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140ª Leva - 07/2020 Galeria

Foto: Cristiano Xavier

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Foto: Cristiano Xavier

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140ª Leva - 07/2020 Galeria

Foto: Cristiano Xavier

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139ª Leva - 06/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Nestes tempos de relativo confinamento, muitos de nós percebemos o quanto a arte é fundamental. E ela não é tão somente a preenchedora dos instantes envoltos no ócio, mas a que tende a chacoalhar a rotina dos dias, propondo-nos um sem fim de caminhos. De todo o repertório possível, há mergulhos que nos impactam com mais intensidade do que outros. Seja na literatura, cinema, música, teatro ou artes visuais, para ficar nalguns exemplos, há sempre distintas chances de assimilação dos conteúdos. Mesmo que algumas dessas fruições não representem qualquer tipo de transformação do sujeito ou de sua realidade, ainda assim este pode ser atravessado pelos temas dispostos bem diante de seus sentidos. As obras também são instrumentos de comunicação que nos falam do quanto o estar no mundo significa muito. Quantos de nós não se sentem, em algum momento da vida, representados por determinadas narrativas artísticas? Certamente, há tanto processos naturais de identificação com obras específicas quanto o contrário. Sentir-se parte de algo, ainda que no campo ficcional, já parece nos dizer um pouco sobre o que somos. Pensando desse modo, o artista é também uma espécie de porta-voz de muitos ímpetos inconfessáveis, pois um dia talvez tenha faltado coragem a alguém de exprimi-los. Daí, percebemos o fio tênue entre dois mundos, o interno e o externo, através do qual a arte encontra seus deslizamentos. Dizer o indizível, provocar, balançar as fundações, desacomodar certezas, eis algumas investidas que podem muito bem não corresponder a um mero efeito retórico. E assim as estruturas vão se delineando e movimentando narrativas que nos atraem também por seus apelos inusitados. Nesse sentido, observamos, por exemplo, a capacidade que os poemas de gente como Alexandre Pilati, Helena Arruda, Neuzamaria Kerner, Juliana Sbrito, Vanessa Teodoro Trajano e Jorge Lucio de Campos têm de atrair nossas atenções. Quando o tema é discorrer sobre certas veredas literárias na contemporaneidade, a entrevista com o escritor Rodrigo Melo nos sugere perspectivas e reflexões bastante interessantes. É Vivian Pizzinga quem nos ciceroneia pelos caminhos de “haverá festa com o que restar”, livro de poemas de Francisco Mallmann. E há também espaço para as pulsações intensas nos contos de Adriano B. Espíndola Santos e Enio Jelihovschi. No nosso caderno de cinema, Guilherme Preger traz à tona algumas discussões sobre o instigante filme sueco “Border”.  Rans Spectro relembra o impacto causado por “Sobrevivendo no Inferno”, disco antológico dos Racionais MC’s. Por seu curso, Gustavo Rios nos oferta seus agudos olhares para “Bartolomeu”, romance de Bruno Ribeiro. Por todos os cantos de nossa mais nova edição, fomos brindados com uma exposição dos desenhos de Fernanda Bienhachewski, que tem como um de seus temas centrais as delicadas nuances do corpo. E assim se firma a nossa 139ª Leva, repleta de caminhos e acolhidas. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Neuzamaria Kerner

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

ESCREVIVENDO

 

Escrever e viver
se misturam
quando os olhos se apuram
para ver o traçado da vida.

Que o meu sentido veja
o percurso das veias
que levam sangue e sentimento
na vida em circulação

Que eu veja e seja
percurso e veia então

Neste percurso inscrito na alma
eu me inscrevo na vida
e sigo

Escrevo

Escrever é fazer autópsia
dos vivos sentimentos
que borbulham em cada passo
veia, sentido e laço
no traço dos meus caminhos

 

 

 

***

 

 

 

VIRULÊNCIA

 

Um dia
nossos olhos se abriram
e não estávamos sós

Prosseguimos desbravando

Noutro dia
como pedras atritadas
palavras começaram um incêndio

Prosseguimos debatendo

De repente
nos vimos apartados
olhos tapados contra o sol
desabraços legislados
obrigados num exílio
que dá dó

Estamos morrendo

 

 

 

***

 

 

 

FÚRIA

 

A pior fúria é a silenciosa
A fúria disfarçada de um
Atrai a fúria oculta de outro
Nos barulhos a fúria tapa ouvidos
Nos silêncios a fúria age
Pressente oportunidades
Embaralha sentimentos
Finge felicidades
Permanece má passageira
No colo que embala a raiva.

