Eu apoiava a cabeça no ombro de Helena todas as vezes que ela chegava de mansinho. Seu toque era meigo e delicado. O meu toque era possuído por uma leva de palavrões e atitudes irracionais. Era como se o mundo inteiro explodisse e eu não pudesse recolher seus pedaços por causa da confusão. Quando a explosão iluminava meus olhos, eles pegavam fogo e eu cuspia morcegos cegos em voos malucos. Rasgava os próprios intestinos e não podia aguentar o meu próprio cheiro.
Alguém pode comer a própria merda e falar em nome da bondade e honestidade sem mandar merda na cara de quem está prestando atenção? Será que isso é possível?
Eu recolhia a cabeça e deitava novamente em seu ombro, enquanto ela lia e me fazia perguntas sobre aquilo e isso… minha cabeça dormia sobre o amor em forma de mulher. Cantava numa frequência pirata a música da carência, enquanto o céu vinha pra cima de mim, como os destroços de um avião desgovernado caindo em cima da minha falta de vontade, bem em cima da minha total ignorância sobre o assunto.
Eu olhava pro tênis encardido e sentia a podridão. A sujeira encarando meu olhar com reprovação. Eu não queria levantar a cabeça do seu ombro, do meu conforto, por nada desse mundo, mas nós não temos sempre o domínio da situação, por isso, eu não gostava muito quando ela se levantava de forma rápida e sem me avisar. Minha cabeça levantava como um morto retirado das ferragens retorcidas de um carro detonado. Sem muito jeito, sem muita delicadeza.
Ela partia e eu ficava hipnotizado com seus passos, sempre apressados, em direção a todos os cantos da casa. Parecia uma grande atriz atarefada, vagando pra lá e pra cá na sua pequena atmosfera ornada por enormes margaridas empalidecidas como fantasmas gigantes.
Você sabe o quê é o amor?
Eu, até aquele dia, não tinha muito conhecimento, como pensava que tinha. Eu pensava que dominava o amor, mas confundia complacência com amor, enquanto as feridas brotavam no meu coração como plantas carnívoras. Eu colocava as mãos no rosto e pensava: “mais um dia”.
Quando você está morto, você perambula por aí, sem muita preocupação, nem aí com o mundo ou com as pessoas que também perambulam por ele. No estágio da morte, seus pés são facas fazendo cortes, deixando pra trás profundos abismos de você mesmo.
Nós olhávamos pra nossa casa, e aquele era o nosso céu. Era o nosso lugar dentro do que é perfeito. Helena gostava de ficar sentada fazendo seus desenhos, fumando um cigarro que soltava uma fumaça que dançava na minha garganta como uma serpente.
A morte, às vezes, bate à sua porta mais cedo do que o esperado. O azul da casa salvava os olhos cansados, a mente perturbada, a carnificina pronta pra brotar no peito. O azul era a cor da purificação, e por alguns instantes, a cor de uma plenitude desconhecida e aceita.
“vamos pintar de amarelo, minha querida?”
“Não… o azul é o mar repetindo-se sobre nossas cabeças”.
Então ficava azul, sempre o mesmo tom de azul…
Foi numa noite de chuva que a casa azul ficou triste como um peixe fisgado pelo anzol. Tomado por uma dose de toxinas e assuntos mal resolvidos que viviam saltando na frente da minha paciência como fantoches de discórdia, peguei uma vassoura e girei o cabo sobre minha cabeça dominada por um milhão de vozes dizendo “esmague”, e desferi vários golpes contra a luz que iluminava a garagem. Ela se fez em vários pedacinhos, da mesma forma como se encontrava o coração de Helena, que chorava sozinha no quarto principal da casa azul, na periferia de Space City.
Outra vez, foi a toalha esquecida em cima da cama. O terror do colchão encharcado por um líquido extraído com o aperto dos braços delicados da inocência.
“Foi você que esqueceu ela aí, não eu”.
Não adiantava argumentar, minha “razão” cega e sem preocupação com a inocência se desmanchando em lágrimas, tampava os ouvidos e abria a boca, apenas, para emitir o rugido da barbárie.
Por isso, hoje, digo e defendo que, antes de você emitir um som ensurdecedor e se transformar num macaco violento, lembre-se… o cristal se rompe a qualquer toque sem amor.
Outra vez, foi o puro descontrole unido a uma dose sadomasoquista de cólera, que mandou o pobre do nosso gatinho fazer uma viagem ao redor do ódio. Metáfora pura. Coisa que vem em primeiro lugar na cabeça cheia de um rancor exasperado.
Às vezes você está acompanhado com o diabo e não percebe… ou será que o diabo pode ser uma alegoria que produzimos em nós mesmos para não deixar brotar uma flor de bondade, mesmo que pequenina e tímida?
É o cão… sem dúvida, diz uma das vozes dentro da minha cabeça. É apenas um distúrbio de comportamento, retruca uma outra.
Com isso, posso dizer que, não deixe a estrutura do cristal ir à tona toda estilhaçada. Não deixe esse maldito ódio (digo isso lutando desesperadamente para não ser contaminado novamente) pegar você pelo dedão do pé. Recuse suas carícias em seu corpo.
Vamos dançar?
Vamos entrar no esplendor do azul?
Você despertou meu lado Cérbero… o quê realmente você quer, meu senhor?
Quer que eu saia do meu buraco, depois de alguns anos, metralhando o ódio ou o amor?
Meu coração quer ficar azul. Não tem mais a cobertura do manto vermelho. O quê estou dizendo?
Entende de vozes, meu senhor?
O sol nasce como no cinema, morno, cheio de uma luz artificial, onde, de mãos dadas, nos iludimos e voltamos a ser seres humanos novamente.
“Será que amarelo é bom mesmo? Você quer imitar o sol? Amor, você vai acabar com as mãos queimadas”.
“Vai ser a nossa obra prima, baby, vai ser a nossa passagem para a eternidade, isso eu juro pra você”.
