Foto: Kristiane Foltran

À frente de um projeto editorial, como é o caso da Diversos Afins, não há nada que nos estimule mais do que a continuidade dos caminhos. E é realmente uma renovação que, por estar inserida numa condução marcantemente cotidiana, acaba por nortear sempre o desejo pela descoberta do novo. Quando falamos em novidade, pensamos muito mais numa noção de abarcar eventuais aproximações que se configuram de modo natural numa jornada como a nossa, e não numa busca forçosa pelo inusitado. De fato, o que a experiência tem nos revelado é que ideias e colaboradores surgem em nosso caminho como consequência de um fluxo autônomo de movimentações. Significa dizer que, para além das rotas que projetamos alcançar, marcadas essencialmente por intenções de busca e pesquisa, existe um fator que permanece imensurável: o interesse crescente de pessoas no que se refere a integrar nosso painel de diversidades. Nesses pouco mais de 10 anos de trajetória, a revista vem construindo um largo espaço de convivências, o qual é marcado fundamentalmente pela convergência de perspectivas criativas. Palavras e imagens pavimentam as vias editoriais trilhadas até aqui através dos diálogos, do entrecruzar de olhares e estilos. O resultado é um universo no qual trafegam identidades e representações as mais distintas possíveis. Nada é uniforme, pois sempre há uma voz que nos conclama a olhar para uma direção raramente pensada. Do mesmo modo, não precisamos fazer uso das vestes da vanguarda para justificar toda e qualquer investida que se pretenda realmente nova. Nunca é demais lembrar que tudo sempre esteve no mundo e que a construção de sentidos também pode passar pelo crivo da subjetividade. Então, quem seriam os sujeitos que por ora compartilham seus mundos conosco? A Leva 117 apresenta alguns valiosos nomes. Nas searas poéticas de agora, vemos Vinícius Mahier, Rita Santana, Nayara Fernandes, Diego Vinhas e Mariana Basílio desfilarem seus versos entre nós. Numa entrevista concedida a Floriano Martins, a fotógrafa e poeta Leila Ferraz divide conosco um pouco das suas impressões sobre suas experiências imagéticas. É através da cuidadosa análise de Vivian Pizzinga que tomamos ciência dos caminhos propostos pelo espetáculo teatral “Redemunho”, baseado na obra de Ronaldo Correia de Brito. Quando o assunto é prosa, os contos de Izabela Leal, Tatiana Faia e Matheus Arcaro ocupam um especial lugar no contexto de narrativas de vida. São de Bianca Lana os desenhos, pinturas e ilustrações que perpassam todos os recantos desta edição. No quesito cinema, Guilherme Preger traz à tona uma série de reflexões em torno de “A Garota Desconhecida”, novo filme dos irmãos Dardenne. Alexandra Vieira de Almeida aborda a importância de se ler o mais recente livro de ensaios de Igor Fagundes. “Canções para depois do ódio”, mais novo disco de Marcelo Yuka, é objeto das escutas de Fabrício Brandão. Com o estímulo permanente de seguir adiante, caro leitor, convidamos você a descortinar mais uma etapa de publicações.