 

 

 

***

 

 

 

SÚPLICA POR UM INCÊNDIO

 

Em verdade
nunca fui um vulcão
em permanente erupção.

Em aparência
sempre soltei labaredas de vida
para viver as necessidades.

No imo
busquei o sentido para continuar
meu sentido interior.

O que há no centro dos ossos nossos
escapa aos olhos do mundo.

Mas meus passos pararam
quando descobri que do nada
só têm saído nadas.

Uma pequena fagulha
pode reacender uma chama
e eu preciso me queimar
nem tanto nem pouco
como sempre foi.

Dá-me um fósforo, ó meu Pai!
Um pequeno incêndio
já vale uma vida.

 

 

 

***

 

 

 

SITIADOS

 

Transito na transição
mas não imune
aos vírus que enrugam minha cara

Neste trânsito que penso infindo
outros também transitam
com suas carquilhas expostas

De costas os vírus
metáforas do horror
riem discórdias
matando o espírito crítico
ou seja lá que espírito for

Na dor de onde vinda não sei
pobre cães ladram e atacam
as caravanas que passam

 

 

 

***

 

 

 

PONTUALIDADES

 

Eu me divido em minutos
o tempo em eternidades.
Eu sempre gerundiando
o tempo imperativista.
Eu vivendo de atrasos
o tempo de nunca mais.
Eu compasso de esperas
o tempo sempre passando.
Eu cheia de reticências…
o tempo de pontos finais.

 

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Gramofone

Gramofone

Por Rans Spectro

 

RACIONAIS MC’S – SOBREVIVENDO NO INFERNO

 

 

 O ano era 1997. Enquanto o mundo se distraía tragicamente com o desenrolar da morte de Lady Di, vítima da insanidade midiática ao extremo, e com a trama científica da clonagem da ovelha Dolly, o Brasil seguia sob as vacilantes rédeas neoliberais da era FHC. Na TV, no mesmo canal onde Zé Ramalho cantava as agruras da “Vida de Gado” na abertura da novela, o ainda semi grisalho Bonner noticiava extasiado em rede nacional a prisão da banda Planet Hemp.

Grande ano da música brasileira, com lançamentos de discos que ajudariam a notabilizar ainda mais os produtivos anos 90, e imprimiria definitivamente suas digitais na subjetiva calçada da fama nacional. O citado grupo de Marcelo D2, antes de ir preso por falar de maconha, agraciou o mercado com o fantástico Os Cães Ladram Mas a Caravana não Para. O ano também contaria com pedradas, a exemplo do primeiro cd do Charlie Brown, e o Quebra-Cabeças, sucesso estrondoso e pop de Gabriel o Pensador. Sem esquecer de mencionar também o Lapadas do Povo, quarto disco de estúdio da melhor fase dos Raimundos.

Mas foi em dezembro, precisamente no dia 20, poucos dias antes do Natal, que fomos presenteados com um dos discos mais relevantes da música negra mundial, 14° mais importante do Brasil, segundo ranking da Rolling Stone, e, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis lançamentos do gênero Rap de todos os tempos no país e no mundo. Sim, ele mesmo, o quarto disco dos Racionais MC’s, o histórico Sobrevivendo no Inferno. Obra que extrapola o universo do hip-hop, flerta com fotografia, literatura e jornalismo de denúncia. Mais do que um disco, é um verdadeiro manifesto político da periferia, álbum que colocou merecidamente em definitivo os Racionais no panteão sagrado dos grandes nomes da música.

Em maio de 2018, o álbum foi incluso na lista de leitura obrigatória para o vestibular de 2020 da Unicamp. Meses depois, a obra virou livro, lançado pela Companhia das Letras.

O Sobrevivendo no Inferno é um divisor de águas não só na carreira dos Racionais, mas para o rap nacional. O grupo, que seguia uma trajetória ascendente na qualidade dos seus lançamentos, incluindo o primeiro grande disco independente de sucesso (Raio X do Brasil, lançado em 1994), ajudou a impetrar no imaginário coletivo das periferias brasileiras narrativas complexas e reais, que dialogavam assustadoramente com a realidade. Narrativas essas com notáveis teores de reflexões sociais, críticas ao sistema e a explicitação de realidades não presentes para a maioria dos brasileiros: o dia a dia do sistema carcerário.