Quando ela ia dormir, eu ficava ainda algum tempo na sala, sentado no sofá, ouvindo música clássica, sentindo minha cabeça ser comprimida pelas vozes da minha consciência. Eu tinha vontade de gritar até a garganta explodir. Queria ter uma bomba na fala… confidenciar explosões nucleares com os dentes. Sentia o negrume feito coisa podre bem no meio da minha cara, olhando a consciência dentro de uma vala comum, apodrecendo, definhando, sendo devorada por uma grande demanda de vermes asquerosos.
Na madrugada, sobressaltava dos sonhos mais mesquinhos e sentia demônios colocando seus dedos sobre o meu ombro. De joelhos, pedia a Deus o azul. Pedia o supra-sentimento para a redenção de uma alma escura e lodosa.
Eu era um monstro que um dia foi um peixe dourado.
(Nelson Alexandrenasceu em Maringá – PR. Já disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e até mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ninguém)
Não há nada mais valioso do que poder usar dos recursos da liberdade e fazer ecoar a própria voz. Na seara musical, isso até pareceria uma mera redundância não fosse a perspectiva de também se poder passar algo coerente através das canções. E é aí que entra a veia autoral a atravessar espaços com sua sedutora proposta de autenticidade.
Talvez seja um exagero falar de originalidade abundante em matéria de criação musical. Mesmo a máxima caricatural do “nada se cria, tudo se copia” revela em si o germe da transformação das coisas que, ao final das contas, sempre estiveram no mundo, seja de modo latente ou explícito. Importa mesmo saber quem percebeu a faísca inicial de algo e, com isso, promoveu a aparição do supostamente novo?
Escutar o trabalho da banda mineira Transmissor pode servir como uma sucinta e serena resposta a isso tudo. E predicados não faltam aos moços de Belo Horizonte quando o assunto é converter olhares sublimes sobre a vida em forma de letra e música de qualidade. Da reunião de Thiago Correa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Handam, surge um ambiente sonoro carregado de sensibilidade e, o que é melhor, conteúdo.
Nacional, segundo disco da banda, é desses álbuns que atrai pelo conjunto. Há lugar para tudo ali, tanto para densidades típicas de nosso incorrigível trajeto pelo mundo quanto para a leveza necessária ao olhar por vezes aborrecido de todo o tipo de gente. É assim que, sem levantar falsas esperanças e tolas bandeiras, a trupe do Transmissor chega desnuda aos nossos ouvidos e nos apresenta um trabalho cuja simplicidade nem de longe representa um raso mergulho por sobre as coisas da existência.
Transmissor / Foto: divulgação
Pensando um pouco sobre essa miríade de sensações, é que conseguimos entender porque uma canção como Bonina merece ser eleita uma espécie de síntese do disco. Há ali uma leitura possível sobre as relações que suplanta a gratuidade tão recorrente do tema. Fala-se de amor sem, no entanto, repetir fórmulas, apelos desgastados ou subestimar a inteligência de quem escuta cada uma das faixas. Nesse percurso, músicas como Vazio, Outra Ela, Longe Daqui e Hoje ilustram bem a habilidade do grupo em se mover pelo pantanoso território das emoções.
Ao traço pop rock de Transmissor vem se juntar um repertório cujas escolhas melódicas refletem um cuidado com arranjos e outros importantes detalhes. Além disso, o revezar de vocais entre Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Côrrea é um retrato lírico de como as composições são interpretadas no seu mais preciso teor. Transportar, por exemplo, a especialíssima Nada Será Como Antes, canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e que é verdadeiro símbolo do Clube da Esquina, para Nacional só trouxe mais vigor ainda ao disco. Sem dúvida alguma, um ingrediente bem digno de uma valiosa referência das férteis paragens mineiras.
Num cenário no qual se multiplicam artistas e bandas das mais distintas frentes, não seria precipitado apontar Transmissor como sendo um grupo que tem muito ainda a oferecer. Pelo engajamento de seus componentes e, claro, o resultado direto de seus dois trabalhos já lançados, o caminho futuro afigura-se aberto. E a espera vale a pena quando se tem algo consistente e despretensioso a dizer.
Tomasse eu o seu eco,
nua ao som do seu corpo,
espalharia por sua saliva
a ferida presa aos meus lábios.
Tomasse você
o que se esconde
sob os meus olhos fechados,
perceberia os cacos do amor inutilizado
e o quanto guardava esperanças
o indefinido retrato.
***
Parapeito
Na inevitabilidade
da memória
não há reparo.
O parapeito
do desejo é
como um cárcere
cimentado
em desmedida
solidão.
***
A condição indestrutível de ter sido
Arranca do interior
a pele do meu livro,
escrita inconstante de um silêncio
incerto como os movimentos de meu corpo,
como as cápsulas guardiãs
dos mitos e dos suspiros,
das linhas que não ultrapassam e
não respiram
a condição indestrutível de ter sido
por alguém
um amor perdido.
(Helena Terra Camargo é jornalista e escritora. Nasceu em Vacaria, mas mora em Porto Alegre. Participou da Oficina de Criação Literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil (com publicação na coletânea Contos de Oficina 23) e participa dos seminários de criação literária de Léa Masina. Participa do blog Falsidade Ideológica e administra o blog coletivo Mínimo Ajuste)
Para sobrevoar o livro “Nagasakipanema” (Editorial Práxis, México, 2011) de Víctor Sosa há de se estar disposto ao acolhimento da contradição: pairar com uma asa por sobre a bomba atômica e com a outra sobre a ambiência delicada de uma praia brasileira.
Coleóptero no ambiente. Atravessa janelas, o nácar das savanas, o desprendimento da infusão (jasmim), os anais de Larousse abertos em sua boreal quietude.
Coleópetero en lá habitación. Atraviesa ventanas, el nácar de las sábanas, el desprendimiento de la infusión (jasmín), las analectas del Larousse abierto en su boreal quietud (46)
Posiciono-me perante a tradução de poesia na qualidade de leitor e nunca como tradutor profissional que viaja permanentemente entre duas línguas. Interessam-me, sobretudo, as emoções e as experiências que recebo de uma construção poética agregada à liberdade de sua manifestação e cercando o leitor para diferentes saídas e entradas diante das múltiplas possibilidades.
