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125ª Leva - 03/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É relevante considerar que o trabalho de um artista ganha sentido mais vigoroso quando aparece conectado às questões de seu tempo. Na verdade, estamos a falar aqui da percepção que a arte evoca quando, imbuídos da consciência de seu lugar no mundo, aqueles que labutam com a cultura conseguem comunicar o conteúdo de seu ofício de modo a refletir aspectos comuns a toda uma coletividade. De toda sorte, falar ao mundo não pode ser uma mera atitude retórica, um jogo de cena a representar algo apenas em sua superfície e aparência. Requer propriedade para além de um discurso que reflita a vivência de quem o profere.

Mas dizer as coisas todas relatadas acima é apenas um indicativo para chegar a um ponto desejado, ou seja, abrir caminho para apresentar um projeto artístico que se converte em música da melhor qualidade. É dessa forma que a trajetória de uma banda como OQuadro pode ser referenciada. Para quem ainda não conhece, importa mencionar que estamos diante de um grupo com mais de 20 anos de estrada marcados, sobretudo, pelas vias do rap. E não é apenas isso. Esse rap praticado pelo grupo surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo dentro de um contínuo processo de diálogo com outros ritmos, principalmente os de influência africana e latina.

A junção de Jef Rodriguez, Ricô, Victor Santana, Freeza, Jahgga, Rans, Dalua e Mangaio foi capaz de produzir um todo orgânico que hoje melhor define os caminhos do grupo. Com dois discos na bagagem, os baianos de OQuadro parecem ter encontrado um equilíbrio que, na verdade, demonstra ser um misto de independência, maturidade e engajamento. Some-se a isso o fato de que suas produções, além de expressarem o resultado de um cuidadoso e coletivo processo de criação, derivam de um amplo diálogo com parceiros valiosos na estrada musical.

Na entrevista que agora segue, Jef Rodriguez, Victor Santana e Ricô falam um pouco sobre os percursos da banda em meio a uma jornada que mescla raízes, pesquisa musical, identidade e visões de mundo. Também por aqui o foco está nos desdobramentos trazidos pelo segundo disco do grupo, Nêgo Roque, lançado em 2017. O álbum, que já foi alvo de uma matéria aqui na revista, representa todo um momento de escolhas, influências e percepções dos músicos em torno daquilo que hoje melhor define sua trajetória. Por essas e outras vias, nada mais apropriado do que conferir atenção às falas de tais artistas.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

DA – Nêgo Roque é um trabalho que mantém aceso todo um potencial discursivo que já se tornou uma marca forte de OQuadro. Suas letras são janelas de lucidez abertas para o mundo. O olhar que não acomoda coisas é o que faz permanecer vivos os caminhos da banda?

JEF RODRIGUEZ – Sim. Existe um filtro, um processo seletivo na confecção das letras e das músicas que vêm marcando nossa caminhada até então. Não queremos que essa seleção pareça um limite, pelo contrário, é uma escolha. A pretensão é ampliar ainda mais esse raio temático para além das questões sociais. Afinal, existem muitas coisas a serem ditas. Mas existe um fio condutor, um nível de relevância que não queremos perder de vista, tanto na forma quanto no conteúdo.

 

DA – Uma das características principais da banda é o modo como as criações são pensadas e executadas coletivamente. Isso é perceptível, sobretudo no novo álbum. Qual é o maior desafio de se chegar a um resultado orgânico quando há uma pluralidade de mentes convivendo?

VICTOR SANTANA – Na verdade, não tem muito desafio. Podemos até demorar para chegar no resultado que seja bom para todo mundo, que todos concordem, mas é fácil. Uns chegam com um rif, um arranjo de guitarra, baixo, teclado, bateria ou percussão e isso vai se juntando a letras ou à ideia de algum refrão já cantado; outros chegam com um tema ou ideia de letra. Vai se juntando tudo. Todo mundo muito atento à musicalidade tanto moderna quanto do próprio grupo. E chega a um resultado fácil. O maior desafio é compor. O rif pronto, o beat pronto, a letra pronta, é só juntar. Agradar a todos também não é muito difícil. Esse disco novo foi fácil de ser feito. A gente ficou só dez dias juntos, sendo que compomos dezessete músicas nesse período. Nunca tínhamos ficado reunidos antes para poder criar essas músicas. Compomos tudo quase que do zero.

 

DA – O novo disco traz um mergulho numa perspectiva, digamos assim, mais voltada para o experimental. De que modo a escolha dos arranjos refletiu essa aposta criativa? 

RICÔ – Acho que OQuadro sempre foi experimental. Teve um momento em que criamos até um subtítulo pra gente, que era o “clube de música experimental”, pois já flertávamos com muitas outras coisas em termos de sonoridades, referências de artes plásticas, cinema etc. Então, estávamos sempre antenados com muita coisa, com estilos musicais que não fossem apenas o rap, até pra poder fazer um rap diferente. Ao mesmo tempo, tudo fluía muito natural e espontâneo. Às vezes, eu chegava com uma base pronta, daí outro complementava. Nesse último disco, acabei chegando com mais força no sentido de preparar bem as coisas antes, de vir com arranjos mais prontos, mas apontando pra questão da tecnologia que a gente não teve no primeiro. Na verdade, a gente já queria ter, mas, por algum motivo, escolhas e recursos, naquele momento ficamos mais no artesanal. Depois decidimos flertar mesmo com o eletrônico de forma mais sincera do que acreditamos, ter essas texturas, buscar essa coisa dos sintetizadores, das frequências ultra graves, enfim, e usar o rock como atitude mais do que distorção. Tem distorção no disco, mas também há várias frequências que pra gente são rock. E a postura, o nome do disco, são várias coisas que levam pra essa transgressão. Ao mesmo tempo, eu mirei muito, junto com o coletivo, a ideia de tentar um pop com conceito, inteligência. Dá pra fazer coisas sem precisar ser apelativo, fazer a galera, do mesmo jeito, entender e cantar melhor. Tivemos mais cuidado com as frases também no sentido de não ter muitos excessos, mas sim falar o que é preciso ser dito, pois às vezes falamos muito e não dizemos muita coisa, como vemos por aí. A gente tentou ficar focado na escrita e numa linguagem bem simples para que todo mundo pudesse entender o que estávamos falando. O primeiro disco tinha coisas assim, mas era muito mais complexo, mais denso, outras vivências também. Então, os arranjos refletiram justamente essa nova fase de outros contatos, outras experiências com outras músicas e pessoas. Eu, aqui mesmo no Rio, com Marcelo Yuka, vi que outros horizontes se abriram pra mim. Comecei a produzir coisas com ele e isso me deu uma abertura muito maior de música, melodia. O próprio Yuka me orientou muito pra gente, no trabalho com a banda, ir no caminho da melodia, das harmonias, da música, enfim, e não se preocupar se é rap ou se não é, sabe? Acho que vem muito daí.

 

DA – É perceptível nesse segundo disco da banda uma ampliação dos laços que remetem à matriz africana. Num tempo em que a temática identitária do povo negro vem sendo ressignificada e intensamente debatida, o que é relevante destacar?

JEF RODRIGUEZ – Em relação aos ritmos, posso dizer que sempre esteve presente desde o primeiro álbum em 2012. Em Nêgo Roque isso se reacendeu numa perspectiva mais contemporânea pelo acréscimo de elementos eletrônicos, além da conexão com outras células que agora tivemos a oportunidade de expandir. Mas o que gostaríamos de destacar como referência em relação à matriz africana é a questão humana. Existe um genocídio da juventude negra acontecendo nas periferias do Brasil e do mundo. Questões históricas que ainda não foram resolvidas e parecem distantes de uma resolução razoável. Estamos tocando no assunto de maneira direta sem medo de soar clichê.

 

OQuadro em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Roncca

 

DA – O rap tem algum compromisso?

VICTOR SANTANA – O rap já teve algum compromisso consigo mesmo. Na verdade, o rap começa ali no Bronx, em Nova Iorque, sendo a voz daquele povo esquecido. Num lugar que era um super gueto, quase uma zona de guerra, com assassinatos e muitos incêndios. Se não me engano, em um ano aconteceram mais de doze mil incêndios no Bronx. Sabe o que é isso? Um bairro inteiro queimando, vários focos e essas pessoas pobres lá se lascando. Então, o rap começa primeiro como uma festa daquelas pessoas e, na sequência, torna-se um jeito de se falar sobre o assunto, já que eles tinham discotecagens e também o microfone na mão. Faziam rimas falando sobre a coisa. Aí começa o rap. Surge um compromisso de resgate das origens com artistas como Afrika Bambaataa, que começa a falar mais sobre África através da Zulu Nation. No Brasil, já se começa ali a falar sobre Zumbi, nosso herói nacional negro. Inicia aí esse caráter político. Um compromisso que fala sobre nós, pretos, o modo como vivemos e tal. Esse compromisso vem com certas regras. Todo mundo quer trabalhar, ganhar dinheiro, viver disso. No Brasil, tem uma máxima de que as coisas que fazem sucesso não dão certo, pois entraram na mídia. Nos Estados Unidos, o pessoal quer fazer sucesso e ganhar dinheiro. O compromisso passa a ser a questão de se ter dinheiro e poder sustentar a família. São vários compromissos e eles são: sobreviver, ganhar dinheiro, fazer a coisa pelo certo e protestar sobre coisas ruins que acontecem ao negro (a politização, o crime policial). O compromisso talvez seja o jornalismo em torno dessas coisas ruins e boas que acontecem no gueto contra o povo negro, chamar atenção sobre estereótipos. É abrir os olhos da população sobre as mazelas que existem. Agora, compromisso em manter-se pobre, em não fazer sucesso, não é compromisso. Os Racionais MC’s, por exemplo, tiveram como pauta nunca aparecer na Rede Globo e até hoje eles não apareceram lá enquanto Racionais MC’s, nunca tiveram música na novela, nem se apresentaram no Caldeirão do Huck e no Faustão. Muita gente entrou nessa coisa de imitar os Racionais, dizendo que quem entra na Globo é vendido, é ruim, mau, playboy etc. Então, confunde-se muito a coisa toda. O Edi Rock, que é um dos integrantes dos Racionais, foi ao Faustão mostrar um trabalho solo certa vez, teve até uma reportagem e tal. Isso não impede deles serem amigos e estarem juntos apresentando o trabalho do grupo. Você vê que Criolo vai à Globo, Gabriel Pensador também (contemporâneo dos Racionais MC’s), e nem por isso tira o mérito do conteúdo de contestação. Enfim, o compromisso é consigo mesmo, fazer seu trabalho, ganhar seu dinheiro e falar sobre as coisas que incomodam. O rap tem algum compromisso, claro, mas é mais uma condição hedonista coletiva, se é que é possível dizer assim (risos), do que um conjunto de regras que te impedem. Não, elas não te impedem, te motivam.

 

DA – Como fazer arte num país que parece cada vez mais desintegrado politicamente?

JEF RODRIGUEZ – Penso que essa desintegração sempre existiu, a novidade em relação a isso é a consciência da mesma. Em momentos de crise econômica, o primeiro corte que o cidadão brasileiro faz é no consumo de cultura. Não fomos educados a entender as manifestações artísticas/culturais como elemento fundamental no processo educativo, no exercício intelectual, na construção de referências para um jovem em formação. A retirada das disciplinas como sociologia e filosofia da grade curricular obrigatória só confirma o tipo de cidadão que se espera formar no modelo educacional vigente. No caso específico do OQuadro, fazer a música que fazemos e como a fazemos já é uma luta política por natureza. Por não ser um rap convencional, por ser do sul da Bahia, por não fazer parte de nenhum grupo de amigos do meio. É um caminho árduo, mas o resultado tem sido sincero.

 

DA – Vocês têm ideia de qual lugar ocupam no cenário contemporâneo da música independente?

RICÔ – Acho que a gente ocupa um espaço interessante na música, e flerta com muita coisa moderna que vemos não só no Brasil, mas no mundo mesmo, sendo modesto. Pelo que já andamos pelo mundo, em alguns festivais, pequenos e grandes, estávamos sempre sendo colocados num lance mais moderno, experimental. E sempre as pessoas descrevem nosso trabalho, pelo menos no olhar de fora, como uma coisa de vanguarda. Uns acham que é um rock de vanguarda; outros acham que é um rap de vanguarda. Isso é bom porque mostra várias facetas nossas. No Brasil, tem muita gente interessante, mas, misturando o som do jeito que fazemos, na base do rap com várias outras coisas, não há muitos artistas. Infelizmente, o reconhecimento ainda não aparece em números, palpável, em termos de público Brasil afora também. Temos a consciência da importância daquilo que estamos fazendo. Não sei se agora, mas, de repente, num futuro próximo seremos mais reconhecidos, enfim. Mas é isso, estamos trabalhando e seguindo esse mesmo objetivo.

 

DA – As plataformas digitais modificaram profundamente o comportamento da indústria fonográfica. Para os artistas independentes, isso representou a necessidade de uma consolidação de espaços próprios, dando-lhes certa autonomia na produção e divulgação de conteúdos. Como prosseguir nesses verdadeiros lugares de resistência?

VICTOR SANTANA – As gravadoras perderam o poder, inclusive sobre os artistas. O trabalho para o artista fica mais pessoal mesmo. Na verdade, tem que procurar divulgar seu trabalho usando as plataformas digitais, que são uma facilidade para uns e extremamente difíceis para outros. Acho que você tem que ter assunto para ser atual ou uma relevância artística muito peculiar, algo que chame atenção de todo mundo. Na época das gravadoras, eles meio que empurravam isso, pagavam o tal do jabá, botavam para tocar nas rádios, no Faustão etc. Ainda tem isso dos produtores que pegam a grana e pagam rádios para fazerem divulgação, mas, em termos de plataforma digital, ou você tem um conteúdo muito foda ou tem que estar ligado nas tendências e tal. Tem uma coisa que acontece, uma pauta justa, muito séria, que é a dos músicos LGBT, e esses músicos, hoje em dia, estão em ascensão, não necessariamente pela qualidade extrema do seu som, mas pela pauta, pelo assunto. Então, às vezes, o cara não é um bom músico, cantor ou rapper, mas a pauta está em voga. Tem a coisa do feminismo mesmo, que é necessária, mas tá acontecendo uma, não sei se posso dizer, supervalorização, algo que está além da qualidade artística. Os youtubers, por exemplo, têm textos engraçados, pessoas que falam coisas legais, de acordo com certa juventude, e aí já funcionam, ganham dinheiro logo no próprio Youtube. Um super vídeo de um rapper da moda já faz dinheiro logo no Youtube antes mesmo do artista sair pra fazer show. Então, as pessoas estão se preocupando com esses conteúdos e, de repente, esquecendo o conteúdo real de sua arte. Para quem está preocupado só com a arte é difícil se adequar a umas coisas assim, apenas pela “modinha”. É uma faca de dois gumes. Por um lado, é independência; por outro, é estar atento às novas plataformas. Não dá para ter certeza sobre nada. Você pode fazer um clipe bobo e virar uma coisa assistida por quinhentos milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, outras pessoas nem atingem essa visualização, sendo que fazem um trabalho com a qualidade bem boa.

 

OQuadro em show na Concha Acústica de Salvador / Foto: André Fofano

 

DA – Desde o primeiro disco, vocês sempre se aproximaram de parceiros importantes, principalmente no processo de produção. Que tipo de buscas marcam esses diálogos com outros artistas?

VICTOR SANTANA – No primeiro disco, a gente procurou Buguinha Dub porque era um cara mais acessível e que tinha trabalhado com bandas que eram referência pra gente, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A. Tinha a proposta do dub, que é um estilo de som jamaicano, psicodélico e tal, que nem ficou tão presente assim no disco como eu, por exemplo, imaginava, mas ficou o peso do dub com os baixos e bateria pra frente, fortes. Gravamos ele num estúdio que era bom e que atendia a nossas necessidades através do projeto da Vivo. Por acaso, foi o estúdio de Guilherme Arantes e a gente não contava com esse artista lá, mas aí ele apareceu e participou do disco. Ainda nesse álbum, tivemos Lurdez da Luz, que é uma rapper de São Paulo, e que trouxe ideias para fazer um refrão ou parte de música. No primeiro disco, não houve uma busca, as coisas foram acontecendo naturalmente. A mix foi de Buguinha Dub e a master de Gustavo Lenza, que foi quem trabalhou com Chico Science e Nação Zumbi, no Afrociberdelia, um disco de bastante referência pra gente. Para o Nêgo Roque chamamos Basa para produzir porque ele é o produtor de um grande disco de rap do Brasil, que é o Babylon By Gus, de Black Alien. Já tínhamos trabalhado juntos com esse produtor num evento em Itacaré, o Conexão Vivo. A gente pensa qual artista pode contribuir com o trabalho. Nunca é pelo nome, mas pelo que pode ser aproveitado. É dizer “nessa música caberia uma rima de Snoopy Dogg” sem que se tivesse acesso a Snoopy Dogg naquele momento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Indee Styla, que se tornou nossa amiga, com os caras do Attoxxá, que também estiveram junto conosco. A gente pensou em nomes pra atingir certas necessidades nossas. Poderia ter sido Pablo Vittar para um agudo, Baco e Vandall numa música y, porque o beat é um trap que combina com esses dois caras. Poderia ter sido Pitty em Nêgo Roque para fazer o refrão, ou seja, uma mulher que dá uma outra tônica, BNegão, ou Yuka falando alguma coisa. E a gente sempre pensando na música e não no artista. Com quem temos acesso, obviamente entra com mais facilidade. Pensamos em muita gente pra produzir até chegar em Rafa Dias, que era quem estava mais próximo da gente e entendia nosso conceito muito mais facilmente.

 

DA – De que modo uma banda que se originou em Ilhéus, no interior da Bahia, hoje, tendo alcançado alguma projeção, olha para suas raízes?

JEF RODRIGUEZ – Ilhéus é e sempre será o berço d’OQuadro, temos um cordão umbilical com vínculo eterno. Mas não me identifico com a cidade enquanto instituição, ela não foi feita para pessoas como nós. Vivemos aí tempos de um amor não correspondido. Testemunhamos desde sempre gestões que se apropriam de uma cidade que é projetada pela cultura, mas não devolvem a esse setor o mínimo de investimento que possa fomentar o nascimento de novos Jorges. Quem faz arte em Ilhéus, faz por amor, sem contar com incentivos ou iniciativas que projetem trabalhos autorais com o mínimo de dignidade. Pelo contrário, desenvolvem em nós um complexo de vira-lata, onde sentimos a obrigação de ser menor diante de qualquer manifestação artística que venha da capital ou de outro estado, o que é um exercício prático de autoestima baixa, de autodestruição. Nesse sentido, prefiro olhar para Ilhéus pelos vínculos com nossa família e amigos que nos incentivam sempre.

 

DA – Hoje, com mais de 20 anos de estrada, é possível dizer que a banda atingiu uma maturidade musical desejada?

RICÔ – Acho que a gente atingiu uma maturidade enquanto também pessoas, seres humanos, e nas questões das vivências, tanto pessoais quanto profissionais, pois a gente fica em lugares diferentes, vivendo coisas diferentes, e quando junta isso tudo, vem essa maturidade também da relação com outras pessoas, outros músicos e artistas. Isso influi totalmente na produção do som, do disco. Então, Nêgo Roque mesmo teve muita coisa das vivências que eu tive aqui no Rio com outros artistas, outras experiências de som, de imagem, de tudo, assim como a galera também teve. Quando nos juntamos, estávamos cheios de referências. Nesse disco, conseguimos expressar melhor o que queríamos, coisas tecnológicas. Então, tivemos todo o acesso possível pra construir isso. Não tivemos tanta limitação pra conseguir as coisas, pois contamos com pessoas trabalhando conosco para que conseguíssemos tirar o som da melhor maneira. Construímos coisas do jeito que a gente pensava, com bem mais facilidade, experimentalismo, direcionamento. Então, esse é um disco com certeza bem maduro. Claro que a arte sempre te dá a possibilidade de fazer mais, depois você reflete sobre o que poderia ter feito, mas têm sempre ene possibilidades, pois a gente não termina um disco, a gente desiste dele, senão a coisa vai se transformando e não tem fim. Partindo desse princípio, foi uma desistência madura (risos).

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias?  De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.

Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.

 

JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes

 

DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.

JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.

 

DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?

JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.  De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.

 

DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação,  o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.

JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado!  O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.

 

DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?

JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.

Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!

 

DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer.  O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?

JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.

Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2  fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.

 

JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez

 

DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?

JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.

 

DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na  coletânea Profundanças 2,  que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?  

JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre  “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.

 

DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.

JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.

 

DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?  

JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.

 

DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?

JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes.  Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Palavras parecem domar o tempo com a astúcia de suas investidas. Talvez por tal razão não sejam menos importantes que a sina dos seus criadores. Elas, as palavras, ousam mais do que representar o mundo de quem as profere, imersas que estão nas profundezas do humano. Revelam-se a complexa ponte entre o íntimo e aquilo que está exposto cotidianamente nas travessias mundanas, bem ali na face desnuda da vida.

Quem engendra o verbo tem a consciência de que sua expressão criadora não se encerra dentro de um único domínio exclusivamente pessoal. Pelo contrário, intenta o encontro com o outro, trajeto comunicativo que, podemos desconfiar, não cessa jamais. Desse modo, levar a cabo uma obra é crer que na outra ponta outros sujeitos poderão consolidar sua permanência, conferindo-lhe uma gama de sentidos multifacetados. Por certo, um escritor fica exultante quando seus leitores mantêm vivo o seu legado dadas as mais distintas possibilidades de vivência, interpretação e apropriação do conteúdo concebido.

Assim como não se passa impunemente pela vida, com a literatura ocorre o mesmo. É salutar pensar um autor como alguém que mergulha nas questões de seu tempo e delas retira elementos construtivos para seu ofício. Quem se depara com a obra de um escritor como Itamar Vieira Junior, percebe um criador de olhares atentos aos fenômenos que constituem e demarcam sua condição de estar no mundo. Mas eis que tal característica tanto se baseia num fluxo de criticidade quanto no de uma vivência que permeia uma perspectiva de fruição estética. Assim, vemos um Itamar a construir sua obra com os requintes da lucidez, mas também sem negligenciar as possibilidades de criação inerentes a um viés de assunção das coisas intangíveis.

Com dois livros de contos na sua trajetória, Dias (Caramurê, 2012) e A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017), além do romance Paraíso (Câmara Brasileira do Livro, 2008), Itamar Vieira Junior pode ser considerado um dos nomes relevantes do atual cenário literário brasileiro. Grande parte disso se justifica em razão de que sua escrita madura e bem construída assinala um valioso lugar de reflexão, sobretudo quando se trata de atentar para o território das alteridades.

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Itamar revela-se um escritor profundamente envolvido com as temáticas que denunciam a invisibilidade do povo negro. Na entrevista que agora segue, o escritor toca em certos lugares de incômodo social, reflete sobre a representação do racismo na literatura, o papel dos novos escritores, além de lançar luz sobre o panorama editorial brasileiro contemporâneo. O resultado do diálogo mostra-nos não somente um intelectual a expor seus consistentes pontos de vista, mas um indivíduo intensamente marcado pela necessidade de mergulhar fundo na dimensão humanista da existência.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há tantos grilhões na condição humana e certamente aqueles que se referem à opressão do homem pelo homem são dos mais cruéis. Em “A Oração do Carrasco” você traz um deles à tona, qual seja a marca histórica do racismo, fantasma que nos ronda incessantemente. Diante de um contexto de tal natureza, como você concebe a literatura enquanto instrumento de exposição e debate desse tipo de incômoda temática?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A literatura como expressão artística acomoda, involuntariamente, a narrativa da experiência humana. Atravessando os séculos – de Dom Quixote ao romance contemporâneo – ela sempre trouxe como sua razão de existir o descortinar de nossa condição. Hannah Arendt em sua obra “A condição humana” diz que a política é um dos três pilares da vita activa do homem. Tanto o trabalho quanto a obra – os outros dois pilares – são executados pelo homem em sua solidão, a partir das acepções que Arendt apresenta sobre trabalho e obra. Mas a política só se dá através do homem e entre os homens. Ou seja, somos seres essencialmente políticos e a literatura carrega, invariavelmente, a exposição do que um escritor é e pensa sobre o mundo a sua volta. Sem a política seríamos amebas vagando no mar do nada.

Vamos lembrar que a literatura abriga a diversidade do pensamento humano. Que há obras como “Escola de cadáveres”, de Louis-Ferdinand Céline, ou “O presidente negro”, de Monteiro Lobato, com um teor racista inquestionável. E que muitas outras, da mesma forma, vão se debruçar sobre as nossas mais primevas questões existenciais, dentre elas o preconceito baseado na diferença de origem ou de cor. “Amada”, de Toni Morrison, ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, abordam o racismo pelo viés histórico e social do colonialismo. É incômodo perceber que são obras que tratam o preconceito numa perspectiva histórica e que, ao se confrontar essas narrativas com o mundo contemporâneo, percebe-se que as mudanças são sutis e as formas de discriminação resistem apesar dos avanços.

Há algo incômodo na literatura contemporânea – e digo especialmente sobre a literatura produzida no Brasil. Como é uma atividade de uma classe privilegiada, ou pelo menos os autores que estão em evidência fazem parte dessa classe, os temas são majoritariamente afeitos aos dramas da classe média branca. Proporcionalmente, há um número menor de obras com personagens que representem a imensa diversidade da nossa sociedade. O racismo também existe no próprio fazer literário, não poderia ser diferente. Isso revela que há algo brutal em nossa história se repetindo, quando vemos persistir a discriminação ao senegalês ou haitiano que chega ao Brasil contemporâneo. Ou quando as relações entre patroas e domésticas nos fazem lembrar as relações de subalternidade mais vis do Brasil escravocrata. Ou quando abrimos um livro e não encontramos representações de nossa diversidade. Esse incômodo é que me fez conceber “A oração” como um painel, não de simples histórias distintas, mas capaz de apresentar um encadeamento de narrativas que nos lembrasse de que a história se repete. Não é por acaso que “Alma” abre o livro e é impossível pensar sua história desconexa das histórias de “Foi” e “Dominique” do conto “Meu mar (Fé)”, ou de Doramar. A imigração empreendida pelos ancestrais de Alma se repete da mesma África para o Brasil do nosso tempo. Esses imigrantes estão fadados a uma história de subserviência não muito diferente dos imigrantes do século XVII, XVIII. O papel de submissão dado pelo mundo a Alma se repete com Doramar, uma empregada doméstica que vive nos dias atuais, ou com “Foi”, a imigrante que vive deslocada em um país que não consegue acolher a diferença.

 

DA – No conto “Alma”, apesar das agruras vividas pela protagonista, notamos que paira nela um ímpeto que a encoraja a crer numa perspectiva de que algum dia sua existência cumprirá um sentido, digamos assim, mais pleno de liberdade. Há na narrativa a presença viva dos contrastes entre o pensamento colonizador e o colonizado. Diria que essa construção textual evoca uma necessária provocação, sobretudo para o que ainda testemunhamos em sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o sentido a que você se refere é uma premissa humana. Ou talvez seja uma premissa dos seres sencientes, se estendermos o desejo de liberdade aos animais. Há muitos anos trabalho com as histórias de comunidades negras rurais que estão passando por processos de regularização das terras que habitam. Em um desses lugares, encontrei a história de uma mulher escravizada que caminhou de Salvador até o Sertão Baiano – quatrocentos quilômetros de distância. Ela se tornou matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por quase duzentos anos. Só se sabe isso sobre ela. Não há registros além da história oral. Uma narrativa fabulosa, a princípio, e a ficção entra para preencher o que não se sabe sobre essa mulher: as motivações de sua peregrinação e o que encontrou pelo caminho. O que faria uma mulher cativa caminhar por um ambiente hostil, desconhecido, com possíveis perigos? A revisão da história social de nosso lugar indica as circunstâncias dessa migração. E a minha experiência humana, aquilo que nos une, incluindo a personagem Alma, permite emular esse sentimento supostamente universal de não estar subjugado e ser livre. É uma narrativa em primeira pessoa que opta pelo fluxo de consciência. Alma é a voz que narra personagens, episódios históricos e ações que marcaram sua trajetória. Essa foi a forma que encontrei de trazer à literatura a contundência da oralidade, do que pode ser narrado por gerações, resistindo e se transformando, quando as circunstâncias sociais e econômicas não permitem que haja registros documentais. A oralidade é uma forma de comunicação que antecede à escrita. Transmutada, é capaz de denunciar os incômodos que a humanidade, em seu processo civilizatório, não conseguiu transpor. Recentemente, fotografias de um mercado de escravos na Líbia se propagaram nas redes sociais. Em pleno século XXI nos deparamos com imagens que poderiam ser quadros de Rugendas representando a aflição de algo que talvez julgássemos ter acabado. Pelo contrário, os fantasmas continuam a nos atormentar. Escrever sobre uma mulher que precisou interromper o ciclo de violência que sofria, devolvendo a violência àqueles que a subjugavam, reflete essa provocação. Desmistifica, inclusive, que essa subserviência foi pacífica. No Arquivo Público do Estado da Bahia há importantes referências sobre crimes cometidos por trabalhadores escravizados.

