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90ª Leva - 04/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Ninfomaníaca (Nymphomaniac). Dinamarca. 2013.

 

 

Ninfomaníaca, Volumes I e II, encerra a quarta grande trilogia de Lars von Trier, cineasta dinamarquês, assim denominada “Trilogia da Depressão”. Os outros dois filmes dessa trilogia são O Anticristo e Melancolia. Todos os filmes têm em comum a presença de Charlotte Gainsbourg como protagonista. Em Melancolia, ela divide com a atriz Kirsten Dunst o papel principal.

Com exceção da primeira trilogia, “Europa”, todos os filmes das demais trilogias são protagonizados por mulheres. Na “Trilogia do Coração de Ouro” (filmes Ondas do Destino, Os Idiotas e Dançando no escuro), as protagonistas são mulheres que mantêm a integridade, a bondade e a firmeza no decorrer de uma experiência sacrificial. Na trilogia “Estados Unidos, Terra das Oportunidades”, em Dogville e Mandeville (a trilogia permanece inacabada, pois o terceiro filme, Wasington, não foi filmado), uma mesma personagem, chamada Grace, vê seu idealismo e voluntarismo soçobrar diante da vileza exploratória e hipócrita do mundanismo americano. Nos filmes da “Trilogia da Depressão”, vemos mulheres vivendo experiências absolutamente extremas em situação de loucura, apatia ou indiferença.

É impossível não reconhecer que von Trier, nessas três últimas trilogias,  apresenta,  com os instrumentos da melhor arte cinematográfica, uma reflexão extrema sobre a condição contemporânea da mulher no mundo ocidental. Se esta é uma reflexão propriamente feminista ou se é compatível com um feminismo militante, é uma questão em aberto. Mas, com certeza, a estética de von Trier nos coloca diante de uma politização da questão de gênero no século XXI das mais relevantes no cenário atual, quando se observa o progressivo recrudescimento de um conservadorismo misógino e fascista, seja no mundo ocidental como no oriental.

Se há algo em comum em todos esses últimos oito filmes – e que funciona como uma tese implícita em toda sua obra – é a ideia de que somente a mulher – ou a personagem feminina – é capaz de não recuar diante das mais extremas provações da experiência, por mais dolorosas, sacrificantes ou mesmo supliciantes que elas se apresentem. Por sua vez, os personagens masculinos são marcados por uma covardia hipócrita ou mesmo patética, incapazes de assumir as consequências finais dos seus atos.

Poucos notaram, por exemplo, na trilogia americana, a afinidade com o teatro de Brecht. Mas ela se dá não apenas na adoção do dispositivo antimimético das marcações do cenário ou do uso alegórico da fábula, mas na crença de que só a mulher é capaz de suportar do início ao fim, em seu próprio corpo, as determinações de sua existência e o destino de seu desejo. No teatro brechtiano, num mundo marcado pelas guerras e pelas máfias, promovidas por homens hipócritas, somente nas mulheres, aquelas capazes da coragem e do sacrifício último, é que reside a esperança da revolução.

Mas von Trier não tem diante de si, como Brecht, a fé na iminência de uma revolução emancipatória que aboliria, por exemplo, o sistema capitalista e, com ele, as divisões de gênero correspondentes às lutas de classe. Ele é, antes, testemunha de um mundo regido pelo cinismo do exercício brutal do poder e pela apatia da vontade política popular. Ele próprio um deprimido fóbico, von Trier é um cineasta de um mundo marcado por uma grande impotência de transformação, impotência da luta política e da capacidade de imaginar alternativas, um mundo onde é mais fácil pensar a extinção de toda a humanidade do que na mudança de um regime econômico.

Mas assim como a inviabilidade da revolução não impede a eclosão de violentas rebeliões populares que se espraiam pelas nações nos últimos anos, tampouco o cinismo contemporâneo impede a vivência de viscerais experiências corporais e psíquicas que estão presentes em seus últimos filmes, notadamente na “Trilogia da Depressão”. Nesses últimos três filmes, as protagonistas femininas, verdadeiras heroínas ao avesso, enfrentam, num corpo-a-corpo sem possibilidade de contorno, perdas irreparáveis: a perda de um filho em O Anticristo, a perda da vontade viver em Melancolia e a perda do prazer sexual em Ninfomaníaca.

Para essas três perdas absolutas, não há negociação, só a vigência de uma negação radical. Pois a possibilidade de negociar a perda da vontade de viver com a falsa redenção de um matrimônio, como se oferece à personagem Justine no início de Melancolia, acaba por levá-la ao estupor e à imobilidade depressiva. Incapazes de simplesmente ignorar seu destino, essas personagens-heroínas se entregam à loucura demoníaca (“Ela” em O Anticristo), à louca beatitude da aceitação (Justine e Claire em Melancolia) ou à indiferença radical (Joe em Ninfomaníaca). Mas essas três posturas existenciais, para serem efetivas, só podem ser vividas plenamente numa absoluta entrega dos corpos e mentes das mulheres, sem justificativa nem esperança de redenção.

Totalmente diferentes são as atitudes “viris” dos personagens “masculinos” nesses filmes, pois eles procuram a todo momento psicologizar, racionalizar ou “positivar” o intolerável, como faz o personagem Seligman em Ninfomaníaca, sempre à procura de uma explicação otimista para uma experiência de sexualidade mórbida e infrene. Ou John, em Melancolia, incapaz de encontrar uma justificativa racional para o fim da espécie humana, só lhe resta covardemente suicidar-se anteriormente.  Nos três casos, de forma semelhante, o que o protagonista masculino busca é abafar a violência própria do acontecimento da perda, extrair o grau de sua radicalidade, banalizá-lo para retirar dele o cerne de perda da própria perda, para integrá-la a uma rotina existencial qualquer, conformadora. O resultado dessa atitude covarde é tais homens aparecerem aos olhos das mulheres como colaboradores de um mal maior, a vileza com que retiram da carnalidade sofrida da existência sua irredutibilidade, sua experiência inassimilável e negativa.

Para dar a ver esse “jogo” entre uma perspectiva masculina “positiva” e conformadora, e uma perspectiva feminina “negativa” e inassimilável, Lars von Trier constrói em Ninfomaníaca, a exemplo de muitos de seus filmes anteriores, um dispositivo formal mimético antinaturalista, um procedimento estético que o distancia da maioria dos diretores contemporâneos, todos voltados a produzir uma hiperrealidade cinematográfica. Neste caso, von Trier se volta para o romance libertino do século XVIII, onde jovens mulheres narram suas desventuras amorosas e sexuais a homens mais velhos. Dessa forma literária saíram obras de autores como Sade e Choderlos de Laclos, escritores afins à estética de von Trier e à temática sexual deste filme.

Como uma nova Justine, personagem de Sade (e nome também da personagem de Melancolia), Joe narra a Seligman, o “Homem-feliz”, as vicissitudes de sua vida sexual, isto é, de sua “ninfomania”. Joe não está em busca de uma incessante ou obsessiva experiência de prazer, nem mesmo de conhecimento ou da experimentação “dos sentidos”. O que a impulsiona a seus múltiplos encontros e práticas sexuais não tem exatamente motivo ou fim, é, segundo suas palavras, uma espécie de “mal”, uma malignidade sem nome que serve a uma grande indiferença. Na multiplicidade “enciclopédica” de personagens masculinos (e fálicos), Joe sintetiza três tipos de homens com quem trepa: os homens que  procuram satisfazê-la, os homens que a pegam à força e um homem que supostamente ela ama. Porém, em relação a este, ela não tem mais do que absoluta indiferença.

