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147ª Leva - 02/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Má sorte no sexo ou pornô acidental. Romênia. 2021.  

 

 

Má sorte no sexo ou pornô acidental, de Radu Jude, é um filme romeno que ganhou o Urso de Ouro em Berlim no ano passado. O filme chegou ao Brasil no Festival do Rio (2021) com legendas eletrônicas e sem previsão ainda para chegar às salas comerciais de cinema ou às plataformas de vídeo sob demanda. Em 2015, o mesmo diretor ganhou o Urso de Prata por Aferim!.

O cinema romeno costuma ser provocador. Quem poderia se esquecer do sucesso e do impacto de 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu, de 2007? Desde então, os filmes romenos têm feito enorme sucesso nos mais importantes festivais de cinema do mundo. Parte desse impacto vem do fato do cinema romeno, realizado sob condições precárias de produção, não respeitar certos códigos visuais do “cinema de arte”. Enquanto algumas cinematografias nacionais parecem investir na “crueldade” visual (parece ser o caso dos cinemas japonês e coreano), o cinema romeno investe na “crueza” da imagem, que nos sugere outro tipo de estética.

O filme de Radu Jude não foge a esta exigência de crueza cinematográfica, mas acrescenta a ela uma mistura de registros imagéticos diversos. O roteiro do filme é centrado no drama de Emi. Uma cena de sexo caseiro conjugal registrada por seu marido Eugen “vaza” para a internet. Emi é professora de história do ensino médio de uma escola privada em Bucareste. Os alunos adolescentes descobrem o vídeo e o colocam nas redes sociais. Os pais das crianças então se mobilizam contra a professora. Uma reunião de pais é convocada pela escola e Emi precisa defender pessoalmente sua privacidade e seu emprego.

 

Cena de “Má sorte no sexo ou pornô acidental” / Foto: divulgação

 

Este roteiro simples e direto é transformado numa complexa obra composta de três episódios, todos discrepantes entre si. Os episódios estão ordenados com letreiros, como numa fábula. O filme abre diretamente em um prólogo com a cena de “sexo caseiro” exibida sem corte e sem pudor. A tradução de “sexo acidental” no título pode indicar tanto o modo “amador” da filmagem de sexo, afinal uma atividade rotineira de muitos casais de registrarem em vídeo as suas transas sexuais, como o acidente mesmo de sua revelação ao “cair na rede” (a má sorte). Mas este aspecto amador do registro sexual dará o tom (isto é, o formato) do próprio filme como um todo. A pornografia focalizada não é a industrial, mas a amadora, caseira ou acidental (em inglês, a tradução optou por Loony porno, ou pornô tolo).

No primeiro episódio temos a caminhada de Emi em direção à escola pelas ruas de Bucareste. A câmera acompanha a sua travessia e ao mesmo tempo registra o cotidiano da cidade em meio à pandemia do coronavírus. Um dos maiores interesses do filme é justamente fazer um inventário das transformações vivenciais ocasionadas pelo uso de máscaras, pelo distanciamento social (corrompido pela necessidade de “não deixar a economia parar”) e pela exigência recorrente da assepsia das mãos. Narrado visualmente de forma “naturalista”, acompanhando a jornada diária de Emi, este primeiro episódio nos traz o cotidiano da capital romena, com seu burlesco, suas infrações urbanas, como automóveis utilitários estacionados irregularmente, afirmações negacionistas sobre a pandemia ou discussões racistas e sexistas em filas de farmácias (nas quais os preconceitos da população são expostos diretamente). Por mais distante, esta amostra do cotidiano de um país do leste europeu não nos é estranha, pois lembremos que a Romênia é também uma nação de cultura latina. No entanto, a violência prosaica e mundana nos lembra como o movimento de extrema-direita, que também nos é comum, se globalizou. Neste primeiro episódio, que tem o título “Rua de mão única” retirado de uma obra de Walter Benjamin, é, entretanto, menos naturalista do que parece, pois a câmera interrompe o fluxo em vários momentos para nos mostrar pausadamente certos detalhes do ambiente abusivamente comercial da realidade periférica. Talvez o correto seja mencionar a “suprarrealidade periférica”, pois o registro da fantasia se mistura ao da realidade, como quando exibe crianças na saída de um shopping perguntando qual personagem de animação é mais real.  A ideia do diretor parece dizer que a pornografia é menos acidental do que suposto, pois ela se tornou um código visual desses tempos de plataformas sociais digitais privadas e se desconectou então da questão sexual, tornando-se estética e política.

 

Cena de “Má sorte no sexo ou pornô acidental” / Foto: divulgação

 

No segundo episódio o registro cinematográfico muda completamente, como num intervalo da sequência narrativa. O fio do enredo dá lugar à montagem cinematográfica, explicitamente mencionada. No segundo episódio são os paradoxos, contradições e ambiguidades da Romênia que são trazidos ao espectador e a história de Emi entra em suspensão. A Romênia é um país cuja história deixou de ser feudal após o século XIX e que no século XX oscilou entre o fascismo e o socialismo “realmente existente”. Lá, os “revolucionários” do socialismo de adesão soviética se tornaram os “conservadores” de hoje.   O registro da montagem desfila uma série de “piadas” com aspecto burlesco e direto, mostrando que a história humana é uma mistura de comédia e de tragédia. Há um tom de melancolia e, não de graça, no relato da voz em off, e o efeito de “choque” estético na crueza das imagens traz novamente o fantasma dos temas de Walter Benjamin. Nessa crueza do choque estético fica claro o registro “pornográfico” da montagem, que internacionaliza o provincianismo burlesco romeno. Somos todos pornográficos.

O terceiro episódio, como desenlace, é um fechamento brechtiano, que lembra a peça Círculo de giz caucasiano, com a quebra do distanciamento estético. O estranhamento se torna praticamente um programa de auditório que simula um tribunal de júri.  A reunião de pais na escola serve não de julgamento da professora, mas da própria sociedade romena e dos limites estreitos e mesquinhos da globalização de extrema-direita. O filme julga os juízes em vez de julgar a professora infamada. Há aí uma contradição evidente: a pornografia é rejeitada ao mesmo tempo em que o discurso político se torna pornográfico. A obra de Radu Jude produz justamente o desvelamento da pornografia enquanto linguagem social, política e econômica. As realidades alternativas não estão ali para serem julgadas pelo espectador, mas como modalidades de reconhecimento das formas vigentes de formatação do olhar.

