Bem sabemos que a fotografia encerra uma vastidão de possibilidades. No entanto, o que seria capaz de guiar nossos sentidos rumo a veredas desabitadas pelo óbvio? Como extrapolar a barreira física e evidente do algo primeiro a ser flagrado por nossas retinas?
Certamente, não são perguntas com soluções tão imediatas. Por mais que tentemos emprestar significados ao ofício de um fotógrafo, delimitando-os numa ótica que remonte a uma noção racional das perspectivas abraçadas, acabamos envolvidos pelas razões que integram o universo íntimo de cada criador. E assim, distantes de extrairmos a seiva da psiqué humana, somos tentados a desvendar camadas por vezes etéreas reveladas nas imagens.
Quem deitar olhares em torno da expressão fotográfica de Juh Moraes perceberá o quanto pulsa viva a presença do intangível, de um ambiente no qual mistérios do corpo e da alma humanas estão fundidos a um só tempo. Para a artista, não basta que formas, gestos, tons e expressões difusas impliquem num recorte precisamente definido de mundo. Pelo contrário, cada ser ou objeto captado exprime uma espécie de balé da transcendência.
Ao nos ofertar seus signos repletos da conjunção entre matéria e espírito, Juh ousa nos convidar a atravessar um cenário que sabe a percursos do tempo e seus desígnios. É como se cada contorno, tez ou cor pudessem reter o essencial dos instantes vividos, pondo-os em delicada suspensão. Assim, comungamos com a artista um ritual que confere sentido a ambientes e seres, todos eles marcados pelas sutilezas da existência.
Foto: Juh Moraes
Natural de Curitiba, a fotógrafa traz no sangue a mescla nordestina e espanhola. Apesar de ter cursado a faculdade de Belas Artes, foi nas searas da Moda onde encontrou terreno favorável para suas escolhas. Os pincéis deram lugar à câmera e a um desejo de promover uma integração entre Comunicação, Moda e Imagem. A captura das cores em seu trabalho deu-se através de influências percebidas em artistas plásticos como Delacroix, Caravaggio, Monet, Manet, Frida Kahlo, Cezzanne e Bosch. Admiradora confessa de Van Gogh, Juh demarca o artista como sendo uma grande fonte de inspiração, a ponto de se considerar “refém” de tal influência.
Além das marcas indeléveis das artes plásticas em sua trajetória, o olhar de Juh Moraes abraça aprendizados fotográficos em torno do trabalho de enquadramento e da concepção de luz de Annie Leibowitz e Sally Man; a visão artística de Richard Avedon, Guy Bordin e Mary Ellen Mark; e Robert Mapplethorpe, pela completa ousadia.
Ao lado da também fotógrafa Viviane Rodrigues, Juh desenvolve um trabalho especial no site Fotografia Orgânica, projeto que denota um comprometimento com a imagem em seu estado mais puro possível, longe das intervenções de edição meramente tecnológicas.
Em uma só palavra está condensada a relação de Juh Moraes com seu ofício: ar. E é com a noção desse sopro vital que a artista leva adiante a sua sublime missão de captar instantes, lugares e pessoas, abraçada ao que de melhor eles podem oferecer: a verdade de suas expressões.
I.
te sabia Ícaro
em altura e desejos.
num azul impossível,
a curvatura delicada,
de pasmar gaivotas,
tramava no meu corpo o curso das alturas,
no desejo de ver-te sob esta claridade de meio-dia.
a superfície crescente impunha-se aos ombros
fazendo verdade da fantasia
e, do sonho,
corpo.
fiz-me pássaro,
seguindo-te,
a dividir o azul.
II.
que te pedi, Ícaro,
para que cuidasse
da queda.
que nas margens
nuas
da praia
não restasse o meu corpo,
abandonando ardências.
III.
e me destes essa casa
de pedra e paredes
onde o céu desaba,
pelas manhãs,
nos corredores
fazendo caminho do meu cansaço.
o teu olhar, desde dentro,
me ofertando o infinito.
se já era teu o azul
– dentre os muros
de onde te fizeste –
tive de ti
o sol mesmo,
transfigurado pelas artes
do teu desejo.
perdoe-me, Ícaro,
se me faltou ver o artifício.
se reconheci a incandescência
e na iridescência me fiz inteira,
irradiando teus sonhos de cera.
IV.
foi de asas, Ícaro,
o meu erro.
de supor que o corpo,
entre o voo e a permanência,
encontraria seu contorno.
e porque te quis mais terra
fiz-me, adolescente, ideia
para que intuísses dissipação.
por me querer contradição
que me fiz celeste.
e me entreguei a ti
como casa.
V.
sei que foram muitas as
vezes em que me ofereceste
o fio de Ariadne.
eram os pés, antiquíssimos,
que negavam partida.
os pés soldados à terra
como quem ouvisse,
feminino,
os apelos do que é
só possibilidade.
a terra úmida,
fértil.
o novelo em minhas mãos.
mas é o azul, Ícaro,
que é irresistível.
