Ilustração: Denise Scaramai

Diante de 82 Levas, a avidez por novas conquistas faz-se cada vez mais presente. E tudo se traduz numa espécie de motor do crescimento, desejo incessante de firmar caminhos através daquilo que se tem de mais especial: o potencial da descoberta. Importante mesmo é constatar que não há nada definitivo nessa busca, principalmente porque as criações que intentam algum reconhecimento, além de não se conformarem a regramentos meramente cartesianos, necessitam de certa dose de ousadia. Carecem sempre de mexer com nossas estruturas e percepções, lembrando-nos que vivemos num mundo onde a inércia e a apatia devem ser combatidas com toda a gana que pudermos. Ao mesmo tempo, cabe lembrar que o universo de coisas que nos rodeia já é, por si só, capaz de nos trazer algumas válidas reflexões e, consequentemente, ações. Por isso, o inconformismo com ditames vazios. Por isso, vale a luta contra as amarras do pensamento, quiçá o pior dos inimigos de quem se propõe a criar. A quem interessaria, por exemplo, a elitização do saber e dos feitos culturais? Em nome do quê atravancar caminhos e vias de acesso ao ato de experimentar a arte sob suas mais variadas formas? Para um autor, a maturidade é joia rara e, em muitos casos, chega a beirar o inatingível. Haveria, então, uma resposta pronta para a dúvida sobre o momento certo de se executar as coisas? Muito se questiona sobre quando alguém estaria definitivamente pronto para tomar as rédeas de si em matéria de criação literária. Apesar de presenciarmos um momento de múltiplas intervenções em torno da escrita, com toda a sorte de expressões a surgir, nosso refúgio maior e melhor aponta para o deus leitura. Nele, encontramos alimento para pensar, agir e, tendo propriedade para tal, expelirmos algo sob a forma de palavras. Hoje, operemos no campo das escutas, emprestando dotes para a alteridade. Talvez assim encontremos um ponto exato de ajuste, de diálogo. Pensando nisso, podemos desbravar as searas poéticas de gente como Leonardo Chioda, Rosana Banharoli, Pedro Du Bois, Maria Quintans e Carina Carvalho. Do mesmo modo, penetrar na prosa cotidiana e densa de José Geraldo Neres, Ieda Estergilda e Marcus Vinícius Rodrigues. Marcando seu momento inaugural entre nós, o jornalista e professor Fernando Marques promove uma verdadeira viagem pela obra “História Mundial do Teatro”, de Margot Berthold. Numa boa conversa sobre literatura e seus afins, entrevistamos o escritor baiano Rodrigo Melo, que também estreia no caderno Gramofone ao conduzir nossas escutas pelo disco de Jair Naves. O poeta Jorge Elias Neto apresenta-nos o mais novo livro de W. J. Solha. Larissa Mendes reflete sobre o filme “Antes da Meia-Noite”. E para coroar todo o coletivo de expressões aqui disposto, expomos, por entre todos os nossos recantos, os sensíveis registros fotográficos de Milena Palladino, artista que mergulha no universo da simplicidade. Uma nova edição surge inteiramente voltada para celebrar sua presença entre nós, caro leitor. Boas incursões!
Os Leveiros
Por Rodrigo Melo
JAIR NAVES – E VOCÊ SE SENTE NUMA CELA ESCURA, PLANEJANDO A SUA FUGA, CAVANDO O CHÃO COM AS PRÓPRIAS UNHAS
Jair Naves é um sujeito magro, de nariz grande e olhar perdido que, ao vê-lo na rua, você provavelmente ficará a imaginar que é mais um órfão de Ian Curtis ou Kurt Cobain, um desses rockers que perderam o bonde, mas mantém a pose, o jeito um tanto tímido e enigmático no caminhar. Há uma porção por aí, e eles passam as tardes zanzando de um lugar para o outro, fumando cigarros, olhando as coisas, criando teorias sobre como tudo poderia ter sido se seus ídolos não tivessem morrido. Jair, entretanto, embora pareça, não é um desses órfãos, tampouco perdeu o bonde para algum lugar. Circulando há um bom tempo pela dita cena alternativa nacional, a primeira vez que soube dele foi através da banda Ludovic. Lançaram dois discos muito bons, cultuados hoje, com um hardcore de primeira linha, sem frescuras, por alguns alcunhado de hardcore pé de cana – em cima do palco, e ele era o frontman, o seu jeito retraído desaparecia, como se assumisse outra personalidade ali. Antes da Ludovic, participou, ainda, como baixista no último disco da Okotô, outra banda de destaque.
As bandas, no entanto, acabaram, e Jair sumiu.