 

DA – Há toda uma literatura dedicada às questões da negritude e que, no entanto, permanece ainda desconhecida por muita gente. Destacaria aqui, sobretudo, obras que se enquadram na perspectiva pós-colonial, cujos autores nos falam de mundos com suas narrativas e ambientações próprias, com o vigor que demonstra que não podemos olhar a África de modo homogeneizante. Na sua visão, que universos são esses que precisam ser vistos e lidos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Os universos autóctones e da diáspora. Porque não basta ler a vasta literatura produzida no continente africano, é preciso compreender o seu legado para o mundo, principalmente para o continente americano e, mais recentemente, para a Europa Ocidental. A literatura pode ser um caminho para alcançar a história e o pensamento humanos a partir da perspectiva de nossa diversidade étnica. Tanto a literatura pós-colonial com seus mais diversos temas, desde o nefasto poder do colonialismo que vislumbramos na obra de Chinua Achebe e Chimamanda Adichie Ngozi até o trágico apartheid, tema recorrente nos romances de Coetzee e Nadine Gordimer, quanto a literatura diaspórica que pulsa de norte a sul do continente americano, são narrativas que confrontam o passado com o presente e nos despertam para a crise e o fracasso, em termos, de nossa civilização. Principalmente quando permitimos que as diferenças se tornem os mobilizadores das relações de poder que estabelecemos com nosso entorno. Nesse contexto a ficção pode comunicar a universalidade da experiência humana pela simples possibilidade de nos envolver numa trama de afetos onde somos convidados a todo o momento a ler o mundo a partir da perspectiva das personagens. Sem dúvidas é um interessante exercício de se transferir para o lugar do outro e conhecer suas vivências e experiências.

 

DA – Nesse conjunto de representações de mundos que precisam vir à tona através de uma arte como a literária, surge um componente de alta relevância, que é o das afirmações identitárias. Como tais sujeitos podem vir a se tornar efetivamente seres de ação no quesito que amplia uma via marcantemente humanista?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A identidade é e sempre será relevante em contextos onde seja preciso realçar a alteridade. Já estive em comunidades negras rurais em que o racismo não era um problema aparente em suas vidas, a não ser quando precisavam resolver algum problema na cidade. Não fazia sentido um debate entre eles sobre a negritude, a não ser quando precisaram se confrontar com o Estado ou com outros grupos. Eu prefiro não tratar a identidade como um constructo fixo e imutável. Gosto mais do conceito de identificação que coaduna com a perspectiva do devir humano. Não somos seres imutáveis. Somos devires porque existe um movimento vital no homem, no mundo e no homem através do mundo. Esse movimento é fonte de transformações constantes. A identificação está baseada na diferença, e afirmar essa diferença como legítima e parte da diversidade humana é o que mobiliza as performances identitárias. Nenhum ser humano é composto de uma única identificação, nós somos muitas identificações sobrepostas, e algumas delas certamente se relacionarão com a de alguém a sua volta. Somos mulheres, homens, homossexuais, negros, índios, ateus, católicos, candomblecistas, e na trilha de nossa existência através do mundo nos reconheceremos. Agora, imagine que na trilha da vida, sem os artifícios que dispomos para o conhecimento, isso possa levar bastante tempo. Às vezes um longo tempo se pensarmos que nossos problemas são urgentes. Imagine também o poder da literatura, da música – e enfatizo o hip hop, o funk, o samba, ritmos que têm um forte apelo popular – da televisão, do cinema, das séries estrangeiras, que chegam com uma velocidade incrível na era da informação. A arte pode ser um valioso instrumento, não o único, mas certamente o que nos envolve com mais afeto e é capaz de comunicar nossa humanidade com grandes chances de êxito. Já que falamos de literatura, imagine o poder de “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, para comunicar a existência queer, ou “A pianista”, de Elfriede Jelinek, sobre a violência que cerca a existência da mulher. Ou o maravilhoso The Underground Railroad, de Colson Whitehead, que acabo de ler, para expor as agruras do racismo no continente americano. São obras ficcionais capazes de gerar empatia por nos permitir interagir no campo da imaginação com essas personagens. Ninguém sai delas indiferente ou ileso.

 

DA – É insuficiente considerar o papel da literatura por um viés de mera fruição estética?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Gosto muito do Milan Kundera ensaísta, além de ser um ficcionista excepcional, justamente porque seus ensaios estão despidos de um viés analítico e acadêmico. Precisamos dos artigos e pesquisas acadêmicas para o conhecimento. Mas seu alcance é limitado.  Diferente dos ensaios de Kundera que primam por uma abordagem estética e humanista da literatura. Em “A cortina”, Kundera apresenta a literatura (romance) como a arte do conhecimento que existe e sobrevive por se debruçar sobre a experiência humana. Parte dessa existência e sobrevivência deve-se à fruição, uma característica que diferencia a arte literária de outros gêneros de escrita. A fruição estética abre um leque de possibilidades que permitem interpretações e reinterpretações sobre um mesmo texto. O leitor é peça-chave nessa engrenagem por ser afetado, na experiência pessoal e intransferível da leitura, de maneira distinta. Por ser fruição estética, sem nenhum demérito, é que a literatura tem seu alcance expandido e se torna um instrumento de conhecimento do mundo-tempo que vivemos.

 

DA – Diria que a sua escrita reflete um processo consciente e permanente de engajamento com as questões de seu tempo?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho inevitável que quem se debruça sobre qualquer atividade intelectual, sem a arrogância ou o peso que o termo intelectual possa evocar, está refletindo de alguma forma sobre seu tempo. Desde os primórdios tem sido assim. Não escrevemos para nós mesmos e muito menos sem a esperança de que o que escrevemos altere qualquer coisa. Escrevemos porque desejamos comunicar algo. Desejamos provocar emoções. A comunicação parece ser um atributo muito caro à espécie humana, desde a pré-história com a arte rupestre até a era da informação e a revolução digital. O que não cessou durante nossa história foi a nossa urgente necessidade de nos comunicarmos. Tenho uma visão muito dessacralizada do ato de escrever e, mesmo nutrindo um profundo interesse pela literatura e por quem a faz, não creio que seja diferente, na essência, das muitas formas de comunicação que o homem elaborou ao longo de sua história. Sei também que nem todo escritor terá algo relevante para comunicar, mas ainda assim sua obra será acolhida ou não a partir dos valores que os leitores e estudiosos irão lhe atribuir. Acho que quem se debruça sobre a escrita, ou qualquer construção artística que tenha a possibilidade de resistir ao tempo, deseja no fundo comunicar e provocar a reflexão, seja da mais íntima questão humana aos problemas mais complexos de nossa civilização. Uns superficialmente, outros detidos de forma mais profunda sobre essa experiência. Não vejo a minha escrita dissociada da minha própria experiência. Pretendo-a consciente, talvez por isso engajada. Mas há arte inconsciente e que não seja engajada em seus próprios parâmetros? Essa é uma questão, não tenho a resposta. Atribuí a mim, como creio que fizeram os meus pares do passado e do presente, a intenção de dar um testemunho pessoal sobre o meu tempo. Um testemunho pequeno, mínimo, da história em face à nossa grande diversidade enquanto espécie. O que seria minha vida, e a de qualquer escritor, dentro do grande tempo da história humana? Talvez possamos narrar um átimo dessa longa jornada. Fiz essa escolha por circunstâncias que não seria capaz de explicar. Ao mesmo tempo pode parecer uma presunção considerar que somos capazes de aprisionar em uma narrativa uma versão de nosso tempo. Pode parecer soberba assumirmos esse lugar de narrar uma história. É e sempre será uma posição delicada, ainda que estejamos autorizados por nossas convicções a escrever.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O grande afluxo de novos escritores parece instaurar um outro momento para a literatura brasileira. Nesse percurso, as plataformas digitais assumem um papel fundamental como viabilizadoras de espaços dotados de considerável autonomia criativa. As produções não cessam e se avolumam num ritmo até certo ponto frenético, algo que pode comprometer a qualidade do que é escrito, pois, em alguns casos, o desejo urgente de ser publicado ignora todo um processo de maturação e profundidade necessários a uma obra. São tempos de pressa estes em que vivemos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – São tempos urgentes, não só para a escrita. Talvez seja cedo para esboçar uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A princípio vejo a democratização do acesso à publicação como um avanço por permitir que obras que não seriam acolhidas pelas grandes editoras cheguem ao público, ainda que essa circulação seja restrita. São livros que, graças às plataformas digitais e às pequenas editoras, têm tornado possível a construção de uma bibliografia que é ainda um pequeno panorama da nossa diversidade enquanto sociedade. Sobre isso não há dúvidas: obras de qualidade têm encontrado espaço no segmento das pequenas editoras. Basta observar as últimas premiações. Em contrapartida, vivemos um tempo de exposição de ideias e imagens de forma instantânea nas redes sociais. Somos a imagem que projetamos para essas janelas de comunicação. Há, sem dúvidas, uma glamorização da atividade do escritor e isso faz com que qualquer um, tendo habilidade ou não, se proponha a exercê-la. Mas isso não chega a preocupar porque se forem muito ruins não resistirão ao crivo das primeiras críticas de leitores e especialistas. O que persiste é que estamos num país com baixos índices de leitura comparado a outras nações em desenvolvimento. Dentre os possíveis leitores há ainda um grande caminho a percorrer. É preciso construir uma política pública que fomente a formação de leitores.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Somos um país em que a educação, até o presente momento, não foi encarada como um propulsor de desenvolvimento humano. Fôssemos um país que levasse a sério a educação, teríamos certamente mais leitores. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, quase metade da população não tem o hábito de ler. Um terço nunca comprou um livro. Mas quase todos carregam um smartphone, correto? Estão conectados às redes sociais e à internet. E como dispõem do tempo e da tecnologia? Certamente essas “escolhas” explicam em parte nosso retrocesso em questões de direitos humanos e nossos persistentes problemas sociais. Uma população não educada tem menos chance de participar e colaborar ativamente das instâncias de decisões. Tem menos chance de refletir criticamente sobre o mundo e seu tempo. Pode ser facilmente manipulada. Vamos lembrar, para não perdermos o hábito de falar de literatura, de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Onde foram parar os livros na República de Gilead? Para onde a supressão da circulação de conhecimento pode levar a humanidade? Além dos nossos problemas estruturais de educação, há um particular desinteresse do poder público em investir em políticas de formação de leitores. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, onde quase metade da população não tem o hábito de ler, o que poderíamos ser se compartilhássemos leitura, interesse e conhecimento de forma democrática?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas ao qual chamamos de pós-modernidade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou um espectador, com participação mínima na vida ativa de meu país. Pior, sou um espectador desatento, alterno horas de pretensa atenção e horas de devaneios. Não é um lamento, digo isso conformado. Sou um leitor em primeiro lugar. Para cada mil livros que leio deverei contribuir de forma tímida com um que escrevo. E observo nosso tempo com muita confusão e poucas conclusões. Reflito diariamente, mas sem exigir de mim mesmo uma definição sobre as coisas. Sabe como vejo o mundo? Como observo nossa jornada através da história? Como se lesse algo que acabo de escrever e que vou modificando, entendendo de uma nova forma, percebendo as movimentações de palavras e sentidos numa frase, num parágrafo. Mesmo depois de ter revisado doze vezes e receber o livro da editora, se não quiser sofrer, não o lerei para não querer reescrever depois de impresso. É como leio traduções ou um livro qualquer: começo a arrumar as sentenças como se fossem minhas. Quando percebo minhas divagações retorno para meu papel de leitor novamente. Observo essa fluidez e velocidade próprias de nosso tempo com espanto. As transformações são vertiginosas e na vertigem perdemos momentaneamente o autocontrole. É como um livro novo que faz você ler e subverter todas as coisas que aprendeu até aqui sobre escrita e leitura. Mas penso que esse estranhamento deve ter existido durante toda a jornada humana com intensidades diferentes. Quando leio Lima Barreto, penso nas inquietações de seu tempo, que transparecem em sua obra, e o que remanesce até o nosso tempo de tudo que ele possa ter refletido ou não. Estar no presente, engolido pelo caleidoscópio da história e do tempo, não garante o distanciamento necessário à reflexão.

 

DA – Quando poderemos dizer que um autor obteve sucesso com seu ofício?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Quando um único leitor vier até ele para dizer que um parágrafo do que escreveu lhe provocou alguma reflexão. Isso é o que espera quem publica, quem compartilha pensamentos e escritas com o público. Quando publicamos algo, por qualquer meio, não sabemos em que mãos irá parar. Mas se alguém que lhe desconhece escreve um e-mail ou indica a leitura de seu trabalho é porque algo pode ter ocorrido na experiência entre narrativa e leitor. A vida de uma obra só se ilumina nesse espaço “entre”. Uma obra não tem vida ao ser escrita ou enquanto está na imaginação de um único homem ou mulher. Ela ganha vida a partir do contato. É um espaço mágico onde a paixão pela experiência humana irá ocorrer. Imagino o que diria se encontrasse os escritores que me incendiaram de paixão pela leitura e escrita. O que diria sobre suas obras que não me abandonam mesmo passado tanto tempo. Como elas contribuíram para o que sou. Sei também que virão muitos autores, talvez alguns ainda por nascer, que me trarão essa mesma paixão. Um autor só obtém êxito com seu ofício quando consegue iluminar esse espaço entre a obra e o leitor.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

A boa literatura também se faz com o não dito. O que o autor guarda entre as dobras da tessitura narrativa, o algo inexplícito que se torna uma voz secreta modulando além dos limites da história, na apreensão do leitor. São as lacunas acortinadas em mistério, as sombras do enredo que concentram, nos silêncios, seu maior impacto.

Ninguém detém a noite explora os cantos de obscuridade que tem lugar na natureza humana. Em seu segundo livro de contos, o escritor pernambucano Nivaldo Tenório compõe uma galeria de personagens mobilizados por desejos e terrores interiorizados e, portanto, muitas vezes inauditos. Ainda que situado no espaço das cidades pequenas, dos povoados distantes, o palco das verdadeiras ações está dentro desses indivíduos incapazes de se desatarem de conflitos e de atos cruéis para significar suas próprias existências. Um ambiente de reconhecimento onde é sempre escuridão adentro, ou uma escuridão que vive dentro de outra escuridão.

Diante dessas tétricas experiências da vida, a força simbólica reside na morte e em suas representações. O autor promove as relações entre animais noturnos e objetos umbrosos sob o signo da finitude, transformando o universo abstrato, de crises e surtos mentais, numa atmosfera de devaneio através da qual se desvela o passado de perdas e de impura formação. A prosa de ficção vagueia pelas rachaduras da realidade, com naturalidade e consciência imaginativa, revelando um autor pronto, habilidoso e maduro, detentor de todas as chaves que permite a imersão do leitor e nunca os deixa sair, mesmo ao alcançar, transformado, o ponto final.

Em entrevista exclusiva, Nivaldo Tenório mergulha em seu recente trabalho e examina sua atração pela subjetividade temática, apontando os caminhos que percorre da ideia de ignição até a conclusão de um conto. Além disso, explica a sua preferência pelas narrativas breves, a estreia tardia na escrita, suas influências e angústias criativas. Natural de um estado-celeiro de grandes escritores, o autor analisa a presença do regionalismo no cenário atual da literatura brasileira, a nova cena de autores nordestinos, a proliferação das editoras pequenas e seus efeitos, e a importância dos prêmios literários e da crítica especializada. Um olhar apurado e franco sobre o meio literário, que reflete as intermitências do próprio ofício da escrita. “Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo”, observa.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ainda que tenham uma construção geográfica bem concreta, os contos de “Ninguém detém a noite” são frequentados por personagens que lidam majoritariamente com questões relacionadas ao plano subjetivo, no qual se impõem signos e metáforas como representações da finitude. Essa é uma característica muito marcante do seu trabalho, que vem de sua coletânea de estreia, “Dias de febre na cabeça”. O que lhe motiva nessa exploração interna? Acredita que transitar pelo secreto de seus personagens é uma forma de consistir verdade ao seu fazer literário?

NIVALDO TENÓRIO – Grato pela análise, Sérgio. Acho que foi O’Connor quem disse que a ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se alguém despreza o fato de ser pó, é melhor não tentar escrever ficção. Ela tem razão. Somos pó e parece que não há nada o que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melancólico desconsolo com a nossa finitude. Lembro-me que era comum, nos momentos mais felizes ele de repente nos chamar a atenção para o fato de existir a morte, que estamos sujeitos a este fato inelutável: um dia simplesmente deixaremos de existir. Isto roubava-lhe metade da alegria. Falo no passado, mas ele continua vivo, embora com a idade sobreveio o avanço inescrupuloso de uma doença demencial que, pelo menos, deixou-lhe o saldo de não pensar mais na morte. Então herdei dele esse desconsolo e com o tempo, acho, se transformou em obsessão e tema de meus contos, pois o que vejo é a dimensão trágica do mundo muito além do alcance de nossas ações. Nossas escolhas não são sempre deliberadas, pensadas e, mesmo que fossem, são elas que definem fatalmente nossas vidas ou é a força das circunstâncias? Duvido do livre arbítrio. E é essa dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero, que é o objeto de minha literatura. Alguém poderia dizer que disso já tratou exaustivamente Faulkner, Philip Roth – dois autores que continuo lendo depois de muitos anos – eu poderia citar outros, são muitos, mas o fato é que é isso o que sempre me fascinou na boa literatura – não posso esquecer de Machado – a capacidade de sondar o humano. E tudo isso, claro, não é nada se não se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, como você tão bem colocou, foi o modo que encontrei de transformar minha obsessão – que divido com tantos outros – em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por trás das ações de personagens, e não estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, é ali que encontramos o humano.

 

DA – Essa humanidade cotidiana tem um apelo muito forte no histórico da literatura pernambucana, seu estado de origem. Só para citar dois grandes autores, João Cabral de Melo Neto e Osman Lins alimentavam seus fazeres literários com uma matéria oriunda de um plano subjetivo, mas que ao mesmo tempo refletia características particulares do lugar em que nasceram e estavam inseridos. Outro aspecto era trazer para a ficção momentos de suas vivências. Partindo da menção ao seu pai, o quanto o fato de ser pernambucano, de ser nordestino, influencia na escolha de seus temas? A sua literatura é também alimentada por experiências pessoais?

NIVALDO TENÓRIO – Quando eu era só um garoto e morava numa periferia pobre de minha cidade não havia muita coisa bonita do que se orgulhar, a família sofria os reveses da pobreza, mas meu pai conservava certo orgulho tão anacrônico quanto suas lembranças da fazenda onde nasceu, e de seu velho pai, um modesto e próspero plantador de café que também ostentava fama de valentia. Vovô e a fazenda desapareceram, a herança dividida entre tantos irmãos não deu pra nada. Então, papai, que não conheceu a pobreza quando era menino, fazia das tripas coração para que não sofrêssemos tanto com a nossa. Por exemplo, não queria que os filhos trabalhassem, nós devíamos nos dedicar aos estudos enquanto ele se matava como pequeno negociante do ramo de confecções. A primeira vez que trabalhei de verdade – se é que podemos chamar de trabalho – foi quando me alistei para o serviço militar. Mas a pobreza estava ali, nem eu nem meu irmão desfrutávamos de coisas que meninos da nossa idade e de famílias mais remediadas podiam dispor. Por volta dos 13 anos me interessei por livros. Sentia-me seduzido pelo objeto, sonhava poder comprar os livros da Bibliex – biblioteca do Exército – que eram anunciados na TV preto e branco. Eu não sabia o que aqueles livros continham. Eram livros, isso parecia bastar. Veja, Sérgio – agora você vai entender por que precisei recorrer a esses dados biográficos – eu acho que vivi numa bolha, construída com o esforço de papai e mamãe, fui um menino quieto, solitário, mal saía de casa e, quando descobri o prazer da leitura, os livros eram os únicos endereços possíveis. Lembro-me de passar um período das férias escolares inteiro lendo Anna Karenina. As coisas lá fora eram o resultado do esforço de meu pai, e não era muito, apenas o suficiente para sobreviver. Um sobrevivente não se sente especial, mas ler Tolstói me fazia sentir especial. O livro de Tolstói eu consegui na Biblioteca Pública Municipal, a bibliotecária me deixava levar emprestado os livros, e assim li Victor Hugo, Dumas, Rabelais, Balzac, e não foi nada programado, os livros mais bonitos eram os clássicos universais, eram os que mais me atraíam. Também tinha Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros, mas naquela época só me interessava pelos autores estrangeiros. Talvez eu buscasse neles geografias diferentes da minha. Aqueles livros com histórias que se passavam tão longe, no tempo e no espaço, me garantiam uma distância maior da pobreza e daquele lugar que as circunstâncias me fizeram meu. E agora que falo isso, penso no que diz o José Luís Passos na apresentação do livro, de que os contos ambientados em cidades pequenas aspiram a uma maior largueza espiritual através da viagem ou alusão à cultura estrangeira. Então, respondendo à pergunta, acho que quanto ao tema – deste livro pelo menos – ser filho de meu pai e herdar algumas de suas idiossincrasias foi mais forte que ser pernambucano ou nordestino e quanto à experiência pessoal, acho que algumas estão nos contos sim, mas transformadas de tal jeito, que ninguém que tenha partilhado comigo tais experiências será capaz de reconhecê-las.

 

DA – É curioso você citar esse seu interesse inicial apenas por autores estrangeiros, pois me coloca diante de uma característica marcante da sua prosa; ou talvez a falta dessa característica marcante. Embora seja um autor nordestino, seus contos, ao contrário de uma lista imensa de novos e velhos autores, não trazem uma linguagem regional ou são ambientados num cenário expressivamente nordestino ou historicamente nordestino. Desde que começou a escrever, você se preocupou em não se enquadrar no que foi rotulado de “literatura regionalista”? Ou você acredita que é um processo natural da nova literatura brasileira ter um aspecto mais globalizado, independente da região onde é feita?

NIVALDO TENÓRIO – Não há dúvida de que um dos melhores – senão o melhor – capítulo da produção da literatura brasileira se deu a partir de 1930 com o Regionalismo de Gilberto Freyre – certamente um de nossos gênios – e falar de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e outros dessa geração é falar do cânone da Literatura Brasileira do Século XX. Guimarães Rosa também é regionalista como Faulkner, é o escritor regionalista do Sul dos EUA. Mas, quando hoje se taxa um escritor de regionalista, parece que por trás há uma clara intenção de segregação. E eu não sei se você já notou, Sérgio, mas a mim parece que esse rótulo só serve para o escritor nascido no Nordeste, talvez a culpa seja das novelas das oito da Rede Globo, e todos os coronéis, mocinhos e mocinhas que carregavam no sotaque baiano. Não sei. Conheço escritores no meu estado que não gostam de ser chamados de regionalistas só porque suas histórias são ambientadas no Nordeste. Ronaldo Correia de Brito não gosta, Raimundo Carrero tampouco, e eles têm toda razão. Quanto a mim, posso garantir, não houve intenção nenhuma de querer evitar o rótulo, nunca me vi pensando na questão, os contos eram escritos e só me dava conta da ambientação deles não evocar o Nordeste quando alguém me chamava a atenção para o fato. Confesso que acho algo desnecessário, principalmente num conto, o autor se preocupar em dizer que sua personagem parou pra descansar no trecho tal da Conde da Boa Vista, no Recife, ou que seu carro foi guinchado da BR Luís Gonzaga, em São Caetano, até Caruaru. Ao mesmo tempo, acho que não é isso de descrever o ambiente ou não que vai determinar se o conto presta. Apenas não acho necessário. Nunca estive interessado no homem ou mulher de Recife ou de São Paulo ou da pequena cidade onde moro, minha Garanhuns de clima ameno, localizada mil metros acima do mar e seus 130 mil habitantes, que há anos nem sobe nem desce no censo, pois lá impera a imobilidade. Estou interessado sim nos homens e mulheres e no que eles possuem de humano, não importa se transitam na Avenida Santo Antônio ou Quinta Avenida. Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, desses que andam na moda. Ele dizia que não acredita nessa coisa de “ser brasileiro”.  Não sei o que pensaria José de Alencar se um vidente lhe dissesse que mais de cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declaração. Alencar e seu projeto de construção da identidade cultural do Brasil, ele e seu romance ambicioso em conter toda geografia. A mesma reação teria o Mário de Andrade, que, ao modo dos artistas de sua geração e seu caráter anárquico, também ambicionou dar continuidade – de um modo diferente, claro, crítico e coisa e tal – ao tal projeto de construção da identidade cultural. Macunaíma é sem dúvida o romance tese dessa empreitada. Mas o fato é que o tal escritor da entrevista talvez não esteja enganado. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de São Paulo, ainda estamos em formação e a única conclusão que chegamos é que não somos negros nem brancos nem índios. Mas teve um tempo, Sérgio, que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da década de 20, por exemplo, ambientados na França e que falam de homens e mulheres – de quem uma escritora se referiu como geração perdida – vivendo o entre guerras e a frustração de ser humano e o quanto isso representa de impotência e fragilidade. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha no meu caráter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que “Kind of blue” me encanta mais do que Samarica Parteira? Não estou dizendo que nossos escritores e músicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atrás e milhares de quilômetros longe de meu país me encanta e me causa felicidade. De algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil, me encontro ali. Vislumbro meu reflexo. E como minha literatura primeiramente nasceu do reflexo de meu gosto de leitor, isso talvez responda tua pergunta.

 

DA – Aproveitando que falou de rótulos e da criação de estereótipos, queria me aprofundar nesse assunto e perguntar sobre a relação dos autores que não estão nas chamadas rotas Sul-Sudeste do mercado literário. Durante muito tempo (e ouso dizer que a imagem permanece fora do Brasil) os livros dessa região eram consumidos em função de seus aspectos exóticos, sertanistas. Hoje, a impressão que tenho é que melhorou, baseado no reconhecimento de autores citados, como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carreiro e José Luiz Passos, além da grande Maria Valéria Rezende e de novos autores, a exemplo de Débora Ferraz e Franklin Carvalho. No entanto, você, que vive a realidade dessa região, como enxerga o interesse das editores e dos leitores (e, por que não, também dos críticos) para com os autores fora desses centros? Você acredita que há, ou já sofreu, algum tipo de discriminação pelo fato de não fazer parte de um círculo específico, de não socializar com o editor X ou com o autor Y?