(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura (no prelo))
Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.
Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.
Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de dentes afiados, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.
Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.
(Daniel Fariaé historiador e poeta. Autor do livro O Mito Modernista, publicado pela EdUFU em 2006. Publicou Matéria-Prima, pelo projeto Dulcinéia Catadora em 2007. Acaba de ser incluído na Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel e editado pela Caiçaras. Seu Livro de Orações está no prelo, pela série Caixa Preta, da Lumme. Participa da Revista Mallamargens)
Diante destes textos (ou peças literárias maxi-minimalistas, ou contos de feições microscópicas pluralizados por visão macro, ou crônicas abstratas derivando para contos fantásticos e, no entanto, intimistas, confessionais) é mais adequado pensar que a escritura de Antonio Nahud Júnior transcende seu mais exato mister, ultrapassando o que quer que se declare na ficha catalográfica do livro.
Dessa forma, “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” representa também exercício filosófico numa linha de investigação ontológica, metafísica, expressionista e existencial. E, por exemplo, “Love is a Many Splendored Thing”, que abre a coletânea de pasmos e pathos humanoides, ressalta uma fragrância de Poe, do épico e dramático de “O Corvo”, com a amada morta do protagonista entrando janela adentro na noite iluminada de Selton, o amante para sempre fiel e siderado pelas chamas da fornalha passional.
Assim, o que leremos doravante são mini ou macro textos parodísticos da existência pânica, imprimindo e imprimidos, não obstante, de frêmitos de lucidez em meio à voga lúdica, elíptica, espasmódica e diversionista da palavra em febre de dizer-se para além das eventuais obscuridades. O que mais neles avulta é a surpresa do insólito, não apenas reservados aos finais consagradores do clímax e do desfecho, mas por toda a rede de intrincadas e complexas teias, cujos enunciados se confundem com seus signos. O lírico sempre pesponta o outro lado do trágico e o humor cerrado em sorrisos contrafeitos observa a vida sob as escamas de um amplo e entrechocado mistério. A ambiência de sugestões de hiatos de percepção muda supre a necessidade de concretude do real. Por isso nem sempre as personas são nomeadas e a sensação do provisório e efêmero de nomes, pessoas e coisas produz a inércia do pensar, quase valendo qualquer nome para designar qualquer coisa ou pessoa.
Antes de se constituírem densidades dramáticas, oscilantes entre o trauma psicológico e a violência grosseira, contos como “Os Negros” e outros são mais perceptíveis como registros de instantes fugazes ou prolongados, sinestesias dos impactos de sentidos múltiplos, em particular a visão e o olfato, o detalhe significante (e machadiano, que nisso é avant la léttre) da metonímia de uma nesga de rosto, mãos, cabelos, cores, cheiros, perfumes, com predominância de assunção e projeção de flagrantes e diálogos envolvendo o desejo homossexual, tudo feito com refinamento, sutileza e inteligência dinâmica e superadora de vãos preconceitos. Cito diálogo de “Os Negros”:
— “Acredita em romances entre machos?”, atacou Glauber.
— “Sei que uma relação bem sucedida não depende do sexo dos envolvidos, mas da comunhão inevitável”, respondeu pausadamente o garçom.
Uma acentuada dose de coragem de se expor trescala desse e de inúmeros outros trechos e textos do livro que ora se ostenta sem pregar slogans nem bandeiras. Antonio Nahud Júnior, entre o escracho ou deboche e a estreita visão do córner discursivo dos guetos, opta pela sinceridade. Estará, portanto, na boa companhia dos bons textos de uma Állex Leilla, por exemplo, um dos mais agudos e penetrantes da geração da prosa curta contemporânea na Bahia. O que pretende, então, quem fere as nebulosas humanas destas “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” das tribos antropocêntricas? Vejamos o que tem a dizer o próprio autor, em entrevista. À pergunta de Gustavo Atallah Haun (jornal Agora, 03 a 10 de julho de 2006, Banda B, p. 8) — Em sua opinião, qual é o aspecto mais difícil do ato de escrever? Ele responde: — A construção de um universo mágico que me emocione e, consequentemente, emocione o leitor. Transformar a literatura num oceano de prazer. É a parte mais difícil. Sou exigente, faço questão que o texto ou o poema me comova. Sobre os temas que mais se impregnam em sua narrativa, provoca: Os elementos sensuais desempenham papéis-chave na minha literatura: odores, texturas, sexualidade, funções corporais. No entanto, seria incorreto classificá-los como especificamente homossexuais, bissexuais ou sei lá o que, pois eu não acredito numa literatura homoerótica, assim como não acredito numa literatura feminina ou masculina. Todos os escritores são seres andróginos.
