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87ª Leva - 01/2014 Galeria

Ilustração: Vera Lluch

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86ª Leva - 12/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Bruno Kepper

 

Na transição de um ano para outro, é inevitável a feitura de algumas reflexões. No caso da Diversos Afins, não poderia ser diferente, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que caminham por aqui traçando as linhas de suas mais difusas expressões artísticas. De novos a experientes, não foram poucos os autores que compartilharam conosco suas visões de mundo. Seja na construção de palavras, seja na composição e concepção de imagens, vislumbrou-se muito além do que um mero exercício do ato de criar. O que cada um traz em si é a tal perspectiva de despertar em nós lugares adormecidos ou ofuscados pela névoa dos dias. E é tão significativo quando um criador nos surpreende com viagens a espaços inimagináveis e nunca dantes habitados. Por vezes, a racionalidade excessiva ofusca-nos a possibilidade de darmos força aos rumos mais promissores da subjetividade, afastando-nos do mergulho no lago íntimo das coisas que são deveras especiais. Nesse sentido, a arte e a literatura são capazes de nos resgatar do marasmo encerrado na rotina aborrecida do mundo, promovendo encontros e engendrando vias diferenciadas de percepção. Com o findar de 2013, um ciclo importante de publicações se completa e a busca por outros caminhos se torna verdadeiro desafio. A edição atual corrobora com tal sentimento ao procurar mesclar um conjunto de vozes expressivas da seara cultural. Em toda a sua extensão, a 86ª Leva aparece entrecortada pelas imagens do fotógrafo Bruno Kepper, jovem artista que nos apresenta seu traço de leveza ante os densos contornos propostos pela vida. Saberemos também um pouco sobre histórias que nos atravessam ao pisarmos o solo dos contos de Anderson Fonseca, Yara Camillo e Pedro Costa Reis. As paisagens poéticas de Leonardo Mathias, Lou Vilela, Inês Monguilhott, Nydia Bonetti e Marília Miranda Lopes evocam odisseias intimistas. O escritor Marcos Pasche traz à tona algumas observações sobre as Novas Cartas Chilenas de José Paulo Paes. Rogério Coutinho celebra escutas em torno do primeiro disco de , Rodrix e Guarabyra. O olhar inquietante do fotógrafo Silvio Crisóstomo é tema de uma virtuosa entrevista. Larissa Mendes aposta suas fichas em “A Grande Beleza”, novo filme do diretor Paolo Sorrentino. O poeta Jorge Elias Neto reflete sobre alguns lampejos da pós-modernidade. Tomados pelo sentimento de continuidade dos percursos, compartilhamos com você, querido leitor, essa celebração de vida. Que em 2014 outras tantas alamedas se configurem sólidas. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Inês Monguilhott

 

Foto: Bruno Kepper

 

Pedra

 

Na terra
como n’água,
tudo que em mim vibra
quer erguer onde afundo,
fosso,
líquidas muralhas.
Concêntricos,
inúteis labirintos.

 

 

***

 

 

Pomar

ao meu filho

 

À distância de um braço,
sumarento,
o  mundo se oferece
fruta.

Convém não esquecer:
se vai polpa,
vão casca e caroço.

 

 

***

 

 

Brechó

 

Escolho vestidos habitados,
decotes bambos,
curvas desbotadas,
barras invariavelmente puídas.

Recolho na concha dos sapatos, a marca,
outra pisada.

Caminho com fantasmas.

 

 

***

 

 

Tarde

 

Hoje me visitam as cigarras
das folhas verdes de antes.
Bocas sujas de terra,
segredam raspantes fios de facas.

Tardam
os dias no tempo esgotado.
E é só isso, é só isso,
é só.

Ferem
os seres mitológicos exultantes
de sussurros e estrondos que traspassam.
Sangue e raízes, dizem desses dias,
são só esses dias, só esses dias,
conformados.

 

 

***

 

 

A outra face

 

Aprenda a dar-se,
inteiro
feito um tapa,
esgotando-se por completo
a cada safra.
Grãos na mão aberta,
bagas aos insetos fermentando.

Os dias,
todos,
todos os dias,
laudas, vésperas,
e completas.

Assim, dá o mundo a outra face,
dando-se
e perdendo-se.

 

(Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

A Grande Beleza (La Grande Bellezza). Itália/França. 2013.

