Categorias
118ª Leva - 03/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

O dizível e o indizível na peça Tom na Fazenda

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Cláudio Marmorosch

Tom na Fazenda, do premiado autor canadense Michel Marc Bouchard, tem montagem inédita no Brasil, com excelente direção de Rodrigo Portella e idealizada e traduzida pelo ator e produtor Armando Babaioff, que encarna o personagem que dá nome ao título (Tom à la Farme, no original). O texto, traduzido em diversos países, ganha esta primeira versão no Brasil, trazendo a história de Tom, que vai ao funeral de seu companheiro, na fazenda onde sua família mora, e, lá chegando, descobre que sua mãe não sabia que o filho era gay, além de nunca ter ouvido falar em Tom. O irmão, Francis, que vive dedicado ao trabalho rural e à mãe, devotando suas preocupações primeiras ao bem-estar dela, não apenas sabe do segredo, como exige a dissimulação de Tom, e tem início uma história de mentiras que vai se tornando cada vez mais complexa. O espetáculo, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, ganhou temporada de 23 de março a 14 de maio.

Essa primeira montagem de Tom na Fazenda é uma das peças mais impactantes que tive oportunidade de ver nos últimos meses, brilhante no texto e na sua adaptação para o português, com atuações magníficas do elenco, sendo difícil destacar alguém em especial, uma vez que todos têm seus grandes momentos, todos roubam juntos as cenas e, portanto, ninguém tem a cena roubada, uma espécie de jogo em que cada ator oferece ao outro um pouco da cena, um verdadeiro trabalho de entrega da equipe, que precisa ter, de fato, corpo (literalmente) e energia para estar ali, no palco, defendendo belíssima trama.

Kelzy Ecard, que interpreta a consternada e um tanto quanto bruta Ágata, a mãe dos irmãos, é comovente quando ouve de Tom o conteúdo da suposta conversa com a igualmente suposta namorada de seu filho morto; Gustavo Vaz, que dá corpo e voz ao irmão Francis, e que inicialmente mostra-se personagem assustador para, aos poucos, demonstrar aquelas nuances clássicas das quais nos esquecemos e que nos lembram que não há ninguém inteiramente bom nem ninguém inteiramente mau, que, com sua inequívoca dificuldade de expressar afeto vai aos poucos angariando a empatia do espectador (mas também do próprio Tom, apesar das violências e das ameaças sofridas); Armando Babaioff, incrivelmente devotado ao protagonista que encena, oscilando, sem escorregar, entre a conversa falada com os familiares do companheiro morto e a conversa mental consigo e com o personagem ausente; e, finalmente, Camila Nhary, que faz Ellen, aparecendo mais para o fim da peça e trazendo humor em sua participação, quando finge não falar português e traduz literalmente para o inglês expressões e termos que não têm cabimento naquela língua. Sim, estão todos excelentes, e a emoção com que atuam é tão contagiante que parece impossível não se deixar contaminar pelo impacto desses afetos.

Foto: José Limongi

Mas não só a atuação é irretocável, como a trama é muito bem montada, do ponto-de-vista psicológico inclusive. Afinal, o que temos? Um funeral. Mote clássico que é ponto de partida para uma série de enredos, muitas vezes ligados a revivescências de histórias antigas, a nostalgias múltiplas e, noutras vezes, sendo o ponto de virada na história de personagens ou na forma como compreendem partes de si e do mundo. Tom na Fazenda, no entanto, parte do funeral para não apenas trabalhar os tabus referentes à homossexualidade, sobretudo em um contexto provinciano como é o rural, onde todos se conhecem e os segredos são um luxo de vida curta, mas também para desencadear uma rede de relações de dependência e afeto difícil de colocar em palavras.

Ao falar de luto e de melancolia, a psicanálise sempre trabalhou e buscou compreender a vivência de perdas e sua dinâmica no psiquismo humano. A pessoa que vai embora, que nos abandona, que some, que se separa de nós, mas sobretudo a pessoa que morre, mote de Tom na Fazenda, de algum modo é internalizada por aqueles que o amavam. E, quando isso acontece, acaba encontrando espécies de ganchos em outras pessoas, da vida real, que guardam alguma semelhança com aquele que se foi. Talvez seja um pouco por essa pista que possamos tentar nos aproximar da complexa relação entre Francis, Tom e Ágata. Esta última identifica em Tom características do filho morto, como, por exemplo, o perfume. Nada mais íntimo do que o cheiro de uma pessoa, e ao identificar em Tom o cheiro do filho, e também sua educação, Ágata coloca uma parte de Tom no lugar vazio deixado por ele, tanto que é na cama deste que o convidado irá dormir, encaixando-se direitinho no espaço que o outro ocupava. É assim que Tom dá alguns passos na direção de um lugar especial nessa relação com Ágata, tanto que, sutilmente, ele passa a ser protegido por ela e, mais à frente, chega a chamá-la de “mãe” porque “ela gosta de ser chamada assim”.

Francis, por outro lado, apesar do ressentimento, do ódio, da dificuldade de processar a sexualidade do irmão, também reconhece características deste em Tom. E se impressiona com sua delicadeza com as vacas da fazenda e sua habilidade verbal. Francis, extremamente solitário por ser visto como se fora um bicho pelo resto da cidade e, talvez, pela sua própria mãe, que não consegue abraçá-lo, vai, então, estabelecendo com Tom, através inicialmente da violência física, uma aproximação afetuosa que ele tem dificuldade de administrar. Mas, claro, trata-se aqui de um afeto tenso, sempre pronto a irrupções limítrofes, onde a dor e as possibilidades são testadas ao seu máximo. Parece ser assim que Francis funciona e, com isso, vai criando admiração por Tom, por ele ridicularizado inicialmente. Tom, por seu turno, também está absolutamente só, dado que perdeu a pessoa que ama, e continua se comunicando com ela através do smartphone, mandando áudios ou mesmo conversando mentalmente com o ex-companheiro. E nada mais próximo desse amor do que o irmão dele. Tão próximo, tão parecido e, ao mesmo tempo, tão distante. Mais ainda: tão solitário, como o próprio Tom. Todos os personagens se confundem uns com os outros e todos carregam um pouco do personagem morto.

Foto: José Limongi

É essa teia complicada de perda, lutos e afetos difíceis de serem expressos que os vai tornando estranhamente dependentes uns dos outros. Uma dependência permeada de violência física, que faz com que o trabalho de coreografia, assinado por Toni Rodrigues, e preparação corporal, assinado por Lu Brites, sejam essenciais, pois os personagens brigam, rolam, caem, brincam, dançam, embolam-se, e o palco, em cenografia de Aurora de Campos, é escorregadio, com plásticos, terra e alguma água, tudo em tons amarronzados que lembram, de fato, o meio rural, com seus baldes e cordas.

A direção musical, de Marcello H, também consegue inserir a música em sua justa medida, em nenhum momento atrapalhando a fala dos atores ou sendo redundante. Ao contrário, nos momentos em que existiu, ela foi fundamental. A cena em que Francis e Tom dançam é um exemplo desses.

A iluminação de Tomás Ribas também merece ser destacada, com lembrança especial para o momento em que Tom fala sobre a experiência de participar do parto de um bezerro. A dramaturgia dessa cena específica e a luz avermelhada parecem sublinhar um momento de passagem, espécie de iniciação do protagonista citadino na vida rural e, neste caso, mais selvagem, através do contato com o sangue e as vísceras, e da participação direta nos fenômenos da natureza, tidos como mais reais do que todos aqueles vividos anteriormente, até a chegada à fazenda. O nascimento do bezerro parece ser também uma metáfora do renascimento de Tom, agora completamente inserido na vida da fazenda e da família de Francis e Ágata. Ele começa a se tornar um igual.

Há, enfim, diversas questões que a peça suscita (há um quê de incesto que não se realiza, mas sempre no ar, na forma como Tom vai se tornando o irmão de Francis e o outro filho de Ágata?) e muitos momentos belíssimos, como aqueles em que os personagens sentam na beira do palco, para confissões íntimas entre si, mas cujo posicionamento, mais próximo da plateia, parece deixar claro que a confissão é também conosco, espectadores. São momentos em que parcelas da humanidade mais oculta dos personagens nos são oferecidas com generosidade. Mas há também diálogos absolutamente excelentes, descrições das cenas que acontecem na cabeça de Tom cuja dinâmica é genial, e um final cuja força não fica atrás do arrojo que perpassa a peça inteira. No dia em que tive a oportunidade de assisti-la, os aplausos pareciam não acabar mais. E, enquanto eu aplaudia, tinha lágrimas nos olhos. Mas é preciso fazer coro com os atores. Então, lá vai: “prefeito, pague o fomento”.

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

PERFIS DE UM PINCEL HONESTO

Por Nicolau Saião

 

Aníbal e as moscas filósofas

 

Arte: Nicolau Saião

 

Estava há sete semanas naquele quarto de hospital e principiava a chatear-se.

Todos o tratavam muito bem – alguém lhe emprestara mesmo uma telefonia – mas o certo é que começava a sentir-se ligeiramente aborrecido.

Não era que a enfermeira não lhe trouxesse a comida quentinha a horas certas, nem que o dr. Varela lhe faltasse com a sabedoria médica. Não. Toda a gente era realmente muito simpática, mas ele principiava a ficar um bocado… frio.

A partir da terceira semana começara a segredar para si próprio ideias que apanhava ao calhar. E, caso estranho, pensava, pensava muito, pensava como nunca havia pensado: pensamentos gordos, mesmo suculentos, que lhe deixavam na boca um sabor esquisito e galopante, como se fossem comboios molengões andando sobre carris podres. Não estava a gostar nada daquilo.

Além do mais, de noite o quarto enchia-se de vagas correrias, vagas risadas…

Virou-se para o outro lado.

O pára-choques apanhara-o exactamente em cheio no sítio onde as costelas dizem adeus ao estômago. Acordara depois, de súbito, numa cama descompassada com formigas e abelhas a passearem para baixo e para cima a toda a altura do esqueleto, suaves, venenosas. A cabeça muito bem entrapada repousava virtuosamente sobre uma almofada branca. Em volta, tanto quanto se lembrava, uns fantasmas abusadores deambulavam num leva-traz peculiar zurzindo o ar ambiente com uma lengalenga que nem por ser em voz sumida era menos estarrecedora.

Depois foi-se habituando.

O dr. Varela chegava ao crepúsculo, ou ao nascer do sol, com os óculos muito calmos e mudos a apontar na sua direcção: pegava-lhe no pulso, rosnava sabiamente, abanava a cabeça e, antes de sair, escrevia qualquer coisa num papel. Ele por momentos pensava que o dr. Varela tinha um pacto secreto com o seu aborrecimento, mas está-se a ver que era só impressão.

A enfermeira, como é natural, vinha mais vezes. Tinha um nome impronunciável, olhava aos ziguezagues e era magra e penugenta. Cheirava a relógios bem lubrificados e nunca se ria. Também não devia ter de quê, pensava ele, mas tudo aquilo lhe fazia nervos.

