Essa bem que poderia ser uma história para ser contada no Natal, porque a prostituta já sente as dores do parto e é véspera de Natal, logo rebentarão os fogos e a bolsa amniótica. Também porque a prostituta na verdade se chamava Maria, apesar de ser conhecida na rua como Zula. A bem da verdade, isso não chega a ser um nome, é apenas um som para chamar uma pessoa, já que Maria parecia um nome muito sagrado e pobre para usar na vida.
Não sabia quem era o pai da criança. Tinha lá uma desconfiança ou, antes, uma preferência pelo marinheiro de olhos verdes. Um filho de olhos verdes. Teve medo de fazer um aborto, era muito medrosa. Havia uma sua colega que já fizera três abortos e, no último, quase morrera. Tinha muito medo de morrer. Não que aquela vida fosse boa… Tinha medo de tudo aliás, de ratos, baratas, de macumba, de velhas. No começo, também dos homens, mas esse medo, o tempo a fez perder.
Além do mais, tinha vontade de ter aquele filho, vontade de carregá-lo, brincar com ele. Tinha vontade mesmo era de ter uma boneca, coisa tão inexistente na infância. Desejou rever suas amiguinhas da rua para mangar da cara delas:
– Quem tem a melhor boneca agora?, diria ela.
Mas havia aquelas dores todas ali e ela não sabia o que fazer com aquilo. Não havia mais ninguém na pensão, era Natal e as moças estavam de folga, todas a festejar ao seu modo sabe-se lá o quê. Ela ficara sozinha com a barriga e a dor.
Mordia um lençol para não gritar. O suor empapava a camisola encardida. Ela estava sentada, muito encolhida no canto da cama. Olhando assim, parecia um anjo de altar. Não passava de uma criança assustada com uma barriguinha saliente, talvez tivesse 16 ou 17 anos. Chegara ali depois de passar alguns anos apanhando da vida e das patroas, trabalhando em casa de família. Não que a vida ali fosse mais fácil, mas pelo menos apanhava quase nunca. Às vezes tinha nojo, é verdade, mas todas as outras moças a tratavam como um bibelô e, quando ficou grávida, elas passaram a sustentá-la. Tinha muitas mães. Ela agora seria mãe também. Nunca tivera uma mãe, talvez tivesse tido um pai, mas não gostava de se lembrar disso. Fingia que sempre fora só.
As dores aumentavam, e ela só pensava na festa que estava perdendo, o vestido novo para a Missa do Galo estava dependurado na porta do armário. A vida pedia passagem para fazer mais um milagre. De repente, sentiu que ia parir, não saberia explicar o que era aquela sensação – o que a deixou apavorada de desconhecer –, mas sentia que um milagre estava por vir. Alguma estranha força fêmea a guiou no parto, como se o nome Zula, que era quase um balido animal, lhe tivesse convocado essa força não-humana de parir. Então, ela simplesmente pariu e segurou a criança desajeitamente junto ao corpo. Cortou o cordão com uma faquinha quase cega que estava sobre a mesinha de cabeceira. Depois, limpou-a (sim, era uma menina, o que já dificulta um pouco a viabilidade de uma história de Natal) com nojo no lençol cheio de manchas de noites passadas. Encostou o bebê no seio e ele parou de chorar. Nasceu franzino, um fiapo de vida, um milagrezinho de Natal.
Sou mãe, disse a si sem ênfase nenhuma. E havia alguma dor sublime nisso. Com a menina no colo, pensou que deveria dar-lhe um nome. Pensou que deveria dar-lhe ouro, incenso e mirra. Presentes, comida, alegria, uma vida maravilhosa, o mundo inteiro. Estava exausta e com medo. Não poderia dar nada à sua filha. Nem amor, que nunca tivera disso na sua vida. Nem leite tinha, os peitos murchos de não comer quase nada. Não poderia criá-la entre prostitutas. Não poderia fazer nada por aquele milagre.
Era um bebê feio, magro, engelhado, vermelho. Não tinha olhos verdes nem cabelos dourados. (Quem era o pai?) Colocou-a na cama e levantou-se. Vestiu o vestido de festa: rosa bem claro, sua cor preferida. Arrumou os cabelos. Como estava cansada. E como doía-lhe o sexo. Pior do que na primeira vez que se deitara com um homem. Tomou a menina nos braços e saiu. Na rua havia muito barulho, era Natal. Não havia brisa, mas a noite era mais fresca lá fora do que dentro do quarto noturno.
Caminhava lentamente enquanto pensava no que poderia fazer para salvar um milagre. Mas ainda era uma criança. As ruas eram escuras, a noite era escura, ela era escura, só sua filha era rosada. Parou num beco, exausta de caminhar, exausta de pensar, exausta de parir. Encostou-se na parede. Era um beco imundo. Pôs a bebezinha numa lata de lixo e deu-lhe um beijo na testa:
– Morra logo, minha filhinha, porque essa vida é muito ruim.
Cuspiu-lhe na cara com nojo e ficou olhando-a um pouco. Talvez quisesse se sentir penalizada, mas não sentia, não sentia nada. Tudo tinha ido embora naquele parto. Se afastou devagar enquanto a menininha chorava.
Talvez, no céu, uma estrela tenha se apagado.
Não contem essa história no Natal.
(Gabriela Amorim é escritora e leitora, jornalista, fotógrafa, cozinheira, aprendiz de costureira e de feiticeira, instrutora de yoga, caminhante. Escreve crônicas às terças-feiras no Portal Infonet. Seu primeiro romance, O velho, está no prelo e, em breve, deve vir à luz)
“De Graça é um espelho.
De um lado ele reflete você, de outro, o universo.
Que é como a gente, sem fim.
O De Graça aconteceu.
Como o sol, que não é meu, nem seu.
É nosso”.