 

Foto: divulgação
Racionais MC’s / Foto: divulgação

 

Além da evolução das letras e narrativas, a sofisticação da estética da capa e das bases chamou a atenção, deixando claro que o grupo não passaria despercebido perante outros setores da sociedade até então não alcançados pelas narrativas da periferia do rap.

O disco é iniciado com uma bela versão de “Jorge de Capadócia”, oração de guarnição dos adeptos de São Jorge, imortalizada pelo homônimo cantor de sobrenome Ben. Na sequência, o interlude “Gênesis” e, após, a faixa “Capítulo 4, Versículo 2”, um verdadeiro soco no estômago da sociedade brasileira, até então nunca “afrontada” de maneira a se deparar com o formato musical duro e sofisticado do que o grupo define por “efeito colateral que seu sistema fez”. A música conta com a participação do ex-goleiro do Santos, e filho de Pelé, Edinho.

Também são destaques no disco as faixas “Tô ouvindo alguém me chamar”, que, a meu ver, é um curta-metragem no formato rap, além da incrível “Diário de um detento”, que alçou os Racionais a porta vozes e interlocutores das parcelas excluídas e marginalizadas da sociedade e ganhou um histórico videoclipe.  Surgiam os primeiros ídolos musicais da periferia com conteúdo altamente politizado recheado de ferrenhas críticas sociais, totalmente independentes e sem depender dos grandes meios de comunicação. Um fenômeno da indústria cultural sem precedentes até então no Brasil.

Segundo informações divulgadas pelo Racionais, o disco Sobrevivendo no Inferno vendeu cerca de 1 milhão e 500 mil cópias. A metade pirata.

 

 

 

Rans Spectro é Randolpho Segundo Santos Gomes. MC, sócio fundador da empresa OQuadro Corporation e jornalista.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Juliana SBrito

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Pedra tumular 

 

O silêncio também pode ser pedra
recusa, ponto final.
Encerra a impossibilidade do pouco que é possível
do pouco, do mínimo, do íntimo
que nos é permitido.

É arma automática
Permanentemente acionada
Granada escondida à flor da pele
A matéria depois da bomba atômica

Até quando falarei sozinha?
Ficarei para sempre com o tiro no peito
Eternamente em exílio
Sob silêncio sepulcral?

 

 

 

***

 

 

 

Sob o microscópio

 

Seres fronteiriços
Em constante movimento
Abertos
Feridos
Cindidos
Em devir
Lacunares
Sempre estrangeiros

 

 

 

***

 

 

 

Diante do Umbral

 

Essa espera sujeitada
Que me força a aguardar
Por uma porta que se abra
É terrível e suicida

Arrombarei portas
Construirei janelas
Ou me entregarei
Ao espaço sem limites

Um muro pode servir
Um guardanapo sujo
Um post virtual
Ou mesmo o asfalto ensanguentado

Vital é circular
É dar luz
Ao que tenho a dizer
Forma visceral de existir

 

 

 

***

 

 

 

Gratuidade

 

Uma flor selvagem brotou no jardim
Declamou uma poesia para o Sol
Exalou um perfume sutil como uma borboleta
E se entregou para a primeira abelha que passou

 

 

 

***

 

 

 

Malabarista de uma perna só

 

Tropeço nas pedras soltas das certezas
Mergulho sem paraquedas nos abismos do sentir
Me agarrando kamikase na neblina
Inconsistente pratico nado sincronizado na fumaça
Me desfaço em mil pedaços
Fraturada até a raiz
Tombo vertiginosamente no chão
Como a pena daquele passarinho
Que ninguém notou
Soltou-se em pleno voo
Beijando o solo em pirueta

 

 

 

***

 

 

 

Recomendações

 

Exigem que eu justifique meu texto
Quanto devo recuar?
As margens me oprimem
Alinhar à direita ou à esquerda?
O centro me descabela
Me deixa ilegível
Quero a página em giro
Capa e contracapa em branco
Ou preto?
Romperei como Saramago
Ou Joyce na cabeça da Molly Bloom
Sem paradas para respirar
Abolirei as vírgulas
Ou inconsequente abusarei delas
Ignorarei o sublinhado vermelho
Que me grita: Há um erro!
Em minúsculas itálicas
Gravarei minha falta de estilo
Sem direito a revisões.
Salvar.
Imprimir.
Enviar.