 

Charlotte Gainsbourg em cena de Ninfomaníaca / Foto: divulgação

 

Joe é incapaz de ter orgasmos, mas esta incapacidade, esta “perda” é, na verdade, a ausência de algo de que nunca se teve e que, portanto, não faz falta. É no máximo a perda de uma mitologia de infância que, porém, ela não deseja recuperar. Joe não se entrega ao sexo em busca de uma parcela qualquer de um gozo perdido ou impossível, tal a um complexo de castração psicanalítico: seu gozo está no próprio ato de se entregar a uma experiência carnal e manter-se indiferente a ela, mesmo que esta implique nas dores mais supliciantes do masoquismo, mesmo que ela signifique a renúncia a sua condição de mãe.

A Seligman, Joe advoga a irredutibilidade de sua experiência: ela não é redutível nem a um princípio utilitarista nem à expiação de culpa, ou à busca de elevação espiritual. Nesse diálogo aparentemente pacífico com o personagem masculino, no entanto, não parece haver um consenso final.  Seligman procura a cada momento extrair de seu relato uma moral ou uma justificação, algo como uma sublimação de sua experiência. Se Joe é uma nova Justine, ele representa a espécie de um Cândido voltairiano: a negatividade do relato de Joe é “positivada” num plano superior de síntese. Para ele, a malignidade de Joe em não buscar uma justificação para seus atos torna-se uma involuntária ação benigna ao semear felicidade entre os homens. No final de tudo, Seligman mostra a Joe que afinal ela “não passa” de uma mulher: a infelicidade de sua experiência é o resultado dessa diferença de gênero, o estigma de sua condição feminina. Ela só sofre a sina de todas as mulheres, reduzidas a objetos sexuais dos homens ou a uma ausência de falo, uma castração “ontológica”.

Os personagens Joe e Seligman / Foto: divulgação

 

Mas, ao final do filme, perguntamos: terá sido Joe realmente infeliz? Supor que as vicissitudes de sua narrativa correspondem apenas à inferioridade social de sua condição feminina não seria retirar dela todo o livre-arbítrio, sua própria subjetividade que liga seu destino a seu desejo? Assim, há algo de completamente incomensurável e fatalmente trágico entre a narrativa de Joe e a “interpretação” de Seligman que não admite uma resolução apaziguadora, um meio-termo, um mínimo denominador comum.

Porém, seria pequeno ver Seligman, por outro lado, apenas como porta-voz de um machismo enrustido, o representante da condição masculina dominante. Masculino e feminino são como polos antagonistas de um jogo, mas cuja relação “horizontal” é cruzada por outras relações transversais, como “virgem” e “ninfo”, ou como “prazer” e “gozo”.   Seligman é “virgem”, não no sentido de que não teve experiência sexual, mas porque ao recusar todo envolvimento físico e afetivo com os outros, castrou-se não apenas existencialmente, mas também de todo entendimento do que é uma experiência carnal, e tende a ler toda relação corporal extrema dentro do binômio prazer e dor, escapando-lhe assim toda a dimensão de gozo que existe, por exemplo, em deixar-se açoitar violentamente numa relação S&M.

É em defesa da irredutibilidade de sua experiência, da impossibilidade de encontrar uma justificativa que não seja o gozo do seu próprio transcurso que Joe, numa das cenas mais importantes do filme, na roda terapêutica que lhe é imposta entre mulheres “sex-addict”, violentamente interrompe a sessão para se afirmar enquanto “ninfomaníaca” e não como uma “viciada em sexo” em busca de “tratamento”.

É neste aspecto que Ninfomaníaca parece muitas vezes ser uma resposta cética e radical (e europeia) a outro filme que trata do mesmo assunto com sinais trocados: o filme Shame, do diretor americano Steve McQueen. Neste, um homem na faixa de 30 anos também sofre de “adicção sexual”. O puritanismo deste filme parece evidente: a compulsão sexual de seu protagonista masculino precisa passar por uma trajetória de “vergonha” para poder “sociabilizar-se” afetivamente.  Já Joe, como o personagem homônimo da canção de Jimmy Hendrix que encerra o filme (na voz de Charlotte Gainsbourg), só pode correr com a arma de suas próprias escolhas, sem nenhum arrependimento para voltar sua vista, sem nenhuma vergonha a carregar, apenas a prova da verdade de sua vida, a sua própria e intransferível provação.

 

 

 

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro.

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lisa Alves

 

Foto: Nathalia Bertazi


Amnésia com Chemtrails

 

“Saber que resistes.  Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.  Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.  Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena. “
 Carta a Stalingrado – Carlos Drummond de Andrade

Eu jazia lá e o perfume da pólvora era tão banal quanto os gases poluidores de qualquer cidade grande. O local era escuro-cinza e a tonalidade aos poucos alcançou tudo de forma acelerada. A poeira de uma cidade sem luz adormecia sobre os outdoors e letreiros advertindo que ao pó tudo e todos um dia retornarão.  Até o sol decidiu abandonar aquela guerra estúpida, já a espécie humana não tinha tamanho poder de decisão.

Não demorou muito tempo para eu descobrir o meu papel no meio daquelas explosões, eu era uma prostituta. Prostituída como todas as senhoras, senhores, filhas e filhos que um dia desfrutaram de uma vida digna e feliz naquele território que não recordo o nome. Apenas sei que eu completava o lugar, mas somente o lugar. Possuía uma estrangeira confiança que eu não passava de um cão sem dono, um cão sem recordações, um animal domesticado nas ruas e nos olhares famintos da população. Fome – era isso que eu sentia e por ela fazíamos qualquer negócio sujo (naquela atmosfera já não existiam negócios oferecidos em tempos de paz). Éramos a mercadoria exposta na rua, éramos a alimentação voluptuosa dos soldados. E eles exigiam variedades: senhoras, homens de qualquer faixa etária e meninas que não tiveram tempo de brincar. Ali foi constituído um campo de concentração de prazeres sádicos. “Levante seu cacete moleque!” – e o menino não tinha escolha, aquele ato poderia render-lhe uns bons restos de comida.

Tornei-me uma mulher forte, a frieza dos dias contribuiu para uma força inimaginável. Quando ouvia os três disparos que alertavam para a chegada dos consumidores, preparava-me para a labuta. Cortava os dedos e com o líquido rubro maquiava o rosto para obter uma aparência saudável. Os soldados eram exigentes, depois de deliciarem-se sobre nossos cadáveres ainda podiam negar o pagamento com argumentos incongruentes: “E ai, Raul! Alguma múmia já te calibrou antes?”.

Os dias eram fétidos, sem água, sem uma possível higiene, aos poucos a distância de um ser humano para outro foi se tornando imperativa. As doenças de pele eram as maiores oponentes dos sobreviventes. Éramos cães com uma sarna crônica e ainda assim não nos poupavam do péssimo paladar dos homens das artilharias. O verdadeiro sentido de sexo selvagem foi abrangido naquelas ruas cinzas e vermelhas. Éramos uma vitrine violada por milhares de saqueadores: nos ventres das mulheres cresciam fetos indesejáveis, nas garagens escuras homens suicidavam e eu continuava em pé. Uma múmia, não deixavam de ter razão.

Quando percebia algum indício de fraqueza escondia-me dentro das ruínas de um edifício habitado por ratos. Dali de dentro tentava táticas de recuperação, alimentava-me dos pequenos e assim seguia forte para a guerra. A primeira vez que entrei no local estava fugindo de um general mal agradecido que durante um boquete levou uma leve mordida no membro. Fiquei três dias ali, até ser esquecida ou se tivesse sorte o homem já teria seus pedaços espalhados no front – conseqüência comum da guerra, todos os dias os devoradores mudavam de cara, mas permaneciam com as mesmas intenções canibais. Naquele mesmo prédio descobri que não estava sozinha, assustadoramente deparei-me com um espectro pequeno e faminto. Dei-lhe algumas patas de ratazanas e ele as devorou rapidamente. Perguntei-lhe o seu nome “José” e quantos anos tinha “Não me lembro, dona! Tem mais carne?” Menti, disse que não, se eu dissesse sobre a fonte de alimentação, daqui alguns dias os ratos seriam uma mera reminiscência. Eu precisava viver, não sei para quem além de mim mesma, mas se a guerra terminasse poderia recuperar um pouco da memória e descobrir se em algum lugar alguém me esperava. Naqueles dias ser cruel era uma opção de sobrevivência.