(Marcelo Jeneci)
O melhor da vida é de graça. Sob essa tônica de ‘celebração 0800’ o multiinstrumentista Marcelo Jeneci acaba de lançar o sempre mítico segundo trabalho na carreira de um artista. E o herdeiro do bem sucedido Feito Pra Acabar (2010) apresenta-se como um álbum tropical, dinâmico e autobiográfico. Na contramão do hermetismo dos lançamentos nacionais de compositores da nova geração, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (aliás, se depender do visual atual, Jeneci seria facilmente confundido com um barbudo dos Hermanos), a verdade é que o paulistano nunca temeu parecer popular. E é assim que ele soa: leve e pop (jamais simplista) em pelo menos metade das 13 faixas inéditas que compõem De Graça (2013). Nas canções restantes, Jeneci mantém certa aura épica-intimista-melódica consagrada em seu disco de estreia, porém sem perder o tom esperançoso que envolve todo o repertório.
Curioso é o fato de o álbum manter esse astral mesmo sendo concebido após o fim de seu casamento. Por vezes, a temática e a própria sonoridade expõem certo sentimento de ruptura, mas tudo sem dramas ou pesares. É como se Jeneci tivesse profetizado que amores têm prazo de validade pré-determinado (a gente não é feito pra acabar?), mas colocasse em prática toda a filosofia de auto-ajuda de Felicidade, carro-chefe de seu primeiro disco. Assessorado por velhos (Arnaldo Antunes e Kassin, que produziu Feito Pra Acabar e dessa vez assina a produção junto com Adriano Cintra) e novos parceiros (Eumir Deodato e Isabel Lenza, atual namorada, com quem divide as composições em 6 faixas), De Graça foi contemplado pelo Programa Natura Musical e está disponível em streaming no site do artista. Já o álbum físico será lançado em novembro pelo selo Slap (Som Livre).
Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação
A deliciosa e radiofônica Alento e seus versos de consolo (se alguém se for, não tente entender/o que se passou segue com você) abrem o álbum apontando o lado bom de todo revés e avisa que ‘tudo se desestrutura pra você se estruturar’. Espécie de baião eletrônico, De Graça, primeiro single e canção que dá título ao trabalho, mantém o ritmo frenético e indaga: ‘sentir o sol te acordar, bem de manhã, quem acha pra comprar?/viver na pele um grande amor e o seu calor, quem acha pra vender?’. Ironicamente, Temporal fecha o primeiro bloco de canções mais ensolaradas, não sem antes anunciar seu arco-íris otimista (o que tem começo, tem meio e fim/deixa passar o dia ruim/que a tempestade resolve com Deus).
Nas melódicas Tudo Bem, Tanto Faz (letra de Arnaldo Antunes) e Pra Gente Desprender,quem assume completamente os vocais é a doce Laura Lavieri, cantora que já acompanha Jeneci desde o primeiro álbum. O cantor reassume os microfones no pop-rock de Nada a Ver, que fala de um amor que já não se pode disfarçar, e de Sorriso Madeira, onde afirma estar em extinção e propõe plantar no quintal ‘um pé de nós dois’. A psicodelia de A Vida é Bélica (tire a distância entre você e eu/sejamos um/sejamos Deus) lembra Os Mutantes, enquanto a despretensiosa Julieta (você não sabe ler/uma carta de amor/muito menos contar/quantas silabas têm/uma desilusão), balada sessentista, poderia tocar no bailinho pré-trocadilho de Genival Lacerda.
Os versos de O Melhor da Vida reiteram a intensidade de nossa existência (sinto que o melhor da vida sempre vem de graça/sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar/e que dura toda a eternidade/e isso é só pra começar). A majestosa Um De Nós (um de nós/vai sentir a falta/de um de nós) fala do caráter insubstituível de um grande amore têm os mais belos arranjos do pianista Eumir Deodato, que assina também a orquestração de outras quatro canções. Composta para a trilha de Vila Sésamo, a graciosa Só Eu Sou Eu (tem muita gente tão bonita nessa terra/nas minhas contas são 7 bilhões/mais eu) é praticamente uma cantiga de roda com direito a burburinhos e gargalhadas infantis. O lirismo e a introspecção ficam a cargo de 9 Luas, faixa soturna que encerra o registro e remete a um comportado Ney Matogrosso.
Nestes três anos que separam primeiro e segundo álbum, definitivamente Marcelo Jeneci amadureceu (e emagreceu). A feição de bom moço agora dá lugar a certo ar de mistério e de um charme desleixado. A temática sentimental/existencial está presente nos dois registros de estúdio e, de forma discreta ou não, a sanfona continua assumindo sua importância. No entanto, agora, a sonoridade jeneciana assume um novo groove e suas composições estão ainda mais seguras. Se Feito Pra Acabar era considerado brega, De Graça virou indie e está um barato. E ache graça quem quiser achar.
(Larissa Mendes é sua graça. E, escrevendo, tenta levar a vida em estado de)
Instantes de maravilha que você captura, vertiginosas
lâminas de tempo em suas mãos, você não sabe o que fazer, seu dia
se perde no lixão que vaza dos calendários, cemitérios
de dejetos, ferros-velhos – mas a História
não acabou, nem a sua, se debatendo contra a pedra
(particular, intransferível) que obtura o peito
opresso sob a chuva fina e ácida do pensamento. Pensar,
pensar com os olhos
frios, enquanto na retina
se inaugura o caminho novo sob os mesmos
***
escrito sobre o corpo
leia se puder
o que segue escrito na carne dos dias
são signos sobre signos sobre signos
soterrando a possibilidade do sentido
mas leia
se puder arrancar o que lhe diz respeito
se puder arrancar a luz da floresta
de símbolos
se puder arrancar das linhas do fundo
escuro deste labirinto
desenhado nas dobras do corpo
não
você não
pode
***
NOTA MARGINAL 51.
Difícil acreditar na luz, ela
não é mais que outro lado
da treva: e mais que duvidar, você suborna
o coração com lances baratos, em surdina, até
que a iridescência perca sua autonomia,
em ciclos declinantes, sucessivos, como um prazer
ao contrário, bruto, até o chão. Deserto é tanto
o que sobrou quanto
o que estava antes, coalhado
de abismos escavados na planura. ‘Quem foi
que ergueu esta montanha aqui?’, ele disse quando galgou
ao cume, diante
da miragem do absoluto, o riso
apontando para onde o coração (‘deviam
inventar um nome melhor
pra estas deformações’, ela disse, ‘que se assemelham muito
a florações’) insiste
em construir cenários
imprevisíveis, andando rente,
tentando descobrir porque miragens nunca
reencarnam.