Por Larissa Mendes

 

 

Viajar é útil, exercita a imaginação. O resto é desilusão e fadiga.
A viagem é inteiramente imaginária. Eis a sua força. Vai da vida para a morte.
 Pessoas, animais, cidades, coisas, é tudo inventado.
É um romance, apenas uma história fictícia. Disse Littre, e ele não erra.
Porém, qualquer um pode fazer o mesmo.
Basta fechar os olhos. E está do outro lado da vida.
(Louis-Ferdinand Céline)

 

O prólogo do pensador Céline, em Viagem ao Fim da Noite, antecipa que as mais de duas horas do novo filme de Paolo Sorrentino são dotadas de verdades e ilusões desse ‘blábláblá’ que é o ínterim que separa vida e morte. Seja qual for seu conceito de beleza, em algum momento, ele estará em cena: uma paisagem, uma escultura, uma canção, um diálogo. Seja qual for sua idade, em algum momento, você sentirá certa nostalgia, um clima de fim de festa, uma saudade de não-sei-quê. Exótico e ímpar, A Grande Beleza é uma comédia dramática – com elementos do realismo fantástico de Fellini – que celebra os expoentes do cinema italiano dos anos 60 e fotografa como ninguém a Cidade Eterna. Com uma trilha sonora que passeia do clássico ao eletrônico, da ópera ao pop, o filme aborda o envelhecer de uma maneira crítica, festiva e moderna.

Jep Gambardella (Toni Servillo) chegou à Roma aos 26 anos com a expectativa de tornar-se “o rei dos mundanos”. E de fato conseguiu. Hoje, já sexagenário, é um escritor e jornalista bem-sucedido, mesmo sem concluir nenhuma outra obra após a publicação de seu best-seller O Aparato Humano, lançado há décadas. Vivendo da reputação de outrora em sua bela cobertura com vista para o Coliseu, sua rotina é um vai-e-vem de festas e jantares da alta sociedade. A boemia, porém, não exime o bon vivant, que acaba de saber da morte de seu grande amor de juventude, de refletir — sempre em conversas sagazes e existencialistas com os estereotipados amigos intelectuais, especialmente com sua editora anã Dadina (Giovanna Vignola) — sobre o tempo, a vida, a morte, o amor, a religião (destaque para a etiqueta de um funeral e a sequência da “santa” Irmã Maria, interpretada por Giusi Merli) e, é claro, a beleza. Afinal, o elegante escritor é “um homem destinado à sensibilidade”.

 

Jep Gambardella (Toni Servillo) em seu aniversário de 65 anos / Foto: Divulgação

 

O roteiro, assinado por Paolo Sorrentino e Umberto Cantarello, tece uma infinidade de críticas à superficial e decadente sociedade contemporânea, seja na representação dos “nobres de aluguel” — condes falidos contratados mediante cachê para aparições em reuniões sociais, na sessão de botox coletivo ou mesmo na necessidade de registro de tudo que é visto/vivido, a exemplo do turista japonês da primeira cena ou da mulher que acaba de fazer amor com Jep e ainda assim quer mostrar a ele suas fotos nua. Ao mesmo tempo em que ironicamente adula, A Grande Beleza aponta cada defeito do jeito Berlusconi (sem máfia) de ser: em determinado ponto, um dos amigos do escritor afirma que a velha bota é “um país de tecelões e pizzaiolos”, em alusão ao que lhes dá notoriedade no exterior.

Aclamado em Cannes (foi até mesmo comparado à La Dolce Vita) e premiado em diversos festivais por onde passou, o primoroso sétimo longa-metragem de Paolo Sorrentino acaba de ser eleito como o melhor filme europeu do ano pela European Film Award. Além disso, recebeu uma indicação ao Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e é o representante italiano (e forte candidato) ao Oscar 2014, na mesma categoria. Se os trenzinhos das festas de Jep não vão a lugar nenhum, o mesmo não se pode dizer de sua inspiração e d’ A Grande Beleza do cinema de Sorrentino.

 

(Larissa Mendes, partilha da mesma melancolia de Jep e, em se tratando de beleza, concorda com Vinicius de Moraes)

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nydia Bonetti

 

Foto: Bruno Kepper

 

há um jardim qualquer
em qualquer
canto
onde uma flor qualquer
brotou
de qualquer
cor
de qualquer forma, flor
e eu a oferto
a quem souber cuidar

 

 

***

 

 

que gosto tem o verso e que
textura?

só sei da cor – vermelha
do coração na boca

da alma – na palma da mão

 

 

***

 

 

silencioso e raso passa o rio
não posso ouvi-lo
pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem — ávidas
de lua e mar

 

 

***

 

 

hoje nada me move – sou pedra
perdidos
……..olhos
……………no vazio
que cresce em minha face feito
………………………………..musgo

