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74ª Leva - 12/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Amor (Amour). Áustria/França/Alemanha. 2012.

 

 

 

“- É bela.
– O quê?
– A vida. Tanto tempo. A vida longa”.

 

Os passos juntos já não são os “da dança sob a Ponte d’Avignon”, são de suporte para atividades básicas como sentar em uma poltrona ou levantar do vaso sanitário. O auxílio para despir a roupa, não mais erótico e sim de amparo. O desjejum na cama, outrora sinônimo de romantismo, é hoje uma necessidade. O vigor do sentimento mais sublime que pode existir é tão feroz quanto à degradação da matéria e da memória. Ambientado em Paris, Amor, longa-metragem mais recente do cineasta austríaco-alemão Michael Haneke e vencedor da Palma de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cannes 2012 é um retrato seco e dilacerante (de 125 minutos) da inevitável passagem do tempo.

Anne (Emmanuelle Riva, da nouvelle vague Hiroshima Mon Amour, de 1959) e Georges (Jean-Louis Trintignant, afastado há quase 15 anos das telas) são octogenários ex-professores de música erudita. A única filha, Eva (Isabelle Huppert, que volta a trabalhar com o diretor 11 anos após A Pianista), também instrumentista, vive com o marido em Londres. Após um procedimento cirúrgico, Anne sofre um AVC e tem o lado direito de seu corpo paralisado. Diante da decadência gradual provocada pelas sequelas da cirurgia, a idosa diz ao marido que não vê mais nenhuma razão para continuar vivendo. O que se observa, a partir disso, é um constante esforço do casal Laurent em aceitar o sofrimento da perda iminente à base de muita paciência, elegância e de todo o amor sugerido pelo título da película.

Aliás, mais que o amor, é o comprometimento com a dignidade o verdadeiro sujeito do filme. Compassivo e realista, Haneke traz uma abordagem rigorosa para a velhice, sem, contudo, tornar-se piegas ou alarmista. Nunca veremos Anne na assepsia de um leito hospitalar, por exemplo, já que praticamente todo o longa se passa dentro do amplo apartamento do casal. Repleto de simbolismos e elementos oníricos, Amor celebra vida e morte, sacrifício e piedade, sanidade e demência, além de tecer uma crítica velada à terceirização de cuidados em clínicas e asilos. Haneke  contempla-nos ainda com sopros de ternura e humor, principalmente quando Anne aprende a locomover-se em uma cadeira de rodas motorizada ou quando uma verborrágica e inconveniente Eva discorre friamente sobre o mercado financeiro enquanto sua mãe, confusa, balbucia palavras desconexas. E a filha tem o disparate de protestar ao pai: Ela só diz bobagem!”.

Protagonizado por dois lendários atores do cinema francês em densas interpretações e eleito como o Melhor Filme Europeu do ano pela Academia Europeia de Cinema (conquistou também os prêmios de melhor atriz, ator e diretor), Amor é o representante da Áustria como pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2013 e acaba de ser indicado na mesma categoria ao Globo de Ouro. Tal qual em Caché (2005) e A Fita Branca (2009), Haneke prossegue seu cinema cadenciado, polêmico e violento mesmo que a violência aqui assuma outro viés , capaz de colocar a plateia numa desconfortável posição de “voyeur apocalíptico”. Ainda que menos impactante que seus outros premiados filmes, é impossível sair incólume do cinema, justamente pela simplicidade e crueza emanada pelo Amor hanekeano. Afinal, de uma forma ou outra, o amor quase sempre provoca dor.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Olhares

Olhares

DO INDIZÍVEL E OUTROS TONS

Por Fabrício Brandão

 

 

Foto: Catharina Suleiman

Uma vasta paisagem embebida em segredos e mistérios povoa a arte de Catharina Suleiman. E falar disso não se resume a pensar que a tessitura de suas imagens reveste-se apenas dos dotes mais densos duma subjetividade que se requer marcante, mas sim a uma reprodução de certos horizontes quiçá inabitados pela superficialidade dos dias.

A fotografia ganha um sentido etéreo a partir dos registros de luz feitos por essa paulistana. Através do seu olhar, o idioma do corpo humano salta aos olhos, desvelando formas, sentidos, gestos e apelos diversos da alma. Qualquer noção de obviedade é posta à margem. Importa saber do insondável, do algo além-matéria, perquirir os vãos e desvãos que abrigam o ser.