A enfermeira era ferozmente cumpridora. Uma boa profissional: puxava-lhe a roupa para o pescoço se o topava destapado, metia-lhe pastilhas entre os beiços, a horas correctas ajudava-o a assoar-se e a fazer mais coisas. Enquanto ele teve os braços em gesso, deu-lhe a papa com um clarão de bondade nos sobrolhos perfeitamente assustador.

O termómetro que sempre transportava no bolsinho da bata constituía uma realidade imprópria.

Saía depois de o olhar com satânico interesse enfermeiral. Antes de fechar a porta a sua mão traçava no ar um círculo cinzento e agressivo

A esposa visitava-o três vezes por semana, mas isso já não o arreliava por aí além. Ficara imunizado por dezassete anos de matrimónio. Já estava mais que familiarizado com o seu narizinho de coruja egoísta e com a sua voz que a passagem do tempo tornara rascalhante. Limitava-se a ficar calado, com os olhos bem fixos no meio do tecto. Às quatro da tarde a esposa abandonava a partida e ia-se com o seu passo de flamingo de noventa e oito quilos. Ele fingia que não era nada com ele.

Foi no dia em que lhe tiraram as últimas ligaduras que ele viu as moscas.

Eram duas, esvoaçando solenemente na meia sombra com um ar tranquilo e respeitável. Tinham o aspecto de moscas de sociedade, talvez já grisalhas dos anos e ele por uns segundos raciocinou que até nem se espantaria se lhes visse bengala e gravata.

Durante vários dias as moscas não lhe largaram o quarto.

Eram moscas filósofas. As suas conversas, num tom muito fino e discreto, eram do mais alto interesse e centravam-se sobre os grandes temas do universo: o Homem, o Tempo, a Infância, todas as coisas – enfim – que horrorizam ou causam prazer, o Mundo, o Amor e a Morte. Um nunca mais acabar de problemas maravilhosos e inextrincáveis.

A ele o que mais o danava era o seu arzinho superior, como fingindo que nem por ele davam: como se ele fosse um retrato decrépito que para ali estivesse. E, no entanto, elas bem sabiam que ele não perdia pitada das conversas, com os punhos o mais possível cerrados.

Começou a detestá-las. Precisamente no dia em que lhe tiraram o gesso da perna direita.

No entanto, por orgulho, nunca tentou imiscuir-se nas suas conversas. Ainda não descera tão baixo.

Na tarde seguinte, tarde de visita conjugal, as moscas falaram do Ser e das metafísicas, Falaram também das estrelas e seus prestígios, dos barcos à deriva nos mares antigos, dos astrónomos e dos reis dos países afastados. Ele sofria tanto que foi com renovado alívio que viu a cara-metade abandonar a cena da sua tortura.

Com pasmo e raiva estendeu o braço e abriu a telefonia. Adormeceu ao som dum fadinho picado em surdina.

E sonhou sonhos esquisitos de defuntos e bosques imensos, de catedrais e aranhas.

Acordou ao crepúsculo. Em cima da mesa estava uma bandeja com vitualhas. Nada se ouvia. Nem… o voar de uma mosca.

As moscas tinham partido. Durante o seu sono pela tarde fora, tinham decerto voado através da janela entreaberta buscando diverso poiso, concerteza sempre debatendo entre si as coisas belas e incríveis. E ele sentiu de súbito vontade de partir tudo, pois já lhes havia jurado p’la pele: quando estivesse de posse de todos os seus meios físicos, ele lhes diria. Haveria de as ensinar com decisão: ficariam, até, sem vontade de tasquinhar o mais apetitoso bocadinho de excremento!

Mas o certo era que haviam partido. Inexoravelmente. E nada, pensou, poderia fazer!

O crepúsculo, cinematográfico e devorador, entrava aos gargarejos para dentro do quarto. Do outro lado da porta uns passos conhecidos crepitaram com energia.

O dr. Varela entrou, com os óculos muito serenos.

Com uma branda emoção a palpitar progressivamente na garganta ele deu por si a notar, cheio de deliciosas comichões, que a cara do dr.Varela era mesmo, mesmo parecida com a da mosca mais faladora.

História natural

 

Arte: Nicolau Saião

Quando a tia pobre e amada lhe morreu espapaçada, como um figo podre, debaixo dum camião de transportes, Hipólito disse com as lágrimas a escorrer pelas bochechas: “É chato e dramático. É triste! Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.

Olhei-o sem muito espanto. É que eu já conhecia, desde os bancos da escola, o espírito eminentemente positivista do meu amigo, a sua visão racional. Hipólito era um verdadeiro realista e eu peço licença para dizer que filosofava como poucos. Como muito poucos.

A firma de que era sócio, num dia enevoado de Maio faliu com todos os matadores. Tal acontecimento causou nos meios apropriados um pânico considerável. Hipólito, contudo, limitou-se a franzir o cenho ao de leve: “É trágico. É mesmo perturbador! – disse – Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.

Estávamos, nessa altura, no seu gabinete de administrador. Hipólito, pensador de fino quilate, cérebro privilegiado, dava-me a honra de muito me considerar, embora eu fosse um simples empregadote sem mais valia. Foi então, recordo-me, que ouvimos um súbito alarido. Eu precipitei-me para o corredor. Hipólito seguiu-me calmamente. Fora o comendador Branco Madeira, presidente da Assembleia Geral da empresa. Caíra pela janela. Se calhar de propósito. Do décimo segundo andar.

Olhei lá para o solo, com os olhos arregalados. O comendador jazia como jazem os que se piram pelo décimo segundo piso: parecia uma mosca esfrangalhada e nojenta. Já o rodeavam muitas pessoas.

Por detrás de mim, Hipólito resmungou mansamente: “Que coisa! É extremamente constrangedor. Mas… é natural. Penso que é natural!”. Limpou uma lágrima furtiva, rápida, com a ponta do dedo mindinho. Ofereceu-me um cigarro, que aceitei ainda com as mãos a tremer.

Passados quatro dias, o seu filho mais novo ao praticar alpinismo numa montanha dos arredores caiu para dentro dum rio que lhe ficava na base e engoliu cerca de oitenta litros de água. Calculei eu. Finou-se, evidentemente. Senti muito a morte do moço.

Hipólito, de negro vestido, atrás do caixão inclinou-se levemente e rosnou para a minha orelha. Baixinho, mas eu ouvi bem o que sensatamente me disse. Inclinei a cabeça e continuámos a participar sem mais alardes naquele acto tristíssimo e trágico mas, como o meu amigo referira, perfeitamente compreensível. Hipólito era assim. Lógico, um matemático ou um astrónomo em potencia. Eu apreciava-o muito.

Em Agosto fomos passar as férias, juntos, para uma praia elegante. A mulher de Hipólito e o filho que lhe restava foram juntar-se a nós três dias mais tarde. Ao quarto dia, depois de ter levado a banca do casino à glória, a excelsa senhora defuncionou-se sem o querer, abatida a tiro por um croupier de maus bofes e nervoso.

Quando lhe levaram a notícia, Hipólito ergueu-se de repelão da cadeira de verga onde repousava. Tremia ligeiramente. Respirava um pouco apressadamente.

Pouco a pouco foi-se acalmando. Um véu de tristeza – eu acho que era um véu – nublava-lhe viuvamente o olhar cinzento. “Ora que maçada! É um problema chatíssimo! No entanto, no entanto… pensando bem, foi natural! – disse com inteligência.

Olhei-o com admiração. O espírito e a calma filosófica de Hipólito cada vez me atraíam mais inapelavelmente.

Ao voltarmos para casa, num carro funerário, o filho de Hipólito teve um percalço: chorava desabaladamente, contorcia-se, gemia duma forma que metia pena. Ao estorcer-se num gesto mais largo, sem que o pudéssemos deter saiu pela porta de vidraça descida (fazia cá um calor!). Dei um grito! Que querem, não me contive. O carro funerário parou, toda a gente desceu.

Hipólito, por uns momentos breves, contemplou longamente o que restava do filho como se acreditasse poucochinho. Eu mordia os dedos e as unhas.

Um largo suspiro se escapou do peito largo, profundo, de Hipólito enquanto ele com bondade me ajudava a afastar dos despojos. “Já é azar! É um azar tremendo! Mas, vendo bem as coisas, sopesando o caso… não deixou de ser natural!”.

Olhei-o mais uma vez com admiração fraterna.

Passou-se uma semana. Durante esse tempo não vi o meu velho companheiro de infância. Aliás, desempregado, passei o tempo a ler. Filosofia. De vez em quando tomava um cálice de conhaque. A bebida, segundo ouvi dizer, dos fortes e dos sabedores.

Ao oitavo dia, biblicamente, vi Hipólito. Tinha ido visitar-me. Demos um longo, cordialíssimo aperto de mão. Hipólito vinha anunciar-me que eu fora colocado por sua intercessão num emprego de futuro. “Com calma, Jagodes, tudo se consegue. Tudo se compõe naturalmente!”. Acenei que sim, emocionado. Entretanto, dirigimo-nos ao elevador.

Hipólito foi o primeiro a entrar. Azar dele. O primeiro e o último, aliás. Eu não entrei, pude aperceber-me que o elevador não estava lá! Só o buraco, negro e misterioso, esperava com maldade. Hipólito despenhou-se, soltando um grito em estilo “terror inglês”. Um grito meio grasnado.

Com o coração a bater um pouco desci as escadas, devagarinho e com cautela. Muitas escadas. Abri a porta do elevador, na cave e contemplei o Hipólito.

Hipólito gemia suavemente. Quando deu por mim, quando os sentidos algo abalados lho permitiram, começou a gemer mais alto. Quase a gritar!

Socorro, Jagodes! Vai chamar um médico depressa… senão morro. Sinto-me já a morrer. Chama-me um médico, um sacerdote… Jagodes!”.

Perdera a calma. Até suava. Tinha um bocado de espuma no queixo.

Dei uma gargalhadinha. Desatei mesmo a rir em pequenos solavancos. Filosoficamente.

Que querem? Estava a achar tudo naturalíssimo.

 

 História do cretino

 

Arte: Nicolau Saião

Na pequena povoação que interessa ao nosso conto havia apenas um cretino. O resto da população era constituída por pessoas extremamente inteligentes, posto que de diversas profissões e cometimentos.

O cretino da vilória perdida entre vales e montes – como sói dizer-se – à qual mal chegara a luz civilizadora da televisão, chamava-se Leopoldo e era um cretino integral. Creio que me faço entender. E era igualmente, como se compreende, muito solicitado para tudo o que fosse festarola, comilonice de arromba, beberete de alto lá com o estrilo, funeral aperaltado, discursata bamba e descante com jantarada. É que, principalmente nos meios de mais nobre elevação cultural e estomacal, um cretino é material de primeira necessidade e nunca por nunca ser deverá faltar em salão que se preze ou távola que se respeite.

