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88ª Leva - 02/2014 Galeria

Foto: Ozias Filho

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87ª Leva - 01/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Vera Lluch

A primeira Leva de 2014 assinala a reunião de novos personagens ao redor da mesa que partilha os feitos culturais. Como não poderia deixar de ser, a busca por outros atores que movem o surpreendente mundo das palavras e imagens é tarefa das mais complexas, porém jamais algo desanimadora. À medida que nos aproximamos de artistas e autores das mais variadas orientações, percebemos que as possibilidades de diálogos formam um rico painel de renovação. Nesse intervalo, pensamos caminhos, tentando promover um frequente exercício de escutas. Todo esse trajeto remonta a mergulhos necessários no microuniverso contido em cada voz que tenciona estar conosco desfrutando dos anseios comuns da arte. Sem as diferenças trazidas pelas peculiaridades de cada um, não seria possível vislumbrar um painel de diversidade pretendido desde sempre pela revista. É justamente através dos traços da individualidade que cada autor encontra morada no meio de nós. Sendo assim, é impensável tencionarmos qualquer espécie de avaliação preliminar das expressões que dê força a aspectos meramente objetivos. Pelo contrário, interessa-nos perceber o quão estimuladoras e sensíveis podem ser as criações, sobretudo que tipo de aproximação efetiva elas podem gerar junto aos leitores. Arte e palavra precisam muito mais do que uma couraça hermética e superficial a lhes adornar a face. Necessitam de alma, de algo que faça parte de um universo notadamente amplo de apreensões. Daí não ser nada fácil tentar definir o comportamento imprevisível da subjetividade.  Autores como Carina Castro, Ana Elisa Ribeiro, Danilo Gusmão, Fernanda Pacheco, Caio Carmacho e Beatriz Bajo, que por aqui desfilam agora seus versos, são a prova viva dessa jornada rumo a outras paragens literárias possíveis. Em meio a estes e outros verbos dispersos nesta edição, as ilustrações de Vera Lluch inundam com sua vastidão de cenários os espaços habitáveis pela sensibilidade. No terreno dos contos, Mariel Reis, Jorge Mendes e Larissa Mendes nos apresentam suas visões particulares de mundo. Numa entrevista, a cantora Selmma Carvalho fala sobre o seu novo disco e de como o tempo tem sido seu aliado na evolução da carreira. O escritor Sérgio Tavares apresenta suas impressões sobre “A condição indestrutível de ter sido”, primeiro romance de Helena Terra. O mais novo disco da banda carioca Tono roda em nosso Gramofone. Em mais uma de suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes percorre as vias da produção “Her”. O ano que se inicia reafirma os impulsos editoriais da Diversos Afins, cuja missão maior é a de promover encontros. Que você, caro leitor, possa trilhar conosco mais uma caminhada pelos ventos da arte e da literatura. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Danilo Gusmão

 

Ilustração: Vera Lluch

 

sol

 

– não sei vocês,
porque cada um tem seu destino,
mas eu que sou pobre e sou fraco
não consegui viver em são-paulo
Antônio Estrela
(contador de vida e morador de Ribeirão de Areia)

 

num dia quente
desse inverno

sobrevivendo
sem descanso
na cidade
à revelia

dou graças
(coagido)
à sombra
que os prédios
………..simulam
impunes

…………….e dela
…………………..me desvio
(de olhos semiabertos)

 

 

***

 

 

cavalo solto

 

a passear o peito de quem ama
Carlos Drummond de Andrade

 

meus poemas, os dos outros,
especialmente os de
amor que lhe dedico
nunca servirão de nada
não provocarão um suspiro
só que seja

e você nem vai lembrar
do que eles dizem

porque
por mais
….que eu creia
assim,
………deste modo tão secreto,
….que um poema
……………possa
………..carregar amor

o amor, esse asceta
……………………….,
..não se locomove
 …………….por essas
…………e nem
 ……………..pelas
………………………..mais frias
…………e férreas
 …………………..maquinarias humanas

 

 

***

 