Víctor Sosa (Uruguai, 1956) é um poeta de inserção, e começa o seu livro anunciando um motim com uma capacidade imagética muito sofisticada. Há liberdade em código de escrita. No decorrer do livro, os textos apresentam a quebra da sintaxe. As palavras assumem significado próprio. São curvas e híbridos com um toque de surrealismo, em tempos históricos, com a mistura incomum de diferentes elementos.
Há ratas no porão – lhe sussurra ao ouvido a advogada – mas ele entende mal e diz: ratos no ático.
Hay ratas en el sótano – le susurra al oído la abogada – pero él entiende mal y dice: ratones en el ático (163).
Há manifestação de inteligência criativa. Além da força sonora há conflito e tensão de linguagem. Muitas vezes, a leitura promove a sensação de se caminhar em areia movediça. Identifica-se uma tentativa de recompor a confusão mental que o poeta sofreu no momento de sentir ou intuir a prosa-poética. Ironia e criatividade. Cada prosa-poética possui uma velocidade de respiração própria e organizada.
Pode ser cancerígeno se olhar de frente… Catorze dedos na garganta da menina puxaram o cação ali atracado.
Puede ser cancerígeno si se mira de frente… Catorce dedos en la garganta de la niña sacaron al cazón ahí torado. (53)
Nagasakipanema é um livro escrito em castelhano, mas contaminado por outros idiomas. Utiliza-se de termos técnicos, de referenciais acadêmicos em ciências médicas e biológicas de maneira pontual.
O caráter espasmódico do ódio feito que se deletara. A vasodilatação da bochecha chegou a tal ponto que desviou o eixo da medula espinhal e secretamente, entre a quarta e quinta vértebras, uma protuberância côncava que podia se palpar desde o paladar.
El carácter espasmódico del odio hizo que se deletara. La vasodilatación de la mejilla llegó a tal grado que desvió el eje de la médula espinal y secretó, entre la cuarta y quinta vértebra, una gibosa protuberancia que podía palparse desde el paladar. (207)
Nagasakipanema não é um livro fácil. O autor trata a poesia que pode se tornar um tormento para o seu leitor. Porque fatalmente o faz mergulhar na sua brutal ignorância ou ascender a uma condição intelectual imensurável. Dada a sua robusta condição formal, a poesia exige do leitor paciência. Ele deverá investigar a linguagem e desfazer o poema para buscar o seu entendimento.
Apenas alguns golpes na nuca apressadamente dados com o cotovelo; um trovejar amostrado de metatarsos amplificado pela fossa séptica.
Apenas unos golpes en la nuca apresuradamente dados con el codo; un sampleado tronar de metatarsos amplificado por la fosa séptica. (101)
Investigar a forma permite reavaliar a capacidade múltipla e inquietante de pensar e agir. Diria que esta é exatamente a sua essência; ela é única e, ao mesmo tempo, múltipla.
E segue a prosa-poética, que se esquadrinha em exercício estilístico inventivo rico, onde Víctor não precisaria finalizar o livro.
Você participa, apesar da enxaqueca, e caminha descalço sobre o piso de tábuas sentindo os tendões, os músculos, o movimento e a resistência de suas pernas diante de um exercício sem sentido.
Te incorporas, a pesar de la jaqueca, y caminas descalzo sobre el piso de tablas sintiendo los tendones, los músculos, el movimiento y la resistência de tus piernas ante um ejercicio sin sentido. (123)
Traduzir Víctor Sosa para o português é um desafio. Diria quase um delírio. Porque ele é livre. Nele nada é tão linear, tão lógico e previsível.
Referências:
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo na poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003.
PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996.
(Adriana Zapparoli (Campinas – São Paulo) é escritora e poeta. Realizou pós-doutoramento pela Universidade Estadual de Campinas (SP). Publicou A Flor da Abissínia (versão bilíngue), em 2007; Cocatriz, em 2008; Violeta de Sofia, em 2009; Tílias e Tulipas (versão bilíngue), em 2010; O Leão de Neméia, em 2011; Flor de Lírio (versão bilíngue), em 2012, todos editados pela Lumme Editor (Bauru – SP))
Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros.
(O lobo da estepe, Herman Hesse)
Nós éramos fio de faca rasgando a sua garganta. [VOCÊ] acorda, deixa a cama e anda pelo apartamento. Seu próprio grito o despertara. Som inumano em carne humana. Água fria para lavar o rosto e água fria para saciar a sede, nós éramos fumaça e veneno atravessando a sua garganta. Para dentro e para fora: [VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala. Pela primeira vez em anos, é a carne distensionada. Liberada a voz abissal, nós éramos necessidade. [VOCÊ] pensa: estão todos quebrados. [VOCÊ] vê adiante, presa a um muro de pedra, uma placa com estas palavras: mata o homem que odeia, faça da rapinagem teu ofício – se tiver sucesso, teu roubo será conquista e tua vingança será a guerra. E [VOCÊ] pensa: vai ser triste, sim. Mas a carne tem necessidades… Por que diabos não há espelho nesse banheiro, pergunta-se. Nem no quarto, nem no resto da casa. [VOCÊ] lava as mãos ensaguentadas na pia do banheiro, enquanto observa a placa no muro de pedra através da janela. No quarto, a mulher estirada na cama. [VOCÊ] se pergunta a razão de não existir espelhos na casa, afinal, [VOCÊ] considera, a mulher é bonita. Uma morte ordinária. [VOCÊ] conta quantas vezes repetira aquele ritual. [VOCÊ] sabe de cor, é claro. Mesmo assim conta. E como [VOCÊ] gosta do medo delas e do cheiro!, sim, do cheiro de todas aquela mulheres – ele inebria. Medo e cheiro o alimentam. Depois vem um sentimento de ausência, uma ausência que não é morte, sempre quando [VOCÊ] lava as mãos na pia do banheiro. E isso acontece todas as vezes, e segue o mesmo ritmo, e vem na mesma ordem. Finalmente, [VOCÊ] diz: tudo terminado aqui. E não há quem escute a sua voz.