De modo que o nosso cretino – que no seu princípio de vida passara os dias em frente do pequeno espelho da sua defunta madrasta a contemplar a face esguia e as noites a olhar para a lua à espera que de lá caísse um nacozinho de queijo ou um pedaço de chouriço-de-sangue – dum momento para o outro e sem se dar por achado pelas iguarias, começou a enformar, a engordar, a ganhar formas roliças que era um render graças ao Senhor. Muitas mudanças se lhe fizeram na vida. Durante o dia, nas horas de folga – que o nosso cretino, para não perder a forma, treinava-se lendo alguns jornais, revistas e olhando para um certo aparelho com figurinhas a mexer – contava os dedos das mãos e dos pés e, se acaso se enganava no número, dando-lhe por hipótese dezanove ou vinte e um, tecia considerações filosóficas à volta de tal matéria, sendo que muitas delas ultrapassavam de longe, isso vos garanto eu, muita coisata  que por aí se vai forjando.

E neste comer e descansar e sorrir cretinamente, como convinha, se foi achando o nosso herói bem nédio e lustroso, e satisfeito, mas com as faculdades a desmembrarem-se ligeiramente: nos discursos de gente graúda á da terra, o Leopoldo já tomava a atitude mais fácil, era pela lei do menor esforço: punha-se junto ao ombro direito do orador, cravava os olhos no vazio, afivelava uma expressão inolvidável e assim se ficava, quedo e palonço, sem dar vivas, sem amostrar a dentuça e o contentamento. Mais parecia uma santola francesa do que um verdadeiro cretino. Como se o houvessem grudado ao solo da pequena povoação. Nas festas de aniversário, após a primeira rodada, o cretino olhava em torno aspirando o ar ambiente com o seu nariz de xadrezista derrotado, embicava com o primeiro sofá ou cadeira que apanhasse disponível, cerrava os lúzios piscos e era um vê-se-te-avias de roncanço e de dormir a todo o pano. Desatava a rir – com motivo – das tiradas do lavrador Parreca, rico qual pirata e nas visitas obrigatórias que acaso fazia às viúvas, punha-se a praguejar baixinho, numa voz muito doce e amiga. Enfim, uma vergonha. Certa vez, num préstito fúnebre dos mais importantes do sítio – pois quem ia a enterrar era o célebre pároco da aldeia – tomou-lhe da mão empedernida e, sacudindo-a com garbo, desejou-lhe boa viagem. O imediato desmaio da governanta daquele santo homem foi, por assim dizer, a primeira pedra no vasto edifício da análise em que a melhor gente da povoação se lançou. Foi numa noite de trovões, em que o camarada Éolo soprava que não era brinquedo e cacarejava a chuva no lamaçal que eram as ruas, como uma cantadeira acatarroada.

Ficou logo decidido que o cretino teria de se morigerar. Sob pena de ser votado ao ostracismo e posto à margem da sociedade em exercício no povoado, Leopoldo teria de não desmerecer das suas antigas e apreciadas qualidades. É que esperto sim, mas devagar. E quando se passam certas marcas a cretinice começa esquisitamente a parecer-se com uma coisa que não é bem inteligência, não sendo burrice; que é uma espécie de meio caminho entre a definitiva bacoquice chapada e a esperteza chatarrona e incómoda. Enfim, qualquer coisa muito penosa de ver e de sentir. E de cheirar.

O Leopoldo foi de pronto chamado à pedra. Que tomasse juízo, que ali só amigos tinha; gente que lhe queria bem; e que não seria naquela aproximação da meia-idade que se proporia mudar de profissão; que tomasse tento e juízo.

E mais que leva e mais que deixa, e que frito e cozido, e alhos e malhos.

O cretino, emocionado, choramingava. Daí a bocadinho, lagriminhas e lagrimetas de comoção solidária, ais e suspiros – era o que mais saía dos sítios próprios da anatomia de toda aquela boa gente. E todos diziam com unção: cá temos de novo o nosso cretino! Que voltou ao bom caminho!

Ora naquele povoado, perdido como já se disse entre pinheiros e vacas, vivia uma senhora muito bondosa, inteligente e riquíssima, que morava na sua mansão solarenga acompanhada duma sobrinha e duma criada, ambas tão elegantes e insinuantes que era duma pessoa ficar de pronto catrapim, zás, trás. Vira nascer o cretino e lembrava-se ainda das suas faces rosadas e inocente infante, e recordava ainda as suas brincadeiras infantis, parvas mas engraçadas. Tinha-lhe mesmo dado, um dia, brinquedos que o cretino – por ser cretino – logo estrapaçalhou com um riso eficiente; e da vez que o derradeiro primo do Leopoldo batera a bota, deixando-o definitivamente só neste vale de lágrimas, emprestara-lhe um lenço de cambraia fina para ele ocultar as lágrimas e as ranhelas.

E decidiu a senhora, no que foi logo aplaudida, abrir os cordões à bolsa e organizar uma festa de graças e alegria, na qual compareceriam todas as pessoas gradas do sítio.

Se bem se pensou melhor se fez. Tratou-se de tudo – serviço, baixelas e comezaina – e o cretino até ajudou nos preparos e na confecção do banquete, e na escolha das entradas e na adequação dos vinhos, saborosas e capitosos como nunca se vira e provara.

Alta tarde, degustada a sopinha e os seguimentos e antes de se entrar nos pitéus de resistência, com toda a augusta confraria à mesa – excepto a criada, que era de servir e a sobrinha da anfitriã, que estava no leito com indisposições – ergueu-se a senhora para proferir algumas palavras. Mas ainda não pronunciara três frases – malhas que o império tece! – e começou de pôr-se branca, e tremebunda, e daí a um pouco, rígida qual patanisca de bacalhau, despencava-se da cadeira e partia prestes, notou-se, para o Além. E um por um, todos os convivas lhe seguiram o exemplo – tirante o cretino, que com a emoção nada comera nem bebera ainda.

Que havia sucedido? Nunca se soube e o cretino – por cretino ser – nunca o conseguiu dizer.

Com os convivas estirados no chão encerado da grande sala, partiu Leopoldo pelas escadas acima, rumo ao quarto da senhora sobrinha. A criadita, pelada de espanto e estupefacção, supõe-se, abalara aos trancos e baldrancos porta fora para os lados da cozinha e ficou fora de cena. Mistérios.

E estando o cretino no quarto da jovem sobrinha, calcula-se que tais cretinices lhe disse, tão engraçadas e sonsas, que daí a breves instantes já ela ria e dengava como se todo o belo mundo com ela estivesse.

Depreende-se que o cretino, cretino consciente e probo continuou. Pois se assim não fôra não teria depois casado com a linda jovem. Teria preferido a criada, que sabia lavar umas camisas, cuecas e calças, preparar iguarias de se lamberem os dedos e dar bom rumo a outras coisas interessantes.

Assim, hoje o cretino vive de mesa e pucarinho com a prendada jovenzinha, e é ele, pois então, quem toma conta das fraldas e outros aprestos das sucessivas crianças que apareceram ano após ano. Tendo somente como vantagem a administração dos bens da defunta.

Moral da história: Quem não quer ser inteligente não lhe veste a pele. A não ser por cretinice…

 

Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e ensaísta. Autor de livros como Passagem de nível (1992), Flauta de Pan (1998) e Os olhares perdidos (2000). Tem sido um frequente colaborador, no Brasil, da Agulha Revista de Cultura.

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Era o Hotel Cambridge. Brasil. 2016.

 

No importante ensaio O Autor como Produtor, o grande filósofo Walter Benjamin sugeriu que a função política de uma obra não está na solidariedade de conteúdo desta com a luta de classes, mas na forma como a obra participa produtivamente dessa luta.

Desde seu início, o cinema teve na montagem sua fórmula de construção estética e política. Montagem sempre como arranjo sinestésico de termos heterogêneos, como tomadas de múltiplas perspectivas, e na relação com elementos estéticos de diferentes origens: teatro, música, fotografia, narrativa.

Em sua última obra, Era o Hotel Cambridge, a diretora Eliane Caffé conseguiu colocar na ordem do dia a importância do cinema como meio de expressão estético e político. Seu filme recupera a potência política cinematográfica da montagem num momento crucial da história de nosso país.

O filme acompanha a ocupação de um hotel no centro de São Paulo e a luta contra o despejo do movimento denominado Frente de Luta por Moradia (FLM).

Num certo sentido, Era o Hotel Cambridge, é quase uma releitura do fabuloso filme de Caffé Os Narradores de Javé, de 2004. Neste, os moradores de uma cidade no sertão (Javé) se reúnem para iniciar uma luta simbólica contra a remoção de suas casas devido à provável inundação de todo o vilarejo por causa da construção de uma usina hidrelétrica. Os moradores precisam narrar o fictício passado do vilarejo para que ele ganhe importância simbólica e se torne mais difícil removê-lo por seu “valor histórico”. As narrativas, relembradas e inventadas por seus moradores, trazem assim as diversas perspectivas que relativizam o conteúdo da memória coletiva pelo esboroamento da fronteira entre realidade histórica e ficção.

No filme mais recente, a história também se inicia com a reunião dos moradores da ocupação do hotel para receber a notícia do despejo que acontecerá em duas semanas. Mas eles não têm mais a alternativa de estabelecer narrativas para ressaltar sua importância histórica. Trata-se de um hotel decadente e ao Poder já não interessam mais as histórias e as narrativas de um povo invisível. Trata-se então de uma luta de outro registro, mais propriamente audiovisual, para ganhar visibilidade e apoio da sociedade. Pois, só lhes resta então resistir e apelar para um judiciário parcial e cúmplice dos despejos.

Cena de Era o Hotel Cambridge / Foto: divulgação

O filme é a história da luta do movimento de moradia para permanecer na ocupação. Essa luta é acompanhada por dentro do movimento. Mas, exatamente como em Os narradores de Javé, há sempre uma grande ambiguidade sobre as fronteiras entre o documentário e a ficção, entre o registro e a invenção. Como dizem a diretora Eliane e sua irmã Carla Caffé, diretora de arte, trata-se de filmar uma zona de conflito. E o primeiro conflito aqui é entre a realidade e a ficção.

Nesse aspecto, é totalmente feliz a escolha da protagonista, Carmen Silva, que é efetivamente uma líder do movimento de moradia em São Paulo, mas também é a personagem principal desse filme. Os espectadores acompanham de perto as agruras de uma verdadeira líder de movimento: ao mesmo tempo afetiva e enérgica, e dura quando deve ser dura. Essa dureza mostra que todo movimento político precisa de organização: “a ordem do sistema é a nossa desordem, e nossa ordem é a desordem do sistema”, diz a líder. Em outra cena, as câmeras registram seu choro de cansaço por se dedicar inteiramente a essa luta e por não ser capaz de cuidar de sua própria vida particular. Uma colega do movimento a consola dizendo que sem ela o movimento não seria capaz de prosseguir. Para o espectador fica a dúvida se suas lágrimas são “reais” ou “montadas”.