Em 2010, ouvi falar dele outra vez. Ensaiava uma carreia solo. O nome do ep era Araguari, e há toda uma história sobre a escolha desse nome. Araguari é, na verdade, a cidade mineira em que Jair nasceu. Em 1967, Luís Sérgio Person dirigiu o filme “O Caso dos Irmãos Naves”, que contava a história de Sebastião e Joaquim Naves, parentes distantes do nosso rocker, acusados, presos, e torturados por um crime que não cometeram. O filme foi premiado, a história ganhou destaque e um dia, muitos anos depois, chegou às mãos de Jair. Identificando-se com o filme, ele viveu um tipo de resgate, usando a história e lembranças que tinha da cidade como alimento para voltar a criar. Numa das músicas, Araguari I(Meus Amores Perdidos), ele diz: “As lembranças que guardo de Araguari/ Resumem-se ao dia em que fugi/ Caçado de perto por uma multidão/ Decidida a fazer justiça com as próprias mãos”. Entre uma faixa e outra do ep, trechos de áudio do filme de Person.
Um ano depois, ele lançou o single “Um Passo por Vez”.

Mas vamos a 2012, é por isso que estou aqui. Foi neste ano que saiu o disco E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas. Quase ninguém mais consegue, ou pelo menos tenta, títulos assim. Pensei que era ousado, sobretudo por flertar, perigosamente, com o lugar comum. Um monte de gente já sucumbiu a esse ardil. Mas devo dizer que, quando se é honesto e o sujeito gosta do que faz, os riscos diminuem. E o disco de Jair é bastante verdadeiro, dá para saber logo nos primeiros minutos de audição. Com uma pegada mais leve, mas ainda assim densa, o disco é cheio de melancolia e de um tipo de desespero contido, as músicas iniciando-se e acabando como se estivessem de mãos dadas, uma ligada à outra, por vezes transparecendo influências (de Wander Wildner, ao folk, pós-punk e algumas bandas dos anos oitenta), só que com uma atmosfera contemporânea e por demais particular, sem, justamente por isso, soar datado ou como se fosse alguma repetição. Sem perceber, você aos poucos se acostuma àquela toada de trovador perdido que Jair tem.
Outro fator que diferencia o disco são as letras. Mesmo quando fala de assuntos comuns, como amor e desilusão, seu jeito de tratar o tema chega a ser em alguns momentos literário, não se contentando em apenas rimar ou agradar. Um exemplo disso é a letra da música A Meu Ver: “Então me recebe/ Como eu te receberia/ No melhor dos momentos/ Ou no pior dos seus dias/ Estou tão esgotado/ Tudo é frágil demais/ Posso não estar aqui/ Quando olhar para trás/ Então hoje me abraça/ Como eu te abraçaria/ No pior dos seus dias”.
Ian Curtis, tudo faz crer, gostaria disso aí.
E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas é um disco que vale ser conferido. Talvez não te encante logo de cara, ou do jeito que me encantou. Meu conselho é este: escute algumas vezes mais, depois a gente conversa novamente.
No mesmo ano, 2012, Jair Naves ganhou o prêmio Revelação da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, e foi considerado um dos mais talentosos e promissores compositores de sua geração.
Ele é aquele sujeito do início: tímido e narigudo, de jeito meio enigmático ou estranho, que, ao passar por você na rua, talvez olhe para o chão.
(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo. Recentemente, integrou a coletânea de contos 82 – Uma Copa l Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo)
Maria Quintans

É neste inferno que se mascara o poema. Um homem nu, duro de barba e porte e o silêncio esta humilhação só suportável pelo medo.
Irei guardar as nossas conversas num balde de luz. Saberemos sempre que a viagem é longa mas que a chamamos a nós. E a passagem ampliará a hora. Todas as horas desesperadas na quebra da negação.
Todos os silêncios são um só. E o leite há-de chegar a escorrer pelo copo cheio onde todos beberemos, indiferentes se gostamos, não gostamos, ou queremos.
E neste inferno a satisfação supõe um instante, um só instante ampliado pela vida encontrada sempre que o sofrimento cai de quatro em genuflexão obrigatória.
Do medo faremos o silêncio e nada responderemos às perguntas feitas à noite, em horas insensatas para os poemas que dormem.
O silêncio será sempre a longa transformação da palavra.