***
NOTA MARGINAL 54.
Curvar-se até o chão, diante
da inocência, ou mais além do pavimento
duro, se fosse tão gasosa assim
a matéria da alma que num ponto
nunca definido arranca um grito
ao ar quando atravessa os tais
dos campos vastos, triscando as balizas do tempo, lentamente
fingindo obedecer a relógios,
e neste empuxo
despenha-se junto a dias e promessas
só para aumentar os escombros e o monturo
a seus pés.
***
Daqui
a âncora é o corpo, o fundo
não se sabe Morto pela água
das décadas o Homem
-Aranha considera riscar
na areia fina com a ponta
em riste da última fratura
exposta o seu poema
mais abissal: vês? Ninguém
(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ. Bloga em As Musas Pós-Modernas. Email: nuno.rau@gmail.com)
“Que as pétalas subjuguem
os dolorosos espinhos!”
Rita Moutinho
Confrontar-se com situações limites, com obstáculos interiores contínuos às ações corriqueiras do cotidiano, defrontar-se com a busca de superação da ausência de sentido, existir sob a tensão do viver! Esse quadro característico de estados de depressão reflete a poesia lírica presente no livro “Psicolirismo da Terapia Cotidiana” (Ateliê Editorial), da poeta Rita Moutinho. Uma poesia marcada pela permanente tensão entre o “Eu” e um mundo interior fragmentado, instável, fugidio: “Frente a mim,/no meu presente,/não me desvendo/e assim permito/arroubos de pensamento/e justifico, que lá dentro,/há de estar o que não penso.” Lirismo dramático expresso em versos que mostram a crise da exacerbação do “Eu”, marcas de um Século Pós-moderno e que ainda se estabelece sobre a herança do Iluminismo, do Secularismo e do esvaziamento do referencial transcendente, ou seja, do sentido metafísico, portanto um “Eu” labiríntico: “Deve haver um lento tatear-me,/pois em mim não há outra coisa que não eu/a me querer nascer.”
Uma das características da poesia de “hoje” tem sido o experimentalismo, muitas vezes questionável, que transita entre o minimalismo, releituras do Concretismo e da poesia de João Cabral de Melo Neto, uma poesia que tem como objeto estético a própria linguagem, não obstante sua dimensão semântica “impenetrável”. A poesia de Rita Moutinho se apresenta em polo oposto. Seus versos são líricos e a linguagem apresenta-se como instrumento estético e não objeto estético. A temática subjetiva de sua poesia e a tensão de seu lirismo a aproxima de poetas como Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca, poetas do drama do “Eu”:
“Aonde irei neste sem-fim perdido,/Neste mar oco de certezas mortas?/Fingidas, afinal, todas as portas/Que no dique julguei ter construído...” (Mário de Sá-Carneiro – Ângulo).
“Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,/É um brasido enorme a crepitar!/Ânsia de procurar sem encontrar/A chama onde queimar uma incerteza!” (Florbela Espanca – O meu impossível).
“Inspiro e sou a musa avessa/explorando avidamente/aquilo que não aflorou:/certeza” (Rita Moutinho).
Mas, ao contrário dos poetas suicidas, Rita Moutinho faz de seus versos uma verdadeira catarse, no sentido aristotélico do termo, ou seja, purificação de suas vivências. Podemos dizer que a poeta faz da linguagem uma autoanálise de seu drama interior, itinerário catártico do “eu”:
“Iluminar o lado escuro/da penumbra/e se fazer radar/até que me descubra”.
“Os poemas acalmam ou são proféticos,/lavam ou surpreendem a alma quando criados./Ei-los, a um tempo, deuses e miméticos.”
“Eu lavo as veias com água e após transfiro/o sangue da ansiedade às palavras (…)”
O itinerário existencial presente nos versos de Rita Moutinho mostra-se titânico em sua recusa a uma referência semântica transcendental – “E eu, lírico clown, cato – com os demônios! -,/os piolhos que infestam meus neurônios!” – característica de um Século Pós-moderno como já assinalamos. Assim, a poeta apresenta-se como uma anti-heroína mesmo tendo a linguagem poética como uma estética catártica dos mares tempestuosos de sua subjetividade: “Os versos são fragmentos de epopeia/falsa, pois falsa heroína é a poeta,/falsa, fraca, falida, mas não cética:/crê que a maré se abaixa, mas não seca”.
Uma poesia para se ler. Uma poesia para pensar.
(Hilton Deives Valeriano é filósofo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Unicamp. Editor do blog Poesia Diversa. Autor de poemas, epigramas e aforismos. Livro no prelo: “Nas mínimas coisas – aforismos”)
Uma câmera acelera seus percursos e varre a secular capital do Rio de Janeiro. Como num álbum de memórias, coleciona retratos de um tempo-berço, pano de fundo de um ambiente regado a contemplações e uma boa dose de romantismo. Quem pensa que com ela se inicia mais uma viagem do tipo cartão-postal da cidade maravilhosa, não imagina que está prestes a acontecer um caminhar fora do comum por sobre a trajetória de alguém.
Ao vislumbrarmos de pronto o nome de batismo do filme, A Música segundo Tom Jobim não nos deixaria pista alguma a respeito de como a narrativa do maestro soberano poderia ser contada num modus operandi cinematográfico. Muito pelo contrário: é preciso deixar que a sucessão dos instantes iniciais da obra se instale e reste bem clara a sua forma diferenciada de abordagem. Nela, o conceito padrão do gênero documentário é magnificamente substituído pelo que de mais especial a trajetória de um artista pode conter – a viva exposição de seu trabalho.
A partir do momento em que Gal Costa surge interpretando Se todos fossem iguais a você, no show “Tributo a Tom Jobim”, de 1993, abrem-se as portas de um delicado e emocionante trajeto pela obra do compositor. Tal como o título desta canção anuncia, a primeira sensação é a de que o legado do artista paira como um modelo de se creditar à existência um exercício constante de perceber a beleza das coisas que nos cercam. Depois desse começo clímax, um sem número de cantores e músicos do mais alto quilate revezam-se em recortes precisos sobre o ato de celebrar a carreira de Tom Jobim.