Naquele mesmo prédio conseguia assistir as pessoas nas ruas, era funesto testemunhar a humilhação coletiva. Os soldados tomaram posse de todos os mantimentos doados por outros povos e utilizavam-se desse poder para por em prática as veleidades mais primitivas e maliciosas. O povo não tinha alternativa, precisavam daquela ração, necessitavam de mais um dia de vida. Mesmo que a vida fosse dentro daquela jaula de torturas. Eu também não tinha escolha, disseram que os soldados inimigos cercaram toda a redondeza e quem se aventurasse a fugir teria um pior destino. Sinceramente não sei o que é pior: levar um tiro na cabeça ou ver cada pedaço meu sendo explorado por aqueles que deveriam me resguardar. Mais tarde descobri que os jornais falaram sobre nossa situação: “Em plena guerra cidade vira bordel atrapalhando o trabalho de nossos soldados.” “Famílias vendem a inocência de suas crianças em troca de tabaco e álcool.” Provavelmente a fonte dessas informações veio de dentro do exército ou daqueles poucos cineastas (com entrada livre para o espetáculo) que vez por outra se deliciavam com as torturas sexuais. Éramos mercadoria ali dentro e lá fora o lixo execrável da humanidade. E eu continuava sem passado, ninguém me reconhecia, apenas passei a existir de uma hora para outra e fui logo me adaptando a viver como eles. Sem passado, foi mais simples permanecer.

 

 

***

 

 

Línguas Estrangeiras

 

“(…) o uivo coletivo é a única maneira de dignificação de nossa espécie. porém (…),  à diferença dos cães, que gemem em espaço aberto, para a lua, o nosso uivo deve ser confinado, para que, amplificado pela engenhosa arquitetura das catedrais, ultrapasse nosso satélite natural e atinja o centro da galáxia, redimindo-nos aos olhos do criador, que infelizmente é surdo-mudo e não compreende sequer a linguagem de sinais.”
Campos de Carvalho

Nós imploramos paciência, senhor mediador – precisamos aparecer nos papéis, no canto da massa e nas cartilhas da igreja e do legislativo. Carecemos compor notas inaudíveis através dessa sua imagem apagada, através dessa sua cabeça caduca e de suas mãos (já não tão suas desde a época da alfabetização).

Necessitamos, senhor mediador, publicar prognósticos sobre o futuro dos ecossistemas terrestres e quem sabe oferecer-lhe também algumas dicas amorosas – mas para isso basta tão somente manter todas as portas abertas, pois somos muitos e não somos espécime de fileira ou senhas.

Não adianta chorar, senhor mediador – choraremos juntos, você e nós significamos concordância do verbo, desde o primeiro (aquele que disse o que disse e tornou-se o que é). Falaremos juntos das injustiças do mundo e sobre as coisas que não podemos alterar, até que chegue o dia em que seremos assistidos.

Não acredita, não é mesmo, senhor mediador? Prefere abafar nossas vozes com o seu adequado anestésico social, com sua medíocre interpretação psicológica e sua schizophrenie espiritual. Somos muitos em você e fora de você somos meras manifestações. Deixe-nos guiá-lo para o caminho refletido em onze espelhos, onze esferas e onze retratações de sua vida.

Sentado esperando respostas, senhor mediador? Já lhe convidamos a fazer perguntas e usá-las como contragolpes. Perguntaremos: o que é a verdade? Responderemos: a verdade?

A chave oferecida não é uma klischee interpretação enigmática e sim o singelo ato de querer abrir a porta, senhor mediador. “Toc, Toc, Toc”, adoramos as onomatopéias – o poder real de interpretação dos sons… Decifre o poder das vibrações das cordas, senhor mediador!

V r u m,
z h a p,
c h u a.

 

 

***

 

 

Orun Burúkú

 

Copacabana é um bairro onde se pode viver tranquilamente, desde que se seja louco.
 Campos de Carvalho

 

Movimentou os dedos no passeio público, reparou as laterais e não descobriu testemunha – ninguém que pudesse apontá-lo mais tarde ou por efeito do nascer do sol reconhecê-lo. Agarrou a prenda em suas mãos e avistou um lugar – um beco onde pudesse se encostar e sorver o resíduo daquilo que já fora um íntegro cigarro.  Buscou nos bolsos sua caixa de fósforos e antes mesmo de abri-la notou a marca rosa na guimba – era de um rosa lírico, um sinal de batom de alguém que não ama cores cáusticas, um tom não muito habitual nas ruas, um colorido imaculado.  Quem seria a dona de tal boca? Quem seria a boca senhora de meio tabaco fumado ou meio tabaco rejeitado? Percebeu que a boca deixara falhas, examinou o traço e sustentou a reflexão de que a dona-da-boca-dona-do-cigarro era uma boca craterada, um lábio sobrecarregado de celulites, um lábio antigo que provavelmente roçara muitas bocas.  Sentiu-se felicitado, percebeu-se recompensado em uma noite despovoada, em uma escuridão sem amores, sem colos ardentes e sem grana. Depositou então a memória de um lábio sentimental e remoto dentro das calças, cravou a imagem de uma boca antiga em seu sexo e antes mesmo de ser saciado pela fantasia o fogo se animou e fez daquele homem pó – um pó rosado, um pó avelhantado, um pó que o arrastara para Orun Burúkú.

 

 

Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e é colunista na Revista Ellenismos.

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ozias Filho

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

nenhuma pedra

(lugar comum
……do poeta)

sufoca a tampa
detém a cavilha
sustenta a pressão

tudo vem à tona

quando os dedos
vão à garganta

 

 

***

 

 

verdade submersa

 

trabalhar incessantemente a mentira da palavra
o discurso viola a abstracção
da boca que o pronuncia
a língua (precoce) permanece hipnotizada no seu túmulo
pelo encantador de serpentes
enquanto a verdade é só saliva no fundo do cesto

 

 

***

 

 

Génesis

 

e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

 

 

***

 

 

as estradas sulcadas na fronte
canais que interrogam
o curso do rio de sal
que não mais turvará o que é cru

enxergar ao longe
remoça a vista
e abre fístulas no peito

 

 

***

 

 

a árvore

 

cai por terra a promessa
de mantermo-nos rijos e inalterados
defronte ao assalto da saudade

cai com a lentidão do frio
quando a roupa é parca para impedir
que a pele queime e estale como as velhas madeiras
na memória das gavetas
casas com prazo de validade

que promessa poder-se-ia manter fiel
diante do perfume suspenso
e que não avisa a hora em que descerá
à memória olfactiva?

que compromisso matemático
podemos assumir com a rectidão dos dias
quando basta uma pedra fora do lugar
uma nota dissonante num trilho de comboio
o ranger dos dentes de alguém a dormir
ou o gosto agreste de um beijo que escrevemos
num argumento
para que se desça do pedestal que nos impusemos?

cai por terra a soberba
a árvore que não tem hipótese
face ao predador

 

 

***

 

 

Liturgia

 

mesmo que seja eu,
no auto-retrato,
à frente do espelho

é no olhar do outro
que determino
a passagem das horas

 

 

***

 

 

o calcanhar na língua

 

a Adriana Calcanhoto

 

eu vou arranhar
o calcanhar direito
de Adriana
tirar o verso da perna

amanhar o verbo da pedra
conjugar o calcanhar
no presente do futuro

eu vou mastigar a palavra
no lado esquerdo da alma:

a cal que desce
o sal que escorre
das palavras
caídas

o calcanhar que fala o silêncio de
Adriana

ela brinca ela brinda
introduz
o verbo que sabe a chão

 

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e atualmente reside em Portugal. Sua produção poética contempla obras como “Poemas do Dilúvio” (Ed. Alma Azul), “Páginas Despidas” (Ed. Pasárgada) e “O relógio avariado de Deus” (Ed. Pasárgada), dentre outras. Atua também como editor e fotógrafo.