O drama de Emi é assim menos uma questão moral, como bem ela defende, pois o sexo é o normal conjugal, mas sim o problema do apagamento de fronteiras entre o público e o privado, propiciado pelas redes sociais que a todos expõe. Será que tudo que pode ser registrado deve ser exposto? Esta é ambiguidade das redes sociais, ao mesmo tempo que são memória e tecnologia de comunicação. A pornografia é a lógica de uma radical exposição do privado, de uma demanda de transparência absoluta que se torna intrusiva (e vigilante).  É possível concluir que o selfie, inclusive o selfie sexual (PoV), tenha se tornado menos um formato de registro, mas antes uma linguagem, e que, portanto, como tal informa as nossas relações afetivas e eróticas. Transamos não apenas para satisfazer o erotismo de nossos corpos e dos parceiros ou parceiras, mas também para a fruição da visão do outro, imaginário ou não. Por isso, em vez de simplesmente retornar à distinção entre o público e o privado, talvez devamos defender os novos limites da distinção transparência/opacidade.   À transparência dos assuntos públicos, sobretudo dos vieses de preconceitos, exclusões e violências, devemos opor a opacidade da intimidade.  O campo da intimidade seria então esse direito de rejeitar (vetar) a vigilância do panóptico da visão voyeurística, e optar pela penumbra dos olhares compartilhados.  A nossa liberdade, como direito inalienável, é então a possibilidade de fazer esta escolha e não deixar para que os algoritmos perversos ou pervertidos a façam.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriano B. Espíndola Santos

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Mais um

Havia, longe das vistas de Bernardo, uma verdadeira colônia de formigas carnívoras que se formava, com justiceiros que saíam de suas covas; mulheres e suas crianças, indicando que viriam da escola, ou de um passeio matinal; sem contar a quantidade de desocupados que, na falta do que fazer, alarmavam ao vento: “Venha! Acudam! Ainda está vivo!”.

Cautelosamente, marchando em passos trôpegos e cansados, assomavam-se três policiais: o primeiro, de calça frouxa, raquítico, roupas abandonadas num corpo debilitado, suíças e olhos profundos, entretinha-se em mascar o chiclete que tirara do bolso, guardado para os momentos de aflição; o segundo, de ombros largos, com peitoral empinado de galo, mostrava, igualmente impactante, as pernas e o contraste com o resto do corpo, o dito casquinha de sorvete, sem contar a patente moleza de coração, para acompanhar a tragédia, muito diferente do habitual – aproximava-se com os olhos vendados pelas mãos; o terceiro, mais malandro, rechonchudo, cara lisa, ostentando um pequeno bigode safado, regozijava-se com a aglomeração – era tanto que batia o cacetete na mão esquerda, frenético, para excitar a tara.

Naquela altura, já não havia quarteirão; uma massa parava em frente ao monumento, para fotografar, inclusive, e debater sobre o ocorrido; que teriam, propositalmente, provocado o agravo; que, nessa terra, não teria mais espaço para gente de pouca ou nenhuma estirpe; que, bem feito, o agressor fizera um favor, para livrar o governador de ser cognominado de negligente, ou mesmo carrasco, por tentar limpar a cidade do mal das drogas.

Enquanto Bernardo se acercava, temeroso, com receio do que poderia ver e escutar, tocou os ombros de um senhor pouco-caso, parado num poste, a cerca de cinco metros do ocorrido, para tomar pé da situação: “O senhor saberia dizer o que aconteceu? Que alvoroço é esse?”. O homem, com o semblante impassível, mirou fixamente o rosto do rapaz, perturbado pela incerteza, e soltou uma gargalhada: “E eu lá sei? Estou aqui como você, para passar o tempo”. E continuou rindo, embolando a voz, com palavras pouco compreensíveis, de onde se podia extrair, com muito esforço: “bandido”, “lixamento”, “justiça com as próprias mãos”.

Bernardo se aproximou mais, afastando alguns seres plantados, desnorteados, como se estivessem entregues a uma seita. Vislumbrou-se a imagem de um menino, doze a quinze anos – não se podia precisar, dada a magreza e a ausência de expressão –, com um corte profundo na cabeça, de onde, ainda, vertia sangue, recebendo chutes nas pernas, na barriga, menos na cabeça, já deteriorada.

Gritou um homem, muito pronto, de paletó, do meio da multidão: “Tem de pagar! Eu conheço esse marginalzinho. De santo não tem nada. Passa o dia cheirando cola, roubando; levou até um relógio meu, decerto pra trocar por droga!”. Seguindo de murmúrios e urras: “Isso! Isso! Tem de aprender!”.

As pessoas estavam entorpecidas de ódio, com os olhos vermelhos, fulminantes, aplicando grosserias e pontapés no miserável, que não se mexia mais. Daí, Bernardo, por impulso, pensando que teria de reagir, jogou a bolsa no chão e gritou: “Vocês estão loucos! Não existe lei neste país? Vocês não podem sair matando as pessoas! Senhor policial, por favor, temos de chamar a ambulância, urgente!”. Foi engolido por uma avalanche de dejetos: “Cala a boca, desgraça! Leva ele pra casa! Bandido! Comunista safado!”.

O primeiro policial, ao qual Bernardo havia se dirigido, querendo mostrar algum serviço, para colocar ordem, disse: “Saiam! Saiam da frente! O senhor tem razão. Pode ser que ainda viva. Chame você mesmo a ambulância. Nossa função é dar cobertura”. Bernardo, para não ser enleado na história, deu alguns passos para trás e se pôs próximo a uma senhora que chorava, contida. “Meu filho, eu só não liguei ainda porque não tenho essas coisa de celular… Que maldade!”. E, ao mesmo tempo em que Bernardo tentava se comunicar, a mulher ia debulhando uma ladainha sofrida, que seu filho também estaria nas ruas, que esse poderia ser o seu…

Para que não deformassem o corpo, o robusto policial se colocou de prontidão em sua frente, largando o cacetete nas pernas dos que, ainda, tentavam atingi-lo, para deixarem a sua marca da dita justiça. “Cês querem mais o que? Não estão satisfeitos? Morreu, seus monstros! Vão procurar o que fazer!”. Vociferaram: “Policial comunista! Comunista!”. Este policial, no ato, apesar de dez anos de corporação, foi surpreendido pela súbita lembrança do irmão, morto numa chacina no Morro dos Prazeres, quando ainda era pequeno, porque, segundo relatado na ficha, teria relações com o tráfico. Teve um ligeiro impulso de chorar, mas, sabendo da admoestação dos companheiros e da população sedenta por vingança, baixou a cabeça, demonstrando cansaço e resolução.

Do outro lado, o policial sorvete tentava se comunicar, também, com o resgate, mas não conseguia verbalizar, inteira, uma palavra. Esforçou-se e conseguiu declarar o ocorrido. Estava afetado pela comoção. Contudo, dissimulava postura sólida, intransponível, desferindo, por obrigação, alguns golpes de cacetete para que dispersassem e deixassem o canto vazio, para a entrada da ambulância.

Trinta e cinco minutos depois do primeiro contato, a ambulância chegou. Os paramédicos foram rápidos nos primeiros socorros. Apesar disso, não havia sinal vital. Declararam a morte, possivelmente por múltiplas fraturas, dilaceração de órgãos e hemorragia interna. Os que ainda acompanhavam mais de perto espalharam para os de trás, com sorrisos no rosto, até formar uma onda de excitação, resultando no uníssono grito: “Menos um. Uhhrruu!!”.

