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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Cristiano Silva Rato

 

deborah dornellas int
Desenho: Deborah Dornellas

 

Holofotes

As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.

Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.

Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.

Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.

Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.

***

 

 

Trilha sonora

Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifestação. São professores, músicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois ônibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem é mais só o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som portáteis e uma infinidade tecnológica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a violência do Estado. Eu, vamos assim falando, há muito tempo cansei de pedir explicações destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, há muito tempo ocupo isso aqui, a única verdade, acredito, estas veias que pulsam.

De repente o tempo não era mais… Há alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, à revelia no poste à minha frente. Em seguida cambaleio até o Fórmula 1. Não sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psicanálise clássica. Seu grupo. A música é a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento mágico. Há sempre um compasso, uma cadência, uma levada, mesmo quando nós… Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em papéis descartáveis, leve fantasia de uma criança sendo arrastada pela mãe, pela tarde. O medo.

Me surpreendi aquela manhã. Ouvi rumores. Mega manifestações em São Paulo, não achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energético, vandalístico, vivo. Por aí vai. Creio, até, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espaço que sobra, os pés tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, três, não consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multidão. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba…

Mais um… engrosso o caldo desse feijão… tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoroço pela manhã? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, polícia para todo o lado. A praça. Aquela manhã não. Apareceram uns “bombadinhos”, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. Filha da puta! Pensei. Em manifestação tem de tudo, até caso de possessão, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.

Não querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Tropeço e erro a nota caída ao chão. Sorrio bem alto. Há uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consciência quando queimo. Não deixo escapar o barril de minhas mãos. Álcool. Amargo, adoçando o fogo cristalino de séculos de abandono. Eu. Nunca estive tão só. Uma moça de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, realçando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu pé. Carrega um cartaz. Me olha com desdém, como se tivesse pisado em merda. Pegue minha mão. Pois a casa está quente garota. Me deixe levá-la para dançar. A casa está quente, baby. Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. A casa está quente. Todas as calças são iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multidão.

Relação mais próxima com a praça, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artesãos de rua, ou hippies, e/ou micróbios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma controlável, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de… “Traz logo a cerveja pô”. Como ia dizendo, maluco… A cidade é mesmo algo insondável, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na praça sete de setembro, em junho, foi um hospício. O que teve de notícia, de branquinho voando para o exterior, não cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito até com papel higiênico. Acho que até vi alguém vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, né? Quando aquele povo todo começou a andar em uma direção, pensei umas duas, três, e por aí vai, se ia ou não com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, violão, pandeiro, apito…

Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. Fé. Tudo misturado. E alguém, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, não escondo o volume crescendo. Meu escárnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei Sing Sing Sing, em homenagem ao seu belo sorriso… sua luta… e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia… perde… a alegria… entra tristeza. O sentido do domínio. A alegria. Deixamos de sonhar… ou sonhamos demais? É preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa não está para alegrias anunciadas. Ela adentra a multidão, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irmão, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria difícil para um químico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.

 

Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a infância em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de Fátima); a adolescência em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ruína II (V. Primavera), em Ibirité, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, também na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lançado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.

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107ª Leva - 01/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LINIKER – CRU

 

LINIKER-EP-CRU

 

Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.

Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.

Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz.  Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.

Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.

Liniker Fotodivulgação
Liniker / Foto: divulgação

O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.

Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.

Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.

O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.

Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Ellen Maria Vasconcellos

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O espetáculo da pedra

 

selvagem ela
levanta, cuida das folhas das plantas
tira os nós dos cabelos
as raízes dos dias cheias de umidade
trabalha em silêncio
até a noite quando avança
pelo chão da sala e olha o teto
dedos entrelaçados atrás da cabeça
cresce sem perceber
também se alimenta de luz
até que não se cabe.

 

 

 

***

 

 

 

Sereníssima

 

Sento e espero. Não posso respirar fundo. Me dá tontura e sinto que se antes de afogar, desmaio. Escuto desde aqui a máquina fazendo seu trabalho. Ela gira a um lado e outro sem sair do lugar, as roupas magicamente clareiam. O volume baixa e depois volta a subir. Enche o tanque e mergulho de olhos fechados. Tudo submerso em água macia. Não sinto minhas lágrimas desde o chão da sala. Veneza. Parto limpa a torcer peça por peça. Vou ao quintal. Estendo em corda bamba e outra vez, me estiro. A forma como o vento leva em gotas este silêncio das mangas não se repete.

 

 

 

***

 

 

 

Mergulho impossível

 

Tem um pouco de lava
Tem um pouco de gelo
lava endurecida
gelo derretido
e o silêncio das pedras reina
na encubadora das perguntas
sobre o início e o fim de tudo.

 

 

 

***

 

 

 

Poesia menor

 

Quando estou meio cheia
uso canudos em casa
Bolhinhas no fundo do copo
de requeijão

E a certeza íntima
E a dúvida exposta
Parte de mim, líquida
Outra, gasosa.

 

 

 

***

 

 

 

Dança ou Luta (girl power)

 

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o “privilégio” da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

 

Ellen Maria Vasconcellos. Natural de Santos, formada em Letras na USP, onde finaliza o mestrado em literatura contemporânea. Autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado bilíngue (português e espanhol) pela Editora Patuá (2015). Tradutora do livro “Ângulo de guinada”, do autor Ben Lerner, publicado em ebook pela e-galáxia (2015). Tem seus textos publicados em diversas revistas e antologias no Brasil, Chile, Espanha e México. Toma fanta uva e café sem açúcar. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Cinquenta anos em um

 Por Marcos Pasche

 Capa - Alexei Bueno

Por mais que se aponte a heterogeneidade para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar que os mecanismos de legitimação social da literatura – as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias – tendem a endossar como representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (o mais festivo e iconoclasta). Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1985 publica um volume intitulado Poemas gregos, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo. Esse poeta é Alexei Bueno.

Mas se olhada de perto, e se o olhar despir-se de preconceitos, a obra de Alexei Bueno se revela densamente moderna, porosa e permeável tanto aos fluidos de cima quanto aos detritos do baixo. E é isso o que se verifica em Poesia Completa, lançada pela ocasião do cinquentenário do autor. A publicação reúne os doze livros de versos que Alexei Bueno publicou e manteve em sua bibliografia, aos quais se somam Cinco fugas cromáticas, volume inédito.

Uma quantidade considerável dos títulos poéticos de Alexei dá mostras do quanto sua arte evoca símbolos de requinte: As escadas da torre, Poemas gregos, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário e A juventude dos deuses indicam o teor de solene ancestralidade que lhe perpassa a escrita. Passando ao interior dos livros, poemas como “Helena”, de Lucernário (1993), confirmam o que os nomes sinalizam:

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram (p. 279-80).

