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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Os arrojados versos de Marcelo de Novaes

Marcelo de Novaes

 

Foto: Catharina Suleiman

 

O gato anterior ao gato

Um vulto que se esgueira
à sombra da sombra.

Às vezes, volta ao breu,
como a bruma se afoga
num rio.
Seus olhos são mais
claros que os olhos
claros.

Ele é o gato anterior
ao fato anterior.

Mesmo anterior ao fato
anteriormente dado
a ele mesmo,
gato.

Isso não se explica:
acende-se uma vara
de incenso de mirra.

Nasce e existe,
salta e volta a
saltar, do início.

Salta sobre o meu colo e,
de novo, volta a saltar do
chão, sobre o meu colo.

Se eu me visse
pela primeira vez,
pelos seus olhos anteriores,
não me acharia humano,
nem me acharia.

Mas saberia da dor
de não me saber,
se multiplicada
por cem
pulos.

Ele veio por entre as
teclas do piano de
tampo fechado.

As copas das árvores
as sombras das árvores
se dobraram,
em arco.

Patas postas na soleira
da porta, sem pó.

Unhas arranhando
o chão de terra.

Ele me ensina névoa
de musselinas.

Ele é o gato anterior
ao fato
anteriormente dado.

Roça o tampo do piano
como se fosse
vidro.

Tira escamas
dos meus ouvidos,
e medo dos meus pés.

Ávido, porque
sem lugar
no mundo.

Seu lar é a fresta da música,
o intervalo entre as teclas
branca, preta e branca.

Listras, ele não tem:
qual lince, cor de
laranja.

É o gato anterior a mim,
anterior à minha volta,
anterior à minha
dúvida,

anterior à música,
anterior à pauta.

Zaratustra.

 

 

***

 

 

Chão Absoluto    

 

A respiração presa. Desde que perdi a noção do amor e o sentido da distância. Desde que não pude mais [nem soube mais] atrair as flores, comandar o vento. Desde que me vi no Exílio antevendo, da morte, a antecâmara. Deveria ser amplo. Poderia ser. O sentido do ar me dando sentido [e estufando o plexo]. Deveria ser sol, e o céu não pareceria tão alto. E a terra não seria O Abismo. Deveria ser Amor, e não Intelecto. No entanto, é a este Chão que estou preso.

 

 

***

 

 

Acrílico

 

Ninguém tocará teu rosto
por detrás da máscara de
acrílico [onde há fumaça,
há fogo].

E o coração, muitas vezes,
parece ser órgão cansado e
estúpido. Clange e se arrasta
e plange, como carro de boi.

E ainda que não te possa tocar
a face, posso ouvir [e devo dizer
que ouço] esse roçar de carroça
em chão vermelho e pedregoso.

Olhe pra cima e respire
fundo: Aquilo é o Sol.

 

 

 

(Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas – Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos)

16 respostas em “Janela Poética III”

Janela Aberta!
Vista que toca e se é tocada pelos bons raios. Salve ,salve!
Beijo,Marcelo.
Demorei um pouco pra chegar,mas valeu.Um prazer grande estar aqui entre caminhos e palavras.
Parabéns,Diversos Afins.
Obrigada.

Show de ambiente;trocas valiosas.
Grato pela oportunidade de sorver este sopro fundamental.
Abs.
Luiz Augusto

Há pouco tempo deparei-me com a obra do Marcelo Novaes,tempo suficiente para deixar registrado também aqui neste belo e rico espaço o quanto através de seu olhar iniciei um processo de abolir uma cegueira devastadora,que de maneira comoda ou covarde principalmente em pontos nevrálgicos,simulava a mim mesmo não existirem.Portanto,lê-lo é tornar-se um ser humano mais ciente do real sentido de ser.
Xará,sou grato.Forte abraço.
Idealizadores de Diversos Afins,congratulações.

O que fazer sem uma poesia tão encantatória quanto esta do Marcelo? Brincar com as palavras como ele o faz em O gato anterior ao gato, sobretudo, é para quem tem intimidade com elas, as palavras, para os que sabem manejá-las e armá-las como se fosse um jogo emprestando-lhes sentidos únicos. É isso mesmo, sentidos únicos porque plurissignificantes. Parabéns, Marcelo!
Ah! Parabéns Diversos afins, Leila e Fabrício.

Conheci os poemas de Marcelo há pouco tempo também. Mas atrasos trazem surpresas, coisas boas às vezes demoram a chegar. Apesar de burilados, seus poemas não se prendem à camisa da forma. Tem o sensível ali pulsando. “O gato anterior ao gato” é belíssimo. Enfim, gostei, Marcelo. beijão!

Novaes é o poeta contemporâneo que mais admiro e na prosa, fluída e criativa, não fica fora das minhas preferências essências como leitora. É, antes de tudo, um homem ímpar, exemplar e de grande influência na minha vida. Gosto dele e do que ele pensa e de como pensa.

Parabéns a revista por ter escolhido a presença dele!

Abraços.

Agradeço a presença de todos os leitores.

E obrigado por me “pinçar” pela web, Leila.

Abraços a todos!

Ola! Faço o programa de radio SOM DE LETRA na Radio MEC FM, do Rio. Gostaria de me enviar leituras de seus textos para o programa? Pode ser em mp3 com uma apresentacao do seu trabalho e de vc mesmo, topa? abs livio

O que dizer dos textos de Marcelo Novaes?
São textos profundos, que me tiram o ar. São textos que guardam um quê de mistério ao olhar… um olhar muito seu.
Seus textos, como a esfinge, parecem me dizer: – Decifra-me ou te devoro!
E sobre eles me debruço, buscando desvendar seus mistérios.

Não há nada de comum em sua literatura, ela foge ao corriqueiro, ao lugar comum que se vê em tantos outros.

Há muitos anos o acompanho e fico feliz de vê-lo aqui, em justa homenagem, nessa revista que tanto admiro.

Parabéns, amigo Marcelo!

Um grande bj.

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