O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.
***
Subtraído
teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.
***
Acordo
não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo ………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita ………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro …………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.
***
Anímico
anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude, ………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e a pedra e a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.
***
Vigília
Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.
Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.
Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.
***
Amarelo Por Dentro
A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.
(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))
Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.
Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.
Ilustração: Mario Baratta
Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.
Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.
Ilustração: Mario Baratta
Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis. Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.
Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante. Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.
Ilustração: Mario Baratta
*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.
A poesia de Oleg Almeida, belíssimo texto, fluente como o rio de Heráclito, no qual homem algum se banhará duas vezes, permite muitas interpretações: é difícil. E difícil não quer dizer hermético, o sentido desta longa e informal reflexão, na qual afloram lembranças de que não se pode libertar, que cortam como estilete agudo e incômodo, e cada vez que se move enterra mais fundo e sangra, inundando o coração de imagens dolorosas. Ao tentar livrar-se, muito mais se maltrata, magoa-se, acordando recordações vivas de vozes e gestos perdidos na distância dos tempos.
No íntimo vive ainda – e viverá para sempre, pelo milagre da permanência da palavra – o herói que foi, de quem sente saudades. Deslocamentos constantes trouxeram-no para nós, sempre em busca da terra ideal, da pátria perdida e distante no espírito do homem que é salvo pela poesia, mas incapaz de esconder as cicatrizes das quais jamais se libertará, porque foram impressas na alma a ferro e a fogo.
Texto belíssimo, que não se oferece fácil, ou melhor, que permite muitas leituras, entre elas uma aparente, e outra, mais difícil ou impossível de ser desvendada, sob o signo de uma tristeza mansa.
Perpassa uma poderosa imagística nessas cores que desdobram imagens nítidas. “Uma gota de tinta lilás”, na ponta de uma pena, abre um portal para a filosofia com seus questionamentos sobre um tempo que não pode ser medido convencionalmente. Cerejas e papoulas vermelhas, o amarelo, o verde, o preto, o azul nos olhos da inesquecível avó, e finalmente o branco, a fusão de todas as cores, colocando num mesmo plano imaterial toda a massa pesada das experiências que moldaram sua personalidade final, motivo da sua indefinição enquanto indivíduo.
Numa primeira e superficial leitura observa-se explícita memorabilia. Sabendo-se que veio de longínquas paisagens, de frias e intensas névoas, que não foi capaz de “abdicar do sonho em prol da memória”, isto permite ao analista vários caminhos de abordagem. Confessa trazer dentro de si um mundo: um sítio impossível de localizar no meio de uma campina – cujo nome a memória rejeita – coberta de flores exuberantes. Mais tarde identificaremos essas flores que enfeitam esse espaço sem nome, onde viveu sua infância e começou a plasmar sua personalidade. São papoulas vermelhas. E saberemos: há frutos também; cerejas maduras, suculentas, pretas e vermelhas. A se destacarem como mancha colorida sobre este campo impossível de nomear.
“Quem sou?” – questiona-se, indaga em longas lucubrações mentais, em muitos e profundos mergulhos interiores, num corte vertical à procura do verdadeiro eu. E o encontrará? Homem algum é singular, e ele se reconhece múltiplo. Definir-se é importante, lhe concederá segurança. Chão para pisar. A infância é o território mítico que dará suporte à envergadura do jovem, do guerreiro que é preparado para as lutas que o esperam e não o pouparão na escalada em busca de sua realização humana. Mas essas vivências intensas serão sua reserva e segurança quando tiver que deixar o espaço protegido para enfrentar os mares bravios que o aguardam ao Norte, nas tentativas de regressar a Ítaca, ele, um ser hiperbóreo. Na alma levará marcas indeléveis. Adquiridas nessas excursões comandadas por Khronos X Kairos em confronto, meditando, em consequência, longos poemas intimistas. Como se cavando fundo na memória, material de que se utiliza para uma viagem ao âmago de si mesmo em busca de claridade para ver a luz (para ficarmos no clima filosófico que será sempre a sua escolha de voo). Não qualquer luz, mas uma luz “olímpica”, clama ao Senhor, porque deseja iluminar grandes feitos, e pede lhe conceda calma; talvez para organizar o grande conteúdo mental que guardou de uma vida rica e descuidada, incapaz de prever a hecatombe que daria fim ao seu amável mundo (Khronos em atividade).
E, através de uma caminhada existencial por estes dois tempos completamente antagônicos, descobrirá sua vera persona. Em oposição estão o tempo do não-ser e o tempo da realidade transubstanciada em experiências do possível imaginado, enquanto ente movido por várias dimensões que correspondem a toda sua trajetória humana.
Oleg Almeida / Foto: arquivo pessoal
E então já dispomos de alguns elementos para o esboço que perseguimos: é alguém que diz chamar-se Crates e ser natural de Tebas. Entretanto, mostra-se um desconhecido (pois indaga sobre quem é!). Insatisfeito, procurando definir sua identidade, realiza um longo mergulho interior à procura da sua verdade: a meninice feliz, as figuras inesquecíveis, marcantes, deixando na alma, impressas, influências benfazejas que formarão o arcabouço desta definição e o farão concluir – sou um homem. E um homem, sabemos, é a medida de todas as coisas. Mas para que o desvendemos, é dizer pouco.