NIVALDO TENÓRIO – Acho que o problema da dificuldade de ser lido ou editado não está no fato de viver, de fazer literatura no Nordeste. Acredito que problemas similares encontram escritores espalhados no Brasil, mesmo no Sul e no Sudeste. A questão é de outra ordem e tem a ver com leitores. Poetas e contistas – com raras exceções – não estão exatamente na ordem do dia. Fazer o tipo de literatura que eu faço significa escrever quase exclusivamente para outros escritores. Às vezes, tenho a impressão de que estamos presos numa espécie de autofagia. Nos eventos de literatura escritores falam para escritores, enquanto o resto do mundo está lendo o último livro do Dan Brown, do Paulo Coelho ou do Stephen King etc. Uma amiga minha, também escritora e que mora em Portugal, me diz que lá é a mesma coisa. Acho que vivemos a crise do leitor. Thomas Mann, num ensaio sobre Tchekhov faz a sua mea culpa e reconhece que não levava a sério a forma breve do conto, estava interessado nas grandes catedrais dos romances de fôlego. Não é o caso do leitor de hoje, este só está interessado no livro da moda, em bruxos e vampiros, e necessita, mais do que ninguém, de muita autoajuda para suportar a existência. É o que aquece o mercado. Outro dia vi, no Globo News Literatura, a Luciana Villas-Boas, a antiga editora da Record, hoje agente literária, que costumava aconselhar escritores a não escrever conto ou poesia porque não vende, falar de uma dessas novas autoras, surgidas na internet e que escreve excelentes livros, inspirada no “Cinquenta tons de cinza”. A Luciana garantia que não se tratava de mero pastiche da E.L. James, como se isso fosse uma garantia do talento literário da moça. Essa autora, de quem nos fala a Luciana, provavelmente não vai ser resenhada por você, Sérgio, mas, num tempo incrivelmente curto, já vendeu mais de 100 mil exemplares. Não quero parecer pessimista ou despeitado, mas é a realidade. Também sei que você não estava se referindo a esse tipo de livro, quando me fez a pergunta, mas é preciso entender que primeiro o problema é de leitores. Não há leitores interessados em literatura, falo de alguém que vai a uma livraria para comprar a nova tradução do Gombrowicz porque está a fim de ler um bom livro, um livro instigante. E não vale se for da área, nada de jornalista cultural, crítico ou escritor, falo de um cara comum, que dirige um táxi ou é médico ou estudante de engenharia. Então, Sérgio, não é morar longe do centro – embora isso atrapalhe um pouco, sem dúvida – o maior problema. Já foi por isso que Osman Lins pediu demissão, juntou os trapos e trocou Vitória de Santo Antão por São Paulo, mas isso foi na década de 60, quando não existia internet.

 

DA – A sua resposta é muito pertinente e me conduz a duas reflexões. A primeira é relacionada ao que chamou de crise de leitor, diante da qual estou completamente de acordo. O caso é que, na contramão dessa situação preocupante, temos um cenário literário onde nunca se publicou tanto quanto hoje. Isso tem a ver, óbvio, com o surgimento de inúmeras editoras pequenas e com a possibilidade cada vez mais acessível da autopublicação. Qual, na sua opinião, será o efeito dessa equação que não fecha e que se torna gradualmente mais complexa? Acredita que a facilidade com que se publica neutralizou um filtro editorial e, atualmente, a quantidade alimenta um catálogo contumaz de livros não lidos?

NIVALDO TENÓRIO – Você tem toda razão quando usa o termo contramão. De fato é muito fácil publicar um livro hoje, as editoras pequenas surgem como resistência, mas também como negócio, uma vez que na maioria delas é o autor o responsável em pagar a gráfica. Além do livro, temos a internet, mas apesar dela e sua facilidade e sedução, a publicação em papel continua o sonho de consumo e o fetiche da maioria de quem escreve um livro e deseja vê-lo publicado. É uma equação mesmo, e para mim esquizofrênica, uma vez que me confirma a suspeita de que no Brasil – não sei lá fora – existem mesmo mais escritores do que leitores. E a maior parcela dela é de um tipo estranho de escritor, a parcela de escritores que não compram livros, logo não leem. Conheço alguns do tipo, quase sempre se consideram injustiçados e quando a gente pergunta o que estão lendo respondem que não leem porque temem a famigerada influência. Algo em que notamos um grande zelo pela própria escrita. Fico imaginando como seria aquecido nosso mercado livreiro se todos os escritores comprassem livros. E não sei, Sérgio, confesso que não consigo explicar esse fenômeno de tanta gente escrevendo e publicando, sempre achei que o escritor surgia por causa de amor e obsessão pelos livros – acho que foi meu caso – ou como resultado de uma grande experiência, do tipo que é preciso registrar no papel para alertar a todos de um grande mal ou de uma grande injustiça, o genocídio de um povo, por exemplo ou por algo – e vou citar Augusto dos Anjos – como uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar-se pela humanidade, mas acho que é sentimentalismo da minha parte. Tantos escritores talvez seja só uma forma – para muitos deles, pelo menos – de querer aparecer na foto. O homem nunca gostou tanto da própria imagem como nos nossos dias. Mas nem tudo é ruim; contrariando o tal filtro editorial, fico muito feliz quando é incluído, entre os finalistas de grandes prêmios, autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais. Já faz muito tempo que lamentamos não existir mais crítica literária nos jornais, lamentamos a morte de cadernos de literatura etc, isso talvez seja o que mais atrapalha, mas apesar de toda dificuldade – em razão dessa quantidade absurda de livros publicados todos os dias – é possível sim reconhecer um bom livro. Talvez o reconhecimento não venha na hora, talvez demore ou só ocorra postumamente, mas vem. E quanto à enorme quantidade de lixo publicado, a boa notícia é que o papel é biodegradável.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sinceramente, considero o reconhecimento póstumo a circunstância mais desleal que possa ocorrer com um escritor. Mas voltando a segunda reflexão, seus dois livros foram publicados por uma editora pequena. Foi uma decisão deliberada ou chegou a mandar o original para uma editora grande e não houve o interesse? Você mencionou o lado comercial das editoras pequenas e, na minha opinião, a qualidade gráfica da maioria desses selos pequenos nada deixa a desejar quando comparada a de uma grande editora. Os problemas são justamente a divulgação e a distribuição. A partir de sua experiência, quais são os prós e os contras que um autor lançado por uma editora pequena acaba por se deparar?

NIVALDO TENÓRIO – Eu nunca mandei meus livros para editoras grandes. De antemão, já intuía o resultado, na melhor das hipóteses uma carta educada dizendo que a editora não trabalha com meu perfil de escrita. O dinheiro movimenta o mundo. Quando mencionei o lado comercial das editoras pequenas quis dizer que elas utilizam estratégias de sobrevivência e, entre essas estratégias, a parceria com o autor é uma alternativa viável se se deseja algum lucro, no final. Imagino que uma editora pequena que publica 500 exemplares de um autor ainda desconhecido, embora bom contista, poeta ou mesmo romancista, corre sério risco de não conseguir só com a venda dos livros tirar os gastos da gráfica. As distribuidoras ficam com a porção maior do bolo e algumas livrarias cobram caro, algumas chegam a exigir 50 por cento. Também concordo com você, é excelente a qualidade gráfica de algumas editoras pequenas. Imagino que fazer o livro bonito acaba sendo uma estratégia comercial já que o público dessa editora, embora pequeno, é exigente. Tem bom gosto. Divulgação e distribuição são problemas sérios enfrentados até por médias editoras. Não é em toda livraria que você encontra um livro da Iluminuras ou Editora 34, só pra citar duas que gosto. E se publicaram autor brasileiro, contemporâneo, pior. Para o autor que se autopublica é um problema irreversível, apenas minimizado pelos selos pequenos. Acho que as livrarias também não ajudam e talvez a culpa não seja delas, afinal há tantas publicações de vampiros, bruxos e pastiches de 50 tons de cinza no mercado que as prateleiras simplesmente não cabem. Por isso, algumas ainda concordam em disponibilizar o livro no catálogo virtual. O Brasil é enorme e tal, mas o problema, insisto, é mesmo a falta de leitor. Outro dia ouvi que um autor – não me lembro quem – que ganhou o prêmio São Paulo verificou, um ano depois do anúncio do prêmio, ter vendido 100 livros. Parece mentira, mas não entendo porque alguém mentiria sobre isso. O livro fôra publicado por um grande selo, parece que também ganhara o prêmio Sesc e, com toda mídia e prestígio do prêmio, aumentou suas vendas em apenas 100 livros. Gosto da editora pequena. Algumas alcançaram respeito e isso, no fundo, é o que importa. Fazem um livro bonito e, sem muita pretensão, encontram o leitor especial, interessado em boa literatura. Se o mercado não é milionário, a culpa não é dela. Faz seu papel e o autor encontra seu lugar. Pequenas tiragens e distribuição – mesmo longe do ideal – possibilitam que o livro circule, concorra a prêmios e seja resenhado.

 

DA – Essa história do autor premiado é verídica, eu o conheço pessoalmente. Mas o final da sua resposta me instigou uma provocação: diante do que chamamos de crise de leitor, você acredita que o autor que lança uma edição de 500 exemplares, por uma editora pequena, tem muito mais uma preocupação em colocar um crachá de escritor e entrar para um clube do que ser realmente lido? Neste caso, o livro não seria mais um dispositivo para uma satisfação pessoal do que um meio pelo qual ele possa alcançar o objetivo final de toda obra literária, a atenção do leitor?

NIVALDO TENÓRIO – Falei em 500 exemplares porque é o número que muitas editoras que trabalham com gráfica offset sugerem, 300 ou 500 exemplares. Quanto mais diminui o número de exemplares, mais caro o livro fica. Meu “Dias de febre na cabeça”, edição do autor, a primeira edição, foram 500 exemplares. Na época eu sugeri 300, mas a diferença que a gráfica fazia no preço era ridícula. Então fiz os 500 mesmo sabendo que se livrar deles seria tão difícil quanto se livrar de um corpo. Sim, tem a história do crachá de escritor, concordo com você, mas no meu caso foi só essa lógica de gráfica offset. Algumas editoras estão trabalhando com tiragens bem pequenas, 70, 100 exemplares. Acho o ideal, se houver procura do livro é só imprimir mais exemplares.

 

DA – Você há pouco citou rapidamente os prêmios literários. Com o mercado editorial cada vez mais fechado, acredito que é senso comum de que vencer um prêmio literário é a maneira mais meteórica de se projetar um escritor. Quando se é uma estreia, pode ser até perigoso, pois o autor carrega consigo a responsabilidade de entregar um segundo livro, pelo menos, à altura do anterior. O que pensa sobre os prêmios literários? E, ultimamente, os prêmios no Brasil têm agraciado muitos autores nordestinos. O prêmio Sesc, por exemplo, teve suas últimas edições dominadas por novos autores do Nordeste, tanto na categoria Romance quando na categoria Conto. Como explicar isso? Você consegue identificar uma geração de jovens autores ganhando corpo na região?

NIVALDO TENÓRIO – Devo dizer que pra mim não é surpreendente que prêmios literários agraciem autores do Nordeste. Acho que o Nordeste tem uma sólida tradição de excelentes escritores. Por acaso me lembro do polêmico Bruno Tolentino, ele que era do Rio, poeta erudito que não gostava do Modernismo nem da Cultura Popular, disse uma vez: tirem a Literatura do Nordeste do Brasil, restaria o quê? Sem bairrismo, de fato o Nordeste é rico em escritores, Pernambuco então nem se fala. Manuel Bandeira, Osman Lins, João Cabral de Melo Neto – um dos poucos autores brasileiros que já foi citado para ganhar o Nobel – e Gilberto Freyre, reconhecido no mundo como um gênio. Uma boa representação da literatura contemporânea também é de Pernambuco. Apenas citando os escritores que residem aqui penso em Raimundo Carrero e Fernando Monteiro, só pra mencionar dois. E se falamos em escritores que adotaram Pernambuco, temos o grande Ariano Suassuna da Paraíba (hoje um clássico da Literatura Brasileira), Ronaldo Correia de Brito e Sidney Rocha, do Ceará, autores com uma sólida literatura, todos premiados. Autores que nunca deixaram o Recife. Já faz alguns anos o estado criou um prêmio que só premia autores que residem em Pernambuco, o Prêmio Pernambuco – que recentemente alguém teve a infeliz ideia de mudar o nome para Hermilo Borba Filho, também ele um intelectual de destaque e excelente dramaturgo pernambucano. O prêmio tem revelado autores até então inéditos e de notável qualidade literária, espalhados na região metropolitana e interior do estado. De fato, o prêmio tem poder de revelar o autor, embora isto não queira dizer que todo autor premiado é um grande autor. São muitas circunstâncias e pesa o fator sorte. Mas ajuda, principalmente quando democrático e livre de preconceitos. Por isso, gosto quando encontro, entre os finalistas de grandes prêmios, livros de autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais, isso denota honestidade. Acho que a gente vai precisar de mais tempo e o olhar a uma certa distância para perceber se aqui, na região, houve de fato uma nova geração de escritores fazendo literatura de verdade. Nesse momento, pelo menos, só posso dizer que há muita gente escrevendo e o que se vê publicado aqui não é de jeito nenhum inferior ao que se vê publicado no Sul-Sudeste.

 

DA – Falando em distância, durante seu ofício criativo há uma preocupação com o leitor, quem a sua história poderá atingir e o que pode despertar nela? Certa vez, fiz uma pergunta parecida para um autor, que respondeu não pensar no leitor, pois escrevia para ele mesmo. Achei a resposta arrogante e narcisista. O que pensa sobre isso? O leitor não deveria fazer parte, em algum momento, do processo de construção de um livro?

NIVALDO TENÓRIO – O leitor é fundamental. Preocupa-me muito o leitor. Morro de medo do leitor pouco generoso, o leitor que lê em metrôs, olhando para o relógio, hiperativo, que manipula o celular, que consulta as redes sociais enquanto lê. Tenho medo que minha literatura, para este leitor, assuma algum tipo de hermetismo do qual não me sinto culpado. O conto é irmão da poesia, requer mais de uma leitura. Ninguém lê um poema uma só vez. Quantas vezes eu já não li “Opiário”?, Decerto muitas. Sem o leitor minha literatura fica incompleta. Você poderia dizer, com toda razão, que sem o leitor nenhuma literatura acontece. De fato. O próprio processo de escrita se completa com o leitor. Por isso, necessito de um leitor que me dê a mão, necessito de sua paciência e disposição para amarrar as pontas, quando se fizer necessário, de um leitor que saiba ler os silêncios, que se interesse pela outra história que todo conto conta e sinta prazer em despender toda energia que a leitura lhe exige. O leitor que idealizo é um leitor especial e por ele sinto enorme apreço. A gente se esforça para escrever um livro melhor que outro. Acho que este livro que acabei de escrever é mais maduro que o anterior, mas só quem pode de fato julgar isto é o leitor. Por outro lado, não perco o sono por causa do leitor de gosto médio, o leitor dos livros da moda, o leitor apenas interessado em puro entretenimento. É claro que todos os dias eu o espero de braços abertos, mas não vou perder o dia se ele me ignorar.

 

DA – Seguindo nessa linha do leitor, ultimamente surgiu um movimento do leitor sensível, que tem feito inclusive universidades retirarem de seus catálogos obras com conteúdo considerado controverso. Seus contos, por outro lado, trazem para seus enredos temas pesados, envolvendo fortemente a miséria humana. Como enxerga essa pressão que existe hoje para limar da literatura temas polêmicos que possam ferir certos grupos? Isso lhe faz repensar a ideia de um conto?

NIVALDO TENÓRIO – O primeiro réu desse caso, se não me engano, foi Monteiro Lobato. Queriam censurar e cortar trechos de sua obra por causa do tratamento que Tia Nastácia – por ser negra – recebia. E aí me lembro do Oscar Wilde: um livro não é moral ou imoral, é bem ou mal escrito; eis tudo. Ele tem razão. No caso do Lobato, principalmente, tem a questão do contexto histórico. Eu não acredito numa obra literária que se constitua num panfleto mesmo que as razões sejam as melhores, imagine quando as razões são as de promover discriminação racial ou de qualquer natureza. A obra de Monteiro Lobato não me parece um panfleto, aquilo que Narizinho diz sobre a negritude de Tia Nastácia é corroborado pelo espírito de época. E quem fala é a personagem. Não existe boa arte pautada em normas de conduta, etiquetas e outras frescuras. É só olhar para o passado, o que é que hoje todos acham do processo por imoralidade que sofreu Madame Bovary? Veja, durante essas discussões eu esperei que alguém se manifestasse sobre a Bíblia, pois é difícil encontrar um livro tão politicamente incorreto. Ali há desde discriminação contra a mulher a genocídios determinados pelo próprio Deus. No Decálogo, exatamente no décimo mandamento, Ele determina que o homem não deve cobiçar o servo de seu próximo, e aí não precisa recorrer a exegese para intuir que para Deus a escravidão era perfeitamente aceitável. Natural. E diferentemente de Monteiro Lobato, um homem do final do século XIX início do XX, Deus não é um reles mortal, sujeito ao condicionamento cultural. Então é uma grande besteira esse negócio, começa-se mal porque começa-se descriminando umas obras e deixando outras de lado em nome da mais pura e genuína hipocrisia. Mas acho que quem deve se encarregar de julgar é o leitor. O leitor faz a leitura que quiser. Estabelecer uma censura em nome do politicamente correto é no mínimo ridículo. Não me interessa se Celine era antissemita e simpatizante do nazismo, a mim só interessa o assombro que me causou Viagem ao fim da noite, além do mais ali não há nada que promova as ideias infelizes do autor. A propósito disso, reconheço um bom autor pela sua capacidade de fazer a clara distinção entre suas ideias, ideologias e a literatura. Conheço escritores que também são meus amigos e são, na vida privada, pessoas de forte ardor religioso, e não são poucos, pessoas capazes de uma fé que eu não consigo entender que raios de improbidade intelectual os fazem acreditar nos disparates e contos de fadas de suas religiões, pessoas com uma visão que eu só consigo atribuir ao intelecto mais simplório, mas que no caso deles não é, pois não são ignorantes, alguns têm mais cultura e leram mais do que eu. Então, são questões que eu nem procuro inquirir – tenho mais com que me ocupar – no fundo o que me interessa é que em seus livros não há nada disso e até os invejo por conseguirem tal distanciamento. Mas acho que acabei fugindo um pouco da pergunta. E não, essa pressão e sensibilidade de tais grupos jamais me fariam repensar a ideia de um conto.

 

DA – Por outro lado, você consegue identificar determinados escritores que se colocam por detrás de uma causa, da bandeira de uma minoria, de uma ideologia, e se utilizam desse expediente para chamar atenção para seus escritos? Percebe que a mídia especializada foca, em muitos casos, na condição social desse tipo de escritor e se esquece de avaliar o valor literário, se o livro é, no mínimo, bom?

NIVALDO TENÓRIO – Num mundo que não lê, talvez não seja tão ruim chamar a atenção para um livro em razão de seu apelo social. Sem dúvida, há tais escritores e acho até que são muitos, e suas bandeiras chamam sim a atenção da mídia e de leitores que se veem ali representados. Imagino que deve existir escritores bons e ruins fazendo isso. A mim só interessa a literatura. Literatura pela literatura. Se alguém consegue fazer os dois, se consegue que o carro-chefe seja a força do texto e não o apelo social, tem a minha atenção. E não é de se admirar que a mídia se interesse e promova livros medianos, como você coloca, mas que levantam bandeiras de grande apelo social. A mídia está interessada em notícia. Por literatura se interessa um número bem menor de pessoas e isso não vende jornais, não dá ibope.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Mas ainda, por mais estranho que pareça, são justamente os cadernos e os suplementes literários que permanecem valorizados pelos autores, quando buscam uma resenha ou a divulgação de seus livros. No Brasil, ainda resiste uma cultura de associar projeção aos grandes jornais impressos, de não dar o valor devido ao espaço virtual, à atenção dada aos livros nos sites, blogues e afins. Como analisa essa transição? Os espaços virtuais reservados à literatura são uma maneira de compensar a falta de espaço na mídia impressa ou estamos diante de uma nova geração de críticos, que lidam com a literatura segundo a realidade de seu tempo?

NIVALDO TENÓRIO – Acho que são os dois, Sérgio. Sem dúvida, há uma nova geração de críticos mais antenados com as novas tecnologias e a literatura perdeu espaço na mídia impressa. Talvez o crescimento de uma esteja atrelado ao desaparecimento da outra. Aqui em Pernambuco, noto uma resistência. Há bons jornalistas interessados em escrever sobre literatura. Temos um suplemento cultural, o Pernambuco, que é um dos melhores cadernos de literatura publicados no Brasil. Quanto à preferência dos autores em verem suas obras divulgadas por cadernos e grandes jornais, deve ser um reflexo do próprio desejo de se ver publicado em papel. O cara publicou um livro nas redes sociais e tem milhares de seguidores, mas só se sente publicado de verdade quando seu livro está à venda nas livrarias. É o fetiche, é a tradição. Mesmo os escritores comerciais se sentem assim. Parece que o papel tem o poder de tornar oficial. É verdade que quando sai em jornal uma resenha aquilo só é lido por meia dúzia de pessoas. Todos só tomam conhecimento quando o link da matéria é divulgado nas redes sociais. Acho que essa crítica em blogues e sites vai crescer e vai ganhar mais prestígio à medida que as publicações em jornais ficarem mais raras e, se não desaparecerem dos grandes jornais, existirão apenas em jornais como Rascunho ou publicações artesanais para um número pequeno de assinantes. As facilidades que a internet oferece impediriam que hoje o Osman Lins desistisse de tudo, no Recife e Vitória de Santo Antão, e fizesse a mesma viagem que os sertanejos faziam para São Paulo.

 

DA – E no seu caso? Incomoda-lhe ou, de alguma forma, desanima adentrar uma dessas mega livrarias e não encontrar os seus livros? Qual a extensão que você almeja para sua carreira, para sua escrita?

NIVALDO TENÓRIO – Tudo o que almejo para minha carreira de escritor começa e termina no texto, quanto ao resto não é de meu controle. O meu livro não se encontra em mega livrarias – pelo menos o livro físico – não por ser de péssima qualidade. É exatamente o contrário. Quando entrei pela primeira vez na Livraria Cultura, da Avenida Paulista, não pude acreditar no que via. Mais da metade da livraria era dedicada aos livros da moda. É fácil reconhecer pelo colorido das capas. Não bastou que alguém tivesse escrito um livro tão ruim como “Crepúsculo”, era preciso que aparecesse um monte de imitadores com novos Crepúsculos que ganhariam as prateleiras de tais livrarias. Então, eu não tenho culpa se impera um gosto ruim ou mediano, se todo mundo parece tão carente de autoajuda e entretenimento que só aspira a mais bruxos e lobisomens em aventuras sensacionais. Mas eu estaria mentido se não dissesse que todo escritor deseja sim encontrar seu livro nas vitrines de livrarias. Alguns, quando encontram, chegam até a fotografar e exibir no Facebook, coitados, como um acontecimento realmente fabuloso. E talvez seja mesmo. Então, Sérgio, não me preocupo com isso. Interessa-me fazer um livro melhor do que o último. Este livro, acredito, é melhor do que o anterior, pois minha maior motivação é escrever cada vez melhor, embora isso, claro, quem julga é o leitor, seja lá onde ele estiver.

 

DA – Talvez seja uma heresia perguntar isso para um contista por excelência, mas você já pensou em escrever um romance? Caso não, o que o afasta do gênero? Caso sim, esse seria um próximo livro? Aliás, já tem um novo projeto literário?

NIVALDO TENÓRIO – Nunca tentei escrever um romance – apesar de ser um leitor de romances – mas já pensei sim, embora nunca tenha levado a termo, sequer começado. Encontro no conto o gênero necessário para minha criação. Há as pressões do mercado (que, é claro, eu não levo a sério) e dos amigos (que não sabem apreciar o conto), pois é comum coisas do tipo: e quando vai sair o romance?, como se todo esforço para escrever o conto fosse balela, um talento desperdiçado. Não por tais razões, o mercado que se dane e os amigos que aprendam a ler. Mas vou escrever. Não digo que já tenho um projeto, é só uma ideia que vem me assombrando ultimamente, de transformar um dos contos – porque me sugere uma narrativa de fôlego maior, o caso da tartaruga – em romance. Vou escrever, mas não tenho pressa. Sempre admirei os escritores obcecados por sua obra, que nos dão a ideia de que viveram apenas para escrever, como os russos e Balzac, por exemplo, mas tenho uma natureza infelizmente indolente, depois de um livro preciso de um tempo, mais do que razoável, para de novo me sentar e escrever. Tenho fôlego de contista, nunca estive interessado em quantidade.

 

DA – Diante de todas as frustrações e contratempos que trouxemos à tona, por que então continuar a escrever? Vale a pena ser escritor no Brasil?

NIVALDO TENÓRIO – Publiquei a primeira vez com mais de 30 anos. Escrever sempre foi mais importante do que publicar. A gente não escreve porque isso vai mudar nossa vida. Não vamos ficar ricos e nunca acreditei no exercício da escrita como terapia. Escrever, então, nunca representou obter algum tipo de vantagem. Acho que todo escritor tem dificuldade de responder esta pergunta. Hoje, mais do que nunca, quando para tudo que se faz, logo se espera obter resultados, lucros, vantagens. É isso ou você está perdendo tempo, dizem os pragmáticos. Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo. Não há garantias. Se escrevo e, se continuo escrevendo, faço porque sentiria muito se algo acontecesse que me impedisse de escrever. Não acho que seja mais fácil ser escritor em outro país. Quando a gente pensa no século XX, uma parcela significativa da grande literatura que aparece foi escrita na América Latina do Terceiro Mundo, com problemas de ditaduras e analfabetismo. Faulkner, Carson McCullers e Flannery O’ Connor escreveram no Sul dos EUA de pobreza, Ku Klux Klan e fanatismo religioso. Então, não é num país com problemas sociais resolvidos e índice zero de analfabetismo o lugar ideal para escrever e ser lido. Não há lugar ideal para escrever. Ouvi de uma editora francesa que, em Paris, o escritor ou escritora lança seu livro nas livrarias pequenas, lugares aconchegantes, cheias de histórias, com fotos de Hemingway penduradas nas paredes. Os lançamentos contam sempre com um público de 30 pessoas, no máximo, entre as quais se contam esposa, filhos, pais, parentes e amigos do escritor. O problema é maior, vai além das fronteiras, e tem a ver com a perda de certa noção da subjetividade. Mas uma coisa eu posso garantir, em todo tempo e em todos os lugares houve e há dificuldades, nenhuma delas, entretanto, é páreo para o desejo de escrever.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desobediência. Palavra que carrega em si um peso imediato. A uns, espanta e até mesmo repele; a outros, é frente de acolhida. Em tempos de cinismo, hipocrisia, reavivamento ultraconservador e de uma teatralizada desonestidade intelectual a nos rondar, ser desobediente pode se revelar uma valiosa e efetiva maneira de se estar no mundo.

É conveniente frisar que desobedecer não é uma atitude gratuita de simplesmente nadar contra a corrente de um ordenamento jurídico, político, social ou econômico com um banal artifício retórico. Significa entender-se como sujeito permanente de transformações, o qual luta acima de tudo para tornar presente a sua vez e voz num panorama necessário de existência pela preservação daquilo que lhe é demasiadamente humano e caro, a identidade própria.

Diante de um cenário de adversidades, o qual não é apenas secularmente constituinte de um país como o Brasil, há vozes que precisam se fazer presentes e, desse modo, marcar suas preciosas posições de existência. Aliando-se a este tipo de entendimento, uma poeta como Daniela Galdino faz do seu caminhar um permanente movimento de afirmação nos mais plurais níveis. E presenciamos esse vigor expressivo não apenas nos seus escritos, mas sobretudo nas frentes em que atua.

Dona de uma voz transgressora que demarca e expande a sua consciência do que representa ser mulher num mundo como o nosso, Daniela também se espraia pelos territórios da performance, do ensino e do ativismo cultural. Este último vem muito envolto numa noção sócio-política de engajamento frente a questões ligadas à visibilidade das mulheres, bem como aspectos importantes associados às temáticas de gênero.

A autora do emblemático livro de poemas Inúmera (Ed. Mondrongo), através do qual deixa transbordar toda a sua íntima, plural e peculiar visão de mundo, agora dedica o continuar de seus passos para a difusão do coletivo de poetas e fotógrafas Profundanças 2. Celebrando sua segunda investida editorial, esta obra privilegia as expressões de mulheres que se insurgem contra o manto da invisibilidade, o qual, dentro de uma nociva construção social, tentam lhes imputar cotidianamente.

O momento presente, pontuado nesta entrevista, pede que falemos sobre os desdobramentos de Profundanças 2, sua pungência diante dos duros cenários que pululam na atualidade. Urge também falarmos sobre Missivas, performance que Daniela Galdino tem realizado e que alerta para silenciamentos em torno da mulher. Por tudo isso, o agora se volta para ouvir uma artivista que cada vez mais abre seus caminhos para o diálogo com outras vozes. É preciso tirar os móveis do lugar, desarranjar viciadas estruturas, abrir caminho para o outro, sua verdade e inteireza.