Polêmicas à parte, “Pequenas Histórias…” é mesmo um livro de textos que respiram situações de claro/escuro no mundo das relações humanas. E também de interinfluências, algumas até de origem inconsciente, talvez. Um trecho aqui lembra Adélia Prado e seu poema descritivo de um rapaz que palita os dentes com ruído, esgaravatando o coração de cadela de quem o observa. Outro flagra decrepitudes fetichistas e ásperas solidões homoafetivas, com suas gruas de martirológio afunilando dificuldades existenciais. Noutros, ainda, predominam sensos parabólicos, ascéticos e um mistifório de alteridades. “Chá com Harpias” contém cenas, alegorias, analogias e alusões de teatro cosmopolita.
Enquanto “Sem Notícias de Deus” — o melhor do conjunto, na modesta opinião de quem escreve estas notas — é um conto soberbo, antológico e definitivo, com a pungência sincera da realidade fotográfica e a comiseração mais nítida do narrador, numa dimensão de permanência que não se subordina à claque e avança para a perenidade do documento humanista; “Noites de Ninguém” tem o pathos de Dalton Trevisan e o lógos protestatório de Glauco Mattoso ou Caio Fernando Abreu. “Fim de Caso” é drama burguês que não contemporiza, mas purga as dobras da agonia pânica, avizinhando-se da solidão da incompletude, aquela que se tem a sós ou acompanhada com a invisibilidade do outro. “A Dor no Coração da Deusa do Sexo” flagra o pungente retrato urbano dos que vivem sem felicidade no coração. Em “Brinquedo do Cão” o monólogo nunca personalizado ou exclusivo fala de todos os emparedados discursando sempre na primeira pessoa do singular. Imagens insólitas, arrimadas num lirismo oblíquo e dissimulado, constituem o perfil de “Apenas uma Mulher”.
Por vezes, a tibieza do lugar-comum ocupa as frestas do texto que cede à fala natimorta. Contos sem vínculo com Tchecov ou Maupassant florescem mechas para o psicodelismo, o delírio, até a paranoia do novo mundo concebido à sombra de florestas espessas das exclusões. Outros são os textos apaixonados por cinema, como os do argentino Manuel Puig, quase todos untados com malícia, alguns reiterativos do antes já dito. Por alguns também perpassa o melodrama a la Nelson Rodrigues. Melhor quando a linguagem advoga a primeira pessoa, mais espontânea, Antonio Nahud Júnior dissipa seu estilo com o Expressionismo e suas imagens derivárias do patético. Em “Tentativa de Controle”, o estilo é típico de “Matou a Família e foi ao Cinema”, de Júlio Bressane, incluindo o ciúme vampiresco de Otelo, o patetismo melodramático de Nelson Rodrigues e o corte incisivo do expressionismo alemão. “Da Utilidade da Poesia” poderia suscitar lembranças, ainda que vagamente, de Tchecov (“Teoria da Arte”), Tolstói (“Sonata a Kreutzer”) e do brasileiro João Antônio (“Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”).
Algumas das peças literárias de “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, apesar dos temas, da fluência da linguagem, não buleversam, resguardando-se o leitor do sorriso enigmático da Mona Lisa. O tédio, o non-sense, o ar blasé, a cultura cosmopolita, o existencialismo a la Clarice Lispector, as buscas ásperas, a guarda baixa na auto-estima, a deserção, a desistência, a entrega solitária dos emparedados, tudo comove, mas nem sempre com a eficácia legitimadora da solidariedade. As palavras, o ritmo, as imagens e sensações que provoca, o texto de Antonio Nahud Júnior poderia desvendar-se no que o próprio texto determina e projeta na personagem de “Um Fluxo”: Aprofundando-se no cenário mental, entrega-se à selva de letras, obstinado, entre versos-insetos e parágrafos de flores carnívoras, vivenciando equinócios, constelações e centelhas: dialogando com árvores na trilha da montanha lírica. Sintomática a citação de Jorge de Lima do romance “O Anjo”, cujas fosforescências de idioma lírico Antonio Nahud Júnior parece também intuir, revestindo-se a palavra-emblema no primeiro texto surrealista publicado na voga do regionalismo de 30: “O Homem Nasceu para Contemplar. Só por Castigo Ele Luta e Trabalha”.
O universo das “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” é quase exclusivo do dialeto autoral, particularmente o pitoresco e exótico, bem como são particulares os códigos de escrita e os motivos temáticos. Mas o humor rebelde e insubmisso traz vestígios, por exemplo, de Drummond (aposentado consumido por uma melancolia inexplicável, “Lulu”); “Vertigem” tem a ousadia pornográfica de Henry Miller ou a parábola fugaz de um Sade, que indetermina as razões do desejo e o sem-limite das perversões. Um conto muito longo (“Imagens”, por exemplo) termina vampirizando as energias do narrador e do leitor mais concentrado, ainda que ambos possam ser expertos e expeditos, antenados na ironia de um texto, mesmo o que não provoque empatias.