***
há uma sombra enorme na minha cabeça. uma coisa que depois de tudo não é nada mas que quando acontece é hoje. escava doido um alfinete dentro do peito a picar os teus mamilos que se escondem no armário porque eu sou a minha mão no fundo do teu sofrimento.
há um desenho enorme na minha cabeça que vibra na renúncia da vontade e fala de sereias e de invernos estreitos num corpo a fugir à pressa selvagem, estrangulado numa alegria estúpida, cada vez mais isolada, agarrada à luz que tudo abre se pensarmos que o martírio dos olhos são os próprios olhos, distraídos pelas sombras que andam de um lado para o outro às cegas,
incertas e separadas de placentas-mãos, e pausas na respiração dos homens suaves.
há um caminho deserto na minha cabeça que roda sobre si e nunca compreende a voz que lhe amacia as grades da janela de onde nunca se vê o condenado, por ser ela própria a teia, a máscara – a mão entre a fúria e o amor a comer de pé as bocas enroladas na luxúria dos deuses analfabetos.
lá fora é apenas noite na sombra da minha cabeça.
***
os habitantes das árvores transformam-se em peixes
rebolam nas palavras com as antenas de fora e
seguem os gatos.
as flores amar-se-ão sempre
num voluptuoso lago crescido de flamingos-frangos
as formigas nunca poderão descer das árvores com o aquário por baixo.
os flamingos-frangos descansam numa pata e os outros bichos olham-se numa teimosia danada.
é um problema sem solução.
***
Poema como se fosse tudo
esta é a metafísica saturada do sonho:
não dizer nada
dormir com o cão enrolado à pele
rasgar no desejo o fôlego do poema
afundar de ironia a almofada do silêncio.
(Maria Quintans é escritora em Lisboa, Portugal. Publicou em 2008 o livro de poemas “Apoplexia da Ideia”; em 2010 “Chama-me Constança” e em 2013 “O Silêncio” (Editora Hariemuj).Em 2009 faz parte da criação da Revista Inútil, onde é diretora editorial. Em 2011 cria a Editora Hariemuj, que se dedica especialmente à poesia. Organiza, em 2012, a antologia poética “Meditações sobre o Fim – Os últimos poemas” (Hariemuj Editora))
A ETERNA ARTE DO EFÊMERO
Por Fernando Marques
Teatro do Egito à Grécia
No princípio, era o rito. Os livros que contam a história do teatro costumam começar pela admissão de que o fenômeno cênico foi, na origem, cerimônia mística. Há quem lembre, também, o parentesco essencial entre teatro e jogo. Para os que ressaltam o papel do sentimento religioso na gênese do espetáculo, nos primeiros tempos não havia espectadores, mas fiéis; tampouco existiam atores, e sim sacerdotes. Os eventos apresentaram esses traços no Egito, na Índia, na Grécia pré-socrática.
Autora da monumental, embora não exaustiva, História mundial do teatro, a alemã Margot Berthold inicia seu livro com afirmação semelhante. Para haver teatro, diz, o ocupante do palco deve situar-se além das leis cotidianas – que definem identidade e alteridade, por exemplo – e tem de contar com público disposto a ouvir “a mensagem desse vislumbre”.
Pode-se supor, com Berthold, que a divisa entre rito e espetáculo, ou entre religião e teatro, se encontre no momento em que o fiel perde a inocência, a fé, quando já não crê estar diante do próprio deus, mas percebe que se trata de simples representação, ainda que impressiva, da divindade. O crente transforma-se, a essa altura, em espectador – mudança que, sob certas circunstâncias históricas, deve ter demandado séculos. O teatro, menos rito do que jogo, procede por metáfora, por fingimento consentido, e o ator, na sua capacidade de criar a ilusão da metamorfose, é seu elemento básico, sugere a autora.
Em todo caso, a ideia de que o teatro nasce do rito e do mito parece aplicar-se melhor ao gênero trágico, ligado à morte e à perda inevitáveis. Já a comédia, embora se origine em festas de caráter fálico, igualmente religiosas, relaciona-se menos ao momento ritual de exceção e mais à vida cotidiana (pensamos aqui na tradição de origem grega).
Naturalmente, o livro de Berthold privilegia a história, não a teoria – não pretende especular em torno do teatro, mas descrever e comentar suas manifestações. O longo passeio, fartamente ilustrado, pelas inúmeras formas assumidas pela cena nos leva, nos primeiros capítulos, ao Egito e à Mesopotâmia, às regiões islâmicas, Índia, China e Japão. Depois, a estudiosa retorna à Grécia e retoma o curso ocidental em ordem cronológica, tratando de Roma, Idade Média, Renascimento, até a modernidade – as datas mais recentes, entre as citadas no volume, giram em torno de 1965. Nota-se, no enorme esforço de síntese, traduzido em claro e elegante português, a ausência do teatro africano – já algo documentado, presume-se, quando da redação do livro (o Egito de que trata a autora é o arcaico). Faltam ainda referências à América Latina. Para informações sobre atividades cênicas na África, o leitor curioso pode recorrer a História do teatro, do baiano Nélson de Araújo, que fala sucintamente do assunto.