A protagonista Carmen Silva (telefone) / Foto: divulgação

A montagem cinematográfica de Era o Hotel Cambridge é bastante complexa: não é apenas o encontro entre ficção e realidade ou entre documentário e cinema. É uma montagem de registros: é o filme ficcional, é o registro audiovisual de uma ocupação, e é também a participação na própria luta. Isso porque faz parte dela a aquisição de visibilidade e a busca do reconhecimento social de uma causa escrita na Constituição, a do direito à moradia. Assim, a montagem cinematográfica trabalha a reconfiguração da sensibilidade democrática: o olhar para uma zona de conflitos revela os impasses fundamentais da sociedade brasileira.

A mistura entre atores e não atores é essencial para esse efeito de embaralho de fronteiras do filme e para o concerto dessa montagem social e estética. Em particular, os atores Suely Franco e José Dumont (este também de Os Narradores de Javé) circulam entre os espaços da ficção e da realidade, entre a arte e a luta, como mediadores ou como curingas. Eles são responsáveis para trazer o sonho e a fantasia à dureza da luta. Em particular, a função ficcional do personagem Apolo, de José Dumont, é a de encenar uma peça teatral no meio da ocupação justamente para dar visibilidade à luta. Mais tarde essa apresentação será transformada em vídeo para ser distribuída nas redes sociais e angariar apoio da opinião pública. Trata-se, portanto, do efeito do “mise en abyme”, a peça dentro do filme, a obra dentro da obra.

José Dumont na pele de Apolo / Foto: divulgação

Os atores circulam e costuram as cenas entre uma multidão de deserdados. Há brasileiros misturados entre estrangeiros exilados, expulsos de suas terras: congoleses, palestinos, sírios, colombianos. Estes saíram de sociedades em situações extremas para tentar a vida num país que chegou também à crise social aguda e desesperançada.  Somos todos refugiados, diz uma das ativistas. Há os refugiados do exterior e os refugiados no próprio país. O Hotel Cambridge é um microcosmo da condição de exilado.

Os exilados reforçam a ambiguidade de fronteiras entre o registro documental e a invenção ficcional. Muitas vezes assistimos conversas entre eles e seus familiares em suas terras de origem através da internet. Essas conversas são sempre afetivamente carregadas, cheias de cobranças e desentendimentos. Aqueles que permanecem nos países ficam sobrecarregados com as exigências da sobrevivência mais elementar. Aqueles que partem parecem levar a esperança de uma vida melhor, mas isso nem sempre é verdade. Em muitos casos, sua situação está entre a coragem da partida, com todos os riscos envolvidos, e uma culpa insidiosa de quem não ficou para enfrentar as dificuldades junto a seus familiares. E há também uma complicação política: os que foram recebidos no Brasil não podem participar de manifestações políticas e, portanto, relutam em participar das ações coordenadas do movimento. No entanto, são responsáveis por uma verdadeira “heteroglossia”, a presença ruidosa de diferentes dialetos e formas heterogêneas de entendimento. Numa ocupação de outro prédio, registrada pelo filme, um palestino diz: “eu sempre vivi num território ocupado, agora sou eu que estou ocupando um território”.

Cena de Era o Hotel Cambridge / Foto: divulgação

E como numa obra em produção, o set do edifício ocupado serve também para as intervenções dos estudantes de arquitetura da Escola da Cidade em São Paulo e do escritório de desenho Vapor 324. As intervenções foram realizadas com o conceito de “arquitetura efêmera” para dar conta do caráter provisório de uma ocupação. Assim, esta se torna um reservatório de saberes técnicos e de modos de existência diversos. Eletricistas, advogados, enfermeiras, atores, técnicos de informática, estudantes de arquitetura e de cinema. Uma composição autêntica do “precariado” brasileiro em época de crise aguda e desemprego.

Era o Hotel Cambridge é, portanto, uma montagem audiovisual, ficcional e documental, e é uma composição entre obra de arte e movimento social. Os participantes da ocupação são levados a testemunhar para as câmeras a justiça de sua luta. O próprio filme de Eliane Caffé é um veículo para esse testemunho. Acabadas as filmagens, membros da equipe cinematográfica permaneceram como integrantes do movimento. Uma frase dita por Carmen Silva, e repetida como mantra por ela, é “a luta não é para vocês e sim com vocês”. A luta não é serviço social, tampouco distração. Esse recado vale tanto para os participantes como para os espectadores do filme, pois movimento social e cinema tornam-se uma coisa só. Diante da tela, os espectadores precisam decidir se estão dentro ou fora dessa luta, inscrita como direito constitucional de todos.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nuno Rau

 

Foto: Kristiane Foltran

 

 

73.
Certas tardes de verão (ou seria
daquele tipo de inverno onde o sol
ainda se esmera em grafar na pele
flores rubras com sua luz de agulhas
todas em brasa e imateriais) banidas
agora para um limbo que tantos
nomeiam (pelo mecanismo turvo
dos sentidos) de passado, limbo
que concentra, entre outros, o instante
em que talvez confuso, talvez
indiferente, você percorria a orla
do primeiro verso, que é
um território raso onde tudo
se desfaz, se confunde e nunca
mais retorna (o que lhe deu prazer
ou desespero), mesmo que em
seu mundo imaginário, você
projete o corpo imerso
num rio sem fluxo onde
as águas estanques apodrecem
seu melhor sorriso, seu gesto
mais luminoso, seu maior ardor
e, claro, de todas a mais infundada
(como de resto cabe a qualquer
formulação) fé, cicatriz
da esperança.

 

 

 
***

 

 

 

77.
Outono ardente (tantos anos
depois de outro verão, gelado
até a medula, mas como se
coladas, por um estranho salto
da história, uma estação
na outra), pura sangria, ainda
que não se saiba se haverá
espetáculo todo dia em seu
circo particular de horrores,
os olhos querem desgastar
imagens, repetir, repetir,
no disco arranhado do tempo
em que a lua gira sem eixo
e você pretende, mais uma
vez, desarmar a metafísica
por dentro e expor a carne
à sua natureza e seu destino.

 

 

 

***

 

 

 

81.
Mundo estranho, miragens
em movimento sob o sol
natural, vasto mundo plano
e você deu tantas voltas ao redor
sem perceber qualquer falha, seguindo
sem cosmologias no universo
circunstancial, acidental (“se calhar,
se calhar”, alguém disse), restando
amorfo como este século de luzes
intermitentes, ou como quem errou
de endereço indo ao lugar
certo, ou devorando miragens
à margem de todo sentimento,
em larga escala, em alta
rotatividade, ou bancando
um vinho forte para cada alma
que sobrou dentro de sua cabeça
depois da grande
explosão.

 

 

 

***

 

 

 
82.
Estende um infinito entre você e a paisagem, tão perto,
cortinas de vidro se liquefazendo à frente
dos seus olhos e os dias decapando camadas de asfalto: cada uma
contém em seus mapas impressões do absurdo
que teve por destino transportar, surdamente,
na treva ou sob o sol – “um corpo”, ele disse,”e não ouviu
as coisas todas gritando
à sua passagem, as coisas
aturdidas diante da agressão
de seus olhos”. Limites, exílios, silêncios,
viagens sem volta, abismos
entre as coisas e as palavras, você
pulou porque quis.

 

 

 

***

 

 

 

84.
Nenhum amor pela cidade, muito
pelo contrário, rancores
cuidadosamente cultivados como
flores, feridas
expostas ao mesmo ar que alisa
a superfície de tudo, contínua,
como se a beijasse, ar
que nunca ampara ainda que envolva
gelado ou turvo, tanto faz, no mundo
estreito – você formula
absurdos como erguer paredes contra o ar
tornado vento quando imagina
ele trazendo mensagens do passado em forma
de lâminas ferozes, mas lembra
que paredes são memória
dura; formula então
torná-las labirinto, emaranhado
onde se possa encapsular
a brisa que lhe arranha
a pele, e pensa mais, grafites
que apontem miragens onde perder
o corpo,
grafites por toda a superfície
alçada contra o ar, pura
vertigem, nenhum
amor pela cidade, nenhuma cidade
possível.

 

 

 

***

 

 

 

85.
O números das casas, dos carros, os números
dos telefones, números
dos anos cifrados sob os poemas,
na imagem das ruas traçar rotas
aleatórias conjugando
os números em camadas de uma pele
sobre a cidade, você
tenta decifrar sem bisturi tudo que não sabe, ou seja,
isso que um dia alguém ousou
chamar de real.

 

 

 

***

 

 

 
86.
Cidades são reais, o pensamento
não se sabe, cidades são
reais, meu chapa, sejam fossas
geladas ou panelas de pressão, chapa quente,
tanto faz, ruas emaranhadas ou largas
avenidas são labirintos (“toneladas
de pedras ao alto”, ele disse)
porque espelham o que se forma
por dentro, em precipitação (aqui você
repete o delírio recorrente
de encontrar a explicação
que não existe, de arremessar fora de si
paisagens da imaginação – não, estas
paredes que o pensamento ergueu
por dentro são outra
formulação alucinada
do seu desespero, o mesmo
que arriscou metamorfoses, uma
atrás da outra, até
desembocar no espanto de ser
de novo não mais
que o mesmo
-“agora, agora”-
do começo).

 

Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi, que co-organizou, e29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá e, em fase de organização, a antologia Poemáquina. Autor do livro Mecânica Aplicada (2017). É um dos editores da revista eletrônica Mallarmargens.

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

HELTON MOURA – CÍRCULO

 

Há quem considere o tempo senhor de um tudo. Entre memórias, gestos e ações, a vida vai moldando seus caminhos. E sempre fica a sensação de que jamais teremos o controle absoluto das coisas. Se de um lado está o passado com suas imagens já estabelecidas em nós, do outro surge o presente enquanto possibilidade de renovação. Diga-se de passagem, é neste último que as rotas podem ser alteradas, seja para transformar parcial ou inteiramente o imprevisível palco da existência.

Mudam as estações e chega um momento em que a nossa intensidade e rapidez acabam cedendo lugar a uma necessidade de quietude. Deixamos de lado a verborragia de outrora e passamos a uma condição de estarmos mais abertos à escuta e a uma atitude mais contemplativa das coisas. É então, que amanhece em nós, os tais seres adultos tão embaraçados com questões cotidianas, uma vontade pura de libertação. E falar em pureza implica aliviar as bagagens da caminhada até aqui. Sugere desprendimento e evoca a aparição da porção mais pueril que possa brotar de cada um.

Tudo o que acabo de dizer acima ganha sentido quando escutamos um disco como Círculo, mais novo trabalho do cantor e compositor pernambucano Helton Moura. Ora, vejamos, o artista em questão muda radicalmente seu caminhar para agora nos conduzir por vias através das quais a leveza se faz senhora. Acostumado a intensidades vocais e textuais presentes em sua trajetória, todas elas a representar uma habitual inquietude, Helton agora resolve trilhar um caminho inversamente proporcional ao seu natural desassossego.