Este livro de Antonio Nahud Júnior é uma espécie de almanaque visceral, revolvendo sensações em perfis caleidoscópicos, flagrando instantes de perdas e descobertas, epifanias e registros documentais das hecatombes humanas e de pessoas singulares. A maioria dos textos imprime-se de contornos intimistas, confessionais de aparência ora gozosa, ora culpada de ocultamentos. Conforme a nomenclatura, contos se apresentam com finais oscilando entre o surpreendente e o óbvio. Tematizando os povos da diáspora genérica presas da sexualidade sob o arbítrio das convenções, realizam-se ainda pela reflexão a ser reverberada no âmbito da consciência crítica.
É livro inquieto e inquietante, que convida ao debate e à inteligência não conformados ainda à inércia do pensar de calças curtas.
(Jorge de Souza Araújo époeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), Floração de imaginários – o romance baiano no século 20 (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008))
Tenho meus carinhos, meus cuidados.
Levo sempre comigo uma dose reserva de sutilezas.
Quem mergulha em mar de flores,
acaba levando um punhado de cortes,
que cicatrizam em palavras de mistério –
seus segredos, meus segredos.
Sussurros sobre a pele, indícios
que hão de nos surpreender revelados.
Por isso, carrego sempre comigo
uma dose secreta de afagos
que hão de aplainar os ímpetos,
hão de evitar estragos,
mas nunca reterão os arrepios
que segredamos, silenciados.
***
ANSEIOS CINZAS, SUJOS
vagabundo errante,
risco por entre o lixo
minhas pegadas pesadas,
a carga de uma sobrevivência
– resiliência toda casca
que se desmonta, mas revigora,
comprimindo a massa túmida,
de ardor, angústia, desespero:
anseios cinzas
suspirando por opressores microporos
e enquanto nessa espessa casca
cresço,
incho-me sangrando
nutrindo a terra de poesia suja,
sorvendo a força das lágrimas diárias…
e me arrasto
avançando, ousado
por sobre as pedras,
contra previsões e planos
/é meu grito rubro que mancha de espanto tua noite funda/
(Aline Aimée nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Mestre em Literatura Brasileira, trabalha como funcionária pública federal. Tem textos publicados em sites e revistas virtuais, como a Diversos Afins, a Conexão Maringá e a Garganta da Serpente. Contato:alineaimee@hotmail.com)
Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas. Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços. O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!
O apito do trem
o atrito do trem
o arbítrio do trem
xxxxxSerpente histérica xxxxxrasgando os montes, xxxxxa existência vai c(r)avando xxxxxxxem nós uma estrada de mistérios
xxxxxNo duelo com a vida xxxxxa literatura concedeu-me as armas.
xxxxxTriste como um passado xxxxxvivo como uma ferida:
assim é o tempo (moenda de Chronos) xxxxxcom sua carpintaria de ferrugens xxxxxa sagração dos labirintos
***
ÁLBUM RECLUSO
para Sérgio Fantini
Um presente póstumo
invade as páginas
desse baú de espantos.
Na parede ou no álbum
as fotografias
desconstroem as palavras.
Há filosofia bastante
no cortejo dessas traças
que sitiam o passado.
Porém,
a refratária infância
perdura xxxxxxxintangível
no absolutismo de xxxxxxxtantos silêncios.
(Ronaldo Cagiano é mineiro deCataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros: Palavra Engajada (Poesia, 1989), Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006) e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF, 2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo (LGE, Brasília, 2006))
Reúna toda a sorte de sentimentos que possam tecer um mosaico de válidas lembranças. Em seguida, junte boas doses de afetos, algumas fotografias retidas na mente e outros ensinamentos impregnados do sempre útil tempo das escutas. Antes de cerrar o baú de sentidos múltiplos, não se esqueça de colocar, por entre as vestes embaladas do corpo, medidas abundantes de boas sonoridades. Depois que tudo estiver pronto, mire detidamente o tecido estampado e vivaz que envolve o todo organizado. Então, é partir para o universo paralelo, onde cenários abusam de colorir memórias.
Quem lê tamanha alegoria, certamente construirá o ambiente que lhe parecer melhor. E o segredo é não ter receita para perceber as coisas sublimes da vida. Assim nos diz o belíssimo primeiro trabalho solo de Gui Amabis.De início, é imperativo dizer que estamos diante de um disco cênico, no qual as imagens se multiplicam a cada som ou voz expelidos. Com isso em mãos, ou melhor, nos ouvidos, tudo ganha mais vigor e força, principalmente pela forma cuidadosa com a qual o músico compartilha conosco parte substancial de sua história.
