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109ª Leva - 03/2016 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Guilherme Preger mergulha fundo no mais novo filme de Quentin Tarantino

Por Guilherme Preger

 

Os Oito Odiados (The Hateful Eight). EUA. 2015.

 

Cartaz do filme

 

A primeira impressão de Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, é a de um forte déjà vu: não é seu roteiro incomodamente semelhante ao de Cães de Aluguel, primeiro filme do diretor americano? Oito personagens às margens da lei estão confinados em um único recinto e confrontam-se num clima de crescente suspeita mútua, agressão e violência ao ponto da autodestruição coletiva.

Esta semelhança acaba trazendo automaticamente uma comparação negativa: em contraste com o frescor experimental e inovador de seu primeiro filme, o oitavo filme de Tarantino é filmado com magnificência teatral, uma trilha sonora espetacular (de Ennio Morricone, ganhador do Oscar), e numa versão cinematográfica grandiosa em seus 70 mm. Estamos entretanto distantes do estilo laboral do cinema de autor. Os Oito Odiados é sem dúvida mais uma grande produção comercial do cinema americano, mas sem aventura experimental.

E há também a semelhança em ambiente e na época com o filme anterior, Django Livre, pois, como este, o novo filme se passa nos Estados Unidos do século XIX, pouco após o fim da guerra de Secessão e também após o fim da escravidão. Na verdade, Os Oito Odiados foi escrito como uma continuação de Django.

Esta última semelhança ainda acentua a sensação de desgaste: depois de parodiar e parafrasear dezenas de diretores em seus filmes, a ponto de transformar o recurso às referências em seu próprio estilo, Tarantino, como muitos outros diretores, passou a copiar a si próprio. Da metarreferência passou à autorreferência.

No entanto, é justamente a associação com Django que faz com que Os Oito Odiados se situe num plano diferente em relação a Cães de Aluguel, pois, seu último filme segue, como nos filmes imediatamente anteriores de Tarantino, a virada na cinematografia do diretor.

Virada fundamentalmente política: pois não são A prova de morte, Bastardos Inglórios e Django Livre filmes que abordam essenciais questões do cenário político contemporâneo: a misoginia e o feminismo no primeiro, o antissemitismo no segundo e o racismo e o escravismo no último? Questões cruciais não apenas da sociedade americana, mas de todo o mundo globalizado. Nesses filmes, Tarantino dirige seu olhar eminentemente estético para a questão das minorias.

Não que os outros filmes não fossem politizados, como se o virtuoso estilista das metarreferências pop não estivesse fazendo política em suas escolhas estéticas. Pulp Fiction, por exemplo, é com certeza um filme icônico dos anos 90, não apenas por sua inventividade, mas por refletir brilhantemente em sua crueldade estilizada o cinismo reinante da sociedade neoliberal em seu momento de acachapante vitória política. A famosa cena de abertura, com a discussão sobre hambúrgueres, pode ser entendida como a construção de um novo modo cínico de enunciação cinematográfica, onde discutir sobre sanduíches torna-se tão relevante quanto discutir filosofia. E em Jackie Brown, por muitos considerado seu melhor filme, a escolha pelo gênero Blaxpotation não pode ser considerada inocente e traz a questão do emponderamento da “minoria” negra, ou “afro-descendente”.

Mas algo de novo se inseriu em sua filmografia a partir de Kill Bill. A meticulosa construção formal de referências da cultura pop se alia a uma nova preocupação de conteúdo e olhar para a situação das minorias onde a condição da mulher, do judeu e do negro vai para o primeiro plano, sem que se abra mão do rigor estético e sem que se abandone a vertiginosa técnica da citação, ou o domínio da  tensão violenta, na qual sempre foi um dos grandes mestres do cinema, comparável nesse aspecto a Hitchcock e a Peckinpah.

Em Os Oito Odiados, há algo como uma condensação desses três últimos filmes, pois entre esses oito “outsiders” há a mulher (vivida por Jennifer Jason Leigh), o negro (o excelente Samuel Jackson), e o chicano (Demian Bichir), substituindo o judeu. Presos num armazém de estrada em meio a uma terrível nevasca, essas minorias se defrontam com a “maioria” branca (Kurt Russell, Walton Goggis, Bruce Dern, Tim Roth, entre outros). Assim, com sua mestria habitual, Tarantino faz aflorar as tensões raciais, de gênero e de classe numa violência cênica crescente. No entanto, justamente por estarem num universo à margem de toda lei e Estado (mesmo sendo um deles supostamente “xerife”), apesar das diferenças entre eles gerarem contrastes, ódios e enfrentamentos, os oito personagens estão irmanados num destino comum de destruição e morte.