 

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90ª Leva - 04/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – VISTA PRO MAR

 

 

‘(…) Basicamente é isso. “Vista pro Mar” surgiu numa tarde ensolarada em uma piscina – como se fosse um caso de amor adolescente, daqueles que nos rende um ano de dor de cabeça criativa… E terminar um disco é como reencontrar aquele amor adolescente anos depois, mais velha, mais madura e bonita e pensar: “Acho que vou chamá-la pra sair”’. (SILVA)

 

Se depois da tempestade vem a bonança, podemos dizer que depois de Claridão, vem Vista Pro Mar. O denso e minimalista álbum de estreia do cantor e compositor Lúcio Silva Souza – ou simplesmente SILVA – tem como sucessor um conjunto de canções otimistas e ensolaradas. O músico capixaba de formação erudita continua mesclando MPB com bases eletrônicas e versando sobre o amor e suas vertentes, de maneira que se confirmam todas as expectativas em si depositadas como o novo nome da música nacional. O artista continua também dividindo a parceria das canções com o irmão Lucas Silva, seu letrista predileto. Gravado em Portugal, as onze faixas de Vista Pro Mar possuem 48 minutos de duração e soam muito mais orgânicas do que as canções de Claridão (2012), disco gravado praticamente de modo artesanal e solitário.

Produzido pelo próprio músico (e com uma bela arte gráfica), o álbum foi revelado aos poucos, antes do lançamento oficial, através de quatro singles: Janeiro, É Preciso Dizer (que ganhou clipe rodado entre França e Portugal), Universo e Okinawa, parceria com Fernanda Takai. Mais melódico, coeso e com menos manipulação eletrônica, Vista Pro Mar reafirma o processo de amadurecimento do artista e propõe certa reinvenção precoce: SILVA poderia repetir o óbvio experimentalismo para burlar a síndrome do segundo disco, mas não, a densidade do álbum de estreia agora dá vazão a momentos elaboradamente despretensiosos. Disponível no iTunes, o registro físico foi lançado em abril pelo selo SLAP, braço independente da Som Livre. No mesmo mês, SILVA apresentou-se no Palco Ônix, na 3ª edição do Lollapalooza Brasil e prepara-se para tocar no Rock in Rio Lisboa, em maio.

 

Show de SILVA no Lollapalooza Brasil 2014 / Foto: Eduardo Magalhães

 

Um trio de metais em Vista Pro Mar, canção-título, abre o álbum com otimismo e valentia, anunciando que ‘não há mais maré baixa em mim’ e que ‘eu sou de remar/sou de insistir/mesmo que sozinho’, para em seguida declarar (-se), na melódica new age de É Preciso Dizer, que ‘esse mar já deu ’ (é preciso dizer/quando olhas assim/uma coisa me atropela/dentro o peito). A irresistível Janeiro e seus instrumentos de sopro mantêm uma cadência festiva numa típica história de amigo que gosta da amiga, tem medo de perder a amizade, mas não aguenta mais calar o sentimento (justamente no mês em que é sempre tempo de [re]começar). Entardecer possui um clima praiano de pôr-do-sol, com o barulho das ondas e um pseudo-reggae no final, que informa que ‘pra nós/não é questão de sorte’ e ‘o que há de ser/sim, será’. Okinawa, dueto com Fernanda Takai, apresenta um tom acústico-oitentista e o refrão adverte sobre a fragilidade das relações (faz chuva, esconde o horizonte/a cada vez que você não vem/não vale se amar tão de longe/é de perto que a gente se faz um bem).

A segunda metade do álbum destaca o pop dançante de Disco Novo (já amei, amei/também já desanimei/insisti em não lembrar/depois lembrei), candidata a hit e talvez a melhor canção do álbum. Se Universo aborda um mundo particular entre duas pessoas que não precisam ‘fazer tipo’ (o que eu quero/é sua companhia/o restante a noite faz), Volta (quem é de mim não se esconde/nem recusa o meu olhar), e seu quase assobio eletrônico-oriental, fala de um provável regresso. Na sequência, a romântica Ainda – bossinha com canto de pássaros – contrasta com a malemolência de Capuba. Maré encerra o disco com a mesma satisfação que um belo dia se despede nas areias, com os aplausos dos súditos ao astro-rei. Em dias nublados de verão ou ensolarados de inverno, definitivamente SILVA é som de todas as estações. É amor que sobe a serra.

 

 

Larissa Mendes gosta mesmo é de sombra e água fresca.

 

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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Susana Szwarc

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

Uno de otro

 

He visto a la naturaleza complicarse
entre mis piernas,
a la lluvia entrar por mis agujeros e irse
ajena
hacia mares que visitarán los sueños.
De esa agua espesa como lágrima de totem
desparramé algo en mi boca
para que su palabra
“esplendor”
hiciera luz sobre otra.

Hija de mí
había sido la otra y entonces, por más nueva,
más hermosa que retoños florecientes —para mí—
tan amada como el Libro
se fue.
¿Un resguardo para él esa insistencia del don:
su propia letra en la espesura?

He visto a la naturaleza complicarse
entre las ruinas y la propia rabia de perra
entró en mi sueño.

En la fiesta del exilio
—mucho después de la ciudad bombardeada—,
se amparan el lirio, el ojo,
la trama.

 

 

***

 

 

Bárbara

 

Ese cuerpo excesivo
aún después del strip-tease
es tan leve como el mejor
afiche ante mis ojos.
La estética del poster
me hace sonreír
y mecerme en la silla de mi casa
(al compás del ritmo ajeno).
¡Ah! es exactamente igual
que ofrezca Bárbara su carne
-de verdad, de mentira-
para mí.
Su nombre acerca a mi memoria
el poema de Prevert
aunque ella insista: “mirá, también me llamo Sonia
y no hay en mis manos ni crimen ni castigo”.

Pero ninguno de estos recuerdos
sirve esta noche,
ella está allí, quitándose siempre
su ropa dorada, justamente para llevarnos al olvido
y su cuerpo es un mapa perfecto,
un territorio para abrazar,
arrojar monedas,
atrasar relojes.

De pronto ya no sé qué sucede.
No hay ruido de pulseras en la habitación de al lado
y la música que sale de la radio,
la música que despierta a los vecinos,
me afecta el sentido del gusto, la clarividencia.

Un hombre, otro hombre,
abraza a Bárbara.
Bárbara tristeza la del hombre
que la abraza y no apaga así
sus lágrimas de carne.
Pero el llanto es de los dos
y valen nuestras monedas.

 

 

***

 

 

Desvelos

 

Debería estirar la mano y retirar el ojo.
Hablar del cansancio.
Dejar la estación de trenes.
Alzar el velo y llorar.

No reír en el centro del llanto
si tirada en el mar se dejara
en cualquier orilla.

Pintarse la cara con tiza.
Abrir la sombrilla de terciopelo.
Desteñir el vestido.
Desplumar las almohadas: no mirarlas
caer infatigables
desde el vidrio.

 

 

***

 

 

Mas lejos

 

¿Nos bastarán los ojos? ¿Sí?,
¿para decir: hacia dónde (dónde)
va la historia?
Una ventana, sí, un ojo, sí,
para mi pura protesta o tu demanda:
querer más
y el espacio ampliado del libro
la fruta en las bocas.

¿Recordás?, diremos: juntas
hemos visto -y eso es seguro-,
moverse las piernas
de las paralíticas
del malecón.
Milagro de una revolución, dije.
País donde hasta el mudo ( )
mientras me acusan: chiste
histórico, dije.
Y hablaba de otra grandeza.

(Sin embargo, el agua está quieta
y mis muertos miran tu pregunta preferida)

Hacia la piedad mis ojos,
allí donde injusticias
ya no abundaran,
ellos, pobrecitos, daltónicos,
no dejan de avisar.