 

mandíbula

 

vou me sentar aqui
nesses cacos de vidro
nesse tapete de lanças

e esperar que a
pele endureça
que a carne
envelheça

a tal ponto que
nada penetre
que a língua
amorteça

e sua tinta
– a de minha
única caneta –
jorre
na atmosfera

esquivando-se
dos significados
dos nomes
dos quais padeça

e comunique

até que cometa
o crime negro
de adentrar
esses pulmões à volta
veia a veia

gerando insuficiência
(respiratória, cardíaca, horária)
………………………….temporária
e necessidade
de se sentar
aqui ao lado
para descansar
em silêncio

até que não haja desejo
que os verbetes
…………se esfacelem
que as verdades
…….se confessem
que as ideias
………….. se enraízem

e todas as coisas,
…………..sem saída,
….tenham que renascer

 

 

Autor do livro Contíguo, Danilo Gusmão nasceu em Limeira-SP, em 1990. Vive em São Paulo desde 2009 e cursa Letras na USP. Seus textos estão no blog Poemismo, o qual mantém ativo como principal via de publicação autoral até os dias atuais. É um dos integrantes e idealizadores do coletivo A Mandíbula, com o qual disponibiliza seus textos e os de outros autores em revista, blog e intervenções urbanas.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Larissa Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

BIOTÉRIOS DOMINGOS

 

O poeta é um cientista com preguiça.
(Michel Consolação)

O lar-laboratório, casulo e consolo. Morada biotéria.

O [tubo de] ensaio de um amor líquido-gasoso. De solidez, apenas nossa efêmera química. Sentimentos sublimados, condensados, vaporizados. Jamais pistilo e pipeta, cadinho e pompete. Instrumentos descabidos, codinomes impronunciáveis.

Eu, a ruiva-alva, de polipropileno coração, cobaia de uma experiência virtualmente planejada.

Ele, uma espécie de professor Pardal. O cientista maluco, de peito-autoclave.

Ironicamente a televisão aberta e suspensa da antessala anunciava uma matéria qualquer de um Domingo Espetacular. E de fato foram noites agradáveis do mais enfadonho dos dias da semana. Lembro de uma em particular, onde a chuva batia na janela e o vento dedilhava a persiana. Barulhinho bom.

– Preciso de uma bebida para relaxar. – Disse eu, ainda confusa.

– Se eu soubesse tinha trazido. Só tenho água para te oferecer.

Sua voz é marcante como brasa em pele. Tem um quê de rouquidão que se assemelha a um constante resmungo. Gosto de suas gírias desencontradas, que colocam na mesma frase, lado a lado, várias gerações. Os olhos são de um magnetismo que ocultam até mesmo sua cor. O bater de asas dos cílios longos e negros emana a liberdade de um pássaro selvagem. O cabelo e a barba escura contrastam com a lucidez de seus gestos. Corpo quente [e rijo como sua mente], personalidade polar. Mãos pequenas, ego inflado como um colchão de ar.

Não caberia [ou não saberia] classificar o que se sucedeu nas duas horas seguintes. Era um misto de paz e urgência, desejo e pânico, riso e lástima. Uma intimidade, ainda que artificial, pré-fabricada em minutos. Não lembro de ter me sentido tão à vontade com alguém tão distante. Mesmo opostos [ele médico, eu monstro; ele criador, eu criatura], uma empatia de angústias e pesares.

Não saberia [ou não caberia] explicar o que se sucedeu nas duas semanas seguintes. Tudo foi tomado pelo silêncio. Uma cidade vazia como nossos copos, nossos corpos.

Não mais bom dia.

– O que você vai fazer hoje?

– Nada. E você?

– Nada também.

– Vamos fazer nada juntos?

São diálogos bloqueados, desfeitos, deletados. Afetos liquefeitos. Experimentos previamente testados e engavetados. Arquivados nos labirintos da memória que insistimos em perder.

Às vezes pareço um rato correndo em círculos numa esteira invisível. Um animal de teste engaiolado. Manipulado e reprovado. Não mais monitorado. Pronto para ser substituído. Morto numa câmera de dióxido de carbono ou ingerindo uma carga enorme de anestésicos. Aliás, é assim que me sinto: entorpecida. Um ser apático, desprovido de razões e pretextos. Sequelada e incapaz de novas experiências. Incinerada junto ao lixo hospitalar.

Amores voláteis não resistem às segundas-feiras. Não merecem segunda chance.

No criatório das palavras, Larissa Mendes é mais uma cobaia da inspiração.