Perderam o encanto. Já haviam se fartado. Partiram em debandada para completar novos serviços espúrios.

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

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147ª Leva - 02/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

OQUADRO – PRETO SEM AÇÚCAR

 

 

“Não sei se sirvo o rap ou o rap é quem me serve”, já dizia Marcelo D2 em “Vai Vendo” (2003). Tal verdade é incontestável quando se trata das cabeças fervilhantes dos rapazes d’OQuadro. Formada em Ilhéus (BA) e com mais de duas décadas de estrada, OQuadro é representante de uma tendência do hip-hop denominada New School, movimento que promove inovações estéticas a partir do diálogo com outros estilos musicais e movimentos culturais. A banda lançou em novembro passado seu terceiro álbum de estúdio, Preto Sem Açúcar (2021), com uma sonoridade resultante de suas múltiplas pesquisas e influências artísticas, sem abandonar jamais o discurso contundente do rap. Ainda que o título pareça insinuar uma alusão ao fruto do cafeeiro, o conteúdo desse “bule” é muito mais denso: analisa os tempos sombrios da escravidão para demonstrar as implicações desastrosas causadas pelos barões do café e senhores de engenho.

Há que se dizer que o septeto baiano, composto atualmente por Jef Rodriguez (voz), Nêgo Freeza (voz), Ricô (voz e baixo), Rodrigo DaLua (guitarra e synth), Vic Santana (bateria), DJ Mangaio (programações) e Jahgga (percussão), apresenta um hip-hop peculiar no decorrer dos anos e não seria diferente ao longo dessas (bem servidas) 15 faixas. Trata-se de uma ode à negritude e a sua história, sem precisar “adoçar” nenhuma das mazelas da vida. A lista de participações especiais também é expressiva e extensa (14 ao todo), e inclui Jorge Du Peixe, Tuyo, Ellen Oléria, Russo Passapusso, Rodrigo Piccolo (Mato Seco), BillyFat, entre outros nomes da cena musical brasileira. Por falar nisso, vale destacar que a banda teve uma elogiadíssima participação no projeto de releituras de canções de Adriana Calcanhotto, Nada Ficou No Lugar (2019), com a canção “Negros”.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

A vinheta de abertura Um Brinde A Minha Gente (um conflito interno/bem-vindo ao meu inferno particular/(…)/eu vejo tudo/mas ninguém me enxerga) dá o pontapé inicial a pouco mais de 45 minutos da história do Brasil passada a limpo. A literalmente fuzilante Kalashnikov, por exemplo, tem a participação da não menos potente Ellen Oléria. Se I Can Feel It adverte que “em cima do muro é um lugar perigoso”, Motor da Fome, parceria com Davzera (ícone do rap underground), analisa os quase 19 milhões de brasileiros em situação de fome. Nas primorosas Asas (o sol na carne sob o sol/pra lavar, pra limpar esse banho de sangue/abre as asas sobre nós/passarão passarinho voos rasantes no mangue/e o sol virá depois que as tempestades calmarão), em companhia de Jorge Du Peixe, e em Não Vai Passar Batido (eles sabem que não vai passar batido/cada gota de sangue no chão, cada tiro/cada lágrima da mãe por seu filho), parceria com MCDO, da banda Afrocidade, a crítica é sobre a violência urbana, especialmente contra o povo negro.

Se a malemolente Caça tem a participação das cantoras Xênia França e Vanessa Melo, Meu Game tem a companhia de Russo Passapusso, do BaianaSystem, e brada que “aqui é preto sem açúcar, não tente me refinar!”. A vinheta Paz nos dá um importante conselho: “cuidado em quem você bota bandeira, seja você sua revolução!”. Santo (chorei dilúvios por sua atenção/mundos e fundos movi, comovi/resolvi deletar essa devoção), conta com a belíssima participação dos afrofuturistas curitibanos do Tuyo e Campo Minado — uma das melhores canções do álbum — tem a presença da cantora e compositora Cronista do Morro (revelação do hip-hop baiano) e de Billyfat, membro do #OMC (Oferecimento Máfia Crew), expoente da nova geração do rap de Ilhéus.

Desafio você a não bater palmas no compasso de Fala Pra Mim (fala pra mim, o seu lamento/dispensas já não cabem mais ressentimentos/já não consigo mais dormir, com esse tormento/sem medo é só deixar fluir, o sentimento) ou se pegar assoviando no ritmo de Ascende… o pavio e apavora! A africaníssima LULULULULU, faixa junto ao ganês DJ Sankofa, se encaminha para o final de forma quase transcendental, porém é a vinheta I Tal, narrada por Bia Ferreira, que encerra o álbum alertando que a alimentação ofertada pelo colonizador ao povo negro causa até hoje problemas de saúde como a pressão alta e o diabetes.

Preto Sem Açúcar sucede os álbuns OQuadro (2012) e Nêgo Roque (2017) e está disponível em todas as plataformas digitais. Apesar de não se tratar exatamente de uma trilogia, arremata de forma perfeita o conceito de evolução sonora e estética do grupo. Enquanto o primeiro disco dialogou com as bases do reggae e o segundo com as raízes do rock, este último passeia por sonoridades influenciadas por elementos eletrônicos. Já em relação à narrativa, ela se mantém cirúrgica e aborda questões como o combate à fome e a luta contra o preconceito racial. Sem fazer “média”, o som d’OQuadro é puro e certeiro como um café forte. Sem açúcar, com afeto.

 

 

Larissa Mendes não dispensa um cafezinho [com adoçante] e uma boa música.

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Manuella Bezerra de Melo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A pele, uma vez que habita o sal
assume posição protocolar de felicidade

Os povos dos trópicos são luminosos,
tem o coração cortado pela linha do Equador

Uma flecha acerta-lhes como alvo
e assim despejam-se nas águas mornas

O corpo em feridas que sangra se cura
se levanta em sal pra render a vida vindoura

Os povos dos trópicos são mumificados para que
durem milênios, tornam-se pais e mães de todos os povos

A pele, uma vez que habita o sal
assume o estatuto da eternidade

Espera o seu retorno
Esperam a chegada do seu reinado

 

 

 

***

 

 

 

Envenenei o céu pra que você
não visse morrer a segunda filha
o socialismo é um programa
é uma fenda no meu umbigo
é uma pasta de grão de bico
sob uma torrada com azeite
cancelei o café diário
que equivale ao suicídio sem extremismos
quantos estômagos são necessários
pra digerir a graxa que você passou¿
quantos fígados precisas
pra filtrar todo álcool necessário
de seguir viva?
Perguntam-me como estou?
efetivamente viva
por vezes, nem tanto
quase sempre
esta parte, omito
omissão é a caverna eficiente dos ineficientes
não se compartilha maledicências
dores amargores brotoejas
feridas abertas são constrangedoras
e já não há mais ninguém em condições
tenha selfies sorridentes e esbeltas
braços abertos, rei do mundo
as minorias se adequam
ou desaparecem

antagonismos a parte
o socialismo é um programa

 

 

 

***

 

 