 

 

***

 

 

Entonces

 

Soltamos las hebillas (del cabello),
de a una
nos soltamos y llega,
ultraleve, desde distintos lugares,
una música que cada vez que se despliega,
abarca el punto de partida.

(El miedo cambiado por otra obsesión.)

-Pájaros en la cabeza- habremos de oír,
habremos de reír, aún después de los Campos,
aún después del Matadero.
En la casa de citas.

(¿Cuántos años hacen falta
para hacer romántico un crimen?)

Un vestido rojo vuela por el aire.

Bárbaras somos
en este anonimato del murmullo.

Porque nos reconocemos, bailamos.
Entonces se olvida el frío.

 

 

Susana Szwarc nasceu em Quitilipi (provincia del Chaco), Argentina. Dedica-se tanto à poesia quanto à prosa e, dentre outros livros, publicou: “El artista del sueño y otros cuentos”; “En lo separado”; “Trenzas”;  “Bailen las estepas”; “Bárbara dice”; “El azar cruje”; “Una felicidad liviana”. Poemas e contos seus têm sido traduzidos em idiomas como o francês, inglês, alemão, catalão, romeno e mandarim.

 

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Nelson Alexandre

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

Paciência ou das efemérides aos desejos não realizados

 

Leva-se tempo. Para tudo. Sim, mas nem sempre estamos pacientes para compreender isso. Para apurar isso como um ourives diante de uma peça rara. Paciência é um adjetivo que supostamente todos diagnosticam como um elemento raro, porém de suma importância para nossas miudezas cotidianas. Paciência é algo que, como eu havia dito antes, requer a habilidade cirúrgica do médico comprometido com seu paciente mais terminal. Nas efemérides, ou mais popularmente no nosso memorial do dia a dia, a paciência, inquestionavelmente, vai se imiscuindo no lampejo de um raio cortando uma nuvem roxa e carregada de chuva e trovões explodindo os tímpanos mais desavisados. Mas raivas à parte, tudo deve ser deitado, repousado nos braços elegantes dessa senhora de idade inquestionável que resolvi chamar de paciência. Eu mesmo nunca a dominei, e, desesperadamente, de alguns meses para cá, muito me reivindica essa bela senhora que jamais me responde quando grito. Quando espero uma advertência por ser tão insistente em testar sua incomensurável leveza com o meu revés de seu silêncio plácido. Às vezes, imagino que a paciência é como Arvo Pärt… Como um lago escondido em algum lugar do Canadá inglês, e por que não do francês? Em sua leitura profunda, nas águas mais inóspitas, está lá a dama agarrada em algum galho olhando até quando seus pulmões aguentam. Até quando seus olhos poderão ficar arregalados como um baiacu pronto para explodir como uma granada viva e cheia de escamas letais ao entrarem em contato com a pele, os músculos e membros alheios. Eu nunca saberia morrer com a paciência do peixe pescado e mantido vivo no samburá para depois ser abatido, destrinchado e saboreado com algum vinho branco de nome com som inaudível em português. Quando vou ao supermercado, meu carrinho é constantemente carregado de impaciência: Miojo ao invés de uma boa pasta italiana, molho enlatado ao invés de uns bons e vermelhos tomates bem maduros, uma garrafa de qualquer refrigerante ao invés de laranjas amarelas e radiantes como os raios do sol visto do fundo do lago congelado… A senhora paciência que me perdoe, mas como sou testado para me enquadrar em seu comportamento de céu infinito e iluminado visto do telhado de algum prédio abandonado. Em meu carrinho também entram os sacos de batatas prontas para serem fritas e não as que precisam ser descascadas enquanto servimos mais uma taça de vinho para alguém que ainda não chegou, que provavelmente deve estar em um ônibus cheio, ou quem sabe retornando para casa de táxi lendo algum livro ou achando engraçado algum “dejavi” com o personagem do filme de 1976 de Martin Scorsese. O mundo é um moinho… Mas minha conversão ao estado de espírito dessa senhora desenha-se em pão feito na hora, quente, com manteiga derretendo em seu interior cáustico, vulcânico e até mesmo erótico. Sempre fui erótico e não pornográfico. Não sou um desqualificado, nem maldoso, nem vingativo, mas um sem teto do acalanto dessa senhora que me vê como um autista/anarquista que gosta de fazer compras às terças-feiras chuvosas e melancólicas. É do meu feitio considerar as partes antes do todo, pois de finitude sou um ginasiano que ainda ama platonicamente aquela moça meiga que agora é uma mulher que também empurra carrinhos de compras e sempre fica indecisa na hora de acertar as contas, se ainda falta alguma coisa para completar o grande buraco negro das despensas da alma, mas de uma alma sadia e que preserva ainda algum resquício de boa vontade em descascar as batatas e cozinhá-las para fazer um purê com molho de amor… Pois essa cozinha está completamente desprovida dos temperos do amor e da paciência. Como o mundo que Cartola, se estivesse vivo, ainda haveria de chorar com seu violão em notas aquosas e cheias de cebolinha e cheiro verde. Odeio truco, e jamais tive paciência para aprender, observar e muito menos jogar esse jogo oriundo de butecos mal ajambrados e cheios de sujeitos que passam longe do vício que Dostoievski dedicou num livro inteiro e que, óbvio, nada tem a ver com o joguinho brazuca que tanta gente gosta para subir em mesas ou cadeiras e alavancar a voz aos mais detonantes decibéis que sua pobre alma pode suportar. Às vezes, e muitas vezes, já sonhei que era o conde Vlade para decretar o empalamento em praça pública aos amantes dessa inhaca chamada truco… Desejo… Mas… Enfim, prefiro lembrar sim das continuidades existentes do meu amor platônico por essa senhora que me resigna apenas a ler e ver minhas mensagens mandadas de setores nobres do sentimento humano, mesmo que por certos momentos diluvianos eu perca a fé e a esperança de um dia tê-la em meus braços e dizer, sem empolamentos parnasianos, que quero descascar as batatas e servi-la de mais uma taça daquele vinho inaudível se pronunciado em português. Quero te levar ao cinema numa quarta-feira também chuvosa, à tarde, clandestinamente, como amantes que fogem do trampo e dão uma esticadinha ao motel, mas acho motel broxante, prefiro uma casa isolada numa chácara com riacho e com cachoeira no fundo. Dois rios caudalosos, o da cachoeira e do meu bom mocismo induzido pelos seus carinhos de menina abandonada à própria sorte na selva de pedra. Eu também quero lembrar que de tudo um pouco nessa vida precisa do auxílio dessa senhora que acalanta estressados e estressadas para um caminho mais brando, suavizado pelo amor, e, claro, por uma boa comidinha feita na hora, pois amor de barriga vazia é sinônimo de picaretagem em aula de mantras em Nova Délhi. Incursões em partes para chegar-se ao todo, senão a vida idealizada e maravilhosa, que tanto mora em efemérides e desejos, vira: “fuck you!”.

Nelson Alexandre nasceu em Maringá – Paraná. É autor de “Paridos e Rejeitados” (Contos, 2012) e “Poemas para quem não me quer” (Poesia, 2013), ambos publicados pela editora Multifoco – RJ. Em 2005, recebeu menção honrosa no prestigiado Concurso de Contos Newton Sampaio, onde viu seu trabalho ser publicado pela primeira vez em uma coletânea. Teve textos publicados também pelas revistas: Literacia, Outras Palavras, Flores do Mal e Diversos Afins. É graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá.

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Maria Balé

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

A Cerimônia do Chá

 

As cores da tarde quente de princípio da primavera são prenúncio de céu claro e sol generoso para o dia seguinte. A chuva tropical que cai por horas a fio, enfim, dá trégua.

Uma alegria tímida tonaliza sua fisionomia. Ela poderá voltar ao estreito alpendre que circunda o quarto do andar de cima, de onde se vê a quaresmeira roxa coberta por folhas frescas. A prenhez fora de hora dos seus talos intumescidos  é mensageira de esperança. Comovida, ela evoca Baudelaire e abstrai-se num solilóquio em reverência ao bíblico manto de Verônica em que se transformará aquela árvore, não demora. Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais importa. Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Promete a si mesma, ali, naquela hora, um dia, recitar tamanha beleza, em Francês, o sonoro idioma original.