 

 

***

 

 

quando chove – desejo de não
……..chover
e quando faz sol – brilha
desejo  de chuva
……..a vida
parece mesmo ser
………..uma questão de tempo

 

 

***

 

 

o pássaro – com seus olhos de céu
me olha

buscando em mim – as asas
………………que já não tenho

 

 

***

 

 

assim, então dentro de mim
nasce um poema
enquanto
outro morre
moto perpétuo
roda d’água
que move a lâmina
que faz serrar a pedra / bruta
e faz brotar a flor

 

(Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker. Oficialmente, o Sumi-ê será lançado em janeiro de 2014, mas já se encontra para pré-venda no catálogo da Editora Patuá)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

SÁ, RODRIX E GUARABYRA – PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 

 

Numa encruzilhada formada pela junção de três caminhos, surge uma estrada ao mesmo tempo empoeirada e pavimentada, com um pé no Brasil interiorano e outro na contemporaneidade dos anos 70. Essa é a viagem de Sá, Rodrix e Guarabyra na sua estreia em Passado, Presente e Futuro, usando o expediente, relativamente comum à época, de assinar o nome de um grupo como se fosse um escritório de advocacia. Qualquer semelhança com Crosby, Stills, Nash & Young não teria sido mera coincidência (“Só faltou achar nosso Neil Young”, disse Rodrix certa vez). Mas não há meandros jurídicos na música de SR&G, apenas o fluir de uma longa rodovia, com seus percalços típicos da nossa malha rodoviária. Ainda que tenha sido uma viagem breve, foi bastante proveitosa para a música brasileira.

Como boa parte dos compositores daquela geração, Luiz Carlos Sá, José Rodrigues Trindade – o Zé Rodrix – e Gutemberg Guarabyra militaram no circuito de festivais de música da década de 60, televisionados ou não. Rodrix, que chegou a fazer parte de grupos como Momento Quatro e Som Imaginário, ganhou o Festival de Juiz de Fora de 1971 com a canção Casa no Campo (dele e de Tavito), que posteriormente viraria clássico na interpretação de Elis Regina. Guarabyra, um baiano radicado no Rio de Janeiro, chegou a ser diretor musical da TV Tupi e do Festival Internacional da canção. Sá, por sua vez, além dos festivais, já atuava no meio publicitário como compositor e produtor de jingles. A estética musical do trio logo recebeu a alcunha de “rock rural”, pegando carona num trecho da letra de Casa no Campo.

 

Sá, Rodrix e Guarabyra / Foto: Reprodução

 

O resultado concreto dessa “sociedade” culminou em Passado, Presente e Futuro, lançado em 1971. O resgate de uma vida interiorana para o urbanóide dos anos 70 se faz presente em faixas como Cumpadre Meu, onde Guarabyra faz questão de ressaltar o vernáculo do sertão brasileiro: cumpádi, sôdade. Se em Cumpadre Meu a preocupação é com a nova geração “respirando o que a cidade envenenou”, em Crianças Perdidas há o retorno à própria infância idílica. As intervenções orquestrais ora soam georgemartinianas como em Zepelim, quase uma fantasia beatle de Sá, ora soam delicadas o suficiente para prover o folk-barroco de Ouvi contar e a cantiga de ninar Boa Noite. Me Faça um Favor de certa forma antevê o trabalho que a dupla Sá & Guarabyra faria após a saída de Zé Rodrix. E é exatamente Rodrix quem fornece o lado “rock” da equação “rock rural” em Ama Teu Vizinho Como a Ti Mesmo, com um belo trabalho de bateria e percussão, e Hoje Ainda é Dia de Rock, praticamente uma carta de intenções: “Eu descobri olhando o milho verde / Mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock”. Nos anos 80, quando Zé Rodrix fez uma campanha publicitária para a Chevrolet, o jingle foi jocosamente apelidado de “última canção da estrada”, uma referência ao conto de liberdade adolescente Primeira Canção da Estrada.

A parceria ainda renderia um segundo disco, Terra, de 1972, até a dissolução do trio. Sá & Guarabyra seguiram com sucesso como dupla nos anos 70 e 80, compondo até trilhas para telenovelas e Zé Rodrix seguiu em carreira solo, emplacando o hit Soy Latino Americano e participando do grupo de rock-deboche Joelho de Porco, além de se lançar como escritor. Em 2001, o trio se reuniu e lançou o ao vivo Outra Vez na Estrada e ainda deixou o derradeiro Amanhã, lançado após a morte de Rodrix em 2009. Mas as canções, essas continuam com o pé na estrada, mesmo que seja de carona até a cidade mais próxima.