Dirigido por ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos e também por Dora Jobim, o documentário deixa de lado a forma tradicional de se narrar a vida e obra de alguém. Não há depoimentos, entrevistas, narrações em off. Sequer há fala alguma. Predomina um acervo fotográfico e audiovisual meticulosamente selecionado para dimensionar a importância do compositor na formação musical brasileira. Tudo flui única e exclusivamente pelas ricas alamedas sonoras que a música em si é capaz de proporcionar. Diga-se de passagem, o próprio conteúdo de certas composições de Tom Jobim norteia a sucessão do tempo, especialmente pelo modo como cada intérprete mergulha no universo jobiniano.
Tom Jobim / Foto: Divulgação
Em meio à sequência de momentos marcantes da carreira de Tom, colecionando tanto aspectos íntimos quanto profissionais, um vasto painel de lembranças surge vigoroso. São passagens antológicas, tais como a sua estreia no palco do Carnegie Hall (famosa casa de shows de Nova Iorque), a parceria com o poetinha Vinícius de Moraes, os duetos com Frank Sinatra e o momento em que a composição Sabiá, feita juntamente com Chico Buarque, veio à tona num dos festivais da canção, e cujo registro imagético traz as vozes de Cynara e Cybele, integrantes do Quarteto em Cy. No que se refere aos apelos jazzísticos que sempre rondaram a figura do maestro, o filme mostra desde a magistral voz de Ella Fitzgerald, em Desafinado, como também assinala a presença de nomes como Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Errol Garner e Oscar Peterson.
Ao mesmo tempo em que se traduz como um verdadeiro registro sonoro, o documentário possui um valor histórico inquestionável, pois a própria caminhada de Tom se confunde com passagens importantes da nossa música, sobretudo pelos movimentos que agregaram emblemáticas expressões, como é o caso da Bossa Nova. Um dos pontos do filme que reforçam essa ideia é a cena de “Um Desconhecido Bate à porta”, de 1958, na qual Elizeth Cardoso aparece cantando Eu não existo sem você, ao som do violão de um ainda jovem João Gilberto. E o que dizer também de Agostinho dos Santos interpretando A Felicidade ou Silvia Telles vivendo, à flor da pele, a canção Samba de uma nota só? Como esquecer Elis e Tom no dueto antológico em torno de Águas de março?
A Música segundo Tom Jobim é capaz de repercutir um intenso efeito de encantamento pela falta de interferências narrativas tradicionais. Isso faz com que cada espectador encaixe seu próprio roteiro, demarcando na trajetória do artista aquilo que implica em começo, meio e fim, se é que é possível se falar na figura de um instante derradeiro. Abolida toda e qualquer noção de linearidade, certamente o maior sentido aqui é o de confirmar a imaterialidade da música, dando vazão ao que mais importa: penetrar numa camada onde apenas as sensações fazem morada. Não há espaço para reflexões complexas e tampouco se almeja um grande feito cinematográfico. Como diria o próprio Tom, a linguagem musical basta.
É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.
***
Sinais
Douglas levantou cedo, ignorou o café da manhã e se pôs a esperar. Estava convicto: logo, logo aconteceria. Seria como estava profetizado. Assim como lera no livro sagrado. Tudo o que tinha a fazer era esperar. Crer e esperar.
Cerrou os olhos para que os ruídos mais inaudíveis pudessem penetrar-lhe os ouvidos. Era pela audição que toda a verdade lhe seria revelada. Acreditava que, anulando um dos sentidos, no caso a visão, aguçaria o outro. Não lhe vinha à cabeça a necessidade de um tempo maior para que a ausência de um sentido fizesse o outro aflorar com uma eficácia quase divina.
Os sons que lhe chegavam da rua ou mesmo do interior da casa ou ainda do seu próprio corpo eram bastante comuns. Por mais que tentasse ouvir neles notas dissonantes, carregadas de sentidos místicos ou de sinais não revelados, nada, absolutamente nada, ultrapassava o banal e o cotidiano. A vida, para seu desespero, transcorria opaca e sem mistério.
***
Ombro
Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o “Ação! gravando!” de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de “perder o rumo”, “ficar sem norte”, “andar à deriva”, fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.
(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles “Baque” (contos, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista do Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)
(Luciano Bonfim nasceu em Crateús (CE) e vive em Sobral (CE). É professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). São de sua autoria os livros: “Dançando com sapatos que incomodam” (2002); “Beber água é tomar banho por dentro” (2006) ; “Móbiles – hestórias e considerações” (2007) e “Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos” (2013). Integra o Grupo Permanência Provisória de Teatro)
arranha-céu da tarde sob a circunferência dos olhos do tigre, tão lindo, alto & perspicaz. informações sobre seu paradeiro afirmam que ele havia conhecido moça de humilde família, prendada & auxiliar de enfermagem. nenhum de nós foi convidado ao casório – eles não permitem circo armado em redutos de jovens senhoras envergonhadíssimas até a alma. como retaliação, nos reunimos no apartamento de klauss para gargalhadas ad infinitum enquanto disfarçávamos, intimamente, as lágrimas na hora do sim, caso estivéssemos na última fila da igreja.
2
imaginei agnus no topo do edifício topázio, mais precisamente no instante em que lia seu manifesto bibelô-satânico contra nossa cultura pop & caracterização urbanóide. uma bandeira esvoaçante de um país da europa oriental lhe tatuava os longos braços, ou quem sabe, os longos braços lhe tatuariam o rosto recentemente partido pela tentativa de suicídio no dia 8 de setembro, quinze dias após nossa primeira tragédia doméstica.
3
na mesa de bar falo sobre o projeto obsessão, terror & glória. você desvia o olhar, cruza os braços, enxerga os detalhes de lugar algum. então caminhamos sem perseverança. a falta de assunto conduz os destinos. oscilamos em lados opostos, alheios ao atravessar a avenida, passos de gato dominados pelos faróis eletrostáticos. aí fecho a porta do quarto & me escureço na contingência de festas, after parties, solidão na cabeceira. disco o número de matilde num relance de jogo gasto, buraco dentro do buraco, navio negreiro da salvação? o segredo do meu charme nos capítulos da novela? uma frase de efeito no coração da internet?