***
Porra em brasa
A música não parava de tocar. A agulha da vitrola machucava a bolacha preta, e o chiado que saía da caixa de som era mais alto do que a voz agonizante do cantor de pagode do vinil. A porcaria do ventilador não funcionava como deveria. Teobaldo e Vânia suavam. A temperatura estava em torno dos cinquenta graus dentro daquela quitinete. Era verão, o asfalto derretia nas ruas da cidade. Nestas condições, uma trepada poderia levar dias para terminar. O sangue das pessoas queimava como brasa, tinha a grossa consistência do ferro em seu estado líquido. As pontas de cigarros escapavam do cinzeiro já cheio. Porra pra todo lado.
(Rodrigo Novaes de Almeidatem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009). Recentemente publicou o livro de contos Carnebruta (Oito e Meio/Apicuri – 2012). É cofundador do coletivo literário O Bule e Colunista do Página Cultural)
cego
aceno o diálogo de poucos
porcos especialistas em pérolas
mudo
de discursos e sílabas
ora teimosia de um barco a velas
ora colossal
qual monstro ou surdo
ritmando mínimos tremores de terra
cajado inimigo
tacape em punho
invisíveis cirurgias nas vértebras
***
detrator azucrino
atravesso a paciência
com a pontinha dos dedos
calcifico as desvantagens
faço cafuné e coço
do cóccix ao meio do céu
pernas inquietas em síndrome
de reclamar mil calcanhares
bem antes do salto o chute
e infecção no canal da lágrima
só dando nó em agulhas
é que massageio os ossos da face
***
o duro nódulo
parto
no muque
ou com uma gafe
desdobro
os laços
canhestro
trombo
nas etiquetas
rasgo
com o sabre
devagarzinho
faço butim do sumo
arrebato só o recheio
escambo sem bodas
brindo a quem
só nos receita
ir ir e colisões
(Marcus Grozaé poeta, dramaturgo, professor e devoto do céu violado. Autor do livro de poemas Do Buraco à Poça (no prelo – Editora Patuá), escreve regularmente no blog Pelas Ventas e Membranas. Além de literatura e teatro, interessa-se por música experimental e intervenção urbana. É Mestre em Artes pela Unesp e graduado em Filosofia pela USP)
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEATRO DE ARTHUR MILLER
Por Geraldo Lima
Arthur Miller / Foto: Monica Almeida
Devemos nos alegrar sempre com o surgimento de um dramaturgo que consiga explicitar, de modo criativo e contundente, as múltiplas facetas das relações humanas. E que o faça de tal modo que o espectador, diante do palco, sinta-se instigado a refletir profundamente sobre si mesmo e sobre o mundo em que habita, embora toda a ação dramatizada ali transcorra num cenário e numa cultura bem diversa da sua. Arthur Miller, autor de algumas das peças mais importantes da cultura ocidental, pode ser citado como um desses dramaturgos fundamentais para entendermos a alma humana.
Arthur Asher Miller, filho de um casal de imigrantes judeus polacos, nasceu em Nova Iorque, no ano de 1915, e faleceu na cidade de Roxbury, estado de Connecticut, em 2005. Viveu, portanto, um longo período e pôde, como dramaturgo, jornalista e cidadão norte-americano, vivenciar momentos dramáticos da História humana e do seu país, como a Segunda Guerra Mundial e a Crise de 29 (ou Grande Depressão).
Este último fato histórico teve impacto direto na vida do autor de A morte de um caixeiro-viajante porque afetou, diretamente, a vida financeira de sua família: seu pai, empresário do ramo têxtil, viu-se falido e obrigado a mudar, com a família, para o bairro do Brooklyn. Esse acontecimento dramático na vida do autor vai ser retomado na peça Depois da queda, mais precisamente no embate entre o protagonista Quentin e o seu pai surpreendido pela bancarrota dos negócios. A peça é, na verdade, um acerto de contas do autor com o seu passado, e esse confronto entre pai e filho, num momento de crise financeira, representa o que Arthur Miller viveu na juventude, daí Quentin poder ser tomado como seu alter ego. Desse modo, o teatro que ele vai desenvolver refletirá, sobremaneira, a sua experiência de vida. Sem cair, obviamente, no mero registro autobiográfico: a crítica feroz ao american way-of-life e às injustiças sociais impostas pela competitividade capitalista estão no cerne de boa parte de sua obra teatral. Um exemplo claro disso encontra-se na já referida peça A morte de um caixeiro-viajante (Death of a salesman), escrita em 1949 e pela qual ganhou o prêmio Pulitzer.
Nessa obra, de uma carpintaria dramatúrgica impressionante, o ambiente naturalista vai sendo envolvido pouco a pouco pelo onírico e pelos efeitos delirantes da memória do protagonista, o caixeiro-viajante Willy Loman. Miller retrata a queda desse homem, cujos alicerces éticos e morais foram erguidos sobre a frágil segurança da mentira e dos sonhos de grandeza, com rigor psicológico e olhar crítico. São “fraturas no sonho americano’, nas palavras de Otavio Frias Filho, que vão sendo expostas nesse caso. Diante das atitudes do protagonista, somos levados, pelo talento dramatúrgico de Arthur Miller, a dupla reação: ora aderimos à sua causa, ora nos opomos a ele com quase nojo. Aderimos à sua causa ao percebermos que ele está sendo engolido pela máquina capitalista e sem se dar conta disso. Mas rejeitamos, com veemência, o modo com que ele, na posição de pai e marido, vai, ao longo do tempo, estragando os filhos e sujeitando a esposa ao seu comportamento obsessivo, egoísta e estúpido. O conflito familiar que se instaura aí, com uma força assustadora, é resultante dessa cultura forjada a partir das exigências de um sistema econômico que leva alguns indivíduos a buscarem de forma predatória o seu lugar ao sol. O fracasso de Willy Loman, como pai, marido e caixeiro-viajante, expõe, assim, a fragilidade de um projeto de vida cujo valor maior se encontra alicerçado na supremacia da aparência física sobre a do conhecimento sistematizado – este último, representado pela figura vitoriosa do jovem Bernard. São palavras de Willy dirigindo-se aos filhos Biff e Happy: “Foi isso mesmo que eu quis dizer, o Bernard pode ter as melhores notas da escola, entende, mas quando sair para o mundo, entende, vocês dois vão estar cinco vezes na frente dele. Por isso é que eu agradeço a Deus do céu vocês dois serem feito dois Adônis”. No entanto é ele, Bernard, que, trilhando o caminho apontado pelo sonho americano, triunfa como advogado.