Círculo é muito mais do que a continuidade de uma carreira. Assinala, como confessa o próprio artista, uma necessidade de dar vez e voz ao silêncio, algo que numa leitura apressada poderia soar um tanto paradoxal para alguém como Helton. O fato é que o cantor ignora o ritmo frenético e incessante que sempre fez parte de sua vida para buscar abrigo num ambiente musical marcado fundamentalmente pela leveza e serenidade.  É nesse novo momento que a matéria-prima das canções aflora suas sublimes possibilidades.

Helton Moura / Foto: arquivo pessoal

Estamos diante de um EP com cinco faixas completamente voltadas para o frescor que a redescoberta da vida foi capaz de proporcionar a um artista como Helton. De todas as composições, Canção parece resumir bem o significado do disco, pois traz a referência maior que perpassa o presente do artista, qual seja calar a voz para ouvir pacientemente o que o silêncio tem a dizer. No fluxo poético da música, os sentimentos privilegiam tudo aquilo que não foi dito ou, quiçá, ficou pelo caminho e por dizer.

Quando escutamos a canção que dá nome ao álbum, percebemos que ela é uma espécie de ode ao desejo de leveza. Algo como seguir em frente sem as amarras que teimosamente nos impomos. Mais adiante, são os apelos de Singela que tomam conta dos ambientes. Nela, um convite à reflexão aponta para o caráter cíclico da existência, este sempre envolto em perguntas e respostas, mas que, ao fim e a cabo, retoma a origem das coisas num movimento inerente à condição humana.

Ao dedicar uma das músicas a sua filha, Pra Juju, Helton enaltece a sua busca pela serenidade. E há muito mais dentro dessa atitude, cujo principal efeito é o que leva o artista a penetrar numa dimensão pueril e dela retirar um novo aprendizado para seguir vivendo. Mas eis que, encerrando o EP, chegamos até ogisnoc oãn ue euq a, faixa que é o inverso de A que eu não consigo, a qual é reproduzida de trás pra frente. O mais curioso é pensar que este último ato do disco soa realmente como uma oração. É, na verdade, um elo com o próximo álbum do cantor, que trará a canção em seu andamento normal e encabeçando o trabalho.

Falar de Helton Moura é apresentar todo um universo que compreende uma vida voltada para diversas frentes da arte. Natural de Arcoverde, o cantor também se dedicou ao teatro, à poesia e ao cinema, além de trazer em si um componente performático em muitas de suas aparições. Seu lirismo peculiar o tornou conhecido como uma espécie de trovador contemporâneo. Círculo instaura uma nova fase nessa múltipla expressividade do artista, tão acostumada a torrentes de manifestação. O que está reservado para o hoje é um misto de superação de barreiras pessoais, revelações e descobertas intimistas e, o mais importante, a afirmação de um desejo de olhar tudo com suavidade.

 

 

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Muna Ahmad

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Arthur

 

romper a casca

procuro a eternidade da hora no céu estrelado

atravesso desertos com água na boca

sonho que sou um náufrago

me salvei no barco bêbado

tempestades passam

volto pra casa

ponho no colo o gato

maciez e silêncio

imagino um caminho pra tocar seu coração

 

 

 
***

 

 

 

Porangatu

 

crio gato em
telhado de vidro
na casa que
existe sozinha
à beira da
estrada
jardim de
violeta mistério
fragilidade pura
halo de lua
córrego no
fundo do quintal

 

 

 
***

 

 

 

Sherazade

 

céu aberto
cáfila silenciosa
cruza o deserto
sete véus
dança do vento
serpente subindo no bastão
olho abre e fecha entre mundos
tapete voador
amor pedra branca
sorte na borra do café
Ali Babá e os sorridentes bufões

 

 

 

***

 

 

 
Bolero

 

noite alta
cachorro latindo na rua
meu amor foi embora
levou o frio que eu sentia na barriga
levou fotografias
anel pendurado no pescoço
meu amor dente-de-leão soprado
levou dor e alegria
luva e guarda-chuva
jogo de botão

 

 

 

***

 

 

 
Quaresma

 

guardei a fantasia
lavei a casa
fiz novos canteiros
semeei
papoulas e dálias
cortei os cabelos
lavei a alma
comprei lanternas e lupas
fiquei nua na janela
olhos postos no céu

no fundo de mim
passa um rio
adolescentes de seios duros
bocas ruidosas
banham-se de manhã

 

 

 

***

 

 

 
Do esquecimento

 

sapatos pisam fundo nos dias
tardes desiguais:
tem as de vento
que fazem carnaval nas saias da gente.
Tem as que escurecem rápido
como coito de alguns animais.
Tardes quentes
banais
cada beduíno em seu pedaço de deserto.

 

Muna Ahmad nasceu em Porangatu, GO, vive atualmente em Brasília, DF. “Cidadã do mundo, assim se define: Goiás-Ceará-Palestina lugares de nascimento.” Licenciada em Artes Cênicas pela Fundação Brasileira de Teatro, trabalha com educação ambiental na estação Ecológica de Águas Emendadas, Planaltina-DF. Em 1997, participou da antologia Mais uns – Coletivo de poetas, org. pelo poeta Menezes y Morais. Já em 2015, publicou seu primeiro livro de poemas, Muxarabi (Supernova Editora). E-mail: munayousef@gmail.com

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

André Mellagi

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Vestígios

Entrei novamente na casa e investigo o silêncio que retorna após trancar a porta. Derrotado, mais uma vez o vazio preenche cada mobília da sala intocada. Desde que você foi embora, a poltrona permanece mutilada em seu lugar e os corredores já não ecoam mais seus passos descalços. Foi inútil tentar recuperar a petúnia; há dias suas mãos não dosavam a água e a entrada da luz que evitariam uma outra presença sua a se despedir da casa. A sua música, que antes me aborrecia e lhe concentrava sentada na poltrona incompleta, agora eu a suportava como um cubo mágico que desisti de decifrar, mas que insistia em combinar cores e tonalidades avessas. Os copos sem batom, os cinzeiros limpos e os filmes de cinema perdidos no jornal sem as sublinhas de esferográfica, eram assinaturas de giz no asfalto apagadas pela chuva. Sabia que estava próximo à cozinha quando o cheiro de canela misturava-se ao odor de almíscar, mas que agora atravesso despercebido até abrir e fechar a geladeira sem decidir por nada. Nenhuma presilha restava nas gavetas como uma peça arqueológica, e nenhum papel sobre a mesa continha os desenhos rupestres de suas letras escorregando uma anotação pelo telefone. Foi uma explosão que acendeu, um trovão que uivou; agora são sombras que avançam, mudez que cala. Sobrou apenas comigo a antiga fotografia guardada que escondia, entre os cabelos desalinhados entrelaçando dois rostos a sorrir numa praça desfocada, o movimento que se distende antes e depois daquele instante, a lembrança amarelecida de unhas peroladas, sorvete de creme e toalhas molhadas.

***

 

 

O Testamento de Ícaro

 

De volta à mesma esquina por onde Ícaro passou, estava novamente defronte à loja de 1,99 e perdido. As muralhas envidraçadas dos prédios domesticavam sua visão nas ruas estreitas da cidade, que perfurava cartazes e olhares desviantes. Às vezes, estes olhares irrompiam em desejo e violência, depois se esqueciam. Os carros seguiam a correnteza arterial dos viadutos e avenidas, sem encontrar um escoadouro que levasse a uma saída do labirinto. Ícaro olhou para o prédio mais alto. A maior lembrança de sua infância, quando subiu pela primeira vez sozinho a copa de uma oliveira em Creta, foi a alegria ainda maior na face de seu pai. Mais uma vez, queria mostrar a Dédalo que saberia decifrar aquele labirinto. De nada adiantavam os mapas que abstraíam os quiosques de garapa e os bueiros entupidos, em quadrados indiferenciados sem indicar qualquer escapatória. Queria ter a visão de Urano, que do alto tudo enxergava, com prazer quase científico, sua colônia de formigas amontoadas que se espremiam entre as casas de cobertura de telhas escamadas. Ícaro subiu o elevador do prédio mais alto, e do último andar olhou ao redor o continente de titãs de concreto. Mas ainda faltava muito para arranhar o céu; era preciso dar um salto decisivo para o alto. Apenas se afastando do turbilhão urbano teria a percepção daquela imensa mancha viva de cimento, metal e plástico, cujo vai-e-vem se harmonizava numa homeostase compreensível. Precisaria içar sua jangada para atravessar oceanos; levantar o braço para apanhar estrelas; subir degraus para escalar montanhas; lançar o olhar em direção aos limites do infinito. Implante-me asas, meu pai! Veja-me voar na morada dos deuses! Dê-me a oportunidade de vislumbrar daqui de cima, o quão pequeno é seu labirinto! Nada mais precioso que a vertigem! Venha, vento, levar-me acima das nuvens! Não se preocupe, pai, voo alto para não ouvir mais as vozes emaranhadas. O mundo se silencia e enfim ouço dizer-me sua extensão. Mais alto, vento! Que a iminente queda ainda conserve a imagem derradeira de que um dia fui livre!

 

 

 

***

O Jardim do Éden

Entre o Tigre e o Eufrates, encontrava-se um anjo morto com napalm. As asas mutiladas e a espada flamejante ao chão já não mais guardavam os resquícios de um antigo jardim cujos portais foram arrombados com tiros de morteiro. Dos destroços da cúpula de uma mesquita, o crescente refletia as labaredas que calcinavam os querubins abatidos por uma bateria antiaérea. No jardim, apenas a extensão do deserto que enfim invadiu as velhas cercanias, oásis que subitamente foi envolvido pelo deserto à marcha das cargas deflagradas. Uma árvore seca restava no meio daquele jardim esquecido, exalando a gás mostarda e rodeada de ossos espalhados ao chão como folhas secas. A tempestade de areia e pólvora devastou a paisagem onde já não mais importavam os nomes que batizaram plantas e animais; tudo era um amontoado de cinzas revolvidas com petróleo. Pois se a vida ainda estava lá, empreendeu-se com a razão e o conhecimento os meios de se apoderar dela; “haja luz”, disseram no princípio os criadores que manejavam o bastão, o arco, a espada e o fogo. Assim, da escuridão abriam caminhos passando por cima de si próprios até alcançar o fruto que faltava. Os anjos já não tinham mais como defender aquele jardim; os deuses mortais já sabiam voar, mergulhar, entrincheirar. Disputavam o que achavam o que era a vida em mútuas decapitações. Estava para começar o inverno mais quente do ano.

***

 

 

Encontro

De manhã ele acordou e silenciou o despertador, que deixou o dia murmurar. Ela se levantou e foi escovar os dentes, enquanto tentava juntar as peças de um sonho. Ele tomou o café sem açúcar e amargou as notícias de ontem. Ela olhou um vaso de flores e compadeceu-se diante de pétalas murchas. Ele deu partida e misturou-se resignado à massa de carros congestionados. Ela emudeceu as buzinas ouvindo sua música na bicicleta. Ele queria dois processos protocolados até o meio-dia e uma sequência de três ace na quadra de tênis à noite. Ela queria a notícia do pai de Gisela e um bom capuccino à tarde. Ele entrou no escritório, ligou o computador e coçou a testa. Ela chegou no consultório, vestiu o avental e estalou os dedos. Ele tamborilava teclas e ela organizava espátulas. Ele sacramentava resmas de papéis e ela vasculhava bocas. Parágrafo único do incisivo inferior lateral; bruxismo em desacordo com disposição legal; inventários ortodônticos.