Como exprimir em palavras aquilo tudo que se revela habitante do incontido? É assim que vamos tomando conhecimento de que estar diante da proposta visual da fotógrafa revela-se verdadeira odisseia de signos. Por mais que tentemos tornar ao ponto inicial da viagem, a experiência de estar ali, frente às singulares vias de sugestão da artista, faz do retorno algo totalmente renovado, porém incerto. Curiosamente, não vagamos por entre rostos, fragmentos temporais, detalhes, lugares e outros tantos tons com a sensação de avançarmos ilesos. Nesse aspecto, estar no limiar das coisas é desfrutar o gosto impreciso das horas e sentir-se parte de uma existência que não busca respostas para seguir adiante.

Foto: Catharina Suleiman

Em sua trajetória, Catharina acumula experiências de vida em diversos países, tendo participado de vários cursos. Sua relação apaixonada com a fotografia permitiu-lhe aprofundar-se na área e conhecer processos alternativos e experimentais de criação. Do laço íntimo que estabelece com suas imagens, a fotógrafa confessa que utiliza seu ofício como forma de questionar a realidade, extrapolando a barreira física dos lugares captados em busca de um resultado passível de vibração pictórica.  E vai mais além, crê na possibilidade de se olhar tudo o que já foi visto antes de um modo inteiramente inexplorado, como se a cada nova investida do olhar pudéssemos perceber o nascimento de uma singularidade.

Utilizando-se recorrentemente dos recursos do vintage, Catharina Suleiman não somente delineia um elo entre passado e presente, como também nos envolve numa atmosfera na qual as perspectivas visuais mostram-se especialmente atemporais. De fato, não há razão para a ocorrência de limites de tempo ou espaço, apenas a permanente presença dum percurso poético por sobre a natureza das coisas flagradas sob os mais distintos matizes. O que a fotógrafa batiza como ilusões pode muito bem nos parecer um convite à reinvenção da vida, palco onde desfilamos desnudos, viscerais, contraditórios e, por vezes, inconfessáveis.

Foto: Catharina Suleiman

* As fotografias de Catharina Suleiman são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 74ª Leva.

 

 

 


 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Nina Rizzi

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

fabulosos cachalotes, metáforas pra voglia, 5

 

minha mulher, clara e decidida, se crê adormecida

(chamo-a minha mulher por puro disparate
sabemos: não pode ser de ninguém se é sua)

princesa de copas, agoniza uma imperícia com os dedos
não obstante goze as pombas que alimentamos

meticulosa em tudo, não sabe desses seres
que precisam de um cuidado desleixado:
as violetas sedentas por esturricar ao sol e os peixes
megalomaníacos que insistem não se serem, ser beta, oscar:

sozinhos e só, como em resposta ao mundo que os paralisa
o querer ser outro – mamífero e rastejante; neurastênicos
da família poulain, brincam com ela em saltos mortais…

adormece minha mulher quando venta teu nome em minha língua, amor
em tudo o mais é desperta. poderia minha boca
num absorver de fôlego, fazer jus à sua natureza terrestre entre as águas?

mil imagens se deslindam desde a sesta até agora
cantando estorietas de quando eu era feliz e sabia alguma certeza.

 

 

***

 

 

kammerspiel, metáforas pra voglia, 6

 

separada da alegria do mundo
não escrevo. se me dão grafites, soutiens
dou um passo contrário às velocidades
e não vou ao mar

aonde escondi-me a mim
suspiro. boneca inflável
rasante de ogivas, sobejo
– a última gargalhada não é estática

uma panaceia cortante.

 

 

***

 

 

nouvelle vague, minhas sextas com ela, metáforas pra voglia, 7

 

antes que se dê nomes às coisas, as experimento

como uma mulher que nos momentos de transformação permanece
em casa, que derruba o chá por não ler as instruções
da lata, o desvelo das certezas. espaço decodificado em coro
pelos evangelizados e aberto ao espanto, por ser reto

movimento das dúvidas ao conhecido, vem o verbo a mim
milagre das câmeras que habitam o silêncio e o escuro
carregado pelo peso de seu momento, a sensação pré-objetal
de que resta tudo a ensaiar, pôr à prova, ser ex-

perimentado. amálgama de desesperos e paixões, transferência das lógicas
e peripécias à emergência do único: levantada nas mãos a própria cabeça.

 

 

(Nina Rizzi  edita a Revista Ellenismos – Diálogos com a Arte e escreve seus textos literários no quandos)

 

 

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Galeria

Foto: Catharina Suleiman

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