 

soou-me o alarme às seis
soa tal o uivo de uma cadela
guindasteei-me na força de uma mãe
servi melão pão café leite
ele partiu porque filhos partem
e levou a matéria orgânica dos dias
esvaziei-me e vazia dei a mim
trinta convalescentes minutos
curei-me da morte numa pilha de pratos
uma típica manhã: caríbdis no inox

 

 

 

***

 

 

 

enxergo através dos muros
embebida em sangue vermelho
me afundo em sede espessa
enquanto passeiam gabirus
em fuga dos cozinheiros e serventes
com suas vassouras sujas
não interfi ro: observo acompanho
e
pra que não adentrem meus sonhos
cerro as janelas

 

 

 

***

 

 

 

Tereza olhou-me
meteu medo até em xangô
como um rio e seu poder
adentrou em mim
aventurou-se de mim

Nos olhos lustrados de Tereza
centelhas podem ferir

seu flanco não é mais o mesmo
não é mais do mesmo
seu flanco é todo ele meu flanco
meu flanco nunca será o mesmo
depois de suar sob o teu

pelo cabelo aproximei-me
ajoelhei, pedi uma benção

Tereza, isto é uma carta:
– Quero beijar-te agora.
Salva-me!

 

 

 

***

 

 

 

sobre janelas
e casas grandes
[coloniais]

desconforto é aquilo que se sente
quando cortam sua língua

desconforto é aquilo que se sente
quando te arrancam de uma zona
que você não planejou sair

território
ocupação
produção
distribuição

Liberdade é campo de batalha

todo corpo é uma
metáfora bélica

 

Manuella Bezerra de Melo é uma jornalista, investigadora e escritora brasileira residente em Portugal. Autora de “Pés Pequenos pra tanto corpo” (Urutau) e “Pra que roam os cães nessa hecatombe” (Macabéa), “Um fado atlântico” (Urutau) e “A Fissura” (no prelo pela editora Zouk), é organizadora e curadora da coleção de antologias VOLTA para tua terra de escritores estrangeiros. Pós-graduada em Literatura brasileira e interculturalidade (Unicap), é mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas (Uminho) e bolseira no Programa Doutoral em Modernidades Comparadas; Literaturas, artes e culturas da Universidade do Minho.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Ianê Mello

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A HORA DE 50 MINUTOS

 

com as mãos sobre o colo sentada naquele divã um profundo sentimento de estranheza toma conta de mim e a vontade que tenho é sair correndo dali sem pestanejar mas a consciência me impede e distraidamente pouso os olhos nas paredes brancas com alguns quadros dependurados que me fazem lembrar a visita que fizera recentemente a galeria de artes que era por sinal uma de minhas distrações prediletas e sinto meu rosto corar quando me deparo com o olhar inquisidor do terapeuta a minha frente esperando que eu desse inicio a sessão o que com certeza eu não tinha a menor vontade de fazer porque hoje me sentia esvaziada de palavras mas sabia que quanto mais eu demorasse mais me sentiria constrangida e seria dinheiro posto fora coisa que eu não poderia me dar ao luxo assim como também em anos de terapia aprendera que essa resistência de minha parte significava algo importante que estava submerso representando material de primeira a ser trabalhado em terapia e tudo o que tinha a fazer era dizer a primeira frase que depois o resto fluiria como um rio caudaloso e o tempo passaria a ser pouco para extravasar uma torrente de emoções que aflorariam o que traria em mim um arrependimento por não ter começado logo a falar e assim pensando não me demorei nem mais um segundo e só me dei conta que o tempo havia terminado quando meu terapeuta olhou discretamente o relógio em seu pulso

 

 

 

***

 

 

 

REPRISE

 

naquela manhã quente de verão suas mãos estavam frias e todo seu corpo parecia desvanecer numa palidez inesperada enquanto ouvia sem acreditar o homem que amava dizer-lhe adeus em palavras lançadas como pontas de faca afiada em seu peito matando dentro dela qualquer fio de esperança nesse amor ao qual se entregou sem medidas coisa que jurara para si mesma não mais fazer pois já conhecia o fim e sabia o quanto era amargo como fel e assim estava ele à sua frente agora sendo forçada a assistir o mesmo filme que já conhecia passar frente a seus olhos na mesma forma forçadamente amena de dizer adeus como dizem todos aqueles que se julgam superiores de alguma maneira por haverem superado um sentimento que antes existia e por acharem que se bastam a si mesmos podendo do outro dispor como fosse um chinelo velho que não tem mais serventia sem pensar ao menos que esse mesmo objeto tanto tempo lhe serviu e aqueceu os pés em tempos frios e nem mesmo o olhar incrédulo do outro pode dissuadi-lo do término e nem mesmo a lágrima que disfarçadamente escorre do canto dos olhos o comove como se uma capa de frieza o envolvesse e nada mais possa tocar seu coração que um dia se mostrou tão amoroso e seus lábios que agora proferem palavras duras e cortantes nem mais parecem os mesmo lábios de onde só saíam palavras murmuradas docemente e promessas de amor eterno

 

 

 

***

 

 

 

O OUTRO EM MIM

 

É… a vida que escapa da memória e se perde em devaneios . Quando é melhor esquecer para que a fantasia tome o lugar da realidade… sabe-se lá… E a fantasia ganha asas e voa cada vez mais longe e cria raízes e cada vez mais real ela se torna. Traveste-se de encantos e assume o lugar que não lhe pertencia. Faz-se tentadora com seus ardis e artimanhas com a expressão do desejo de uma vida não vivida. E quem não quer uma vida que não é a sua? A grama do vizinho é sempre mais verde e os frutos mais saborosos. O doce mistério de ser o outro! Apoderar-se de outra vida, de outro corpo, incorporar o outro em si e perder-se. Loucura insana? Pode ser… mas o que importa? Quando se está perdido busca-se uma saída e há tantas portas! E atrás de cada porta o desconhecido habita, sempre à espera para ser desvendado.

 

 

 

***

 

 

 

VIDRO E CORTE

 

um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão à própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz

 

Ianê Mello é carioca, nascida no Rio de Janeiro. Foi professora e orientadora educacional no município. Pós graduada em Pedagogia pelo Instituto Isabel. Experimenta diversas propostas em textos literários, desde poemas e haicais até a prosa. Edita e participa de fóruns literários e tem textos publicados na Comunidade Benfazeja, na Revista Zunai, na Revista e Mallarmagens, na Revista Biografia, na Revista Novitas e na Antologia “A nova poesia brasileira “, pela editora Shogun Arte. Em 2013, publicou seu livro de poemas “Tessituras e Tramas”, pela editora Verve.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Priscila Branco

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

nunca controlei meu suor
minhas fezes, minha urina
o sangue menstrual
os surtos psicóticos
a raiva ao capitalismo
a pulsão da morte
os pelos desgovernados
as unhas rapideiras
a respiração acelerada
o odor do trabalho

já não suporto
o grito controlado
a lágrima domada
o soco parindo
um livro inteiro

 

 

 

***

 

 

 

é preciso falar com portas
imaginando o outro
lado um mundo inteiro
submerso em labirintos
pontes entre portas
guardando carros
carroças e andarilhos

é preciso bater em portas
aceitar o silêncio
como resposta
aguardar bocejando
uma vigília
sem pressa e sem prece

é preciso derrubar portas
chutar até cair
abrir estradas
descosturar suturas
inventar saídas
para vencer os abismos

 

 

 

***

 

 

 

só mais um dia de fracasso
o acaso me diz
és uma máquina de fazer ossos

como meu grande ofício,
reparo no verbo antepassado
gosto de carne queimada
churrasco mal feito
respondo teimando:

não sou nada disso
tu que é chato.