Pausa para o almoço. Só um processo protocolado e Gisela ainda não chegou. Saem do escritório e do consultório, encontram-se na fila do restaurante por quilo. Ele deixa a pasta cair; ela apanha a pasta do chão e devolve a ele. Ele agradece e volta a decidir sobre o grão-de-bico. Ela verifica as unhas e pensa em adotar uma criança. Sentam em mesas separadas. Chove hoje à noite e chegarão tarde em casa.

André Mellagi, nascido em São Paulo, é formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de coletâneas de contos, tais como a primeira edição da revista Pulp Fiction do site Homo Literatus, além de publicar em blogs de literatura. Teve coletânea de contos que recebeu Menção Honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP, e foi obra pré-selecionada ao Prêmio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela editora Patuá em 2017.  

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Destaques Olhares

Olhares

Em outras veredas

Por Fabrício Brandão

Foto: Kristiane Foltran

Tudo o que classificamos como sendo o real pode ser a fabricação imediata dos instantes. Pode ser o exercício patente de apreensão duma superficialidade das coisas observadas. Também pode significar o óbvio saltando com suas garras ajustadas bem em nossa direção. Diante dessas tentativas de definição, abre-se o fosso da dúvida: será que nos é dada a faculdade de invenção da realidade?

O real nem sempre é algo posto num panteão de conformidades. Por vezes, assinala perspectivas inusitadas, propondo-nos uma mudança no itinerário de nossas convicções. É quando, manipulando uma certa  ordem natural preexistente, reconstruímos os mais diversos cenários de mundo.

Em matéria de fotografia, muitos ímpetos criativos hoje intentam um caminho que, mais do que simplesmente expor a porção real das coisas, deseja ir além, inaugurando outras fronteiras de compreensão. Esse olhar que ultrapassa determinados limites do lado aparente da vida acaba por resultar num permanente estado de revelações. É, pois, a sensação que temos ao contemplarmos as imagens de uma artista como Kristiane Foltran.

Detentora de uma atitude que rompe com uma noção tradicional de concepção da imagem, Kristiane aponta um caminho de transgressão do modus operandi ao qual se debruçou por muito tempo o ofício da fotografia. Adepta da utilização de recursos como a dupla exposição digital, essa fotógrafa curitibana vislumbra apresentar um mundo norteado especialmente pela assunção de outras linguagens.

Foto: Kristiane Foltran

Ao questionar as possibilidades de utilização do suporte fotográfico, Kristiane percebeu que era necessária uma via de transcendência, ou seja, algo que desse vazão a renovadas formas de representação imagética. Essa busca fez com que a artista, lançando mão de novas ferramentas (a exemplo do Site-specific e da Performance), conduzisse uma pesquisa estética através da qual a imagem assumiria uma concepção espacial diferenciada. Desse modo, e diante da fragilidade do suporte fotográfico, a arte transborda o papel e atinge o espaço.

O fato é que a artista visual em comento não apenas propicia um ambiente de ressignificação, sobretudo pelos meios dos quais se utiliza, mas também consegue conferir uma construção poética para seu trabalho. É o que podemos constatar ao observarmos séries como In_Versos, Marés, Fragmentos e Gueixas de Outono, todas elas a nos revelar densos percursos no complexo mar de nossas humanas idades.

Kristiane Foltran traz em sua trajetória uma vasta participação em exposições individuais e coletivas, além de integrar seleções e colocações em editais, concursos e salões de arte. Com os dois pés fincados na pós-modernidade, demonstra que sua arte, assim como o seu tempo, não se assenta em bases estabilizadas e previsíveis.

Tal como foi abordado no início destas breves linhas, a apreensão da realidade é algo movido por difusos caminhos. Certamente, não acharemos respostas para toda sorte de indagações pertinentes a um percurso como este. Importa mesmo considerar que o olhar de um artista pode trazer à tona as virtudes encerradas num gesto singular de percepção. Com o passar do tempo, sentimos mesmo que a arte não admite a visão cordata das coisas.

 

Foto: Kristiane Foltran

 

*As fotos de Kristiane Foltran fazem parte da galeria e dos textos da 118ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ingrid Morandian

 

Foto: Kristiane Foltran

 

O quarto

 
I

ausento-me do teu silêncio
da folhagem áspera
da angústia
forjar enganos
em contraponto ao vazio
sobrepele
descasca
o fulgor na cama
nos lençóis
um pretérito mais que perfeito
ouço tua boca
no murmúrio daquela noite

 

II

luz decomposta nas lacunas
dedos infligidos
unhas cruas
na boca
me pertenço em palavras
as palavras depõem contra o coração
que cala, assume os verbos inativos
as palmas voltadas para baixo
papéis, tropeços, letras
me desfiz em nada
tudo é único
nos móveis o pó
na amargura o gelo esvazia
em palavras

 

 

 
***

 

 

 
Solarius

 

entre escolhos
o retumbar de cornetas-buzinas
mármores, bronze e concretos
fundidos no nada
escadaria belas artes
a florescer em você
matronas urbanas recolhem o sol
salgado
as vigas, pilares conduzem
a um remanescente dia
na voragem cotidiana
deslumbram-se rostos cinzentos

 

 

 
***

 

 

 
Azuis

 

da outra margem do mundo
apaguei a paisagem de dentro
coube um olhar cinza
o arrastar de coisas intempestivas
a vida finge
absoluta no cálice
um tempero de sangue
nuvem coalhada
esquecimento fora do prazo
e os olhos aguardam azuis
segredo

 

 

 
***

 

 

 
Rescisão

 

Era um livro
Eram páginas movediças
Eram dedos em descaminhos
Eram trechos descosturados
Eram tão jovens
Eram a prova do todo
Eram o início da noite
Eram o fim do dia
Eram o sopro grifado
Eram o resto das cinzas

 

 

 

***

 

 

 
A porta

 
ouvia a batida cadenciada na porta
cansada de recolher cadáveres na geladeira
alfaces escuras
carnes e frangos podres
cheiro de morte malpassada
persistem nas batidas
alguém reclama do outro lado
tapo os ouvidos do corpo
não aguento o espanar de dúvidas
a família junta-se aos cadáveres amontoados nos quartos
a matriarca morreu
quem sentirá falta do café fresco
do arrastar de chinelos
armazenei as mágoas roxas
o prazo foi embora
não permitem o saque dos links de felicidade
deixo que continuem a bater
e mantenho trancada a in-solidão

 

“Como titereiro, no silêncio, brinco com as palavras na composição de textos. Estanco na fronteira do real e da ficção, e esvazio de todo eu através da escrita.” Ingrid Morandian publicou: Água Terra Fogo Ar – Crônicas elementais, Ed. Uapê, 2011 – História intima da leitura, Editora Vagamundo, 2012 – Revista Plural 1900 e Revista Plural La barca, 2016,  Ed. Scenarium Livros Artesanais, Senhoras Obscenas, 2016, Editora Benfazeja, Revista Mallarmargens.

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A carreira literária de Claudia Nina se ramifica em gênero e categoria. Desde sua estreia com o trabalho acadêmico sobre a ficção de Clarice Lispector, a jornalista e escritora carioca dá forma a uma obra heterogênea, composta por crônicas, contos, ensaios, perfis e romances, destinados tanto ao público adulto quanto ao infantil. “Amor de longe” marca, agora, seu debute na literatura para jovens. A trama é protagonizada por Clarice, uma menina com 13 anos que, por conta do trabalho do pai, tem de abandonar a vida no Rio de Janeiro e se mudar para Porto Alegre. Do não pertencimento à cidade fria, ela vai ter de se adaptar às novas amizades e aprender a lidar com o primeiro amor.

Em sua essência, é um romance de formação; porém, acima de tudo, um livro “pé no chão”. Num tempo em que o leitor infantojuvenil se mostra cada vez interessado num universo habitado por seres fantásticos e sobrenaturais, Claudia Nina trata dos dramas reais: das transformações físicas e emocionais que moldam a adolescência.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, a autora fala sobre o processo de construção do novo livro, suas referências, a ligação entre a personagem Clarice e a escritora Clarice Lispector, o mercado do livro infantojuvenil, e em como “Amor de longe” se encaixa num projeto mais amplo voltado para os jovens.

Além disso, comenta sobre a cena contemporânea brasileira, os eventos literários, o crescimento das pequenas editoras, e, na condição de crítica literária, dá opiniões firmes e interessantes sobre a ascensão de jovens autores e a participação das mulheres no meio literário. “Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo”, defende.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Seu livro mais recente, “Amor de longe”, é um romance adolescente. No mapa da literatura brasileira, autores clássicos já se aventuraram no gênero juvenil, contudo a impressão que fica é que tais livros não recebem o mesmo nível de consideração que os classificados como literatura adulta. Você percebe que há algum tipo de menosprezo, por parte da crítica especializada, para com os livros feitos para adolescentes? Que são vistos, invariavelmente, como um trunfo mercadológico?

CLAUDIA NINA – Temos que entender o que seja hoje “crítica especializada”. Não tenho visto espaço crítico no país, apenas a persistência de alguns leitores mais atentos que se debruçam sobre os títulos, são curiosos, querem conhecer de fato a produção contemporânea. E só. Algumas clareiras nos jornais se abrem, é verdade. Temos o Rascunho. Mas é tudo tão rarefeito no cenário geral… Não vejo onde uma literatura de formação possa se inserir neste contexto “crítico”. E, claro, tudo é colocado na mesma fornada. O que se escreve para o adolescente não é avaliado de maneira alguma. Me diz: qual crítico se propõe a abrir os parcos espaços críticos para falar do juvenil? Não vejo nenhum! “Amor de longe” é um trabalho de intertextualidade com Clarice Lispector, que dialoga abertamente com “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”. De certa forma, é um livro de formação. Isso acontece tanto do ponto de vista da formação emocional de uma menina dos 13 aos 14 anos, e todo o processo de transformação aí envolvido, como também de formação da leitura/escrita como aprendizagem. Sem abrir mão da linguagem envolvente, que precisa capturar esse leitor em busca de si mesmo. Repetir fórmulas de sucesso não é um erro. Apenas eu acho que o caminho não precisa excluir a necessidade de uma escuta mais atenta ao literário e às engrenagens da língua. É o que eu proponho. Espero que mais leitores como você, em sua luta tão bonita pelo literário, surjam com interesse e curiosidade por um trabalho como este.