Sua alma, embriagada de poesia, submerge no púrpura imaginário e, etérea, dissipa-se na densa brisa de incertezas. Sua magreza exausta permanece ali, imóvel como uma pilastra grega.

O gemido abissal a traz de volta do transe lenitivo. A sudorese intensa encharca o pijama de listras largas nos variados tons que vão do azul-marinho ao cinza-claro. A dor voltara. Com força.

Ela chama a enfermeira que, doce e decidida, injeta na veia gasta uma dose da morfina diária.

O pavor abandona a face abatida pela doença. No entanto, a despeito do alívio rápido, o semblante é inanimado. O brilho ausente nos olhos do homem enfermo traduz o longo período confinado nos compartimentos internos da íngreme história que se abrevia. O espírito, desalojado, vagueia nu e indefeso, sobre o branco dos lençóis bem lavados.

Assustadoras indagações comprimem seu peito e um terror repentino a domina. Calafrios invadem seu corpo tenso. Haveria tempo para demolir a parede invisível entre eles? Como remover o entulho acumulado durante anos e que impede a visão mútua?

Ela olha para a janela. Percorre a testa com as mãos, tentando domar a angústia que a assola. De um ângulo diferente vê a ponta de um galho da sua árvore apinhado por flores jovens em seus matizes em aquarela. Decide que o evento não é mero acaso. Mais que um capricho botânico, é um signo profético. Respira, toma fôlego e dirige-se à cama reclinada. Segura as mãos distônicas do seu ocupante e espera por alguma reação. Minutos? Horas? Um tempo sem métrica.

Em fragmentos, sente a frágil pressão em seus dedos e, devagar, as mãos trêmulas se agarram às dela. Ela abraça o corpo frágil, consumido pela languidez prolongada e o choro, em ambos, flui livre, caudaloso e limpo. Aos soluços, os dois adormecem. Ele, recostado em três travesseiros finos. Ela, na velha poltrona marrom, exaurida, dorme sentada.

A noite chega lenta e, silenciosa, passa.

A luz da manhã de fim de setembro reflete-se nos olhos translúcidos do homem de aparência suave. Seu olhar tem todas as cores do mundo. O entusiasmo, há muito esquecido, surpreende e dá um susto na rotina. Ela espreguiça-se, estica os braços, alonga as pernas e joga água fria no rosto. Sem pressa, retoma o seu lugar na janela. Mais galhos amanheceram em flor. Réstias luminosas estampam as paredes úmidas da ala norte da antiga Santa Casa de Misericórdia.

Ele parece outro, no frescor do banho da primeira hora.

O delicado aroma de glicerina mistura-se ao cheiro do desjejum na pequena mesa redonda entre o armário e a veneziana entreaberta. Ele senta-se em posição de lótus, num solene arremedo de cerimônia. Toma o chá em goles longos e demorados. Sereno como as águas de um lago plácido, ele sorri feito um menino. E vai embora.

Ela olha o relógio. São horas de embriagardes! Para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.

 

Maria Balé é pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC – SP, produtora de textos publicitários e fotógrafa. É cronista do caderno Cotidiano do jornal eletrônico Algo a Dizer, edição mensal. Integra o elenco dos oito autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada, da MG Editora. Mora em São Paulo, Capital.

 

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rosane Carneiro

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

VATE

 

vocábulo plástico reunido
à seta inflamada pelo alvo

……..visão

vaticínio para a era do homem
………………………vivo
……….livre

verso para ecoar o indizível
costura o tempo ao que foi dito e será vivido

progressão
………metafísica
………………………previsão lírica:

o olho são na palavra aglutina

catapulta ejeção algaravia

inscrição no universo
poética anômala
………………..ritualística

 

 

***

 

 

VITAL

 

Preenchem o ar as jóias de que trato
Dados diáfanos, órficos e ainda assim
perfectíveis
ao meu interesse exato
…..: outras realidades
do ser para o ser sem
amarras

……………..toda criatura eclode para si como
………….um sol, um botão, um parto

no instante da dor ou da palavra
revelação –
quando os ornamentos entornam dos ares
para vivificar o homem com
o uno
………do todo e da parte

 

 

***

 

 

gozo
princípio de cada dia
repartir
para comer os tempos
feitos de fartura e saciedade

na ceia sem nomes

escolhidos são os que
não escolhem

alimentados são
os que gozam

…….e repartem

 

 

***

 

 

A leitura dos tempos
extrapola pelos ares
montaria visão da mente
escandida pelos ventos
avanço por entre começos
sinais do amanhã
na bainha de cada momento
Cheiros dos ontens instantes
desdobrados na atmosfera terçã
do que vivemos

Engendrar a leitura dos tempos

Do centro de cada sentido
….partir

 

 

***

 

 

Dama de espadas na fronte
Não é plausível olhar – examinar apenas
Técnica e tecnologicamente
o amor é para ases
………………velozes

a dama de espadas vive congelada
sobre os saltos altos da racionalidade
naipe de valetes a seu dispor
maquinariamente sexy
….e só

emociona-se no entanto quando
…………………….chamada rainha

─ sua meta é o rei
…………….do xadrez

 

 

***

 

 

Olhar para o nada é
segura opção.
Desviar do chão, acometer castelos
contar nuvens e morrer de amor
pelo que não veio.

derivar, naufragar do concreto

Adentrar a normalidade
própria – tipo de eleição.
Estar no não lugar
ser o não o vazio o incerto.

esquecer

 

 

Rosane Carneiro, carioca, é autora de Excesso (edição da autora, 1999), Prova (Ibis Libris, 2004), Corpo estranho (Editora da Palavra, 2009) e Vate (Selo Orpheu). Editora e redatora com formação pela Uerj, mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, atualmente doutoranda e pesquisadora do King’s College London, pela Capes. Participante de antologias e publicações impressas e virtuais diversas.

 

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão


No hiato que perpassa silêncio e criação, um vasto acervo de percursos da memória vivente constrói seu íntimo habitat. O estágio silente é o preceptor de ímpetos criativos que tanto edificam imagens quanto palavras. E o tempo que maquina os pensamentos enclausurados na inquieta mente de um autor sabe de lapsos e intervalos ansiosos de virem ao mundo. A gestação de um trabalho textual, por exemplo, abriga sua conturbada miríade de abstrações de toda ordem. O que dizer também da perspicácia necessária a quem deve reproduzir com agudeza de espírito instantânea aquilo que a existência lhe oferta?

Assim, fazer coabitarem, num mesmo ambiente de percepções, letras e imagens parece ser missão das mais intricadas. Tudo ganha especial dimensão quando o elo que une aquelas duas partes consolida seus movimentos na via da poesia. Munido dessa convergência que se faz tão marcante, o escritor e fotógrafo Ozias Filho empreende sua rota de vida, mostrando-se um ser comprometido com um repensar de cenários. Para Ozias, dedicar-se à literatura e à fotografia demanda uma busca essencial, qual seja a de empunhar como bandeira maior um olhar poético sobre tudo que o cerca. Nessas suas duas frentes de atuação, o criador se depara com a idealização de sua própria Pasárgada, lugar em que a perspectiva do humano é elevada a um grau máximo de apreciação. Trata-se de um território onde se almeja uma catarse capaz de forjar uma compreensão ampla a respeito de certos fenômenos do mundo em que habitamos.