 

 

 

***

 

 

 

…sempre à beira
o poema é um salto
quebrado

por outro lado,
ler poesia é voar
num barco

depois de alguns anos, está tudo no lixo.

 

 

 

***

 

 

 

eu bem gostaria de uma surpresa
às três da tarde de uma segunda
terceira opção
no meio do ano
quando o frio parece feio
porque acontecido
e a saudade não suporta mais
o real.

 

 

 

***

 

 

 

basílica à noite

 

no corpo, um corte profundo
como uma cena de filme bem feita
como um take da sua câmera quebrada
um corte religioso
que nem o cabelo de maria
madalena
ou judas
quem sabe a gente reescreve a história
beijando na boca.

 

Priscila Branco é poeta, mestre e doutoranda em literatura brasileira, pesquisadora da poesia contemporânea escrita por mulheres brasileiras fora do cânone, editora da Revista Toró e da Macabéa Edições, além de ser colunista da Revista Cassandra. Também faz parte do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ) e do grupo de pesquisa Mulheres na Edição (CEFET-MG). “Açúcar” (2021) é seu livro de estreia, acompanhado pela plaquete “Pitada de prosa”.

 

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147ª Leva - 02/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

DA DOR AO AMOR À LIBERDADE

 Por Vinicius de Oliveira

 

 

Dentro da gramática dos tambores das escolas de samba, existem, em geral, três surdos que marcam o ritmo binário do samba. O surdo de primeira marca o tempo forte do segundo tempo do compasso; o surdo de segunda marca o tempo fraco no primeiro tempo do mesmo compasso. Como o samba é um ritmo sincopado, o surdo de terceira preenche o espaço entre o primeiro e segundo tempo, conferindo o balanço sincopado que move o corpo.

Na década de 30, as escolas de samba, que eram comunidades predominantemente negras, contavam a história de gente branca. Isso porque o regulamento previa enredos de interesse nacional, os quais eram compostos por temas de grandes personagens pátrios, de feitos extraordinários do Brasil e de natureza exuberante, todos eles dialogando com a história oficial.

O historiador Luiz Antônio Simas chama o fenômeno do surdo de terceira de “adequação transgressora”.  O enredo contado através da palavra, que narrava a história de “gente branca vencedora”, era contraposto pela gramática dos tambores, que entre a normalidade da primeira e da segunda batida, surge o surdo transgressor que vai estabelecer contraponto entre os sons previsíveis. Um outro exemplo de transgressão é o toque de base da Portela, que enquanto o enredo exaltava os grandes vencedores, a bateria tocava o Aguerê, que é a marcha para Oxóssi.

É nessa disputa de vozes que Levante, de Henrique Marques Samyn, nos fornece versos potentes que narram a dor de um período da nossa história que parece que ainda não passou.

O livro é composto por 75 poemas, dividido em cinco partes: Desterro, Cativeiro, Ancestralidade, Resistência, Herança e Liberdade, todas dialogam, a um só tempo, com o passado e com a contemporaneidade, e também com o projeto gráfico do livro, que começa com tons escuros em desterro, vai clareando até atingir tons amarelados em Liberdade.

Em Desterro, Samyn conta em versos o horror da travessia do Atlântico. Se os livros de história e pesquisas arqueológicas contam, documentalmente, que o continente africano exportou, durante séculos, pessoas para servirem de mão de obra escrava para o mundo, o poema Cria penetra no horror do subsolo imprimindo luto ao verso. “Embarcai também as crias: as de peito e as de pé. Pouco é o espaço que ocupam. Pouco valem – estas, de peito, costumam morrer facialmente; as outras, que podem andar, talvez sobrevivam. Que seja: pouco é o espaço que ocupam. Pouca a nossa despesa”.

Talvez o termo mais correto para falar da história do povo negro é o silenciamento. Termo mais adequado do que apagamento. Se a história oficial não conta, não significa que um determinado fato não tenha existido. Nesse sentido, não há de se falar em dar a voz, mas sim em dar visibilidade. Henrique faz mais do que isso: ao dar visibilidade, reverencia aqueles que transformaram a dor em direcionamento para seguir. “Não mais somos vossos cativos, mas nada esqueceremos – nossa memória é profunda: fazemos da nossa dor nosso alento”.

Na terceira parte do livro, intitulada Ancestralidade, o poeta homenageia nomes que fazem parte da resistência do povo negro ao longo de cinco séculos. Samyn, que é professor de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Grupo de Estudos Letras Pretas, abre e fecha a parte Ancestralidade, homenageando Aquatune, a princesa africana e avó de Zumbi dos Palmares, sem a qual não existiria Zumbi dos Palmares. “No início estavas. E sem ti, rainha, que seríamos nós? Por isso, agora, a teus pés prostramos: nossas vidas a ti devemos. Ouve, nesta hora”.

O poeta lança mão do horror como matéria poética, para nos lembrar da dor de quem experienciou a escravidão. Mas não apenas.  A potência dos versos do poema Senzala mostra, como talvez não se encontra em nenhum livro de história, espaço de geração de vida, de amizade e de resistência na senzala, espaço onde só deveria haver dor e sofrimento. “Nessa casa sem janela, com as portas bem trancadas, habitam muitas famílias – muitas vidas amontoadas. Aqui se houve muitas línguas, aqui histórias são narradas, amizades são tecidas, aqui vidas são geradas”.

A última parte do livro, intitulada Liberdade, é composta por poemas que são numerados: se nas partes anteriores cada poema era identificado por um título, seja para nomear personagens importantes, seja para dar pistas do que o leitor encontrará ao longo da leitura, agora, os nove poemas que compõe a seção Liberdade são apenas numerados, indicando tempo presente que, ao mesmo tempo que dialoga com o passado, constrói o futuro. “No deserto que nos deixaram, verdejaremos – dos espinhos que nos rasgaram, floresceremos”.

É nesse diálogo temporal que o livro Levante conta a história do povo negro, do desterro imposto pelo horror do tráfico negreiro, passando pela resistência de heróis negros ao sistema escravista, até ancorar na contemporaneidade, apontando não um repouso, mas sim para a permanente memória dos que deram vida por liberdade e apontando, também, para a luta por libertação.