 

Daniela Galdino / Foto: Ana Lee

 

DA – Na apresentação de Profundanças 2, você emprega o termo re-existência como um símbolo que situa as expressões das mulheres dentro de um contexto de afirmação identitária. Qual o sentido maior de fazer com que tais vozes não se calem?

DANIELA GALDINO – O sentido da desobediência, sobretudo. Em tempos tão ameaçadores à nossa sensibilidade, escrever literatura, atuar na coletividade em busca de leitoras/es, devolver os insultos cotidianos com poesia (por exemplo) é desobedecer à ditadura do pavor e do desencanto. Então, resta-nos dizer e nos associar a outres que também têm muito a dizer. É por isso que na apresentação da antologia Profundanças 2 também afirmo que “agora estamos irmanades pelo grito” e que “odiadores não representam a totalidade do mundo”. Entendo a re-existência como um intenso desafio de reelaboração de si e dos lugares que ocupamos ou pelos quais transitamos. Não podemos sucumbir à desesperança. Isso seria um total desrespeito àquelas que nos antecederam e, com luta/sonho/sensibilidade, abriram veredas para que atravessássemos. Não penso que a literatura deva se dar ao luxo de ignorar esses desafios. A palavra literária é grávida de vida, de cotidiano, de embates, de delírios, de transgressões.

 

DA – Da primeira edição até aqui, o que mudou fundamentalmente? O momento atual, o qual nos toma de assalto com toda sua nebulosidade, configurou uma nova tomada de consciência? 

DANIELA GALDINO – A primeira edição de Profundanças é de 2014. De lá pra cá, o país foi assolado por um golpe já denunciado pela imprensa, inclusive internacional. Em linhas gerais, essa foi a principal mudança para pior. No entanto, isso não significa que as outras formas de violência, as opressões (raciais e de gênero, por exemplo) sejam recentes. Não mesmo. A consciência crítica que nos leva a combater tais opressões também não é recente. Na literatura, a genealogia dessa consciência crítica é extensa, nos leva para o século XIX, se pensarmos em escritoras/es negras/os aqui no Brasil. O problema é que os espaços de consagração ou divulgação literária (como a universidade, as academias de letras, a escola, festas/festivais literários e mesmo o mercado editorial) historicamente têm tornado invisíveis as produções literárias que revelam discursividades dissidentes. Recente é o acordar (ainda lento, por sinal) de produtores de eventos, escolas, editoras para as “outras” vozes – negras, feministas, lgbti, etc. – e suas criações literárias. Alguns espaços sequer as reconhecem, como é o caso de boa parte das academias de letras, ainda insistindo naquele discurso desgastado: literatura é literatura e se basta, não deve ser “contaminada” por outras questões. Entendo que o estético e o político não devam ser apartados. E assim tenho sobrevivido como artista que dialoga com outres fazedores de artes. Estão nos bombardeando a todo instante. À literatura cabe a “tranquilidade” de se colocar à parte disso? A minha resposta é um estrondoso não. E, em verdade, a literatura não está isolada no mundo, há intensas formas de ativismo literário, de artevismo (como se diz).

 

DA – Com estas vozes dissidentes a que você se referiu, uma nova perspectiva de linguagem surge, algo evidenciada sobretudo pela forma de grafar certas palavras. E, sabemos, isso potencializa uma importante vertente discursiva. Acredita que tais mudanças no trato linguístico precisam também ser incorporadas nas práticas formais?

DANIELA GALDINO – Sim. Bem sabemos que a língua é reelaborada no social, que está em constante transformação. Em Profundanças 2, por exemplo, temos a presença de duas artistas trans não binárias, sendo uma delas da fotografia. Daí, generalizar pelo masculino se torna incômodo, não só para essas artistas, como para nós que construímos o projeto na coletividade. No âmbito do projeto passamos a grafar o termo “Fotógrafes”, como uma provocação para que outros gêneros sejam representados para além do binarismo masculino-feminino. Entendemos que não se trata só de uma troca de palavras, mas de um amplo sentido relacionado às formas de igualdade de gênero, o que, desejamos, devem ser incorporadas nas práticas cotidianas.

 

Daniela Galdino em Missivas / Foto: Ana Lee

 

DA – Quando você observa o resultado de um projeto como o Profundanças, consegue vislumbrar a presença efetiva de alguma transformação no campo das representações sociais?

DANIELA GALDINO – Profundanças é um projeto que está em curso, estamos no segundo livro num período de pouco mais de dois anos. Então, transformações serão percebidas no processo. Como é um projeto que combate a invisibilidade de escritoras no cenário da literatura, já se torna provocativo, ainda mais por ter a visualidade como algo importante. As duas antologias publicadas trazem, além dos poemas/contos/crônicas, ensaios fotográficos. Isso não é aleatório. Desejamos difundir imagens dessas escritoras em seus lugares de origem e/ou atuação, evitando qualquer forma de objetificação. Importante, também, por se tratar de um projeto que traz, em sua maioria, escritoras inéditas, muitas delas negras. Então, essa visualidade, esse contato de leitoras/es com imagens dessas escritoras, é uma forma de oposição à invisibilidade a que me referi há pouco. Além disso, Profundanças provoca deslocamentos, encontros. Cito como exemplo a poetisa Dayane Rocha que, apesar de ser pernambucana, não conhecia a cidade do Recife. Foi a partir de uma atividade do projeto (uma roda de conversa realizada no Espaço Pasárgada, em agosto/2017) que Dayane esteve pela primeira vez na capital do seu estado. Eu estava com ela e presenciei uma cena profundamente tocante. Chegamos ao Recife numa quinta-feira à noite, a cidade naquele intenso movimento de rua (trânsito frenético, pessoas saindo do trabalho, ônibus lotados). Nos dirigimos ao prédio onde ficamos hospedadas e, da janela de um vigésimo andar, vi Dayane chorando muito e observando os prédios imensos que restringem a visão da paisagem. Ela me disse: “quero voltar pra Brejinho”. Na manhã seguinte, eu me acordei com um poema que ela escreveu bem ao modo da tradição do Pajeú, o seu sertão (e ainda nos deixou um poderoso mote: “Recife, tu és mais dura/ que coração sem poeta”):

 

Buzinas, carros, barulho
O teu céu reflete prédios
Tua gente vira entulho
Por conta dos intermédios.
Tua paz é estressada
Até mesmo a passarada
Canta uma nota incompleta
Cantando na partitura…
Recife, tu és mais dura
Que coração sem poeta.

 

Trago esse exemplo para dizer que os encontros têm acontecido. Encontro com outras, com nós mesmas, com as estranhezas cotidianas… e isso tem nos transformado a todo instante. Dia desses, numa conversa in box, Renailda Cazumbá (escritora baiana que está em Profundanças) me disse: “você é uma refazedora de novos lares! Lares poéticos”. Somos colegas de trabalho na universidade e, aos poucos, comecei a desconfiar que Renailda escreve. Perguntei pela primeira vez, em 2013, ela disse que não. Na segunda vez, não perguntei. Já enviei o convite para ela participar de Profundanças, em 2014. Inicialmente ela não aceitou, depois foi convencida. Dito e certo: ela me enviou arquivo com poemas datados (alguns do final da década de 80). A partir disso, Renailda tem sempre relatado como foi difícil atribuir a si o nome de poeta; como tem disso uma revolução interior: se ver ao lado de outras mulheres que escrevem. Estou falando de uma mulher negra nascida no recôncavo baiano e vivida no sertão. Uma mulher que me diz: até a minha casa deixou de ser a mesma depois disso (a sua primeira experiência de publicação literária).

Já podemos falar de abalos na representação de si. E isso também envolve leitoras, leitores que temos encontrado pelo caminho. Pessoas diferentes nos mais diversos espaços (ruas, escolas, universidades, coletivos culturais, redes sociais, eventos etc) que têm nos feito relatos sobre a importância de se reconhecer na escrita e na imagem das escritoras que estão nos dois livros. Acho que a primeira poderosa transformação a que posso me referir é essa.

 

DA – Você crê que a literatura voltada para o ambiente virtual encerra uma substancial dinâmica de construção das identidades?

DANIELA GALDINO – Eu entendo que a literatura divulgada em ambientes virtuais nos insere em outras dinâmicas de diálogos com leitoras/es. Para você ter uma ideia, o primeiro volume de Profundanças já foi lido em escolas públicas, tivemos notícia de que circulou em turmas de um programa de formação de educadoras/es no sertão baiano. Ao mesmo tempo, numa pesquisa na internet, descobri que uma docente da UENF e IFF, a Analice Oliveira Martins, iriá apresentar uma comunicação acadêmica em Portugal (o Seminário Mundial de Estudos da Língua Portuguesa, outubro/2017). Nesse trabalho a profa. discute antologias literárias brasileiras e ensino, dentre as obras analisadas está Profundanças 1. Imagina a minha surpresa! Outro exemplo da repercussão: em novembro deste ano a mestranda Elis Matos (UESC) estará numa congresso na Argentina, apresentando um trabalho que aborda o feminismo não binário a partir do poema “Enquanto meus pés balançam”, de JeisiEkê de Lundu, que foi publicado em Profundanças 2.

No nosso caso, publicar um livro virtual resolve uma questão: a falta de recursos financeiros. Tem mais: Profundanças é um projeto independente, já nasceu na contramão e até o momento não vislumbrei captação de recursos via edital, por exemplo. Pode ser que no futuro façamos a opção pelo livro impresso. Por enquanto, a virtualidade tem nos levado ao encontro de leitoras/es distantes e desconhecidos. Eu, por exemplo, não conheço a Profa. Analice Martins, só depois de encontrar o resumo do seu trabalho na internet, fiz contato por e-mail.

Por ser um projeto que envolve imagens (ensaios fotográficos), sei que Profundanças demandaria custos relativamente altos. Isso talvez limitasse a quantidade de exemplares a serem impressos e, consequentemente, reduziria o público que teria acesso. O livro virtual tem nos dado uma maior liberdade nesse diálogo palavra-imagem e a grande aventura é saber que a circulação é ainda mais imprevista. Talvez tudo isso influencie a construção de identidades.

 

DA – Sua performance Missivas traz à tona importantes reflexões sobre a invisibilidade da mulher em nosso tempo. Desde o início do espetáculo, já somos tomados de assalto pela metaforização de um peso através da melancia que você carrega e vai passando, ao longo do caminho, por mãos masculinas. O que dizer desses sinais de alerta? 

DANIELA GALDINO – São incontáveis os sinais de que o patriarcado e seus tentáculos imputam a nós, mulheres: a inferioridade, invisibilidade, o aniquilamento. As violências se manifestam de várias formas e, o pior, vão se cristalizando como normalidade. A violência não tem existência por si só. É uma fabricação social e, como tal, necessita de sujeitos que movam essa roda. Por outro lado, se a violência é criada em sociedade, é nesse mesmo espaço que ela deve ser desconstruída, desfeita. Como proceder? Denunciando, (des)educando, descolonizando mentes e saberes, refazendo práticas cotidianas. O meu espaço de atuação tem sido a arte: a poesia e a performance. Como performer, tenho como prioridade sair do palco tradicional e ocupar as ruas e outros lugares aparentemente inadequados para a atuação artística. Prefiro me inserir no cotidiano das ruas, dos pontos de ônibus, dos mercados, das feiras – com seu ritmo, com seus sons, gritos e silêncios. Tem sido uma experiência fortíssima, pois a rua me traz o imprevisto, a possibilidade de interagir diretamente com desconhecides. E o contato – seja pelo choque ou acolhimento – faz de cada apresentação uma estreia. Tenho buscado esse diálogo, primeiramente, com as mulheres com as quais me encontro; mas é imprescindível deslocar, provocar e dialogar com os homens também. Só acredito em arte que potencialize as transformações (de si, de nós, do mundo).

 

DA – Como você percebe a reação do público masculino diante de uma performance que o põe no cerne de uma discussão?

DANIELA GALDINO – Missivas se divide em dois espaços: a rua, com um cortejo; e um ambiente que minimamente garanta condições adequadas para a trilha sonora e interpretação dos poemas. Nesses espaços as reações dos homens têm variado entre o espanto, o incômodo e até mesmo o desprezo. Explico essa última reação: na rua a performance implica em entregar uma pesada melancia para os homens, enquanto entrego cartas poéticas para mulheres e também digo frases secretas no ouvido delas. Ao mesmo tempo em que interajo com cartas e sussurros às mulheres, os homens seguram a melancia. Muitos já recusaram, teve até um, em Garanhuns (PE), que me hostilizou. Outros ignoram completamente a minha presença, desviam o caminho. A maior parte dos homens têm se incomodado, mesmo “aceitando” segurar a melancia. O desconcerto é visível, eles não sabem o que fazer com esse peso. Há, também, a reação na segunda parte da performance, quando interpreto os poemas e outras formas de interação com o público se desenvolvem. Geralmente fazemos uma roda de conversa após a performance e não houve uma só vez, desde a estreia (em março de 2016), em que não houvesse depoimentos de homens que assumem estar perturbados. Sinceramente, sinto prazer ao perceber essa perturbação que nada mais é do que o contato com as nossas palavras de mulheres dissidentes, com a ação performática e o convite para participar, acolher em si os desajustes. Importante dizer também que Missivas tem trilha sonora ao vivo e a proposta é convidar um músico a cada apresentação/temporada, que traz o seu repertório para dialogar com a proposta. Tenho feito questão de convidar homens para fazer a trilha porque dessa forma eu também os provoco, enquanto artistas, a ler/ouvir e se contaminar com o que nós, mulheres, escrevemos. Até então os parceiros musicais têm revelado incômodos e verbalizado isso nas rodas de conversa. Eles entram na performance e também percebem que, naquele instante, não são protagonistas; talvez aprendam a ouvir, não silenciar… Enfim, lógico que as transformações não são imediatas, mas só em gerar esse incômodo, já é maravilhoso pra mim enquanto artista dissidente.

 

DA – E o que dizer da interação das mulheres em meio às provocações sugeridas  por Missivas?

DANIELA GALDINO – Tem sido uma experiência incrível do cortejo à roda de conversa que acontece pós-performance. Estou circulando com Missivas desde março de 2016 e em todas as apresentações aprendi algo forte. As mulheres têm me ensinado muito. A forma de interação é diferente. Não digo que elas sintam mais do que os homens – isso nunca poderemos medir, o território do sensível -, mas a resposta tem feito do ato performático um intenso espaço energético. Tenho várias histórias para contar sobre Missivas, comecei a elaborar o diário da performance, sempre escrevendo dias depois de cada apresentação. Na verdade, relatos curtos que me façam lembrar do que aconteceu. E esses relatos trazem as mulheres na linha de frente. São várias histórias. Cito três.

Em 2016, numa das apresentações, uma jovem teve um ataque de choro e aquilo me chamou muito a atenção. Após a roda de conversa eu notei que ela estava abraçada com dois colegas gays e que os três choravam muito. Fui lá e ouvi isso: algo na performance disparou a memória dolorosa do estupro que a jovem havia sofrido há dois anos. Fiquei paralisada, a performance não fala de estupro, mas a força de tudo o que a moça tinha presenciado e vivenciado em Missivas ativou essa dor. Chorei junto com ela e os amigos dela. Algo que não foi publicizado, ficou entre nós. Difícil esquecer o que aquela moça me disse: “quando eu fui estuprada, era inverno, eu estava de calça, botas, casaco… e ainda assim o cara me violentou… ou seja, nenhuma mulher pede pra ser estuprada, nada justifica o estupro, nem mesmo se a vítima estiver com roupas curtas. Violência é violência”.

Recentemente, em Itabuna, eu estava fazendo o cortejo de Missivas para que um professor da UFSB (o Rafael Guimarães) fizesse o registro audiovisual que vai gerar uma vídeo-performance com fragmentos do trabalho de várias artistes. No cortejo, logo de longe avistei uma mulher que me chamou a atenção, me dirigi a ela e disse a frase secreta. Ela ficou paralisada, olhando profundamente nos meus olhos. Percebi que era uma mulher com transtornos mentais, retribuí a profundidade do olhar. Segui o caminho porque nessa parte da performance priorizo a comunicação com o olhar, sem mais palavras. Só que a mulher me seguiu, me perguntou: “o que é isso que você está fazendo? Por que você me disse aquilo?”. E eu não respondia com palavras, apenas com o olhar. Mas ela não se deu por vencida, me seguiu de novo, segurava a barra da minha saia e repetia a pergunta. Ela parou na minha frente, olhou de forma profunda e falou: “Não fique assim, você está tão bonita”. Depois, segurou no meu braço (sem impor força) e de forma acolhedora me disse: “Você tá bem? Tá precisando de alguma coisa?” Aquilo me emocionou, eu chorei retribuindo o olhar profundo daquela mulher e segui o meu caminho.

O terceiro exemplo foi em Ilhéus. Também no cortejo, me deparei com essa cena numa praça: uma idosa vendendo churrasquinho. A praça fica perto de um ponto de ônibus. No momento, havia incontáveis pessoas, pois o horário era de final de expediente. Apesar do intenso movimentar, ninguém me atraiu mais do que aquela mulher de marcas profundas na face.

Performance, pra mim, é um mergulho no imprevisto. A minha guia são as energias do momento. Eu também tenho amor pela rua – esse espaço-turbilhão onde o instante se consagra no diálogo com desconhecides. Pois sim. A energia me levou até aquela senhora trabalhadora. Cheguei perto dela e disse a frase secreta. Os olhos dela ficaram inundados; os meus, cheio de marés. Por alguns segundos nos olhamos fixamente. O instante se consagrou. Segui o meu rumo, mas me virei para trás e, novamente, conversei com o olhar inundado daquela mulher. Fiquei forte. Prossegui.
A fotógrafa Izabella Valverde (a qual não conheço) consagrou o instante pela segunda vez. E a cada momento em que olharmos para essa imagem, reviveremos o instante e acolheremos em nós as lutas, as inundações e a singeleza dessa senhora. A rua me ensina a cada ato performático. Sou grata a todas as mulheres que tenho encontrado pelas veredas…

 

Daniela Galdino em Missivas / Foto: Izabella Valverde

 

DA – Em que medida a convergência entre poesia e performance amplia as possibilidades de libertação pela arte?

DANIELA GALDINO – Nessa convergência só vejo desmedida. Sou uma artista em constante reelaboração, o que significa dizer que não meço as formas de ampliação do processo libertador. Quando as fronteiras entre linguagens artísticas e entre artista e público são rasuradas, o inesperado se apresenta. Gosto disso. Demorei para desenvolver essa consciência, sabe? Primeiro me assumi poeta. Há sete anos tirei a performer que estava no armário. Já havia feito teatro universitário nos anos 90, foi uma experiência incrível. No entanto, o mergulho na criação poética foi me trazendo uns estremecimentos que inicialmente eu não soube processar. Acolher e reler em mim esses impactos redefiniu caminhos. O entrelugar, a atuação híbrida que atrai a poesia para a performance e vice-versa têm me ensinado bastante. O caminho está se construindo nos caminhares, nos encontros, desencontros (comigo mesma e com o público). Esse processo já é libertador.

 

DA – Quem é Daniela Galdino? 

DANIELA GALDINO – Uma mulher desobediente, sonhadora, fazedora de incêndios íntimos. Sou uma incansável artista que não vê separação entre o estético e o político. Aprendente e desaprendente. Sou uma “rameira das palavras”, “uma interrogação vagando com pressa”. Sou esta que vive atenta ao mundo invisível e seus poderes; atenta às outras mulheres – seus desejos, delírios. Um poema que representa esse estado é “Arada” (publicado em Profundanças 2 e inserido no meu próximo livro, Espaço Visceral). Eis:

 

arada

 

ostento cara de terra
espírito de poço
índole mar

remota felicidade
sempre tive
irrigada padeço

estranheza, pra mim,
é abre-te sésamo

vagueio em cova funda
porque estou semente

gozo no sereno
inerte
numa pedra de amolar

corro as sete freguesias
e fastio não me alcança

levo fachos de gritos
aonde me querem muda

replantando-me
dou cestos fartos

 

Daniela Galdino em Missivas / Foto : Ana Lee

 

* Para baixar Profundanças 2, clique aqui.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O quanto pode encerrar a potência e os caminhos de uma voz que se quer dedicada à poesia? Por certo, há mais do que uma vontade de dizer coisas ao mundo, de vociferar intenções discursivas advindas da mecânica do pensamento. Não basta intentar criações como se estas fossem um mero jogo de representação dos sintomas pulsantes da vida e seus entornos. Desconfiamos, pois, que há muito mais por trás daquele que se mostra em palavras e versos ao mundo.

O poeta a quem dedicamos atenção agora abarca uma peculiar condição de estar no mundo, qual seja a de mostrar-se inquieto e desperto diante de questões que marcam sobremaneira a seara humana no quesito das identidades. É Jorge Augusto, intelectual baiano, educador, artífice do verso, editor e, principalmente, ativista cultural quem nos oferta possibilidades de diálogo a partir de um tão complexo território que é a literatura.

O Jorge com quem conversamos está envolto nas transformações que o tempo impôs a seus escritos. Desde os primeiros poemas, cobertos pela égide do desejo, até o momento presente, o autor tem revelado uma maturidade estética que é consequência natural de um processo pessoal de busca. Um de seus mais importantes projetos aponta para a condução da Organismo Editora, coordenando a Coleção de poetas baianos inéditos, bem como a Revista Organismo. É doutorando em Literatura e crítica da cultura pela UFBA. Na área de Literatura Brasileira, o cerne de suas pesquisas está voltado para temas como decolonialidade, modernismo brasileiro e literatura negra. Hoje, integra o corpo docente do IFMA.

Com poemas publicados na Antilogia – organização de coletânea entre poetas de Bahia e São Paulo (2011), no livro de poemas do Sarau da Onça, e na antologia Enegrescência (Ed. Ogum’s Toques), dentre colaborações para sites e revistas variadas, Jorge vai deixando entre nós os indícios de uma expressão que contempla uma percepção aguçada sobre a existência. Decerto, são revelações de uma alma que tenciona desarranjar acomodações e cujo alicerce do pensamento aponta para o ato frequente de vislumbrar a crítica salutar sobre o que está posto em matéria cultural.

O Jorge Augusto que nos confessa certo e atroz desengano diante do presente não repousa seus arremates no solo estático da desilusão. Pelo contrário, evidencia uma provocação que, em última instância, sugere uma mudança de rumos situada nalguma via de renovação. Como esta se dará só o futuro pode nos asseverar.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Parte de sua produção poética possui uma atmosfera marcada por elementos sensoriais que sugerem instigantes percursos através dos sentidos, sobretudo no que se refere à construção do desejo. Em que medida essa característica é constituinte do poeta que você é hoje? 

JORGE AUGUSTO – Acredito que em pouca medida hoje. Confesso que quando li/ouvi sua pergunta, fiquei pensando com o que nos meus poemas ela dialogava. Porque nenhum dos poemas publicados nas antologias, que foram as últimas publicações, têm essa presença dos elementos sensoriais, pelo menos não deliberadamente, não por vontade, e consciência. Mas logo lembrei das revistas e dos poemas que publiquei, mais ou menos  em 2007 (período que comecei a publicar), na Germina Literatura e na Diversos Afins, no projeto Uníssono, por exemplo. E sua pergunta fez sentido para mim. Então, tive que respondê-la primeiro para mim, escutar a resposta, para depois dizê-la. Mas, sobre a construção do desejo, eu acredito que, assim como a fala na psicanálise, muitas vezes na escrita, mesmo e, sobretudo, à revelia do sujeito, há um exercício infinito, talvez, de elaboração do desejo ou da consciência dele. E desejo, aqui, no sentido amplo, desejo de revolução, de mudança, de foda, desejo de estar vivo. Enfim, acho que dos primeiros poemas para cá, e creio ainda está nos primeiros (e talvez já últimos), esse lugar, esse objeto do desejo, tenha mudado, ou melhor, expandido, alargado. Deixou de estar fixo no reduto do corpo e elasteceu-se a outros muitos corpus.

 

DA – Nesse processo de expansão de sua consciência poética, há uma preocupação intencional de se fazer ouvir por uma postura ideológica diante do mundo?

JORGE AUGUSTO – A postura ideológica diante do mundo vai, em qualquer expressão de linguagem, mais ou menos camuflada, mais ou menos exposta. Mas está sempre lá, na palavra, no silêncio, ou no silêncio da palavra. Acho, por exemplo, que o que você chamou de “preocupação intencional” em demonstrar uma ideologia pode estar, muitas vezes, melhor relacionada a uma escolha formal do que conteudística. Embora, para mim, o bom poema seja aquele em que essa separação forma-fundo é o menos visível possível, ou melhor, aquele em que essa divisão nem exista. E de resto não acho que foi uma “expansão de consciência poética”, mas uma mudança de opção, uma escolha estética, porque o tema, também, compõe a forma.

 

DA – O poeta deve ter um compromisso com o seu tempo?

JORGE AUGUSTO – Eu não acredito numa função trans-histórica do poeta. Não acredito que o poeta, ou a poesia, tenham uma função. Estas perspectivas acionam uma espécie de metafísica que não agencia nenhuma potência humana. Porém, acredito no papel histórico do (a) poeta. E são duas coisas completamente diferentes. O papel que o poeta deve desempenhar em seu tempo não tem nada a ver com uma função da poesia em si, transcendental e atemporal.  Pelo contrário, diz respeito ao uso que o poeta empresta à poesia em determinado contexto histórico. Esse papel não tem necessariamente nada a ver com o desejo do poeta, nem do seu tempo, mas com o que é necessário a esse tempo. Por isso, a poesia deve ser pensada numa relação ético-estética. A forma não é meramente uma construção estética, mas ética.  Nesse sentido, inverte-se aquela equação famosa em que o “grande” (assim entre aspas) poeta é aquele que ultrapassa sua época e está além do seu tempo, o bom poeta passa a ser aquele que entende que tipo de poesia o seu tempo precisa propor, que tipo de violência sobre a linguagem é necessária àquele tempo. Tanto a revista Noigandres quanto os cadernos negros foram, como projetos literários, igualmente importantes à literatura brasileira, em suas dimensões éticas e estéticas. É por causa disso, desse papel histórico que a poesia pode ter, que hoje é tão complicado pensarmos numa vanguarda ou numa estética que represente uma coletividade grande, de forma hegemônica, porque a sociedade globalizada é multitemporal e, consequentemente, com diversas necessidades diferentes, mesmo dentro de um único território político, como é o caso do Brasil. Assim, a poesia ganha vários, múltiplos papeis, num mesmo espaço-tempo.

 

DA – Há quem defina que a literatura não precisa ser dividida em frentes de atuação, sobretudo no que se refere às vozes pertencentes às minorias, tais como negros, gays, mulheres etc. Qual olhar você lança sobre esse tema, tendo em vista que a literatura é um importante instrumento de expressão identitária?

JORGE AUGUSTO – Essa questão carrega para mim uma série de falsas tensões. Por exemplo, é comum ouvir algum crítico ou “estudioso” da literatura perguntar: “por que chamar de “literatura negra”, ou de “literatura feminina” se a literatura é universal? Adjetivar a literatura é restringi-la e diminuí-la”. Essa fala, mil vezes dita e repetida nos mais diferentes círculos de conversa sobre literatura, é exaustivamente cansativa. Esse tipo de argumento mostra, ou uma ignorância do tema, ou um mau-caratismo, porque se tem algo óbvio na literatura, é que ela sempre foi adjetivada. Chamar uma literatura de inglesa, francesa ou alemã não é adjetivá-la? Chamar uma literatura de ocidental, não é adjetivá-la? Quantos livros de história da literatura ocidental (Europa, claro) nós víamos pelas prateleiras das livrarias? O que é necessário compreender é que essa adjetivação era também identitária, pois remetia, em grande parte, a relações entre os textos e a nação, ou língua e nação, ou texto e língua. É nesse sentido que alguns críticos chamam (ou chamavam) de literatura inglesa tudo que foi escrito em inglês, e que cada nação tomava para si um conjunto de textos e adjetivava. Ora, o que aconteceu nas últimas décadas foi uma reorganização, uma reorientação das construções discursivas sobre a identidade. Uma série de formações discursivas que viviam obliteradas sob as metanarrativas nacionalistas e marxistas ganharam novo protagonismo com o fim da esperança (pelo menos por agora) em uma sociedade não capitalista. Uma nova série de sociabilidades vai ganhando fôlego e politizando suas demandas e subjetividades, e, claro, essas sociabilidades engolidas historicamente pelas narrativas nacionais totalizantes precisam agora construir-se histórica e discursivamente como as nações se construíram. E para isso usam a literatura, porque, como todos sabemos, identidade é construção de linguagem. Portanto, não há absolutamente nada que diferencie, metodologicamente, chamar uma literatura de chilena, ou de negro-brasileira, os mecanismos discursivos de construção dessas adjetivações são os mesmos.