4
deyse virá no sábado para a sessão de fotos, segredos & troca de perfumes. contarei a história do meu último romance aos frangalhos no instante em que ela voltar da cozinha com duas xícaras de café, possivelmente expressando desagrado & sorriso de maledicência. tomaremos um táxi pouco antes da madrugada altamente intoxicados por nós mesmos & pelo que tentamos desesperadamente esconder.
5
chocado com a atitude levemente esquizofrênica do moço & sua síndrome de lolita defasada. um ódio-amor que não passa, não passará & que há de me inutilizar o senso de estética & o acúmulo de receitas médicas que certamente irão hipotecar o meu futuro antes que eu morra de sede & fome – por isso preciso que giancarlo me tome em seus braços & que sejamos felizes DE-SOR-DE-NA-DA-MEN-TE.
***
tigre siberiano
adolescentes reproduzem meu fio condutor numa vasta cama de plumas & acessórios eróticos onde invisto minha língua sobre a previsão das mentiras para inventar um relato sobre sexo, ejaculações, coxas nuas que sobrepõem meus orifícios mediúnicos durante o coito & suas doses cavalares de memória em quartos escuros vistos sob o espaldar da cama que não range & que não prolifera nossas ardências na noite de frio, rumba, razão mimeografada presa à estante de brinquedos fabricados nos anos 90.
como se os meus olhos fossem o dorso de um cavalo prestes a mumificar a vida num galope sombrio, relincho tropical no alto da montanha ao invés de reconhecer o grito imaculado do homem que me domina sem o meu consentimento felino, pois quem enumerou os defeitos dos corpos teme o gesto de penetrar ou ser penetrado sem que os inimigos ou amantes sucumbam perante o último orgasmo travestido no sorriso de nossas gengivas, vaginas, líquidos empalidecidos enquanto o dia amanhece & tratamos de nos recompor: livre arbítrio que abre a boca antes que a presa se torne carcaça & eu psicografe o perigo do mundo.
***
alô, hoffman?
sons de carros bufando seus gases, rumores tóxicos, notas musicais da regra animália enquanto indivíduos; & nós, os fracos, sim – transpiramos a tal vontadezinha de esplendor que nos alimenta enquanto ensaiamos um ai em prazer omisso, sempre omisso.
deixo você me morder por inteiro durante o meu breakfast da boa conduta. decoro meus lábios & cílios num tango argentino de mero desesperado – as tuas cartas de amor se extraviam & desaprendi as regras do ofício como quem se contenta com material pornográfico.
acelero os passos, encurto os corredores, lavo a louça quando é preciso & dou o meu melhor no momento “vamos guardar o arroz na geladeira”. é que ainda sinto uma tensão de fios elétricos quando ele me abandona & descobre novos ares, como se o meu grito, enfim, o organizasse perfeitamente na vida.
sucumbo pela falta de dinheiro & ascensão.
ele, o trágico amor descalço, é um filho insensato que não respeita conselhos de mãe, madrasta, meretriz. & ainda me perguntam sobre as foices do destino. as foices do destino descosturando flores enquanto caio de quatro na calçada.
katherine surgiu com olhos de lebre & desmarcou nosso encontro, pois quis favorecer outras conquistas. roí as unhas até o sabugo numa espécie de ânsia que empalidece as aventuras de uma puta fantasiada de lady. acabei forçando a barra & não permitindo que eles – oh doces inimigos – virassem de costas, amáveis diante do tal palco imaginário, pois sou um trabalhador braçal inserido na multidão de artistas & publicitários de merda.
hoffman telefonou & marcamos jantar. em duas horas estaríamos cara a cara & inundados num silêncio de cão. banquei o herói & fingi inúmeros descontroles emocionais que ele tanto gosta. ele não sabe que os solavancos da vida nos enchem de uma esperança mumificada. a minha liberdade é para ele mera obsessão pelo zodíaco & afins. não puxo assunto enquanto me entupo de um peixe à delícia meia boca. a noite se desfaz sem sucessos & me contento com mais uma cerveja geladíssima.
(Antônio LaCarne nasceu em 1983 e escreve poemas, fragmentos, contos e diários. É autor do livro de prosa poética “Elefante-Rei: Poemas B” (2009) e participou da coletânea de contos “A Polêmica Vida do Amor” (2011) pela Editora Oito e Meio. No momento finaliza seu segundo livro, “Salão Chinês”, e assina o blog O Impenetrável)
Sou um homem vário
embora nem me possa homem chamar
pelas veias tão finas sob a pele que correm
clara, de penugem alguma
e o ventre mole, de um buraco vasto
para a vida
Sou um homem dum bem
amiúde governado, sou um homem casto
de olhos grandes calados assentados
num ponto ameno, sem água, bicas
sou um homem adestrado, pasmado, sadio
de corpo, almas tardias, sede alguma desde a partida
da voz pela boca
que calou-se, cessou, tem preguiça
Sou um gênio bravo
embora assim não me possam dizer
pois mesmo uma parca rolinha, moribunda, arredia
pudesse-me estar ao lugar e chamar-se de homem
de gênio bravo, com as almas tardias
e os olhos salgados, atravessados
do labor prescrito pelo pão, pelo domingo
eterno que espera
o próximo dia
Sou um homem bruto, arrastado, guardado
como os sumos venenosos em perene trancados
sob o corpo da língua
sem hora para isto, sem o dia daquilo
ou ao menos a roupa secando a esperar-me
nos porvires,
nas avenidas, sou um homem cego, esfregando as antenas às paredes da ida
diária, cegamente sabida
Sou um homem salvo, longo, temperado
levado ao brando fogo da feitura abusiva e serena
pelos donos da vida, desta, daquela, dos nomes das ruas
adormecidas
sou um homem chamado de homem sem que assim possa um deus conceber
sem o sangue largo, desde os dias repetidos em que as palavras ainda infantes foram-me os
[homens levando
amiúde e sem anunciada justa piedosa partida
sou um homem acertado
com as contas das horas, invisíveis e brancas, são os olhos talvez sou um homem
construído e estourado na noite
reavido e adestrado no dia
sou um homem arcado, cercado, dormente
embora não mos possam levar
os bicos vermelhos dos seios, rijos, eriçados
ao roçar qualquer da primeira brisa
***
somente vogais são palavras
aproxima-se um lento rebanho
mudos dentes, palato, tratasse
dist’então minh’então desventura,
mas nem tão se carregam sozinhas
quanto em só já pertençam-se suas
levantam-se pororocas
e delas, abluídas,
emergem vogais despidas
a soar como quem se acorda
eis a só sinonímia possível
quando trota o rebanho em plurais
trotem cais, trotem sais, restam ai
nasçam ai, cresçam ai, morram ai
comam ai, corram ai, riam ai
os mares salgados ai,
veleiros atracam ai
não engole – dizem – tua saliva
de vogal não passa tua palavra
aproxima o rebanho baboso
e à boca encharcada se engorda
trotem sais, trotem cais restam ai
os mares salgados ai
veleiros atracam ai.