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Olhares

Olhares

A pulsação do intangível

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O mundo e suas esferas possíveis. Fluxos do que vai por dentro e por fora de nossas perspectivas. Na confluência entre o duo interno/externo, sensações das mais abstratas assumem contornos de visibilidade pela materialização do gesto artístico. E ser artista, bem no meio do turbilhão nosso de cada dia, pode ser um ato de transformação de horizontes. É converter, por exemplo, o aborrecido em poesia.

Num certo sentido, o olhar do artista sobre a paisagem mundana revela opções que nos sugerem atravessamentos. Esse estar-se atravessado fala de como as complexidades humanas são capazes de afetar a visão de quem cria, pois é praticamente impossível não se levar em conta o quanto os nossos sentimentos e ímpetos orientam a dinâmica da vida que engendramos enquanto seres pensantes.

Observar o trabalho de Bianca Grassi é pensar também no quanto essas complexidades que se revelam na condição humana são eixos fundamentais a mover a Arte. Em suas ilustrações, a artista evoca sensações que dissolvem as formas convencionais de representação do humano. Em lugar de corpos e faces definidos num mar de expectativas tradicionais, vemos a matéria alongada dos seres, envoltos em proporções agigantadas, disformes, verdadeiro agregado de sintomas das perturbações que nos assomam na travessia dos dias sobre a Terra.

Mas o redimensionamento das formas proposto na arte de Bianca não parece ser uma mera escolha estética. Diz muito sobre como as experiências aqui vividas por todos nós mobilizam inquietudes, posto que estar no mundo é ato constante de alteração dos estados de existência, ou seja, é prover as mudanças do ser, de modo voluntário ou não.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O humano em Bianca Grassi é confrontado quando se mira no espelho. Nesse enfrentamento, irrompem espantos, medos, estranhamentos, dores e prazeres, fazendo-nos lembrar a todo instante que viver é um flerte incessante com a consequência dos caminhos escolhidos. Nesse trajeto, a ilustradora traz à baila o ímpeto da provocação, estímulo que ora nos desnorteia pelo desamparo de algumas imagens ora nos une pela sugestão de que não compreendemos a mínima parte do mistério que é o existir.

Autodidata, Bianca mescla diferentes técnicas como nanquim, carvão e aquarela, transpondo-as para o digital. Nesse ínterim, busca comunicar muito daquilo que está imerso no emaranhado cotidiano. Como ela mesma nos confessa, sua arte está voltada para reflexões sobre o indivíduo, as relações humanas e a sobrevivência do efêmero diante das dores do mundo. A artista também se dedica ao design e à literatura, tendo poemas e contos publicados em espaços e coletâneas digitais.

Na via que demanda a abordagem sobre as emoções humanas, as ilustrações de Bianca Grassi estão situadas num eixo marcantemente filosófico, posto que simbolizam incertezas do nosso caminhar, dúvidas que se manifestam sob a forma de indagações na miríade de sentimentos expostos. Nesse colossal painel de humanidades, imergimos nas profundezas, retirando dali vestígios do que outrora fomos, além de memórias desejosas de um porvir. Ao fim e ao cabo, somos o corpo de escrituras vivas, inserindo em nossa sina a marca portentosa da imprevisibilidade do ser.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

* As ilustrações de Bianca Grassi são parte integrante da galeria e dos textos da 147ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Susana Fuentes

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Redenção (à luz de Tarkovski e Bach)

 

A água escorre sem pressa de correr o mundo. O rio respinga gotas no vestido e quero tornar-me rio para dar petelecos na água. Vejo o céu e quero ser assim, tão azul (e garboso e tranquilo). Mas, quando chove, passo a achar que o mais belo é a chuva e aí despenco do céu (e visto-me de branco pérola). Embrenhada no verde, quero ser pedra, árvore, e servir de anteparo a esta chuva que tomba. Acaricio a chuva porque ali vejo seu rosto. As lágrimas de seus olhos serpenteiam frouxas nas bochechas enxutas. Gostaria de impedi-las em seu percurso, para lhe conservar a face seca. Gostaria que meus afagos a fizessem sorrir, para ver um riso frouxo traído na boca. Ao invés, sua língua escapa pelos lábios entreabertos e de lado colhe uma gota, e outra, aparando os pingos já em ritmo de enxurrada.

Quando estou no seu jardim, aí quero tornar-me chuva. E, como chuva, devolver à sua pele a festa de suas mãos segurando a minha, quando um dia estive doente e você me trouxe o conforto absoluto de um afago nos dedos tristes sem pouso. Você colheu estes dedos no ar, sua mão em concha inventou-lhes um abrigo já que iam em sua direção. E eu caberia inteira ali, por toda a noite, por toda uma vida, vida tão longa como a noite não dormida quando senti a ausência desta mão. Tão doce como a noite em que você esteve em meu sonho. Noite inventada para que eu coubesse na vida mesmo sem ter você por perto.

Como você ama lírios, flor-de-lis, açucena, para sempre estarei à sua mesa. E você, longe, olhar habitado por uma chama, me fará sorrir – a cada vez que a vela brilhar contra a tampa da panela. Tampa que serve de anteparo à concha e sobrevoa a mesa… para não desperdiçar nada sobre a toalha. A tampa em suas mãos recolherá os pingos e guiará a concha – com pedaços de maxixe, inhame, batata doce, baroa e aipo – em segurança ao colorido dos pratos. Como uma flor no jarro sobre a mesa, eu escutarei as conversas. Uma só mesa para o avô e para o neto. Como era você?, a criança perguntará então. E eu apontarei, com as palavras, para a chama veloz de seus olhos despertos.

 

 

 

***

 

 

 

Suíte

 

Numa Suíte, a Sarabande desliza sem pressa… e ocupa o centro
do poema. É como se dissesse: Não vou suprimir os floreios,
só encurtá-los.

 

A beleza de Sarabande: Beleza que cresce com o Tempo. Sarabande se entrega ao Tempo e ele a toma pelas mãos e diz: você será minha eleita. Gentil, ela se inclina como dama e aproveita o instante para admirar as margaridas – como são belas nesta época do ano, como são queridas!

 

*

 

Sarabande, no esforço de ocupações singelas: trocar a água dos colibris, limpar o cantinho do espelho, varrer a soleira da porta. A pele salpicada de suor sob os olhos. Femina, com um paninho, chega até bem perto e a conforta.

Intermezzo dá de ombros, fita Sarabande… e desfaz de Femina o encanto, em zombaria: veja esta, que mimos inventados para chegar até você.

 

*

 

Zorina olha Sarabande de perto. Tomada de recato, nem se atreve a tocá-la: olha, tão transtornada, que se esquece ali, perdida. E esquece tudo que pensou quando não estava tão perto. Quando podia respirar.

 

 *

 

Sarabande fala e não para de falar. Todas escutam, atentas: Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. Do que fala Sarabande? De meninices. De matreirices. E ela só faz lembrar e deslembrar.