 

Juliana Sbrito é baiana de Vitória da Conquista. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Professora. Coordenadora do Clube do Livro Um Dedin de Prosa e Poesia. Colabora com o site Crônicas de Categoria.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Border. Suécia/Dinamarca. 2018.

 

 

Obra que estreou no Festival de Cannes de 2018 e somente através das plataformas de vídeo por demanda chega ao grande público, Border (Gräns), de Ali Abbasi, é um filme sueco que causou debate e mal-estar por onde passou. Mas parece totalmente apropriado para os tempos pandêmicos em que a humanidade está submergida nos terrores de sua própria existência no planeta.

O filme trata da história de Tina (vivida pela atriz Eva Melander), uma policial alfandegária que trabalha num aeroporto da Suécia. O aspecto assombroso de Tina, ligeiramente andrógino, é devido a uma suposta “anomalia cromossômica”. Tina desenvolveu uma aptidão extraordinária de farejar o odor dos corpos e relacioná-los aos afetos das pessoas. Esse seu dom lhe é de valia em sua profissão, na qual Tina pode detectar, através do faro, a culpabilidade de possíveis criminosos que atravessam a alfândega, como, por exemplo, o caso de um viajante que carrega imagens pedófilas na memória de sua câmera fotográfica.  Esse reconhecimento permite à polícia desbaratar uma rede sueca de pedofilia.

Mas Tina falha absolutamente na identificação de Vore (vivido por Eero Milonoff), cujo aspecto é tão bizarro quanto o dela, mas que Tina acredita guardar algum segredo. Na verdade, Vore, que possui uma compleição masculina, é, na verdade, do sexo feminino, e a incapacidade da personagem protagonista de identificar seu sexo causa-lhe um grande constrangimento na revista. Por esse erro, e por uma secreta sintonia com Vore, Tina lhe oferece abrigo.

Marcada por sua silhueta bizarra, por uma atestada infertilidade, por cicatrizes no corpo, Tina apesar de tudo tenta estar integrada à sociedade: mora com um amigo, tem emprego, visita o pai habitualmente num asilo de idosos, tem a confiança dos colegas de trabalho que admiram e tiram proveito de seu “poder” paranormal. No entanto, a personagem está na “borda” da sociedade normal.

 

Foto: divulgação

 

O caráter limítrofe de Tina é o mesmo do filme de Ali Abbasi. Border é uma obra entre o fantástico e o realista. Saberemos que Tina e Vore são trolls, seres mitológicos das culturas eslava e celta. Os aspectos supostamente monstruosos de suas silhuetas são na verdade naturais. A monstruosidade é, portanto, questão de perspectiva. Efetivamente, Tina e Vore estão mais próximos da natureza do que estão os humanos. Se eles assustam os humanos e os cães domesticados, comunicam-se com raposas e outros animais selvagens de maneira mais direta. Estão muito mais em casa na floresta do que no meio da sociedade.

Border foi bastante criticado, no entanto, pelas cenas de sexo aberrante e pela crueldade. É preciso entender, no entanto, qual a função formal dessas cenas em relação à montagem cinematográfica. O filme apresenta dois mundos que seriam incompatíveis: o mundo dos humanos e o mundo dos trolls. O perspectivismo narrativo traz os dois pontos de vista e como eles parecem inconciliáveis: aquilo que é “natural” num dos lados da “fronteira” é não natural na outra e vice-versa. Aquilo que parece aberrante num dos lados surge como erótico no outro. Essa separação entre mundos, no entanto, é rompida (ou ultrapassada) de diversos modos. Daí, por exemplo, a metáfora “alfandegária” da profissão de Tina e sua participação profissional nessa exata “passagem”.

