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115ª Leva - 09/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

A poética vertiginosa de Weslley Almeida

Weslley Almeida

 

Desenho: Re

 

OCULAR

 

Enxerga a flor
com toda tua retina.
Apalpe-a
com toda pálpebra tua.
Assiste – nas pupilas –
todo o seu desabrochar.
Pois não se sabe quando
a cegueira da candura anoitece.
Nem
se em fruto a
manhã será.

 

 

 

***

 

 

 

INAUGURAL

 

Há-me um paladar
de fascínio inaugural
pelos abismos, rotas de dentro
pela nova ciranda: dança de redemoinhos
movendo-se em espiral
nos tantos brotos tormentos
da aurora
e do ocaso (que é dia-noite a dentro):

plúmbeo lábio de cima
beijando
o outro baixo ocre
lábio feito.

 

 

 

***

 

 


URBICÍDIO

 

A cidade é um templo:
arranha-céus.

A idade
nela
é um tempo

átimo veloz.

O zumbido dos carros
(catarros)
é o mesmo zumbido de dentro.

Para onde,
…….anônimos,
………..antônimos
……………perdidos corremos?

Para onde
os assombros
escombros
destinos que havemos.

 

 

 

***

 

 

 

PASTAGENS

para Alberto Caeiro

 

Cada poema
é um rebanho
…….berro de palavras
pasmo essencial

a sintaxe das emoções
a semântica do intelecto

descendo o olhar por flores
em novilhos de versos
e lã
grudada em carne

o súbito relâmpago relance
voo (insight de aves)
onde se cruzam os cantos
trôpegos pensamentos:
fluxos de pastagens.

 

 

 

***

 

 

 

NA CASA DOS MEUS TRINTA ANOS

 

Na casa dos meus trinta anos
concebi o tempo
por furacões

cada átimo
encarnava-se-me veloz

e passei a alijar superficialidades
aglomerar o intenso

por paladar de flor
e entrâncias de espinho

pegando o travo e o doce
por dentro

sabendo
como o limo sabe da pedra

no grude gesto
……..do tempo.

 

 

 

***

 

 

 

A TRAMA DO BORDADO

 

Olhares sobre o tear inacabado
a guerra sem fim inconsumida
Penélope e seus dedos finos falhos
Ulisses e o retorno: e ainda

Ainda a Tróia maldita distante
e a solidão no novelo em Ítaca.
Ainda o flerte dos interessados
o cavalo que vai — e que fica

O arco duro, tão rígido
só quem o deixou
pode bem a(r)má-lo

E como flecha
pelos machados
a trama do bordado se finda.

 

Weslley Almeida nasceu em Feira de Santana, Bahia. É poeta, compositor, e formado em Letras pela UEFS. Atua como colaborador e revisor do Jornal Fuxico (do Núcleo de Investigações Transdisciplinares – NIT/UEFS). Os poemas aqui publicados integram seu livro de estreia, “Memórias Fósseis” (Editus), vencedor do Prêmio Sosígenes Costa de Poesia 2016.

Uma resposta em “Janela Poética IV”

Poeta esse Wesley, hem? Tambem de terra-cidade onde tem tantos e bons!
Forte abraço, Alba Liberato

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