 

*

 

Sarabande, a curva dos seus dedos aponta para fora, para o alto. O que caberá em seus pensamentos, os que desconheço, e os de que faço parte? De pé, junto ao portão, vejo partir suas lembranças. Levam-me até a menina radiante de vida. Sarabande ainda pequena. Menina que já passou pelos caminhos que percorri (e muitos, muitos outros) tantos passos à frente, será que entrei por algum atalho, para agora lhe encontrar na mesma estrada? Quero apresentá-la à Noite, mas ela já conhece seus olhos, seu nome. O Sol, a Chuva, o Dia, chamo para que eles a conheçam, mas eles me respondem: quem, aquela? Já a temos entre nós faz dias. Anos. Você nem tinha nascido. Falo de Sarabande com susto de perdê-la, e chamo a Vida para que a conserve a meu lado. A Razão manda que eu me cale, mas o Amor, que olha tudo com bons olhos, acha natural que eu esteja deste lado do portão e me convida ao jardim onde vivem, então, as cinco rosas: Zorina, Apogée, Femina, Intermezzo e Sarabande.

 

*

 

Zorina, para Sarabande: se eu pudesse alcançar suas folhas…
Apogée, bem prosa: afasto suas mechas curtas, Sarabande, porque aí chego até seus olhos.
Intermezzo: sopro a brisa que passa, Sarabande – porque aí beijo as suas pálpebras.
E Femina, num susto, embola o cobertor: não se resfrie no sono, Sarabande, está bem?

 

 *

 

Femina se espanta quando Sarabande conta uma história. Se fala da menina de cabelos de vento, seus braços (de Sarabande) escapam pela camiseta, longos, finos, dançantes, e os cabelos sem rumo é como se dançassem também.

 

 *

 

Sarabande tem velhas amigas. Quando as encontra, ela tem pena de que estejam tão velhinhas. E pensa se não está assim também. Zorina a acha linda, e nada diz, porque nem sabe o que dizer. Apogée, absolutamente da mesma opinião que Zorina, sorri de lado e silencia, pois imagina que nem lhe darão crédito. Intermezzo, galante, com protestos da mais alta estima, discursa sobre a Beleza e a Força. Mas logo vem Femina com um espelho e cobre Sarabande de beijos. E Sarabande ri e fica feliz assim.

 

 *

 

Altas horas, Zorina não quer ir embora. Sarabande leva todos até o portão e se despede: Intermezzo lhe acena com medida, Apogée palpita que já é chegada a Noite, e Femina discretamente plantou-se de mala e cuia num canto do jardim. Zorina morde-se de inveja de Femina mas não fala nada. Aí Sarabande se aproxima e lhe dá um abraço. Zorina sente o corpo na altura do ventre e então se desmancha e se derrete. E Intermezzo a carrega dentro da bolsa até a Noite que chegou.

 

*

Carta de Zorina, que fugiu, foi-se embora: Adieu.

 

*

 

* * *

 

*

 

Sarabande, de menina atrevida. Descabriolada, descaraminholada. Cabelos revoltos, ombros descobertos, braços pendem para o lado, esquecidos da vida, Sarabande vendo estrelas, bichos, árvores, cheirando o céu e descobrindo o rosto sem pressa de abandonar o dia. De repente, Sarabande diz: estou cega. Não vejo nada. Estou cega. Zorina: não é nada, não se assuste. Apogée: olhe para frente e faça um exercício de olhos. Intermezzo: que invenção, você anda muito impressionada. Aí, vem Femina. E, com jeito, lhe ajeita um cacho que bandeirolava nas bochechas. E Sarabande volta a si com a maior discrição.

 

*

 

Chamo a Noite, minha amiga azulada, com seu rosto de lobo celeste, cintilante e gelada. Ou a Tarde morna e rubra, com seus olhos de cobre, essa dama que escurece. Cada uma já sabe de longa data quem é Sarabande. Já lhe renderam os dias quando a carregavam pequena, pernas ligeiras correndo entre as casas e entre arbustos das rosas. Dos arbustos deslizavam pétalas que o vento pousava em seus cabelos. Que sua mãe escovava intermitente, com a paciência de não atropelar os fios.

Quando apresento Sarabande à Chuva, os pingos riem que já conhecem seu rosto. Vou lhe ensinar a Chuva, e Sarabande nem tem pressa em dizer que o Trovão foi ela que pintou de azul. E deixa molhar seus cabelos, ainda soltos sem rumo. Vou lhe ensinar o Trigo, e Sarabande já dançou horas seguidas quando eu nem tinha nascido e os pés de Sarabande eram redondos de rodopios. Quando falo: Pedra, quero que conheça este rosto, a Pedra me mostra as curvas que copiou de suas costas, de sua nuca, quando você, Sarabande, suspendia os cabelos e revelava os brincos de princesa escorrendo de dois fios. Mas vejo que me despeço do jardim, Sarabande, a cada vez que repito seu nome, porque aí me revelo e você se encolhe de medo, ou de espanto, e se volta para a Noite (que é a sua Noite) e para a Tarde (que é a sua Tarde), e se pergunta o que esta menina tola (que sou eu) está fazendo lá, em seu jardim. Só me resta cruzar o portão em despedida, o que faço inconsolável, mas, antes, fecho-me silenciosa atrás de um pequeno arbusto e ouço as conversas. Em torno de Sarabande, com homenagens, dengos e soluços, minuetam Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. (Será que num descuido deixo-me ficar no jardim?)

 

 

 

***

 

 

 

Salve

 

 

Saaalve. Mestre Tinhô, preso ficô, Ai …tem dó, indoné
sete meninos à toa deixô, Ai… tem dó, indoné

 

As palavras saíam, obedientes mas borradas na borda lisa da pequena folha. O lápis que usava era feito de cera, por isso sua ponta grossa e espiralada ia cedendo ao calor. E a extremidade de um lápis assim se derretendo era a coisa mais descabida para quem, em inspiração súbita, estava tão decidida a criar sobre o papel. A-la-me-das rá-pi-das desenham a estrada con-tra as va-ran-das de portas aber-tas a le-var a ren-da das toalhas e as pé-ta-las se-cas de seu lei-to de pa-lha.

No pátio da escola, última tentativa de refrescar-se. Loló agachou-se na terra molhada e afastando as pedras, desenterrou algumas folhas. Suas mãos firmes eram bem desenhadas, o talhe à galope de um grilo. Quando conseguiu separar a lama de todo o resto, mergulhou a palma em concha e trouxe uma porção para si. Colocou-a em um pano grosso, que torceu e enrolou na cintura. Andando em volta do prédio cinza e quente, de poça em poça os pés descalços se coloriam ao afundar na grama, charco que a terra, saciada e preguiçosa, resistia em absorver. A folhagem caía infinita para uma tarde tão curta que, inquieta e indecisa, quebrava-se sempre outra. E quem não acompanhasse as mudanças imaginaria a tarde constante e quieta como o som das crianças brincando na rua e o cair das flores da velha árvore roxa. Barranco acima as casas multiplicadas lajeavam a silhueta da montanha. Só as pipas surpreendiam o previsível das formas mas, quem podia notar? Ninguém viu quando Loló caiu no passo da bala contra o peito. Aviso de que os lá do morro estão à procura do irmão.