Arthur Miller e Marilyn Monroe / Foto: Evening Standard/Getty Images
Dentro do otimismo do sonho americano não há lugar para fracassos, não há lugar, enfim, para indivíduos como Willy Loman. As palavras da professora Daise Lilian Fonseca Dias, no seu artigo “O fracasso do sonho americano em A morte do caixeiro-viajante de Arthur Miller”, iluminam mais ainda o que foi dito:“Seu sonho fracassou porque estava centrado na fantasia e em ideias tão vagas e contraditórias quanto as que seus antepassados idealizaram e que até hoje impulsionam o homem americano para uma busca frenética pelo sucesso econômico, sem, contudo,permitir a ideia de um fracasso”.
O teatro de Arthur Miller desnuda, de forma corajosa, todas essas contradições presentes no arcabouço do tão propalado sonho americano. Miller é, ainda, nas palavras da professora da Universidade Federal de Campina Grande, Daise Lilian Fonseca Dias, “o poeta da consciência política”. Essa sua consciência política estava, de certo modo, ligada às ideias comunistas. Por conta disso, em 1956, após ser denunciado pelo diretor de teatro e cineasta Elia Kazan, viu-se intimado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Num gesto de extrema nobreza, recusou-se a apontar colegas ao Comitê. Na peça Depois da queda (After the fall), o autor enfoca, de maneira crítica, essa passagem lamentável da História da democracia americana. E é sobre essa peça, a cuja montagem tive a oportunidade e a felicidade de assistir em Brasília, no teatro do CCBB (Centro Cultura do Banco do Brasil), que falo na resenha abaixo:
Um Arthur Miller de encher os olhos
O bom texto teatral, como qualquer obra de arte, é aquele que nos faz penetrar num mundo vasto, do qual só podemos emergir outro. Uma obra assim nos permite perceber as relações humanas nos seus mais diversos matizes, dos conflitos amorosos ao embate político ou ideológico, da amizade mais sincera à traição que sempre aniquila. Vemos o ser humano, nesse caso, em sua plenitude: capaz de mesquinharias e de gestos heroicos. Tomando emprestado o discurso de Nietzsche, humano, demasiado humano, é assim que o vemos. A sua alma vaza pelos poros. Ali, no palco, na figura dos atores e das atrizes, a vida se descortina assustadoramente bela e trágica diante de nós. É para fora do nosso eixo de comodidade que somos arrastados todo o tempo. É nossa consciência que é fustigada sem trégua.
Tudo isso pode ser atribuído à peça que Arthur Miller escreveu após a morte da atriz Marilyn Monroe, com quem foi casado de 1956 a 1961. Depois da queda, escrita em 1964, mostra, de modo impiedoso e, às vezes, bem-humorado, o cenário político dos Estados Unidos durante a caça aos comunistas (e aqui o autor dessacraliza também a visão romântica do intelectual engajado), sua relação com a família e, obviamente, com o mito Merilyn Monroe. Arthur Miller não fala diretamente da sua vida. É na figura de Quentin, um advogado bem sucedido, e de Maggie, uma pop star depressiva, que ele traz à tona o seu passado. É, claramente, uma obra autobiográfica, mas que vai além do expor os percalços amorosos e familiares do autor.
Depois da Queda / Foto: Daniele Avila
Esta nova montagem da peça do dramaturgo norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1949, tem tradução e direção de Felipe Vidal e conta com a participação de um elenco afinado: Simone Spoladore, por exemplo, se sai muito bem no papel de Maggie/Marilyn Monroe. Lucas Gouvêa (Quentin/Arthur Miller), com memória invejável, leva sua fala ácida e caudalosa de ponta a ponta sem grandes escorregões. Gostei, particularmente, da atuação da atriz Thais Tadesco (Holga, Rose): sensível e ágil na passagem de uma personagem a outra. Repito: o elenco é afinado. E é isso, aliado à qualidade magistral do texto, que faz com que o espectador se mantenha ligado durante as três horas de duração do espetáculo. A peça fez sua estreia nacional aqui em Brasília no dia 19 de outubro de 2012, no CCBB (escrevo esta resenha no dia 10 de novembro, um dia antes de ela encerrar sua temporada por estas bandas). Daqui, parte para uma turnê nacional (só não sei se será apresentada apenas em teatros do CCBB). Fiquem, portanto, bem atentos, pois este é um espetáculo teatral imperdível.
(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista dos sites Dona Zica tá braba, O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)
O nome não importa e não creio faça diferença a essa altura do campeonato. Nem a idade. Ou a cidade onde morava. Pequena o bastante para que todos soubessem de sua vida e a recontassem, com certo exagero, a esta que escreve por mera curiosidade. Chamemo-la, portanto, de senhorita A., já na casa dos quarenta, relativamente agradável à vista, filha única entre nove irmãos. A sexta, para ser mais exata. E a única que restou naquela casa construída com o esforço de seu pai, militar reformado. Os irmãos partiram para cidades maiores. E só os viu novamente no enterro do pai, época da partilha. Deixaram para ela a casa e as parcas rendas que recebia mensalmente a título de pensão.