Outro argumento, um pouco mais respeitoso, mas ainda assim muito frágil, é a ideia de que, para chamarmos uma literatura de “feminina”, por exemplo, ela teria que ter necessariamente uma inovação formal que a diferenciasse das demais literaturas que a rodeiam com outros adjetivos pátrios. Essa proposição tem equívocos. Um deles é o de que não foi uma característica estética determinante quem fez com que as literaturas nacionais ganhassem seus adjetivos. Se não, poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Castro Alves e tantos outros não seriam considerados literatura brasileira. Mesmo nosso modernismo assinalava no plano formal vários diálogos com as vanguardas europeias, como qualquer estudante sabe. É preciso compreender coisas muito simples, como o fato de que as revoluções formais que ocorrem na literatura, como Modernismo, Concretismo, Romantismo, agenciam conjuntos de textos. Já as adjetivações literárias como literatura brasileira, literatura feminina, literatura russa, literatura homoafetiva, agenciam coletividades de sujeitos. São coisas bem diferentes, mesmo podendo eventualmente misturar-se, num determinado contexto histórico, mas que são independentes umas das outras, pois uma diz respeito a como se produz, e a outra, a quem produz.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Como você observa a dinâmica da construção das identidades no contexto digital, mais precisamente no que diz respeito às novas vozes autorais que publicam seus escritos em revistas digitais?

JORGE AUGUSTO – Acho que não sei responder esta pergunta, mas gosto de especular. Primeiro, acho que quando pensamos na produção de identidades no contexto digital, partindo da escrita, e aí acho quase impossível limitar a noção de escrita a texto, não temos como restringir esses autores ao contexto de publicação em revistas digitais. Antes, a ideia, para mim, seria pensar esse autor desde o post no facebook até o poema que sai no livro, que em muitos casos é o mesmo. Nesse sentido, não consigo pensar em outra possibilidade senão de chamar performance isso que você chamou de “construção identitária”. Essa performance diz respeito diretamente à relação entre autor e leitor, pois a internet e suas possibilidades de conexão e publicação possibilitaram um circuito de afetos novos ao poeta. O poeta e a poesia, como sabemos, são os patinhos feios das linguagens artísticas na indústria cultural de massa. O poeta é o mais barato, o que põe em circuito menor circulação de capital, e, por isso, não goza das mesmas projeções de publicidade que outros artistas. O poeta e sua obra estão quase sempre restritos ao próprio campo literário. Porém, as possibilidades de interação propiciadas pela internet abrem um novo circuito de circulação dessas obras e poetas que independe de acesso direto aos grandes veículos de divulgação massiva. E o mais perto que o poeta chega de ser pop é ter uma grande quantidade de seguidores nas redes sociais. O ápice é virar letrista de músicos famosos. Até aí o que há nessa presença do poeta no contexto digital são aspectos positivos: divulgação de sua obra e interação com o público, facilidade de acesso aos poemas e poetas, construção de uma rede de contatos e discussão entre autores, público e crítica etc.

Mas, a partir daí, o que nos interessa pensar é: que efeitos esse contato íntimo com o leitor causa na identidade, na performance do poeta enquanto poeta? E estamos diante de um fato: poeta nenhum escreve um poema por dia. Entramos aí talvez num jogo meio esquizofrênico, mas muito comum nas redes sociais, que é um trabalho de manutenção dos leitores, que só pode ser feito para além do texto literário. Assim, piadas, fotos, opiniões sobre tudo e qualquer coisa, interação contínua, etc., compõem o quadro de uma performance que não é mais, em muitos casos, de um poeta, ou escritor, mas simplesmente de uma pessoa pública.  A poesia, em alguns casos, vai, pouco a pouco, ficando em segundo plano. Isso é muito mais comum do que parece. Um poeta muito pop não é necessariamente um poeta lido, embora isso possa tranquilamente acontecer.  Em suma, o perigo nessa relação performática que atravessa a visibilidade do escritor e sua obra, expondo-os ao contato direto e cotidiano com o leitor, é tudo acabar num jogo de espelho narcísico. O que a nossa época menos precisa.

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

JORGE AUGUSTO – O que eu não endosso na pós-modernidade é seu funcionamento como sinônimo de contemporâneo, como se o “pós-moderno fosse o contemporâneo”, isso é visto muito em um senso comum, mas também em discussões acadêmicas com pouco esforço de pesquisa. A pós-modernidade é uma nomenclatura que remete a uma proposta epistemológica, comumente filiada ao pós-estruturalismo francês, mas não apenas, que traz no campo da teoria um questionamento e uma ruptura com uma série de propostas epistêmicas que marcaram o pensamento científico até metade do século passado. Mas é apenas uma das propostas vigentes, pois temos a pós-colonialidade, a decolonialidade, o feminismo-negro, entre outras, todas propostas epistêmicas de grande fôlego e que compõem o cenário contemporâneo na produção de conhecimento. Portanto, me incomoda, primeiro, o uso do termo pós-moderno como sinônimo de contemporâneo, o que oblitera, esconde, todas as outras propostas de debate. Segundo, o pós-moderno é marcado por uma “politização da subjetividade”, de uma maneira tal que a individuação de grupos e sujeitos, suas demandas e projetos, passam a ser construídas a partir de pontos de vista específicos no plano histórico, social e político, o que me parece correto, e o é, até a página três. Há nisso, nessa arquitetura que se criou para combater a desigualdade, que é a justa luta pela autorrepresentação e pelo poder, uma esquina que em certa medida a reforça. E essa afirmação é um tanto polêmica, e é justo que seja, mas tentarei explicar. À medida que a micropolítica ocupa o lugar da metanarrativa marxista e os grupos minoritários agenciam suas próprias demandas, a política ganha uma nova potência transformadora que, vimos, deu muitos frutos positivos, nos planos políticos, epistêmicos e subjetivos. Mas eu acredito que esses frutos positivos podem ser, agora, potencializados, se restituirmos a esses discursos minoritários o desejo pela emancipação social, num plano coletivo. E não, isso não pede, em nenhuma instância, a volta da metanarrativa marxista, nem o império da superestrutura, nem o determinismo de classe. Era impossível continuar pensando a partir do marxismo, e tudo o que se fez depois disso mostra que foi uma mudança necessária, porém, igualmente acredito que pensar com o marxismo ainda pode ser útil. Então, pensar a partir de, e pensar com, é muito diferente. Creio que nossa apatia no cenário político contemporâneo, no Brasil, tem como um dos motivos, a falta de conexão, de costura entre as demandas políticas que os grupos minoritários agenciam. Temos, enquanto minorias, muita coisa incomum, mas também, em comum, todos sabemos. A fase de ruptura radical de construção discursiva da singularidade foi e tem sido fundamental. Agora creio que tecer uma rede de demandas comuns é, também, estratégico e potente no nosso atual cenário. A luta contra a violência cometida contra a mulher negra, contra sua solidão, não é apartada da luta contra o genocídio dos jovens negros nas periferias brasileiras, e ambas estão ligadas de forma mais ampla ao completo abandono da educação pública nas periferias do Brasil. O que precisamos hoje é aprender a costurar as demandas sem tirar força e singularidade de nenhuma delas. Esse é o desafio do intelectual hoje. Portanto, paradoxalmente, há uma pretensa universalização do plano epistêmico, operada pela sigla pós-moderno, que me desagrada, e uma fragmentação no plano político, da qual tenho ressalvas.

 

DA – Pensando na sua atuação à frente de uma editora como a Organismo, quais desafios surgem com mais evidência quando se trata de disseminar a produção literária no contexto de uma iniciativa independente?  

JORGE AUGUSTO – As dificuldades são muitas. Uma editora pequena tem muitos desafios. Publicar é caro, distribuir também. Os serviços, se você quiser fazer um trabalho de destaque, também são caros. Enfim, do ponto de vista financeiro, às vezes parece inexequível. No caso da Organismo Editora, o desafio é ainda maior, pois, em nossa primeira coleção “novos autores”, publicamos apenas autores inéditos, ou seja, que teoricamente ainda estão construindo um público, portanto, sem grandes promessas de vendas; e também, essa coleção publica apenas poetas e, em sua grande parte, os poetas não vendem muitos livros; por fim,  trabalhamos com uma proposta estética muito específica, pois o projeto da Organismo é pensar o livro como um objeto que produza signos e sentidos, que dialogue com os poemas, o livro como agenciamento de sentidos. Assim, nessa coleção tudo está relacionado no livro, fonte, cor, corte, poemas etc. Buscamos mitigar no maior grau possível a dicotomia forma-fundo. A proposta é pensar o livro, enquanto objeto, como organismo vivo, que não é apenas um repositório de sentidos, como uma caixa de guardar poemas, mas que está sempre em interação com o leitor e os poemas, produzindo esses sentidos. Essa característica nos isola no mercado, além de encarecer, muitas vezes, o preço de publicação do livro. A maior distribuidora de livros da Bahia se negou a distribuir nossos livros com o seguinte argumento: “da próxima vez, faça algo mais simples, essas coisas não vendem”. E olhe que eles cobram de 50 a 60 por cento pela distribuição.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Temos experimentado no Brasil um crescente número de editoras pequenas que preferem elas mesmas distribuírem seus livros e, assim, cuidarem de todo o processo de comercialização. Há alguma outra saída nessa tentativa de sobrevivência editorial? 

JORGE AUGUSTO – Tenho pouca experiência nisso, quase nenhuma, mas penso que temos algumas poucas alternativas, como intensificar cada vez mais as vendas pela internet, coisa que já acontece, essas editoras alternativas produzirem feiras em conjunto (também já é feito, mas pode ser intensificado). As editoras podem visibilizar catálogos em parceria, em seus sites, e cada vez mais os lançamentos terem uma importância maior, pois é o momento no qual as pequenas editoras conseguem escoar as publicações. Uma coisa que eu acho que deve ser feita é abrir nos grandes eventos espaço para as editoras menores. Sem esse espaço para publicização dos livros, fica muito difícil que eles sejam vendidos. Esse estado de coisas cria um fenômeno que me desagrada, e que remete a uma questão anterior que você colocou, pois, somam-se dois fatores: a histórica venda comedida dos poetas, a dificuldade de distribuição das pequenas editoras, junto com a exclusão dos grandes eventos. Com tudo isso somado, os poetas acabam tendo que virar promoters de sua própria obra, o que às vezes até funciona bem, outras nos lega uma série de constrangimentos horríveis, como a onda de autoelogio e autopublicação que vemos em redes sociais.

 

DA – No quesito da criação, como você avalia o novo panorama literário nacional?

JORGE AUGUSTO – O panorama atual da literatura brasileira tem uma peculiaridade histórica. Ele é, pela primeira vez, rizomático. E acho que a palavra é justamente essa, mesmo caindo num risco de parecer muito teórico. Acho que a ideia de múltiplo, por exemplo, não resolve. É rizomático no sentido de que são muitas linhas de fuga se cruzando e seguindo. Nessas quase duas décadas de século XXI, vimos a literatura brasileira ganhar diversas revistas importantes na internet, vimos as publicações de poesia assumirem uma crescente, sobretudo a partir das novas editoras. Mas alguns eventos se destacam, como a coleção de poetas lançados pelo selo Sete Letras, o grupo de poetas (até onde sei) majoritariamente do eixo Rio-SP que se formou em torno da revista Inimigo Rumor. Concomitantemente, tivemos um movimento que se forjou no contorno da revista Zunái, de Claudio Daniel, salvo engano chamava Neobarroco. E até aí o que tínhamos ainda era uma geração que buscava se debater na sombra do concretismo que, de algum modo, buscava dar o fantasmagórico passo à frente, tão inscrito na teoria da poesia concreta. Quem se livrou relativamente dessa questão, sobretudo na sequência das publicações, foi o grupo da Modo de Usar, inclusive com produção crítica. Mas até aí havia ainda uma multiplicidade que se irradiava a partir de uma linha de fuga do rizoma mais ligada à tradição. Há nesses grupos, na minha modesta opinião, um diálogo com essa tradição da literatura brasileira oficial, seja para negar ou buscar o passo à frente. Nas outras linhas de fuga do rizoma, acho que as expressões produzidas pelas estéticas minoritárias vêm gerar desde o século passado um conjunto de fortes cenas. Podemos tomar os Cadernos Negros como marco, chegando hoje à fortíssima e consistente literatura negra feminina, mas passando por uma literatura feminina, indígena, periférica, homoafetiva, ou seja, uma série de linhas de fuga vão se criando como tema diverso e como forma. Outros núcleos vão se formando como a editora Organismo e a Ogum’s Toques, na Bahia, as Edições Cartoneiras, em Recife. As diferenças se multiplicam e seguem em linhas de fuga. Nesse cenário, a criação é diversa, e aí vem a grande questão: a diversidade é uma qualidade ética nem sempre acompanhada de força estética. Portanto, não basta ser um poema filiado às minorias, ou um poema que seja contra-hegemônico em relação à literatura oficial, nem muito menos um poema que se enquadre na tradição para que seja tomado como um “bom poema”. Haver uma ampliação gigante de formas e temas possíveis como literatura nos permite dizer que há muitos projetos estéticos diferentes, mas não implica dizer que tudo que se faz dentro dessa diferença tem a mesma potência ético-estética.  Isso parece óbvio, eu sei, mas não tem sido. Há todo um investimento teórico, de certa parte da academia e de parcela da crítica literária, para pensar esses novos corpus, e o próprio conceito de literatura, em seu sentido clássico, tem sido rasurado em muitas frentes. Desse modo, vejo o panorama da literatura nacional produtivo, diverso e muito positivo, em relação às obras produzidas, mas ainda em gestação em relação à crítica desse mesmo cenário, sobretudo em relação ao que é produzido fora do eixo Rio-SP. E ressalvamos que não se trata de uma cena acabada, na qual o múltiplo é dado como construído, há processos de mitose e meiose ainda em curso, há propostas de escritas se costurando, enquanto outras se bifurcam e seguem por si. Daí, a cena ser rizomática e não apenas múltipla, pois as multiplicidades ainda estão em pleno acontecimento.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

JORGE AUGUSTO – Creio que somos um país de subleitores, e que os leitores que temos são, em boa medida, subestimados. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Eu acredito que a equação normalmente acionada para falar de leitores no Brasil é essa: “os leitores são subestimados porque são subleitores, ou seja, leem mal, ou não gostam de ler”. Primeiro, é fundamental identificarmos o que essas pesquisas que apontam a não leitura consideram como leitura.

Um livro chamado Cultura Letrada, de Márcia Abreu, nos fornece insights valiosos sobre isso. Mostra, por exemplo, que nem todo tipo de livro é valorizado como leitura, nos processos educacionais.  Portanto, há um tipo de leitura que é cobrada, obviamente aquela que redunda ao cânone e suas adjacências. É inegável como a indústria do livro cresceu no Brasil nos últimos anos. Alguém lê os best sellers, lê os livros que são adaptados pelo cinema, porque eles vendem muito. As pessoas não compram para colocar na estante. Quando nós, nos processos educacionais mais básicos, desconsideramos uma série de leituras, de diversas vertentes (do quadrinho ao clássico) que os meninos fazem, estamos subestimando não apenas essas obras, mas, sobretudo, os leitores e, consequentemente, produzindo subleitores. E subleitores aqui está empregado no sentido de sujeitos que leem apenas o necessário para o desenrolar da vida cotidiana mais prática, que não acionam a leitura em suas potências construtivas, inventivas e subjetivas. Porque, se lá no início, no ensino básico e fundamental, tudo que você lê é desqualificado pelo projeto pedagógico, pelo livro didático e pelo professor, o que está sendo posto em xeque, mesmo que “involuntariamente”, não é a obra que você gosta de ler, é a própria prática de leitura.

 

DA – Quem é Jorge Augusto?

JORGE AUGUSTO – Dizer quem sou é um estorvo e um teatro. Digo quem estou, é o máximo que posso tentar. Estou há algum tempo um homem pesado, sinto como se carregasse meu próprio peso como um escombro. Como se arrastasse, passo a passo, meu corpo como um trambolho. Desesperançado, desiludido. Eu disse em versos: “minha mãe morreu hoje /todo esse tempo, sem por que nem pecado / sem deus ou diabo, sigo só:/ homem sem fé, mas culpado”. E não mudou ainda, isso resume esse hoje que sou.  Talvez haja certo momento, certa lucidez em que a solidão é inevitável e saber vivê-la é decisivo entre o choro e o riso. Eu devo estar, agora, nesse exercício. Acho que é um exercício de morrer para nascer de novo, como metáfora, como símbolo, acredito que tem potência nisso. O ruim é que nada quer morrer, nem a esperança, nem o passado, nem o amor, nem o cachorro, nem o corpo, tudo fica se arrastando, insistindo. O sofrimento vem muito dessa insistência em não acatar as mortes, das ordinárias às mais contundentes. O luto é tão necessário, para o sujeito quanto a luta. Mas é importante dizer que essa desilusão não é harmônica, nem apática, pois é esse homem consciente das mortes e da perenidade, justamente aquele que pode arriscar. Enfim, hoje sou um homem negro, sem esperança nem no amor, nem no país, nem no homem. Amanhã me pergunte de novo e, provavelmente, te direi outros poemas. Por enquanto, estou naquele um minuto de silêncio.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Em entrevista concedida à Diversos Afins, em 2013, Eduardo Lacerda apontou dois desafios especiais para o crescimento da editora Patuá, que havia montado fazia apenas dois anos: publicar livros diferentes e únicos, que inovassem o caráter editorial de alguma forma; e conseguir gerar lucro com isso.

Passados três anos, a realidade financeira do selo não se distingue da de qualquer editora pequena e independente no Brasil, cujo editor, além de se preocupar com a qualidade artística da obra, “tem de embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros”.

Quanto ao primeiro desafio, no entanto, pode-se dizer que foi superado com louvor. Com mais de 500 títulos lançados, a Patuá é hoje referência no mercado editorial para os autores que procuram uma maneira de debutar na literatura. Mas o reconhecimento não depende apenas dos estreantes. A notoriedade trazida por prêmios e pela presença constante na lista de indicados atrai, cada vez mais, escritores renomados que encontram, na editora, um novo porto de lançamento para seus trabalhos.

Na entrevista a seguir, Eduardo Lacerda faz um balanço dos últimos seis anos à frente da Patuá, tocando em temas que constituem um cenário realista do mercado editorial brasileiro, refletido a partir da experiência de se comandar uma editora que segue com a postura de independente. Com lucidez e otimismo, o poeta que se tornou editor fala ainda sobre vitórias e frustrações, mercado literário, premiações, formato digital, leitor no Brasil e da razão de seguir acreditando no que faz.

“Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores”. Uma leitura recomendada para quem já está e para aqueles que pretendem ingressar nos caminhos sinuosos – e nem sempre recompensadores – do universo do livro.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Passados quatro anos do lançamento da antologia poética “Outro dia de folia”, sua carreira de escritor segue em pausa. É mais fácil ser editor que poeta?

EDUARDO LACERDA – Eu não tenho uma carreira como poeta, tenho um livro publicado, composto por poemas escritos em um momento da minha vida no qual escrever era importante. Hoje escrever não é mais importante, acho muito importante ler e, como minha profissão, acho importante o trabalho de editor, o qual eu exerço com paixão, a paixão que eu não tenho mais como poeta. Mas também não é fácil ser editor, hoje leio muito menos do que lia há dez anos. Cuidar de uma editora pequena e independente me exige a leitura, mas também embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros. A edição, como trabalho, vai além e fica aquém da leitura, para o bem ou para o mal. Mas acho que o mais difícil é ser leitor do que ser poeta, considerando que ser leitor exige isolamento, reflexão, convívio com os textos e muita recusa. Já muitos poetas (e mesmo eu, quando fui poeta e agora, como editor) buscam o que é público, o reconhecimento, a leitura do outro, a crítica do outro, a venda do livro, a participação no evento. Quando somos apenas leitores, nos bastamos a nós mesmos, mas um poeta e também um editor não se basta sozinho, precisa do outro, o outro é imprescindível na busca de si mesmo. Se eu pudesse, seria apenas leitor.

 

DA – Fundada em 2011, a Patuá carregou, durante um tempo, o rótulo de ser uma editora voltada para a poesia. Hoje, o catálogo é bem variado, inclusive com proporções igualitárias entre romances, antologias de contos e antologias poéticas. Essa realidade já fazia parte da ideia original, quando planejou o foco da editora, ou foi algo inevitável, que ganhou forma de acordo com os pedidos de leitura de originais que chegavam?

EDUARDO LACERDA – Um editor precisa ser apaixonado pelo que lê e precisa ser um bom leitor daquilo que pretende editar. Eu não sou um bom leitor de literatura infantil ou de literatura infantojuvenil, por isso não me arrisco muito a editá-la. Eu reconheço sua importância, mas acho que outros e outras profissionais farão uma edição muitíssimo melhor do que a minha. Sou um bom leitor apaixonado de poesia e, talvez, um leitor mediano, mas apaixonado, de prosa. É natural que a poesia tenha um espaço maior dentro da editora, minha formação anterior, como editor, foi editando fanzines, jornais e revistas literárias. Eu convivi, na última década, com centenas de poetas antes de efetivamente editar seus livros, de muitos já tinha editado poemas nesses jornais, revistas, zines, articulado eventos, saraus. É uma relação anterior que tenho com os poetas e com a poesia. Mas gosto muito de prosa, de contos e de romances, e é natural querer publicá-los também. Contudo, o número de poetas publicados ainda é muito maior.

 

DA – Outra característica da Patuá era de ser um porto para autores estreantes. Com o amadurecimento da editora, porém, escritores de renome, com títulos lançados pelos chamados grandes selos, começaram a ser publicados pela Patuá. Você percebeu isso como uma consequência da incapacidade das grandes editoras de manter esses autores ou como a procura destes por um selo pequeno, que oferece uma participação ativa nas etapas do processo de feitura do livro? Chegou a se preocupar quando esses contatos começaram a acontecer? O que procura um escritor consagrado ao entrar em contato contigo?

EDUARDO LACERDA – Ainda somos uma editora focada nos autores estreantes. Nesse primeiro semestre, publicamos dezenas de autores e autoras estreantes e, dos ditos consagrados, ou mais experientes, apenas o novo livro de poemas do Ronaldo Cagiano e o novo romance da Micheliny Verunschk, que apesar de muito reconhecida como poeta, teve seu primeiro – e muito premiado – romance publicado com a Patuá. Ano passado publiquei as antologias poéticas de dois autores que me formaram, mas não posso dizer que são consagrados, apesar de algum reconhecimento, que são o Sergio Cohn e o Fabio Weintraub, mas eles sempre foram publicados por editoras pequenas ou médias. Claro, temos muitos autores que publicaram seus primeiros livros com outras editoras pequenas ou de forma independente, muitos que já não são estreantes, mas que publicaram seu livro de estreia com a Patuá. Acho que um catálogo de 500 títulos, como o nosso, permite uma pluralidade de autores e autoras. Dependendo do recorte feito, a impressão pode ser uma ou outra.

 

DA – Nesses seis anos de existência, a Patuá acumula premiações expressivas, tais quais o Jabuti e o São Paulo de Literatura, além de ter autores da casa regularmente entre os finalistas. Qual é o efeito real de um prêmio para uma editora de pequeno porte/independente?

EDUARDO LACERDA – Em um primeiro momento, ganhar um prêmio aumenta o “prestígio” da editora, o que acaba atraindo muitos escritores querendo publicar conosco. Após o resultado positivo em algum prêmio, recebemos um número três vezes maior de originais. Também vendemos um número maior, mas não expressivo, de exemplares do livro premiado. Acho que prêmios são importantes, precisam existir, assim como os eventos literários, mas eles não definem a literatura. No caso da Patuá, minha felicidade em ganhar um prêmio é saber que rompemos uma lógica de que somente as grandes editoras ganham esses prêmios. Já ganhamos duas vezes o Prêmio São Paulo, duas vezes o terceiro lugar do Jabuti, de poesia e de contos, dois Prêmio Guavira (um prêmio menos conhecido, do Mato Grosso do Sul), tivemos muitos autores semifinalistas e um finalista do Oceanos/Portugal Telecom, tivemos já cinco autores finalistas do Jabuti e, em 2017, a Patuá tem dois livros finalistas do Prêmio Rio de Literatura.

 

DA – Hoje você já consegue selecionar o original que irá publicar? O que leva em conta nessa escolha? E de que forma lhe chateia a maneira de um autor se portar diante da editora, pelo fato de ser independente? Talvez algo que certamente este nunca fizesse, caso fosse recusado ou tivesse de negociar com um grande selo.

EDUARDO LACERDA – Eu sempre selecionei o original que publicamos. Não cobramos a edição, não ganho nada publicando algum livro sem acreditar nele, nem lucro monetário, nem um bom catálogo, posso até errar, mas erro por vontade própria, não porque o autor está pagando pela edição. Leio tudo o que publico, mas não posso dizer que consigo ler tudo o que recebemos para publicar, mesmo se me dedicasse apenas à leitura de originais, ainda assim o tempo necessário seria maior do que possível. Por isso (e por muitos outros motivos) acho bom que existam outras editoras trabalhando bons livros, não entendo uma outra editora como concorrente. Já sobre como os autores se portam, os autores e autoras são o que há de melhor e de pior no meu trabalho. Não teria conquistado nada sem a confiança de algumas pessoas, de alguns escritores e escritoras incríveis que me ajudam, apoiam, leem e compram nossos livros, que são muito generosos. Ao mesmo tempo é desgastante ter que responder algumas mensagens absurdas de madrugada, de pessoas que não confiam em nosso trabalho, que se estivessem em uma editora maior tratariam o editor de outra forma, mas eu, hoje em dia, ligo pouco para isso, para esses problemas. Em seis anos de trabalhos e mais de 500 títulos publicados, apenas três autores saíram com problemas da editora, brigados, alguns poucos outros tiveram problemas, mas que foram solucionados. Acho que a maior parte dos autores entende o que é e como funciona o trabalho de uma editora pequena e independente.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Patuá também oferece serviços editoriais para autores que optam por pagar por seus livros. Muito se discute sobre o papel do editor nesse tipo de situação; se o fato de o autor custear a tiragem não faria com que houvesse um olhar mais benevolente sobre os defeitos da obra. O que pensa sobre isso?

EDUARDO LACERDA – Do nosso catálogo de 500 títulos, posso afirmar que não chega a 10 o número de livros pagos pelos autores, talvez um pouco mais, mas provavelmente até menos. Todos os outros livros foram pagos por mim, por meio da venda de livros a leitores. E desses 10, apenas de um me arrependo, que posso admitir que publiquei por necessidade financeira e não por escolha minha e isso com consciência do autor. Um livro pago pela autora e do qual me orgulho é o nossa “Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O livro teve patrocínio da Petrobras, precisava de uma tiragem de 1500 exemplares e a autora tinha os recursos do prêmio para isso. O livro é excelente, de uma autora já reconhecida e que me enviou o original para leitura, original do qual gostei, era um livro que teria publicado gratuitamente (claro que com uma tiragem menor). Outros livros pagos pelos autores eu teria publicado gratuitamente, aliás, é o que faço quando pedem orçamento, leio e avalio, se aceito a publicação paga é somente se for por opção do autor. Dinheiro assim não me seduz, embora precise de dinheiro para manter o meu projeto. Pagar pela edição não é um problema, grandes e bons autores pagaram por suas edições. Ótimas editoras realizam esse trabalho com um critério e qualidade ainda maiores do que o meu. Não acho um mérito ou me vanglorio de não fazer muitos livros pagos, acho que é a minha opção de trabalho, que me traz alguns resultados positivos, como manter minha coerência editorial, que é até bem incoerente; e negativos, como deixar a editora quase sempre com problemas financeiros, não graves, mas também muitas vezes falta dinheiro para alguns projetos que gostaria de realizar.