DA – Diante disso, em algum momento do contato com a editora, você pensou em tirar esse rótulo de “juvenil” da obra? A leitura de o “Amor de longe” revela justamente o que disse: um romance de formação, como há muitos na literatura contemporânea, sem que estejam localizados numa categoria. Nesse caso, penso, é papel do leitor conviver com a história e, independente da idade, absorvê-la segundo o tempo concentrado no livro. Seja uma linguagem mais ou menos culta. E, por falar nisso, uma das coisas que me chamaram mais atenção no texto foi a linguagem. É uma narrativa em terceira pessoa, bastante informal, mas que, em nenhum momento, apela para um tom infantilizado. Durante o preparo, houve uma preocupação sua em falar com o adolescente, sem que soasse excessivamente como um texto escrito por um adolescente?

CLAUDIA NINA – Eu busquei uma voz interna para compor a Clarice capaz de dialogar com minha adolescência e ao mesmo tempo com os dias de hoje. Não queria parecer fora do tempo contemporâneo nem do meu próprio tempo. Foi bem difícil encontrar esta conciliação, pois venho de uma época sem celular nem tablets. As conquistas, as conversas e os medos eram confrontados olho no olho, palavra viva. “Amor de longe” não tem rótulo na capa. Tem a catalogação de juvenil imprescindível. É uma história para todas as idades. Para a família. Para qualquer tempo. Eu não conseguiria escrever um texto exclusivamente voltado para o adolescente assim como não conseguiria escrever um exclusivamente voltado para a criança. Não temos que limitar o vocabulário, embora às vezes seja necessário dosar o teor de complexidade da linguagem para não obscurecer nem afastar. Por isso é tão difícil escrever, são várias preocupações e detalhes que se deve ter em mente. Eu queria escrever um texto que pudesse me fazer lembrar da adolescente que eu fui diante das perplexidades que fizeram parte da minha vida em um tempo marcado pelas mudanças geográficas e emocionais. Acho que consegui! Gostei bastante do resultado.

DA – É muito interessante você abordar esse contraste de geração, pois também sou de uma época na qual o que fazia a cabeça dos adolescentes eram coisas como “Confissões de adolescente”, “Armação ilimitada”, entre outros. De uns tempos para cá, tudo se transformou de uma maneira radical. Os jovens preferem a distopia ao invés da utopia; o universo sobrenatural, fantasioso, ao invés dos problemas ordinários. E é exatamente nisso que seu livro toca: nas pequenas descobertas, nas mudanças, na confusão de sentimentos. Como então trabalhar com esses temas tão reais, para um público-leitor que prefere o escapismo das histórias de vampiros, de um mundo pós-apocalíptico?

CLAUDIA NINA – Eu não posso me limitar às limitações do tempo e de um suposto público-leitor como se este fosse uma entidade. Eu simplesmente escrevo. É claro que me preocupo em ter leitores. Mas não posso criar pensando em que tipo de leitor eu terei, pois não se faz boa literatura assim. Do contrário, eu repetiria fórmulas. Nada contra quem repita fórmulas. Mas eu não trabalho assim. Acho que todo bom livro encontra naturalmente seus leitores. Veja um exemplo. Meu primeiro romance, “Esquecer-te de mim”, publicado em 2011 pela Babel. A editora sumiu e fez os livros sumirem. Isso depois de eu ter tido um ótimo lançamento e excelentes resenhas. O tempo passou. E não é que agora recebo várias mensagens de leitores que acharam meu romance na Estante Virtual, compraram e me escreveram lindos recados! Um deles me dizia para eu nunca parar de escrever. Ora, quer alegria maior do que essa? Acho que a roda gira; ah, gira sim! Mas é preciso ter calma, paciência. Os leitores que eu quero não virão até mim como mágica. Eles virão um a um, e se acercarão de mim e da minha escrita. Tenho certeza disso. Já estão vindo. São leituras intensas, de gente que mergulha na palavra. É dessa gente que minha escrita se alimenta.

DA – Falando em leitores, há um outro público bem exigente, para o qual sua escrita se direciona, que é o infantil. São quatro livros, num período de quatro anos. O último, “A Repolheira”, conta, inclusive, com ilustrações da artista espanhola Raquel Díaz Reguera.  De onde nasceu a ideia de escrever para crianças, e como guiar o processo de criação de modo que o texto se harmonize com a imagem, garantindo relevância às palavras?

CLAUDIA NINA – O primeiro infantil surgiu de uma urgência e de um sonho. Eu cursava o Publishing Management na FGV. Precisava de um trabalho final. A única ideia era escrever – e tentar publicar – um livro. Eu já estava no processo de escrita do meu primeiro romance, mas não daria tempo de finalizá-lo. A solução me ocorreu depois de uma noite em que eu sonhei com a história inteira de “A barca dos feiosos”. Eu só fiz sentar e redigir. Foi um livro feito às pressas, por isso penso em editá-lo novamente. Cada infantil tem seu processo, cada história me acontece de uma forma diferente e inusitada. “Nina e a lamparina” surgiu de outra urgência: eu precisava falar de um problema familiar: o medo do escuro da minha filha menor. Foi muito importante ter abordado o tema que, embora pareça lugar comum, pode ser abordado de diversas formas. Tive grandes alegrias com este livro. A maior delas foi quando descobri que uma escola de Goiás trabalhou com a história em uma matéria de empreendedorismo! Eles focaram no conceito de coragem: se a gente acende o archote interior, capaz de iluminar nossos passos na escuridão, a claridade se agiganta e já não estamos mais no breu. Podemos fazer o que quisermos quando vemos nossos pés tocando o chão. Depois veio “A mansão”. Surgiu de uma viagem à Patagônia. Eu fiquei muito impactada com aquelas paisagens e fiquei imaginando o que poderia roubar aquela paz… Criar um conflito dentro de um cenário perfeito foi minha ideia. Fui abençoada por uma Lua gigante, quando descíamos a montanha de neve. Foi uma das cenas mais lindas da minha vida. Quis transformar tudo isso em livro. “A Repolheira” nasceu também de uma imagem. A personagem do título “me procurou”. Não sei explicar estas aproximações criativas. Mas o fato é que a imagem me veio e com ela toda a história. Escrevi em papel, a lápis, pois estava de férias e não tinha levado o computador. Há ainda várias histórias inéditas, uma delas “A coruja e o mondrongo”, de que gosto muito também. No caso de “A Repolheira”, a escolha mais do que feliz da ilustradora foi um achado do Facebook. Eu mandei a história para a Raquel e ela adorou. A editora abraçou a ideia, a história e a ilustradora. Não consigo imaginar “A Repolheira” (que faz uma brincadeira com A Borralheira) de outra forma. Mas acho que em todos os casos eu tive bons ilustradores. Esse casamento é fundamental. Acho que o autor tem um papel importante no sentido de ajudar a sinalizar um traço que combine com a história. Eu gosto de sugerir porque curto muito desenhos. Aliás, comecei desenhando antes de escrever. Mas depois abandonei por falta absoluta de talento. Minha filha hoje desenha maravilhosamente bem. Eu me vinguei nela.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Fico imaginando que suas filhas, que estão na mesma faixa etária que a de Clarice, a protagonista de “Amor de longe”, também foram fortes influências para o livro. Anteriormente, você mencionou um exercício de intertextualidade, porém, como visto na dedicatória, a realidade é também uma grande fonte de inspiração. A propósito, seu romance anterior “Paisagem de porcelana”, também toma emprestado muito de sua vivência na Holanda, para dar escopo ao seu enredo. Até que ponto, então, seu processo de escrita depende da observação do real, de escavar o terreno das memórias para que possa erguer os pilares da ficção? E, voltando à dedicatória, pode falar um pouco sobre esses amigos que a receberam em Porto Alegre e, como declara, fizeram sua adolescência um tempo mágico?

CLAUDIA NINA – Sempre me lembro de uma frase da Clarice Lispector que dizia que, mesmo se ela falasse sobre a produção de café, ou qualquer outro assunto distante do eu, ainda assim, ao final, ela perceberia que se delatou. Acho que nunca me afasto o suficiente de mim em nada do que escrevo… Porém, acredito que um dos elementos mais importantes da ficção seja o tempo. Sem o filtro do tempo escreveríamos imersos em uma emoção excessiva, daríamos voltas ao redor de nós como um escorpião encalacrado mordendo o próprio rabo. Precisamos da distância espacial e temporal a fim de que o vivido seja filtrado pela percepção de que nem tudo pode ou deve ser escrito. Em “Paisagem de porcelana”, recupero parte de uma experiência que vivi na Holanda, em fins dos anos 1990. Precisei de longos 16 anos até fazer a roda girar a ponto de surtar: torci o giro da ficção para fazer com que a personagem experimentasse situações muito mais complexas e agudas do que as que eu vivi. O tempo também foi igualmente importante para que a emoção não atrapalhasse. A personagem precisaria olhar os estragos de olhos lúcidos e sem autopiedade. Em “Amor de longe”, que de alguma forma dialoga com “Paisagem…”, pois também trabalha a questão da paisagem e da transformação da personagem no espírito dos cenários, eu igualmente me afastei do vivido (foram 30 anos) a fim de que pudesse resgatar a vivência de forma criativa: a ficção precisa ter as rédeas do texto e não o contrário; a vida não pode comandar; é preciso desobedecer ao vivido. Novamente: nem tudo se pode ou deve contar… Quanto às minhas filhas, elas não participaram tanto da escrita deste livro porque hoje elas estão com 11 e 12 anos. Eu demorei dois anos e meio para escrever, elas ainda eram pequenas. Acredito que o tempo de Clarice delas esteja começando a partir de agora.

 

DA – Outra relação muito forte entre “Paisagem de porcelana” e “Amor de longe” é a soberania do olhar feminino; um aspecto, por sinal, muito sensível em sua literatura. Recentemente, entrou em pauta uma discussão sobre a representação da mulher na literatura contemporânea; a maneira pela qual é retratada nos textos, a capacidade de uma autora tornar essa voz mais crível, pertinente. O quanto concorda com essas colocações? E até que ponto a condição de gênero e o fator moral têm relevância em sua escrita?

CLAUDIA NINA – O gênero faz toda a diferença e tem toda a relevância, pois a dor de Helena (protagonista de “Paisagem de porcelana”) é uma dor declinada no feminino. Não que não seja universal a ideia da subjugação, não é isso. Mas, da forma como eu retrato, ou seja, uma vítima massacrada por um amor, acredito que seja uma capacidade muito própria da mulher o de se deixar esfarelar. E isso não pode ser nenhum demérito da obra. Agora, é preciso que se ressalte outro aspecto que não tem a ver com o que estou falando: a linguagem. Eu não escrevo “como mulher”. Isso não. Aliás, a ideia de aproximar o delicado do feminino é pobre demais; aliás, a ideia de que um texto com o título “Paisagem de porcelana” seja obrigatoriamente delicado é também um embuste. Meu texto é muitas vezes cruel. Vivian Wyler dizia que eu escrevo com “raiva”. Se um homem cismar de me etiquetar como “feminino-delicado” antes de me ler – como se isso fosse um erro – eu perco leitores. Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo.