Memórias Luso Africanas é um denso e contemplativo percurso pelas veredas familiares de Gui Amabis, tecendo um rico álbum de imagens que derivam das histórias construídas por avós, pais e outros entes queridos do artista. A mescla das tradições de dois povos, como o título sugere, ajuda a consolidar um espaço de sonoridades repleto de signos diferenciados, todos eles movidos pela poesia contida na sucessão dos anos vividos.
A costumeira característica instrumental sempre muito viva de Gui só reforça o caráter imagético do disco, transportando quem ouve para o local exato onde os instantes rememorados acontecem. É pensar numa ópera moderna e depois imaginar que cada faixa encerra um momento que jamais se perderá no turbilhão do tempo. Diante disso, não fica difícil entender por que canções como Dois Inimigos, Orquídea Ruiva, Sal e Amor, Doce Demora, O Deus que Devasta Mas Também Cura e Para Mulatu retratam com precisão e delicadeza um sentimento de gratidão à vida.
O que torna o conjunto da obra mais valioso ainda é ver ali, desfilando suas vozes e energias, artistas do quilate de Céu, Criolo, Tulipa Ruiz, Dengue e Lucas Santtana, todos eles bastante envolvidos numa atmosfera feita de luz e som. E a rica bagagem musical de Gui Amabis, sobretudo na perspectiva da criação instrumental, confere uma dimensão especial ao cd, tendo como norte uma seleção de repertório com traços devidamente aguçados de sensibilidade. Materializar sentimentos e outras tantas percepções derivadas da alma é a virtude maior encontrada por aqui. Em meio ao ato de recordar, saber-se vivo é, antes de tudo, compreender o que está por trás de nossas origens.
É importantíssima a qualquer ator, e, porque não dizer, a qualquer ser humano a sabedoria de saber rir de si mesmo. Somos, a todo o momento, cobrados a atingir metas, conquistar resultados, a não errar, e, nós, atores, somos muito mais cobrados a acertar, a sermos brilhantes, talentosos, virtuosos. A experiência de estar em cena, diante dos olhares e julgamentos do outro, pode ser dolorosa quando não conseguimos atender às expectativas do público, do diretor, da crítica, ou, a mais cruel de todas: à nossa própria expectativa. E isto, muitas vezes, pode até nos afastar da maravilhosa experiência de correr riscos.
O ator é uma criatura muito sensível, como diz Shakespeare, é feito da mesma matéria dos sonhos. Os atores podem ter a capacidade camaleônica de vestir a pele de diversos personagens. A competência de vivenciar em cena, tramas variadas. De fazer refletir, rir, chorar, satirizar, chocar, fascinar, de causar emoções variadas e intensas. A alquimia de transformar o verbo em carne, a palavra escrita em expressão viva, tendo como matéria-prima o próprio corpo, voz, sentimentos e experiência de vida. No entanto, determinados atores, por vezes, sofrem excessivamente com a possibilidade do acaso, do erro, do julgamento e do fracasso.
A carreira do ator pode ser comparada aos bons vinhos, quanto mais velha, melhor. A vivência, o valor da experiência, é o maior tesouro de um ator. Porém, acredito que os atores não precisam sofrer demasiadamente para exercer o seu ofício. Falo principalmente com relação ao julgamento do próprio ator para consigo mesmo. Os próprios períodos excessivos de ensaio são, às vezes, uma tentativa obsessiva de eliminar todo e qualquer risco, erro ou imprevisto. E alguns atores só fazem sacrificar-se, e por vezes acreditam que só pode haver sucesso se houver sofrimento, sem deixar quase nenhum espaço ao prazer de vivenciar o próprio ofício. Neste ponto, a bem da verdade em muitos outros, os atores contemporâneos têm muito que aprender com outros ilustres artistas da cena: os palhaços.
O palhaço é um perdedor feliz. Enquanto o ator, na atualidade, tem necessidade extrema de acertar, o material de trabalho do palhaço é o erro. E o palhaço é feliz em sua arte de fracassar. Os palhaços revelam de forma dilatada os sentimentos humanos. Percorrem, com sua simplicidade e astúcia, do grotesco ao sublime, do ridículo ao encantamento. O palhaço sabe que enquanto faz rir, está tocando na sua própria condição humana, imperfeita, falha, tosca, e que é este o seu material de trabalho.
Quero compartilhar com o leitor, mais uma vez, minha experiência própria, o quão precioso foi aprender diversas técnicas de palhaço. O quanto ser um aprendiz de palhaço pode colaborar com o ofício do ator. O palhaço é como um duplo do artista, um amigo que o acompanha por toda a vida. Poderão mudar as apresentações, o repertório, mas continuará conosco, crescendo com os nossos erros e acertos. Tive a maravilhosa oportunidade de trabalhar, no Brasil e no exterior, com diversos mestres e caminhos de palhaço, sejam da tradição circense, do teatro de rua, dos bufões, e do próprio palhaço do teatro (mais conhecido como clown). Com cada um deles aprendi muito. Porém, gostaria de tratar aqui, especificamente, de uma tradição de palhaço muitas vezes esquecida e desvalorizada, a dos palhaços brasileiros de circo.