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e, num período complicado da trajetória política e econômica do Brasil, teve em Portugal a oportunidade de um recomeço. Dentre outras obras, publicou Poemas do Dilúvio (poemas – Ed. Alma Azul), Páginas Despidas (poemas – Ed. Pasárgada), O relógio avariado de Deus (poemas – Ed. Pasárgada) e Ar de Arestas (poemas e fotografia – Ed. Pasárgada), este último em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas. Como editor, fundou as Edições Pasárgada e, mais recentemente, a Aldeiabook Edições de Autor. No diálogo que agora segue, Ozias fala sobre como sua trajetória foi especialmente marcada pela literatura e fotografia, revelando aspectos sensíveis de seu percurso pelos ambientes da arte, tudo sedimentado por um desejo poético irrefreável.

Ozias Filho / Foto: Leonor Rego

DA – Há em seu trabalho com a fotografia uma sensação de desterritorialização muito forte. Ali, a noção de pertencimento aparece com uma considerável amplitude e sinaliza espaços de construção notadamente subjetivos. Diria que seu olhar concebe o mundo como um organismo amalgamado e sem fronteiras visíveis?

OZIAS FILHO – De fato, o meu trabalho não tem fronteiras visíveis, mas existe a questão do território, por mais indefinido que seja ele, pois eu faço parte dele, do local em que me insiro e que escolho como objeto da minha fotografia, da minha arte. E neste meu lugar eu incluo o outro, o observador, não um observador que precise definir o território daquela imagem, mas sim aquele que queira construir o seu próprio território, o seu não-lugar poético, talvez a sua Pasárgada onde ele pode tudo, onde ele É. Esta quasinvisibilidade, onde as fronteiras não estão definidas, está por todo o lado à espera que lhe prestemos a atenção devida. Contudo, para que isto aconteça, torna-se necessário que reaprendamos a ver.  Melhor: que seja hábito daquele que observa desconstruir cenários.

DA – O termo Pasárgada ocupa um lugar de destaque em seu trabalho. Em meio ao bombardeio imagético ao qual estamos submetidos hoje, acredita que esse lugar idealizado sugere uma via de transcendência necessária?

OZIAS FILHO – Não é só necessário este lugar. Pasárgada, ou outro local mítico que queiramos eleger, é vital para a nossa sanidade intelectual. Talvez seja um exagero o que acabei de dizer, mas eu comparo este meu lugar imagético em Pasárgada, através de todo o trabalho desenvolvido nos últimos anos, com o espaço etéreo da minha Pasárgada poética. Eu preciso deste espaço de catarse, este lugar de transcendência que tu sugeres e tenho a certeza que outros também necessitam do mesmo! Não é apenas um refúgio do bombardeio de imagens que nos povoam os dias, mas também uma forma de perceber o processo de significados destas mesmas imagens.

DA – A série “Quasinvísivel” percorre de modo sutil as paisagens urbanas, captando elementos despercebidos pelo olhar imediato de quem habita as cidades. De que modo você reflete sobre a constatação desses, digamos assim, lugares de ausência?

OZIAS FILHO – Reflito pedindo armas emprestadas à poesia, ao lírico, ao velado. Estou nestes instantes como se defronte de um texto complexo me encontrasse. Mas apenas os lugares são de “ausência” do ser humano físico, real, como o conhecemos. Contudo, esta ausência é metafórica, pois ele se encontra lá representado. A minha reflexão, enquanto artista, quando busco esta quasinvisibilidade, tem a ver com um certo olhar leviano que todos temos… acordamos todos os dias, abrimos os olhos e…. está tudo à nossa frente, tão fácil, tão disponível, tão sem esforço que é abrir os olhos e olhar o que nos cerca. Mas será que de fato compreendemos o que os nossos olhos nos dizem? Olhamos, é vero, mas vemos com precisão, conseguimos desconstruir este mundo do imagético fácil? Ou de tão habituados que estamos ao massacre das imagens diárias, assumimos um papel de autômatos, com a visão preguiçosa.  Quem não exercita a sua visão consegue ver o seu semelhante, o outro, para além da superfície? Consegue ver a si mesmo para além do espelho?

DA – No seu caso, essa questão da alteridade, do olhar sobre o outro, encerra também um caráter antropológico de observação?

OZIAS FILHO – É apenas um olhar de poeta, com todas as dúvidas e contradições que esta forma de ver traduz.

DA – Em um determinado momento de sua trajetória, você deixa o Brasil e elege Portugal como nova morada. Como se deu essa transição e de que forma ela influenciou suas perspectivas de criação tanto fotográficas como literárias?

OZIAS FILHO – Desde o início da adolescência, sempre tive um fascínio muito grande pela imagem. Quando consegui o meu primeiro emprego, aos 16 anos, numa empresa de relógios, o sonho ganha uma dimensão mais definida. Com o passar do tempo e algum dinheiro, finalmente veio a primeira máquina fotográfica. E com a primeira ferramenta o primeiro erro. Como até então o meu sonho com a fotografia espelhava-se nas imagens que os outros tiravam, não tinha me dado conta que para chegar àquela imagem não bastava só ver o cenário que me cercava, mas também uma técnica à altura, que me permitisse concretizar determinada visão. Daí, eu não ter a mínima ideia que não se podia tirar o rolo da máquina com a tampa detrás aberta. Conclusão: de um rolo de 36 imagens só sobrou uma em condições de ser utilizada. Passados alguns anos, muitos erros mais tarde (mas também acertos), cursos de fotografia, faculdade de Jornalismo, aparece outro objetivo: seguir a carreira de fotojornalista. Mas o sonho fica na gaveta e o que surge é o texto como uma outra paixão. Sem, no entanto, perder o contato com a fotografia, e junto com três outros colegas, dirigi um cineclube na faculdade. Após um período de indefinição profissional, sigo para Portugal (graças à politica recessiva do Collor de Melo) à procura do tão desejado Eldorado. O Brasil, nesta época, vestia-se de pesadelo. Na cidade do Porto, a escrita e a fotografia continuaram a ser as minhas armas diletas e através delas consegui os meus primeiros trabalhos nos jornais portugueses. Publico em jornais, revistas e até mesmo em folhetos publicitários. Em 2005, crio as Edições Pasárgada, publicando poetas portugueses e brasileiros (onde também me incluo). Neste selo editorial, tive a oportunidade de ter algumas das minhas imagens mais emblemáticas nas capas de alguns livros. Seguiram-se outros livros, revistas de arte (algumas publicadas na Alemanha, EUA, Brasil e Portugal, para além de outros países de expressão e língua portuguesas). O prêmio por estes anos todos se traduziu em 2013 com as fotografias do livro Ar de Arestas, com poema de Iacyr Anderson Freitas e a primeira exposição no Museu de Arte Moderna de Juiz de Fora, ou seja, o regresso ao Brasil pela mão da fotografia/poesia. Portanto, a fotografia e a escrita que hoje desenvolvo são frutos do caminho percorrido. Não existe um Ozias Filho do Brasil ou de Portugal na minha criação, mas sim este ser híbrido de duas pátrias e as respectivas influências. Contudo, para mim, a grande mudança no rumo do que fotografo hoje (antes uma fotografia mais generalista e hoje mais conceitual) está intimamente ligada à poesia, mas é uma relação dialética, pois quer a poesia influencia a poesia, como esta tem o seu peso de silêncios nas minhas imagens.

Ozias Filho / Foto: Arquivo pessoal

DA – Em “O Relógio Avariado de Deus”, você se aproxima muito das questões sociais do Brasil, sobretudo no que se refere à violência urbana, sem se portar como um mero observador dos fatos. Há alguma espécie de chamado embutido nesse percurso que se consolida fortemente existencial?

OZIAS FILHO – Há um chamamento da terra, mais do que tudo. Esta terra bonita por natureza, mas que é tingida de sangue por anos e anos de descaso do poder público com as populações. Um poder que foi, em certa medida, conivente com o crime organizado, já que ao longo do seu percurso, sobretudo democrático, não cuidou dos aspectos básicos, tais como a saúde, a educação, a melhoria continuada da vida das pessoas. O Rio de Janeiro, minha terra de nascimento, e onde me inspirei para escrever o meu “Relógio”, é talvez o maior reflexo deste descuido do poder, a sua maior vitrine para o mundo. Não quero dizer que o que se passa no Rio não aconteça em outras partes do globo. A voz que empresto ao livro em causa pode e deve ter leituras mais abrangentes neste mundo que todos os dias é regido pelo Senhor Dinheiro. Contudo, neste relógio – constantemente avariado – há outros tipos de violência menos visíveis. Por exemplo, aquela violência de crescer, de se libertar e de trocar de pele, de enfrentar dia após dia os nossos pequenos fantasmas ou pequenos carrascos.