Os espetáculos que celebravam a paixão de Osíris, em Abidos, no Egito, estão entre as primeiras manifestações teatrais de que se tem notícia. Realizados ao ar livre e destinados a envolver toda a comunidade, aqueles festivais se assemelhavam aos que foram praticados na Mesopotâmia: “No reino de Nabucodonosor, o famoso festival do Ano Novo, em homenagem ao deus da cidade da Babilônia, Marduk, era celebrado com pompa espetacular”, anota Berthold. O poder de Estado fundava-se na religião, e todo o povo era periodicamente chamado a festejá-lo.

Entre povos islâmicos, a proibição de se representar a figura divina sob forma humana terá inibido o teatro. Artistas turcos, valendo-se de personagens cômicas – os bonecos Karagöz e Hadjeivat –, contornaram a interdição, disfarçando os traços humanos de suas criaturas. A lenda sobre a origem da dupla de bonecos lembra a intolerância que tantas vezes atingiu, em diversas épocas e países, os artistas do palco. Karagöz e Hadjeivat teriam existido realmente: eram operários-atores que, com anedotas e palhaçadas, distraíam os demais trabalhadores de seus deveres na construção de certo templo. O sultão da hora, por isso, mandou matá-los. Depois, arrependido, o chefe político procurou compensar o crime permitindo que os humoristas mortos revivessem, simbolicamente, na forma de bonecos. Confúcio, na China, também iria punir com a morte a irreverência dos atores cômicos.
Motivações religiosas estiveram na base do teatro na Índia, onde a arte do ator recebeu atenção especial. Ao contrário do que se deu entre povos islâmicos, “a conceituação antropomórfica dos deuses proporcionou o primeiro impulso para o drama”. O Natyasastra, livro escrito há cerca de 2000 anos pelo sábio Bharata, registra os princípios da atividade cênica, no que é um manual das artes da dança e do teatro*.
O Natyasastra requer, “tanto do dançarino quanto do ator, concentração extrema até as pontas dos dedos, de acordo com uma lista precisamente detalhada”. Aqui não se leva em conta a espontaneidade intuitiva, não se improvisa: as regras assemelham-se “a uma soma de valores matemáticos”. As maneiras de andar, por exemplo, são convencionais: “Uma cortesã caminha com passo ondulante, uma dama da corte com passinhos miúdos; um bobo caminha com os dedões dos pés apontados para cima, um cortesão com passos solenes, e um mendigo, arrastando os pés”.
Os 5000 anos de história chinesa contam que o teatro pôde ser útil na resistência ao invasor mongol, não em representações públicas, mas em livros que circulavam restritamente. Nesse caso, “os dramaturgos eram eruditos, médicos, literatos, cujos discípulos se reuniam em torno do mestre ao abrigo das salas particulares de recitais”. O aplauso popular, por outro lado, dirigia-se aos malabaristas, acrobatas e mimos. A herança desses artistas conserva-se no repertório da Ópera de Pequim, na qual a habilidade dos acrobatas “possui seu lugar de honra”.
A China também oferece bons exemplos de literatura dramática. Entre eles, estão os textos que aproveitaram a história do imperador Ming-Huang e de sua amante Yang Kuei-fei. Lances da trajetória do casal, que viveu no século VIII, dão mote a várias peças, como o drama O palácio da vida eterna, do final do século XVII. Diz Berthold: “As falas desta peça, imortalizando o juramento trocado entre o imperador e sua bem-amada, são tão bem conhecidas na China quanto o são, na Europa, as palavras da Julieta de Shakespeare”.
Mais visceral, talvez, é o episódio em que se inspira A beleza embriagada, “obra-prima de virtuosismo histriônico, que durante muitos anos fez parte do internacionalmente aclamado repertório da Ópera de Pequim”. Yang Kuei-fei espera o namorado, que a convidara para uma taça de vinho no Pavilhão das Cem Flores. A espera resulta inútil, o imperador preferiu cair nos braços de outra mulher. A moça rejeitada, então, se embriaga, tentando sufocar o ciúme.
Berthold afirma a importância desse “musical de ato único”, observando que, na encenação, é ressaltada a ação íntima, interior. A autora recorre às palavras do historiador Huang-hung, que sentencia: “Para chegar a uma apreciação correta do teatro chinês, o europeu precisa estar consciente de que o maior interesse não é tanto sublinhar a ação enquanto tal, mas deixar o público sentir a história. O acento está nas possibilidades espirituais, mais do que nas físicas”.