***
coceira no canto da manhã
também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.
(Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)
Qual seria o melhor abrigo para um poeta? Refugiar-se no “Olimpo” da criação ou diluir-se por entre o ritual cotidiano dos mortais? Esse tipo de autor é mesmo um ser supremo, ao qual lhe é dada a exclusividade de ver através do escuro do mundo? Talvez passássemos o resto de nossos dias buscando respostas para tais indagações, mas o fato é que há quem se debruce por esses caminhos com um olhar de necessária inquietude. E melhor ainda, ouse atirar seus versos ao vento como forma de marcar sua trajetória de vida. Estes e outros atributos nos servem de guia para entender um pouco do que paira sobre a obra do poeta mineiro L. Rafael Nolli, criador que invariavelmente tem a existência como uma dissonante orquestração de porquês.
Natural de Araxá, Nolli deixa clara em seus versos a pulsão vigorosa e, nalguns momentos, ácida desse desvairado ato que é viver. Não bastasse a marca crítica e irreverente de seus escritos, o autor também sugere um caminho alternativo para o lirismo. Aqui, diga-se de passagem, os dotes da emoção são projetados para um ambiente no qual a contemplação pura e simples vai empunhar outras bandeiras. Nesse ínterim, a inconformidade conduz a voz do poeta e, assim, o texto assume o lugar duma fratura exposta daquilo que representa a miríade sociológica do mundo. O clamor presente em Nolli traz entalada na garganta a espinha dorsal da sociedade de consumo, arregimentando um modo permanentemente insone de conceber tudo aquilo em que nos transformamos. O homem máquina, subproduto duma metafórica e agastada miopia, é personagem predileto da jornada desse autor que, sem fazer concessões de qualquer tipo, não lamenta pelas vias tortuosas da humanidade.
O desejo de poder dialogar com o autor de Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2012) é algo que há muito permeia o ambiente da Diversos Afins. Assim, ousamos sondar um pouco do que compõe o universo particular de L. Rafael Nolli. O resultado disso implicou na materialização de sentimentos, todos eles bastante coerentes com o que a obra desse incansável poeta contemporâneo sugere.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – Sua manifestação poética possui um caráter aguçado diante da vida. Erguem-se imagens e signos diversos em torno duma atitude desperta e crítica. Aceita o atributo de que seus versos são um exercício de resistência?
L. RAFAEL NOLLI – É muito fácil deixar a poesia em segundo plano, esquecê-la em detrimento de todas as atividades banais que movem a nossa vida. É fácil esquecê-la pelo fato de que não há espaço para a poesia na correria do dia a dia, na velocidade em que tudo acontece; é fácil esquecê-la diante do pouco retorno que ela nos dá: são poucos os leitores, escassos os espaços para publicação e praticamente inexistentes os incentivos. Desse modo, escrever é uma forma de resistir, de impedir que eu me torne mais um pobre diabo correndo do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, sem tempo para nada que extrapole o óbvio, o superficial.
Em muitos casos, nem é necessário que um poema seja escrito. O fato de ter um poema em processo, sendo elaborado, mesmo que ainda completamente nebuloso, já basta para me sentir vivo. Nesse sentido, acho que o termo “resistir” cai muito bem, pois a poesia é a minha boia de salvação.
O poema do Drummond diz tudo: “gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. […] Mas a poesia deste momento inunda a minha vida inteira”.
DA – Na construção de um discurso que engendra aspectos sociológicos, você consegue afugentar o viés didático e quiçá panfletário atinente a tais reflexões. Percebe isso como um desafio criativo?
L. RAFAEL NOLLI – Tudo relacionado à poesia é um desafio. Com certeza, o didatismo e a poesia panfletária são coisas que quero evitar ao máximo, da mesma forma que o obscurantismo, o hermetismo, o sentimentalismo e o discurso pomposo, ainda que exista certo romantismo em torno da ideia de que a poesia panfletária é menor por não sobreviver ao tempo. E que poema sobrevive ao tempo? Entre os modernistas, centenas de poetas publicavam, buscavam espaço, alguns muito bons. Desapareceram. Tenho um pouco de medo da ideia de que se deve evitar o poema panfletário porque o poeta deve criar algo sublime que irá mudar o rumo das coisas no futuro. Muitos poetas pensam assim, como seres excepcionais que estão criando coisas grandiosas e eternas. Bobagem. Como disse, a poesia é exigente demais. O desafio é enorme, sempre.
DA – Sua resposta anterior lembra muito a questão da chamada angústia da criação, na qual alguns poetas se debruçam num esforço descomunal em torno de um resultado impactante. Há mesmo algum sentido nessa necessidade de se erguer uma obra monumental e que traga em si um status de permanência?
L. RAFAEL NOLLI – Acho difícil uma pessoa criar um projeto de escrita “monumental”, assim como se cria o projeto de uma casa. Quem dera as coisas fossem assim: bastasse elaborar um plano de escrita genial, colocá-lo em prática e zás, eis mais um Fernando Pessoa! Como disse, a poesia é muito exigente, não existem fórmulas ou métodos para se conseguir um bom poema, não há atalhos. Se um poema permanecerá, pouco podemos fazer para que isso aconteça além de publicá-lo. O resto não cabe a ninguém, é um processo aleatório que independe do poeta. Aí está uma das belezas da poesia, não se pode transformá-la em um fenômeno como se faz com um romance, usando meia dúzia de fórmulas e uma campanha de marketing. O poema corre por fora, como um azarão. Se ele sobrevive, dificilmente isso ocorrerá porque o seu criador o quis assim. A angústia em criar algo duradouro me parece um delírio faraônico. Ela deve ser canalizada para se criar algo honesto, sincero. O tempo faz o resto.