Entretanto, não deixa de haver na confirmação uma nota dissonante.  Num poeta supostamente passadista, orgulhoso da herança clássica, só é pensável encontrar devoção a essa herança, o que, nos textos, se ratificaria pela total evitação do que pudesse manchar estátuas e templos. Em “Helena”, o discurso é plataforma de uma protagonista mitológica (de uma mitologia protagonista na cultura ocidental), alicerçada em quadras decassilábicas e tomada por carga imagística de alta voltagem. Mas, como se constata em cada uma das suas cinco estrofes, o poema trata do monumento em estado de ruína. Helena, eternizada como a mais bela das mulheres, é apresentada nas duas pontas de seu declínio: uma é a decrepitude do corpo e o fim da vida; a outra, a vida em estado de fim mesmo após a morte, com o choro das sombras dos heróis. Em “Helena”, portanto, o discurso é plataforma de antagonismos: o precioso apuro formal relata o avesso do esplendor, e, por extensão, o poeta, ao revelar uma Helena com destino até então desconhecido, insere na tradição uma sombra corrosiva.

Se em Alexei Bueno há nítida assimilação de matrizes helênicas, há que se perceber em sua poética a forma como se manifesta o homem de uma era desprovida de deuses e amputada de helenismos. Nisso se inscrevem os Poemas gregos, livro em que mimesis e poiesis se dão em proporção equânime. Se nele tudo contribui para que seja percebida convictamente a escrita de um autêntico aedo do período clássico ou helenístico, em nada, porém, deixará de haver indícios de um poeta em particular:

Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
………..Divida-me a cabeça (p.180).

 

Aí não reside um protesto unilateral ou mesmo a negação absoluta de concepções culturais consagradas pelos anos. A poesia de Alexei Bueno tem na coexistência de contrários sua carne e seu espírito, dando ao termo “atualidade” um sentido tão amplo quanto intrincado. Se é acertado constatar a inserção que o poeta faz da matéria clássica na poesia atual, não menos correto é apontar a maneira moderna como trabalha elementos ancestrais, inserindo na dicção clássica elementos próprios do homem contemporâneo, “Pois ser um é ser morto” (p. 175), como diz o primeiro dos Poemas gregos. Assim, se a estrutura padronizada foi suporte para a elegia de uma divindade, também o será para a ode “Silvia Saint”, consagrada à tcheca Silvie Tomčalová Stodowa (1976 – ), espécie de Helena pós-moderna, visto ser apresentada em seu site oficial como “the most beautiful pornstar”:

Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
(…)

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta
Deusa auto-entregue à escória.
(…)

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso (p. 589-90).

 

Ao se radiografar a poesia brasileira atual, é inevitável – e procedente – o diagnóstico de um quadro multifacetado. O receio da rotulação numa camisa-de-força estilística impulsiona os poetas a procurarem caminhos próprios, o que encontra largo respaldo numa época de apelo individualista, como é a presente. Ao lado dos poetas, tem recebido maior prestígio a crítica que, ao visitar o passado, identifica a idiossincrasia em meio à massa convencional. Por extensão, essa crítica age para demonstrar as estreitezas das tomadas de posição grupais, o que chega aos contemporâneos como alerta e impulso a um destino independente, isento de obrigações coletivas. Assim o coro cede vez ao canto solo, e de diversos cantos solos compõe-se o fragmentado repertório geral. Considerando isso, Alexei Bueno empreende um adventício modo de afirmação da contemporaneidade. Se o panorama se faz diversificado pela assembleia (laica) das individualidades, no autor de Os resistentes encontra-se a unidade constituída e potencializada por uma comunhão conflitante e pelo conflito comungante das partes que desejam ser na companhia de suas antíteses.

As sirenes da cartilha politicamente correta têm latejado incautas, e nesse sentido o poeta revela outro modo de pertencimento oponente ao seu tempo (o tempo do marketing ubíquo e das declarações em tudo calculadas). O pronunciamento aberto e ríspido na direção do que repreende não escolhe perfis, e admoesta o que vê como estúpido e espúrio: “Cansei-me dos pobres/ Como antes dos ricos” (p.551), diz o irônico “Humanitarismo”.

A confluência de itens irreconciliáveis também se processa na estruturação textual. Se Alexei Bueno é frequentemente rotulado como “neoconservador”, é porque nele praticamente só se nota a aparência tradicionalista. No entanto, há em sua escrita um sólido entrecruzamento de formas consagradas pela tradição e pela modernidade. Em sua bibliografia, por entre os livros em que a forma fixa é dominante – As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livros dos haicais (1989), Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006) e As desaparições (2009) – apresentam-se outros integralmente compostos com versilibrismo e polirritmia hegemônicos, caso de A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Os resistentes (2001) e Cinco fugas cromáticas, trazido ao público com a edição desta Poesia Completa. Nesses volumes, de forte carga simbolista (a estabelecer entre eles evidente conexão), a voz lírica, “Como de uma criança que não se conforma de não ter os mundos” (p. 233), traduz a convulsão de um espírito que, aflito pelos limites da unidade, em tudo se vê e a tudo deseja tocar: “Roçam-se em mim, incontadas, as vidas todas – e as vidas de cada vida –/ Como um turbilhão de pássaros que o vento assopra ao mar queixoso” (p. 391).

A poética de Alexei Bueno opõe-se às diversas maneiras com que a cultura ocidental estabelece segregações acerca do pensar e do ser. Especificamente na era do apogeu tecnológico, a celeridade impõe-se como valor e modelo, e suas ramificações ideológicas alcançam os homens da arte. Potentado último e ubíquo, o mercado dissemina a mensagem da troca imediata e irrefreável, e mesmo na poesia, a barrada no baile das grandes vendas, o tácito decreto se instala e por vezes baralha-se ao lema da originalidade e da renovação. Nesse estado de coisas, não poderia ser outra a (repelente) recepção da poesia que se conecta a um pretérito tão morto quanto ainda enigmático e sabedor de novidades – algumas de caráter duvidoso, a ponto de não despertarem qualquer olhar de surpresa fora dos que as anunciam:

É no passado que caminhamos.
Somos história, somos histórias.
Já faz milênios que aqui passamos
Tais nossas roupas, tais nossas glórias.

Mais que os egípcios, mais que os sumérios,
Num lapso o tempo nos fez distantes.
São língua arcaica vossos ditérios,
Homens modernos. Todo hoje é antes (p. 555).