No Japão, por volta de 1720, o dramaturgo Chikamatsu pensa de modo similar: “Considero que o páthos seja inteiramente uma questão de contenção”, diz ele, acrescentando que, “quando todos os componentes da arte são dominados pela contenção, o resultado é muito comovente”. Entre os estilos mais importantes do teatro japonês, encontram-se o nô, que remonta ao século XIV e faz o elogio da ética heroica e aristocrática dos samurais, e o kabuki, encorajado pelo poder dos mercadores no século XVII, gênero que avançava no sentido de compreender “toda a extensão da realidade social”, utilizando dança e música.

Berthold chega, a essa altura, às matrizes gregas do teatro ocidental. Ali, o caminho que leva do rito à cena aparenta-se ao que se deu noutras épocas e noutras regiões, mas em grau diverso: “O teatro é uma obra de arte social e comunal; nunca isso foi mais verdadeiro do que na Grécia antiga”, diz a historiadora. Pode-se destacar, naquele acervo, a linha que vai de Ésquilo a Sófocles e deste a Eurípedes, os três grandes autores trágicos do período especialmente fértil iniciado em torno de 500 a.C., quando Ésquilo começa a participar dos concursos teatrais em Atenas, e terminado em 406 a.C., quando morre Eurípedes**.
Berthold descreve: “Os componentes dramáticos da tragédia arcaica eram um prólogo que explicava a história prévia, o cântico de entrada do coro, o relato dos mensageiros na trágica virada do destino e o lamento das vítimas”. De Ésquilo a Sófocles, diminuem as intervenções corais – o que se nota ao se comparar, por exemplo, uma peça como Agamenon, pertencente à trilogia esquiliana Oréstia, à Antígona, de Sófocles. Este, 30 anos mais jovem que Ésquilo, passa a utilizar três atores, em lugar de dois, para o diálogo com o coro.
Essas considerações de ordem material pretendem sugerir as transformações de conteúdo operadas de um a outro dos três autores. O teor mítico, aos poucos, se dilui ou se ameniza, num caminho que leva dos semideuses de Ésquilo aos retratos mais próximos do humano legados por Eurípedes. O rival Sófocles diria: “Eu represento os homens como devem ser, Eurípedes os representa como eles são”.
Diferentes posturas distinguem a esquiliana Electra da indefesa mas decidida Antígona, personagem da peça homônima de Sófocles, e da rancorosa Medeia, da peça de Eurípedes. Electra conspira contra a mãe Clitemnestra e concorre para a morte desta por não poder fugir às leis da vingança, que condicionam seu comportamento (Clitemnestra matara o marido Agamenon, pai de Electra). Antígona, presa a determinações ancestrais, mas já disposta a agir por conta própria, enfrenta o tirano Creonte, que proibira o enterro de Polinices, irmão de Antígona. Por fim, Medeia, embora dotada de poderes sobrenaturais, atende, ao matar os dois filhos, tão somente à própria dor de mulher abandonada pelo marido, de quem se vinga com o assassinato dos meninos. O mito cede à psicologia, deuses tornam-se homens.

A autora resume: “Eurípedes rebaixou a providência divina ao poder cego do acaso”. Foi exatamente esta a queixa de Nietzsche contra o “sacrílego Eurípedes”: o autor de Medeia trata os conceitos morais à base de sofismas, oferecendo às suas personagens, diz Berthold, “o direito de hesitar, de duvidar”. O mundo se amesquinha, reclama o jovem Nietzsche de O nascimento da tragédia; a crença dionisíaca tende a desaparecer, dando lugar à especulação ou ao puro desencanto (Eurípedes, contudo, voltaria às fontes dionisíacas, pouco antes de morrer, na peça As bacantes).
Já na época o corrosivo e conservador Aristófanes satirizava Eurípedes, tomando o partido de Ésquilo na comédia As rãs: “Nesta peça, Dioniso, o deus do teatro, avaliará os méritos concernentes a Ésquilo e Eurípedes, mas ele se revela tão indeciso, vacilante e suscetível quanto o público e os juízes na competição”. Dioniso pesa os textos “feito queijo”, mas concede enfim a vitória ao decano Ésquilo. A peça foi representada em 405 a.C. e, no ano seguinte, chegavam ao poder os Trinta Tiranos, inimigos da democracia que, morrendo, levava consigo tragédia e comédia antigas: “O espírito da tragédia e a democracia ateniense haviam perecido juntos”.
Na segunda e última parte deste artigo, a sair na próxima edição de Diversos Afins, viajaremos de Roma ao século XX, dando sequência ao percurso proposto por Margot Berthold em sua História mundial do teatro.
(Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva. A cantora Wilzy Carioca lança neste ano o CD “De cor”, com 14 canções do autor. A peça “Zé” será republicada em novembro pela É Realizações)
Ieda Estergilda

PELAS RUAS
I
Tomo coragem e me aproximo da primeira mulher, sentada no batente da escada que vai dar em uma academia de artes marciais. O sol de quase verão faz brilhar seu rosto escuro.
Não é comum abordar desconhecidos, ainda mais para perguntar o nome, mas era exatamente isso que eu queria da mulher. Cruzava com ela quase todo dia, indo e vindo, sentada em batentes ou dormindo debaixo de marquises. Fosse como fosse, parei decidida a entrar na sua órbita.
Feita a pergunta, ela me fitou com olhos avermelhados, cuspiu para o lado e depois de acompanhar o trajeto da saliva, respondeu com a cabeça voltada na direção do vento.
– Esqueci.
A resposta só aguçou minha curiosidade.
– Tenta lembrar, seu nome não é Luzia? Você tem cara de Luzia, sabia?
– Luzia sabia não é meu nome não.
– Então é só Luzia?
– Só Luzia também não me chamo não.
– Me diz como você se chama.
– Não me chamo Luzia sabia nem só Luzia.
– Tudo bem, esquece.
– Esqueci, repetiu dando outra cusparada, dessa vez quase me acertando o braço.
– Você parece uma princesa.
Além do olhar, recebi de volta alguns dentes no meio da boca, sem saber se era um sorriso ou simples movimento da face. Os trapos cruzados nos ombros, nos quadris e nas pernas davam a ela um porte de princesa.
Encontrava a mulher de manhã cedo, se espreguiçando em cima de tiras de papelão, tentando ajeitar os panos, limpando os olhos com saliva. Acompanhei por duas ou três quadras sua busca por comida ou alguns goles.
Quando era só isso que conseguia, se animava por instantes, erguia a cabeça e desfilava para ela mesma. Mais adiante se encostava em qualquer canto, as pernas abertas, o olhar desfocado, a cabeça mal se sustentando no tronco. Ou então colocava os braços em volta dos joelhos, cabeça entre as pernas e assim ficava, muda e tonta. Nada por dizer, nada por fazer.
No final do dia, ela ainda arrastava o manto roto pelas calçadas, os pés grossos de tanto chão. Mas não perdia o porte, por mais bêbada que estivesse, mais faminta e suja. Havia uma luz naquela vida. Acho que foi por isso que adotei Luzia.
II
A segunda mulher me atraiu pelos berros e gritos, a disposição de viver brigando com o mundo. Estava dentro do jardim japonês na manhã em que cruzei o viaduto. A saia levantada até à cintura, lavava-se à beira do pequeno lago. A figura seminua atraiu olhares, depois risos que passaram ao deboche. Sem interromper o que fazia, a segunda mulher disparou uma rajada de palavrões, mandando todo mundo para aquele lugar e outros semelhantes. O que ela exigia a seu modo era apenas respeito, afinal, embora ali fosse um local público, estava num momento de intimidade. Não podia usar a água do laguinho? Então que tal a casa de alguém da plateia? Quem oferece? Sua voz alterada ecoou pelo viaduto, feriu ouvidos e logo espantou os curiosos. Terminado o asseio, saiu do jardim como se do banheiro da própria casa e foi postar-se na calçada. O olhar desafiador era de quem estava pronta para mais um dia de luta, ai de quem tentasse zoar com ela.
Um dos alvos mais frequentes de sua indignação são os motoristas que saem dos estacionamentos e garagens sem buzinar. Quando se assusta ao ter de parar bruscamente, não poupa ninguém, xinga até ficar rouca, corre atrás, bate nos vidros, faz questão de chocar. Vi uma vez ela despejar sua raiva contra dois manequins de gesso de uma loja, uma gueixa e um samurai. Diante da vitrine, tocava os braços, o rosto, olhava os manequins impassíveis e fazia comparações em voz alta. O que eles tinham mais que ela? Ela era gente, enquanto eles, se desse um empurrãozinho, quebrariam e virariam pó ali mesmo.
Sentada num banco da praça, cercada de senhores e senhoras de olhos puxados, a segunda mulher costumava discutir com seus fantasmas. Mexia nas sacolas e dialogava com não sei quem invisível. Não queria “ele” por perto, preferia viver só, de louca bastava ela, dizia empurrando o invisível com mãos e pés. E ria alto, abraçava as próprias costas, dava tapinhas, levantava as pernas, se estirava no banco, se encolhia toda dengosa.