 

DA – Seguindo nessa mesma linha de raciocínio, a proliferação das pequenas editoras proporcionou um aumento expressivo de novos autores no mercado. Muitos por meio dessa condição de pagar pela publicação de seus livros. Sendo assim, temos uma faixa etária cada vez mais baixa de escritores estreantes, muitos deles claramente despreparados para entregar uma obra de qualidade. Ao ter contato com alguns originais, você chega a conversar com esse tipo de autor, aconselha que espere um pouco, lapide a escrita, forme-se como leitor primeiro, antes de pensar em publicar o primeiro livro?

EDURADO LACERDA – Poucos escritores querem ouvir conselhos, muito menos os mais jovens. Com a facilidade de publicação, qualquer escritor encontrará uma forma de publicar seu livro de estreia (ou dezenas de livros por ano), seja por uma editora tradicional, seja por uma plataforma de autopublicação, seja pelo Wattpad, pela Amazon, por um blog, pelo Facebook. É uma opinião muito pessoal, muito, mas eu acredito que a literatura é um direito, é direito ler, é direito escrever. Se a facilidade gera banalização (e gera), também cria oportunidades de aumentarmos o número de escritores e de leitores, o que é ótimo. Não há como nos beneficiarmos de uma condição sem trazer junto vários de seus aspectos negativos. Agora, como filtrar esses aspectos negativos, isso é um ótimo desafio.

 

DA – O lançamento do primeiro livro, sobretudo quando o autor é jovem, é envolto por uma camada espessa de vislumbre sobre o que é o mercado e o meio literário. Muitas vezes, é difícil para um autor compreender que a carreira de um livro não depende do quanto ele ache que dará certo, que será um sucesso. Você lida com esse tipo de ingenuidade e, posteriormente, relatos de desapontamento? É papel do editor transmitir para o autor uma realidade que vai além daquela contida em seu livro?

EDUARDO LACERDA – Sim, lidamos com as decepções e frustrações de dezenas de escritores todos os dias. Não só com os autores mais jovens, mas também aqueles mais velhos, mais experientes. É comum receber ou publicar o livro de um autor mais velho, que já lançou livros nos anos 80 ou 90 e ver a decepção com as vendas, com a repercussão, diferentes da que tiveram há algumas décadas. Escuto muito desses autores “meu primeiro livro vendeu 300 exemplares na noite de lançamento, não vou vender menos do que isso”. Quando o livro não chega aos 50 exemplares vendidos, a decepção é enorme, alguns chegam a culpar a editora, que nunca trabalha de forma suficiente. Também os meios de divulgação são muito diferentes, alguns autores esperam ainda que o jornal irá noticiar o lançamento, mas sabemos que isso não ocorre mais. O lançamento de um livro, exceto para o autor e para a editora, não é mais um acontecimento social, que desperta interesse público (exceto em cidades menores, nessas cidades a dinâmica de um lançamento é muito interessante, os jornais locais noticiam, pessoas “importantes” da cidade muitas vezes comparecem). Podemos somar às decepções, além da recepção e das vendas, a inexistência de crítica literária (existem ainda alguns bons resenhistas, mas que não dão conta da leitura de milhares de lançamentos todos os anos) e os prêmios literários, poucos e que nem todos vão ganhar, mesmo com bons livros. Essa decepção ou frustração gera, em alguns autores e autoras, uma ansiedade, uma necessidade de lançar vários livros em um curto espaço de tempo, na expectativa de que o próximo livro alcance o sucesso que o anterior não encontrou. Assim um livro vai substituindo o outro sem que haja um tempo mínimo de trabalho. O editor deve explicar, mas também entender (muitos não entendem), que um livro é um trabalho a longo prazo. Um livro não pode morrer dentro do catálogo da editora e tem que continuar acontecendo, mesmo que os resultados venham bem devagar. É bem difícil, mas é possível.

 

DA – A Patuá trabalha com pequenas primeiras tiragens, entre 50 e 200 exemplares. Muitos desses livros acabam não alcançando leitores e, muito menos, os cadernos culturais e a chamada crítica especializada. Ter um livro publicado, assim, acaba sendo mais um capricho. Isso lhe angustia de alguma forma? E, diante de um cenário em que a literatura tem cada vez menos espaço nos jornais e nas revistas, como avalia a importância dos sites, blogues e demais plataformas digitais voltadas para a literatura?

EDUARDO LACERDA – Me angustia, mas não considero um capricho ter um livro publicado com uma baixa tiragem. A culpa não é do autor, da autora ou da editora, temos um problema gravíssimo de falta de leitores e descaso pela literatura. O escritor, a escritora, eles escrevem. A editora publica. Ambos trabalham para que o livro chegue ao leitor. Se o livro é bom, se o autor, se a autora, trabalham sua literatura e levam isso a sério, uma hora a literatura se sobrepõe ao que não é literatura. Mercado editorial não é literatura. O que eu faço, editar livros, não é literatura. Literatura é o que está escrito e que nós damos suporte, um bom suporte, que pode ajudar que a literatura chegue ao leitor, mas quem escreve é o escritor e lançar um livro para poucos leitores, embora seja triste, não é apenas um capricho. Os sites, blogs etc são muito importantes. Excelente literatura está sendo produzida e publicada diretamente nessas plataformas. Autores e autoras mais jovens, que ainda nem conhecemos, estão se formando, lendo, comentando, refletindo, a partir de literatura divulgada pela internet.

 

DA – Falando em digital, li uma entrevista sua, faz alguns anos, em que defendia apaixonadamente o livro físico. Ainda tem a mesma opinião sobre a relevância da obra em papel? Não há, num plano futuro, a intenção de lançar os livros da Patuá também em formato digital?

EDUARDO LACERDA – Eu ainda sou apaixonado pelo livro impresso, acho que nunca deixarei de ser, mas não sou contra ou avesso ao livro digital. Pelo contrário, acho incrível a possibilidade de termos milhões de livros acessíveis, o que pode ajudar a democratizar o acesso ao livro (pode, talvez ainda não esteja, porque formação de cultura e hábito de leitura não estão relacionados apenas com a disponibilidade de livros).  Futuramente também a Patuá terá livros digitais, mas ainda não é um plano. Editar um livro pode ir além da plataforma ou suporte escolhido para ele existir, se impresso ou se digital. Eu ainda me importo muito com a possibilidade do encontro que o livro impresso permite, a festa de lançamento, as leituras públicas (embora muitos poetas leiam hoje em dia em seus celulares), as trocas de livros, as feiras, o livro impresso permite ainda um encontro entre pessoas que eu gosto muito. É um romantismo meu, ao qual me permito. Talvez esse encontro exista no livro digital também, talvez um dia passe a existir para mim.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ao contrário de muitos editores, que preferem trabalhar nos bastidores, você é um editor ativo, que participa de eventos e está sempre divulgando seus autores. A Patuscada, um misto de livraria e bar, é possivelmente a melhor representação desse tipo de atitude, cuja intenção maior é congregar autores e leitores. Essa é também uma maneira de ter uma contrapartida às livrarias, de projetar os livros que não estão nas vitrines dos shoppings literários? E já houve a intenção de levar os livros da Patuá para essas prateleiras?

EDUARDO LACERDA – Eu adoro livrarias, não detesto a forma como elas trabalham com as editoras, é simples. Acho que o Brasil tem pouquíssimas livrarias e que precisamos incentivar e criar milhares de outras, através de leis que promovam a isenção de alguns impostos para as pequenas livrarias (não para as grandes) e de outras ações. Aliás, eu costumo dizer que mesmo São Paulo não tem livrarias, temos algumas megastores e algumas boas livrarias em regiões ricas da cidade, como a Paulista, Jardins, Pinheiros, Vila Madalena etc e em alguns shoppings, essas mais para livros de alta vendagem, os chamados best-sellers. Não estou fazendo um julgamento de qualidade, apenas apontando como e o que trabalham. Será raro, nessas livrarias de shopping, encontrarmos livros até de autores conhecidos, reconhecidos e consagrados, como, por exemplo, Clarice Lispector ou Mário de Andrade. Poesia, talvez, aquela utilizada no vestibular do momento ou a lançada pelo último BBB poeta ou pelo Gregório Duvivier (novamente, não é um julgamento de valor, mesmo porque gosto de alguma poesia dele). Mas se pensarmos nas regiões de classe média, nas mais pobres ou nas periferias da cidade de São Paulo, não temos mesmo livrarias. Precisamos discutir o modelo como trabalham as livrarias. É impossível pensar que uma empresa (a livraria) pega produtos (o livro) em consignação, com frete de ida e volta por conta dos fornecedores (o editor), pede 50% de desconto no preço final do livro, depois de efetivar a venda ainda pede mais 120 dias para pagamento, se o livro for danificado o exemplar é devolvido da mesma forma, com prejuízo à editora. Até pouco tempo atrás esse sistema ainda garantia que nossos livros seriam expostos nas livrarias, mas atualmente a situação é ainda mais absurda, porque a maior parte das livrarias apenas cadastram os livros em seus sites e só nos pedem o exemplar se for vendido. Cuidar de um bar e livraria é uma experiência incrível, ainda assim com suas (minhas) frustrações. Vendemos pouquíssimos livros, muitos escritores aparecem por lá para beber, mas nunca levaram um livro. Enfim, não vou ganhar no grito, meu trabalho continua e, se fosse fácil, muita gente estaria fazendo.

 

DA – Dando uma olhada nas listas dos mais vendidos, fica evidente a hegemonia dos grandes selos, sobretudos aqueles que trazem, em seus catálogos, traduções de best-sellers internacionais. Como fazer uma editora independente ganhar expressividade nesse cenário em que a literatura contemporânea brasileira, sobretudo a composta majoritariamente por autores desconhecidos, está longe de representar a preferência dos leitores?

EDUARDO LACERDA – Como disse, a literatura, o que é literatura, não se mede pelo número de leitores; a literatura existe, resiste e será sempre assim. Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores. Eu acredito nisso ou já teria abandonado a edição independente.

 

DA – O brasileiro é um leitor ruim?

EDUARDO LACERDA – Não podemos culpar o indivíduo pelo sistema. O Brasil, como país, tem um projeto político de não formação de leitores. É um projeto mesmo, político, social, cultural e econômico de um não interesse para formação de leitores. Começa com o descaso com a educação, mas somente a educação não garante que teremos leitores, passamos também por diversos períodos de proibição da circulação de livros e literatura. Nossa história é uma história de descaso com o livro, com a literatura e com o leitor.  E não podemos chamar de leitor ruim quem não lê e quem lê aquilo que consideramos literatura ruim. Sim, acho que existe uma boa literatura, mas, como já disse, acredito que a leitura e a literatura são direitos, direito de ler, direito de escrever, direito de publicar. Experiências em saraus de periferia, por exemplo, que dão a palavra para a pessoa comum, de todas as profissões e de todas as cores, de todas as classes sociais, como chamar essas pessoas de leitores ruins? São leitores, talvez alguns ainda em formação, mas leitores. Estão se apaixonando pela literatura, pela poesia, estão escrevendo. O que poderá explodir e acontecer a partir disso até mesmo de boa literatura em nossa visão tão limitada do que pode ser boa literatura? Por outro lado, temos – eu tenho, eu pelo menos quero ter – o dever de ajudar a mudar esse país, de pensar um país que ame sua literatura, que ame o livro, seja ele impresso ou digital, que ame seus escritores, que ame seus leitores, sejam eles bons ou ruins.

 

DA – Olhando para o Eduardo Lacerda que, em 2013, criou a Patuá, consegue enxergar uma certa inocência na maneira como ele enxergava o mercado literário? E, passado esse tempo, qual a melhor coisa que ser dono de uma editora lhe proporcionou?

EDUARDO LACERDA – O Nelson Rodrigues que disse que sem paixão não dá nem pra chupar um picolé, também não se faz muita coisa sem inocência, nem mesmo amar é possível sem inocência. O grande desafio é continuar um pouco inocente e apaixonado. Eu descobri um caminho seguro nesse mercado literário e editorial, recebo os livros, leio, consigo, de alguma maneira, escolher alguns bons títulos, envio para um grande artista fazer a concepção de capa e projeto gráfico, mando pra gráfica, faço o lançamento, envio para jornalistas e críticos, vendo um pouco, pago os custos, faço o próximo livro, eventualmente ganhamos algum prêmio. Certo, não é só isso, isso é um resumo, mas é um caminho seguro. Como ser inocente e apaixonado e pensar que, sabendo disso, de algo que já dá bons resultados, posso pensar em algo diferente, que me contradiga, que me oponha ao meu trabalho e me renove? A melhor coisa de ser dono de uma editora é fazer os amigos que eu faço. Escritores e escritoras, sim, mas também pessoas admiráveis. Não sei se meu trabalho pode mudar o mercado editorial ou literário, não sei se estamos fazendo alguma história. Mas eu sei que estou fazendo a história da minha vida e de alguns/algumas escritores e escritores. E fazer sua própria história, de forma apaixonada, já me parece bem importante.

 

DA – Vale a pena trabalhar com livro no Brasil?

EDUARDO LACERDA – Vale, vale muito! Acho que se tivesse seguido uma carreira de professor, que é a minha formação, se tivesse terminado a graduação, feito um mestrado, um doutorado, talvez eu tivesse uma estabilidade financeira um pouco maior. Mas nunca teria me divertido tanto, feito tantos amigos, lido tantos ótimos livros.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A carreira literária de Claudia Nina se ramifica em gênero e categoria. Desde sua estreia com o trabalho acadêmico sobre a ficção de Clarice Lispector, a jornalista e escritora carioca dá forma a uma obra heterogênea, composta por crônicas, contos, ensaios, perfis e romances, destinados tanto ao público adulto quanto ao infantil. “Amor de longe” marca, agora, seu debute na literatura para jovens. A trama é protagonizada por Clarice, uma menina com 13 anos que, por conta do trabalho do pai, tem de abandonar a vida no Rio de Janeiro e se mudar para Porto Alegre. Do não pertencimento à cidade fria, ela vai ter de se adaptar às novas amizades e aprender a lidar com o primeiro amor.

Em sua essência, é um romance de formação; porém, acima de tudo, um livro “pé no chão”. Num tempo em que o leitor infantojuvenil se mostra cada vez interessado num universo habitado por seres fantásticos e sobrenaturais, Claudia Nina trata dos dramas reais: das transformações físicas e emocionais que moldam a adolescência.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, a autora fala sobre o processo de construção do novo livro, suas referências, a ligação entre a personagem Clarice e a escritora Clarice Lispector, o mercado do livro infantojuvenil, e em como “Amor de longe” se encaixa num projeto mais amplo voltado para os jovens.

Além disso, comenta sobre a cena contemporânea brasileira, os eventos literários, o crescimento das pequenas editoras, e, na condição de crítica literária, dá opiniões firmes e interessantes sobre a ascensão de jovens autores e a participação das mulheres no meio literário. “Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo”, defende.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Seu livro mais recente, “Amor de longe”, é um romance adolescente. No mapa da literatura brasileira, autores clássicos já se aventuraram no gênero juvenil, contudo a impressão que fica é que tais livros não recebem o mesmo nível de consideração que os classificados como literatura adulta. Você percebe que há algum tipo de menosprezo, por parte da crítica especializada, para com os livros feitos para adolescentes? Que são vistos, invariavelmente, como um trunfo mercadológico?

CLAUDIA NINA – Temos que entender o que seja hoje “crítica especializada”. Não tenho visto espaço crítico no país, apenas a persistência de alguns leitores mais atentos que se debruçam sobre os títulos, são curiosos, querem conhecer de fato a produção contemporânea. E só. Algumas clareiras nos jornais se abrem, é verdade. Temos o Rascunho. Mas é tudo tão rarefeito no cenário geral… Não vejo onde uma literatura de formação possa se inserir neste contexto “crítico”. E, claro, tudo é colocado na mesma fornada. O que se escreve para o adolescente não é avaliado de maneira alguma. Me diz: qual crítico se propõe a abrir os parcos espaços críticos para falar do juvenil? Não vejo nenhum! “Amor de longe” é um trabalho de intertextualidade com Clarice Lispector, que dialoga abertamente com “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”. De certa forma, é um livro de formação. Isso acontece tanto do ponto de vista da formação emocional de uma menina dos 13 aos 14 anos, e todo o processo de transformação aí envolvido, como também de formação da leitura/escrita como aprendizagem. Sem abrir mão da linguagem envolvente, que precisa capturar esse leitor em busca de si mesmo. Repetir fórmulas de sucesso não é um erro. Apenas eu acho que o caminho não precisa excluir a necessidade de uma escuta mais atenta ao literário e às engrenagens da língua. É o que eu proponho. Espero que mais leitores como você, em sua luta tão bonita pelo literário, surjam com interesse e curiosidade por um trabalho como este.

DA – Diante disso, em algum momento do contato com a editora, você pensou em tirar esse rótulo de “juvenil” da obra? A leitura de o “Amor de longe” revela justamente o que disse: um romance de formação, como há muitos na literatura contemporânea, sem que estejam localizados numa categoria. Nesse caso, penso, é papel do leitor conviver com a história e, independente da idade, absorvê-la segundo o tempo concentrado no livro. Seja uma linguagem mais ou menos culta. E, por falar nisso, uma das coisas que me chamaram mais atenção no texto foi a linguagem. É uma narrativa em terceira pessoa, bastante informal, mas que, em nenhum momento, apela para um tom infantilizado. Durante o preparo, houve uma preocupação sua em falar com o adolescente, sem que soasse excessivamente como um texto escrito por um adolescente?

CLAUDIA NINA – Eu busquei uma voz interna para compor a Clarice capaz de dialogar com minha adolescência e ao mesmo tempo com os dias de hoje. Não queria parecer fora do tempo contemporâneo nem do meu próprio tempo. Foi bem difícil encontrar esta conciliação, pois venho de uma época sem celular nem tablets. As conquistas, as conversas e os medos eram confrontados olho no olho, palavra viva. “Amor de longe” não tem rótulo na capa. Tem a catalogação de juvenil imprescindível. É uma história para todas as idades. Para a família. Para qualquer tempo. Eu não conseguiria escrever um texto exclusivamente voltado para o adolescente assim como não conseguiria escrever um exclusivamente voltado para a criança. Não temos que limitar o vocabulário, embora às vezes seja necessário dosar o teor de complexidade da linguagem para não obscurecer nem afastar. Por isso é tão difícil escrever, são várias preocupações e detalhes que se deve ter em mente. Eu queria escrever um texto que pudesse me fazer lembrar da adolescente que eu fui diante das perplexidades que fizeram parte da minha vida em um tempo marcado pelas mudanças geográficas e emocionais. Acho que consegui! Gostei bastante do resultado.

DA – É muito interessante você abordar esse contraste de geração, pois também sou de uma época na qual o que fazia a cabeça dos adolescentes eram coisas como “Confissões de adolescente”, “Armação ilimitada”, entre outros. De uns tempos para cá, tudo se transformou de uma maneira radical. Os jovens preferem a distopia ao invés da utopia; o universo sobrenatural, fantasioso, ao invés dos problemas ordinários. E é exatamente nisso que seu livro toca: nas pequenas descobertas, nas mudanças, na confusão de sentimentos. Como então trabalhar com esses temas tão reais, para um público-leitor que prefere o escapismo das histórias de vampiros, de um mundo pós-apocalíptico?

CLAUDIA NINA – Eu não posso me limitar às limitações do tempo e de um suposto público-leitor como se este fosse uma entidade. Eu simplesmente escrevo. É claro que me preocupo em ter leitores. Mas não posso criar pensando em que tipo de leitor eu terei, pois não se faz boa literatura assim. Do contrário, eu repetiria fórmulas. Nada contra quem repita fórmulas. Mas eu não trabalho assim. Acho que todo bom livro encontra naturalmente seus leitores. Veja um exemplo. Meu primeiro romance, “Esquecer-te de mim”, publicado em 2011 pela Babel. A editora sumiu e fez os livros sumirem. Isso depois de eu ter tido um ótimo lançamento e excelentes resenhas. O tempo passou. E não é que agora recebo várias mensagens de leitores que acharam meu romance na Estante Virtual, compraram e me escreveram lindos recados! Um deles me dizia para eu nunca parar de escrever. Ora, quer alegria maior do que essa? Acho que a roda gira; ah, gira sim! Mas é preciso ter calma, paciência. Os leitores que eu quero não virão até mim como mágica. Eles virão um a um, e se acercarão de mim e da minha escrita. Tenho certeza disso. Já estão vindo. São leituras intensas, de gente que mergulha na palavra. É dessa gente que minha escrita se alimenta.

DA – Falando em leitores, há um outro público bem exigente, para o qual sua escrita se direciona, que é o infantil. São quatro livros, num período de quatro anos. O último, “A Repolheira”, conta, inclusive, com ilustrações da artista espanhola Raquel Díaz Reguera.  De onde nasceu a ideia de escrever para crianças, e como guiar o processo de criação de modo que o texto se harmonize com a imagem, garantindo relevância às palavras?

CLAUDIA NINA – O primeiro infantil surgiu de uma urgência e de um sonho. Eu cursava o Publishing Management na FGV. Precisava de um trabalho final. A única ideia era escrever – e tentar publicar – um livro. Eu já estava no processo de escrita do meu primeiro romance, mas não daria tempo de finalizá-lo. A solução me ocorreu depois de uma noite em que eu sonhei com a história inteira de “A barca dos feiosos”. Eu só fiz sentar e redigir. Foi um livro feito às pressas, por isso penso em editá-lo novamente. Cada infantil tem seu processo, cada história me acontece de uma forma diferente e inusitada. “Nina e a lamparina” surgiu de outra urgência: eu precisava falar de um problema familiar: o medo do escuro da minha filha menor. Foi muito importante ter abordado o tema que, embora pareça lugar comum, pode ser abordado de diversas formas. Tive grandes alegrias com este livro. A maior delas foi quando descobri que uma escola de Goiás trabalhou com a história em uma matéria de empreendedorismo! Eles focaram no conceito de coragem: se a gente acende o archote interior, capaz de iluminar nossos passos na escuridão, a claridade se agiganta e já não estamos mais no breu. Podemos fazer o que quisermos quando vemos nossos pés tocando o chão. Depois veio “A mansão”. Surgiu de uma viagem à Patagônia. Eu fiquei muito impactada com aquelas paisagens e fiquei imaginando o que poderia roubar aquela paz… Criar um conflito dentro de um cenário perfeito foi minha ideia. Fui abençoada por uma Lua gigante, quando descíamos a montanha de neve. Foi uma das cenas mais lindas da minha vida. Quis transformar tudo isso em livro. “A Repolheira” nasceu também de uma imagem. A personagem do título “me procurou”. Não sei explicar estas aproximações criativas. Mas o fato é que a imagem me veio e com ela toda a história. Escrevi em papel, a lápis, pois estava de férias e não tinha levado o computador. Há ainda várias histórias inéditas, uma delas “A coruja e o mondrongo”, de que gosto muito também. No caso de “A Repolheira”, a escolha mais do que feliz da ilustradora foi um achado do Facebook. Eu mandei a história para a Raquel e ela adorou. A editora abraçou a ideia, a história e a ilustradora. Não consigo imaginar “A Repolheira” (que faz uma brincadeira com A Borralheira) de outra forma. Mas acho que em todos os casos eu tive bons ilustradores. Esse casamento é fundamental. Acho que o autor tem um papel importante no sentido de ajudar a sinalizar um traço que combine com a história. Eu gosto de sugerir porque curto muito desenhos. Aliás, comecei desenhando antes de escrever. Mas depois abandonei por falta absoluta de talento. Minha filha hoje desenha maravilhosamente bem. Eu me vinguei nela.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Fico imaginando que suas filhas, que estão na mesma faixa etária que a de Clarice, a protagonista de “Amor de longe”, também foram fortes influências para o livro. Anteriormente, você mencionou um exercício de intertextualidade, porém, como visto na dedicatória, a realidade é também uma grande fonte de inspiração. A propósito, seu romance anterior “Paisagem de porcelana”, também toma emprestado muito de sua vivência na Holanda, para dar escopo ao seu enredo. Até que ponto, então, seu processo de escrita depende da observação do real, de escavar o terreno das memórias para que possa erguer os pilares da ficção? E, voltando à dedicatória, pode falar um pouco sobre esses amigos que a receberam em Porto Alegre e, como declara, fizeram sua adolescência um tempo mágico?

CLAUDIA NINA – Sempre me lembro de uma frase da Clarice Lispector que dizia que, mesmo se ela falasse sobre a produção de café, ou qualquer outro assunto distante do eu, ainda assim, ao final, ela perceberia que se delatou. Acho que nunca me afasto o suficiente de mim em nada do que escrevo… Porém, acredito que um dos elementos mais importantes da ficção seja o tempo. Sem o filtro do tempo escreveríamos imersos em uma emoção excessiva, daríamos voltas ao redor de nós como um escorpião encalacrado mordendo o próprio rabo. Precisamos da distância espacial e temporal a fim de que o vivido seja filtrado pela percepção de que nem tudo pode ou deve ser escrito. Em “Paisagem de porcelana”, recupero parte de uma experiência que vivi na Holanda, em fins dos anos 1990. Precisei de longos 16 anos até fazer a roda girar a ponto de surtar: torci o giro da ficção para fazer com que a personagem experimentasse situações muito mais complexas e agudas do que as que eu vivi. O tempo também foi igualmente importante para que a emoção não atrapalhasse. A personagem precisaria olhar os estragos de olhos lúcidos e sem autopiedade. Em “Amor de longe”, que de alguma forma dialoga com “Paisagem…”, pois também trabalha a questão da paisagem e da transformação da personagem no espírito dos cenários, eu igualmente me afastei do vivido (foram 30 anos) a fim de que pudesse resgatar a vivência de forma criativa: a ficção precisa ter as rédeas do texto e não o contrário; a vida não pode comandar; é preciso desobedecer ao vivido. Novamente: nem tudo se pode ou deve contar… Quanto às minhas filhas, elas não participaram tanto da escrita deste livro porque hoje elas estão com 11 e 12 anos. Eu demorei dois anos e meio para escrever, elas ainda eram pequenas. Acredito que o tempo de Clarice delas esteja começando a partir de agora.

 

DA – Outra relação muito forte entre “Paisagem de porcelana” e “Amor de longe” é a soberania do olhar feminino; um aspecto, por sinal, muito sensível em sua literatura. Recentemente, entrou em pauta uma discussão sobre a representação da mulher na literatura contemporânea; a maneira pela qual é retratada nos textos, a capacidade de uma autora tornar essa voz mais crível, pertinente. O quanto concorda com essas colocações? E até que ponto a condição de gênero e o fator moral têm relevância em sua escrita?

CLAUDIA NINA – O gênero faz toda a diferença e tem toda a relevância, pois a dor de Helena (protagonista de “Paisagem de porcelana”) é uma dor declinada no feminino. Não que não seja universal a ideia da subjugação, não é isso. Mas, da forma como eu retrato, ou seja, uma vítima massacrada por um amor, acredito que seja uma capacidade muito própria da mulher o de se deixar esfarelar. E isso não pode ser nenhum demérito da obra. Agora, é preciso que se ressalte outro aspecto que não tem a ver com o que estou falando: a linguagem. Eu não escrevo “como mulher”. Isso não. Aliás, a ideia de aproximar o delicado do feminino é pobre demais; aliás, a ideia de que um texto com o título “Paisagem de porcelana” seja obrigatoriamente delicado é também um embuste. Meu texto é muitas vezes cruel. Vivian Wyler dizia que eu escrevo com “raiva”. Se um homem cismar de me etiquetar como “feminino-delicado” antes de me ler – como se isso fosse um erro – eu perco leitores. Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo.

DA – Esse é um assunto muito inquietante, portanto quero refleti-lo na história da personagem Helena. Como apontou, ela é refém de um amor que a condiciona a uma série de abusos psicológicos e físicos, contra os quais parece não ter força para lutar. Há poucos dias, tivemos um caso de repercussão nacional, que foi o assédio sexual cometido por um ator de novela contra uma figurinista. Isso expõe o machismo ainda reinante na sociedade brasileira, que certamente influencia no espaço dado às mulheres, repercutindo no mercado literário. Como analisa essa questão? Há machismo na literatura? E você, na sua carreira de jornalista e escritora, passou por algum momento de assédio?