DA – Esse é um assunto muito inquietante, portanto quero refleti-lo na história da personagem Helena. Como apontou, ela é refém de um amor que a condiciona a uma série de abusos psicológicos e físicos, contra os quais parece não ter força para lutar. Há poucos dias, tivemos um caso de repercussão nacional, que foi o assédio sexual cometido por um ator de novela contra uma figurinista. Isso expõe o machismo ainda reinante na sociedade brasileira, que certamente influencia no espaço dado às mulheres, repercutindo no mercado literário. Como analisa essa questão? Há machismo na literatura? E você, na sua carreira de jornalista e escritora, passou por algum momento de assédio?

CLAUDIA NINA – Ouso dizer que há machismo sim, embora os homens não aceitem este assunto. Não me diga que os homens leem com o mesmo entusiasmo os livros de mulheres e os livros de seus amigos homens porque isso não é verdade. Muitos – não estou generalizando – sequer abrem um livro de mulher, caso o título soe, digamos, “feminino” demais. Parece um absurdo dizer isso… Mas é absurdo mesmo. Eu sempre digo uma coisa: quando um homem escreve delicada e poeticamente, mesmo em prosa, como é o caso de um João Anzanello Carrascoza, por exemplo, isso é lindo e maravilhoso. O autor é celebrado – eu acendo uma vela para Carrascoza, pois ele é um dos meus favoritos, justamente por ele ter a coragem de escrever do jeito que sente. Porém, quando uma mulher escreve no mesmo diapasão, ela corre o risco de ser rotulada como lacrimejante ou mulherzinha demais… Isso é fato! Quem disser que não é verdade é porque tem culpa. A outra parte da sua pergunta é quanto o assédio. Quase todas as mulheres do mundo já sofreram algum tipo de assédio em suas carreiras. Eu já sofri na minha vida como jornalista. Mas encarei de frente, dizendo um redondo e sonoro “não”. Mesmo colocando o emprego em risco, o que, lamentavelmente, sempre ocorre quando não se aceita o jogo do dominador. O problema é quando o “não” bate e volta. E quando a vítima precisa desesperadamente do emprego e teme perdê-lo. Uma situação tão triste. Precisamos nos fortalecer de fato. Gosto muito do feminismo. Estou nesta luta e quero cada vez mais fazer parte dela.

DA – Mas acho que vale uma observação – ou, melhor, uma reflexão. Hoje, as principais agências literárias do Brasil são comandadas por mulheres. A maioria dos selos literários tem mulheres no cargo de editor principal. Muito se culpa do leitor, o último a ter contato com a obra e, por conseguinte, com a autora. Não seria, então, uma questão de analisar também o mercado por dentro? O quanto as editoras e as agências estão fazendo para projetar as mulheres na literatura? 

CLAUDIA NINA – Mas o machismo não é uma prerrogativa dos homens. Muitas mulheres também são machistas. Acredito que os espaços precisam ser ventilados como um todo. Vejamos os prêmios literários, as festas, os eventos… Será que existe paridade entre o número de homens e de mulheres? Não creio. Por que motivo isso ocorre é um mistério. Não entendo. E não acho que as editoras de um modo geral estejam trabalhando para que as mulheres na literatura tenham mais projeção. Acho que ainda não tomaram frente do assunto.

DA – Aproveitando que mencionou os eventos literários, há cerca de um mês você integrou a delegação de autores brasileiros que participaram do Printemps Littéraire Brésilien, festival literário que, em sua quarta edição, passou pela França, Bélgica, Espanha e Portugal. Da impressão das mesas, qual o interesse do estrangeiro pela nossa literatura? E como acontecimentos dessa natureza podem trazer benefícios para o mercado literário brasileiro de maneira geral?

CLAUDIA NINA – É um trabalho lento, de ativismo, como gosta de dizer o professor Leonardo Tonus, idealizador e organizador do Printemps. Há que se ter paciência e persistência. Nada se faz do dia para noite. Eu vejo alguns autores subirem do dia para a noite, mas logo depois, ao longo dos anos, desaparecerem. Geralmente por não conseguirem continuar escrevendo tão bem como prometiam. Prefiro uma caminhada que se faz lenta, mas progressivamente. Os eventos ajudam a espalhar nossa colheita que é a nossa voz, a nossa palavra. E, no confronto com o outro, de diferentes dicções, nossa escrita cresce, transforma-se. Tenho gostado cada vez mais desta movimentação. Ano passado, estive na Feira Internacional da Guatemala. Foi surpreendente. Um resumo de “A Repolheira” foi lido em espanhol, enquanto eu mesma fiz a leitura, em português, de Paisagem de porcelana. Tivemos uma audiência pequena, porém atenta, que, tenho certeza, saiu de alguma forma tocada por nós, pelo diferente que apresentamos, pois o conhecimento de literatura brasileira contemporânea deles é mínimo. Mas este mínimo é uma semente de conhecimento que precisa ser espalhada.

DA – A ascensão repentina de jovens autores é algo que também me incomoda. Muito menos pela literatura que estes privilegiados podem oferecer, mas por um time de outros autores bem melhores que acaba à sombra desse “sucesso”, justamente por não ter o holofote sobre suas cabeças. Numa resposta lá atrás, você mencionou a falta de espaço para a literatura nos veículos de comunicação, absolvendo o trabalho feito pelo Rascunho. Você escreve para o Rascunho e também assina uma coluna na revista Seleções sobre livros. O que tem visto na literatura feita hoje que lhe agrada e o que lhe desagrada?

CLAUDIA NINA – Muita coisa me agrada. Tenho curtido demais os autores contemporâneos, e é uma alegria quando encontro um autor, ainda desconhecido, mas bom. O que ocorre muitas vezes é a edição precária. Explico: na pressa em ser publicado (o que é perfeitamente compreensível), muitos autores publicam de qualquer jeito um texto que poderia ser editado. A figura do editor de verdade está em extinção. Há poucos que realmente trabalham o texto. A maioria apenas publica. O autor acha que está ótimo, já está pronto, que não tem para onde crescer. E sai se repetindo, dando voltas ao redor de suas limitações. Tenho procurado escrever livremente meus textos críticos, quase como se fossem crônicas literárias para expressar minhas impressões de leitura. Tanto no Rascunho como na Seleções, tenho espaço para isso, o que tem sido estimulante. Agora você me fala sobre aqueles que estão sob os holofotes. Bom para eles. Ou não. Espero que saibam continuar trabalhando para que permaneçam sendo cultuados. O que nem sempre ocorre. O que eu penso é que a gente deve seguir sempre. Escrever e escrever, pensar, participar. O que for nosso, será nosso. Eu tenho muito isso em mente. O espaço do outro – merecendo ele ou não, segundo meus critérios – é do outro. O que é meu ainda não tem nome, mas é o que desejo: o que é para mim, o meu espaço conquistado e merecido.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Você tocou na questão das publicações de baixa qualidade, que vai ao encontro de um assunto que gosto de trazer à baila em minhas conversas com autores. Também escrevo sobre livros e acompanho bem de perto o cenário da literatura contemporânea brasileira. O que vejo é uma avalanche de novos livros, muitas estreias, mas uma grande soma de textos que poderiam ser mais lapidados; ou, melhor ainda, que sequer fossem publicados, sendo o papel do editor aconselhar o jovem autor a ter paciência, trabalhar melhor a obra, amadurecer. Isso me remete a uma questão pontual: o aumento das editoras. Muito se fala do quanto é importante para a democratização da literatura, no entanto pode ser também uma forma de jogar no mercado justamente livros sem o devido cuidado de edição, não acha? Qual sua opinião sobre isso?

CLAUDIA NINA – Tenho uma opinião simples quanto a isso. Penso que muitos escritores ávidos em se tornarem escritores se esquecem de que precisam ler. Formar uma bagagem de leitura (o que não tem a ver com a idade, pois muitos jovens são mais leitores do que escritores mais velhos) é fundamental antes de começar. Parece óbvio, e é. Muitos se lançam nas oficinas de escrita (não sou contra nada), mas se esquecem do trabalho individual de carpintaria literária que passa, muito antes, pela leitura. E não só dos clássicos. Acho importante que se conheça o que nossos pares estão fazendo na contemporaneidade – que caminhos percorrem, quais são suas escolhas linguísticas, os temas, as recusas. Do contrário, continuarão achando que inventaram a roda e que escrevem muito bem, quando não é verdade.

DA – Você consegue traçar um paralelo entre esse desmerecimento da leitura e a chegada das plataformas virtuais; a possibilidade de qualquer um escrever o que bem entender, sem qualquer critério, e se autopublicar? Ou é um processo mais complexo, que passa invariavelmente pela educação? Fazendo uma ponte com o público do seu novo livro, sou (e acredito que você também) de uma época em que os escritores eram figuras quase sagradas, mestres das letras, seres inalcançáveis, já velhos ou falecidos. Hoje temos autores tão ou mais jovens que os próprios leitores. Não seria um momento de se (re)pensar o que realmente é literatura?

CLAUDIA NINA – Não sou nostálgica. E gosto muito do contemporâneo. Acho que não precisamos repensar o que seja literatura. Literatura é o que fica, o que permanece. Tudo aquilo que não sobrevive a si mesmo não é literário; é apenas um risco. Um riscado no céu. Passa e depois ninguém ouve falar. Quanto aos novos espaços – não tão novos assim – que sejam bem-vindos. Que mais pessoas escrevam, leiam e falem de literatura. Outro dia, um blogueiro me procurou. Ele faz um trabalho bem bonito, mas estava todo cheio de receio por não ser jornalista. Mas aquele rapaz bem jovem ainda se interessou pelo meu livro, quis saber sobre ele, escreveu sobre ele e multiplicou a minha palavra. Quantas pessoas ele conseguiu alcançar, quantos futuros leitores que começam lendo os blogs e depois vão partir para leituras maiores? Não tenho nenhum preconceito, pelo contrário. O que eu sempre digo: não temos outra alternativa a não ser termos esperança. E mais: adoro a ideia de o escritor não ser mais sagrado. Sagrada é a vida sobre a qual falamos, escrevemos e pensamos.

 

DA – A Claudia Nina, na idade da personagem Clarice, consegue olhar para a Claudia Nina de hoje e se convencer de que valeu a pena se dedicar à escrita?

CLAUDIA NINA – Linda pergunta. Acho que a Clarice gostaria de me conhecer, pois compartilhamos os mesmos sonhos de amor às paisagens e à palavra. Nós nos intertocamos, assim como Macabéa e Rodrigo SM em “A hora da estrela”. Somos muitas vezes uma só, multiplicadas em nossos espelhos, fechadas em nossos quartos ou dedilhando nossos textos. A Claudia Nina de hoje ainda é a Clarice na medida em que o tempo é uma invenção dos relógios. Ao escrever Amor de longe, percebi que as paixões que me moviam aos 14 anos são as mesmas que me movem hoje: tenho sede de mundo, de literatura, de conhecer pessoas e cenários. E também uma certa inocência em acreditar que a vida é linda e que tudo vai sempre dar certo. Um dia. E um dia não é nunca.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.