 

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Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh e Kurt Russel / Foto: divulgação

 

Assim, neste último filme, Tarantino tanto segue a lógica multiculturalista dos seus filmes mais recentes, mas também se distancia deles, seguindo a linha de roteiro de seu primeiro filme, Cães de Aluguel. Para se entender esse jogo, é necessário distinguir o que há de comum na política dos filmes de “minorias” de Tarantino.  O comum é o fato de que todos são filmes sobre vingança. Sejam as mulheres que se vingam do dublê de corpo, dos judeus americanos que aniquilam os nazistas num teatro em meio à grande guerra, ou o escravo liberto que se torna o caçador de seus algozes escravistas.

E é importante também lembrar que a vingança é o tema do filme anterior a esses, a saga de Kill Bill.  Mas neste filme, que pode ser considerado quase um “turning point” para Tarantino, há uma diferença crucial em relação aos demais posteriores, pois embora aborde a questão feminina da protagonista A Noiva, neste a vingança é um sentimento fortemente individualizado, enquanto nos demais, a vingança se coletiviza e nessa passagem se politiza. Podemos mesmo dizer que no lugar de uma estética da vingança (em Kill Bill), passamos a uma política da revanche, pois a revanche seria a vingança coletivizada, passando do indivíduo aos grupos de gênero, étnicos e raciais.

Tomemos como exemplo Bastardos Inglórios, certamente a melhor e mais polêmica entre essas três obras. O filme não aborda apenas tematicamente a revanche dos judeus contra os nazistas. O filme mesmo, na grandiosidade de sua fantasia, é uma máquina de guerra contra a história, como se Tarantino quisesse dizer que o cinema é mais poderoso e pudesse desfazer a irreversibilidade temporal.  A obra, portanto, em seu aspecto formal, é uma revanche da imagem cinematográfica contra o real da inevitabilidade histórica. Por outro lado, a narrativa parece endossar a arriscada tese de que se os judeus europeus fossem tão bem armados como judeus americanos, o holocausto não teria acontecido, o que não deixa de ser um limite à sua opção política (do filme), pois é uma tese bastante questionável, já que desconsidera as lutas da resistência judaica durante a guerra.

Em Django Livre, o escravo liberto vingador, que aprende de um branco alemão as artes da pistola e do rifle, se torna um cavaleiro solitário e um exemplo para os demais escravos, e assim neste filme também a revanche faz parte da luta que quebrará suas correntes. Mas dependerá realmente de pistoleiros a luta contra a opressão?

Em Os Oitos Odiados, na cena onde Major Marquis Warren, vivido pelo excepcional Samuel Jackson, conta em retrospecto como cruelmente matou o filho branco do general confederado, temos novamente a lição de que a luta contra a opressão não admite trégua ou piedade. Mas não existe uma só luta contra a opressão, mas várias. Quando reunidas as minorias, o que elas fazem?  Um dos maiores interesses desse último filme do diretor está no laboratório social no qual se torna o armazém perdido nas montanhas gélidas de Red Rock, Wyoming.

Embora no início do filme uma aliança pareça emergir entre a mulher brutalizada e o negro caçador de recompensas, ou entre este e o chicano, quando vão guardar os cavalos no estábulo, ao longo do filme essas alianças se mostram mais e mais inviáveis. As minorias não se unem contra seus opressores, ao contrário, um jogo de traições é o que sustenta o suspense da narrativa. Curiosamente, entre as minorias, parece ser a mulher o elo mais insidioso mas mais fraco, quase como se Tarantino confirmasse a canção de John Lennon, onde a “mulher é o negro do mundo”.

Em Os Oito Odiados, a lógica política da revanche degenera no desejo individualista de vingança, rompendo então todas as possibilidades do estabelecimento de uma luta comum.  Assim, o retorno à aniquilação mútua de Cães de Aluguel parece o sintoma de um grande impasse na lógica multiculturalista da revanche das minorias. Mas é preciso lembrar que pistoleiros apontando armas uns aos outros são momentos típicos da obra do diretor e estão presentes em quase todos seus filmes. The Hateful Eight parece ser portanto o filme que encerra as perspectivas políticas de luta contra a opressão abertas pelos filmes antecedentes e ao mesmo tempo apresenta um impasse que não é nunca superado pela filmografia de Quentin Tarantino. Esperamos ver, nos próximos filmes, o grande diretor apontando sua câmera para outros lados.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. 

 

 

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