O espetáculo circense brasileiro é plural e único, pois, ao longo do seu desenvolvimento, não se ateve apenas às especificidades dos grandes circos de atrações, mas dedicou-se, também, no domínio dos pequenos e médios circos, à apresentação de dramas e comédias, características do denominado circo-teatro, bem como do chamado circo de variedades que busca mesclar as atrações circenses com shows diversos e até peças teatrais. E justamente o palhaço é o protagonista de todas as atrações nesses circos, das comédias ou dramas, shows, peças teatrais, entradas ou esquetes. Nas duas modalidades, seja no circo-teatro ou no de variedades, diferentemente dos grandes circos (onde o palhaço tem o papel de “tapa buracos” enquanto são montados os equipamentos dos grandes números), o palhaço é a figura central dos espetáculos dos pequenos e médios circos.
Essa pluralidade deu ao palhaço brasileiro a oportunidade de desempenhar papéis e funções que o espetáculo clássico europeu desconhecia. Como bem afirma Mario Fernando Bolognesi, autor do livro Palhaços: “Com efeito, no Brasil, além das entradas e reprises o palhaço teve e tem um lugar significativo na prática teatral que os circos desenvolveram e ainda desenvolvem.” (2003, p. 53). No circo brasileiro, um vasto repertório de comédias foi aos poucos sendo formado, possibilitando ao palhaço expandir suas formas de atuação. “Desse encontro adveio uma forma cênica aberta, formada e baseada na capacidade de interpretação e improvisação do palhaço, que teve a liberdade e a audácia de não estar restrito a gêneros fechados.” (Bolognesi, 2003, p. 53).
Bolognesi afirma que os roteiros das comédias circenses foram mantidos na memória oral dos palhaços, transmitindo-se de geração em geração. Além disso, os palhaços de circos pequenos, por serem a base do espetáculo e pelas características diferenciadas do pequeno circo, permanecem em cena um tempo muito maior, recorrendo assim às comédias de maior fôlego. Os palhaços têm um repertório de forte apego à linguagem oral, que pode ser encenada isoladamente, ou pode juntar-se às outras, num fluir ininterrupto, quando o ritmo e a duração são dados a partir da interação com a plateia.
O palhaço apoia-se tanto na prática antiga e familiar dos atores circenses ao compor o seu personagem palhaço, de forma tradicional, como também é marcado pela singularidade do ator e sua liberdade de criação. “Desta forma, a atividade de criação, guiada pela liberdade, tornaria possível a exteriorização não apenas da realidade percebida pelo indivíduo, mas também das potencialidades das quais os indivíduos são portadores.” (PANTANO, 2007, p. 18). Embora a criação destes personagens se dê a partir de tipos fixos, constituídos no decorrer da história das máscaras cômicas, cada palhaço, no entanto, é único.
Muitas das habilidades do palhaço, principalmente do palhaço brasileiro de circo e rua, são utilizadas por mim nas encenações do Teatro Griô, como a atitude de contracenar com a plateia: a atuação, ora como palhaço, ora como um dos personagens interpretados pelo próprio palhaço*; as transições instantâneas de emoção, de ritmo e até de caracterização dos personagens; a criação de seu próprio personagem palhaço e a autoria de sua apresentação artística; a capacidade de rir de si mesmo e ao mesmo tempo de revelar o encantamento e o sublime através de elementos simples como um pedaço de tecido, uma flor, um instrumento artesanal ou um expressão facial, bem como a utilização do corpo como um todo expressivo, a transitar entre o grotesco e o sublime; a aptidão para criar atmosferas repletas de imaginação e poesia do mesmo modo que sai delas facilmente para revelar aspectos do cotidiano.
Estabelecem-se, portanto, intricadas relações entre o palhaço e o ofício do ator em meus processos criativos no Grupo Teatro Griô, desde uma abertura à oralidade na transmissão dos conhecimentos, até os procedimentos adotados no próprio desempenho cênico, como a organização dramatúrgica (de sua própria autoria, recorrendo, no entanto a tramas de tradição oral), a interação com o público, e a atitude do artista de conceber ele próprio seu personagem, que assume traços de sua própria personalidade.
Foto: Jô Stella
Segundo Odette Aslan (1994), o que diferencia um ator de teatro, chamado dramático, do palhaço de circo, que atua em esquetes, são, sobretudo, o tom e o estilo da obra. E, ainda segundo a autora, seria mais comum que um artista do teatro de variedades conseguisse representar em um teatro de comédia, aparentemente sem grande esforço de adaptação, ao contrário do ator que custaria muito a ajustar-se às atividades paralelas dos circenses e do teatro de variedades. Aslan lista uma série de qualidades inerentes ao artista do teatro de variedades e do circo, como: segurar o público desde o começo; o dever de dar o máximo de seus esforços e da sua habilidade; saber sustentar sozinho a cena; atuar de maneira econômica e despojada; ter senso de improvisação; segurar o imprevisto; saber contracenar com o público; ter senso de ritmo, do efeito que utiliza o sentido do cômico; saber mudar rapidamente de roupa e de maquiagem, de personalidade.
