ânforas onde armazeno
Aromas e câimbras de amores pretéritos.

– Adusto, vem!
Aporta novamente em minha Casa
E anula qualquer nuança de presença alheia
Em meu leito, em minha alcova
Ou no rocio que cerca o meu terreiro.
Pousa teus olhos sobre o meu Universo,
Pois, tudo que o teu olhar toca
É-me sagrado!
E ganha magnitude de Eterno.
– Não vês?
A minha pele fez-se imortal e casta.
Temo levitar sobre as evidências do mundo.
Temo levitar – em observância – sobre o teu cotidiano apaziguado.
Temo realizar milagres de peixe, vinho e pão.
Temo hipnotizar bússolas, ponteiros
E as translações da terra!
Temo tornar-me nociva ao mundo, às marés
E aos ciclos eternos da Lua.
Tamanho é o meu poder de fêmea tocada.
Sinto-me Harpa destinada a te conduzir,
Enfim, de volta, àquele sítio onde só há
Desejo.

 

Rita Santana é atriz, escritora e professora Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participar da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015 com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto na revista organismo, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Olhares

Olhares

O enraizamento das formas em Bianca Lana

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Constantemente atravessados pela urgência exterior do mundo, somos atingidos pelo excesso das aparências. Quando definimos um objeto, tentamos primeiramente buscar referências anteriores dentro daquilo que habita o plano mental, algo determinado por uma tradição pretérita que avança no tempo. Muitas coisas, quando tomadas por um sentido de percepção material, remontam a significados construídos por elaborações já estabelecidas, delimitando ou até mesmo restringindo as possibilidades de interpretação em torno delas.

Sob o manto visível das composições figurativas, há muito mais do que uma mera acepção plástica dos temas representados. Entendendo a arte como uma ferramenta que desvela fronteiras, desconfiamos que a exterioridade não apenas de objetos, mas também de pessoas, funciona como uma via de acesso a uma outra dimensão, condição que abriga um conteúdo de caráter intangível por natureza.  Comportando-se como uma ponte entre dois mundos, o ambiente das formas aparentes prenuncia de algum modo o que está encerrado em seu interior.

Quando um artista percebe esse lugar como uma zona de transição, e não como algo fixo, intransponível e estanque, o resultado é impactante.  E o que mais chama atenção nesse momento de descoberta é entender que a visão do criador é capaz de superar determinismos do olhar. É um ir além do aspecto físico e, portanto, inicial das experiências. Movimento de se deixar invadir pela dimensão intrínseca de seres, coisas e lugares.

E assim o faz gente como a artista plástica Bianca Lana, que, apostando numa densa imersão nas mais variadas expressões humanas, faz dos seus trabalhos visuais algo pungente. Em suas linhas, cores e formas, Bianca ousa sondar territórios intimistas e que trazem em si uma minuciosa noção de profundidade do olhar. Sua arte está fundamentalmente voltada para a essência da condição humana.

 

Ilustração: Bianca Lana

Em seus desenhos, pinturas e ilustrações, predomina uma perspectiva de se conceber o que está além do ordenamento físico das coisas. É quando Bianca nos propõe um corte profundo na superfície que reveste a face dos homens. Fazendo uso desse viés, suas investidas assemelham-se a um momento de contemplação visceral, um desnudar das formas apontando para a revelação nem sempre sublime dos sentimentos.

Influenciada por nomes como Adara Sánchez, Agnes Cecile, Tonny Tavares e Nestor Jr., Bianca Lana prima pela utilização de aquarela, tinta acrílica e técnica de pontilhismo com nanquim. Em sua ainda breve trajetória, já integrou tanto exposições individuais quanto coletivas.

De modo confessional, Bianca sustenta que sua arte, além de evidenciar aspectos simbólicos, intenta representar um painel de angústias inerentes ao ser humano. Nesse vasto e complexo ambiente, seus mergulhos criativos estão direcionados para uma valorização das interioridades. E é com essa característica que lhe é peculiar que a jovem artista paulista faz do seu ofício um salto para o mistério, sobretudo se pudermos atestar que nossa existência é uma espécie de trajeto rumo ao desconhecido.

Aquilo que abrigamos na raiz de nossas individualidades costuma encerrar uma multiplicidade de sentidos. Todos eles podendo encontrar terreno fértil diante da atmosfera intangível que permeia nossas construções de mundo. Há muito por ser descoberto dentro de nós mesmos e é tão precioso quando um artista nos incita a tamanha constatação.

Ilustração: Bianca Lana

*As ilustrações de Bianca Lana fazem parte da galeria e dos textos da 117ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

 

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