Um pastor que fazia ponto na entrada do metrô resolveu aproveitar a ocasião, ali estava uma que precisava ser salva. E conclamou os que o cercavam a tentar trazer a ovelha irada para o rebanho. O idílio imaginário durou até a chegada do grupo. Quando se aproximaram, a mulher retomou seu estado de ira e mostrou as garras. Urubus e galinhas depenadas foi o que ouviram de mais suave. A criatura estava na praça curtindo a dela, por que não a deixavam em paz? Pegou o que era seu e saiu praguejando em direção à Ladeira dos Estudantes. Por instantes ainda ouvi ecos ladeira abaixo da naturalmente alterada e de quem nunca quis saber o nome ou origem.
III
A terceira mulher também perambula por ali. Cabelos ralos, olhos de quem vagueia para dentro, sempre para dentro, lembra uma moça antiga, dessas recatadas. Vive rodeada de cachorros famélicos com quem divide a comida que consegue. Dizem que já foi professora, que perdeu a memória e não sabe mais o caminho de casa, se tem pai, mãe, filhos, irmãos.
A última vez em que a vi, parara de chover e fui à padaria, onde dei com ela na calçada ao lado da porta. Com o mesmo vestido bege cobrindo os joelhos, um quase nada naquele começo de manhã. A prole tinha aumentado, segurava agora uma galinha, um fogo de penas vermelhas e azuladas debaixo do braço. Os cabelos úmidos, distribuía pedaços de pão entre seus bichos e mastigava algum, com gestos polidos.
Mergulhei nos seus olhos sem que percebesse, e veio aquele sentimento. Não de pena pelo que ela tinha sido e como vivia, nem a considerava um ser miserável. O que me atraía era sua presença, ao mesmo tempo tudo e nada na paisagem.
(Ieda Estergilda de Abreu é cearense, vive em São Paulo, já morou em Brasília. Escritora, jornalista free lancer (e bacharel em direito), tem livros de poesias publicados: Mais um Livro de Poemas; Grãos – poemas de lembrar a infância; A Véspera do Grito – um infantil : O Jogo do ABC. Colaborou em jornais, onde também publicou crônicas, e escreve para algumas revistas. Tem inéditos contos, poesias e histórias para crianças e jovens)
Rosana Banharoli

jamais pluma
diante do abismo
lágrimas represadas
comportas erguidas
a concreto e culpas
destino mesmo
depois de chão
:pedra
pedra sem perdão
e ascensão
:pedras atiradas
num jogo de dados
***
comungo
companhia
em lua opaca
[a minha]
desbotada
de tentativas
[tamanhas]
esgotada
de partidas e pedras
[grito pra dentro]
explode o poema
em ventre seco
[esse e todos os outros]
***
no fundo da noite
o uivo multiplicado
corta a conversa
de sonhos
e dá voz
ao holocausto
:silêncio do medo
***
olhos felinos
de arranhar
salivas e sêmens
& comê-los
em instantes
: cristal de corte
sangue vivo
desejos
vértice de máscaras
& fantasias
longe
talvez cinzas
ou flores místicas
de prazer, talvez
,navegação
***
Aqui jaz
Do arrebol,
Andejo por um só caminho
A noite baixa densa desdentada
À espreita,
Solitário raio de sol
Vem se deitar comigo
E, misturado a terra orvalhada
Desiluminar a sombra
De meu futuro outrora
(Rosana Banharoli é autora de Ventos de Chuva, poesia, Scortecci, 2011[Fundo de Cultura de Santo André]. Participa com dois contos no livro de Maitê Proença, É duro ser cabra na Etiópia, Ediouro, 2013. Alguns poemas são do livro inédito, Cartografia em Construção, realizado após breve estada na Casa do Sol-,IHH em novembro de 2012. Publicada em mais de 20 Antologias através de premiações em Concursos Literários e em diversos sites, blogs e revistas literárias)
Esse é o homem: um tratado do homem – rente ao chão
Por Jorge Elias Neto
Comecei a ler o livro Esse é o Homem – TRACTATUS POÉTICO-PHILOSOPHICUS do poeta WJ Solha, pensando: uma trilogia de poemas longos é algo de difícil concepção. Se um compositor acaba se repetindo, tornando-se previsível e monótono, fazendo com que nos lembremos mais de suas primeiras músicas em detrimento das mais recentes, como poderá um poeta não resvalar nesse mesmo sortilégio da criação?
E isso não é bom, pois estabeleceu uma prioridade: a busca das semelhanças. De início, observei as rimas que se repetiam e fiquei desconfortável. Lembrei-me de quando conversamos sobre meu poema Ode à bandeira, e Solha criticou o fato de eu ter rimado Solha com poalha como se a palavra somente estivesse ali para rimar. Casa de ferreiro espeto de pau?