Senhorita A. não gostava de televisão, mas tinha verdadeiro apego ao rádio de mogno e às notícias. E às músicas que o aparelho retransmitia dia e noite. A inversão das horas era detalhe miúdo. Noite e dia. Salsa, merengue, fuga de Bach, Vicente Celestino. Ora, quem passasse em frente à casa saberia. A resistência do aparelho era impressionante. E sua sonoridade, quase pura, também. Para o mundo, ou pequena vila, era música o tempo inteiro. Para ela, supõe-se… Ah! Suposições, afinal, sempre serão especulativas. Então, que fosse somente música para ela. Todos já haviam se habituado ao som do rádio e à ausência da senhorita A. nos eventos mundanos. Ela não saía de casa. Mas escutava rádio o tempo todo.
Um dia a música calou. Acharam estranho, mas não deram tanta importância àquele silêncio repentino. O rádio, talvez, tivesse se quebrado de tão velho. Ou ela, a senhorita A., estivesse cansada de tanta música. Não se sabe. Até que um cheiro nauseabundo tomou conta de tudo. Um cheiro estranho e aterrorizante, como se todos os segredos e pecadilhos daquela cidade, ou o que ela escondia, pairassem no ar. As pessoas começaram a evitar umas às outras. A desconfiança, agora, era sentimento comum. Um dia a música retornou, baixa a princípio. Mais alta com o passar das horas. Belas músicas encheram o ar de certa esperança. Somente, então, se deram conta dos dias de ausência da senhorita A. e da música que, enfim, estava de volta, encobrindo o cheiro ruim, a desconfiança, os pecados. Bateram à sua porta. Ninguém atendeu. Arrombaram a porta. Ela não estava, mas, em sua cama, uma criança recém-nascida mexia as mãos. Fecharam a porta, levando embora o pequeno segredo.
Da senhorita A. nunca mais se soube.
(Mariza Lourenço (Valinhos/SP) é escritora e advogada. Integra as antologias: “Saciedade dos Poetas Vivos”, Vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino (2008); “Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas” (2009); “Coisas de Mulher”, organizada pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (2010); “A poesia é para comer”, organizada por Ana Vidal (2011) e “Amar, Verbo Atemporal”, organizada por Celina Portocarrero (2012). É Coeditora da Germina – Revista de Literatura e Artee das Escritoras Suicidas. Contato: marizalourenco@uol.com.br )
A inquietude talvez seja uma das ferramentas mais indispensáveis a um criador. Seja por um eixo filosófico ou meramente orgânico, estar vivo já pode ser entendido como uma experiência densamente inquiridora. Esse tipo de reflexão pode conduzir-nos também à instigante ideia de que o produto da arte não é um objeto de um mero e reduzido estado de contemplação das coisas. Achar-se aqui, no meio da “civilização” que construímos até hoje, representa muito mais do que um exercício estético de observação. Por mais acomodados que sejamos, acondicionados em bolhas de isolamento pessoal, o fato é que não passamos impunes pelas urgências do tempo.
No campo da literatura, qual seria, então, a melhor forma de representar a avalanche de sensações que presenciamos através dos dias? Buscar respostas não parece algo razoável. Tudo isso também porque escrever implica penetrar nas camadas mais complexas possíveis, muitas delas envoltas em saberes e sabores que só são viáveis graças a um permanente estado de perplexidade deveras útil aos caminhos da criação. O espanto de se estar vivo e pertencer a uma cadeia de elementos pelas quais não temos domínio absoluto é aspecto que povoa as mais distintas intenções quando o assunto é travar o combate das palavras. E não há como percorrer as paisagens humanas sem retirar das andanças um mínimo que seja de estranhamento. É, por exemplo, um pouco da sensação marcante que nos toma de assalto quando lemos André de Leones. Em sua trajetória, esse jovem escritor goiano penetra de modo denso nas estruturas que permeiam a nossa condição de humanos. De posse disso, faz uso de estratégias narrativas que chamam a atenção pelo modo como seres e lugares convergem para um sentimento de constante perturbação. Assim, perceber-se vivo na ótica do autor é não pactuar com uma acostumada e perniciosa “ordem natural” das coisas.
O caminho de lucidez sobre o qual André edifica sua obra demonstra que após atravessar as vias de Hoje está um dia morto (Romance – Record – 2006), Paz na terra entre os monstros (Contos/Novela – Record – 2008), Como desaparecer completamente (Romance – Rocco – 2010) e, mais recentemente, Dentes Negros (Romance – Rocco – 2011), ele parece estar cada vez mais disposto a pôr em xeque os alicerces em que se funda nossa tenra existência. Nesta entrevista, o autor pontua aspectos decisivos de sua criação, refletindo um pouco sobre nosso tempo e seus ventos eivados de desassossego.
André de Leones / Foto: Renato Parada
DA – “Dentes Negros”, seu último livro, é, digamos assim, um romance caótico, no qual a sensação do derradeiro instante paira por sobre a sina dos personagens de modo a representar muito mais do que uma mera ideia de finitude. Em meio à paisagem desoladora da narrativa, vestígios parecem ser precioso legado. O que lhe é mais emblemático nessa percepção?
ANDRÉ DE LEONES – Não vejo ‘Dentes negros’ como um “romance caótico”. Em termos estritamente estruturais, por exemplo, talvez seja o livro sobre cuja organização eu mais trabalhei. Tudo nele aponta para a finitude, de uma forma ou de outra. O fato de a narrativa ser tão curta é um indício dessa intenção. Ela é constituída por capítulos pequenos, objetivos, crus, mas que eu não encaro como “vestígios” ou coisa que o valha. Também não gosto do termo “sina”, pois tem a ver com certo fatalismo. Não sou fatalista. Não acredito em “sina” ou “destino”. Não era o “destino” de Hugo voltar à sua terra natal, assim como não era o “destino” de Alexandre encontrar Ana Maria. Escolhas são feitas cotidianamente, não importa em que circunstâncias. Nesse sentido, ‘Dentes negros’ tem tudo a ver com meus livros anteriores. Crio os personagens e os coloco em determinadas situações. A narrativa avança a partir do que eles escolhem fazer (ou não), desde as coisas mais simples (ficar em casa ou sair) até as mais difíceis (continuar vivendo ou não).