DA – Um poeta, quando “desce da montanha” onde buscava algo supremo, não parece mais coerente com a condição essencialmente humana?
L. RAFAEL NOLLI – Com certeza, é mais coerente. Claro que subir a montanha pode ser importante, assim como foi para o Zaratustra do Nietzsche, que retornou pregando a vontade de viver e o amor à terra. Subir a montanha pode ser também uma defesa, já que o poeta muitas vezes não encontra leitores ou respaldo entre outros escritores. Essa postura de isolamento é muito comum, o poeta se fecha em seu blog ou em um perfil do facebook e faz disso a sua trincheira. Em outros casos, pequenos grupos de poetas constroem uma montanha e lá sobem, impedindo a todos de se aproximarem. O panorama me parece mais ou menos esse: todos sobre montanhas, alguns em grupos, outros sozinhos, cada um falando uma língua, a maioria confortavelmente escondida do mundo. O problema pode mesmo ser a falta de leitores ou de incentivos para aproximar a poesia das pessoas, ou pode ser um problema criado pelos poetas que não querem diálogo nenhum e se sentem confortáveis com a ideia de praticarem uma arte para poucos ou para ninguém. Nesse momento, sinceramente, acho que subir e se esconder não é o melhor caminho. Porém, não estou muito seguro se, ao descer, o poeta não vá conviver com outros senão aqueles que também desceram da montanha.
DA – De algum modo, carecemos de desmitificar a poesia rumo a um caminho efetivo de aproximação com os leitores? Se sim, como fazê-lo sem desnaturar o gênero?
L. RAFAEL NOLLI – Não tenho uma teoria digna para esse assunto, apenas especulações. Desmitificar a poesia parece um caminho, mas talvez não resolva o problema. Muitos leitores, de contos, romances, biografias, não possuem livros de poemas em casa. O que alegam? Que a poesia é chata? É difícil, complexa, incomunicável? Como mudar essa visão? Valorizando autores? Está nas aulas de literatura o problema? A impressão que temos é que a poesia está escondida, em sua torre de marfim, e ninguém se arrisca a salvá-la.
Uma ação possível que atraia leitores pode ser retirar a poesia das prateleiras das bibliotecas, ou de obscuros blogs e levá-la à rua. Recentemente, participei de um projeto que unia graffiti e poesia. Após as aulas teóricas, onde se aprendia a fazer moldes, usar as cores, etc, os alunos saíam para a aula prática, espalhando poemas pelos muros da cidade. O retorno foi ótimo. Muitas pessoas paravam – e creio que ainda param – diante dos graffitis e ficavam impressionadas com aquilo. As pessoas se surpreendiam com o que liam e, em geral, tinham dúvidas que foram jogadas por terra pela geração de 22: “mas isso é poesia? Não rima, não fala de amor, tem gírias, palavrões…” etc. Ainda persiste, infelizmente, o conceito de poesia rimada, com palavras difíceis, praticamente incomunicável, distante da vida real. Levar poemas para a rua me parece uma forma de desmitificá-la, aproximá-la das pessoas. Uma parte da poesia produzida hoje é produto laboratorial, feita em salas fechadas, sem uma única janela aberta que dê um vislumbre da rua. Ferreira Gullar diz que “Quando surge uma ideia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora, ele está nascendo”.
Levar o poema até as pessoas, na rua, em fusão, simbiose com outras formas de arte será o caminho? Isso não levaria a uma descaracterização do poema como o conhecemos? Como disse, são especulações apenas.
DA – “Elefante”, seu mais recente livro, vem ao mundo de modo não apenas independente, mas artesanal. Qual o maior significado dessa sua opção editorial?
L. RAFAEL NOLLI – Foi uma opção que fiz e que me agradou muito. Em 2005, publiquei Memórias à Beira de um Estopim. Procurei financiamento em meio a empresas, levantei o dinheiro, e uma gráfica se encarregou do resto. Fiquei com uma pilha enorme de livros em casa, ocupando espaço. Desde então, venho buscando uma alternativa para publicar novamente. É triste depender de empresas privadas para isso. As editoras não estão abertas a poesia, pois essa não vende; os projetos de incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo, são de uma burocracia sem tamanho. Foi nesse contexto desanimador que conheci a cartonaria. A ideia é bem simples e apaixonante, os livros são confeccionados um a um, de forma artesanal, com capa de papelão ou de leite longa vida, sendo que cada exemplar é personalizado, único. Existem muitas editoras fazendo isso, todas são pequenas, sem finalidades comerciais, publicando em pequeníssimas tiragens, muitas vezes com Financiamento Coletivo (Crowdfunding). Assim, resolvi criar uma editora nesses moldes, convidando amigos para ajudar na tarefa. Assim, veio ao mundo meu livro Elefante e uma coletânea, chamada Fórceps, com autores de Araxá. Lentamente, vamos confeccionando os livros, pintando as capas, montando os cadernos, colando, costurando, etc. É um projeto autossuficiente: os lucros, que são mínimos, são investidos em material para se fazer mais livros, criando um ciclo.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – No Brasil, como seria possível vislumbrar uma harmonização entre mercado e poesia?
L. RAFAEL NOLLI – Acho cada vez mais que “poesia e mercado” são inconciliáveis. O mercado transforma tudo que toca, formata e modifica para facilitar a venda e ampliar os lucros. Não consigo vislumbrar, nesse sistema em que vivemos, baseado no consumo rápido e desenfreado, um lugar seguro para a poesia. O grande problema mesmo, me parece, é sistêmico: vivemos em um mundo onde tudo é produto de consumo rápido, tudo é descartável. A poesia necessita de reflexão, de tempo. Para piorar, a poesia exige releitura, digestão: quem leu um poema uma única vez não o leu! É um projeto em longo prazo, de compromisso. O mercado exige que a mercadoria se estrague, perca a validade, saia de moda: a obsolescência programada.