CLAUDIA NINA – Ouso dizer que há machismo sim, embora os homens não aceitem este assunto. Não me diga que os homens leem com o mesmo entusiasmo os livros de mulheres e os livros de seus amigos homens porque isso não é verdade. Muitos – não estou generalizando – sequer abrem um livro de mulher, caso o título soe, digamos, “feminino” demais. Parece um absurdo dizer isso… Mas é absurdo mesmo. Eu sempre digo uma coisa: quando um homem escreve delicada e poeticamente, mesmo em prosa, como é o caso de um João Anzanello Carrascoza, por exemplo, isso é lindo e maravilhoso. O autor é celebrado – eu acendo uma vela para Carrascoza, pois ele é um dos meus favoritos, justamente por ele ter a coragem de escrever do jeito que sente. Porém, quando uma mulher escreve no mesmo diapasão, ela corre o risco de ser rotulada como lacrimejante ou mulherzinha demais… Isso é fato! Quem disser que não é verdade é porque tem culpa. A outra parte da sua pergunta é quanto o assédio. Quase todas as mulheres do mundo já sofreram algum tipo de assédio em suas carreiras. Eu já sofri na minha vida como jornalista. Mas encarei de frente, dizendo um redondo e sonoro “não”. Mesmo colocando o emprego em risco, o que, lamentavelmente, sempre ocorre quando não se aceita o jogo do dominador. O problema é quando o “não” bate e volta. E quando a vítima precisa desesperadamente do emprego e teme perdê-lo. Uma situação tão triste. Precisamos nos fortalecer de fato. Gosto muito do feminismo. Estou nesta luta e quero cada vez mais fazer parte dela.

DA – Mas acho que vale uma observação – ou, melhor, uma reflexão. Hoje, as principais agências literárias do Brasil são comandadas por mulheres. A maioria dos selos literários tem mulheres no cargo de editor principal. Muito se culpa do leitor, o último a ter contato com a obra e, por conseguinte, com a autora. Não seria, então, uma questão de analisar também o mercado por dentro? O quanto as editoras e as agências estão fazendo para projetar as mulheres na literatura? 

CLAUDIA NINA – Mas o machismo não é uma prerrogativa dos homens. Muitas mulheres também são machistas. Acredito que os espaços precisam ser ventilados como um todo. Vejamos os prêmios literários, as festas, os eventos… Será que existe paridade entre o número de homens e de mulheres? Não creio. Por que motivo isso ocorre é um mistério. Não entendo. E não acho que as editoras de um modo geral estejam trabalhando para que as mulheres na literatura tenham mais projeção. Acho que ainda não tomaram frente do assunto.

DA – Aproveitando que mencionou os eventos literários, há cerca de um mês você integrou a delegação de autores brasileiros que participaram do Printemps Littéraire Brésilien, festival literário que, em sua quarta edição, passou pela França, Bélgica, Espanha e Portugal. Da impressão das mesas, qual o interesse do estrangeiro pela nossa literatura? E como acontecimentos dessa natureza podem trazer benefícios para o mercado literário brasileiro de maneira geral?

CLAUDIA NINA – É um trabalho lento, de ativismo, como gosta de dizer o professor Leonardo Tonus, idealizador e organizador do Printemps. Há que se ter paciência e persistência. Nada se faz do dia para noite. Eu vejo alguns autores subirem do dia para a noite, mas logo depois, ao longo dos anos, desaparecerem. Geralmente por não conseguirem continuar escrevendo tão bem como prometiam. Prefiro uma caminhada que se faz lenta, mas progressivamente. Os eventos ajudam a espalhar nossa colheita que é a nossa voz, a nossa palavra. E, no confronto com o outro, de diferentes dicções, nossa escrita cresce, transforma-se. Tenho gostado cada vez mais desta movimentação. Ano passado, estive na Feira Internacional da Guatemala. Foi surpreendente. Um resumo de “A Repolheira” foi lido em espanhol, enquanto eu mesma fiz a leitura, em português, de Paisagem de porcelana. Tivemos uma audiência pequena, porém atenta, que, tenho certeza, saiu de alguma forma tocada por nós, pelo diferente que apresentamos, pois o conhecimento de literatura brasileira contemporânea deles é mínimo. Mas este mínimo é uma semente de conhecimento que precisa ser espalhada.

DA – A ascensão repentina de jovens autores é algo que também me incomoda. Muito menos pela literatura que estes privilegiados podem oferecer, mas por um time de outros autores bem melhores que acaba à sombra desse “sucesso”, justamente por não ter o holofote sobre suas cabeças. Numa resposta lá atrás, você mencionou a falta de espaço para a literatura nos veículos de comunicação, absolvendo o trabalho feito pelo Rascunho. Você escreve para o Rascunho e também assina uma coluna na revista Seleções sobre livros. O que tem visto na literatura feita hoje que lhe agrada e o que lhe desagrada?

CLAUDIA NINA – Muita coisa me agrada. Tenho curtido demais os autores contemporâneos, e é uma alegria quando encontro um autor, ainda desconhecido, mas bom. O que ocorre muitas vezes é a edição precária. Explico: na pressa em ser publicado (o que é perfeitamente compreensível), muitos autores publicam de qualquer jeito um texto que poderia ser editado. A figura do editor de verdade está em extinção. Há poucos que realmente trabalham o texto. A maioria apenas publica. O autor acha que está ótimo, já está pronto, que não tem para onde crescer. E sai se repetindo, dando voltas ao redor de suas limitações. Tenho procurado escrever livremente meus textos críticos, quase como se fossem crônicas literárias para expressar minhas impressões de leitura. Tanto no Rascunho como na Seleções, tenho espaço para isso, o que tem sido estimulante. Agora você me fala sobre aqueles que estão sob os holofotes. Bom para eles. Ou não. Espero que saibam continuar trabalhando para que permaneçam sendo cultuados. O que nem sempre ocorre. O que eu penso é que a gente deve seguir sempre. Escrever e escrever, pensar, participar. O que for nosso, será nosso. Eu tenho muito isso em mente. O espaço do outro – merecendo ele ou não, segundo meus critérios – é do outro. O que é meu ainda não tem nome, mas é o que desejo: o que é para mim, o meu espaço conquistado e merecido.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Você tocou na questão das publicações de baixa qualidade, que vai ao encontro de um assunto que gosto de trazer à baila em minhas conversas com autores. Também escrevo sobre livros e acompanho bem de perto o cenário da literatura contemporânea brasileira. O que vejo é uma avalanche de novos livros, muitas estreias, mas uma grande soma de textos que poderiam ser mais lapidados; ou, melhor ainda, que sequer fossem publicados, sendo o papel do editor aconselhar o jovem autor a ter paciência, trabalhar melhor a obra, amadurecer. Isso me remete a uma questão pontual: o aumento das editoras. Muito se fala do quanto é importante para a democratização da literatura, no entanto pode ser também uma forma de jogar no mercado justamente livros sem o devido cuidado de edição, não acha? Qual sua opinião sobre isso?

CLAUDIA NINA – Tenho uma opinião simples quanto a isso. Penso que muitos escritores ávidos em se tornarem escritores se esquecem de que precisam ler. Formar uma bagagem de leitura (o que não tem a ver com a idade, pois muitos jovens são mais leitores do que escritores mais velhos) é fundamental antes de começar. Parece óbvio, e é. Muitos se lançam nas oficinas de escrita (não sou contra nada), mas se esquecem do trabalho individual de carpintaria literária que passa, muito antes, pela leitura. E não só dos clássicos. Acho importante que se conheça o que nossos pares estão fazendo na contemporaneidade – que caminhos percorrem, quais são suas escolhas linguísticas, os temas, as recusas. Do contrário, continuarão achando que inventaram a roda e que escrevem muito bem, quando não é verdade.

DA – Você consegue traçar um paralelo entre esse desmerecimento da leitura e a chegada das plataformas virtuais; a possibilidade de qualquer um escrever o que bem entender, sem qualquer critério, e se autopublicar? Ou é um processo mais complexo, que passa invariavelmente pela educação? Fazendo uma ponte com o público do seu novo livro, sou (e acredito que você também) de uma época em que os escritores eram figuras quase sagradas, mestres das letras, seres inalcançáveis, já velhos ou falecidos. Hoje temos autores tão ou mais jovens que os próprios leitores. Não seria um momento de se (re)pensar o que realmente é literatura?

CLAUDIA NINA – Não sou nostálgica. E gosto muito do contemporâneo. Acho que não precisamos repensar o que seja literatura. Literatura é o que fica, o que permanece. Tudo aquilo que não sobrevive a si mesmo não é literário; é apenas um risco. Um riscado no céu. Passa e depois ninguém ouve falar. Quanto aos novos espaços – não tão novos assim – que sejam bem-vindos. Que mais pessoas escrevam, leiam e falem de literatura. Outro dia, um blogueiro me procurou. Ele faz um trabalho bem bonito, mas estava todo cheio de receio por não ser jornalista. Mas aquele rapaz bem jovem ainda se interessou pelo meu livro, quis saber sobre ele, escreveu sobre ele e multiplicou a minha palavra. Quantas pessoas ele conseguiu alcançar, quantos futuros leitores que começam lendo os blogs e depois vão partir para leituras maiores? Não tenho nenhum preconceito, pelo contrário. O que eu sempre digo: não temos outra alternativa a não ser termos esperança. E mais: adoro a ideia de o escritor não ser mais sagrado. Sagrada é a vida sobre a qual falamos, escrevemos e pensamos.

 

DA – A Claudia Nina, na idade da personagem Clarice, consegue olhar para a Claudia Nina de hoje e se convencer de que valeu a pena se dedicar à escrita?

CLAUDIA NINA – Linda pergunta. Acho que a Clarice gostaria de me conhecer, pois compartilhamos os mesmos sonhos de amor às paisagens e à palavra. Nós nos intertocamos, assim como Macabéa e Rodrigo SM em “A hora da estrela”. Somos muitas vezes uma só, multiplicadas em nossos espelhos, fechadas em nossos quartos ou dedilhando nossos textos. A Claudia Nina de hoje ainda é a Clarice na medida em que o tempo é uma invenção dos relógios. Ao escrever Amor de longe, percebi que as paixões que me moviam aos 14 anos são as mesmas que me movem hoje: tenho sede de mundo, de literatura, de conhecer pessoas e cenários. E também uma certa inocência em acreditar que a vida é linda e que tudo vai sempre dar certo. Um dia. E um dia não é nunca.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Floriano Martins

A imagem que nos aterra a existência, que se torna um testamento usual, um versículo sempre na ponta da língua, cobra hoje uma tarifa existencial que nos limita a própria reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser. Somos viciados em uma demanda reiterativa. Algo nos impede de experimentar um mundo outro sob ou sobre a capa de uma realidade averbada pela crença na imutabilidade da vida. Ora, mas a vida é tudo menos imutável. Mesmo no plano sagaz das religiões a vida é o preço, a súplica, a tormenta, o vislumbre, o apogeu, a dádiva, e não é possível pensar em nenhum desses atributos como um álibi inquestionável que não permite à espécie humana mudar sequer de postura na cadeira em que presta depoimento sobre sua existência. A fotografia é uma das mais complexas faturas da criação artística, a começar pela resistência da arte entendê-la como sua cúmplice. A beleza é outro aspecto frequentemente confrontado pela incredulidade em que o gesto humano seja tudo menos apenas uma reação brutal à diferença. Leila Ferraz é uma poeta que se distingue entre seus pares pela percepção que possui das relações entre o criador e sua obsessão. Alheia às formatações de gênero, é poeta, ensaísta, fotógrafa, desenhista, foi uma das organizadoras da Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, anos 1960. Aqui dialogamos sobre o ambiente da fotografia, ou melhor, sobre o espírito da imagem. E o diálogo se faz ilustrar por algumas de suas fotografias.

Leila Ferraz / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando começaste a fotografar lidavas com o mundo analógico. Tempos depois, quando retomas, já está em curso pleno o mundo digital. Do ponto de vista estético, como tens lidado com a passagem de uma técnica para outra?

LEILA FERRAZ – Sou uma fotógrafa analógica assumida. Esse foi o meu mundo durante toda minha vida. Tudo o que eu queria, tinha que pensar, analisar, testar, me apaixonar e me envolver de tal forma visceral que o mundo digital foi um tapa na cara. Veja abaixo esta foto de 1971 – tudo era feito no olho e nas mãos. Envolvia cheiros, ácidos, estudos e a conquista de um tempo fascinante no qual eu me perdia. Mas era um trabalho meu. Como quem cava fundo cada réstia de luz, penumbra ou escuridão. Um processo de imenso prazer. E buscas e descobertas. Desde criança, este mundo que peguei nas mãos quando as reproduções ainda eram feitas em placas de vidro. Desde quando bem pequena, descobria as minhas origens folheando sem nunca me cansar os álbuns de família. Com fotos de bem mais de 150 anos. Como medir, lidar, conquistar o que nasceu comigo? Eu ainda sou analógica. Atualmente, os recursos digitais nos proporcionam tudo o que queremos. Praticamente na hora. São milhares de opções imediatas. Existe, sim, o fator surpresa. Porque num toque de dedo ou criamos o que desejávamos ou o que nós desejávamos já vem pronto. Eu tinha um estúdio fotográfico completo. Com salas, químicas, bacias, ampliadores, Hasselblad, Leica, Roller, iluminação e tudo o mais. Atualmente, com uma máquina, programas e aplicativos consigo o que conseguia e mais. Em termos estéticos, o método analógico me dava mais prazer porque era eu quem o criava. No digital, posso ir além. Mas nunca sozinha e sim com uma legião de tecnologia me acompanhando. Talvez cheguemos aos mesmos lugares, mas sem os mesmos prazeres. Digitalmente, esses valores são predeterminados. Nossa interferência e interação são calibradas entre o cérebro e o olho – modo único de cada ser olhar e fotografar.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Curiosamente ilustras a tua resposta com duas fotos em preto & branco, o que lembra certa rejeição da cor em muitos fotógrafos. Há uma espécie de resplendor excessivo na cor que impede o olhar de decifrar meandros mais íntimos da imagem?

LEILA FERRAZ – De certa forma, sim. A cor é fascinante, porém ela nos excede, quando apenas cor. Raros são os fotógrafos que sabem dar às cores suas temperaturas exatas. A cor mantém estreita relação com a temperatura, com a hora. O calor de cada cor tem algumas regras áureas que aprendemos e exercemos na medida em que fotografamos analogicamente.

DA – E como o acaso dimensiona o espectro final da imagem fotografada?

LEILA FERRAZ – O acaso é o orgasmo que temos. Quando ele acontece, gozamos. Se vamos ou não repeti-lo e nos tornarmos amantes é a proposta misteriosa inerente ao próprio acaso.

DA – Bom, recordo certo entendimento de que a fotografia aprisiona a alma da gente.

LEILA FERRAZ – A isso Roland Barthes (com quem concordo) chama de noema fotográfica. O momento decisivo, único, raro, de Cartier Bresson, que perpetua toda a essência estética do ser ou da coisa da fotografia. Ou da coisa fotografada. Aquilo que é próprio e unicamente possível naquele instante.

Foto: Leila Ferraz

DA – Salvador Dalí via na fotografia “o veículo mais seguro da poesia e o processo mais ágil para perceber as mais delicadas drenagens entre a realidade e a surrealidade”.

LEILA FERRAZ – Veja a insegurança dessa frase. Sua fragilidade. Ela precisa de um mecanismo que justifique um processo contínuo no tempo. Não concordo.

DA – Talvez venha do fato de que o Dalí, ainda em 1929, quando afirmou tal coisa, pensava na fotografia apenas como o registro de uma cena, o que ele próprio chamava de catálogo “de imagens fragmentárias que dão lugar a um total conhecimento dramático”…

LEILA FERRAZ – Sim, é possível. A fotografia como registro foi e ainda é, infelizmente, entendida dessa forma. Quando, na verdade, essa é apenas uma de suas aptidões enquanto manifestação artística.

DA – Quais os caminhos estéticos que a utilização da fotografia abre para a tua concepção criativa como um todo?

LEILA FERRAZ – Caminhos estéticos são para mim como palavras autológicas ou heterológicas. Para segui-los é preciso estar com os sentidos em uníssono. Suspensos. Minha concepção criativa, tanto no poema quanto na fotografia, por exemplo, é minha expressão de ser. Única. Soma de diversos processos raros. Nasci com essa capacidade de ser intuitiva. Para mim, o domínio da técnica é uma escolha fortuita. Lúdica. Feminina. Inexplicável. É uma sensação de concretude e seus fantasmas invisíveis. Há um momento harmônico que surge instantaneamente quando a coisa da arte se expressa em si mesma.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Como lidas com temas e formas ao definir recortes e justaposições em tua criação fotográfica?

LEILA FERRAZ – Tenho uma paleta de cores naturais e cambiantes que me cercam e me abrangem. Posso dizer que o mundo que me cerca está organizado em matrizes pré-determinadas e que se modificam a cada instante. Criando, assim, uma relação de movimento contínuo. Meu poder de escolha de temas é um processo interior – que pode ser aleatório ou determinado por um desejo. Sem dúvida, aquilo que considero como belo é o meu ponto de partida. Seja uma paisagem, por exemplo, ou algo estático. Contudo, a minha interferência permite que eu simule diversas composições de formas e cromáticas, até que me bastem. Até que eu chegue ao meu noema – no sentido que relatei acima. Nesse sentido a manipulação digital me proporciona a capacidade de transcender à fotografia, recriando cenários, figuras ou abstrações num cenário surpreendente e inédito. Por vezes inesperado em termos de justaposições ou recortes. Atualmente, já consigo controlar ou dominar as possibilidades do mundo digital para obter exatamente o que desejo, como resultado. Porém, a surpresa é sempre instigante e muitas vezes conflitante.

DA – Quando preparas uma cena para fotografar, lidas com os truques de sua figuração. Trata-se, como em toda criação, de atuar no limite de uma falsificação. Nesse tablado, como se relacionam a imaginação e o instinto de imitação? Paul Éluard dizia que “a imaginação não mente nunca, pois ela nunca se equivoca”.

LEILA FERRAZ – Em diversas ocasiões eu preparei a cena que imaginara. Estas duas: a primeira foto é a do meu próprio umbigo. E resolvi utilizar um recurso digital para lhe conferir uma “história feminina”, por assim dizer. Já na segunda imagem, acrescentei vários outros recursos digitais e desarranjos para lhe conferir movimento. O movimento de um veleiro chamado NOTURNO. Com isso vou além de minha intenção original. Passo a acrescentar o elemento de Thalassa – também próprio do universo feminino. E mais – ao deslocar o eixo da imagem, surge o movimento. E a imagem criada torna-se única e poética. Há outro caso em que para obter um resultado imaginado, tive que interferir várias vezes na paisagem. Queria fotografar um homem à noite, com a lua por detrás da Ilha Bela, e que as ondas do mar preenchessem o corpo do modelo. Processo que demorou muito tempo, por se tratar de uma sobreposição sobre uma mesma película que já havia fotografado a paisagem com o modelo. Após alguns minutos, pedi para o modelo sair e então as ondas do mar invadiram, também, o espaço de seu corpo. E fui além. Na gráfica, além das cores básicas, acrescentei a impressão de mais uma cor, o ouro, formado pela passagem de uma bicicleta. Tudo isso foi feito analogicamente, com uma Hasselblad e passagem de luz sobre um papel virgem, em câmara escura. Foram vários fotolitos até chegar ao resultado que eu desejava. Vários dias e um processo caro. Com as facilidades do mundo digital, isso seria feito muito rapidamente. Talvez com um resultado final diferente. Porém controlável. Há mais exemplos. Centenas deles. Nesses casos, a imaginação se transforma em realidade. Isso é possível, sim.

Foto: Leila Ferraz

DA – Entendes que a web permite hoje um instrumento valioso de trabalho para a criação artística?

LEILA FERRAZ – Essa tecnologia, encontrada à disposição de qualquer pessoa, me proporcionou novas formas de expressão, de comunicação e transformação da realidade. É possível interferir em qualquer imagem. Multiplicá-la, replicá-la e movimentá-la através de qualquer espaço ou base. Misturá-la em qualquer meio e adicionar inusitadas linguagens. Através dos meios digitais, o comportamento da imagem fotográfica, às vezes de uma mesma imagem, conquista simbologias inéditas. Crio um novo vocabulário emocional a ser decifrado.

DA – Quando o fotógrafo lida com o modelo vivo, desperta certamente nele um instinto de espetacularização. Sendo o modelo objetual, como se realiza essa teatralização dos sentidos?

LEILA FERRAZ – Creio que lidamos com a metafísica quando falamos de fotografia e todos os casamentos possíveis e impossíveis que se realizam entre tecnologia e processos artesanais.

DA – Esquecemos algo?

LEILA FERRAZ – Posso dizer que o processo digital de cores e mesmo de nuances monocromáticas me é muito valioso. Sem dúvida, todo esse processo que atualmente me fascina, é altamente tecnológico, preciso e ao mesmo tempo cambiante, de acordo com o resultado que desejo obter ou que me surpreenda quando atinjo um ponto que para mim é a manifestação da vontade de nominar o incontrolável, porém “ordenado”.

Foto: Leila Ferraz

TRÊS POEMAS INÉDITOS DE LEILA FERRAZ

 

Ossuário de fontes

 

Esgotei minha última saliva.
Minha umidade esvaiu-se em leite de amêndoas.
Não há lágrimas descendo as escadas.
Estou estranha, tão estranha, e não me basto.
Pouco sei desta mulher que nasce e renasce a cada manhã,
e não se põe jamais, porque a ela pertencem as linhas da vida
que unem as artes e os manifestos.
Esta tresloucada fêmea ensandecida capaz de desnortear o mais sério dos eruditos.
Que depoimento é este que tanto queres?
Para mim se assemelha a uma equação da própria física que ainda nem descoberta foi.
Um depoimento afetivo de memórias juradas ao esquecimento.
Sim, reunirei minhas últimas forças e dormirei com os protagonistas de minhas lembranças.
Com ou sem as suas próprias naturezas devastadas.

 

 

 

***

 

 

 
As luvas da raposa

 
Hoje a liberdade se esconde
no cache-sexe de Adão e Eva.
Procuro em mim o Andrógino Primordial.
Meus desejos se tornaram anjos persecutórios.
E enlouqueço enquanto refaço meu corpo na praia da Olaria.
Tenho todos os elementos da loucura.
Agora fotografados.
Quanta beleza na boca de Narciso!
Quanta verdade revela um espelho.
Já não posso te esperar.
Serei do primeiro marinheiro que aportar aos meus pés.

 

 

 

***

 

 

 

Fotografia noturna

 
Uma paranoia engole nossas memórias.
Cada tecla tocada emite um falsete nas nuvens.
Quem colherá as imagens secretas que gerei?
Quem se esconderá na concretude de nossas palavras,
Onde se ocultam meus gestos eternos cor de prata.
Nada sincero ou palpável.
Toda criação espalhada pelo universo.
Planetas adversos pelas avenidas cósmicas.
Encontros extraterrestres acontecem quando recebo um amante em meu lençol.
E a estética amorosa conjuga verbos proscritos.
Filhos da nervosa ruela que dobramos no espaço.
Sonhos cada dia mais impossíveis nos retoques dos retratos.
Garantias no lugar de signos colocam suas máscaras entre as pernas dos mortais.
Estarei sonhando?

 

Floriano Martins é poeta, ensaísta, editor e tradutor.  Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

 

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116ª Leva - 01/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A primeira correspondência que Paula Dip recebeu de Caio Fernando Abreu foi um bilhetinho insolente, com ares de intimação. Prenunciavam-se os anos 80, e ambos trabalhavam na editora Abril, em redações convizinhas. À época, Paula organizava uma festa de comemoração de seu aniversário e Caio não figurava na lista de convidados. Foi então que aterrissou sobre a mesa da jovem jornalista a seguinte mensagem: “Todos já receberam o convite para o seu aniversário; por acaso você teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperanças de ser convidado? Sei que a festa é amanhã e prefiro pensar que foi uma distração de sua parte; detestaria imaginar que foi proposital”.

Conhecido pelo temperamento forte (e volátil), essa era, na verdade, a maneira de Caio dizer para Paula que queria ser seu amigo. Ele foi convidado para a festa, naturalmente, e a amizade se configurou por vinte anos. Paula viu, de muito perto, o jornalista se tornar escritor, dramaturgo, roteirista; ganhar prêmios; morar fora do país; retornar; sofrer por amor; sobreviver à ditadura militar; descobrir-se portador do vírus HIV; morrer. Durante esse período, eles trocavam inúmeras cartas, que ficaram guardadas por uma década, esperando que o intolerável da ausência desse trégua e os amigos pudessem se reencontrar naquele tempo retido no papel.

A volta às cartas, afinal, deu forma ao livro “Para sempre teu, Caio F. – Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu”, lançado em 2009. Sucesso de público e de crítica, o misto de memórias e correspondências inspirou um premiado documentário de mesmo nome. Agora, uma nova compilação de cartas vem a público, outra vez organizada por Paula Dip. Em “Numa hora assim escura”, a jornalista se debruça sobre as missivas trocadas entre Caio F. e a escritora Hilda Hilst, entre os anos 70 e 90. O lote, até então inédito (alguns envelopes ainda se mantinham lacrados), revela duas pessoas que, através de um vigoroso laço afetivo, completaram-se artisticamente e forneceram, ainda que de maneira incidental, um panorama precioso de suas épocas, sobretudo no que diz respeito à literatura.

Os textos epistolares remontam a um Caio recém ingressado na vida adulta, com a cabeça tomada pelos cabelos compridos e um tanto de ideais, que se muda para a mística Casa do Sol, em Campinas, onde Hilda havia se refugiado para se dedicar à literatura, após uma vida de luxo e matrimônio. A relação dos dois, a princípio de pupilo e mentora, pouco a pouco se fortifica num pacto de amizade, que durou por toda a vida, e que foi inestimável para a formação literária de Caio. Prova disso é que nunca se desligaram, fosse qual fosse a distância geográfica, fosse qual fosse a gravidade das circunstâncias. As cartas os uniram na vida e na morte.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Paula Dip expõe detalhes sobre esse encontro incomparável entre dois de nossos principais autores contemporâneos, rememora sua própria convivência com o amigo, revela particularidades do escritor e reflete sobre seu papel de proteger e dimensionar o legado de Caio Fernando Abreu. Além disso, fala sobre novos autores, literatura feminina, o reconhecimento da obra de Caio F. por parte de uma nova geração de leitores e a experiência de se reconstituir parte de uma existência através de relatos contidos no secreto da troca de cartas. “Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confidências, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa”.

Paula Dip / Foto: Johnes Mattos

DA – O Caio era alguém que acreditava no esotérico, em planos astrais, na incidência do sobrenatural no dia a dia. No prólogo do novo livro, você escreve que esse volume de cartas chegou a você “como num passe de mágica”. Depois da ótima repercussão de “Para sempre teu, Caio F.”, livro seu que serviu de matéria para um premiado documentário, acredita que, de alguma forma, ele queria que esse pacote terminasse contigo? Que você continuasse protetora do legado dele?