Mas a poesia é recusa e reação: recupera para a comunidade o que não pode se perder, e pelo já havido reinventa os modos de permanecer e de falar aos homens, convidando-os à evasão e convocando-os à presença. O dizer inaugural se reporta à interpenetração dos tempos, e dá a dimensão ativa do que se mostra estático, pois o isso guarda em si algo de aquilo:

 

Deito-me ao lado da estátua marmórea,
Alva, branca, lavada de alegria,
É a alba, a alvorada, a aurora, o dia,
Que se abre já, desnudo e sem história.

Ela é de hoje, saqueada de memória,
Esta deusa, ela nasce, limpa, fria,
Agora, e, ao lado meu, pura, inicia
O mundo neste alvor, o instante, a glória.

Beijo-a virgem na relva, aqui, a vida,
Só tem hojes, abraço-a, nova, clara,
Secularmente pétrea e ora nascida.

Sorrindo na manhã, gelada, ampara
Meu corpo extático, álgida, estendida
No sempre, no surgir que urge e não para (p. 446).

 

Marcos Pasche é professor adjunto de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e crítico literário, autor de De pedra e de carne (Confraria do Vento, 2012).

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tanussi Cardoso

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

PAISAGEM INÚTIL

 
porque não haverá segunda vez
meus domingos hão de ficar
plantados
na terra ou nos fios
onde se aninham os pássaros

errar não é humano – é santo

pecar é carregar nos ombros
os erros de Deus

 

 
***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

 
O tigre, em silêncio,
é o que penso.

Quando ataca,
é o que posso.

 

 

 

***

 

 
A HORA ABSOLUTA

 

 

“Sou como o corifeu medieval
que percorre as aldeias e vai embora.
É necessário que quando eu partir
o palco não fique vazio.”
Franco Basaglia

 

 

Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

 

 

 

***

 

 
QUADRO

 
As moscas impacientes
da rodoviária
espantam o sono
das estátuas.

 

 

 

***

 

 
RETRATO

 
Sou o que escrevo.

A busca permanente
da palavra exata.

E sua ausência.

 

Tanussi Cardoso nasceu e vive no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo e em Direito. É poeta, crítico, contista e letrista de MPB. Tem poemas publicados em diversos países e 11 livros lançados.

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Claudio Parreira

 

deborahdornellasi
Desenho: Deborah Dornellas

 

RACIONAMENTO

Estão racionando as minhas palavras.

Sim, Eles estão.

Tenho notado isso; a minha fala está cada vez mais pobre. A minha escrita também.

E isso não me surpreende: diante das circunstâncias, acho até natural.

Eu vejo TV, leio jornal, acesso as redes. Só não percebe quem não quer.

Eu não queria perceber; não era meu interesse entrar em conflito com Eles. Não é.

Tanto que só gritei quando a primeira palavra me foi subtraída. Um grito rouco, doloroso. Mas foi só. Não quero problemas.

Não sei como será amanhã — porque Eles estão em toda parte. Agora ainda mais.

Estas palavras, portanto, são importantes.

Podem ser as últimas.

***

 

 

 

TEORIA NA PRÁTICA

A coisa toda é bem simples: primeiro o pé direito, depois o esquerdo, um degrau, outro, e assim sucessivamente. Um piscar de olhos e pronto: alto da escada.

Bem simples — mas não pra mim. Faz dez anos que estou diante dessa escada e não consigo subir. Sei a teoria, mas a prática, ó, nem pensar.

Muita gente veio aqui me visitar: cientistas, engenheiros, vagabundos, todos eles me ensinando como é fácil atingir o alto da escada. Fui educado com todos, agradeci pela generosidade — mas sempre sinto vontade de mandá-los todos à merda: o que acham de mim? Que eu sou um idiota? Não, não, conheço a teoria melhor que todos eles. Só não me entendo direito é com a prática.

Dez anos. Onze, acho. Doze. Imóvel diante dos degraus. São Eles, é claro, são Eles que me impedem de subir. Não é nada surpreendente: Eles sempre fazem isso, basta um sujeito demonstrar conhecimento suficiente e Eles vêm atrapalhar. Tem sido assim desde sempre; Eles sabem e eu sei.

Já vi outros subindo essa mesma escada. Outros nem tão capazes quanto eu. Muitos não sabem sequer a teoria. Mas estão lá no alto, sorridentes e felizes como eu jamais serei. Sim, jamais. Eu, que sei que a teoria, na prática, é outra.

 

 

 

***

 

 

 

A GRANDE FOGUEIRA

Não era possível mais comer, onde é que já se viu? A água estava racionada. Oferta grande só mesmo a de oxigênio — mas por quanto tempo ainda?

Tudo dependia do Ministério. Da vontade do Ministério.

Do abençoado Ministério que ainda permitia, pelo menos, filmes & livros.

Mas um dia, é claro, o alto escalão do Ministério se reuniu e os homens, austeros, chegaram à conclusão de que filmes & livros poderiam causar grandes danos à ordem e aos bons costumes.

A grande fogueira de livros & filmes durou exatos 70 dias, ao fim dos quais a população, aliviada, agradeceu:

— Graças aos céus temos o Ministério aqui na terra!

O alto escalão sorriu. É claro que sim.

 

***

 

 

 

NADA É O QUE PARECE

Ele chegou ao balcão completamente exausto. Grossos cordões de suor amarelo lhe escorriam pelo rosto, pelo pescoço fino e comprido. O olho direito completamente fora da órbita.

O funcionário do outro lado do balcão sonhava paralelepípedos & centopeias. Seus dutos auriculares desconectados davam a notícia de que não queria ser incomodado. De jeito nenhum!

Mesmo assim, ele chegou ao balcão completamente esdrúxulo. Grossos fitilhos de suor regular lhe escorriam pela boca, pela língua torta e esburacada. A mão direita completamente entediada.

O funcionário do outro lado do balcão babava lembranças & meteoritos. Seus dutos fonéticos atentos:

— Quiqueres, quiqueres, estranho?

Ele chegou ao balcão completamente. A língua se desenrolou feito um tapete:

— Preciso falar!

O funcionário do balcão levantou a sobrancelha velha e desgastada. Do seu olho dormente escorreu um sentido:

— Já falou.

O funcionário do balcão suspirou tulipas & ornitorrincos. Era sempre assim: uma massa de gente dodecafônica e estropiada. Humpf!

— Próóóóximo!

 

 

 

***

 

 

 

VIDA NOVA

Já estou na terceira vida. Mas nem por isso diminuíram os meus problemas. Basta alguém do Ministério saber que estou de vida nova e tudo vai por água abaixo.

Muitos problemas, sabe como é. Não problemas meus, é bom que fique bem claro; o Ministério está sempre se superando em matéria de inventar problemas que não temos. Foi assim na primeira vida. Tudo se repetiu na segunda.