O espírito transgressivo do filme está justamente nos modos narrativos onde a separação entre mundos é violada. Tina é considerada “infértil” pelos padrões da sexualidade humana. Numa das cenas, o amigo de Tina quer transar com ela e é rejeitado. A questão básica é que Tina não sente desejo entre humanos. Sua infertilidade não é devido a uma anomalia genética como lhe dizem, mas porque ela não está em “casa” na sociedade humana. É Vore que conduzirá Tina a recuperar sua libido própria. Essa libido já estava transparente desde as primeiras cenas em que Tina se banha nua num lago das redondezas. Não havia nada de “errado” com a sexualidade da personagem. Ela só não a encontrava no lugar certo ou melhor: sua sexualidade não tinha “lugar” em sua vida a não ser quando estava sozinha na natureza.

A crueldade se dá em outro modo, dentro do comércio entre humanos e trolls. Ela antes liga do que afasta as duas espécies. Por um lado, há a própria crueldade “aberrante” da sociedade humana, na pedofilia, ou no especicídio, forma mais abrangente de tantos genocídios a que se dedica a espécie sapiens. De outro, há o ressentimento, que não é exclusividade também dos trolls, mas abunda em nossa sociedade. A crueldade é a matéria mesma da guerra e a guerra não deixa de ser um “intercurso” entre as sociedades.

 

Foto: divulgação

 

A guerra é ambígua entre acabar ou manter as fronteiras. Mas a guerra também pode ser infletida para dentro, o que significa que a fronteira é deslocada para o interior da própria sociedade humana. Se Tina hesita na sua relação com Vore é também por sua fidelidade ao trabalho, aos colegas, aos vizinhos, enfim à sociedade da qual faz parte. Em última análise, a decisão de Tina, de ordem ética, é um elemento de sua humanidade. A fronteira não está entre espécies ou entre grupos de indivíduos. A fronteira está no interior da própria individualidade. O nome dessa fronteira é subjetividade.

A potência de Border está na figuração da fronteira e sua transposição da narrativa interior para o ato cinematográfico propriamente dito. A fronteira dos gêneros, completamente transfigurada na representação dos sexos de Tina e Vore, se transplanta para a fronteira dos gêneros estilísticos: a do filme realista e a do filme fantástico. Como na história, o filme de Ali Abbasi cruza frequentemente a fronteira dos gêneros narrativos. É essa ultrapassagem que gera o efeito de choque apontado por tantos espectadores. Em algum momento da trama é revelado que na Finlândia há uma comunidade sobrevivente de trolls que vivem em liberdade. A comunidade é um “enclave” utópico livre de guerras e livre para o erotismo entre os iguais da espécie. A estranheza provocada por Border vem dessa opção estética de nunca apenas “sobrevoar” esses mundos acima de suas fronteiras; ao contrário, a opção da obra é fazer com que todo o filme seja uma habitação da fronteira. Não há nada além da fronteira, o que vale para os humanos e trolls, bem como para a demarcação entre fantasia e realidade: só existe o poder que emana de suas imagens. Além dessa fronteira há apenas a utopia.

 

 

 

 

Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vanessa Teodoro Trajano

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Mulher em partes

 

Eu não sou inteira
Sou feita de partes
Não todas juntas
Nem apartadas
Apenas somadas
Uma a uma.

Há partes minhas
Por aí soltas
E, quando eu as
encontrar
Perderei outras.

Partes, quantas partes?
Fazei de mim tudo
Que cada parte queira
Qualquer coisa
Menos inteira.

 

Mujer en partes

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

No soy entera
estoy hecha de partes
no todas juntas
ni lejanas
solamente sumadas
una a una.

Hay partes mías
por ahí sueltas
Y, cuándo yo las
encuentre
perderé otras.

¿Partes, cuántas partes?
haz de mi todo
lo que cada parte quiera
cualquier cosa
menos entera.

 

 

***

 

 

Puteiro

 

No puteiro da D. Eudóxia
é sempre meia noite
oportuna transição
entre os que nasceram tarde
e morreram ontem
sobretudo anteontem

Lá reside a mulher fatal
vermelho nos pés
vermelho no corpo
vermelho na alma
alma propositalmente fatalista
na mão um cigarro
na outra a bebida
a boca vermelha, ferida

Sugere o poema e o giz:
se te entrego minhas forças
sou louca, não trouxa
melhor ser infeliz
vestir verdade
sem roupa

Mas os dentes,
afiados na infantaria,
avisam:
cuidado com o sorriso
que ambientou desgraças
dele não se morre
por ele se mata.