DA – O livro tem uma construção narrativa cujo encadeamento das ações chama atenção pela disposição das situações. Nesse sentido, há algo marcantemente cinematográfico na obra. Quais caminhos nortearam essa perspectiva criativa?
ANDRÉ DE LEONES – De fato, o romance nasceu de um determinado gênero (ou subgênero) de filmes que me interessam muito. São aqueles passados em mundos desolados por uma qualquer hecatombe, como que depois do fim do mundo, com os sobreviventes tendo de se virar com o que restou da civilização, por entre os escombros. Claro, há livros estupendos que se apropriam desse tipo de coisa, e eles também são muito importantes para mim (cito “A Estrada”, de Cormac McCarthy), mas a minha vontade, ao escrever “Dentes negros”, foi me basear num subgênero cinematográfico do qual ‘Mad Max’, de George Miller, talvez seja o exemplo mais perfeito. Não só pela extrema competência com que foi realizado, pela inteligência visual de seu diretor, mas também pela sua aridez, pelo fato de não fazer concessões na maneira como introduz um mundo ou um pós-mundo em que os estamentos da civilização vieram abaixo. Ao escrever “Dentes negros”, eu me permiti contaminar por esse sentimento de desolação, pela aridez dos cenários e situações, pela sensação de que algo deu muito errado e não há muita coisa que se possa fazer a respeito. Por outro lado, e nisso eu me distingo desse tipo de filme, optei por não embarcar numa narrativa de peripécias. Observe que mesmo a violência, em “Dentes negros”, é anti-climática, não há a construção de um emaranhado de ações que culminem num clímax redentor ou coisa que o valha. Os personagens erram por aí, simplesmente. O retorno de um deles à terra natal é abortado logo de cara, por exemplo. O gesto de outro (ir à procura da prima do morto e lhe entregar uma encomenda) não é heróico, cinematograficamente falando. Eu me fixo nesses gestos menores, que, no fim das contas, são aqueles de que somos capazes, quando somos. Fosse um filme, “Dentes negros” não seria cinema de ação, mas teria a lentidão que percebo, por exemplo, nos filmes de Michelangelo Antonioni (um mestre, aliás, em tomar premissas que renderiam ‘thrillers’ para construir narrativas das mais introspectivas – vide “A Aventura” e “Profissão: Repórter”).
DA – O modo como você aborda a questão da alteridade no contexto do livro é um aspecto de interessante reflexão. Tens a sensação de que algo ali é posto à prova?
ANDRÉ DE LEONES – A alteridade sempre foi um tema norteador em tudo o que escrevi. Desde os meus primeiros contos até “Dentes negros”, passando pelo “Dia Morto”, o mais importante sempre foi situar os personagens em determinadas situações; para tanto, é imprescindível um ponto de referência, ou seja, o outro. Nos meus textos, tão ou mais importante do que aquilo que os personagens dizem de si é o que eles dizem uns dos outros e para os outros. O outro, portanto, é uma via para alguma espécie de auto-conhecimento. “Dentes negros” traz, também, um esforço dessa natureza, seja para situar-se num mundo transformado em escombros, seja para seguir adiante, ainda que de forma precária. O outro nos pede que o asseveremos de que ele está ali, continua ali, e em troca faz o mesmo por nós.
DA – Observando o que vivemos hoje, sobretudo no que se refere ao terreno das relações, acredita que estamos diante de uma crise de humanidade?
ANDRÉ DE LEONES – A humanidade está onde sempre esteve. Não somos grande coisa, nunca fomos, nunca seremos. Compreendo que muitos precisem acreditar num sentido maior para tudo o que há, até para conseguir suportar uma existência que, na maior parte do tempo, é desoladora. Eu, felizmente, não preciso disso. Nada faz sentido. Escrevo porque é algo que aprecio fazer e porque preciso me ocupar enquanto estiver vivo. Acho que, se as pessoas conseguissem se manter ocupadas assim, sem recorrer a quaisquer transcendências, viveriam melhor, prestariam mais atenção em si, nos outros e no mundo ao redor. Até porque não há mais nada, reitero. Você não passa de uma carcaça arremessada para a morte, isto é, para o vazio. Acostume-se com essa ideia e tente aproveitar a viagem, se possível.
DA – Lugares como Silvânia e Goiânia integram de modo recorrente seus escritos. Estas referências refletem em você alguma sensação de pertencimento?
ANDRÉ DE LEONES – Não, pelo contrário. Só me senti em casa em dois lugares até hoje, e um deles foi Jerusalém. Silvânia e Brasília (onde residi por três anos e que adoro) são recorrentes, não Goiânia. Nasci em Goiânia, mas só passei temporadas relativamente curtas e em momentos muito distintos da minha vida na cidade, de tal forma que não a conheço bem. Mas, respondendo à pergunta, Silvânia aparece justamente como terra estrangeira, para não dizer alienígena, em meus escritos. Não há sensação de pertencimento. A angústia surda que move os personagens de “Hoje está um dia morto”, por exemplo, surge justamente de uma extrema sensação de desconforto para com aquele ambiente. Não por acaso, sempre descrevo a cidade como um lugar opressivo, desarvorador. Reitero: Silvânia é onipresente em meus escritos porque fui criado ali e também porque, como escritor, querendo ou não, sempre recorro aos lugares que me marcaram de alguma forma, boa ou ruim. A memória engendra a ficção, no meu caso – o que não significa que os meus livros sejam factualmente autobiográficos, acho bom ressaltar.
André de Leones / Foto: Renato Parada
DA – Hoje você vive em São Paulo, metrópole que, por mais que pareça colossal e anacrônica, seduz por seus atrativos de toda a ordem. Esse cosmo paulista instaura um novo paradigma em sua escritura?