Os Leveiros
Tatiana Faia

Tudo o que não tem remédio
Tinha tão pouca energia que pensei até em apanhar o autocarro para percorrer a ridícula distância de seiscentos metros entre o posto de saúde e a farmácia. A farmácia ocupa boa parte de um quarteirão e vende tudo e mais alguma coisa que ocupe o espectro de produtos e serviços entre os cosméticos, a morfina, e a impressão de fotografias. Enquanto esperava na fila, ela deu-me uma pancadinha no ombro. Por aqui? Estás bem? Explico-lhe que hoje sou uma personagem num filme de Woody Allen, nada está bem e tudo me aflige: uma gripe, um abcesso num dente, uma alergia em redor da boca que me anestesia o queixo. Paramos de falar porque me chamam para ir levantar a receita. Ela desaparece entre as sucessivas estantes de produtos enquanto eu espero e respiro de alívio. Penso de imediato em adoptar o meu subterfúgio típico, desaparecer sem me fazer notar. Entendo ser esta uma das manifestações mais naturais da minha misantropia, com a vantagem de ser ambígua o suficiente para não permitir que o visado alguma vez se sinta inteiramente ofendido. Mas assim que me aproximo da promessa de luz das escadas rolantes, ela emerge sinistramente do quarteirão dos comprimidos de alergias. O que é que se está a passar ao certo contigo, é o que ela quer saber. Exactamente como num filme de Woody Allen, isso eu só vou saber quando a acção chegar ao fim. Tenho dificuldade em explicar isto a pessoas pragmáticas como ela, mas o inteiro significado de certas coisas que tenho vivido tende a levar um longo tempo até acertar contas comigo e o facto de que ultimamente não tenho escrito nada só adensa essa falta de percepção. Claro que o que ela quer saber é o que eu tenho escrito ultimamente e onde tenho publicado e eu vai para um ano e meio que nada, nem uma linha, bem, há os poemas, mas eu nunca consegui arrumar isso muito bem na categoria de escrever, e, de resto, ninguém quer ouvir falar desses textos e é muito raro eu discuti-los com alguém. Enquanto trocamos inanidades eu noto que ela perdeu peso, noto que quando a conheci há dois anos num curso organizado noutro país, quando passámos duas semanas sentadas na mesma sala de aulas e a correr de teatro em teatro e de bar em bar e eu a vi brincar no mar como uma criança, ela não era bem esta pessoa aqui à minha frente. Ela deve estar agora na segunda metade dos vinte, vinte cinco ou vinte seis anos, e temos em comum o termos, entretanto mudado de óculos, noto que na Grécia ela falava inglês com sotaque americano e que aqui fala inglês com sotaque britânico, com um resíduo levíssimo de um sotaque que ninguém poderia associar ao italiano original, enquanto eu, um pouco numa corruptela de algo que Eça escreveu, faço sempre questão de que o meu sotaque se note, mesmo que as inflexões da prosódia do inglês britânico me sejam agora mais do que exaustivamente familiares. Mas o meu objectivo não é confundir-me com a paisagem ou erodir a minha própria estranheza ou tentar camuflar o facto do meu estatuto estrangeiro. Daqui a dez minutos, quando eu e ela nos sentarmos no café, o sotaque dela vai vir ao de cima uma vez e apenas uma vez, ao tentar pronunciar a complicada palavra xenophobia, um desafio prosódico à altura desta mulher despachada e inteligente por quem, não sentindo verdadeiramente simpatia, não consigo deixar de sentir empatia, e não é só por causa do que escreveu Sebald em Emigrantes, que os emigrantes naturalmente se aproximam uns dos outros. Isto para dizer que sigo alimentando as minhas próprias contradições, que depois de começarmos a conversar na farmácia eu não consegui não a convidar para beber um café, apesar da febre e do cansaço. Ela aceita imediatamente a minha proposta com entusiasmo, enquanto penso que é errado estar aqui a ter uma conversa, num dia em que não fui trabalhar por me sentir doente e esta jovem mulher que me é familiar sem nunca deixar de me ser estranha me explica que desde a última vez que falámos se casou, mas que o marido, entretanto voltou para Itália, para entregar a tese de doutoramento e, porque, claro, não conseguia arranjar trabalho aqui. Este café em St. Michael Street há-de ser o mesmo há quarenta anos. Recordo-me de que, ao contrário da amizade que quase de imediato me ligou a algumas pessoas naquele curso, nunca me consegui sentir verdadeiramente próxima dela, e penso que provavelmente nunca nos tornaremos amigas em parte por causa da catástrofe da minha personalidade, em parte porque há nela uma imaturidade profundamente simpática que adensa a minha impaciência, que me deixa ver um pouco do meu próprio desdém, e ao mesmo tempo, da minha resistência, na atenção com que discutimos a actual conjuntura política, a incerteza do futuro, até mesmo o reconhecimento de que há semanas que não me era tão fácil ter uma conversa inteligente com alguém, sem, no entanto, ser capaz de me iludir a mim própria e vir agora aqui apontar cobardemente, diariozinho, que nada disto é da ordem da amizade fraternal, perto do perfeito arquétipo platónico da coisa real, onde está bem vivo o tipo de diálogo pelo qual até a mais estúpida conjuntura política que tem animado este país no último ano se podia corrigir.