 

Prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

En el prostíbulo de D. Eudóxia
es siempre media noche
oportuna transición
entre los que nacieron tarde
y murieron ayer
sobre todo anteayer

Allí reside la mujer fatal
rojo en los pies
rojo en el cuerpo
rojo en el alma
alma intencionalmente fatalista
en la mano un cigarrillo
en la otra la bebida
la boca roja, herida

Sugiere el poema y el lápiz:
si te entrego mis fuerzas
soy loca, no tonta
mejor ser infeliz
vestir la verdad
sin ropa

Pero los dientes,
afilados en la infantería,
advierten:
cuidado con la sonrisa
que alardeó desgracias
de él no se muere
por él se mata.

 

 

***

 

 

Etimologia de prostíbulo

 

Se ser meretriz ou leviana
É roubar o corpo e o bolso
De muitos homens
E não amá-los noutro amor
Que não for o da gana
Peço então que somente me chamem
Por esse nome que diz
Que uma mulher só pode ser feliz
Quando pela pura vaidade
Muitos corações ela engana.

 

Etimología de prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

Si ser prostituta o frívola
Es robar el cuerpo y el bolsillo
De muchos hombres
Y no amarlos en un amor
Que no sea el de la gana
Pido entonces que sólo me llamen
Por ese nombre que dice
Que una mujer sólo puede ser feliz
Cuando por pura vanidad
Muchos corazones engaña.

 

Vanessa Teodoro Trajano é natural de Teresina-Piauí e atualmente reside em em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Participou do projeto Arte da Palavra promovido pelo SESC em 2017, em que viajou por diversas cidades do Brasil como palestrante e oficineira, e do 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas na Colômbia em 2018. Possui ao total 10 publicações, entre antologias e obras individuais, as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012, contos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, romance). Ela não é mulher pra casar (2019) é o seu quarto livro.

 

Vanessa Teodoro Trajano es de Teresina-Piauí y actualmente vive en Brasília-DF. Alem de escritora, es profesora de lengua portuguesa con maestría en Estudios Literarios por la Universidad Federal del Piauí. Ha participado del proyecto Arte de la Palabra promovido por el SESC en 2017, viajando por diversas ciudades de Brasil como maestrante y tallerista, e del 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas en Colombia en 2018. Tiene, al total, 10 publicaciones, entre antologías y obras individuales, a ejemplo de Mulheres Incomuns (2012, cuentos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, novela). Ela não é mulher pra casar (2019) es su cuarto libro.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Enio Jelihovschi

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

A meia morte de Chico Cego

 

Chico cego viveu meia vida e meia morte, só foi inteiro quando morreu. Por isso mesmo durante toda sua meia vida conheceu a morte.

– Amanhã, morro.

Onofre e Herculano riram:

– Mas, como, Chico Cego?, disseram em uníssono.

– Não acordo mais, ou acordo morto. Acaba minha meia vida, já conheço bem o escuro.

A palavra escuro tinha um significado metafórico para ele, fora da realidade, pelo simples fato de que nascera cego e, sem nunca saber o que era luz, não tinha como comparar. Escuro para ele era um nome que tanto podia ser branco, colorido ou até luminoso. Durante a vida, em sonhos ou em grandes bebedeiras, brilhos espocaram pela sua mente, mas ele não tinha como descrever para si mesmo aquelas coisas na cabeça, por lhe faltarem as comparações, que na mente de uma pessoa não cega são corriqueiras. Seu mundo era tátil e sonoro, luz para ele era algo etéreo descrito por mera formalidade, por meio daqueles dois sentidos. Luz, cores, brilhos eram palavras sem sentido, usadas somente para melhor se comunicar com as pessoas “normais” do mundo.

Onofre e Herculano eram seus parceiros de bar, sempre bebendo e sempre conversando. Eles falavam do mundo da luz, das mulheres bonitas, o que Chico Cego entendia com as mãos. O que era uma mulher bonita?, ele perguntou uma vez. Os amigos se olharam entre risos. Mulher bonita tinha um corpo bem feito, um sorriso com dentinhos alvos, olhar distraído de donzela e rebolava ao andar. Como fazia Chico Cego para entender estas coisas com as mãos? Teria de tocar o traseiro de algumas e ir apalpando enquanto ela andava. Chico Cego então tocou o seu próprio e mexeu.

– Ah! Então isto é uma mulher bonita!