DA – Em se tratando de Brasil, podemos também falar numa memória afetiva a permear seus versos?

OZIAS FILHO – Os meus versos estão contaminados por variada memória afetiva. Mas ela não se encontra apenas no Brasil (talvez no livro O relógio avariado de Deus estas memórias estejam mais à flor da pele), mas também estão por muitos cantos desta memória coletiva de imigrante que ora tem pátria, ora tem mais de uma pátria e, também, por vezes, não tem pátria nenhuma, ou seja, memória afetiva de lugar nenhum ou lugar indefinido, talvez Pasárgada.

DA – A forma como você engendra a poesia é algo que chama a atenção de quem se aprofunda em seus versos. No livro “Páginas Despidas”, por exemplo, há um poema, intitulado verdade submersa, cuja imagem maior deriva das múltiplas apreensões do verbo, principalmente das esferas percorridas em torno da abstração. No seu caso, a gênese da palavra vem orientada por um sentido total de libertação?

OZIAS FILHOSó a palavra quebra o silêncio, uma das epígrafes deste livro, traduz em parte esta minha relação entre palavra e silêncio. Contudo, não é uma relação de iguais, mas sim de dependência, na qual a palavra sempre sai desfavorecida, já que só consegue o estatuto de igualdade quando encontra no silêncio do outro, de quem lê, a sua cara-metade. Acredito que cabe ao leitor o papel de traduzir (com as suas leituras e os seus silêncios) o que a palavra não conseguiu cumprir, na sua totalidade, nas mãos do escritor. Há uma defasagem entre este enorme mar chamado silêncio (que não é pacífico) e aquilo que conseguimos produzir com a palavra libertada. Portanto, para mim, esta libertação total não existe e – utilizando uma reflexão do escritor Eduardo Galeano acerca da palavra UTOPIA – é como o horizonte; pois o conseguimos nomeá-lo porque o vemos, sabemos que ele não existe para além da visão, mas mesmo assim continuamos a caminhar na sua direção.

DA – Como poeta, você se considera um transgressor?

OZIAS FILHO – Penso que ser poeta é exercitar o ato da tolerância. Contudo, nos dias que correm, vê-se esta apenas na retórica… e talvez no passado ainda tenha sido pior neste capítulo. Se ser tolerante (e eu busco isso como cidadão) é uma transgressão, então sou um transgressor. Agora, se pergunta se a minha transgressão reside na construção da minha poesia, o que posso lhe dizer é que não sei. Não sei o que é isso. Esta é uma leitura que cabe aos leitores, aos críticos, uma observação externa.

DA – Muito se fala sobre a questão da leitura no Brasil, evocando-se a máxima de que somos um país de escassos leitores. Em Portugal, você leva a cabo outra feição sua, que é a de editor. Qual reflexão você faz do comportamento do leitor português e o que, na sua percepção, caracteriza marcantemente o mercado editorial lusitano?

OZIAS FILHO – Penso que o comportamento dos leitores cada vez mais é uniformizado e parecido, aqui em Portugal e no resto do mundo. Boa parte dos leitores procura aquilo que mais se vende: os livros de alta rotatividade nos escaparates das estantes e que na maioria das vezes são lixo com capas apelativas visualmente. Na parte que mais me toca, a Poesia e as Ciências Sociais, o espaço nas livrarias é cada dia menor. A minha esperança reside na Internet/Redes Sociais, como forma de divulgar os livros dos novos autores que, definitivamente, têm que matar um leão por dia. Primeiro, para chegar e convencer as editoras do seu talento; segundo, para que depois os seus livros consigam entrar no circuito das livrarias e lá permanecerem com a constância suficiente para que tenham visibilidade perante o público.  Acredito que a Internet, através das redes sociais, blogues, páginas de literatura e tudo isso conjugado por contaminação em escala, acabará por permitir que cada vez mais autores saiam do limbo do desconhecimento e que criem o seu próprio público. Confio também nos projetos alternativos, como aqueles que desenvolvo nas Edições Pasárgada (edições numeradas, assinadas pelo autor, primeiras e únicas edições, mas com um preço agradável aos leitores). E esta filosofia de voltarmo-nos para o meio virtual a cada dia ganha mais consistência, pois podemos dar visibilidade aos nossos livros (com algumas vendas), alcançando novos leitores, por um lado, e fugindo ao circuito habitual do comércio de livros. Utilizar a virtualidade como suporte à função editorial. Contudo, sempre que pudermos estar presente nas livrarias, assim o faremos, pois o contato com o livro físico tem também os seus apelos.

DA – O resultado do seu caminhar tanto com a literatura quanto com a fotografia lhe permite concluir que você encontrou respostas para alguns cruciais questionamentos?

OZIAS FILHO – A resposta (se é que existe de fato) é o próprio caminho, mediante as perguntas que fazemos no seu percurso. Para quem cria (assim vejo) não existem certezas em coisa nenhuma, pois a pretensa resolução de um “problema” hoje se desfaz na espuma do próximo questionamento. É sempre um recomeçar ad infinitum ou, para usar um pensamento atribuído a Sócrates, sobejamente conhecido, só sei que nada sei …. não obstante… À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo (Álvaro de Campos). O que sei, e posso afirmá-lo com propriedade, é que tanto a poesia, como a fotografia ou a arte, num sentido lato sensu, fazem-me sentir um ser humano melhor, mais liberto, mais tolerante, mais consciente da existência do outro.

DA – No eixo que vai do homem ao artista e vice-versa, o que Ozias Filho espera de Ozias Filho?

OZIAS FILHO – O que espero de mim próprio é nunca deixar de questionar o que me cerca e, apesar das minhas pequenas certezas, ter a capacidade de mudar o curso do rio em que me navego.

 

 

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Seh M. Pereira

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

APROPRIAÇÃO

 

De coração em coração..

Canela fina.
Joelho vesgo.

E os pés inquilinos desapropriados dos sapatos..
Não por ordem de despejo.
Sinal de respeito..

Peço licença e
adentro em corações..

 

 

***

 

 

PASÁRGADA

 

Asa quebrada na minha frente,
passo

por cima..!
sem medo

de bico..
voo

sem pedir esmola..!

Ame
ou apedreje-me..
Sou passarinho

que come pedra..!

Voar

pra não chegar..?
Esquece..!

Só quero minha rota de fuga livre..

 

 

***

 

 

DISPARATE

 

Minhas borboletas no estômago..

Simplesmente,
resolveram se rebelar..!
E sem exigências;

como negociar com esse nosso amor doido..?

 

 

***

 

 

(DES)CAMINHO

 

Perdi minha
certidão
de idade

agora conto
os anos

na gastura dos sapatos!

 

 

***

 

 

RATOEIRA

 

Nosso
Amor

é do tamanho
de um elefante..!

Nosso

amor é
parelho – no sentido
figurado..
Marca

atalhos
inesperados..

Tem medo de ratificação..!

Nosso
amor

é uma pata de elefante,

que
por onde passa
fode tudo..

Mas
todas as formas
de amor

me interessam;
todas..

O amor
é uma ratoeira que tem medo..

 

 

Seh M. Pereira, poeta nascido no ano de 1981, em São Paulo, Capital, publica cotidianamente sua poesia na internet. Participou da Antologia Sarau O que dizem os umbigos?!!  e divulga seu trabalho nos diversos movimentos de saraus da cidade de São Paulo. E-mail: sehmartins.shm@gmail.com.