Não satisfeito, interrompi a leitura.
Por ser livro para mergulho de apneia (já havia constatado isso em seus livros anteriores), busquei um recanto e reiniciei o livro.
E inicia-se o livro com a criação das palavras, a corporificação e socialização do objeto; e tudo se inicia pelo fluido, o mesmo fluido que, ao longo das 98 páginas do poema, nos levará e nos percorrerá e persistirá com a nossa partida.
Todas as interjeições já foram ditas e não se incorporam ao poema.
Depois veio o osso que virou arma, a dualidade bem e mal a nos olhar, o nosso olhar (olhar humano – demasiadamente humano), desde os primórdios de nossa existência. Vejo a odisseia de 2001 viva, estabelecendo quem é o verdadeiro Homem, sem firulas e dissimulações. E diz-nos o poeta que existe a arte, e existe a guerra, e existe uma retroalimentação, um feedback positivo renegado, mas legítimo.
E vão surgindo os nomes, cada vez mais complexos (na criação e multiplicidade de usos, finalidades estéticas e atrozes). E aí – repetindo o poeta – a suprema criação da consciência humana: surgem os deuses com os quais não se lida com conforto, os quais são temidos, pois trazem a morte.
E, ao longo do poema, o homem se desencontra, se repete, cria, procria, nomeia bem e mal, traduz toscamente imbuído da tonta ideia da literalidade. E faz a arte, cria a metáfora e dribla a realidade numa tentativa de destrinchar a vida. E é bom e é mau.
Vou esquecendo as rimas, mergulhando em tudo de história que me traz o poema. E, como leitor, estabelecendo as conexões (está aí um bom poema para manter ocupadas as sinapses cerebrais) necessárias para ver no homem de Solha, o mesmo que vejo com meus olhos miúdos. Vou entendendo que as palavras e as rimas contidas no poema não existem apenas para manter uma musicalidade: elas são um mote, um sinalizador de percurso do homem Solheano. E esse homem, após nomear a natureza, nomeia suas crias, suas buscas, achados e desespero.
De uma forma sutil, um certo menino nos conta histórias breves que cruzaram com seu olhar. E é do olhar do poeta que falo, aquele olhar envolto pelas circunstâncias. Aquele olhar da consciência de um poeta que representa em seus poemas o Universo e o Homem. Pois o olhar do poeta é mais que antena, o olhar do verdadeiro poeta, parafraseando o grande poeta baiano Ildásio Tavares, tem a humildade de se reconhecer homem e nos dizer estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte. Eis aí o homem e o poeta.
(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))
Pedro Du Bois

O senhor ressentido em paixões
repete temas: recupera estátuas
em enigmas indecifráveis. Reluta
convicções
e dispõe sobre as bases
……………elementos concretos: ama
……………o paradoxo da frieza da pedra
……………e no metal deixa a sua marca
……………amarfanhada em papéis
……………decorridos de madeiras
……………inacabadas em regiões
…………………………………..estéreis.
***
Tece o pouco em necessidades
e as traduz em fugas.
Vida diversificada
em objetos herdados.
Destruído em condensado
no senhor do absurdo recriado.
Vive na significância da não
aceitação dos termos: extermina
a vontade de se fazer maior.
A desnecessidade da prisão ao ser
irreconhecível em paixões formatadas
no inacreditável de ser pedra
e só.
***
Imensos os aspectos
atraídos pelas mãos que criam
a ilusão da vida. O metal têm olhos
e ouvidos: não escuta
…………….e não enxerga.
A mão sustenta a luva.
os pés contraem a terra.
Diz que respira
e oxida. Mãos recriam
o fantasmagórico: escuta
……………………….e enxerga.
***
Não tem medo da origem:
………….ignora
………….a matéria prima.
Resta no desenlace
longe do recolhimento.
…………..a mão cinzela
……………………escarpa
……………………desespera.
A matéria é retrato
inacabado: reconstrói
a moda desfeita em tradições
inabaláveis das certezas.
O dono assoreado em documentos
repousa ante o fantasmagórico.
***
Idealiza. Conhece a essência
da transformação. Carrega o medo.
Escorrega a mão sobre o nada
no sentir a consistência do inexistente.
………..Traduz.
…………..Escolhe.
……………..Pensa.
Dispõe a necessidade em espaços
demarcados no projeto para atender
ao anseio da realidade.
………………….Produz.
……………….Contrata.
……………..Entrega ao senhor
……………a procedência do artefato.
(Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Balneário Camboriú, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP))