Uma pequena falha de caráter? Um desvio grosseiro, pecaminoso? Retomei uma crença que havia se perdido no tempo, no meio de tantos ensaios à sabedoria, quando achava que o homem era o único ser supremo: a fé cristã. Nunca, no entanto, consegui me desvencilhar de uma culpa católica. Nas orgias que preparava em casa, sempre no dia seguinte me batia uma depressão, uma tremenda culpa me pesava, como se eu fosse o pior dos homens; deixei de visitar minha mãe, porque não conseguia lhe encarar; “O que ela iria dizer de um filho pervertido?”, refletia. Sim, passados dois ou três dias, quando os colhões estavam latejando de luxúria, eu me enfiava, de novo, entre as pernas do Naldo, no trabuco da Jeniffer ou na bunda da Sofia, um(a) de cada gênero ou espécie, como queira. Houve o dia em que reuni os meus três fantoches preferidos numa sauna alugada só para a gente. Foi uma fortuna. Apliquei praticamente toda a minha poupança nessa experiência, que julgava ser a última; havia sido diagnosticado com câncer de pele. Sobre o câncer, digo que foi um blefe do destino, porque o médico, muito competente, tirou a área afetada e não foram precisos maiores cuidados. Já estou em fase de remissão; considero-me curado. Luto para juntar algum trocado para pagar contas antigas, inclusive de débito com a sauna. Os ou as três mosqueteiros ou mosqueteiras me abandonaram. Eu também os(as) abandonei. Na primeira semana em que fiz a cirurgia – que foi um sucesso, segundo o médico –, voltei à igrejinha do Menino Deus. Fazia, pelo menos, uns dez anos que não pisava ali. Ajoelhei-me e chorei, pedindo perdão a Deus, por meu egoísmo, por um vício meu, só meu, que eu não sabia controlar. A promessa que fiz resultou em um sacrifício e uma obrigação, que entregava a Deus, de não me entregar mais à perversão. Lembrava-me de quando era menino e puro, e não pensava em sexo ou coisas do tipo. A minha luta diária é para pensar e sentir a beleza das flores, o silvo dos ventos do sul e a magnitude do rei Sol. Amargo uma dívida pior, que não serei capaz de saldar em vida. Minha mãezinha está com Alzheimer. Justamente na minha conversão, minha mãe perdeu os sentidos para acompanhar a dádiva. O que resta de memória para ela – se é que resta –, é para brigar comigo, me chamar de “menino maligno”, algo que, mesmo sabendo que ela fala por falar, me dói profundamente. Essas são a minha adaga e o meu pendor. Entendi que devo suportar tudo isso, para a minha verdadeira redenção. Noutro dia encontrei Sofia, no centro, e ela me recomendou uma boa trepada para eu mudar o meu humor. Disse a ela que o meu coração é novo – ainda que tentado por aquele rabo espetacular.
***
Só por hoje
Noite clara. Tempo manso e veloz. Uma rasga-mortalha mandou o seu canto fúnebre. Minha mãe dizia que o canto indicava casamento ou morte. Como se fossem os opostos: felicidade e tristeza. Eu estava na linha dos acontecimentos. E brutalmente acometido de melancolia. Guinha, meu amigo de infância, disse que isso tinha a ver com o abuso no consumo de drogas; que ele também estava assim, ferido, abatido. Namorava com Érica, que, cravada de obsessão, sempre que brigávamos dizia que ia se matar. Ela, sim, era doente em alto grau – e, à época, eu não achava que uma palavra do que dizia fosse verdade. Era, além de tudo, dramática. Numa queda, em que ralou o joelho, quis ir ao hospital para fazer exames, porque jurava ter fraturado a rótula. O drama foi dissipado com um tranquilizante, que os médicos deram, alegando que ela estaria, possivelmente, com síndrome do pânico; que era algo muito corriqueiro, dada a urgência dos nossos dias. Saía com Guinha e Bengala para as noitadas regadas a uísque vagabundo e cocaína. O dinheiro vinha do meu pai, dono de uma pequena mercearia de bairro, porque eu, quando podia, lhe ajudava. Já tinha desencanado dos estudos. Meu pai decretou: ou trabalha, ou estuda. Preferi fingir que trabalhava. Arrumava uma coisa aqui, outra ali, para mostrar que fazia algo. A minha obrigação principal era a entrega das águas. Rodava o bairro, na fissura, entregava o que dava e, para os insistentes, dizia que a água da marca tal estava faltando. Meu pai reclamava da diminuição das entregas. Eu queria mandar tudo para o espaço. Às 17h, saía do emprego e ia para a casa da Érica ou dava uns botes com os comparsas. Numa noite em que sumi com Guinha, quando cheiramos todas as carreiras possíveis que o nosso dinheiro dava conta, ao chegar em casa, meu pai disse que tinha ligado para todos os hospitais atrás de mim, e falou o pior: Érica estava no hospital por overdose de remédios; teve uma parada cardíaca e estava com insuficiência renal. Dois dias depois, Érica veio a óbito. Eu quis me matar, por minha razoável culpa. Mas a verdade é que não tive coragem. Ao mesmo tempo, estava com ódio de Érica, que mudou o meu destino. Por conta dela, pedi ao meu pai para me internar numa clínica. Não aguentava mais lidar com a minha vida, mundana, absurda. Poxa, eu já estava pronto para acabar o relacionamento. Não tive forças, a covardia é minha amiga. Foram anos dizendo: “Estou limpo, só por hoje”. Estou limpo, mas brabo, doente. Joana é uma santa que encontrei pelo caminho. Ela me ajuda, no que pode, e não sei até quando. Ainda tenho pesadelos com Érica gritando. Na última vez em que encontrei Guinha, ele estava acabado, voltou a consumir drogas e morava na rua. Foi a dor mais doída. Que não me pegue a desgraça, só por hoje; só por hoje.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando; e em 2024 o livro de contos “Amparo secreto”, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. É advogado civilista-humanista. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Enquanto recolho o que é real e apinho esquissos de corpos inconvenientes, a ronda cinza do alheamento contabiliza as dores.
Apesar da infame fuga ministrada a cada conjunto vil de tempo, entendo os meios poéticos dos dias.
Trancam meu eu.
Libertam, dizem,
O que me é espírito.
Café, clozapina, saliva e mulher.
Envolvo verbos por aliterações travadas e ninguém se importa.
E tudo faz sentido
Quando os pulsos
Doem
No apertar
Das cordas.
Recolho o que é real e turvo, amor. Socorro.
E continuavam a galopar pela cidade, sem objetivo de ser. Dedos mornos, pele azul, olhos secos, crianças fatiadas.
E a cerveja descia travada, a malandragem apoiada em solavancos de grades-janelas, nada tinha rumo, rima, remo ou graça.
Alguns diziam sábado
Eu gemia quarta
Foi-se dia de fim
Gritou a moça.
Mais um dia.
***
Você disse que meus olhos de exu danam as vielas dos que passam por mim.
Eu recolhi o troco que espalhava um prateado tímido no balcão estreito de um bar caro. Retruquei em dar o último gole no drink exagerado e pueril para meu paladar.
Escorri as mãos para o alto, no percalço de matar a gravidade em ti.
Você, beata dos cálculos imaturos de fim de mês, vênus assustada na cela dos cães raivosos, imaculada na nudez dos seios firmes. Disse que meus freios falham sempre na última curva, no verso exato de salvação.
Os tiros, que nascem no crânio de alguém, longe daqui, batucam em meus tiques nervosos na perna esquerda. E ninguém abençoa os filhos do medo em noites mal cultuadas.
Você insiste em imprecar os maldizeres ao meu olhar.
Das culpas vermelhas que estendo na varanda, os véus que cobrem o descontrole matinal é o que me alinha ao mundo.
Desculpa.
Abandono o lugar que me entedia.
Atravesso ruas avulsas, como quem desbrava o próprio peito à procura de alma.
– Meus fantasmas se afogam na minha bebida. Versam dos meus gritos o gênesis de uma nova era. Ninguém escuta. –
Você disse que meus olhos de exu enxergam a morte em tudo, minha linda.
Ela. Morta em 1937, La Paz. Ainda não sabe do desencarne.
E diz, ao desviar dos carros, que sou sua guia.
Somos a literatura do caos
No ventre das pontes
E gosto de chão
Na boca quebrada.
Na paz
Ralada
Na fuga
Dos torturadores.
Extremos e roucos.
Laroiê,
Meu amor.
***
O zimbro inocente dos quereres, por maviosidade do caos, fez germinar, no antro da civilização seca, um olho em broto, um encabeçamento de era.
E as crianças despertaram mais cedo, os dentes rasgaram a fome de pão, pés tortos marcharam liberdade e senhoras se tocaram rubras em praças públicas.
Um olho em broto, um encabeçamento de era.
E ela fumou um último cigarro, afastou as cortinas como se fossem mechas de moça, adentrou um fino espasmo de nós e foi correnteza por toda cidade.
Meu olho em broto, meu encabeçamento de paz.
E as crianças abriram caminho
E meus poemas ruíram o mal
E tudo era ritmo, aliteração,
desculpa pra mar.
–
Flufenazina e um tanto
de Rhapsody in Blue.
E tudo começa, amor.
***
Lama
Não quero escovar tempo
ou mesmo injuriar
tuas pernas
alguém tacou fogo
na lixeira da esquina
e vi deus
comburente
afetado
descalço entre as moscas
agitadas pelo calor.
– é outono –
Não quero bravejar
sou cria à toa
de condoimento
exagerado
e quebro os dentes
amarro os dedos.
Ontem
alguém lambeu
minha ira
e vi o diabo
exaltado
colostomizado
aformoseado no brilho
dos destituídos.
Hoje
fodo a testa
no barranco
– é outono –
minhas meninas,
no sustentáculo
de choro, miudam
acalmo o tempo.
escovo palavras frias.
é dia
após dia.
Alguém tacou fogo
na lixeira da esquina…
***
O monstro corre no tosco riso salivado, nos olhares de homens afervorados pela maldade infértil do comum e por vapores de ideias abortadas em assembleia geral.
Oremos.
O monstro instala seu verde ruído em vozes metálicas, nas vagas salinas do bairro médio de uma cidade média capada à miséria de capital lúcido.
Compremos.
O monstro fode a lógica dos desavisados no ritmo de um roteiro aborrecível no ato lânguido de poder.
Morremos.
–
Postula o que te é rebelde
No verso seguinte
Da escrita
Laica
E mata
O ignavo
Da língua cortada
Pelo homem histérico
Liberta-te
O verbo
Morto
Na manhã
Do teu fim.
–
Voltemos.
Camila Passatuto (1988) nasceu em São Paulo. Autora dos livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Ed. Penalux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função Supressora”. Escreve desde os 11 anos e desde 2007 participa de diversas antologias e revistas culturais com seus poemas e textos.
Um olhar sobre O Risco e o Laço – traçados do destino nagô
Por Maria de Lourdes Netto Simões
Da larga produção de Ruy Póvoas, deparo-me agora com o seu mais recente livro, de 2024: O Risco e o Laço – traçados do destino nagô.
Perpassando um olhar pelas publicações que tenho acompanhado desde Vocabulário da Paixão(1985), posso afirmar da riqueza e singularidade dessa produção que, através do olhar do Babalorixá que é Póvoas, resgata a história da gente nagô, ao tempo em que ensina, passa uma cultura singular e diverte o leitor.
Afora a sua produção literária, há a científica, desse que também foi Professor Titular de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa (2018).
A exemplo das publicações não ficcionais, é imprescindível referir a trilogia que denominou O labirinto Preto e Branco.Num mundo preto e branco, essa rica e instigante trilogia culmina com o terceiro volume, publicado neste 2024: Perfis da Resistência – deslindando as várias faces.A trilogia evidencia uma caminhada de reflexões, relatos de lutas e conquistas sobre o status quo do negro no Brasil.
Agora, na sua vertente literária, está o quinto de contos, Risco e o Laço – traçados do destino nagô. É uma ficção que, valendo-se dos Odu de Ifá, ensina e diverte. Ilustrado pelo autor, os desenhos e figuras remetem ao seu tema de fundo – o jogo de búzios, prática dos terreiros de candomblé para tratar dos arquétipos da criação, representados nos Odu de Ifá.
Em verdade, no livro, não só a apresentação gráfica dos desenhos e figuras comunica; também, a referida comunicabilidade com o leitor é acrescentada pela estrutura, integrada de esclarecedores paratextos. Aliás, esse uso dos paratextos já é uma estratégia do autor, em trabalhos anteriores, dos quais especialmente cito A Viagem de Orixalá (2015).
Em O Risco e o Laço – traçados do destino nagô, os paratextos deixam entrever o conhecimento do babalorixá que é Ruy Póvoas, como o articulador da ficção, que recorre a dois tipos de paratextos, para informar ao leitor a sua estratégia ficcional (não autoral e autoral).
Conforme esclarece no paratexto que abre o livro, Odu de Ifá é “oráculo dos babalaôs, sacerdotes de Ifá”. O livro é estruturado em dezesseis Odu. Os vários contos se relacionam com os Odu que “representam os Arquétipos da criação; as narrativas são voltadas para as variadas vivências humanas” (2024, V).
O paratexto autoral, que interroga “Por que narrar os Odu de Ifá?”, é bastante esclarecedor para o leitor que não conhece os preceitos nagôs. Por outro lado, também informa a concepção da criação literária dos dezesseis Itan – contos que buscam se relacionar exemplarmente com os Odu.
Assim, as 16 partes em que se estrutura O Risco e o Laço, cada uma, é um Odu, antecedido pela descrição-síntese de cada arquétipo: Òkànràn, Òyèkú, Ògundá, Ìròsùn, Òsé, Òbàrà, Òdí, Èjìogbè, Òsá, Òfun, Òwónrín, Ìwòrí, Òtúrúpòn, Ìká, Òtúrá, Ìretè, Opira. E são dezesseis contos, itans que exemplificam os traços de cada signo – “o caminho, isto é, aquilo que faz parte da destinação da pessoa” (2004, p. 18). São textos que, em contando uma história, ensinam, sinalizam caminhos, divertem e dão lições.
E o texto finaliza, mas fica com o leitor o sugestivo convite apresentado no paratexto inicial, para que, cada um, se identifique com uma das narrativas.
Eu, cá para mim, busquei a minha identificação… E conclamo cada leitor a fazer o mesmo; mas sem que deixe de observar o pensar do citado Paul Sagan (p. 213)
A imaginação muitas vezes nos leva a mundos que nunca sequer existiram. Mas sem ela não vamos a lugar nenhum
E o leitor não negligencie essa última lição do livro!
Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões) é doutora em Estudos Portugueses e Pós-Doc em Literatura Comparada e em Turismo Cultural (UNL, Portugal). Profa Titular aposentada/UESC, onde foi pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação e pesquisadora CNPq. Comendadora da Ordem do Ensino Público (Portugal); Mérito São Jorge dos Ilhéus (Bahia, Brasil). Produção científica em literatura e turismo, publicada em livros, artigos e documentários, no Brasil e exterior. Integra as Academias de Letras de Ilhéus (cadeira 19) e de Letras de Itabuna (cadeira 31).
Não consigo esquecer a faca que ……….rompe o papel para além do obscuro. ……………………….Meus poemas
são a subversão palpável ……..de elefantes sonâmbulos, criando
vasos sanguíneos telúricos. …..Eu devoro santos e malditos e os trituro em palavras, quase como …………………um pássaro azul perdendo seu fôlego. ………………………………….À noite, um amálgama de interjeições: ………………………….meu deus! Quem sou eu? …………..A música é azul, os mares, verdes; inclino minha ………………………………………………………….cabeça em vertigem,
oceanos transbordam da minha ………………………………garganta forrada de espinhos. ……………………………O poema é para ser, longe do sentido. ………………O poema deve existir e alcançar quem precisa. ……..E eu sou um poema tremendamente ensandecido, incontrolável,
tal qual deuses selvagens, ………..que impelem aos milhões para fora da ejaculação precoce ………………………………………..de um espírito em desordem.
***
CRESCER PARA DENTRO
Quanto mais cresço para dentro, ………..maior é a luz que eclode do fim;
maiores e mais fortes os ventos ………………— rajadas de fúria e caos.
Porque teus ombros largos, ……….que emudeciam suor e fogo, ……………….embruteceram a casca de uma árvore. ……………………….Porque é um lírio tombando dinamites;
um tornado sem ferro nas estruturas. ………..Abreviar a palavra na velocidade da vida.
Jorro, pelas retinas, malmequeres convalescentes que pretendem ………………oscilar o sereno inquebrável das montanhas.
Bebo um café. Acendo um cigarro. ……………………………………Mais um dia se queimando na ponta
chamejada e cinza do fumo. ……….Passo a caminhar em passos redondos, circulares; ……………….de ponta cabeça, seguro o mundo com as minhas ……………………….mãos, mãos que ardem,
mãos que pesam, mãos enrugadas de tempo, ………desprovida de som, sós.
Até que encontrei teu ermo ser, …………..vagando pela tempestade do deserto.
Teu corpo inebriante. …………………..Tua voz intumescida. Tua pele fina, camada de tecido
que cobre a alma. Teu pé, branco, é incapaz de sonhar.
……….Então agora quero inserir a infância na cólera que se expande.
Rosnar para o perigo; ……..dividir o peso do medo com o expansivo amor.
Procuro na madrugada, …………………………bitucas para acender. ………………………O breu se volta para o silêncio
do abismo; .crânios humanos esmagados pelo pé sangrento de um demônio que
ri.
Ah, e a melancolia que, ……….muitas vezes, em um amplexo, ……………….acalentou minha sanidade, ……………………….transbordou éter e álcool para fora ……….dos campos verde-palavras, verborrágico.
Para fora, a ideia, o breve dia do pensamento, …………………o fluxo que corre como sangue nas veias.
Todo o mistério único de deitar ………..ao teu lado no crepúsculo das alucinações.
O sonho termina.
………………….Só se vive para fora
& ……………só se morre para dentro.
***
O TOMBO EM CHAMAS
Um dia, tu serás rei.
Por um dia, tu serás rei, Chris.
A gema mole do teu ovo — amarelo tal sol;
as paredes de dentro eclodindo mofo…
tua impaciência prepotente te levará ao cume.
Mas, por apenas um dia,
serás rei. Rei das trevas que te cercam,
rei do campo aberto — qual gritas,
rei do transcendente, rei do ovo
da gema mole — amarelo tal sol,
rei do mofo das paredes de dentro. ………Marinando, marejando, morosamente,
se possui a palavra, tal gota no oceano.
São incorruptíveis, os poros dos peixes-palavra.
É incapaz de erigir uma sílaba no breu da noite.
Nada irá me salvar e eu serei rei! ……..Rei — principalmente — do nada que me aguarda …………….no tombar para fora desta vida.
***
SUSPENSOS NO AR EM SILÊNCIO POR UM INSTANTE
Eu olho para as fotos como que procurando o destino.
Não sei exatamente onde eu me perdi.
Não sei exatamente onde a encontrei.
Não sei sobre o pavio aceso do tempo que nos esmaga como insetos.
Eu olho nos teus olhos e te procuro.
Em todos os olhares eu te perco.
Porém, eu prometo, que na noite mais escura, do céu mais vazio,
das estrelas mais fustigantes, fugidias, eu estarei segurando a tua mão,
suspenso no ar, em silêncio, por um instante.
Eu procuro tua mão à noite, ao amanhecer e ao entardecer.
Em todas as cordas me emaranho, enrosco o pescoço na forca.
Entretanto, te perco, nas lâminas de aço pungentes,
no segredo que o céu não soube guardar.
Eu escrevo poesia para alcançar o teu nome, que já diz tudo.
Eu olho para as fotos como que procurando a ti,
mas encontro as tuas últimas palavras cravadas em seda:
“tu jamais alcançarás a lua se não saltar o precipício”.
***
NO DIA DO ANIVERSÁRIO
Escrevo palavras de ordem inatural. ……….Quando deixei tua vertigem alumiar meu corpo inteiro,
banhei-me em chuva dourada. ………Seria capaz de vórtices, de fome voraz. Assim que teu negror
intumescia meus olhos, uma luz pungente descia dos céus, …….e eu continuava seco em todos os membros, em todos os órgãos;
um corpo vazio vagando na cólera da noite. Úmido, apenas nos olhos.
.Escrevo como caio, de peito aberto ao mar, como se o sal fosse fogo.
Invoco das palavras soturnas um instante de graça; um instante ………afastado da beleza do dia, qual eu mijo em cima.
Tua beleza é carnívora, engole minha luz feito fotossíntese. ……Beligerante, destemida, aprazível apenas pelos lobos taciturnos que uivam.
É distante a água salgada que corre em tuas veias; implodir para dentro ……do mundo inteiro, um maldito homem, ………com a cabeça estourada por uma espingarda, ……………às 7h da manhã, aos 27 anos, ………………………no dia de seu aniversário.
***
NA DANÇA XAMÂNICA FRENÉTICA DE CRISTO COM LÚCIFER
ao poeta Antônio Cícero.
1.
Edifícios tombam, ferozes.
Uma criança a sonhar estrelas.
Céu de anil, boca bocejante de cachorro negro — Anúbis.
Escuridão escorrendo nos dentes podres.
É inerente às plantas, o outono. Assim,
a asa de um anjo está vulnerável; minhas
palavras dão rouquidão aos cavalos, a sonhar
com centauros dançando pow wow ao derredor,
como se fosse o suficiente para ser feliz.
Paredes de concreto árido, com rachaduras secas
de poros nasais. Um raio esparso perpendicular,
perpétuo socorro de uma constelação que
brinca de faz de conta no dilúculo pulcro
do sorriso das camélias, das putas que balançam
a bunda ao som do funk e ao Cristo que habita
todos os portões do inferno,
exatamente como deus o fez: embriagado de crepúsculo,
atônito…
……………..e demasiado humano.
Christian Dancini de Oliveira é um poeta nascido e residente de São Roque, São Paulo, que escreve poesia desde os onze anos. Com 15 anos lançou a obra “Fragmentos de uma aurora” em PDF para baixar gratuitamente através do site Projeto Livro Livre, de Iba Mendes. Aos 22 anos, publicou seu primeiro livro chamado “Reminiscências”. Além deste livro, que lançou de forma independente, ele já lançou pela editora Opera o livro “Pleroma” e pela Patuá “Dialeto das Nuvens”. Christian Dancini já publicou na revista portuguesa Quiasmo, na Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, pela revista espanhola Kametsa etc. Seu livro “Dialeto das Nuvens” foi semifinalista do prêmio Oceanos 2024.
Todas as coisas indicavam para a conclusão óbvia: o mordomo era o culpado!
Como eu sei disso?
Olha, vou lhe contar, caro leitor, como surgiram em mim as primeiras suspeitas e como essa conclusão pareceu-me tão óbvia que não precisei agenciar grandes esforços para chegar até ela. E pensar que o safado tentou colocar a culpa em mim, por conta da minha condição… vocês sabem, não é mesmo?, essa corja de pernudos sempre tenta colocar a culpa em quem tem pernas curtas.
O mordomo atende por nome Jerônimo e trabalhava na nossa casa desde que me entendo… enfim, há muito tempo ele trabalhava na casa, mesmo antes da minha chegada, e vocês sabem como esse tipo de coisa, me refiro a questão temporal e de convivência com os donos da casa etc., é levada em consideração quando de repente aparece um vaso quebrado e o safado aponta logo para quem é supostamente mais frágil e não tem condições de arguir em sua própria defesa.
Jerônimo era afobado, percebi logo. Mesmo ele sendo mais velho do que eu na casa, ele se sentia menos à vontade, pois estava em posição de subserviência, enquanto eu… eu já cheguei em uma posição que só era inferior a dos donos da casa, o doutor Omar e a sua senhora, a dona Matilda. Os dois, já velhinhos e sem filhos naturais, ambos aposentados e morando numa mansão enorme no Corredor da Vitória, decidiram-se por adotar-me. Foram, numa terça-feira de julho, até o… e assim que me viram não aguentaram. Disseram que eu olhava para eles feito quem pedia colo, como quem, abandonado pelo destino, encontrou a sorte nos braços de dois velhinhos. E me levaram, mesmo eu não podendo falar, sabiam bem disso, mesmo eu tendo pernas curtas… talvez eles até gostassem desse fato, posso supor porque não tiveram filhos… não queriam crianças correndo pela casa. Eu era do formato e do tamanho que eles queriam. A criatura ideal para preencher o vazio de dois velhinhos desfilhados. Sim, fiquei sabendo depois que já haviam tentado ter filhos, mas a dona Matilda perdera três bebês e resolveram não tentar uma quarta vez, seria uma grande dor, mesmo que previsível. Jerônimo passou por tudo isso com eles. O mordomo, quase tão velho quanto os dois aposentados, estava naquela casa há pelo menos três décadas. Eu só tinha doze anos na época, um menino na beira dele… perto dos meus: já quase um idoso. Segundo pensavam: minha memória já não era das melhores, talvez também minha atenção, por isso a conclusão precipitada de que o mordomo realmente estava certo e que, muito provavelmente, num vacilo, eu tenha derrubado o vaso. Cheguei a crer também nisso. Duvidei das minhas próprias faculdades, duvidei das coisas que eu via, mesmo minha visão estando em condições perfeitas.
Que covarde! Estou me eximindo das minhas responsabilidades por um simples orgulho felino. Martirizei-me por todos os cantos da casa e, na falta de ter com quem conversar, decidi investigar o caso. Falta talvez dizer a você, desocupado leitor, que se investiguei não foi só pela dor de talvez ser o culpado do crime… talvez você esteja pensando: ora, mas tudo isso por um simples vaso? No entanto, não era qualquer vaso, nele estavam contidos os resquícios de muitas vidas. Seu Omar e dona Matilda poderiam até inferir juízos sobre o assunto, mas a única coisa que faziam era lamentar. Poderiam muito bem, numa hipótese até justificada pelas ocasiões, dizer que o pobre do gato sentia ciúmes, que, sabendo haver dentro do vaso chinês de porcelana azul as cinzas dos fetos abortados, cogitava os mundos possíveis em que ele, desgraçado felino, não fazia parte dessa família. Pobre gato caduco, diziam ambos.
Passei a vigiar a rotina de Jerônimo, eu sabia que ele escondia algo. Seus olhos sempre baixos, como quem tentava se desviar dos próprios pés. Sua gola desajeitada… sorte dele que não era eu o patrão. Meus tutores não se importavam mais com essas coisas de aparências dos empregados. Bem lembrado! Eu não havia situado o leitor de que na casa, além do seu Omar, dona Matilda, Jerônimo e eu (que me reservo ao direito de anonimato, já que eu, cá de onde falo, também não posso saber as graças de quem me lê), também estava na casa e, noutra ocasião, talvez pudesse ser uma suspeita, a cozinheira Cida. Lá fora ainda tinha, na garagem, o motorista Dirceu e, no jardim, o jardineiro Alfredo. Todos os nomes são falsos, é claro, dado que não quero expor os dois velhinhos que me acolheram em todas as minhas necessidades. E por que não coloco também um nome falso para a minha persona?, você pode se questionar. Eu poderia deixar o meu impaciente leitor gastar suas unhas… mas isso é um pormenor que talvez valha mencionar. É simples, o meu anonimato é por pura força do drama, senão este que narra não seria eu, mas outro.
Jerônimo, como eu ia dizendo, andava sarrabieiro. Ele suava de nervoso perto de mim, e isso me deu ainda mais fortes indícios de que de fato ele teria sido o culpado. Eu, como não sou bobo, provocava-o. A todo canto que ele ia, eu seguia atrás como um gato sorrateiro, com o perdão da ironia… Calculei que estava próximo de encontrar uma brecha nas evasivas do sujeito, pois, com todo aquele nervosismo, ele vacilaria.
Ainda restava buscar por uma prova e, talvez a coisa mais importante, saber se o crime fora fruto de puro descuido ou se ele havia premeditado. Se premeditado, restava saber as motivações que moviam o mordomo ao ato nefasto.
Era já fim de tarde quando, diante do pôr do sol, ou das poucas frestas visíveis em meio a tantos prédios que surgiram ao redor de nossa casa nos últimos dez anos, quando fui atingido por um relampejar de sensatez detetivesca. As roupas!
Eu tinha noção de que o mordomo não lavava suas roupas de serviço, era Cida quem fazia isso no sábado. Ainda era sexta e resolvi investigar mais de perto. Assim que Cida descuidou-se, distraindo-se com um café que estava no fogo, avancei por detrás dela em sentido da lavanderia, supunha encontrar lá as roupas do malandro. Para minha fortuna, ele havia deixado na lavanderia as roupas do dia do crime. Logo me pus a investigar mais de perto. Dito e feito! Encontrei um caco na lapela do safado e tratei de planejar como faria para levar as roupas até meus tutores.
Depois de falhar ao tentar enganchar com minhas garras, abocanhei a lapela, que tinha gosto de suor, e arrastei até a sala. Antes tive que passar por Cida novamente, que, para minha felicidade, estava concentrada nas xícaras… Quando cheguei na sala e arranjei a cena para que fosse de fácil constatação que o culpado era na verdade Jerônimo, me senti um verdadeiro Dupin.
Os velhos ficaram chocados com a situação e, após alguns elogios acerca da minha esperteza na arte de desvelar as injustiças, me pediram os mais grandiosos perdões que eu já tinha ouvido em toda minha vida de gato. Não se enganem, tenho só uma vida e ainda dura em média só a idade de um reles adolescente. Por isso não posso gastar minha beleza explicando pormenores. Mas, indo direto ao ponto, eu tinha certeza que o canalha confessaria tudo e diria os motivos assim que chegasse, no outro dia de manhã.
Passou-se a noite. E quando Jerônimo chegou a arapuca já estava armada.
Primeiro ele chorou, de praxe. Essa gente chora por tudo, afinal. Depois, tratou de pedir desculpas por ter colocado a culpa no “gato”. Canalha duas vezes! Podia me tratar diretamente, mas preferiu ser indireto e ainda me chamou pela espécie. Eu não fico chamando os outros pela espécie…
Porém, até eu me senti um pouco mal quando o sujeito passou a narrar os ocorridos.
Ele disse que naquela noite o seu netinho de dois anos morrera de febre amarela, doença que estava atingindo muitos miúdos da região. Acabou que não dormiu bem, mas, como nunca em trinta anos tinha jamais faltado um único dia sequer, resolveu trabalhar assim mesmo. No vaivém pela sala, depois de algumas xícaras de café, vacilou e esbarrou no vaso. Como a primeira criatura que passou pela sua mente foi eu, ele resolveu me acusar do mal feito. Entretanto, andava se remoendo desde então e estava decidido a se desculpar e revelar os pormenores, disse isso passando a mão pelo meu corpo, em sentido de desculpa.
Depois disso, ele suspirou e disse que estava tudo bem se quisessem despedi-lo. Os velhinhos se entreolharam e não disseram nada por um bom tempo. A situação estava estranha. Senti que talvez realmente cogitassem despedir o sujeito. Resolvi também agir.
Pulei no colo de Jerônimo, que agora estava sentado aos prantos e eu, mesmo sem ter mãos e com minhas pernas curtas, rocei em seu corpo buscando acalentar a sua dor, ser para ele, por um momento, o que eu havia sido toda a minha vida para aqueles dois velhinhos. Depois olhei para meus tutores diante de nós e dei um miado, como que dizendo: vejam este homem chorando a morte do neto e o peso da responsabilidade de ter derrubado o objeto mais importante da vida de dois velhinhos.
Dona Matilda foi a primeira a sorrir, depois o seu Omar.
Eu, ainda no colo do mordomo, dizia a mim mesmo: não pode ser mal sujeito este homem tão emocionado.
* Publicado originalmente no livro “Linha tênue” (Margem, 2022).
Paulo Zan é o nome artístico de Paulo Alexandre Trindade Freire, (Rio de Contas-BA, 1999), graduado em Filosofia e mestrando em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Já publicou os livros de contos Linha tênue (Margem, 2022) e Trapaças (Caravana, 2023). Participou das antologias “Pacote de Textos” (Org. Rafael Caneca, 2021) e “Acaso literário Vol. 1” (Org. Simone Campos, 2021). É apresentador do podcast Orgulhoso Cast.
sophia mello breyner andresen
me sopra versos sobre o mar
enquanto o oceanário se distancia
o dragão-marinho-folhado
veio comigo na porção de coisas
que não se podem esquecer
seu corpo carnívoro
não é folha
não é cavalo-marinho
não é peixe-cachimbo
é uma das criaturas
que vieram desestabilizar
o que parecia pacificado no mundo
[como meu amor por ela]
***
3Poema
poema
é ..nó
de diferentes tipos
com
diferentes
modos ……de des/amarração
***
pequenas violências cotidianas I
cadê o namoradinho, minha filha?
entre uma colher e outra de sopa
indaga minha mãe
que faz parecer isso
uma mera curiosidade
olho para minha mulher a seu lado
largando o talher sobre a mesa
a sopa esfria em segundos
/numa pergunta tão simples
a negação de um mundo/
***
memento
a sónia brito
tudo se vai no
esquecimento
tudo nosso
tão digno
de lembrança
estilhaçado
ainda temo
cada tremor
de tua memória
que tropeça
o terremoto destruiu
a biblioteca real
e mais de 70 mil volumes
lá armazenados
por aqui também
presencio destruição
sou tirada ……..do corpo
de minha mãe
mais uma vez
todos os dias
como poemas que
se atiram aos cães
***
vascular
tenho que andar ainda que a casa não tenha água e o suor escorra em meu corpo ainda que o sol nunca vá embora mesmo à noite a secar a lagoa e suar o meu rosto tenho que andar ainda que cansada esteja ainda que não tenha pernas e acabe o fôlego ainda que os quilômetros nunca cessem ainda que a boca seja seca tenho que andar ainda que me faltem passos ainda que os líquidos a percorrerem meu corpo não matem minha sede ainda que o rio que ladeia minha casa não mate minha sede ainda que eu seja secura tenho que andar ainda que ao meu redor tudo que açude seja miragem tenho que andar pois a casa não tem água e meu lar está distante
Nívia Maria Vasconcellos é artista da palavra, atuando como poeta, ficcionista, letrista e declamadora. Entre outros livros, publicou A paixão dos suicidas (Selo João Ubaldo Ribeiro, Ano II), Cãibra de Nó (Prêmio Jorge Portugal, 2020) e OCORPOÉUMAFOTONOESCURO (Patuá, 2023). Lançou o álbum A Vênus de Willendorf com o grupo Mousikê, com o qual realiza apresentações literomusicais. É doutora em Literatura e Cultura pela UFBA e realiza pesquisa sobre poesia brasileira contemporânea, autoria, campo literário e oralidade.
Acordou bem, mas de repente se perguntou: hoje eu vou sofrer pelo quê? – O dia me trará a resposta. No trabalho desfilavam pessoas em busca de soluções para os problemas com o fisco. Aproveitavam e contavam suas desditas. Na cabeça do moço uma luz sombreada se acendia. Eis um sofrimento para me agarrar a ele. Em seguida, a moça confusa passava mensagem exigindo atenção e cobrando promessas acumuladas. Se colava ao coração mais um sofrer. Ia para o banheiro e vertia água desde os olhos no vaso branco que recebe todas as águas e mais. O moço sofria num gozo estranho as dores que vinham de fora. Não era bom, mas sofria neste prazer. Mais um atendimento e ouvia a mais um derrame de infelicidades que aderiam ao seu peito, muro de lamentações diárias. O moço mal dava conta do próprio muro e desabava em mais sofrimentos. O que mais tenho hoje para sofrer? Mal acabou de pensar, veio um telefonema sobre uma separação matrimonial na família. Culpas pra lá e pra cá vindas das partes envolvidas. Um nó na garganta crescia como na dos condenados no minuto cadafalso. Que pena deles e de mim que somos seres imerecidos de tanta dor!
Em casa, já se pensando longe dos sofreres alheios, um pássaro preso na gaiola vizinha lhe canta a canção de ninar dos viciados em dor.
***
CEGO POR QUERER
Numa aldeia qualquer na beira de um rio qualquer neste mundão de meu Deus uma criança nasceu cega e assim permaneceu até que, já na adultidade, um médico se compadeu e com mãos hábeis e instrumentos adiantados deu-lhe a visão. Que alegria! Pela primeira vez viu a cor do caqui, os ranhos transparentes na sua polpa. Antes só lhe sabia a maciez e a doçura do mel quando em sua boca deslizavam pela língua e descia para o destino. Viu o matizado de cada flor. Viu como eram as patinhas do seu gato que arranhavam carinhosamente as pernas quando pedia o ninho do colo. Os passarinhos… Ah!… Esses eram a delícia no novo paraíso de ver. Explorava-o com prazer.
A sua aldeia se banhava noite e dia no rio que, como um sino de bronze, anunciava as horas da vida o tempo inteiro. Um dia, se distanciando a poucos metros do seu chão, viu um passante chutar um cachorro que salivava por um pedaço de carne. No mesmo dia viu um homem com a brutalidade dos monstros subjugando uma quase mulher, em seguida matando-a para silenciar seus gritos denunciantes. No mesmo dia, já assombrado com o que via, um homem incendiou o outro que dormia numa calçada. Antes do cair da noite, viu barracos caindo em barrancos, rios envenenados, matas gritando em quedas, bocas de gente babando fomes, almas alienadas, zumbis nas cracolândias, dores-choros-rangendo dentes…
Voltou, apanhou trapos grossos e pretíssimos e fez tufos para ou ouvidos e vendas para os olhos serventes. Num tamborete sentou-se em silêncio com uma bengala ao lado, caso precisasse se defender do que os olhos cansados pudessem ver, sentir e sofrer.
O sol deu uma risada ardente e cínica. A lua derramou duas lágrimas conformadas.
***
O LUGAR DAS MÁSCARAS
Olhe, moça, eu já estive neste lugar. Olhe, eu sei o que você sente. Não sei dos seus motivos, mas sei dos caminhos que você trilhou para chegar onde está agora.
Sabe, quando eu conseguia acordar, abria o armário e escolhia a máscara do dia. Colava-a na minha cara e ficava protegido. Às vezes, no meio do dia, eu tinha que voltar correndo para casa porque a máscara que estava usando não mais servia: começava a se derreter com o suor das emoções e tinha que ser substituída mais urgentemente do que todas as urgências do mundo. Se a máscara se despregasse de mim, eu seria visto. O que faria, então? Ficar nu dentro da vida, na vista dos outros, seria o inferno pegando mais fogo ainda.
Sei onde você está, moça. Creia!
Como eu não podia levar o armário das máscaras nas costas comprei um baú preto, bem chaveado, e o carregava no lombo, rua acima, rua abaixo.
Diziam: – lá vai ele! -. Sim, lá vou eu com o baú nos ombros. E todos completavam: – Oh! – e eu me doía mais e dizia ai… Aonde eu ia levava meu companheiro indesgrudável. Já estava acostumado e parece até que me dava certo prazer. Pesava menos. A gente se acostuma com tudo. De bom e de ruim. Até com a dor que enfeia a gente acha bom.
Olhe, moça, ouça bem o que não me canso de repetir: já estive neste lugar e resolvi desmatar o mundo para encontrar um caminho de volta para um outro onde já estive também.
Encontrei uns anjos pela estrada e, no início do retorno, chutei-os. Eu precisava dessa companhia, mas lutei contra. Não sei explicar. Eles, teimosos, ficaram grudados. Me ensinaram que a vida é sempre o aprendizado pela estrada de volta… Reaprender a função das asas não é lá coisa muito fácil. Não é não. Mas a gente é novo e sempre pode ter tempo de escolher.
Há muito chão para caminhar. Há muito espaço para voar. Há muito tempo ainda… Talvez.
Não sei, moça, se você entende o que falo e digo.
***
O SOLDADO, O POETA, OUTROS E EU
Todo vestido em roupa macia passava o soldado e me olhava de longe. Todos os dias fazia o mesmo percurso entre o quartel e o meu portão. Demorou pra eu saber que falava. Que voz de trovão virou pontual os meus ouvidos, quando entardecia. Forte, mas não amedrontava. Durante três dias, como reza de promessa, parou diante de minhas ânsias e lábios duros tocaram nos meus. Até hoje não sei se gostei, mas de uma forma que não sei explicar, senti segurança. Num destes amanheceres ele abriu meu portão, pediu emprestados meus pequenos pés e os pôs sobre seus coturnos lustrosos e andou uns dez passos sem me deixar pisar no chão. Gostei daquele novo chão sobre o qual nunca havia caminhado antes. Numa noite, chegou vestido de guerra, tocou meu corpo vestido de alma, trançou meus cabelos com estranha habilidade de força e me fez prometer que aguardaria a sua volta para o destrançamento. Eu quis dizer sim com um beijo na sua testa sempre guardada por um capacete. Nossas alturas eram incompatíveis. Ele alto como um poste de luz. Eu pequena como… O fato é que ele não se curvou para receber meu respeitoso beijo. Meu coração travou naquele momento. Muitas guerras ele travaria, porém sem mim. Decisão aprontada e apontada para o futuro.
Aí apareceu o poeta, suave como um passarinho. Cantava no galho junto ao meu portão. Às seis da manhã começava o ritual de encantamento, incluindo o destrançamento dos meus cabelos, fio por fio, salpicando pequenas pétalas de flores sobre a minha sagrada cabeça – como costumava dizer. Na verdade, a sua pontualidade era feita de acordo com o seu pensar, pois 6 horas da manhã, na cabeça dele, era qualquer hora do dia. Em todas as horas o dia estava sempre nascendo somente para a minha alegria, por isso o seu descontrole não me incomodava. Já me derramava de amores e ânsias. Seus presentes inusitados eram a minha glória. Sua ausência era a minha incompletude. Ele dizia que meus olhos eram o mar transparente onde ele nadava despido; dizia que o fio do meu cabelo era o raio mais brilhante do centro da lua e, como se fosse real o que dizia, depositava esse fio na palma da própria mão e admirava como se um tesouro supremo fosse; em outros dias, depois de sumiços ao dobrar a esquina, chegava esfuziante e me punha no pescoço um pedaço de brisa. Oh, como eu sentia! Um outro presente demorou sete dias pra trazer. Ao chegar me disse que havia ido ao deserto encomendar um xale de areias e que ele próprio tecera com as mulheres das tendas de um oásis. Ele sumiu por sete dias até retornar coberto de saudades. Enquanto cobria-me os ombros com o xale, ia descrevendo cores e sutilezas e fazendo trejeitos de decorador de corpos sobre a minha pele desejante de alegrias. Mas ele gostava muito era de dobrar esquinas para encontrar inspirações para seus presentes. Até que um dia me cansei de tantas esperas e inconstâncias. Não podia prendê-lo e não queria soltá-lo. Ele conhecia o meu êxtase, mas desconhecia a força que morava em mim. Cortei o galho da árvore do meu portão onde acontecia o ritual da sua magia. Quebrei o joelho da esquina. Nada adiantou. O mago havia me enfeitiçado. Recolhi os retalhos das lembranças, guardei os versos e gestos no meu coração e segui sem mar nos olhos, sem fios de luz de lua, sem olhar para outras esquinas onde a qualquer momento ele pode dobrar.
Outros me chamaram a atenção, mas não quiseram construir histórias dentro de mim: Azuis, brancos, pretos, índios, verdes, amarelos, representados por letras, cegos e estropiados, embora não tenham deixado marcas profundas e não tenham morrido no esquecimento. Tempos depois, mal eu me havia recuperado do soldado e do poeta, chegou um verdureiro. Meu Deus, que mãos calosas e unhas de arar a terra! Matava minhas fomes como se fosse a ambrosia dos deuses espelhada nos galhos de acácia amarela. Entendia o Olimpo – assim como me pareceu – como ninguém e me tornava imortal. Emprenhou-me com o branco maná produzido nos seus chãos com gosto de pão e mel. Caí de paixão pelas mãos grossas e sua fortaleza no olhar. Caí de paixão pelas suas descrições pelos tempos de cada semente sufocada na cova de cada dia.
Fui com ele para os longes das terras verdes. Lá conheci o que havia no disfarce de suas mãos bem como o diabo mais fogoso que havia no mais profundo do inferno ardente. Estive no centro do vulcão. Lá aprendi a solidão. No leito o procurava nas madrugadas e nada. Vivi o esquecimento das maltratadas. Eu era a sua terra e sofria com o rastelo, a enxada, a foice, o podão. Ele gostava do cheiro do rabo das cadelas e me fazia cheirar igual para as suas satisfações. Eu me desconhecia e tinha vergonha de mim. Quebrei o espelho do quarto com uma pedra para não me ver. Não podia gritar as dores para que o grito pudesse alcançar algum ouvido, tamanha era a distância entre mim e o mundo. Estava mais invisível do que sombra no fundo do rio. Ele gritava em seus gozos dentro de minha carne rasgada e minha boca tapada. Naqueles meus dias, ele me embebia o rosto com meu próprio mênstruo. Fugi mato afora. Me achou e, na corda, me trouxe de volta. Pensei em morrer, mas eu não merecia este pior. Ainda não era chegada a minha hora. Pensei: pinhão-roxo, mamona, mandioca braba, cobra coral, escorpião… Não sei se deixei pra trás um aleijão morto-vivo ou um homem morto-morto. Por sete meses fiquei num hospital que acode mulheres. Sete meses depois tive o meu nome mudado. Sete meses depois… atravessei oceanos.
Porém não posso esquecer o rei queniano que conheci no Texas e me fez cometer um poema na vez que o vi. Nem precisei saber seu nome, mas sua coroa permanece nos olhos da minha memória:
Hoje eu conheci um rei.
Estava coberto e um preto lustroso que lhe servia de pele
e sua testa sustinha uma enorme coroa
invisível para olhos desatentos.
Do seu sorriso marfim uma voz
pronunciava uma lei sem igual
por aqui.
Na sua altura trazia o Kenya inteiro
reino que deixou atrás de si.
Nunca havia visto um rei em pessoa
ancorado na proa
deste imenso cais que é a vida.
Ambos de passagem pelo mesmo porto
a despedida se fez presente
e a gente partiu se carregando em visão
de um passado que ali se encontrara.
Outros espíritos viajeiros
Se encontraram em nosso peito
E todos seguiram seus destinos.
(Austin – TX – Janeiro de 2024)
Eu continuo, buscando pacificação com a existência e resistindo bravamente todos os dias. Seja lá quem me apareça pela frente. Este Eu pode ser um novo que se apresenta diante de mim. Vamos ver o que me dirá.
Neuzamaria Kerner é poetisa, nascida em Salvador (BA). Professora, graduada em Letras e com os cursos necessários para o exercício da profissão escolhida pelo coração. Membro da Academia de Letras de Ilhéus. Membro da Academia de Cultura da Bahia. Artesã na técnica Bauernmalerei (pintura camponesa de origem alemã). Publicações: “Fragmentos de Cristal” (poemas), “Eu Bebi a Lua” (poemas), “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna” (parceria com outros escritores)(ensaio), “O Livro-Arbítrio das Evas – dentro e fora do jardim”(poemas), “Marcas Escrevividas”(poemas), “Memórias do Silêncio”(contos). Além de publicações esparsas em revistas literárias, mantém blogs e canal no Youtube, onde posta vídeo-poemas.
O roteirista e escritor Victor Mascarenhas costuma dizer que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Autor de vários livros, com destaque para “Cafeína”, ganhador do Prêmio Braskem Cultura e Arte, da Fundação Casa de Jorge Amado, livro prefaciado por ninguém menos que Fausto Fawcett, esse feirense nos surpreendeu ano passado com o lançamento de um romance histórico em que, baseado em pesquisas criteriosas, ele criou uma história envolvente, tendo como escolha principal a visão de dois protagonistas quase anônimos – Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro; o primeiro, oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo, major.
Lançado pela P55 edições, em parceria com o selo do próprio autor, a Cafeína – Produção de Conteúdo, “Sete dias em setembro” parece trazer uma nova abordagem quanto aos fatos ocorridos há 200 anos. Fatos que culminaram com a Independência do Brasil. No livro, além de optar por uma bem elaborada ficção para preencher “lacunas”, Mascarenhas nos conduz por uma viagem em que, além das pesquisas, da preocupação histórica e da vontade de se publicar um bom livro, o que prevalece é o gosto pela literatura e por uma ficção de qualidade.
Abaixo, segue uma breve, mas enriquecedora conversa que tivemos sobre o seu romance.
Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela
DA – Duas coisas me chamaram a atenção em seu livro: a forma escolhida para se contar a história, em que o narrador se utiliza de uma “oralidade”, tal como Cervantes em Quixote, e o fato de que a Independência do Brasil foi um processo mais lento do que o ensinado nas escolas. Você concorda que essa forma “oral” serviu para nos mostrar de maneira mais ampla esse momento histórico, já que ela permitiu que fossem relatados outros fatos que extrapolam, em tese, o enredo, mas que são fundamentais para o desenvolvimento do livro, incluindo aí seu viés ficcional?
VICTOR MASCARENHAS – A gente tende a minimizar nossa história quando não enxerga a Independência como resultado de um processo complexo e de muita luta dos brasileiros. É um desserviço reduzir tudo a um arroubo de D. Pedro, ignorando o cenário internacional, onde o liberalismo estava derrubando o velho absolutismo, ou minimizando a luta do povo brasileiro que se uniu para vencer o exército português e na defesa do então príncipe regente contra os desmandos de Lisboa. Um exemplo que traduz bem a mobilização popular e o papel do futuro imperador está no nome do batalhão onde Maria Quitéria lutou durante a guerra na Bahia: Batalhão de Voluntários do Príncipe D. Pedro. Diante de tudo isso, o desafio era levar o leitor para esse cenário sem ser didático ou redundante e eu queria fazer isso num livro de aventura a la Alexandre Dumas, com o humor e a coloquialidade do “Memórias de um sargento de milícias”. A oralidade que você apontou, que tem como ancestral infinitamente superior o “Dom Quixote” de Cervantes, vem dessa escolha e permeia o livro através do seu narrador, que tem como tarefa principal relatar a viagem dos protagonistas – os dois mensageiros que levam as cartas do Rio até Pedro nas margens do Ipiranga – mas que vai traçando o panorama de um país convulsionado através da história de vários outros personagens, passando por cidades diferentes, comentando os fatos, conversando com o leitor e fazendo paralelos da época com o presente. Mas o que era mais importante era fazer tudo isso mantendo o rigor histórico, enquanto operava com personagens reais em situações fictícias. Por isso, tratei logo de avisar na epígrafe: “Esta é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com nomes, pessoas ou acontecimentos reais não terá sido mera coincidência”.
DA – Além dos acontecimentos reais que lastreiam o enredo, temos aí um delicioso rol de histórias também reais e no mínimo curiosas, envolvendo D. Pedro e outras figuras, conforme você vem divulgando em entrevistas. Conte-nos um pouco sobre elas. E de como foi escolher algumas, dentre tantas, visando dar um direcionamento ao livro.
VICTOR MASCARENHAS – D. Pedro é um personagem tão extraordinário que parece até inventado. Era um tipo complexo e com um humor absolutamente instável, dividido entre suas responsabilidades políticas e uma compulsão pela vida mundana que rendeu muitas histórias, digamos assim, inusitadas. O critério para seleção de algumas dessas histórias e personagens foi ter ligação direta ou indireta com o processo e o período da Independência. O curioso é que mesmo usando apenas fatos documentados, tem coisas que estão no livro que parecem ficção, como no trecho em que os protagonistas se hospedam em um puteiro em Taubaté e são informados que D. Pedro havia dormido lá. Parece mentira, mas a estadia do futuro imperador no bordel realmente aconteceu. Outro exemplo: Pedro, quando criança, costumava se entediar durante a cerimônia do beija-mão no palácio e se divertia dando petelecos no nariz das pessoas. Usei essa informação para explicar a razão do ódio de um dos personagens por ele. Outra informação real que parece mentira é a história da dívida de 12 contos de D. Pedro com um bodegueiro chamado Pilotinho, que surge no livro num encontro entre o agiota e Plácido, um amigo picareta do príncipe, que renegocia o débito e revela que sua origem está nos gastos de Pedro com uma amante francesa, a atriz Noely. Todos os personagens envolvidos nessa história são reais, assim como a dívida, mas a situação que vemos no livro é totalmente fictícia. Esse processo se repete em toda a obra, até na célebre diarreia que acomete Pedro às margens do Ipiranga, quando o leitor descobre que ele parou oito vezes para se aliviar e que tomou um chá de goiabeira numa estalagem em Cubatão para tentar conter a dor de barriga. Tanto as oito paradas quanto o chá estão documentados em relatos da época, mas é algo tão inusitado para um vulto histórico que até parece invenção.
DA –Daí que você pareceu se apegar a alguns outros acontecimentos marcantes, fartamente documentados, menos pitorescos e, até então, incontestáveis – a participação popular e heroica de alguns personagens, por exemplo, além da grandeza dos quase anônimos, habilmente convertida em ficção de qualidade em suas mãos. Em algum momento, você temeu ser tachado de ufanista, considerando que a Independência também está sujeita aos tais revisionismos?
VICTOR MASCARENHAS – Apesar de ser o recorte de um período histórico e ter como motor da ação os atos de vários personagens reais, o livro é uma obra de ficção. Meu trabalho como escritor foi atuar nas lacunas deixadas pelos documentos históricos, mantendo a coerência com os fatos. Os personagens e acontecimentos são narrados sob o ponto de vista mais humano possível, o que afasta qualquer leitura ufanista ou heroica ao apresentar razões bem pouco nobres para atos que sempre nos foram apresentados como algo grandioso. O que melhor exemplifica como o livro foi construído é a história da viagem dos mensageiros, que é o eixo central da trama. O único registro sobre ela é que durou cinco dias, que era menos da metade do tempo usual. Esse dado, somado ao fato deles irem sozinhos e sem uma escolta, já mostra que havia uma urgência e uma tentativa de passar despercebidos, o que já remete a uma missão secreta. O clima belicoso entre defensores de Portugal e da Independência adiciona perigo à receita e os relatos da mesma viagem, feita por D. Pedro semanas antes e que foi fartamente documentada, serviu de roteiro para a jornada dos mensageiros, assim como o impacto da passagem do príncipe por várias cidades forneceu as histórias que eles foram ouvindo pelo caminho. Esse mecanismo que cria situações fictícias a partir de fatos e personagens reais está presente no livro todo.
DA – Em algumas entrevistas, você já falou que recorreu a outros livros para trabalhar a linguagem dos personagens. E essa pesquisa pareceu extrapolar um pouco a linguagem em si, influenciando também a técnica usada na sua escrita. Dessa forma, podemos dizer que seu livro possui também algumas características clássicas do folhetim, sem, contudo, perder a complexidade comum ao romance, ainda mais sendo o seu um romance histórico e fiel ao rigor dos fatos ocorridos?
VICTOR MASCARENHAS – A questão da linguagem dos personagens foi um grande desafio. Não podia construir os diálogos com o português contemporâneo e nem escrever como se falava 200 anos atrás, sob o risco de tornar o livro chato ou até incompreensível para o leitor. A solução que encontrei foi recorrer à literatura do século XIX em busca de expressões, palavras, gestos e comportamentos que ajudassem a criar uma linguagem estilizada para os personagens, que fosse crível como o português falado há 200 anos e compreensível hoje. Nessa pesquisa, acabei por revisitar vários clássicos da literatura brasileira que foram publicados em formato de folhetim, um formato que casaria perfeitamente com a estrutura do “Sete dias em setembro”, que é dividido em sete partes, uma para cada dia entre 2 e 8 de setembro de 1822. Então, esse ritmo de folhetim foi algo que a estrutura do livro já impunha de certa forma e que utilizei de forma estilizada, como fiz com a linguagem, para que o leitor tivesse a experiência de curtir a leitura como se estivesse na época dos eventos do livro, participando daquilo tudo.
DA – Essa pesquisa deve ter ajudado também na construção dos protagonistas, Bregaro e Cordeiro, imagino. Já que sobre eles pouquíssimos registros foram encontrados por você em suas investigações.
VICTOR MASCARENHAS – Tudo que encontrei na pesquisa sobre os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro foi que o primeiro era oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo era major. Ou seja: eram personagens reais, mas suas biografias eram páginas em branco, o que abria espaço para a ficção. Como o ambiente da época estava polarizado entre liberais defensores da independência de um lado e absolutistas defensores de Portugal do outro, tive a ideia de colocá-los em lados ideológicos opostos. Bregaro, por ter um emprego no palácio e ser mais próximo da corte, pendia para o lado liberal e, como o exército era majoritariamente leal a Portugal, o militar Cordeiro seria um absolutista contra a Independência e um moralista que não gostava de D. Pedro pelo seu comportamento que desrespeitava a “moral e a família”. Essas diferenças entre eles criaram um conflito que permitiu dar maior profundidade aos personagens e também abriram espaço para estabelecer um paralelo com a polarização que vivemos no presente, dando um tom contemporâneo ao livro. A viagem da dupla, que vai descobrindo mais sobre o Brasil, sendo impactada pelas notícias e vendo o cenário se alterando ao redor deles, também se assemelha à clássica Jornada do Herói e serve de metáfora para a própria formação do nosso país que, aos trancos e barrancos, vai se entendendo e se ajeitando como pode para seguir em frente.
DA –Aliás, isso fica bem evidente no decorrer do livro: os personagens vão mudando diante dos conflitos e das descobertas ao longo dessa “jornada de heróis” (já pedindo perdão ao espírito do Campbell pelo trocadilho). Outra coisa é a aparição de alguns personagens, como o Baltazar por exemplo. Creio que sua aparição carrega um forte significado.
VICTOR MASCARENHAS – Baltazar é um dos personagens fictícios do livro e tem um papel fundamental na trama. Ele é um ex-escravizado que trabalha como ferreiro e auxilia Bregaro e Cordeiro numa das paradas da viagem em que eles são atacados por militares contrários à Independência. A construção do personagem traz algo de mítico e místico para a história. Baltazar é um trabalhador altivo e um homem de fé, que traz na sua religiosidade uma marca genuinamente brasileira: o sincretismo religioso do candomblé. Baltazar entra na história para simbolizar o papel do povo brasileiro no processo da Independência, que foi para o campo de batalha em vários pontos do país e conseguiu derrotar um exército organizado e profissional, como era o português. O que veio depois disso pode não ter sido grandes coisas, mas o processo da Independência foi uma grande conquista.
Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela
DA – A atitude do Baltazar tem muito de coragem e nobreza, decerto. Mas o fato de ele ter sido libertado a pedido do D. Pedro não tiraria um pouco da beleza dessa metáfora, na medida em que, dessa forma, me pareceu algo concedido e não conquistado? Ou isso também foi intencional. Um tipo de simbolismo a nos mostrar que a liberdade sempre passou pelas decisões e conveniências de um governo ou de um Estado?
VICTOR MASCARENHAS – Há duas abordagens para responder essa questão. A primeira é que o ato de D. Pedro interceder para conceder a alforria a Baltazar entrou no livro para reforçar a informação histórica de que Pedro era contrário à escravidão. Há vários exemplos e citações sobre isso no livro, como a informação que ele concedeu alforria e terras para escravizados que viviam nas propriedades reais ou a transcrição de uma frase em que ele diz: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”, por exemplo. Infelizmente, o fim da escravidão, que também era defendido por José Bonifácio, não veio com a Independência e esperou muitas décadas para ocorrer, mas como o meu livro termina antes mesmo da entronização de D. Pedro, acabo não abordando essa questão, embora deixe pistas sobre o que viria pela frente. A outra abordagem – sobre a liberdade passar por decisões e conveniências de um governo ou de um Estado – é mais pragmática. Há 200 anos, a única maneira de um escravizado ser libertado era se o seu proprietário concedesse a sua liberdade, assim como a única maneira do Brasil se emancipar de Portugal era apostar suas fichas em D. Pedro. A metáfora pode até perder um pouco da sua beleza com essa leitura que você aponta, mas era a realidade que o Brasil vivia naquela época e, mesmo sendo uma obra de ficção, não seria verossímil explicar o fato de Baltazar ser um homem livre de outra maneira.
DA – Seus livros anteriores prezam por temáticas mais, contemporâneas, digamos. E você já disse algumas vezes que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Considerando que o seu primeiro foi no ano de 2008, e que os seguintes mantiveram essa linha “urbana”, pergunto: por que só tanto tempo depois você resolveu trabalhar nesse romance histórico e por que a escolha por esse tema?