Loló ali parada, na terra quente, sua fisionomia devia estar debilmente distorcida pois dona Dita foi logo gritando que se sentasse enquanto buscava um copo d’água. Pendeu de lado a cabeça, focou a folha na mão. As letras riscadas à sua frente também já iam disformes. A claridade na folha debandava. Agora era a cera preta do lápis perdida no escuro da sala, estava ela na sala do professor talvez? Sala tão bonita, não se recorda, já tinha ali pregado as bandeirinhas? Al-a-me-das rá-pi-das. Um impulso impensado moveu a menina através do corredor. Con-tra as va-ran-das. Sobre pés pequenos demais, inspirou um ar carregado num frenesi quase alegre atravessando os ombros e o peito. A le-var a ren-da. Por instantes sentiu-se tênue chama, pronta a apagar sem mesmo precisar do empurrãozinho de um vento.

Boba essa Loló. Contam histórias, passam cantigas, mas só o que ela quer saber é daquela que a criançada canta na hora do recreio. O padre da Indonésia esbraveja que vai mandar todo mundo lavar a boca com sabão. Loló ri e canta mais alto, mais alto, com uma convicção que tem guardada, que só sentiu uma vez, quando cantou o hino da bandeira e ia bem longe da escola e via aquelas letras que nem bandeirola de São João, qual pendão colorido. Loló debulhava, escolhia as palavras. Puríssimo varonil peito amada. Sagrado? Serve. Encerra. É, bonita. Encerra varonil peito. Amada varonil encerra. E assim ia, deixando cair as bandeirinhas, apanhando as mais bonitas, mais sonoras, escondendo algumas no bolso, outras nas páginas do livro. Quando abro este livro, tem vento. Aposto que o vento já estava aí, escondido no bolso. Não. É ventania de livro mesmo, veja só: voa até palavra. Mas a poeira. Loló sacode e espirra. Espirra de boba. Dona Dita… me conta uma coisa… é verdade que mestre Tinhô tá preso? Na pia do banheiro, Loló assoa o nariz, deixa a água escorrer, faz bolhas de sabão. É, Loló. Foi se meter com o que não devia …Ó lá, dona Dita … Loló pensou nas bandeirolas. Esfregou as palmas. Sacudiu as mãos e meteu-as no bolso. As palavras guardadas a sete chaves e três botões espiavam do escuro. Faltava cozer uma casinha que estava por um fio. Volta e meia, fio e meio, um deslize, uma rajada de vento e uma danada escapulia. Volta, dona va. Aqui, seu to. Não descuida, não, ô sa. Ah, tudo de novo, não saio daqui. O recreio pela metade e mal dava para catar todas. Saaalve. Na fila do hospital ninguém viu a mão que contava palavras e colhia as lágrimas choradas sobre o corpo frio.

 

Susana Fuentes é escritora, atriz, doutora em literatura comparada pela Uerj. É autora de Escola de gigantes (7Letras, contos, 2005), Luzia (7Letras, 2011), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, Anotações de Berlim (Megamíni, 2016) e Carta ao Sol (Funarte, contos, 2020). Escreveu a peça teatral Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). E Olavo, le chat (Edição do autor, 2016).   Seu novo livro, A gaivota ou a vida em torno do lago [tema para uma peça curta], foi lançado pela 7Letras (poesia, 2021). Pesquisa a literatura russa e brasileira e ministrou oficinas de criação literária na Uerj, UFRJ e durante o Printemps Littéraire Brésilien na Université Paris-Sorbonne.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Kleber Lima

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Os cavalos começam a correr.
Balançam minha cabeça.
Sacodem meu coração.
Em seus fortes lombos,
a doce bagagem extraviada,
segue terrestre e profundamente,
despachada na corrente sanguínea
até para fora da realidade.
– caem sobre dois olhos que brilham –
brilham como duas velinhas obstinadas
acesas por dentro da mais ampla escuridão.

 

 

 

***

 

 

 

agora me sento e penso em você.
penso sobre teus pés e tuas mãos.
no teu sorriso milésimos de segundos antes
de atravessar a linha de chegada até o meu.
nesta pequena dosagem de teus dedos angulares
que por onde passam
deixam um legado de lírios
como se iniciassem pássaros
a caligrafia dos teus cílios.

– me aquieto
afixado entre teus olhos
organizado como horóscopo
na estante do teu olhar –
aberto como livro em suas mãos,
páginas à tona num deserto,
hóspede da direção incerta
do ascendente do teu beijo,
que por detrás da cortina,
à espreita,
arranha meu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Lá está você
uma janela por onde se vê os próprios olhos
um mar cujas águas mais fundas desembocam em si mesmas
uma flor que tanto mais desabrocha quanto mais entranhada do próprio perfume
um sol que por dentro irradia outros sóis
uma casa que é o único caminho para o próprio lar
um livro de páginas tais lidas com a língua embrulhada pelo silêncio
um alimento que cultiva a fome assim como a luz talha a sombra
uma oração que religa, dedo a dedo, as próprias mãos.

 

 

 

***

 

 

 

Veja
são todos leões
soltos na savana do sangue –
pesadas pedras que se carrega até ao mais alto.
Parecem com relâmpagos
arqueados pelos parapeitos do céu
prestes a eletrocutarem o ar que já não existe no peito.
Muito semelhante a trens desgovernados
cujos trilhos dependem de pedaços dos nossos corpos para não envergar.
Não se engane
são todos templos dinamitados
cujas crenças permanecem por séculos vivas
trabalhando em segredo por esse vínculo inquebrantável.
Eu havia falado: são leões, todos leões
rugem mais alto ou mais baixo –
depende da dose.
eu acabei de dizer:
são antídoto e veneno.

 

 

 

***

 

 

 

Meu deserto é um animal selvagem –
ao encontrar uma sombra
desiste da caça
e move-se contra si mesmo –
da própria carne tira os nacos
que endurecem o movediço terreno
fincado debaixo de si.

por onde quer que se olhe –
areia areia areia.
nada sobrevive nada
à fome de se devorar
dentro
o lugar de onde veio
esse coração dependurado
que rasga como um olho
a escuridão que teima em acender.

 

 

 

***

 

 

 

Depois que você devorou a si mesmo
mastigou sua orelha
a ponta dos seus dedos
folheou seu coração
encheu de tufos de cílios
páginas com os melhores trechos –
inaugurou uma plateia com suas vísceras
pôs cadeiras cativas para
sua inadequação
suas conjunções malignas
seus monstros
sua má companhia –
depois que seus dentes molares
começaram a balançar
do tanto de violentas mordidas
nos maciços tijolos da lida –
enfim aprendeu que a vida
com seu adubo de feridas
é que nos engraça.

 

Kleber Lima. Bibliotecário. Teresina (PI). 1984. Publicou “Poemas I” pela Ed. Penalux em 2016.