PAULA DIP – Caio dizia que, além de ser escritor, sempre quis ser um mago “como Cortázar”, em quem se espelhava. Desde muito jovem estudou astrologia, espiritismo, foi Rosacruz, aproximou-se do candomblé, do Santo Daime, consultava cartomantes, videntes, jogava I Ching e Tarô. Quando conheceu Hilda Hilst, desenvolveu ainda mais seu lado místico. Assim que ficamos amigos, ele leu minha carta astral e analisou minhas revoluções solares algumas vezes, fez o mapa da minha filha quando ela nasceu, de tal forma que, com a convivência, aprendi a entender e a respeitar os sinais que, segundo Caio, o universo nos envia; basta estarmos atentos e fortes, ele dizia, citando Caetano e Gil. Visitava sempre sua mãe de santo no Rio, Sonia de Oxum Apará, e aqui em São Paulo certa vez me levou a um terreiro para visitar um pai de santo. Quando chegamos ele ficou muito à vontade, participou da roda, cantou, dançou e pediu a benção aos orixás. Eu assisti de longe, não tive desenvoltura para participar da festa e nem para me entregar ao ritual que ele parecia conhecer bem. Sempre fui cética. Depois disso ele não me convidou de novo para tais atividades, mas eu sempre respeitei seus credos. “Yo no creo em brujas pero que las hay, las hay”, diz o ditado, e por tudo isso, passei a prestar atenção aos sinais. Nos anos 80, eu e Caio fizemos um pacto que respeito até hoje de escrever nossa história e tornar públicas suas cartas. Quando Caio morreu, em fevereiro de 1996, por exemplo, eu morava fora, não havia internet ou celular, só fui saber da morte dele alguns dias depois. Eu vivia em Boston, era inverno, uma madrugada houve um acidente de carro na frente da minha casa, um rapaz morreu dentro de um carro que pegou fogo. Eu nunca havia visto nada tão impressionante e quando soube que Caio havia falecido justamente naqueles dias, fiquei muito sensibilizada. Aquilo parecia uma premonição, um aviso. Outro exemplo: quando esse pacote de cartas dele para Hilda veio parar em minhas mãos, pensei até em fazer uma tese de mestrado a partir delas, mas acabei decidindo publicar o livro. Logo no início do trabalho fui atrás da bibliografia de Hilda e encontrei um livro dela, “Tu não te moves de ti”, que ele me presenteou em 1980, com um bilhete/dedicatória, que estava perdido há 30 anos na minha biblioteca, outro sinal. Falo disso no meu livro novo, publico um fac símile do bilhete. Hilda combinou com Caio que ele viria visitá-la depois de morto para garantir que havia vida após a morte, e ela contou que ele esteve na Casa do Sol algumas horas depois de morto, para lhe mostrar que estava bem, conforme haviam combinado. Ele era um cara que cumpria suas promessas, um amigo muito leal. Não estou sozinha nisso, muitos outros amigos de Caio se sentem assim, ligados e atentos aos seus sinais. Tudo isso faz parte da lenda de Caio Fernando Abreu, mas acima de todos os mitos e mistérios sobre sua pessoa, o que importa é que ele foi um escritor talentoso que merece ser lido e cultuado. Finalmente respondendo à sua pergunta, não sei se ele queria que o pacote de cartas terminasse comigo, ou se desejava que eu protegesse seu legado, mas acredito em seguir minha intuição no sentido de levar a publico cartas, textos, conversas, memórias, e todos os inéditos de Caio que chegarem às minhas mãos.

DA – Você conta, no livro, que conheceu o Caio na redação da editora Abril, onde firmaram uma amizade que durou 20 anos. Ainda assim, há algo nessas novas cartas que a surpreendeu durante a leitura? Há, em algum aspecto ali, um Caio que não conhecia ou não sabia que existiu?

PAULA DIP – O que mais me impressionou nesse pacote com parte da correspondência entre Caio e Hilda é a juventude, o frescor do texto. Quando o conheci, entre as redações das revistas Pop e Nova, Caio estava com 30 anos, já morara dois anos na Europa, tinha livros publicados e premiados. À época, ele escrevia os primeiros contos do livro “Morangos mofados”, lançado em 1982, pela Brasiliense. Até hoje guardo um bilhete dele se convidando para minha festa de aniversário, o início de nossa amizade. Aos 17, Caio escrevia o romance “Limite branco”, quando decide se mudar para São Paulo e depois para a Casa do Sol, em 1968. Hilda é autora da epígrafe e editora do texto final desse romance. As cartas falam exatamente desse momento. Fiquei encantada com aquelas confissões de menino, sonhos e perrengues de final de adolescência; a vocação do escritor, o precoce amor às palavras. Nas primeiras cartas que envia a ela do Rio, em 1970, Caio menciona Caetano Veloso, Antonio Bivar, Luiz Carlos Maciel, ídolos no nosso tempo, como sendo os papas da contracultura. É o deslumbramento de uma geração. Caio diz a Hilda que “é uma loucura a lucidez e a abertura espiritual que eles têm”. Eu que só fui ver Caetano rebolando no palco do TUCA, em São Paulo, com os Tropicalistas, fiquei encantada. Caio, assim como Caetano, era artista plástico, desenhava, fazia colagens que às vezes transformava em cartas, com estrelinhas, entrelinhas, anúncios, desenhos, detalhes. Cartas lindas, apaixonantes. Não é por acaso que o livro fala de uma paixão literária.

Caio Fernando Abreu e Paula Dip em 1982 / Foto: Arquivo pessoal

DA – O conteúdo das cartas é marcado por uma sobrecarga de afeto, em especial a admiração e o carinho que Caio demonstrava pela Hilda. Muito mais que uma confidente ou uma amiga, a figura da grande escritora que já era, quando se conheceram, mostra-se fundamental para a formação da escrita do jovem autor. Obviamente que havia nele um talento nato, contudo o quanto acredita que o convívio, naquele exato período de sua vida, tornou a Hilda imprescindível para a literatura de Caio?

PAULA DIP – Mais do que imprescindível, Hilda foi um bálsamo na vida de Caio F. A vivência de quase dois anos, que tiveram na Casa do Sol e continuou por toda a vida, foi troca fundamental para a formação literária dele. Afinal ele era um garoto de 19 anos! Teve acesso à biblioteca completíssima e principalmente aos escritos dela, às suas ideias. Eles se reconheceram imediatamente no amor à palavra. Caio virou assistente, ela ditava textos num gravador que ele depois datilografava numa operação crucial que o fez ouvir a própria voz desafinada e fazer exercícios para encorpá-la. A voz engrossou e o milagre foi atribuído à figueira mágica, claro.  Caio aprendeu com Hilda a ler seus textos em voz alta, e a dedicar muitas horas de seu dia à escrita e à leitura. Buscar na palavra a sua superação. Assim nasceu a lenda esotérica que até hoje envolve os dois. Hilda era educada, culta, levava uma vida original, reclusa e ao mesmo tempo cercada de mil pessoas interessantes. Foi uma moça bonita, rica e badalada na capital paulista, onde estudou direito no largo de São Francisco. Namorou Deus e o mundo. E fugiu do carrossel de paixões e viagens ao redor do mundo, aos 35 anos, quando largou tudo para viver numa casa de campo, para escrever seus poemas e focou em sua obra genial durante o resto de seus dias. A Casa do Sol tornou-se um espaço de reflexão, estudo, até hoje referência para artistas, poetas, escritores, cineastas. Acredito que ele foi muito influenciado por ela, e vive versa; Hilda aprendeu muito com Caio. Ela foi o mestre e ele o aprendiz, mas é dos grandes encontros praticar a alteridade, e certamente eles trocavam de lugar. O rapaz trouxe o frescor da juventude, enquanto ela o confortou com a sabedoria da maturidade. Até conhecer Caio, Hilda só havia escrito poesia. Em 1970, publica “Fluxo-Floema”, seu primeiro mergulho na ficção, e dedica a ele um conto, “Lázaro”, para mim um dos mais belos da língua portuguesa. Logo depois, Caio publicou “Limite Branco”, seu romance de formação, cujos capítulos ela editou, escreveu título e epígrafe. Um verdadeiro encontro de almas.

DA – Numa das cartas que escreveu em Londres, Caio faz um comentário bem mordaz sobre um livro póstumo da Clarice Lispector: “Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”. Um pouco antes, você relata que Caio trazia, da juventude, uma obsessão literária por Clarice que, depois de se relacionar com Hilda, veio ao chão. O que se tornou essa paixão, afinal, para Caio, a ponto de ele trocar até de musa?

PAULA DIP – Caio se encantou com Clarice na adolescência, quando as paixões são fortes, platônicas e eternas. Eles viveram coup de foudre, tipo um romance muito avassalador que não existe mais, irmão do amor à primeira vista, que é mais como um soco no peito. Clarice o convidou para se sentar ao seu lado e o chamou de “meu Quixote”, numa noite de autógrafos em Porto Alegre, e, embora tenham trocado telefones, nunca se viram. Ele deu sorte na escolha da musa, dona de uma energia tão mágica e misteriosa que alguns a chamavam de bruxa. Como não amar tal musa? Caio se apaixonava perdidamente por suas musas. Seu texto foi marcado pela profundidade abissal de Clarice. E o amor pela musa nunca morre, amores e musas se acrescentam. Clarice era distante, calada; Hilda, um turbilhão. E Caio não esteve perto da Lispector no cotidiano, como aconteceu com Hilda. Bastou ele chegar à Casa do Sol e outro coup de foudre. Eles imediatamente diziam tudo, riam de tudo, brigavam por tudo, duas crianças. Quanto ao comentário ferino que você cita, é a cara dele! Caio perdia um amigo, mas não perdia a piada. Exercia um humor ferino, era witty como poucos. Para ele, poder zombar por escrito de Clarice, numa carta para Hilda, era como provar a si mesmo que a fila andava e que o futuro ainda lhe reservaria muitas musas, graças a Deus.

DA – Por outro lado, apesar da quantidade de missivas que remetia dentro e fora do país, Caio chegava a ficar meses sem receber uma resposta de Hilda. Proporcionalmente, aliás, as cartas enviadas pela escritora parecem bilhetes diante dos textos de várias páginas escritos pelo autor. Qual a relação que faz disso? Ainda que trocassem impressões e laços fortes de sensibilidade, percebe que existia nele um interesse mais grave, um apreço que não era correspondido à mesma altura por ela?

PAULA DIP – Hilda morava no campo, raramente checava a Caixa Postal que ficava longe, no Correio da cidade. E as cartas já estavam velhas, talvez não achasse necessário responder. Era uma vida reclusa, mas bem cheia a que Hilda Hilst levava na sua Casa do Sol (e também tinha a Casa da Lua, na praia. Dona de terras, grande dama do interland paulistano, nascida Almeida Prado por parte do pai poeta. Sabia receber comme il faut aos inúmeros cães, amigos, artistas, amores. Tudo isso dava trabalho a essa taurina com lua em Aquário, que escrevia sem parar uma literatura genial, tresloucada, comparada a de James Joyce, não menos. Caio viajava pelo mundo, essa era sua paixão. Mudava de cidade e de emprego como respirava, naquele seu ritmo budista. Voz mansa, profunda, muitos silêncios. As cartas eram um respiro, uma forma de manter a pouca sanidade mental. Escrever cartas era como manter um diário; havia dias que escrevia cinco ou seis cartas para amigos, amores e familiares. Hilda foi uma destinatária privilegiada, assim como eu. Caio escrevia para si mesmo, como desabafa na epígrafe do “Numa hora assim escura”, para organizar a cabeça, fazer planos, registrar um memorial. Escrevendo, eu falo pra caralho, era seu mote. Quanto à reciprocidade do amor, dura falácia. Como se sabe, não é a quantidade e nem o tamanho que revela o teor do afeto. Eles foram platônicos perfeitos: viviam conectados em outro plano, praticavam telepatia entre outras formas de comunicação. Apesar das poucas cartas que Hilda enviou a ele, a afeição entre ambos sempre foi correspondida e eterna enquanto durou. Foram amigos e irmãos até o fim. Quando Caio morria em Porto Alegre, Hilda era uma das poucas que telefonavam todos os dias. Ela chorava e ele a consolava. Amor de amizade, diziam.

Estrelas, carta de Caio a Hilda Hilst (1975)

 

DA – Embora tenha as cartas como ponto de partida, o livro apresenta uma estrutura coesa, cuja narrativa remonta passagens tanto de Caio quanto de Hilda que antecedem e sucedem as situações abordadas nas cartas. Obviamente que, pelo seu livro anterior e pelo próprio convívio com o Caio, você já detinha desse material do autor. Porém como foi reconstruir os momentos de Hilda? Já havia uma aproximação com a vida e com a obra da autora, ou ocorreu um processo inverso, no qual as cartas a levaram a pesquisar sobre o passado dela, inclusive com o recurso de entrevistas?

PAULA DIP – Conceber um livro de cartas é revelar a passagem do tempo, o movimento social, o pensamento coletivo, o processo histórico. Sem falar nas emoções etéreas e aéreas que só as cartas contêm. É fascinante ver as pessoas dessa forma, tudo se encaixa. Antes de jornalista e escritora, sou formada em História na PUCSP, em 1970, e desde então procurei ver as coisas a partir do processo dialético. Cheguei a considerar seriamente a possibilidade de ser professora, ter uma carreira acadêmica, mas naquele tempo as pessoas viviam sendo presas na faculdade: ter lido Marx era uma condenação. Foi uma orientadora, a Zilda Zerbini, que me sugeriu ir trabalhar nos fascículos de História da Abril. Caio havia trabalhado, antes de mim, deixado pistas invisíveis. Pois foi assim que descobri a escrita. Estudiosa em Português, criava histórias que lia para a classe, trocava poemas com colegas de redação, escrevi poemas desde menina. Mas foi ali na Abril Cultural, que senti que eu poderia ser uma escritora. Com esses olhos, fui atrás da mulher de quem Caio sempre me falou muito: poetisa vivendo na Casa do Sol e amiga do meu amigo, Hilda era personagem frequente de nossos papos. E, sim, parti de um extenso memorial da nossa geração, que virou meu primeiro livro. Mas os livros atraem gente que gosta deles e chegaram outras pessoas que conviveram com a dupla, entrevistei dezenas delas. Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confidências, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa.

DA – As cartas, além de serem registros de uma relação bem particular, estão carregadas de retratos de suas épocas, por meio de olhares deliberados, de comentários incidentais. Você consegue identificar um valor histórico na mesma proporção que literário nessas missivas?

PAULA DIP – Com certeza. É isso que me fascina nesse tipo de livro: as cartas são fontes primárias da experiência existencial de uma determinada geração. Elas revelam o cotidiano, o desenrolar da cena histórica em que viveram o autor e seus contemporâneos, cada um fazendo sua arte, levando sua vida. É um flashback de um determinado momento, como o depoimento de uma testemunha ocular revelando tudo. Nesse sentido as cartas que publico são documentos sociais e políticos de um período muito conturbado da vida brasileira. Entre 70 e 90 (data da primeira e da última carta desse pacote) vivíamos às voltas com uma ditadura cruel, e embora os dois escritores não fossem exatamente militantes, foram vítimas da Censura e da repressão. Hilda hospedou e preservou vários amigos procurados pelo DOPS, e Caio foi um deles. Além de registrarem uma relação bem particular, as cartas são lindas e seu valor literário é inestimável. O professor de literatura gaúcho Luis Augusto Fischer acredita que, se olhadas com o devido distanciamento, essas cartas têm a mesma importância literária dos contos, crônicas e romances dele. Concordo inteiramente.

DA – Algo que fica explícito nas cartas é a voltagem emocional de Caio, sobretudo suas variações. É curioso quando ele aconselha Hilda a não se importar com as críticas, sendo que ele próprio fica extremamente melancólico diante de uma leitura negativa de seu livro. Dentro de uma mesma carta, por exemplo, há notícias de alegria e trechos em que se mostra introspectivo, desencantado quanto à vida que levava. Quem era esse Caio, afinal? De alguma forma, ele escrevia essas cartas também endereçadas a ele?

PAULA DIP – Esse Caio era muitos, como aliás, todos nós somos, mas ele não fazia disso segredo. Escrevia suas cartas como se fossem páginas de um diário, registros em alta voltagem de seus altos e baixos cotidianos. Ele usava a literatura e a correspondência como uma forma de estar em contato com as pessoas que ele amava, fazer uma espécie de auto reflexão. Pensar a vida. Era uma pessoa muito transparente; quando estava triste, revelava sem pudor o motivo de seu desespero, às vezes acordava achando que a vida não valia a pena e me ligava de madrugada, dizendo que queria morrer. Nos textos, despedia-se da vida num parágrafo e, no outro, já estava rindo da própria tristeza. Ele vivia numa gangorra emocional, porque tinha coragem de se jogar nos abismos da dor nu e sem medo, como diziam alguns que testemunharam esses mergulhos. Isso fica muito claro em sua obra; ele se jogava lá no fundo das emoções, das mais sutis às mais despudoradas. É disso que vive um escritor. E quando ele estava feliz, não havia ninguém mais feliz que ele. Era engraçadíssimo, queria sair, dançar, fazer festas, jantares, adorava rir, dançar e namorar muito. Hoje ele seria considerado bipolar. Caio sempre fez análise, frequentou um psicanalista até o final da vida.

 

DA – Outro aspecto, dentro desse mesmo contexto, é o fato de que, nas cartas mais antigas de Caio, as palavras “suicídio” e “morte” aparecem com alguma frequência, diferente das mais breves, datadas nos anos 90, quando já estava infectado com o vírus HIV, que iria matá-lo. Você acredita que, diante da finitude, ele se deu conta de que a literatura era o que sempre o manteve vivo e, portanto, tornou-se mais determinado a escrever?

PAULA DIP – Sem dúvida foi isso mesmo que aconteceu. Caio era um insatisfeito, sempre reclamou da vida e ameaçou acabar com ela muitas vezes, até descobrir, em 1994, que era portador do vírus da AIDS. Quando o exame deu positivo, e isso naquele tempo significava uma sentença de morte, em vez de se matar, ele decidiu viver intensamente e “positivar” sua relação com o mundo. Voltou para a casa da família, no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre, e nunca mais reclamou de nada. Começou a cuidar do jardim com o pai, velhinho, com quem havia se desentendido na juventude.  Aproveitou todos os minutos de sua sobrevida para finalizar a obra, revirou gavetas, reeditou textos, publicou um livro póstumo, o “Ovelhas negras”. Antes mesmo de morrer, fez projetos, planejou, viajou, despediu-se da vida de forma gloriosa. É claro que teve momentos difíceis que dividiu com Deus e com poucos e íntimos amigos, e todos se encantaram com sua aceitação Zen e sua decisão de sair da vida de uma forma suave. “Que seja doce”, dizia.

DA – Um trecho marcante é de uma entrevista da Hilda na qual ela denuncia que o então editor de Caio havia dado um bom adiantamento para o livro de uma atriz, enquanto o autor, já com reconhecidos livros publicados, lavava pratos em Londres para sobreviver. Penso que isso, de certa maneira, é um dos fatores que contribuíram para sua obra ter ganhado o devido respeito somente anos depois de sua morte. Na condição de amiga – e também de fã -, como lida com essa questão? É inevitável conter um resquício de mágoa ou parte do princípio de que melhor o reconhecimento tardio que reconhecimento algum?

PAULA DIP – Não acho que a falta de reconhecimento, por parte do público ou do editor, seja um fator para que a obra dele tenha ganhado o devido respeito somente anos após sua morte. Caio sempre viveu adiante do seu tempo, é mais compreendido hoje do que foi então. Ele estudava seu próprio mapa astral e dizia, com sabedoria pontuada de ironia, que só seria famoso depois de morto. Até nesse sentido ele e Hilda eram parecidos, pois ela também não teve uma fortuna crítica enquanto vivia e nunca vendeu muitos livros. Ambos nunca se deram bem com alguns de seus editores, que chamavam de “cornos”, e ela tomou as dores do amigo quando o editor da Cia das Letras preferiu publicar um livro de Bruna Lombardi (que Caio adorava, diga-se de passagem), sem se lembrar de que o escritor pudesse passar por dificuldades financeiras em Londres. Nesse caso específico, que ocorreu nos anos 90, ele lavava pratos para sobreviver, no restaurante L’ Ecluse, em Camden Town, enquanto, na livraria ao lado, seus livros, com a tradução para o inglês de “Os dragões não conhecem o paraíso”, vendiam bem e enfeitavam a vitrine. Ironias do destino. Na verdade, Caio havia recebido um adiantamento de autor em parcelas mensais para escrever seu novo livro, que seria “Onde andará Dulce Veiga?”, mas o adiantamento acabou e ele ainda não terminara o livro. Quando ficou pronto, o editor cumpriu o prometido e o livro foi publicado. Mas nada disso o impediu de viajar pela Europa inúmeras vezes para lançar traduções de seus livros em alemão, italiano, francês e holandês, entre 1990 e 1996, quando morreu, justamente no momento em que sua obra começava a ficar mais conhecida fora daqui.

DA – Você coloca que os contos de Caio eram mobilizados por uma energia cuja fonte estava além da literatura; vinha de um pendor crítico social, de uma necessidade indispensável de usar a máquina de escrever como arma contra toda forma de poder, de ser um antídoto contra qualquer manifestação de tirania. Diante do quadro da literatura brasileira construído nos dias de hoje, acredita que falta um pouco dessa energia aos novos autores?

PAULA DIP – A palavra é uma arma contra a tirania. Foi assim antes, durante e depois dos tempos da ditadura, e continua sendo assim. O texto é um instrumento de expressão e de luta, e escritores, pensadores, filósofos, poetas, compositores sempre enfrentam censura, incompreensão, muitos são perseguidos, torturados e às vezes mortos. Mas a obra deles permanece viva. É bom lembrar que naquele tempo não havia redes sociais, celulares, essas tecnologias que banalizam e embaçam as relações, roubam nosso tempo, mas por outro lado aceleram e ampliam as possibilidades de comunicação. Dizer que a literatura das máquinas de escrever era mais pura, mais autêntica e mais inspirada que a de hoje soa como nostalgia, acho que a boa literatura não tem data, a força da palavra sobrepuja tudo. O século 21 é um momento histórico em que vivemos mais, morremos mais tarde, a longevidade nos dá o tempo e os instrumentos para fazer ao vivo, em cores e em tempo real uma autocrítica de nossa passagem pelo planeta. Quer coisa mais excitante? Só virar jovem de novo. Os temas estão todos aí. Não falta assunto para que os escritores criem bons livros e, aos bons autores, não falta energia. Por incrível que pareça, acredito que, quanto mais a situação piora, mais material os escritores terão para contar nossa história. Escrever é inevitável.

DA – Ao reconstituir a trajetória de Hilda, você ressalta a dificuldade que era para uma mulher, nos anos 60, tomar a carreira de escritora. Nos últimos anos, um debate de mesmo centro tem chamado atenção para a presença de mais autoras no mercado. Acredita que, meio século depois, pouco mudou em relação às mulheres na literatura?

PAULA DIP – As mulheres foram e continuam sendo menos valorizadas que os homens em todas as áreas, vivemos num mundo machista. Não faz muito tempo as mulheres não votavam, sequer frequentavam as universidades. É como se as mulheres existissem apenas para procriar e cuidar da casa e dos filhos. Hilda, que se casou apenas para atender a um pedido da mãe, vivia delatando o “engodo” do casamento; sempre lutou contra essa situação de inferioridade da mulher. Ela foi uma guerrilheira à sua maneira, viveu muito adiante de seu tempo, assim como Caio também o fez. Não quero entrar nesse assunto, que considero vital e altamente inflamável, digno de outra entrevista tão ou mais longa que essa. A literatura dita “feminina”, independente e bem antes do viés de gênero, sempre foi de resistência. Escrever é uma luta árdua, diária, e como disse Virginia Woolf, em 1928: “É preciso ter um teto só seu para poder se dedicar à escrita”. Continua igual, ou pior.

Bilhetinho de Caio F. a Paula Dip (1980)

 

DA – No prólogo do seu livro anterior, “Para sempre teu, Caio F.”, você relata que um jovem atendente de videolocadora reconheceu o seu nome como o da amiga de Caio, em razão de um conto dedicado a você. É muito interessante notar essa redescoberta da obra dele por uma geração que, na ocasião da sua morte, sequer existia. A que atribui essa conexão, num mundo comandado por outros valores, por outras realidades além daquela em que morangos mofam?

PAULA DIP – Como não amar e viver a redescobrir Shakespeare, Dante, Clarice, Pessoa, Machado? Os bons textos atravessam gerações. Tenho certeza de que, quando estudarem a literatura do final do século 20, o escritor Caio Fernando Abreu será considerado um clássico. Morangos continuam mofando e os dragões ainda não conhecem o paraíso. Para mim é muito natural que as novas gerações se encantem com o trabalho dele. Ele começou a escrever muito cedo, sua linguagem, embora singela e irretocável, revela uma originalidade enorme e um perene apelo jovem.

DA – Se Caio seguisse escrevendo hoje, quais temas, supõe, que seriam os de interesse dele?

PAULA DIP – Caio estava sempre muito atento a tudo. Era um escritor político, no sentido largo da palavra, via a vida como um todo, nunca deixou de criticar os problemas da nossa geração; lutou à sua maneira contra a ditadura e todos os seus males. O mais incrível é que parece que o Brasil não mudou. Costumo dizer que ele era meio vidente por ter sido um dos primeiros a falar de ecologia, dos venenos do capitalismo, das questões de gênero, temas que hoje são muito presentes em nosso cotidiano. Vários assuntos que ele abordava ainda estão aí, a serem resolvidos. Crise econômica, corrupção, descuido com a vida no planeta, poluição, desmatamento, o eterno retorno, o desencanto da juventude diante de tudo isso. Ele tinha um olhar agudo e muito focado em relação a esses problemas e acredito que continuasse assim. E como seu trabalho era autobiográfico, de sorte que ele era o herói de suas próprias fábulas, certamente estaria falando da velhice, da maturidade, ainda buscando o amor e sofrendo com a falta dele, em tempos conturbados e escuros como os que vivemos. Daí o título do meu livro. “Numa hora assim escura” é uma frase que encontrei numa carta dele à Hilda escrita nos anos 70, ainda tão atual. É isso que faz dele um clássico: seus textos se referem a questões humanas que não têm prazo de validade, são eternas.

DA – Ao fim, você conclui que Hilda estava sempre à procura de Deus, e Caio escrevendo sobre amor. O que lhe conduziu a esse pensamento?

PAULA DIP – Essa busca por Deus e pelo amor é universal, e está bem evidente na obra deles. E tanto em relação ao amor quanto a Deus, Caio e Hilda tinham sentimentos semelhantes: acreditavam duvidando. Dizem isso em muitas entrevistas. Caio adorava muitos deuses e pedia a eles: quero porque quero me casar. Perseguiu até o fim um amor realizado, mas zombava do próprio desejo garantindo que, se o tivesse encontrado, teria parado de escrever. No caso de Hilda, creio que desenvolveu como poucos uma linguagem extremamente coloquial com Deus e, nesse sentido, eu a comparo a Saramago, especialmente no conto que já citei, “Lázaro”, do” Fluxo-Floema”. Adoro esses versos dela, em “Mula de Deus”, do livro “Estar sendo, Ter sido”, cujo início é assim:

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada[…]

 

DA – Talvez a pergunta mais difícil tenha ficado por último: qual o seu texto preferido de Caio Fernando Abreu?

PAULA DIP – Quando a gente convive de perto com um artista e desenvolve certa intimidade com a obra dele, fica difícil pinçar favoritos. É claro que, pelo fato de ter visto nascer os contos de “Morangos mofados”, eu tenho um xodó por esse livro (que, aliás, é sua obra mais conhecida), e um carinho especial pelo conto “Pela passagem de uma grande dor”, que ele me dedicou. Amém. Trata-se do relato poético de uma conversa telefônica entre dois amigos, que realmente aconteceu. Caio fazia uma literatura de autoficção, contou nossa história a partir de fatos e pessoas reais, posso nos ver e a muitos de nossos amigos naquelas histórias. Foi um cronista fiel da nossa geração de baby boomers, hippies, yuppies, punks, revolucionários, loucos, criativos; mudamos o mundo e estamos envelhecendo. Ele construiu uma obra coesa e muito representativa daqueles anos loucos que temos o privilégio de rever. Somos a primeira geração realmente vintage.  Aos poucos, a partir do nosso encontro, ele foi me presenteando com seus primeiros livros, dos anos 60 e 70, como o “Inventário do irremediável”, “Pedras de Calcutá”, “O ovo apunhalado”. Caio era um escritor generoso, dividia com os amigos suas dúvidas sobre o trabalho, nos mostrava rascunhos, alguns textos nos entregava em mãos, tenho até hoje originais que ele me deu e já reli milhares de vezes. Li tudo o que Caio escreveu, desde as cartas e as crônicas, passando pelos contos, os textos teatrais e os dois romances, “Limite Branco” e “Onde andará Dulce Veiga?”; o primeiro, seu romance de formação dos anos 70, e o último, dos anos 90, sua despedida do gênero. Adoro “Pequenas epifanias”, “Cartas para além dos muros”, “Os dragões não conhecem o paraíso”. Quanto à dramaturgia, meu texto favorito é “Pode ser que seja só o leiteiro lá fora”, peça escrita em Londres, em 1973.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.