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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Assis Freitas

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sob a fina caligrafia de um blues

 

quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

 

 

***

 

 

Suíte burlesca para um diálogo com a ausência

 

foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silêncio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

 

 

***

 

 

Nenhum silêncio vaza do relâmpago

 

Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lâmina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

 

 

***

 

 

Sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos

 

havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

 

 

***

 

 

Ária para voo de asa breve

 

mergulha o silêncio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão

 

 

***

 

 

Berceuse de náufrago para refúgio de temporal

 

dos olhos quero a dobradura do pranto
o mar desavisado a banhar-me o canto

do peito perquiro naus e refúgio de vela
o feitiço de cordas rugindo em rebuliço

do coração nada posso intuir em prece
há o desvão de sílabas em passo célere

 

 

***

 

 

Improviso para lâminas, pedras e oboés

 

afio nas pedras minhas retinas
fio por fio a coser melancolias

e o fino tecido a que me alinho
flui na imensidão devagarinho

colho nos olhos rios de algaravia
do aturdido caminho sem utopia

 

 

(José de Assis Freitas Filho é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA), nasceu e mora na cidade de Feira de Santana-Ba). Em 1998, publicou o livro de contos O Mapa da Cidade, pela Coleção Flor de Mandacaru do MAC de Feira de Santana. Em 2009, lançou o livro de contos O Ulisses no supermercado como prêmio do concurso CDL de Literatura de Feira de Santana. Em 2012, publicou O ano que Fidel foi excomungado pela Editora Penalux. Lançou, em janeiro de 2013, o livro Poemas de urgência para súbitos desalinhos pela Editora Multifoco. Edita os blogs: Mil e um poemas e Árvore da poesia)


 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Olhares

Olhares

O gosto permanente da redescoberta

Por Fabrício Brandão


Foto: Jussara Almstadter

 

Uma das grandes perspectivas trazidas pela fotografia é o fato de podermos perceber as coisas como se pela primeira vez. Sentimento tal que, diante das horas, esquecer-nos-íamos do turbilhão que nos assola e não mais desprezaríamos aquilo que passa sempre ao largo de nossos olhos. Então, surge o questionamento: como ressignificar uma rotina que se acredita eivada de desbotados tons?

Quiçá a fotógrafa Jussara Almstadter possa nos auxiliar a responder um pouco a indagação deixada acima. Dona de um trabalho que agrega olhares incisivos sobre as coisas, Jussara está mais para o enfrentamento do que para a fuga quando o tema é redimensionar cenários de vida. E como quem busca um sentido original para os lampejos que nos acometem os dias, a artista vai tornando suas imagens verdadeiros instrumentos de contemplação dos mistérios humanos.

Aos poucos, fragmentos do cotidiano vêm marcados por uma forte carga subjetiva nos registros imagéticos da artista. Em vários momentos, paira a sensação de que o universo humano ali caracterizado reflete um desejo de retorno ao ponto sublime das coisas, como se o contrário do tempo pudesse representar uma via serena de renovação.

Foto: Jussara Almstadter

Em Jussara, não são poucas as oportunidades que temos de compartilhar desse mergulho por caminhos que nos chacoalham as certezas. Trabalhos como Cemitério da Saudade (uma evocação à permanência da existência), Gestual Caleidoscópico (cuja virtude maior é vislumbrar uma ordenação poética para nossas expressões) e Umbanda (série que exalta a harmonização entre corpo e alma proporcionada pela fé) possuem uma importância fundamental para a trajetória da fotógrafa.

Com incursões também pelo desenho e pela escultura, Jussara formou-se em Fotografia pela Escola Panamericana de Artes e Design. Sua relação com a imagem vem desde a mais tenra idade, tendo no ambiente familiar uma importante motivação.

Um dos trunfos de se captar da luz seus flagrantes é a possibilidade de conferir uma outra amplitude aos objetos retratados. Nesse processo, tanto pessoas quanto lugares recebem um tratamento que amplia sua individualidade, como se um perene movimento de retorno fosse sempre impulsionado rumo ao universo externo que nos aguarda. Assim, Jussara Almstadter é porta-voz dum sentido circular das coisas, aprimorando sensações e retroalimentando a roda viva do tempo. A partir dela, não há um fim para a viagem, apenas o ato de cruzar o caminho de nossas costumeiras complexidades e retirar disso um valioso proveito.

Foto: Jussara Almstadter

* As fotografias de Jussara Almstadter são parte integrante da galeria e dos textos da 84ª Leva.

 

 

 

 

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Janela Poética III

Ehre

 

Foto: Jussara Almstadter

 

verbal life

 

no avesso do dia,
lídice aponta o indicador
e desenha sobre a pele
como tatuagem,
um totem para seu libelo:
ama e ao mesmo tempo

disfarça
esquece
esconde-se
divaga
declina
e cala-se

seu archanjo guarda nos olhos
seis âncoras
e lança uma garrafa
com sete linhas ao centro:
disfarce é a neblina do sujeito
……que esquece
……esconde
……divaga
……declina
.e permanece calado

em seu presente imperfeito
amor é  predicado

 

 

***

 

 

flavors

 

I

entre as paredes de vidro da metrópole, ele tem sempre à mão:
um aparelho de telefone móvel regado a 3G,
um tablet empanado com tela fulll HD de 10 polegadas,
um notebook com o recheio de sete contas em redes sociais
e diria um olhar venusiano, desde a janela de uma estrela,
que ele é um sucesso de interação,
mas o ouvido de uma lagarta estacionado em seu quarto no domingo à tarde
concluiria que ele é sinônimo de solidão avançada

 

II

no subúrbio do mundo, no mural de uma caverna
escreveram um beijo com a ponta afiada de uma pedra

 

 

***

 

 

A A.

 

Os sentidos submersos no copo

O corpo
beijando a calçada como se fosse carne,
mas era líquido.

As talhas abarrotadas…

Agora o milagre
é transformar o vinho.

 

 

***

 

 

linha de voo

 

há uma luz que não é janeiro ou manhã
mas chega entre o fim de tarde e seu ocaso

há uma fé que desafia
………..o chão
………..o muro alto
………..o cansaço
………..gente tem por vocação horizonte

amor anda para trás só antes            do salto

 

 

***

 

 

gardênia

 

A flor violentou o muro
da divisa de pedras que a cercava
Já não temia a estrada vertical
Seus pés
brotando
e dizendo:
Crescer não é ter um número a mais
mas um temor a menos

 

 

(Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo)

 

 

 

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