Esta terceira vida me assombra um pouco. Ainda não descobriram. Mas sei que o mercado negro de vidas está sendo ostensivamente combatido. Por Eles.

Ainda não descobriram. Mas o Ministério, eu sei, tem mil olhos, muitas bocas & braços também. É só uma questão de tempo. E depois, ah!, e depois?

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Tem contos incluídos em diversas coletâneas. É autor, pela Editora Draco, do romance “Gabriel” e também da coletânea de contos “Delirium”, pela Editora Penalux.

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alex Simões

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

oh ménage

 
porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?

 

 

 
***

 

 

 

meu canto pras paredes

 
o preconceito é uma parede enorme
contra a qual desde sempre me empurraram
mas se tentaram e não me executaram
é que aprendi bem cedo que não dorme
o apontado: preto bicha pobre
no paredão cresceu e ficou forte
em que pese a dor que o véu da morte
bem do seu lado alguns amigos cobre
e é por eles que não me vitimo
nem quero mais derrubar a parede
apenas canto para além de um íntimo
desejo: reforçar rizoma e rede
cheia de nós, que não estou só, sou vivo.
picho a parede: verso afirmativo.

 

 

 

***

 

 

 
e viva à liberdade de opressão
na terra onde quem tem muitos direitos
exerce o seu direito à opinião
de ser melhor que quem não tem direitos
porque direitos há, não pra insolentes,
aqueles que reclamam sem saber
que nesta terra os bons e os inocentes
são assim definidos ao nascer
e quem nasceu no meio de pessoas,
que são consideradas de segunda
classe, tem chances de viver de boa:
falar a língua deles ou da bunda
viver mexendo pra escapar do abate.
entre a guerrilha e a festa, deu empate.

 

 

 
***

 

 

 

se queimamos
(soneto alexsandrino e vândalo)

 
se queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou Pandora, na boceta.

 

 

 
***

 

 

 

bursite, tradição e tá lento, o individual

 
doem-me os ombros, tantos são os pesos.
línguas mortas e vivas misturadas,
a plêiade no peito embaralhada,
os esquecidos como contrapeso.
mil vozes confundidas no desejo
de ter consigo a minha entrelaçada
e o medo de parar na encruzilhada,
entre rimas ideias e solfejos.
a folha em branco amarelada está.
há sempre um risco de perder-se, há
sempre um mesmo fantasma em breve assomo.
o mundo derretendo-se em milênios:
poetas trôpegos, prestos boêmios,
eu e você cantando velhos nomos.

 

 

 

***

 

 

 

sóbria declaração

 
não me inspiras vãos clichês caducos,
versos de amor com intenções de morte,
linhas inúteis mas com tom de porte
palavras tolas para o amor de eunucos.
não me inspiras mais do que tu és
e és o que vejo, nada mais que isto,
sou o que quiseres e por ter-te visto
lanço-me a ti, mas não te beijo os pés.
é que no amor não me contenta a espera
nem mesmo a dor inútil de não ter.
prendo-me à vida, não curto quimeras,
dou-me por partes, se tiver prazer.
neste soneto que a ti dedico
peço que leias o que não, escrito.

 

 

 

 

***

 

 

 
à literatura em si

 
este soneto não quer ser a obra
de um autor desesperado e circunspecto
que produz aos magotes poemetos
para neles caber o que foi sobra
de outro poema que não se quis sobra
do nariz entalhado por Gepeto.
este soneto não é um soneto
e este quarteto não é do outro a dobra,
nem sexteto os tercetos em sequência
de rima interpolada, aqui cosendo
a virtuosa e vazia inexperiência
em um registro que vai, num crescendo,
da língua que se fala sem ciência
a um saber que se constrói: fazendo

 

 

 

***

 

 

 

os versos? esconderam-se no escuro.
portanto, sempre dizem mais, que eu saiba.
esperam decantar, para que caiba
a poesia nos corações duros.
palavras não significam somente
o que delas esperar. poemas
não são meras conjunções de monemas.
não os entendas, apenas os sente.
abre o coração mais que os ouvidos
e recebe a poesia com amor,
sem pressenti-la, deixa-a, por favor,
pronunciar-te o mal dos consumidos
e ainda os prazeres incontíveis.
e expurgarás a dor com que convives.

 

Alex Simões é poeta, tradutor e performer. Publicou “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). Tem participações em diversas revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Os poemas aqui publicados integram o livro “Contrassonetos: catados & via vândala”, lançado em 2015 pela Editora Mondrongo.

 

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O Breve dicionário (poético) do boxe e a alegoria poética de Jorge Elias. Primeiras considerações.

Por Orlando Lopes

 

Capa Breve dicionário (poético) do boxe

 

Preâmbulo: a crítica ainda tem lugar nas lutas contemporâneas?

 

Arriscarei aqui algum juízo a respeito deste Breve dicionário, da poética que ele expressa e da autoria que ele passa a constituir com seu lançamento. Dado que a Poesia – a poesia mais legítima, a poesia autêntica – configura a singularidade de uma teia, de uma constelação de elementos estabelecida por princípios “estéticos”: autorais, composicionais, interpretativos etc., pareceu razoável e necessário o apoio da escrita para pesar, medir, arrazoar sobre o lugar do livro, talvez da obra. E é justa esta razão: como falar (e medir) a escrita, a não ser também pela escrita — esta forma mágica de decantação e progressão do pensamento que o cotidiano nos faz banalizar, mas que é capaz de nos permitir dimensionar ou, ao menos, intuir as potências que a linguagem tem, e que parecem tão distantes do cotidiano das pessoas.

Exercer a crítica não é uma prioridade para mim — que me entendo muito mais como teórico da Literatura que como crítico, historiador, analista etc. Exercer crítica envolve competências, disciplinas e rigores e, sobretudo, uma imperatividade, a disposição para impor um valor. Nesse sentido, direi desde já que não me colocarei a priori como crítico do Dicionário, mas como leitor e, exatamente, como teórico. Claro, não pretendo transformar esta fala num tratado, mas é importante notar que não pretendo afirmar a obra que Jorge Elias termina aqui de parir: pretendo, antes, aprender com ela, como pretenso cientista, como ser humano e como poeta.

Será uma breve nota para o universo de questões que sua poética aponta, mas para o momento acredito que servirá como estímulo e provocação aos futuros leitores. Conheço o Jorge Elias pessoalmente há pouco, mas nem é a fama que o precede, é o seu texto, a sua obra poética, e o seu trabalho, o exercício da Medicina, do qual sou de certo modo beneficiário pessoal, ainda que não (ufa!) direto. E pelo texto, pelo que ele codifica, pelo que ele expressa, acreditei desde a primeira leitura uma “assinatura”, uma autoria, aquilo que foucaltianamente podemos reconhecer como uma “função jurídica”, mas jurídica não no sentido de uma propriedade, uma posse ou mesmo um direito. Jurídica no sentido de uma seriedade, de um comprometimento, de um engajamento que se estende à Literatura, à Poesia, à Escrita.