VICTOR MASCARENHAS – A ideia do “Sete dias em setembro” é decorrente da minha obsessão por tentar entender o Brasil, o que me faz ser um leitor compulsivo de livros de história, ciência política, sociologia e o que me passar pela frente e possa ajudar. Cheguei a iniciar a pesquisa para o livro por volta de 2010, mas a história era um pouco diferente. O que me fez parar foram as dificuldades do processo, que exigia muito tempo, dedicação, pesquisa e uma maturidade que talvez eu não tivesse naquele momento. Sobre essa pegada mais urbana, acho que isso está mais forte nos meus livros de contos (“Cafeína”, “A insuportável família feliz” e “Um certo mal-estar”) do que nas narrativas mais longas, onde acabei construindo uma trajetória mais heterogênea. Meu primeiro romance, o “Xing ling”, é uma ficção científica distópica e meio farsesca, onde uma empresa chinesa compra o centro histórico de Salvador para fazer um parque temático. O segundo, “O som do tempo passando”, é mais intimista e se passa praticamente todo numa oficina onde uma banda de quarentões se reúne para tocar, alternando com flashbacks da vida dos personagens. Por fim, veio o “Sete dias em setembro”, que teve dois gatilhos fundamentais para ser escrito: o aniversário dos 200 anos da Independência em 2022, que forneceu o prazo, e a pandemia, que me trancou em casa e deu o tempo necessário para a pesquisa e a escrita.
DA –Agora, gostaria que você nos falasse sobre projetos e planos futuros: o que podemos esperar do escritor e/ou do roteirista (incluindo audiovisual e quadrinhos) Victor Mascarenhas?
VICTOR MASCARENHAS – Quero seguir trabalhando o “Sete dias em setembro” para levar o livro para mais pessoas, aproximar a obra dos estudantes e tentar ajudar a pensar mais sobre o Brasil. Outro objetivo é retomar projetos audiovisuais que foram interrompidos pelo governo anterior, que praticamente parou tudo no setor, e também começar a trabalhar em novos. Para a literatura, tenho uns contos na gaveta e muitas ideias rabiscadas que podem virar livro em algum momento nos próximos anos. A ideia é seguir escrevendo sempre.
Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.
Mirar as coisas diante das visões que se avizinham: eis uma das características do universo criativo daqueles que se dedicam a representar imageticamente o mundo. Ou termo melhor seria o de que artistas nos apresentam a multiplicidade de fenômenos mundanos? Impasses terminológicos à parte, já nos é dado saber que não saímos os mesmos diante da experiência que nos revela signos capazes de trazer à baila horizontes pautados na matéria da vida que testemunhamos incessantemente.
Então, o gosto pelas manifestações embotadas de rotina não nos mostra a inércia dos dias. Pelo contrário, faz com que vislumbremos em tais epifanias recortes marcantes da existência. E é esse olhar humano carregado de sutilezas e atento a detalhes singulares quem pode fazer a diferença no fértil terreno artístico.
De todo o dito acima, arrisco que a produção de uma artista como Giovanna Gonzaga, paulista de nascimento e hoje radicada em Curitiba, seja porta-voz dessa noção um tanto mais atenta aos pormenores dos cenários da vida. Assinando seus trabalhos como Zô, que é como prefere ser chamada, essa artífice das imagens demonstra que é possível reter nuances do mundo em que habitamos através de escolhas confessadamente atravessadas por certa dose de encantamento.
E Zô revela que esse olhar que prima por tal encantamento busca nas paisagens do dia a dia a potencialidade encerrada nas expressões marcadas pelo anonimato. Daí que a face oculta dos agentes que fiam o tecido dos dias ganha uma outra possibilidade, pois se desdobram em formas e cores dispostas a uma reconfiguração das cartografias humanas. Dizer isso é reconhecer que há um sem fim de alternativas delineadas pelo traçado comum da vida, mas que se mostram através de perspectivas diferenciadas, denotando sentidos peculiares de abordagem.
Arte: Zô
A arte de Zô aposta na dose agigantada de distorção das formas, com criaturas com seus corpos alongados e na representação difusa dos espaços e ambientes. Diga-se de passagem, também o uso das cores aparece aqui conjugado a essa noção multiforme e não convencional da vida, pois tal predileção criativa aponta sobretudo para a ênfase que precisa ser dada a certos clamores existenciais.
Outro importante componente do trabalho da artista é sua inclinação para o território do fantástico, inclusive engendrando contornos, seres e cenários muito típicos daquilo que habita as entranhas do extraordinário. Com isso, Zô nos prova que é possível lançar lentes de aumento sobre a realidade, subvertendo, no bailado insubmisso das formas, qualquer lógica que tente limitar as alternativas de se flagrar a vida.
Entre gravuras, animações, pinturas, tatuagens e arte sequencial, Zô desfila toda a multiplicidade de suportes sobre os quais estão apoiados seus caminhos artísticos. E esse cardápio de opções variadas diz muito sobre a capacidade da artista em poder fundar mundos no mundo, descortinando predileções imagéticas que transbordam doses de intensidade. Sua voz, antes de mais nada, se faz sentir pelo teor abundante através do qual as criações recaem. Na interface profusa entre seres, lugares e objetos, a arte aqui está posicionada como retratadora do gesto espantado que nos constitui.
Arte: Zô
* A arte de Zô é parte integrante da galeria e dos textos da 153ª Leva
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
um homem é preso
arrastando crânios nas ruas de belo horizonte
errantes quatro crânios humanos amarrados
numa corda de varal azul
o homem andava pelo bairro da saudade à luz do dia
no inverno mais quente da capital mineira
o homem preso em flagrante está
à disposição da justiça
os crânios
foram recolhidos
dizem os jornais
***
engrenagem
para Flávia Péret
ela amarela quando dia quando tarde quase noite de repente. escuro quase depois escuro total. de noite caldo grosso sono forte. azul claro ainda sono ainda leite café pão café. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas nas cadeiras pescoço dor. ela amarela tão forte o sol muito forte mão na testa suor. de repente chuva muita água a rua cheia de poças sombrinhas guarda-chuvas. esbarrões muitos esbarrões pisões tropeções. sapato molhado fila no mercado almoço atrasado. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas cadeira velha o chefe. tarde amarela ela tão cansaço. a rua cheia ônibus cheios pessoas cheias dessa vida. azul quase escuro ela quase forte ainda respiro sapato molhado ainda gato no telhado suspiro. todo dia todo dia. gato cinza bobo pra dentro gato pra dentro. azul escuro quase noite depois noite quase alta caldo grosso cama corpo esticado exausto sem dormir.
***
Inventário
parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
soberba
dobradiça
ciúme
remova as películas de proteção
puxador com parafuso philips, quarenta
os nervos cardíacos formam um corpo neural com quarenta mil neurônios
vai me matar
a medula espinhal comanda os atos involuntários, eu obedeço
abaixo cedo sofro vergo
sistema nervoso autônomo
autômato
ele me esmurra na cara
me atira ao chão
chuta barriga pernas costas
verifique todos os componentes
eu tenho dor
parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
roscas
aorta arritmia válvula batimento martelo
meu coração vai parar de bater
bate em média oitenta vezes por minuto
quatro vezes mais quando me assusto
eu me assusto o tempo todo.
me assusto com o ar que passa gentil, eu desconfio
tenho dor
metros de conduíte
rejunte rebite de alumínio. dejeto
eu me ajeito me ajeito não há
desisto verifique todos os componentes
prego telheiro, quarenta
parafuso atarraxante, quarenta
remova as películas de proteção
ele vai me esmurrar de novo
autômato
rejunte rebite de alumínio
rejeito
***
plantei uma cebola envelhecida
a descobri
no fundo da gaveta na geladeira
numa limpeza feita entre reuniões
o tempo passado
tão rápido
a cebola velha babada
no fundo da gaveta tinha raízes enormes
***
em gavetas não se morre de frio
moramos em gavetas
você tem razão, wislawa
gavetas com divisórias
mas veja há teto
e o vento circula quando deixamos
as janelas abertas
também há banheiros
e podemos nos limpar
morei em espaços
de engenharia primária
ou negligenciada
construções planejadas
por quem nunca habitaria
um quadrado de poucos
metros divididos
em quadrados menores
de tamanhos diferentes
ali também havia teto
e banheiro e janelas
que eram fechadas no frio
um lar com sol e afeto
encanamento e telefone
hoje o quadrado é um pouco maior
com recortes internos mais ou menos diversos
uma gaveta divertida em família
que chamo lar e assim ele se faz
caixas de papelão
não são gavetas
cobertores rotos
tampouco salvam
o sol quando vem
não é belo queima
***
dulce veiga meu bem, fala comigo
para as mulheres que eu amo
ninguém contou para o sol
que hoje é sábado e não vale a pena
queimar o quarto a tarde toda
estou empenhada em não arder mais
por enquanto
deixei o pó nos móveis
o chão todo marcado
roupa de cama na máquina
fiquei de pijama velho
aquele que não usava mais
com medo de ser internada
Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães lançou em 2024 ”Não quero morrer enquanto durmo” (editora Urutau). Autora dos livros “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando para o inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). É coautora de “Aleatórias” (plaquete ilustrada por Sofia Nabuco, Leme, 2022). Tem poemas e contos em revistas como Rascunho, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Diversos Afins, Ruído Manifesto, Acrobata, Mirada, Germina e Laudelinas. Participa da antologia “Não há nada mais parecido a um fascista que um burguês assustado” (Hecatombe/2020).