 

 

(Rogério Coutinho não sabe se é capixaba de Brasília ou candango do Espírito Santo. De bancário a estudante de literatura, de pesquisador do IBGE (mas não recenseador) a publicitário, de estagiário de rádio a gestor cultural, tem sua casa na cidade onde planta alguns amigos, discos, livros e nada mais)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Foto: Bruno Kepper

 

A NORA

Yara Camillo

 

– Chegaram, Juliana!

A Mãe corre até a janela: o filho vem com a nova mulher, que nem de longe condiz com sua expectativa.

Pequena, magra, cabelos rebeldes, olhos muito vivos – deve ser por conta deles o sorriso que brilha.

Desconcertante: é a palavra que ocorre, à Mãe, para explicar a decepção. Tanta moça em São Paulo e ele foi se engraçar com essa, pensa, tomando fôlego para ir à sala.

Chega a tempo de ver o Pai abraçando o filho e recebendo a nora:

– Seja bem-vinda. E que sorriso bonito! Foi assim que você pescou esse caboclo?

Pronto, lá vai o Pai, com a corda toda. E ela, a Mãe, como fica? Não tem vocação para rapapés, o máximo que consegue é ser educada.

– Gostei dessa menina, Juliana, porque quando entrou, em vez de reparar nos móveis, olhou para as pessoas.

Que pessoas? – a Mãe suspira. Faz tempo que só restam ela e ele, na casa.

– Muito prazer – ela diz, num esforço.

– Oi – diz a Moça.

Oi? Isso é jeito de se cumprimentar? Pensa a Mãe, abraçando o filho.

– Venha tomar um café, menina – o Pai convida, esbanjando o encanto que só ele tem, quando lhe dá na veneta. – Aqui o café a gente mói na hora, quer ver?

Por insegurança, ou porque gostou mesmo do Pai, a Moça se desmancha em sorrisos e, justiça seja feita, ela sorri com os olhos também. A mãe concede o veredicto: Simpática. Não digo encantadora, mas simpática.

O café saiu amargo, pensa a Mãe. A Moça parece ignorá-la, condescender a cada pergunta que ela faz, enquanto, com o Pai, nossa, até parece que os dois se conhecem há anos.

Quero só ver essa menina, lá no sítio.

Pois o Pai já começou a falar do sítio, que ele conserva à moda antiga, na base do lampião e fogão de lenha, horta, cafezal, passarinhos como já quase não há por essas bandas, morcego, cobra, tatu…

A surpresa da Moça é tudo que o Pai precisa para se espalhar, pensa a Mãe. Quando ele se cansar, talvez ela possa oferecer os presentes que separou para a Moça, para o filho: roupas de cama, mesa e banho; é o mínimo que se pode dar a quem se casou assim, sem avisar a família.

A Moça surpreende, fica muito à vontade no sítio, prova as frutas, acompanha o Pai num passeio pela horta, pelo cafezal, pergunta de tudo e vai repetindo o nome das plantas, dos passarinhos… À tardinha, se deslumbra com o pôr-do-sol, já ganhou uma cor, parece mais assentada, agora.

A Mãe acende o lampião, mostra o álbum com fotos das antigas terras da família. A Moça admira as paisagens, os detalhes:

– Qual dessas fazendas era do seu avô?

– Todas – responde a Mãe, feliz pela primeira vez, no dia que se finda.

– Meus avós eram colonos numa fazenda assim.

A simplicidade das palavras, sem revolta nem pejo, confirma a impressão da Mãe: a nora é, decididamente, desconcertante.

– Moça esquisita, não? – ela comenta com o Pai, antes de dormir. – Magrinha, espevitada, vai ver nem tem boa saúde.

– O que lhe falta em corpo, sobra em alma – diz o Pai.

– Sabe o que eu acho?

– Sei, Juliana, sei.

A Mãe fecha os olhos. Não era isso que queria, para o filho. Mas nessa noite sonha com a filha que nunca teve: as duas de mãos dadas, fugindo da chuva para o rancho à margem do Tietê. No tempo do sonho resumem-se os dias e os anos, Natal, São João, uma festa noite adentro, um café ao amanhecer. Nos cabelos rebeldes da filha, o primeiro fio de prata: Olha só, mãe! As duas riem, se olham. Mas aquele rosto não é o da filha, é o da nora.

– Será? – pensa a Mãe, ao acordar.

Já na cozinha, passando o café, vê a nora junto à porta:

– Quer ajuda, Dona Juliana?

– Quero, filha.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)