A partir daí será um fugitivo, concluímos, que se acoberta sob uma personalidade angustiada que sofre “saudades de um Éden desmoronado”. E uma ligeira vista por outras páginas desvendará a razão do seu estranhamento: as muitas lutas, as imensas perdas e por isso “a morna tristeza que (o) borrifa”. Que perpassa esse texto sutil e fortemente marcado por melancólicas e pungentes lembranças. Ao acaso, deslindamos outros enigmas. Sua origem longínqua, vindo de um país ao Norte, razão por que se denomina “um hiperbóreo”; habitou, crédulo, uma cidade varrida do mapa pelos romanos, na exacerbada ambição por aumento do Império, apesar dos avisos do onisciente pai que previu a derrocada da Grécia. Viu ruir o mundo antigo, seus habitantes feitos escravos, cerca de dois séculos a.C., e no retorno a Corinto atravessou o nebuloso período da juventude, viveu sagas que lhe permitiram ingressar no mundo adulto (Kairos, um tempo sem medida).
Sob forte clima sinestésico, onde as cores e os gostos têm papel predominante, desfilam visões nas telas do espaço vivido e projetam-se para o futuro, quando suas lembranças habitarão o território do que foi. Assume-se um heleno, habitante de Corinto, já sabemos, e vivencia experiências fabulosas, patrocinadas pelo próprio processo de existir: a ilusão da maturidade, incluindo armadilhas; incorporando Midas, sentindo o poder da posse material com toda sua carga de equívocos não estranhos ao amadurecer. São indícios ainda nebulosos para nós que buscamos conhecer este que se oculta por trás dos disfarces da poesia. O poeta, afinal, segundo Fernando, o Pessoa, é um fingidor.
Teimosamente procuramos acompanhar essa trajetória poética inteiramente marcada pelas referências eruditas de um mundo perdido, entretanto real a partir de figuras míticas, de aventuras de antigos heróis que, a bordo de antigas embarcações, cruzavam o Mediterrâneo, levando um jovem. Que, deixando a segurança da torre onde guardou o que de mais caro a vida lhe deu, sabe cultivar aquele tesouro que é a fonte de toda sua inspiração neste novo tempo (Khronos) em que se define como Oleg Andréev Almeida e escreve um poema único em quase setenta páginas, tentando livrar-se do peso memorável. Dividindo a emoção que do contrário o subjugaria irremediavelmente. Nesse território onde a morte não tem poder, as coisas em sua frescura e nitidez se oferecem, “o vinho caro na geladeira, a mesa e a poltrona de palha” do tempo de agora, como também a lembrança viva das pessoas que se preservam para sempre. O acesso é restrito, entrada negada a estranhos, mas ele, parte deste mundo preservado, poderá voltar quando queira, e encontrará um riso amigo da avó, um companheiro sempre disposto a embarcar numa trirreme ou fazer velas, chegar a cidades perdidas – através dos livros, através das grandes epopeias, ir e regressar de acontecimentos que revivem etapas, seja no Egito, na Grécia ou noutro lugar qualquer ao longo do Mediterrâneo, integrar-se nelas, ser um natural e praticar atos comuns à época, tais como comerciar com grandes capitalistas de épocas remotas, gastar sua bolsa em tabernas vulgares com bebida e jogo de dados, desfrutar de prazeres baratos e sem poesia com hetairas vulgares, passar por sustos e perigos de salteadores que por sorte o libertaram, após despojado daquilo que o fazia sentir-se dono de metade do mundo e em seguimento o reduz à expressão mais simples do despojamento e da carência. Sempre os dois tempos em luta a determinar o destino de um homem.
Empreender batalhas, desbravar espaços desconhecidos, desvendar territórios ignotos, tudo são experiências a somar e refinar o espírito, ritos de passagem para a madurez. Algumas vezes vence, noutras é dominado pelas Fúrias atentas ao pêndulo da sorte. Mas estes confrontos com o lado sórdido e sem poesia da vida o fizeram crescer. E sempre regressará à sua Ítaca, ferido, coberto de cicatrizes, mas de alma íntegra, porque foi bafejado por Orfeu que lhe ofertou, ao nascer, um presente inestimável: uma lira de onde tira as mais belas notas. Isto o defenderá do canto das sereias que não conseguirão distraí-lo da rota que traçou, passando ao largo da ilha maldita onde perderia sua alma, mas que o surpreendeu quando ali encontrou, deus que era, uma bela mortal que o fez desistir da sua condição divina e o trouxe para “um país singular”, terra dominada por Phebo, cuja bandeira reproduz “um losango e uma esfera”, a qual assumiu para sempre.