A única saída é a formação de leitores. Não há, salvo raras exceções, leitores de poesia que não sejam poetas. O pior em tudo, o mais lastimável? Poetas que sequer são leitores de poesia! Como eu disse, é uma questão problemática, muito complexa. Um exemplo prático: as tiragens de livros de poemas são modestas. Isso ocorre porque não se encontram “compradores” em grande escala. É uma regra simples, o mercado se equilibra em Oferta e Procura e, nesse momento, a palavra poesia mais assusta do que atrai. Vale a pena ressaltar que o problema dos leitores está muito longe da alçada dos poetas. Claro que eles – os poetas – contribuem para aprofundar o problema, mas em geral esses poetas são pequenas peças em um tabuleiro. A falta de incentivos, de editoras especializadas, de espaços para leitura, de debates, de possibilidades de divulgação, a feiras, etc, amplia o problema. Não acredito em poesia como um produto rentável, nem vejo como isso possa acontecer. O que me preocupa é não haver espaço nenhum.
DA – Entre sua porção de educador e a de escritor, quais pontos de convergência considera especiais?
L. RAFAEL NOLLI – São muitos os pontos de convergência. Recentemente, li o livro “Conversas com Elizabeth Bishop”, uma coletânea com as principais entrevistas concedidas pela escritora norte-americana. Nessa obra, ela se orgulha do fato de ser a única poeta estadunidense que vive sem dar aulas. Bishop era uma exceção e nos mostra que a relação escritor e sala de aula não é uma coisa recente. Conheço muitos poetas que ganham a vida como professores. Já que ninguém consegue viver de poesia, é natural que poetas ganhem a vida em sala de aula, como jornalistas, ou algo similar. A sala de aula é um ambiente muito enriquecedor, que possibilita uma troca enorme, não só de informações, mas de comportamento, formas de ver o mundo e interpretá-lo, etc. A sala de aula, como a escrita, exige sensibilidade, percepção apurada, paciência.
DA – Há que se combater certos determinismos em matéria literária. Talvez o pior deles seja acreditar que a maioria das pessoas em nosso país é permanentemente desinteressada pela leitura. Em que medida autores também são responsáveis pela manutenção desse discurso?
L. RAFAEL NOLLI – Infelizmente, somos um país de não-leitores. Os números não mentem: temos 8% de analfabetos (algo em torno de 10 milhões de pessoas), apenas metade da população pode ser considerada leitora. A média de anos de estudo é ridícula: 7,4 anos! Ou seja, a maioria dos brasileiros não possui o Ensino Fundamental completo. Por fim, outro número dessa tragédia: nossa média de livros lidos por ano é de apenas 4! Isso sem entrar no mérito referente à qualidade literária dessas obras! Digo isso sem cair no erro do determinismo, que é uma enorme bobagem.
Acho apenas que o desinteresse, que é real, não é permanente, imutável. Trata-se de um momento, já extenso e duradouro, que é fruto de uma série de problemas que têm raízes profundas. Porém, nada impede que essa realidade mude. Falta incentivo, interesse político, boa vontade da mídia e não sei mais o quê. Uma dezena de motivos. Tenho certeza de que se as pessoas tiverem acesso ao livro, o problema será resolvido, pois não conheço nada melhor do que ler. Temo que muitos grandes livros estejam perdidos, esquecidos, aguardando uma geração de leitores.
Sempre ouvi dizer que a leitura nunca vai ser incentivada pois “um povo que lê não pode ser enganado”, “um povo que lê sabe cobrar os seus direitos”, “sabe votar”. Sei que isso é uma ideia romântica, idealizada, bobinha. Mas não creio que seja uma ideia totalmente errônea. Ler pode mesmo fazer a diferença, mudar o rumos das coisas, ainda que não seja uma ação voltada para isso. Conhecimento é poder? Com certeza. Sabemos que temos muitos nos governando que nunca mais seriam eleitos se o povo passasse a buscar mais informações. Parece teoria da conspiração? Pode ser. Mas não vejo outro motivo plausível para tamanho desprezo, por parte do poder político e da mídia, que explique essa situação.
Com todo o exposto, o papel do escritor, nesse caso, me parece muito pequeno, pois ele luta contra uma máquina poderosa, muito maior do que pode imaginar. O papel dos escritores deveria ser apenas o de escrever bons livros. No entanto, isso não basta, é preciso lutar contra essa máquina. Como lutar? Recorro mais uma vez ao Drummond: Posso, sem armas, revoltar-me? Espero que sim.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é uma questão interessante. Em duas ocasiões, estudei, no sentido mais didático da palavra, a pós-modernidade: quando me formei em Letras e, posteriormente, em minha graduação em Geografia. É um assunto interessante, muito enriquecedor, porém, algo complexo, difícil. Não endosso, por exemplo, esse conceito de que as ideologias morreram, que não há espaço para utopias, que o século XX enterrou todas utopias.
Reconheço que o século XX mostrou o fracasso de alguns modelos de socialismo. No entanto, o socialismo, enquanto ideologia, continua vivo, atual, e urgente. Novas tentativas podem ser feitas, já que o arcabouço ideológico é enorme, riquíssimo. O capitalismo nunca deu certo e estamos aí assistindo a tentativas e mais tentativas de mantê-lo de pé. Por que não com o socialismo? A ideia de que não há mais por que se lutar me assusta muito. Quando alguém cita Fukuyama, me dá um arrepio horroroso na espinha. É uma grande idiotice acreditar que a história chegou ao fim. Esse finitismo é um veneno para a sociedade – com reflexos sombrios sobre a arte.
DA – Abraçando a noção de se travar embates pela palavra, em que nível de percepção está a poesia de L. Rafael Nolli?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é, com certeza, a pergunta mais difícil de todas. Eu escrevo, mas isso é um processo que não domino ou entendo por completo. De repente, tenho uma ideia na cabeça e sei que essa ideia vai virar um poema (ideia é uma péssima palavra para descrever esse processo, mas não consigo pensar em outra melhor). Ou seja, é um trabalho inconsciente que não está sob as minhas ordens. Lógico que depois de escritos posso juntar esses poemas e tentar entender o que eles abarcam, notar familiaridades que revelam um padrão, que criam um eixo. Agora, em que nível de percepção eles estão? Realmente, não sei. Temo que seja impossível sabê-lo!
*Alguns poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos aqui