Todas essas qualidades que acabo de expor, propostas por Aslan (1994), são também pertinentes ao processo de criação das encenações do Grupo Teatro Griô, à exceção da qualidade de saber mudar rapidamente de maquiagem, que não são imprescindíveis, uma vez que assumimos um personagem narrador que irá transitar entre diversos enredos e até a caracterização de diversos personagens das narrativas. Ele não precisa, necessariamente, mudar sua maquiagem, pois os personagens podem ser simplesmente esboçados a partir de expressões vocais características, ou da utilização de um fragmento de figurino, uma mudança no gestual, no ritmo, no deslocamento em cena, dentre outros elementos que podem ser utilizados sozinhos ou combinados entre si, a partir do jogo que se estabelece no desempenho do ator ao alinhavar a encenação das distintas tramas.
O circo no Brasil manteve uma estreita ligação com o teatro e solidifica-se através de adaptações teatrais do chamado circo-teatro. “Pelo que sabemos essa modalidade do circo de representar melodramas, de fazer teatro, é uma característica do nosso circo”, segundo Pantano (2007, p. 26). O palhaço brasileiro tem, então, características singulares, que o diferenciam dos palhaços europeus, como a de ser o protagonista dos espetáculos circenses, devido às encenações de melodramas. Atua das mais diversas maneiras, como palhaço propriamente dito e com sua atitude nas cenas de circo-teatro assumindo variados tipos cômicos.
A metodologia por mim desenvolvida no Teatro Griô está mais próxima dos palhaços brasileiros de circo e rua do que dos clowns “europeizados”. Além da já citada maneira genuína com que o palhaço se destacou nos circos-teatros do Brasil, “o palhaço brasileiro, ao criar seu personagem, é despojado. Em sua maioria, eles descrevem seus personagens como ‘alegres’, ‘escrachadas’, ‘moleques’ etc.” (PANTANO, 2007, p. 29). Portanto, segundo Pantano (2007), o palhaço brasileiro mesclou algumas características deste palhaço e criou o seu próprio personagem, distinto do clown europeu de cara branca e com gestos delicados, que não existe mais em nossos circos.
Interessa-me frisar, mais uma vez, a relação do ator com o palhaço em sua expressão mais despojada, repleta de liberdade e subversão, sem esvaziamento do potencial grotesco, como ocorre em clownsque se apropriam do tipo cômico como linguagem desprovida da irreverência do circo e da rua e estão mais próximos de uma concepção que enfatiza apenas a docilidade e fragilidade do palhaço. Esse tipo de visão clownesca, que busca afastar-se do que é popular e muitas vezes “borrado”, aproxima-se mais de uma valorização poética de um ideal de beleza, a qual, ao rejeitar os aspectos mais “baixos” do palhaço, acaba aniquilando o seu lado marginal, ao perder contato com a espontaneidade popular, rude e ligada ao fracasso que justamente deu origem ao palhaço.
Note-se que é possível observar essa irreverência característica dos palhaços brasileiros dos pequenos e médios circos também em muitos palhaços de rua e até de alguns que surgem de uma experiência teatral, mas que não esvaziaram o potencial grotesco de sua composição. É o caso, além do Teatro Griô, de palhaços como André Casaca, Ângela de Castro, Natalie Mentha, Roberto Stamati, Tortel Poltrona, Luís Carlos Vasconcelos e Chacovachi. Nestes, é possível perceber toda a poesia e subversão em composições artísticas que não retiram do palhaço o seu ingrediente tosco e estúpido, ao contrário de uma concepção do palhaço como uma linguagem cheia de formalidades (para não dizer receitas), mais próxima de um ideal aristocrático que procura em muitos momentos afastar o clown do que seria a “grosseria” dos tradicionais palhaços.
O palhaço de tradição brasileira aproxima-se mais do tipo subversivo Augusto, “sua característica básica é a estupidez e se apresenta frequentemente de modo desajeitado, rude e indelicado. No Brasil, encontra-se no termo palhaço o equivalente mais apropriado do Augusto” (BOLOGNESI, 2003, p. 74), afastando-se do tipo oposto ao clown Branco, que tem como característica básica a boa educação, a elegância da tradição aristocrática, e que acabou desaparecendo de nossos circos e companhias cômicas populares. O palhaço brasileiro assimilou alguns aspectos do Branco e compôs um Augusto repleto de dualidade ao agregar num mesmo palhaço, ao mesmo tempo, a estupidez e a astúcia, a ingenuidade e a sagacidade, a tolice e a esperteza, a subversão à ordem e a vitória ao fracassar. Esse é um tipo de palhaço que aponta uma associação com o povo brasileiro, sendo muito bem representado em tipos como João Grilo, Pedro Malazartes, e o próprio anti-herói advindo da tradição africana, Ananse, que tece suas artimanhas para sobreviver diante da injustiça social.