Lendo seus textos antes de conhecê-lo pessoalmente, essa seriedade autoral me pareceu marcar tudo o que li. Isso não é em si e ainda uma qualidade da composição, do texto “em si” (aliás, o Inferno nunca pareceu estar tão cheio de boas intenções…), mas é um dado a ser considerado pela crítica contemporânea: de que adianta uma “bela letra” se ela não posiciona, se ela não argumenta, se ela não significa? Como no Boxe, o discurso e a realidade são construídos, são esculpidos a golpes e a contragolpes, por meio de hegemonias e de contra-hegemonias que se dão entre as “cordas” desse grande ringue simbólico que são as relações sociais, econômicas e culturais.

Jab, Jab, Direto, Direto, Cruzado, Jab, Clinch, Esquiva, Cruzado, Jab, Jab… Lutar é viver, viver é lutar. Discursar é lutar, lutar é discursar. Discursar é falar, é escrever, é agir. Viver é discursar. A realidade, a nossa realidade, é feita de narrativas, de movimentos, de lances. Lutamos – todos – contra um Inimigo (os Fundamentalistas não estão errados!), mas é difícil saber quem ou onde o Inimigo está: e portanto é difícil medir a força e a mira de nossos próprios movimentos, de nossos próprios lances. O bom boxer deve, antes de tudo, saber contra quem – ou contra o quê – está lutando. Do contrário, não se abolirá o acaso, haverá desgaste, desperdício, e tudo poderá deitar por terra: corremos o risco de ser nocauteados quando menos esperamos.

A poesia de Jorge Elias faz esse exercício, desde antes do Breve dicionário do boxe. Perceber, enquadrar, pinçar; perceber, enquadrar, pinçar… a si mesmo, o outro, a situação. Não racionalmente, não apenas racionalmente, mas buscando aquela polaridade mínima, a imagem, o sentido que faz o texto (no leitor) saltar para o estado de poesia. Esse é o movimento, a passagem crucial a que todo poeta almeja, mas que nem todo poema consegue manifestar: superar os significados e saltar para o sentido por meio do gesto estético, portar o sentido até os demais sujeitos que vivem a mesma história.

 É importante retornar à consideração de que a Poesia não luta apenas no território do poema, da fatura estética. Poesia não é apenas Poesia (ato criativo), ela é também Literatura (um modo de produção) – um laço, uma relação entre as pessoas (autoras, leitoras) no espaço de uma sociedade que se estabelece em torno de um Poema (um objeto de valor, um artefato). Criar nos pede uma luta, circular socialmente nos pede uma luta, significar nos pede uma luta. No mínimo.

A luta da escrita poética é rara entre nós, ainda que se encontrem uns bons tantos de poetas, cada vez mais. Eu sempre insisto com os alunos que venho-tendo a vida-inteira que a escrita não pode (não deve) ser desprezada, tanto porque é uma das formas mais baratas que existem de criação artística e autoterapia garantida, quanto porque ela é o instrumento mais básico de controle social, econômico e cultural que se possa conceber. Falo isso em princípio para tentar dar uma valorizada existencial, afinal a escrita dá essa possibilidade de nos mostrarmos antes de tudo a nós mesmos. Mas a escrita é trabalho, é competência, é responsabilidade. Se a gente não tiver o que dizer, a escrita não vale nada. Se a gente não fizer, não vai ter muita gente que faça (fechado que “todo mundo” está em sua própria carapaça).

O Dicionário de boxe de Jorge Elias traz à baila essa cena: um ringue, um espaço de disputas e seus elementos característicos alegorizados, potencializados pela metáfora. A metáfora decantada, depositada em composições curtas, procurando posições, ângulos, eixos, pesos e contrapesos, equilíbrios. Essa metáfora, ampliada, estende suas figuras para medirmos as nossas próprias lutas. Entremos no livro, calcemos aqueles poemas que melhor se ajustem aos nossos punhos. Usemos os poemas que conseguirmos. (Ouvi soar o gongo.)

Apreciação ao Breve dicionário (poético) do Boxe

Este mais recente livro do poeta Jorge Elias Neto segue confirmando uma obra importante para a vida literária no Espírito Santo (não direi “do Brasil”, que cada canto dele tem seus bons poetas, nós aqui é que temos que resolver melhor os nossos). Desde os Verdes Versos (Flor&Cultura, 2007) até o Breve dicionário (poético) do Boxe (Patuá, 2015), há uma poética se configurando, tomando forma, encontrando seus rumos. Enquadrá-la, encará-la, não é tarefa fácil, nem confortável. Mas, enfim, como se poderia aprender algo útil sobre o Boxe sem ao menos um olho roxo ou uma luxação?

A imagem do Boxe é forte, potente, e se impõe desde a capa elegante de Leonardo Mathias até as ilustrações de Felipe Stefani. Uma vez instalada a imagem do lutador, do ringue, passamos a aguardar o soar do gongo. A dedicatória e a epígrafe, como se fossem um fim de sonho e início de despertar, afloram de uma escuridão, de uma zona de inconsciência. Estamos entre a consciência do Homem e a consciência do Poeta, daquele que termina amanhã e daquele que só termina quando acabar o último Homem. O Boxe e a Poesia não se confundem. O Boxe é físico, intenso, corporal, evidente; a Poesia, enfraquecida, com “falta de musculatura”, talvez só possa dar conta de “florbelas”, de “futuros” que obviamente constituem distâncias, de “leituras escolares” que não precisam comprometer-se com “realidades”, de apagamentos, neutralizações, reduções, perversões etc.

A apresentação de Caê Guimarães, esse outro membro das tribos dos poetas e dos boxers, aponta para esse enquadramento que põe a “nobre arte” do Boxe em seu devido lugar, para nós, poetas e leitores de poesia. O poeta luta pela Poesia, para alcançar Poesia. Nota, edita, corta. Salta, oscila, desarma. Apara, espera, escora: erra e acerta. Chegamos ao livro, chegamos aos poemas, que são verbetes, que são referências ao universo do Boxe: o campo alegórico, a metáfora ampliada. Isto põe e afirma um primeiro traço na obra — ela é conscientemente metalinguística, aponta o reconhecimento de que se pode pensar a Poesia empregando as imagens associadas a uma luta, um esporte, um jogo.