Tatiana Faia. Portugal (1986). Vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.
Nayara Fernandes

Vésperas de um acontecer
não sei se sei, serei
no fim, talvez, eu seja
concreta o que não sei
sendo, melhor, o que nunca pensei
sem passado passeio nas paisagens das surpresas
sem futuro flutuo nas justaposições dos agoras
às vésperas d’um acontecer
sou tudo o que não foi.
***
Pele, à flor da carne
o vazio
no torso da poesia, o infértil
rubra vastidão de boca surda
rouco vão de olhos mudos –
a pele
à flor da carne do cerne do
excesso
quente doce inacabada
certeza do nada
quente doce inebriado
certame do tudo
um parto rasgado de vício
viço e delírio.
***
Ontens afins
uma vida curta
para dias longos
sonhos selados
para destino sem rédeas
a realidade me atravessa
num tráfego de segundos
sentidos me atropelam
sem defesas nem definições sigo – às cegas
não mais espero respostas
respondo as perguntas que me interrogam
todo o agora me define
todo o depois me duvida
todo o antes me recorda
todo o futuro me esquece
sou ontens afins de hojes infindos.
***
Já não sinto
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
sou corpo que chama
suo poros em chama
sou inteiro alma queimando
na pele, em toque, o arrepio
na pele, em frio, o calafrio
na pele o fogo – (a)brasa viva
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
já não sei dizer
o que sou
o que soou
onde estou
o que sobrou
de mim mesmo acabou
acabou de acabar
foi embora pr’um mundo imenso
o mundo intenso da tua alma
um mundo onde imerso emerso em mim
peno sem tua doçura
peno sem tua ternura
te preciso como cura
te preciso como escudo contra meus eus fantasmas
te pertenço inteiro pra me pertencer em parcelas suaves
sem ti não sou comigo
contigo sou inteiro
sem ti sou metade ignorada de mim
contigo meu sentir não mente
sentimento em suma transborda:
bordando em mim o amor que me salva com glória.
***
Pecados líricos
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
verbos versos vícios
ilícitos líquidos explícitos
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
sedes súbitas
securas sólidas
alma insana
que nunca me nega
um verso santo
: milagre de um peito morto
ateu na santidade – atado no amor sacro
que me salva das misérias interiores.
Nayara Fernandes nasceu em Teresina, PI, em setembro de 1988. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Alagunas, Mallarmargens, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times e nos sites LiteraturaBR e Livre Opinião – ideias em debate. Participou da coletânea Quebras – uma viagem literária pelo Brasil, lançada em novembro de 2015.
A criança como o estado da criação em Poética na incorporação – Maria Bethânia, José Inácio Vieira de Melo e o Ocidente na encruzilhada de Exu, de Igor Fagundes
Por Alexandra Vieira de Almeida
Igor Fagundes faz do sagrado, em Poética na incorporação (Editora Penalux, 2016), oitavo livro do autor e quarto de ensaio, um caminho para o novo e desconhecido, sem a roupagem velha e puída com a qual se acostumam aqueles que estão presos à tradição mais gasta do pensamento. Traz o olhar da criança, não em sua pura inocência, mas naquilo que ela tem de esperteza, de astúcia e curiosidade pelo fogo do conhecimento na abertura à indagação.
Uma revelação infantil, um erê, na fonte do riso, no rio, é o ponto de partida para a construção poético-filosófica deste livro magistral, que não se quer mais um monumento de saberes a serem seguidos, mas de questões e descobrimentos de novas veredas vivas. A raspagem é o desnudamento de toda nossa tradição cultural, ocidental e oriental, quebrando as dicotomias e trazendo a infância do mítico à lume, à presença, o originário em toda sua força.
O grande mestre poeta Alberto Caieiro já nos revelava este desvestir, este retirar, na violência, no sangue da palavra, o que se tem de mais tradicional em nossa cultura. Igor Fagundes, com todo seu dom pela e na palavra, nos encanta com um canto trazido pela Mãe Oxum. No encontro, nas incorporações entre Exu, Hermes e Cristo, o poeta-filósofo, por aqui estudado, faz da “encruzilhada” um grande trabalho intertextual de confluência entre vários lugares: o grego, o cristão e o africano. Faz da morada do mítico, do filosófico e do poético um trabalho grandioso de esquecimento e memória, sem tomar a água da repetição, porque a incorporar uma nova vida, um pensar nunca antes visto, mas inovado com palavras originárias.
O sagrado, livre dos pré-conceitos da tradição ocidental, perfaz os entrecruzamentos de territórios que poderiam parecer à primeira vista inconciliáveis, mas que pela artimanha arquitetônica da criação de Igor Fagundes, nos leva, com a cantora Maria Bethânia, da Musa à Pombagira, do mar ao sertão baiano. Faz do poeta José Inácio Vieira de Melo um Ulisses que incorpora Exu. O trabalho de incorporações é o diálogo possível que encontramos presente também nos pré-socráticos, sobretudo em Heráclito, que pela “harmonia dos contrários”, torna admirável esta encruzilhada entre tradições distintas, mas próximas pelo olhar agudo de Fagundes.
Nessa “estória”, como o autor mesmo chama, encontramos um trabalho de raspagem, de desnudamento da tradição, para que o novo da criação, da poesia possa nascer. Pois, só abandonando as velhas roupas, o peso, que a leveza do poético pode advir. É intenso o jogo de paralelismos, espelhamentos neste livro original de Igor Fagundes. O livro não segue um sumário tradicional: são versos que alinham as páginas e os capítulos são belíssimos batuques, não só a críticos, mestres e professores homenageados, mas a entidades como Maria Padilha e Exu Tranca-Rua, da tradição afro-brasileira. Em cada capítulo se constrói um mergulho ao universo do Erê, a criança sempre eterna, que caminha para o processo criativo do nosso imaginário, daquilo que incorpora novamente e, sempre presente, se atualiza.
Nas três metamorfoses do espírito, de que falou Nietzsche em Assim falou Zaratustra, seria preciso o ser humano atingir o estado final de criança, paradoxalmente, para que se fizesse a ponte para a liberdade completa. Da fase do camelo, passando-se para a do leão, atinge-se o estágio da criança, quando as cargas pesadas são deixadas de lado até que surjam novos valores. Não valores que venham a servir de modelos, mas valores que os questionam.
A “raspagem” é o retorno a este estágio de infância, onde se busca a liberdade dos paradigmas do mundo adulto e institucionalizado. O erê – a Lagriminha de Ouro da Oxum – surge como apelo ao filósofo-poeta, que, abarcando novos mares, chega ao sertão das criações. Igor Fagundes, a partir de uma vontade de potência, conquista um mundo que é todo seu e que leva o leitor não a respostas prontas, mas às indagações, conforme o universo da criança. A “raspagem” produz seu efeito: o leitor se desnuda de suas antigas vestes conceituais.
Alexandra Vieira de Almeida é escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ).
Por Fabrício Brandão
MARCELO YUKA – CANÇÕES PARA DEPOIS DO ÓDIO
Há pontos de partida e chegada nesse imenso território chamado vida. No movimento dos decisivos arremates aos quais ousamos, habita um ponto intermediário que nos permite acessar alguns retornos. Não se trata necessariamente de voltar a determinadas origens, algo que poderia remeter a um sentido de nostalgia. Definitivamente, não é isso. A ideia aqui presente é a de que certos recomeços têm muito mais a ver com superações de cenários pretéritos, assinalando, pois, etapas que inauguram novos estágios da consciência em torno de fatos, lugares e pessoas.
Quiçá a nossa passagem aqui pelas bandas terrenas não seja também um exercício constante de estarmos atentos aos sinais de toda natureza. Tudo isso talvez para entendermos quem ou o quê realmente nos tornamos. E fica a pergunta: ainda dá tempo de modificar certas trajetórias?
Ao que parece, a indagação lançada acima faz parte das novas veredas trilhadas pelo músico Marcelo Yuka. De imediato, o nome de batismo de seu novo disco, Canções para depois do ódio, assemelha-se à ponta de um gigantesco iceberg. É, de fato, um título sugestivo, impactante e provocador a nos situar em meio ao mar bravio das procelas humanas. Numa tradução mais ágil, a constatação do quanto se é possível a qualquer pessoa interferir no seu próprio destino.
Canções para depois do ódio é um verdadeiro enxergar além dos domínios mais acostumados. Aposta num porvir perfeitamente enquadrado numa noção de renascimento das pessoas. Como é de costume, não faltam a Marcelo Yuka as ferramentas discursivas capazes de evocar um caminho para as mudanças de rumo. Em todas as suas faixas, o disco promove deslocamentos de tempos e espaços que se harmonizam com a agudez do verbo de seu criador.
É justamente na potência verbal de suas composições que Yuka confere um caráter orgânico ao seu novo trabalho, pois cada uma das 16 canções do álbum aparece integrada a um complexo painel de observações sobre a contemporaneidade e seus laços. Nesse trajeto musical, há um fluxo através do qual nada se dissocia de um conjunto que carrega em si um vigoroso corpo de significados. De um ponto a outro da obra, tudo se encaixa e cada peça desse vasto mosaico de imagens não sabe viver sem o seu correspondente.

Após percorrermos canções como O dia em que o homem se cansa, Por pouco, Myto, Agora nesse momento, A carga, Memórias artesanais e Algo mais explícito, temos uma noção mais apropriada do movimento vivo que está contido no disco. Em cada parte do álbum, restam claras as razões pelas quais Yuka se consolida como um dos letristas mais significativos de seu tempo. Como poucos, sabe transitar com pungência por matizes políticos, filosóficos e afetivos, pondo em evidência o papel desempenhado pela memória.
Um outro grande aspecto do disco são as escolhas vocais. Contando com as valiosas interpretações de artistas como Céu, Black Alien, Cibelle, Barbara Mendes, Seu Jorge, Vicky Lucato, dentre outros, as canções se apresentam com um vigoroso repertório imagético e sonoro. Em boa parte delas, está presente a voz marcante de Bukassa Kabengele, cantor belga de origem congolesa, que integra A Entidade, banda conduzida pelo próprio Marcelo Yuka (voz, programações e sampler) e em cuja formação também traz artistas como Ricô Bassito (baixo e percussão), Bárbara Ferr (voz), Tedy Santana (bateria e percussão) e Muralha (VJ). Tudo isso posto e devidamente mesclado, há na obra uma forte presença de elementos musicais africanos, além de trazer bases eletrônicas.
É perceptível que Canções para depois do ódio é um trabalho motivado por um estado de perplexidade diante de uma nefasta ordem política, econômica e social que insiste em avançar com seus tentáculos ultraconservadores por sobre o mundo. Frise-se: o Brasil de Marcelo Yuka também é parte integrante desse conturbado estado de coisas.
Por mais que carregue em sua história pessoal as marcas dos equívocos humanos, o artista faz questão de aplacar qualquer possibilidade de ira diante das adversidades. No fundo, o que ele nos diz em seu novo rebento musical é que as tensões, ruídos e conflitos podem ser repensados à luz de alguma lucidez e serenidade. É, por assim dizer, uma maneira diferente de conceber o que ainda pode fazer valer nossa existência.
Vislumbrar para além do ódio uma via movida pelo otimismo não é uma construção nem um pouco fácil de se apreender ou praticar. Tal exercício pode assumir uma ressonância utópica. No Marcelo Yuka de hoje, os caminhos da mente e do coração fluem com mais leveza, evidenciando que o amor, no seu sentido mais largo possível, não é balizado por vãs expectativas de aceitação.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.