O palhaço nos ajuda a perceber a importância de viver o momento presente. Aponta para o fato de que o melhor de um processo criativo é o próprio trajeto, assim como o valor de uma trilha é o próprio percurso. A admitir nossas imperfeições, sem precisar perder a alegria, e a aproveitar a vulnerável condição de ser humano como algo repleto de simplicidade, humor e poesia. O palhaço é dono de uma esperteza que não esvazia o potencial de ternura, ao buscar o revide a partir do riso, muitas vezes da capacidade de rir de si mesmo e encontrar no risco, no erro e na derrota a possibilidade de ser feliz.
Nota:
* “Os palhaços que atuam nos circos-teatros, ao representar comédias ou dramas, caracterizam-se diferentemente da personagem/palhaço, criando assim um tipo, uma outra personagem”. (PANTANO, 2007, p. 26).
REFERÊNCIAS:
ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994.
BOLOGNESI, Mário Fernando. Palhaços. São Paulo: Unesp, 2003.
CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005.
CASTRO, Angela de. A Arte da bobagem-Manual para o clown moderno. Londres: The Why Not Institut, 1997.
SOUZA, Rafael Morais de. Na Teia de Ananse: um griot no teatro e sua trama de narrativas de matriz africana. Universidade Federal da Bahia, Escola de Teatro, 2011.
PANTANO, Andréia Aparecida. A Personagem Palhaço. São Paulo: UNESP, 2007.
(Rafael Morais é ator, diretor e professor de Teatro. Mestre em Artes Cênicas – UFBA, é também Coordenador Artístico do Teatro Griô. Dirige os grupos artísticos residentes do Teatro Griô: “Akpalôs – Fazedores de histórias” e “Cia de Teatro Baobá”. Contato: rafael@teatrogrio.com.br)
À “quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera.”
(Primavera nos Dentes, de Secos & Molhados)
— Eu vou fechar a porta, para de escrever. Disse ela.
— Peraí. Respondi sem olhar para seus olhos negros. Alguma coisa fora da sala chamava mais atenção.
— O que é?
— Tem alguém naquela janela, tá vendo? Apontei com o nariz, com medo de ser descoberto.
— Não, é a sombra de alguma coisa que largaram lá. Respondeu ela, sem dar muita atenção a minha preocupação.
— Não, é um rosto que tá olhando pra gente. Há quanto tempo tá lá?
— Para de ser neurótico. E foi tentando me empurrar pra escada.
— Não! Tem alguém ali. Insisti.
— Credo. Disse ela, se afastando de mim.
— Deixa eu me esconder. Estou ficando com medo. Minha nuca arrepiava como se um espírito estivesse atrás de mim.
— Eu é que tô com medo de você, tá loco. Coisa estranha… Você tem cada uma.
— Sobe essa escada e some. Disse eu, indignado. — Você tá me atrapalhando.
— Não! Você precisa descansar.
— Eu vou escrever mais um pouco. Afirmei categórico e calmamente.
— Para com isso, essa caneta já tá fervendo.
— É a intenção, me deixa.
— Vá dormir. Ela pedia já colocando os pés nos primeiros degraus.
— Não, eu preciso fechar essa página pelo menos.
— Vá rápido! Ela parecia uma mãe, às vezes.
— Ele ainda tá lá. Disse, voltando ao assunto que me preocupava.
— Não é ninguém, deixa disso.
— É alguém, sim.
— É nada!
— Mas tá rendendo uma história, né? Eu disse, com um sorrisinho no canto dos lábios.
— Desgraçado. Xingou, balançando a cabeça em sinal de desistência.
— Senhor das ilusões. Corrigi.
— Ilusão é a sua existência, seu alter-ego chinfrim. Essa porra não vai dar em nada! Explodiu, enquanto eu redobrava minha atenção no vulto.
— Vai, sim. Insisti, com um fio de esperança.
— Vai dar em doença crônica.
— Não encha!
— Vamos, seu nariz tá sangrando.
— Então, adeus. E fui definhando até a última despedida.
(Homero Gomes é escritor. Vive e trabalha em Curitiba. É editor do blogue Jamé Vue colunista dos portais Página Cultural e Mundo Mundano. Contribuiu com dezenas de publicações nacionais, tais como Cult, Rascunho, Ficções, Germina Literatura, Cronópios e Rapa Dura. ‘A sombra e eu’, até hoje inédito, faz parte do livro de contos Sísifo Desatento (inédito), finalista do prêmio Sesc de Literatura, edição 2007)