Uma vez perguntou à mãe, quando ainda criança, o que era a morte.

– A morte é a escuridão total.

– Mas, mãe, você me disse que o cego vive na escuridão porque não enxerga. Então eu estou morto.

– Não, meu filho, você tá vivo, é que você é cego.

Chico Cego não entendeu e desde então viveu convencido de que estava morto, ou melhor, meio morto. Hoje, sentiu, lá no fundo, que amanhã seria morto inteiro, deixaria a metade viva de lado. Para ele seria um ato normal, sem muitas consequências. Como foi que sentiu, não sabe explicar. Sentiu. Talvez, depois de beber alguns goles de uma cachaça, da boa, pudesse encontrar as palavras. Chico Cego sempre gostou dos goles, a cachaça fazia aparecer coisas na sua cabeça, seria isto luz? Os amigos descreviam coisas como chispas brancas, algo dourado como o sol, mas sol para ele era somente um calor que queimava a cabeça e ardia as costas. Ele chamava isto de coisas, não conseguia encontrar outras palavras e por isto continuaram coisas. Eram as coisas desconhecidas que apareciam na cabeça, depois dos goles.

– Chico, o que eu quero saber é: como você vai morrer? Você vai se matar, vai se jogar em cima de uma faca ou na frente do trem, ou então vai tomar veneno? Pois é, como? Ninguém morre só porque quer, ainda mais com uma saúde de ferro como a sua.

Herculano perguntou, enquanto coçava o cabelo ralo e mordia um dedo num tique nervoso. Os dois amigos se olharam, Chico Cego sentiu os olhares e sorriu. Como ele podia sentir olhares sendo cego? Dizia ele que isto era a visão do cego.

– Eu não sei como vai morrer o resto que me falta, disse ele, quem sabe um carro passa por cima de mim, ou um avião cai em cima de mim, mas não precisa muito, só falta um pedacinho. Quem sabe encontro a Francisca? A desgraçada me deixou, a mulher mais bonita do mundo. Um dia ela disse que me olhou nos olhos e perdeu a vontade de homem. O que é isso, “olhar nos olhos”? Eu não tenho olho, tenho uma coisa na cara, mas não enxergo, então não tenho olho. Será que ela morreu? Quem perde a vontade morre. Eu não perdi a vontade, mas, mesmo assim, vou morrer. E eu acho que, morto, encontro ela.

Onofre e Herculano se lembraram da Francisca. Foram eles que a apresentaram a Chico Cego, era a mulher mais feia da cidade, tinha o rosto torcido, gordíssima, falava pelos cotovelos, condenada a viver sozinha. Chico Cego a conheceu com as mãos, apalpou, correu por todos os cantos e recantos e assim foi definindo seu conceito de mulher bonita. Quando terminou, registrou na mente o que seria a mulher mais bonita do mundo. Os dois amigos também sabiam que Francisca não aguentou a forma de Chico Cego olhar para ela com as mãos, ele a tocava tanto, rebuscava por todos os seus recônditos, não parava, dizia que estava olhando, desfrutando da sua beleza. Assim eu enlouqueço, desabafou ela um dia. No outro, foi embora.

No dia seguinte ao anúncio, Chico Cego morreu. Foi atingido por um raio num dia de sol. Ninguém sabe como. Parece que havia uma nuvem esperando por ele na curva da estrada. Pouco antes de chegar em casa, ela avisou com dois trovões e, logo após, descarregou um tiro certeiro bem na cabeça. Disseram que, antes de morrer, ele gritou: luz!! Os amigos comentaram que neste segundo antes da morte, enquanto o raio penetrava pelo crânio adentro, ele viu. Eles então levantaram os copos de cerveja e fizeram um brinde ao amigo que, finalmente, conheceu a luz.

 

Enio Jelihovschi nasceu e cresceu em Belo Horizonte. Aprendeu a gostar de livros com o irmão mais velho com o qual dividia o quarto e as querelas. Com ele também aprendeu a escrever e que escrever bem depende de talento e muita labuta. Atualmente é professor da Universidade Estadual de Santa Cruz, onde gosta imensamente do trabalho que faz. Vive em Ilhéus, a qual considera a cidade mais charmosa de todas que conheceu. Publicou o livro de contos “Assassinos de Aluguel” (Editus – Editora da UESC, 2013).