E a nós cabe lamentar pelo fracasso em desvendar esta poesia belíssima quanto estranha. Difícil, havíamos dito…
(A carioca Rejane Machado é romancista, professora e crítica literária. Com Licenciatura em Português/Literatura (UFRJ), Mestrado em Literatura Brasileira (UFF) e Doutorado em Linguística e Filologia Românica (UFRJ), também atua como revisora e colabora com diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro. Dentre seus livros publicados, estão: “A dimensão das Pedras” (Contos/1973), “Réquiem para Mário” (Romance/2010), “O médico das Flores” (Infantil/2013), “O Momento mais bonito da Literatura Brasileira – Gonçalves Dias e outros” (Ensaio/2013), “Contando até dez” (Crônicas/2012))
Ouvi, porém, as tribulações dos mortais; ouvi como,
de parvos que eram, os tornei racionais e dotados de inteligência.
(…) Inventei para eles o número, a suprema ciência,
bem como a escrita que tudo recorda, arte mãe de toda cultura.
(Fala de Prometeu, em Prometeu Acorrentado, de Ésquilo)
I
Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.
Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.
Não quero essa alma que me queima:
de barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).
Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível restar calada.
Desde o fogo
a tristeza nos consome.
II
Só há um fogo
– um fogo único –
capaz de arder no poço
mais fundo
em mil chamas:
é a alma
que se derrama
do corpo.
Tudo vem do fogo
e a palidez da face
contra a água escura
acende a chama
em que arde
essa alma.
Curvada sob a luz
e a mágoa de ter alma
persigo símbolos
na água
que se transmuta.
III
A alma do homem é tudo que
– não sendo –
é chama ardendo
sobre o verde
insondável
do oceano.
A alma do homem tem seu encanto
mas é nada
e sobre esse nada
não flutua a esperança.
A alma do homem veio tarde
quando o corpo já aprendera a ser sem ela
e já não era possível desaprender.
IV
Condenam-me ao silêncio mais cruel:
o silêncio da alma
enquanto a pegada do corpo
fica impressa no chão.
Não falar é a pior tortura.
Falo dessa fala
própria da alma
que os deuses temem
pois jamais se cala
e continua
queimando o corpo
lentamente com sua chama.
A toda palavra que sai de minha boca
longe longe
responde o vento
com a mesma fria palavra
que me devolve
a sombra apenas
do que penso.
V
A alma é tão-somente um fogo
vívido e chamejante
crestando a pele do corpo
– veste
de que ela própria se reveste.
Mas esse fogo é tudo
pois sem ele
o corpo se estiola:
folha vermelha que torna
inevitável o outono.
VI
Há algo de mais belo sobre o fogo
e primitivo
como presságios dardos e correntes.
Não há cadeias
em torno de meus pulsos e dos pés
– belos mortais –
se arrastais vossos vultos sobre a areia.
VII
O quê receiam os deuses
de quê têm medo?
O poder é negro …………………………………….…negro
águia cruel
que mergulhando em meu corpo
sangra o rochedo.
O quê receiam os deuses
o quê receiam?
Do pico dessa montanha
me arremesso:
sou o espaço
sou o pássaro
sou o rochedo.
VIII
É turva ou cristalina
a água que não bebo?
Meu corpo é o rochedo ……………………………………..é o rochedo ………………………………………………….é o rochedo.
Trinta séculos de tortura não são
trinta manhãs com suas tardes:
outras águias nascerão de toda água
mais escura.
O quê receiam os deuses?
IX
Só o mar me desvia desse monte
em que não durmo
se ao menos o dia amanhecesse
por sobre meu corpo escuro.
Mas sei que de manhã
o sol se espraiará todo em meu corpo
– pássaro a me devorar inteiro –
e eu desejarei a noite.
X
É de sol
o pássaro dos deuses
e suas asas me cobrem
asas de sol.
O pássaro dos deuses
chega com a manhã
e me faz jorrar o sangue
das entranhas.
O pássaro dos deuses é puro fogo
e renasce a cada manhã
das cinzas da véspera:
de meu próprio corpo.
XI
Há, sim, quem se lance ao fogo
pra morrer de todo
e nascer de novo.
XII
Sou o sol
sol de fogo
todo dia
sempre novo
sou o fogo
todo sol
novo dia
sempre sou
sou o dia
sol de novo
todo sou
sempre fogo
XIII
Há mais dor nos olhos dessa águia
que em meu corpo
estilhaçado:
os deuses não cessam de vingar-se
– todo poder recente é implacável.
Há mais fogo nas asas dessa águia
que em meu corpo
incendiado:
ígneas criaturas
vossa tolice é suprema.
Quem romperá de vez essas cadeias?
XIV
O tempo que passa me alucina
– às vezes penso –
sombra que escurece a minha face
esse veneno
é a própria água em que debruço
a minha sina.
Só existo enquanto acendo o sonho:
o sonho infindo
que o bico de uma águia estilhaça
toda manhã
em vão. Recomeço pois não receio
ira ou destino.
Que se vinguem os deuses (ó deuses)
nesse meu corpo
que não morre pois conhece o fogo
e sua chama:
sou pássaro a renascer das cinzas
ou salamandra?
XV
Ó misterioso ato de criar:
como fluem as palavras
as palavras que tudo recordam?
Não me podeis matar
eis a verdade
a grande verdade
que cinde essas correntes todos os dias.
Minha ousadia
é bem maior que meu suplício.
(Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)