A metalinguagem vem sendo relativizada e criticada na Poesia contemporânea, e é justo alertar aos poetas para que não exagerem no cultivo de seus espelhos e interesses mais imediatos e pessoais; mas é igualmente justo alertar aos críticos que sem a consciência e o exercício da metalinguagem fica mais difícil aos Poetas alcançar uma compreensão da linguagem como um fenômeno pleno. Se não se devem apresentar tantos poemas metalinguísticos em publicações de referência, essa já é uma questão crítica e editorial, não dos Poetas.

Em todo caso, a questão aqui é somente de reconhecer que a metalinguagem se instala desde a base da composição do Breve dicionário do Boxe. Antes de haver “Boxe”, há ali “metalinguagem”, a lente que permitirá a projeção dessa imagem, desse “topos” sobre outros planos, sobre outras situações, sobre outros contextos. E, enfim, há Boxe: uma luta que envolve uma disputa, e uma disputa que envolve um prêmio. Um prêmio que vale a pena, mas que varia na infinitude das projeções metafóricas que consigamos fazer. Quanto mais objetiva a luta, mais claro e óbvio será o prêmio. Quanto mais subjetiva, menos claro – para os demais sujeitos, para as demais pessoas.

Tudo estará certo, e tudo estará tranquilo, se o cálculo corresponder ao prêmio, e se os golpes acertarem o Opositor (seu nome não é “Inimigo”, não no Boxe). Mas não: existem lutas reais, simbólicas e imaginárias, e podemos lutá-las todas simultaneamente sem nem perceber. Aqui, no Dicionário, por exemplo, existe uma luta da Poesia, uma luta da Literatura e uma luta do Poema. Três boxes, três arenas, três disputas. E as três apontam, indiscutivelmente, para o domínio do humano, a dimensão do humano. O Dicionário fala do Boxe para poder falar do Homem. O Boxe é o Homem. Plano, Universo, Continente… Toda a intuição de uma Mitologia, de uma Filosofia se encontra aí, concentrada em figuras, em imagens.

Um homem em particular emerge, a figura de Éder Jofre, o elemento mais humano na condução do livro, quase um personagem, quase um protagonista. Mas, também, pedra-de-toque alegórico. Éder é Brasileiro, pensa como brasileiro, age como brasileiro (embora seja antes latino, argentino). Éder Jofre é mais que Éder Jofre: é o Brasil interpretando o Boxe, dançando o Boxe à sua maneira: de uma aparente simplicidade, cinco movimentos e coisa e tal, uma sucessão de movimentos evolui ponto a ponto, contraponto a contraponto. A questão, implícita, é que o boxe não se faz apenas no ângulo de quem golpeia: é preciso atingir algo que não quer ser atingido, que também quer nos atingir, é preciso gerar impacto, é preciso impor-se, é preciso opor-se. É preciso violência. Latinidad. E pensar em Poesia, em Literatura, em Poema como “espaços de violência” não costuma ser frequente em nossa cultura, em nossa tradição lírica.

Claro, a Literatura tem seus bons e variados exemplos de resistência e de contraposição aos beletrismos. A boa Poesia (certo, certo, definamos “boa Poesia”, mas em outro momento…) não deseja ser ornamento, ela deseja ocupar o pensamento, o sentimento, ganhar esse espaço, vencer essa disputa. Não se trata de oferecer o que o Leitor quer, mas aquilo que ele precisa, aquilo que nós precisamos para não deixarmos de ser humanos. É dessa violência que a boa Poesia trata: aquela que nos dá tapas, dá socos… apenas com imagens, com sequências de palavras, e isso não tem nada a ver com usar palavras agressivas ou cenas escatológicas: o horror pode não ser nada além de um imenso ringue vazio.

O ritmo do boxer não é o do Vale Tudo, nem do UFC. É o ritmo do jazz, do Cronópio, idealista, sensível e até ingênuo – posto que acredita piamente que seu(s) Opositor(es) seguirão fielmente as regras do jogo. Assim como o Boxe parece simples, o dicionário também. Mas o dicionário é apenas o conforto de uma linha mais ou menos reta, a ordem alfabética (que, aliás, não é seguida). Dentro dessas cordas, toda uma luta continua a acontecer, as palavras continuam tensionadas umas contra as outras, gerando imagens, tentando produzir sentidos. Se o dicionário convencional trabalha para ordenar “definições referenciais”, um “dicionário poético” pode operar em outro registro, e no caso deste livro parece haver uma sutil inclinação para o aforismo; um aforismo “fora dos padrões”, um aforismo que não adere por princípio a nenhuma moral já estabelecida, mas pela moral do acontecimento, da situação, da “luta”: essa que se arma no espaço do poema.

Sobre o Livro – o trabalho literário

 

Boa parte dos poemas se operam como haikais: descortinam espaços, definem imagens, configuram situações. Veja-se, por exemplo, a série encontrada entre as páginas 60 e 67 (“Knockdown”, “Knockout duplo”, “Knockout”, “Undefeated”, “Cartel”, “Challenger”, “Bruiser”), na qual as imagens-verbetes fazem a síntese tanto dos elementos do universo boxer quanto de uma perspectiva subjetiva – lírica – que fornece a moldura e o enquadramento, o ângulo e a perspectiva do que me arrisco a definir como “momentos plenos do Boxe” tal como eles se acomodam no Breve dicionário (poético)…

Não necessariamente, as situações manifestam ações. Elas estão lá, mas anguladas, estilizadas. Outro tanto tem contornos narrativos mais definidos. Alguns mais, arriscam-se ao limite do aforisma. No poema do “Prefácio”, como a apresentar as regras aos contendores que chegam, estabelece o poeta que é preciso “entender / o to be” (p. 21), o “(a) ser”, uma das formas ao mesmo tempo mais simples e mais complexas da nossa linhagem idiomática. É preciso entender o “ser” e o “estar”, é preciso entender o “agir” caso o Poeta — e agora o Leitor — queira “exprimir em versos o que / se cultua com punhos” (p. 21). É preciso invocar, evocar, com o auxílio dos oráculos digitais se houver interesse em falar com a urbe, a multidão, a massa humana (e aqui, portanto, não se dirigindo à Pólis, à civis) empregando pequenos artefatos, “poemas / lambe-lambe” que vão entremeando o Dicionário.

Assim o livro vai evoluindo. Os versos, simples jabs, diretos, cruzados, formam móbiles sutis. Assim, por exemplo, o minimal “Boxe” nos impele a considerar que arte é possível com “punhos cerrados” (p. 23), com punhos que tenham pouco ou nada nas mãos. O teto nos impele a considerar que potência, que vigência pode ter essa expressão tão limitada (somente o “punho”, somente a “letra”). Em “Pugilismo” (p. 25), nova constatação: para haver confronto é preciso haver resistência, oponência; para haver sentido, é preciso haver resistência, oponência, aderência, tensão, atrito.

Em outro segmento de poemas, os narrativos, encontramos cifras memoriais e históricas, remetendo ora à história do Boxe, ora à história de seus praticantes. No breve terceto “Luvas” (p. 26) e em “Regras”, que o sucede, temos um vislumbre do processo civilizatório da Inglaterra, berço do moderno Boxe: uma civilização em que a brutalidade não deixa de existir; antes, é estimulada e suavizada, absorvida, integrada na vida social. Se apurarmos os ouvidos, perceberemos em outros lugares sociais os ecos dessa civilidade que vai criando o hábito dos “tapas com luvas de pelica”, a diluição da brutalidade em códigos e etiquetas que por um lado as confina, mas que por outro as mascara nos espaços da vida social.

A alegoria, a metáfora do Boxe vai-se colorindo, encontrando e reencontrando formas e imagens, como a dos galos que se antepõem em “Ringue” (p. 32) e “Sparring (fazer luvas)”, o mítico alter-ego que se oculta em nossas sombras (p. 35) ou o Ouroboros que se oculta no “Corner” (p. 37). Aliás, até os “Rounds” (p. 38) ecoam algo mítico, a épica da batalha e da vitória (e da derrota). Assim o livro prossegue, destacando essa topologia também de forma metonímica, com a “Toalha, / gelo, / vaselina. // Massagem, estímulo, adrenalina” (“Segundos”, p. 53).

Em “Faltas” (p. 58), a metáfora volta a se ampliar como alegoria: o Boxe, entre as lutas, tem regras e limites claros, dentro dos quais “há que se responder / pelas faltas”. Essa constatação estabelece mais uma referência para compreender que lutas, que disputas cabem em seu domínio paralógico, associativo. O Boxe não é uma “luta livre”, ele é circunscrito a um espaço e a um tempo, é mediado por regras, é um “esporte de cavalheiros”, para ser bastante preciso e quase britânico. Só há Boxe quando há cavalheiros, quando há uma Corte e um juízo, quando se aceita que os fatos, os fatos da vida, envolvem as nuances do ganho, do acerto, do prêmio, mas também do erro, da impropriedade, da culpa, do dano, do dolo.

Caminhando para o seu término, o livro registra ainda uma espécie de painel histórico e impressionista, evocando personagens históricos e momentos de uma cronologia pessoalizada e que finalmente projeta os significados do Boxe sobre a ambiência brasileira, nos poemas “Brasil – 1913” (p. 68), “Goes Neto – 1919” (p. 69), “Club Canottiere Esperia” (p. 70), “Ditão – 1924” (p. 71), “Ginásio do Pacaembu – 1940”, “Boxe moderno – década de 50” (p. 74), “Época de ouro – década de 50”, quando reemerge para promover o encerramento com “Éder Jofre” (p. 77), “Servílio de Oliveira” (p. 78), “A obra – Éder Jofre” (p. 79) e “Poema para um pugilista” (82), no qual a alegoria  retorna (“O homem / traz um ringue / dentro de si”) e também o mito trágico que se expressa na obra de Jorge Elias: a do homem, a da humanidade que oscila entre cumprir seus destinos históricos – lutando as lutas verdadeiramente nobres – ou ceder às contingências da vida, aceitar a existência como hábitos e rotinas, no máximo exercícios, muitas vezes plenos e satisfatórios, mas ainda somente e apenas exercícios.

A impressão final que o livro deixa é de que ele dá continuidade ao processo, ao amadurecimento da poética de Jorge Elias. Ainda um exercício, ele aponta questões, revela elementos de estilo, apura uma sensibilidade. Nem todos os poemas alcançam a mesma potência de expressão, algo que talvez leve a alterações e revisões em eventuais futuras edições. Ao fim, e ao cabo, saímos do livro com o semblante entre o sério e o apreensivo, ruminando as imagens do Boxe e deixando-as como moldes, como espelhos singulares em que o leitor pode medir-se e assim, quem sabe, entender-se igualmente como um lutador.

 

Orlando Lopes é poeta, ativista cultural e professor do curso de Letras da Ufes. Publicou Hardcore Blues (1993) e Occidentia (2007). Mantém o blog poético Occidentia.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Kátia Borges

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Escorpião amarelo

 

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus! Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho. Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento. E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos. Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito. Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo. Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.

 

 

 

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Madrugada do dia dos mortos 

 

Perto da meia noite, veio do nada e deu um chute na porta da casa frágil. Escutei a pancada e cobri a cabeça. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto? Talvez. Quando fez silêncio, arrastei o que restara de mim para fora. “Polícia é assim, não livra a cara da gente nem no Ano Novo”. O homem me puxou pelos braços e foi me empurrando para baixo até me esconder inteiro sob a cama. Vi uma mancha de sangue, uma rolha de champanhe no assoalho, a queda de um projétil. No céu, saraivada de fogos. No dia primeiro, o primeiro de todo o resto, finalmente conferi meu corpo. Intacto. Trêmulo. Pele e ossos.

 

 

 

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Sui Caedere 

 

E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.

 

 

 

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O céu da boca

 

Os dentes do meu pai, envolvidos em um guardanapo, roçavam as pontas dos meus dedos sempre que enfiava, esquecido, a mão no bolso. Estava no centro, atrás de um protético que desse jeito na parte superior da dentadura. Fazer uma nova custaria dez vezes mais, mas esse nem era o problema. A questão é que, aos 90, o velho já não conseguiria passar pelo processo de adaptação da boca à prótese sem me enlouquecer completamente. Então, genial como sempre, tive a ideia de encontrar um profissional capaz de restaurar a arcada, reconstituindo a porcelana que eu havia quebrado acidentalmente logo que fiquei responsável pela escovação diária.

Não que eu fosse descuidado com as coisas do velho, entenda. De início, no entanto, confesso que olhava bem pouco o objeto em minhas mãos, limitando-me a fazer movimentos circulares com a escova ensopada em dentifrício, como havia lido em um anúncio de creme dental. Isso, somado à distração habitual, permitiu que a chapa escorregasse algumas vezes na pia do banheiro, danificando a ponta dos incisivos lateral e central. Não eram danos muito visíveis mesmo para quem olhasse meu pai bem de perto. Em nossa família, todos têm bocas pequenas e lábios finos, e a verdade é que ele sorria cada vez menos.

Mas, os danos nas pontas dos incisivos lateral e central, embora pouco visíveis, dificultavam a mastigação, e o desconforto do meu pai era suficiente para justificar a heróica travessia da cidade no inverno. Salvador ao Sol é uma Aldeia Potemkin. Engana britânicos, franceses e prussianos. Sob a chuva, no entanto, todas as suas estruturas parecem se desfazer em papelão. Saltando poças de lama, pulando entre as marquises dos prédios de outro século, eu caçava abrigo da água, movendo com desajeito o corpo magro, projeto inacabado de Shigeru Ban, à cata do consultório de um tal Heráclito Hernandes. Rua Chile, 190.

Ainda há pouco, no táxi que me levara aos solavancos do bairro nobre à parte antiga, comentara com o motorista o fato de o nome do protético ser Heráclito. “O obscuro”, me disse o homem ao volante, como se soubesse um bocado sobre filosofia e dialética. Eu só conhecia o Panta Rei e me inquietava a ideia de que tudo muda e a metáfora das águas e dos rios. Estivera a vida toda obstinado na construção de pontes, pontos fixos de observação e travessia. Tudo sem molhar os pés. “Mas, esta nobre arquitetura demanda grande conhecimento”, ouvi ao descer do carro. Isso eu sei. Demanda pilares e arcos muito sólidos e pedras e madeira de boa qualidade e metal e concreto e partes que são montadas aos poucos como num quebra-cabeça.

Há ainda pontes suspensas, mas isso eu não disse ao taxista. Pontes suspensas que são erguidas bem alto por cabos de aço. Toda vida, meu caro condutor, é apenas técnica.  Tudo demanda grande conhecimento, pensei, já entrando na viela estreita que dá acesso a Avenida Sete de Setembro. Mesmo o mais simples objeto, veja bem. Mesmo a dentadura danificada em meu bolso. Mesmo eu, o nobre, o filho generoso, o herói do velho, hoje frágil, incapaz de limpar os próprios dentes. Pouco restara do homem que conheci forte e macho a me ensinar a ser. A encher de sabão a minha boca para lavar com violência palavrões, nicotina e esperma.  A vida nos moldou, os dois, a foice, como sói acontecer a toda gente. Se há um consolo, este é ser como todos.

Maldita seja a diferença, dizia meu pai em seus ensinamentos sem o dizer. Seja honesto com os honestos e valente com os valentes. Nunca seja apanhado, faça o que fizer. Aos poucos, todas as lições seguiram para o ralo e ele parecia saber. Aquele moço magro e molhado que carregava seus dentes no bolso pelas ruas do centro em busca do consultório do protético era, sobretudo, um fraco. Sim, um fraco. Por mais que em mim ainda residisse a pouca força do velho e sua dinâmica viesse do apoio dos meus braços. Quis o destino que coubesse ao filho maricas cuidar de suas escaras, trocar as fraldas, levar ao banho,  limpar as fezes. Agora, concentre-se, pedi a mim mesmo, devidamente perdido em meio à chuva. Onde, nesta avenida, entro para a Rua Chile?

Apenas siga adiante, disse uma senhora meio curva. E eu segui. Incerto, pelo caminho conhecido desde a infância. Subitamente alterado, tonto. Em algum ponto, na altura do Relógio de São Pedro, senti que algo havia se partido, uma fenda no tempo, e todas as coisas do mundo, como no Aleph de Borges, pareciam espreitar sorrindo. Olhei seus dentes como se examinasse a boca de um animal antes de submetê-lo a grande esforço. E, nela, na boca do centro, enxergasse o escuro formado pelo palato. O céu. Algo apertava meu coração, como se uma grande mão, a grande mão do sofrimento, estalasse todos os seus dedos no céu de chumbo e, ao redor do meu peito, voltasse então a contraí-los. Eu precisava ir, localizar o endereço, achar o protético. Imaginei meu pai, perdido em mutismo e desespero, e me agarrei à expressão murcha de seu rosto por alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos…

 

Kátia Borges é escritora, jornalista, mestre e doutoranda em literatura e cultura pela Ufba e professora. É autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012) e São Selvagem (P55, 2014). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013) e traduzidos para o francês, espanhol, inglês e alemão.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fernando Naporano

 

deborahdornellasum
Desenho: Deborah Dornellas

 

Sem Os Limites Do Círculo Terrestre

 
Juntos sabemos a cor do silêncio de Deus
que Nerval nos trouxe em ouro fervente

Respiramos em azul incerto-aberto
o odor da claridade ágil,
em passos muito rápidos,
arremessando clareiras na mata

Seu sono em essências de rocha
ao meu chamado respondendo
com rosto de margarida-sem-fim
contrário ao pó de todos os conteúdos

À minha despedida, um lacinho de ternura
acalenta o prazer em ver-te no metal do sonho

 

 

 
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Luz. Speedball.

 

quisera mais e mais a introspecção da montanha branca

lá donde as coisas diminuem…………………….diminuem
os silêncios mudos não mais que claras………passagens
a vida estremece…………………..é uma recusa a respirar
ao perfil das feridas…………………………….sem pranto

Da sede branca………………..outra sede branca

a alma aberta……………………..sem dificuldade
o corpo é pequeno……  .a dimensão transitória
sobremaneira…………………………é o incêndio
o músculo………..(!!!)………………..no deserto

deslumbrante…………serenidade branca íntima
tudo é claro……completo, o espelho acende-se
nenhum reflexo escapa
nenhum reflexo….arde

 

 

 
***

 

 

 
As sujas maçanetas da razão
finalmente estavam todas avariadas

As tempestades reclináveis do espírito
eram a varanda da grande festa da solidão

 

 

 

***

 

 

 

Dai-me, oh horizonte-em-dardos, o crepúsculo brancovioláceo
ou a maré das luzes libertas.
Não permita-me contemplar o céu azul-claríssimo
que se agarra, sem sutilezas ou tempestades, nas pro—-
——-fundidades do Vazio.

Dai-me, leito escuro do alto, algo além do lodo de vidro
da estrela que não veio.
Não proiba-me de inundar-me no mecanismo das lágrimas,
sem pressa nas roldanas, tisanas da dor,
na claridade de teus olhos que cegam para O Sempre.

 

 

 

***

 

 

 
Uma espécie cobalto de amargura
vaza-me as entranhas
nas valas do sol a se por
no extremo desolado do Tejo

Ainda há luz
nas janelas
des
pe
da
ç
adas
da alma
. algum resquício de cor,
ardor do suplício
em melros trucidados nos campos da memória.

 

Fernando Naporano cursou Letras em São Paulo e Lisboa, mas sempre atuou como jornalista, radialista, label manager e músico. Gravou três Lps com sua banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui.  Entre seus principais livros inéditos de poesia estão “Abandono Devolvido”, “Estrelas De Gin”,”Uma Lâmpada Entre Os Lábios” e “Nas Colinas De Valdemossa Com O Fantasma De George Sand”. Tem um anti-romance – também inédito- chamado “Não Era Uma Loira Era Um Garrafa De Cidra”.