ANDRÉ DE LEONES – Creio que sim. Os lugares em que estou ou estive são muito importantes para a minha imaginação. Aliás, gostaria de retificar algo: além de Brasília e Jerusalém, também me sinto muito bem em São Paulo. Talvez por se tratar de uma cidade em boa parte constituída por imigrantes como eu e seja, em função disso, muitas cidades numa só (no que isso tem de melhor e pior), ela parece se moldar aos olhos de cada um, de tal maneira que há uma São Paulo, boa ou ruim, ou às vezes boa, às vezes ruim, suportável e/ou insuportável, para cada pessoa que vive nela, dependendo de onde e em que condições se vive. Essa justaposição tresloucada de olhares e vivências constitui, por um lado, a pluralidade tão associada à cidade, mas, por outro, como que isola os que nela habitam em bolhas que mal se comunicam. Somos como sistemas isolados, e é realmente muito fácil (para aludir ao título de meu livro mais paulistano até agora) desaparecer completamente por aqui e deixar de perceber o outro, o diferente, com um mínimo de atenção. Se a pessoa tem interesse e condições de aproveitar o que a cidade oferece, a movimentação cultural, a enorme variedade gastronômica, a colcha de retalhos que a constitui, viver aqui é muito bom. Mas, se a pessoa não tem, pode ser um inferno. O caos urbano e a multiplicidade de personagens que ele engendra são extremamente inspiradores para mim. Não trocaria São Paulo por nenhuma outra cidade brasileira.
DA – Seu processo de imersão na criação de um livro compreende algum rigor específico? Entre palavra e imagem, quem normalmente desponta como a centelha inicial?
ANDRÉ DE LEONES – Tenho um processo cheio de manias. A palavra está sempre na origem. O nome de um lugar, de um personagem, uma frase solta, o nome de uma canção. A partir disso, penso numa situação e procuro desenvolvê-la. Se preciso, pesquiso a respeito do lugar onde quero situar a história e outros detalhes que julgar importantes. Ouço música, bastante, porque me ajuda a encontrar o tom, o ritmo que quero imprimir num determinado texto. Pego um caderno e escrevo muito sobre a história que quero contar antes de começar a esboçar a história propriamente dita. As primeiras versões são sempre manuscritas. Depois, digito, imprimo, reviso, volto a digitar, imprimo, reviso, reviso, reescrevo. Escrever, para mim, é reescrever, nunca me canso de dizer isso. E não me canso porque ainda existe a ideia do artista “inspirado” escrevendo um texto assim, de primeira, graças a uma qualquer “febre criativa” ou coisa parecida. Claro, há dias em que o trabalho flui melhor e há dias em que simplesmente não flui. Mas é disso que se trata, sempre: trabalho.
DA – Está em curso algum novo projeto literário seu?
ANDRÉ DE LEONES – Terminei de escrever ‘Terra de casas vazias’, meu novo romance (com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2013 pela Rocco), em julho passado. Foram mais de três anos de trabalho e, bem, eu estou cansado. No entanto, a cabeça nunca para de trabalhar e uma ideia me ocorreu há algumas semanas, para um novo romance. Ocorre que eu não quero nem posso me envolver em um novo projeto agora. Assim, o que estou fazendo é “cozinhar” essa ideia, de tal forma que ela não morra, pois me parece interessante, mas tampouco se imponha e me obrigue a colocar todas as minhas outras atividades em segundo plano, que é o que acontece quando inicio, de fato, a escrita de um novo livro. Como de hábito, tenho anotado algumas coisas que me ocorrem relativas a essa ideia em um caderno. Daqui a um ano, mais ou menos, depois que eu já tiver lançado e, por assim dizer, me livrado de ‘Terra de casas vazias’, voltarei a esse caderno e verei se há mesmo alguma coisa ali. Se houver, aí, sim, embarcarei noutra viagem.
DA – Jerusalém, pelo fascínio que exerce em você, figura como uma provável influência criativa?
ANDRÉ DE LEONES – Provável, não. A cidade já integra o meu universo criativo, tanto que parte de ‘Terra de casas vazias’ se passa em Israel e, sobretudo, em Jerusalém.
DA – Na literatura e, também, fora dela, o que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
ANDRÉ DE LEONES – Na literatura e fora dela, seja na pós-modernidade, seja quando for, antes ou depois, não endosso ideologismos de qualquer espécie, à direita ou à esquerda. A estupidez é ambidestra.
DA – Por tudo o que já viveu até aqui em sua trajetória com as palavras, o que o impele a continuar trilhando o pantanoso ofício de escritor?
ANDRÉ DE LEONES – O que mais sei fazer? Muito simples: não tenho interesse por fazer mais nada.
preciso te avisar que sei carpir segredos e tateio silêncios
porque ouço em braile e à medida que teu sono inspira inauguro
arcabouços postes na altura dos teus poros, pequenas cidades.
eu quero estepe e riso e gota e vidro
e na esquina do teu cílio enredo um poema tátil. quero aparar tua
reticente vírgula. e confundir o teu cenho enleio passo.
mas eu preciso prevenir teu vão. que desenho til na linha do teu
lábio. que detenho o vil da tua fineza. que aparo gotas do teu olhar
quedado.
eu quero carpir a tua pele dentro.
quero expandir as tuas verdades.
quero escalar as paredes mornas do teu berço ilhado.
advirto ainda que meu toque é leve, não quero acordar o teu
silêncio indócil. eu só quero as portas do teu só sem chaves. tirar
pra dançar essa fresta tênue, que descansa a falta de uma brisa
torta. o meu hálito venta janelas de miras.
enquanto a tua vigia dorme, inscrevo o alfabeto das tuas retinas.
eu quero acordar a tua alma fóssil
e bocejar na boca da tua angústia
e quem sabe dizer bem baixinho e rente: despe o teu medo o frio o
passado o espinho que meu leito é quente e minha sede é ninho.
(Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas)