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114ª Leva - 08/2016 Galeria

Foto: Milton Boeira

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Foto: Milton Boeira

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113ª Leva - 07/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Quantas acepções cabem na palavra continuidade?  Por certo, um sem fim de significados. Mas talvez o mais importante deles seja o da manutenção de um desejo: fazer com que a chama de um projeto permaneça viva e disposta a se nortear pelas virtudes necessárias da mudança. E o tempo assinala desafios trazendo para perto de nós sinais de que outros diálogos são necessários. A Diversos Afins obriga positivamente seus editores a um salutar estado de alerta, qual seja o de perceber novas possibilidades que agregam valores criativos. Seja nas artes visuais ou sob a forma de textos, pessoas surgem diante de nossos domínios ofertando suas peculiares experiências de conceber o mundo. É deveras interessante sermos surpreendidos com arremates poéticos ousados ou construções diferenciadas do olhar. Isso prova que não há espaço para a monotonia em nossas vidas, pois podemos usar as ferramentas de expansão da arte como importantes aliadas no processo do entendimento sobre nós mesmos. Não se trata de ocupar o tempo ou a mente para matar o infame tédio de algumas humanas horas, mas de abrir caminhos sugeridos de vivência e, com isso, saborearmos inusitadas sensações. É gente como a artista plástica Rety Ragazzo, que agora ilustra a nossa atual edição com uma singular visão de mundo, capaz de romper padrões impostos e apontar vias de libertação do olhar. O momento é feito também das reflexões do escritor Tadeu Sarmento numa entrevista concedida a Sérgio Tavares, conversa marcada por uma salutar criticidade ante o complexo palco das realizações literárias. Registramos os ímpetos da poesia de Clarissa Macedo, Tiago Dias, Marília Floôr Kosby, Maíra Mendes Galvão e Rita Isadora Pessoa. Há um olhar aguçado de Guilherme Preger para o filme brasileiro “Aquarius”, do diretor Kleber Mendonça Filho. Carlos Trigueiro revisita memórias numa merecida homenagem ao saudoso escritor cearense Nilto Maciel. Diferentes cenários surgem em meio às narrativas de Vicente Franz Cecim, Maira Moura e Geraldo Lima. O mais recente trabalho musical de Liniker e os Caramelows está presente nas detidas escutas de Larissa Mendes. Num ensaio, Shirlene Rohr de Souza mergulha fundo na obra do poeta Jorge Elias Neto. É a terceira etapa das celebrações dos 10 anos da revista refletida numa 113ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tiago Dias

 

rety-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Os poemas seguintes são uma singela homenagem a Orides Fontela, o verdadeiro pássaro de sol que ainda existe.

 

Nunca amar o que não vibra nunca crer no que não canta*

 

deixar a porta aberta para varrer o chão
com a voz entardecida ter no canto a cigarra
a escrever um haicai sabido que da vida
leva-se as chances de ter cantado.
no movimento dos braços a fé no suor
a construir a dança fecunda
como os pés apoiados no chão
varrer o chão com a porta aberta
ter as primaveras para lembrar
da procrastinação ou não
esquecer para olhar o céu
agrestes pássaros de sóis

 

 
***

 

 

Ouvir um pássaro agora ou nunca*

 

feitos de fotografias e espadas
penduradas na parede branca
seus gestos são o pêndulo
a oscilar natural
o prego
por detrás das fotografias e espadas
tal como a sacada
as flores de álcool e vozes
sob a sacada ainda
todas as cabeças planetas
sob a sacada axiomas

 

 
***

 

 
Mais vale o canto agreste do que o vívido silêncio branco além do humano sangue*

 

a nossa voz vive
no oco do oco
de onde levanto os olhos
mesmo que ofusque
as retinas e siga
desfocando tudo talvez
essa seja a solução
quero beber da mesma água
em que me banho
a correnteza arando as minhas costas
esfoliando a pele preparando
quero ser solo sempre

 

 
***

 

 
Ouvir um pássaro é sempre*

 

há uma linha indizível
dentro de cada um de nós
por onde escorregamos
um paradoxo que bebemos
comemos como tremoços
não há nada mais fluido
do que a vida uma linha
não virgem
mas intensamente
…………….prenhe
de outras linhas mais finas
que desenham motores
ventanias tufões alaridos
cores até cores

 

 
***

 

 
Mais vale o pássaro mais vale sangue*

 

o anti-pássaro carrega
em suas asas o olhar
sobre o seu tempo nada
é mais urgente nada
do que o seu voo
manipulando a luz
na nossa face e pensa
que é muito fácil ser adorado
o anti-pássaro é o sangue

 

 
***

 

 
A estrela da tarde é infecunda e altíssima*

 

carrego no bolso uma folha
de erva-cidreira para aceitar
o vermelho da rosa entre espinhos
carrego o bolso furado
e o coração atento
para o que posso dar
quando faltar-me o chão
novamente o que posso dar
como pingos de chuva a cair
no mar somos água
enchendo e vazando carrego
no bolso uma folha

 

 (* )Orides Fontela

 

Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados como Avenida Sul, Canal de Poesia, Cronópios, Cultverso, Enfermaria 6 (Portugal), Escamandro, Hyperion (UFBA), Literatura Br, Mallarmargens, Musa Rara, Revista Saúva, Janelas em Rotação e Jornal Livre Opinião. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”.

 

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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

SÔBOLAS FRONTEIRAS

Por Carlos Trigueiro

 

Nilto Maciel
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Em 15.04.2014, o carteiro que entrega a correspondência do prédio onde moro no Rio de Janeiro (entre o Jardim Botânico e a Lagoa Rodrigo de Freitas), deixou na portaria, dentre envelopes, jornalecos, convites e contas, embalagem proveniente de Fortaleza (CE), identificada como livro remetido por Nilto Maciel, autor que eu sabia também pesquisador, crítico, memorialista, editor, poeta, ensaísta e ficcionista talhado, penso, no seu ambíguo fazer literário: percepção evanescente do mundo ao redor e questionamento fixo sobre a própria existência.

O porteiro do prédio costuma entregar a correspondência dos moradores pela hora da Ave-Maria (expressão varrida pelo tsunami da tecnologia). Coincide com o meu retorno da caminhada diária à borda da Lagoa Rodrigo de Freitas, após suar por quatro, cinco, seis quilômetros conforme disposição interior e reação às paisagens e segurança exterior. Sim, também poderia dizer “sôbolas paisagens” – já que “sôbolas” é expressão arcaica, quinhentista/seiscentista, e significava “sobre as” como aparece em textos camonianos.

Tão logo cheguei a casa e abri a correspondência, estava lá o último livro publicado por Nilto Maciel: “Sôbolas manhãs” (Editora Bestiário, Porto Alegre/RS, 2014, 260 páginas). A dedicatória, surpreendente para mim, não veio manuscrita na primeira ou segunda página como em seus outros livros que me presenteou, mas impressa num papelote: “A Carlos Trigueiro presenteio este exemplar de ‘Sôbolas manhãs’. Tenho dúvida de ter ou não mencionado seu nome em algum dos artigos. Não pude organizar índice onomástico. Se quiser ler ou dispuser de tempo, ficarei muito grato. Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao ‘jornalismo de resultado’, à crítica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas. Fortaleza, 27/3/2014.”.

Ao ler o raro título do livro e sapear capa, cores, índice e quarta de capa, logo constatei uma coletânea variadíssima, dividida em quatro partes, abrangendo crônicas, memórias, registros de viagens, artigos, críticas, e no dizer do autor: “algumas considerações, nada científicas ou acadêmicas, a respeito da gênese (no indivíduo) da escrita literária, do processo criativo e da constatação de que a minha agonia – nada tem de fantástica ou sobrenatural. Porque tudo é feito de barro e servirá a outras construções ou simplesmente será levado ao lixo ou ao cemitério do esquecimento.”.

Nem a orelha do livro, com dados biográficos do autor (nascido em 30.01.1945, no sopé da Serra de Baturité), mencionando devaneios revolucionários de adolescente, nem seus muitos prêmios literários nacionais e estaduais, nem o conteúdo dos respectivos livros agraciados, dentre outros, “Tempos de mula preta”, “Os luzeiros do mundo”, “Punhalzinho cravado de ódio”, “A última noite de Helena”, “Pescoço de girafa na poeira”, “Vasto abismo”, nem mesmo “O cabra que virou bode”, transposto para a tela (vídeo) por Clébio Ribeiro em 1993, retratariam a personalidade incrédula de Nilto Maciel, mormente nos últimos tempos, do que suas próprias palavras transcritas no parágrafo anterior.

Outros comentários de Nilto Maciel também poderiam retratar seu estado de espírito nos últimos anos. Na página 112 de “Sôbolas manhãs”, por exemplo, ele registra que, ao publicar o primeiro capítulo de “De meu sol nado”, respondeu a amigos escritores que lhe aconselhavam cuidados, isso e aquilo sobre suas citações a respeito de gênios da Literatura mundial. Daí que a certa altura dos comentários, solta bem ao seu jeito: “Tenho lido gênios e medíocres também. A vida não pode ser feita só de alturas. É preciso chafurdar na lama também. Ser porco alguma vez.”.

Em verdade, nos idos 28 de janeiro de 2013, datado por ele mesmo na página 113 de “Sôbolas manhãs”, Nilto andava às voltas com a sua coletânea de artigos de mais de trinta anos e título estranhíssimo: “Gregotins de desaprendiz.” Na ocasião, registra não conseguir ler tudo o que os numerosos amigos escritores lhe enviam (diz ter 53 livros para ler), embora vivesse exclusivamente para a Literatura, e também confessa seu comportamento suicida: “ler e escrever sem parar, beber e fumar (já parei), viver em cidade grande, dirigir carro, comer em restaurante, ver televisão, etc.”.  Era assim que respirava, sofria e vivia a sua agonia literária, além de repugnar: “as editoras não investem em literatura, a mídia não dá a mínima importância ao livro…”.

Conheci Nilto Maciel em 1976, quando (aqui peço licença poética) se juntou a outros escritores “entre caminhos e palavras, diversos e afins”, e participou da invenção e publicação da revista literária “O Saco”, ousadia sem par naqueles tempos tupiniquins militarizados. E “O Saco”, esteticamente, parecia ou era mesmo não mais que uma espécie de envelope, na verdade um saco de papel encorpado, onde cabiam páginas soltas (ou quase) contendo textos literários de diversos autores brasileiros, cearenses ou não. Surpresa nacional: “O Saco” vazou sôbolas fronteiras do Ceará e inundou o Brasil.

Por acaso (ou os fantasmas que visitam os escritores me sopraram) dei de cara com a publicação dependurada numa tradicional banca de jornal chamada “Boa Sorte” no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, na esquina das ruas Aurelino Leal com Gustavo Sampaio. Na época, morador das redondezas e antigo conhecido do jornaleiro, pedi para ver e manusear a novidade. Acabei comprando, lendo e matutando sobre “O Saco”, pois, mesmo não sendo cearense, assunto com o Ceará no meio é como ainda costumo dizer e registrar: saí do Ceará em 09.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim.

Naqueles anos, eu costumava viajar muito a trabalho por nosso continental País. E calhou de, em fins de 1976, ir à Fortaleza, onde procurei a turma empreendedora de “O SACO”. Encontrei, dentre outros sonhadores, o Nilto Maciel (que me confirmou não se lembrar disso). À noitinha, num bar pelas bandas da praia do Meirelles, ou seria da Iracema ou, talvez, do Náutico — Deus saberá, diria Saramago — enfileiramos muitas cervejas regadas a conversas literárias e no idioma exaltado que a fantasia impõe aos escritores marginais. No avançar da noite, da camaradagem e conversa fiada, afiada e desfiada sobre “O Saco” (que se extinguiria em 1977), tudo entre copos, gostos, desgostos, tira-gostos e mulheres praieiras, adquiri uma tela do pintor primitivista cearense Chico Silva (sua marca registrada: briga de galos coloridos, datada de 1975) que ainda mantenho na parede do refúgio doméstico onde costumo escrever, ler e matutar.

Muito mais tarde, por volta de 1994, reencontrei Nilto Maciel (ele também nunca me confirmou isso) em Brasília, no lançamento do meu livro de contos “O Clube dos feios & outras histórias extraordinárias”, no bar CARPE DIEM que se prestava àquele tipo de evento e reunia gente de toda arte, parte e sotaque: autores, leitores, jornalistas, editores, músicos, políticos, estudantes, curiosos, servidores públicos, caçadores de autógrafos, mulheres rueiras amadoras ou profissionais. Na época, tirei pequenas férias e vim ao Brasil especialmente para o lançamento do livro no Rio de Janeiro e em Brasília, pois havia anos trabalhava no Exterior.

Depois disso, e porque a vida e o mundo dançam sem ritmo, passo, fronteira e tratos combinados, e muito menos com papel-passado, ficamos, Nilto Maciel e eu, anos e anos sem trocar palavra, mesmo tendo retornado definitivamente ao País em 1996. Porém, como disse antes, “saí do Ceará em 9.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim”, e, aos poucos, tomei ou retomei contato, via publicações na internet, com alguns escritores cearenses em atividade (Raymundo Netto, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro, Soares Feitosa e outros).

Entrevista com o escritor cearense Nilto Maciel Foto: Marcos Campos, em 31/01/2009
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Creio que por volta de 2010/2011 através de cruzamentos de blogs e revistas virtuais, reencontrei Nilto Maciel. E foi assim que conheci o blog “Literatura sem Fronteiras” — editado por ele — e a publicar textos de sua autoria ou de autores amigos cujas obras passavam por seu ríspido critério. Trocamos muitos e-mails, livros, informações e ideias de projetos literários até que Maciel se encorajou a publicar alguns textos de minha lavra no excelente “Literatura sem Fronteiras”.

Presenteou-me vários de seus ótimos livros, dentre outros: Contos Reunidos, Volume I e Volume II, Quintal dos Dias, Gregotins de desaprendiz, Como me tornei Imortal, Menos vivi do que fiei palavras, Os Guerreiros de Monte-Mor e o já citado Sôbolas Manhãs. Sobre alguns desses livros escrevi minhas impressões e que ele publicaria em seu blog.

Convém registrar sua predileção por colecionar e juntar manuscritos, bilhetes, cartas e afins de autores de todo gênero e de toda parte, a tal ponto que dizia ter milhares de documentos encaixotados. A propósito, narrou que, certa vez, Soares Feitosa o convidara para captar composições ficcionais de vários autores para o seu prestigioso JORNAL DE POESIA. Pois bem, Nilto Maciel enviou-lhe 500 obras! Pode-se imaginar o espanto de Soares Feitosa…

E como eu disse antes, o mundo e a vida dançam sem ritmo e passo combinados… Pois bem, Nilto Maciel convidou-me para uma conferência que iria proferir em 08.11.2011 sobre o tema “Epistolário hoje: e-mails, blogs”, nada menos do que na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Claro que compareci ao evento e ouvi sua palestra (abordada no seu último livro “Sôbolas Manhãs”). Acadêmicos o receberam e Nilto Maciel saiu-se muito bem principalmente com a experiência adquirida no seu blog “Literatura sem Fronteiras”. Creio que até saiu um pouco do seu estilo áspero e provocou risos na plateia lendo pormenores e dados de seu blog. Houve bom e interessado público. À saída, entre outros seus amigos escritores, cumprimentei-o e trocamos abraços. Inutilmente, tentei lembrar-lhe do nosso primeiro encontro em 1976, mas ele me confessou quase ao pé do ouvido a penúria em que se encontrava a sua memória (fato que registrou na página 120 de “Sôbolas Manhãs”).

Nos anos de 2012, 2013 e início de 2014 trocamos muitos e-mails. E por mensagem de 18.04.2014, convidou-me para participar do seu próximo projeto literário – um livro só de entrevistas com escritores. Respondi-lhe que aceitava o convite, mas pedi-lhe um prazo para iniciarmos a entrevista, pois eu estava terminando de escrever um romance.

Em 19.04.2014, respondeu-me por e-mail dizendo-se agradecido com a minha concordância em participar do seu livro de entrevistas, e, como era próprio dele, aproveitou para criticar um de nossos amigos escritores que se recusara a colaborar em seu novo projeto. Na mesma mensagem me antecipou como seria o teor da entrevista. Aquele e-mail foi nosso último contato, já que dez dias depois, em 29.04.2014, aos 69 anos, em casa, sozinho, Nilto Maciel atravessou a fronteira final deste mundo. Recebi a triste e inesperada notícia por e-mails de amigos escritores cearenses, além de ler pela internet o resumo da fatalidade no jornal O Povo, de Fortaleza.

Numa singela homenagem ao escritor Nilto Maciel, neste conjunto de edições comemorativas pela passagem do 10º Aniversário da prestigiosa Revista “DIVERSOS AFINS”, na qual também colaborou, transcrevo abaixo o seu “PERFIL NÃO CONVENCIONAL” de autor, redigido e rememorado por ele próprio na abertura do livro memorialista “QUINTAL DOS DIAS”, e que, penso, resume convicções presentes no seu espírito:

                     “PERFIL NÃO CONVENCIONAL”

“VENHO DA SERRA, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances.”.

Sou Carlos Trigueiro, amazonense dos igarapés, igapós e tucumãs; paraense do Ver-o-Peso, açaí e  muçuãs; cearense dos areais, coqueirais,  do mar de esmeralda e dos ciriguelas nos quintais; carioca do Rio Comprido, bloco do Bafo da Onça, dos bondes com reboque e do chope à beira-mar; castelhano das ruelas e dos “bocadilhos” de Madri e, claro, dos “cochinillos”  de Toledo; romano da “Via Appia”, da “Via Veneto”, do café “ristretto” e dos vinhos a granel ; chinês de Macau, provador de chás e aprendiz de “Tai-Chi-Chuan à beira do Rio das Pérolas; americano do meio oeste, curtidor do frio polar e das cafeterias de Chicago; enfim, brasileiro batizado, leitor atabalhoado e aprendiz de escritor ultrapassado.

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maira Moura

 

rety ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

52 hertz

 

Muito longe das bravuras humanas, dos arcos urbanos e das balbúrdias eletro-retrógradas, dos klaxons e apitos polifônicos, das freadas aromáticas, do parquinho das crianças, do farfalhar e do piar, da massa atmosférica que uiva no campo, no deserto, na charneca, e mesmo longe das costas salgadas, das areias meladas e da última espuma.

Longe demais, em um universo todo azul, maior ou do mesmo tamanho que o universo estrelado; um sítio de densidade, iluminado por cima, trevoso por baixo, é onde mora a última de sua espécie. Queria dar um bom nome para ela, como uma espécie de consolo: “você é especial, merece nome de gente. Que tal Elizabete? Catarina? São nomes de rainhas”. A baleia tem olhos pequenos e doces e uma potente voz que satisfaz a música de todo um mar. Vaga pela estrada submersa de joias crustáceas e… “vaga”? Seria mesmo um vagar sem rumo ou teria um propósito? Não é por lhe faltar um papel na família tradicional, uma ocupação burocrática na conjuntura dos mamíferos marítimos, ou da idosa moderna, que ela seria uma vadia. Caso contrário, seriam os animais todos uns vadios. Nada disso. Ao menos para os animais, existe um propósito suficientemente definido e propriamente nominado: o Ciclo.

Mas a senhora não procriará, ela é a última de sua espécie.

Cresceu redondinha, adolescente tímida, embaraçada de sua própria falta de jeito perante os animais menores; sua dimensão astronômica que ao mesmo tempo que a aproxima dos outros seres (por uma questão espacial), a distancia dos mesmos. Tentou penetrar uma família de jubartes, como um pato criado por cisnes, mas só conseguiu que a chamassem “baleia feia”.

Baleia
Como és feia
Uma chata bedelha
Some, se der, esgueira
Que o mar te aconselha

Por isso geme. Na infância gemeu “Papai? Mamãe?”; na adolescência gemeu por seu par. Agora, velhinha, não nos dá pista de quem chama. Não há em sua estante uma caixinha de contas com o retrato adesivo do neto sobre a tampa, nem na geladeira um desenho feito pela neta pregado com o ímã-lembrança da viagem para o litoral. (Preciso colocá-la em uma casa de senhora porque não compreendo suas referências azuis – porque entendo a essência de sua solidão, mas não a dimensão. E porque saio a humanizar tudo o que não compreendo, para satisfazer meu desprezo à ignorância. Não suporto ser ignorante.)

Medrosa da humanidade, não se permitiu ser vista, somente escutada. Um dia vai morrer e consigo enterrar a história de sua família (o que seria uma boa vingança). Os cientistas não vão prestar luto, mas criarão muitas teorias em sua memória.

Nunca nos encontraremos, me basta a gravação do seu gemido, frequência 52 hertz. Embora seu rastro seja sonoro, tão audível quanto o desabrochar de uma flor, e o meu seja o desastroso rastro da humanidade, ainda insisto em levá-la no coração, como uma irmã sentimental. Porque também sou uma solitária, a última de minha espécie.

 

 

 

***

 

 

 

Trecho para hipnose

 

Não estou dizendo que o livro funcione como um estimulante psicoativo, mas digo que aconteceu comigo. De qualquer forma, não é nada prático como uma pílula ingerida com saliva ou o método sublingual, mas leva pelo menos trezentas páginas até a primeira onda, que é pseudo-onírica, porque você precisa estar encaminhado para o sono, ainda sem dormir. Depois das seiscentas páginas os cavaletes e cavalinhos começam a cair como chuva no seu quarto, mas talvez isso seja pessoal porque os cavaletes são o símbolo do meu suporte e cavalinhos, símbolo da minha força. Chegando às oitocentas páginas, você não vai lembrar quem é e andar nu publicamente não é uma impossibilidade. Já ouviu falar na loira nua do parque Ludwig? Ela estava carregando um exemplar pocket totalmente improvável desse livro.

 

 

 

***

 

 

 

Saudade e nostalgia

 

Um menino perguntou ao avô:

– Qual é a diferença entre saudade e nostalgia?

– Bem, é muito pouca e só tem uma maneira de explicá-la, que é contando a história do homem que foi para guerra. O homem que foi para guerra havia acabado de se casar, ou estava prestes a casar, quando partiu e deixou sua mulher, que era tudo para ele. A partir do momento em que saiu pela porta de casa duas meninas começaram a segui-lo, e com ele foram à guerra. Estavam quase sempre ao seu lado – evitavam as trincheiras e tinham medo de armas, mas bastava que ele se desocupasse por um segundo que elas surgiam. Eram duas irmãs muito parecidas, quase gêmeas, e seus nomes eram Saudade e Nostalgia. Às vezes, o homem cobria os olhos com as mãos enlameadas, enquanto as meninas corriam em sua volta, cantando cantigas de distância.

“Um mês, duas milhas,
Meu amor está longe
Três cartas, quatro feridas,
Nos separa um monte”

– Outras vezes, tinha vontade de estrangular os pescocinhos, mas isso não podia fazer. Quando a guerra acabou, as meninas os seguiram até a porta de casa. Era branca, a porta, e por trás dela vinha a mulher, que ia dizer o seu nome quando ele a pegou, abraçou e beijou, sem intervalo entre essas coisas.  Não se deram conta da segunda explosão, que foi o tiro que ele deu em Saudade. Ela não morreu imediatamente, foi agonizando por dias, enquanto o homem e a mulher se acostumavam, outra vez, um com o outro. Contudo, Nostalgia seguiu ao lado do homem. E era justamente perto da esposa que mais ele escutava a canção de Nostalgia. E por mais que tentasse pegar Nostalgia, não conseguia alcançá-la.

 

 

 

***

 

 

 

Mania

 

Jéssica tinha a mania irritante de comprar relógios caros e olhar, quando perguntamos a hora, o visor do celular. Mateus escrevia sem usar vírgula e isso era além da conta. A mania irritante de Cléber era a música alta no carro dele (e ainda achava que dava para conversar). Sócrates tinha a mania da higiene dental e escovava os dentes à cada balinha de menta que lhe ofereciam. Carlos Alberto era um falastrão, mentindo sobre números e mulheres, mas ele não podia parar, era mania. Lola, quem eu nunca chamava para jantar, comia fazendo barulho que nem uma engrenagem. A mania irritante de Sofia era mostrar para todo mundo a foto que tirou com a Madonna e a minha é anotar manias irritantes.

Nascida e residente do Rio de Janeiro, Maira M. Moura é formada em Letras, leitora, contista e autora do livro O Jardim Animado (ed. Multifoco), além de ter contribuído para alguns periódicos, de papel ou não.

 

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113ª Leva - 07/2016 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

LINIKER E OS CARAMELOWS – REMONTA

 

Capa

 

Aos 21 anos, Liniker – que poderia ser nome artístico, mas é legítimo, em tributo ao ex-jogador de futebol inglês Gary Lineker é um conceito libertário. Longe dos pré-fabricados que se aproximam da identidade de gêneros para angariar votos ou likes, a autenticidade do seu grave em lábios de batom, bigode e vestes femininas fazem dele um artista único. Talvez Platão identificasse em criador e criatura o denominado [duplo] dualismo psicofísico, dois corpos e duas almas habitando o mesmo ser e os mesmos versos. Mesmo que sua figura estética não usasse qualquer artifício, em algum momento sua voz ligeiramente rouca nos arrebataria. E arrebata, deslumbra, fascina. Tim Maia, do alto do céu do soul, deve dar o aval e liberar o tal ‘dançar homem com homem e mulher com mulher’, de Vale Tudo, à trupe formada em Araraquara (SP) há quase 2 anos.

Nascido em família de músicos, Liniker desabrochou artisticamente após flertar com a cena teatral, o que talvez explique sua grandiloquência no palco. O sucesso do EP Cru (2015) fez o cantor percorrer o Brasil e conquistar o Youtube com mais de 5 milhões de visualizações de suas performances. Remonta, primeiro álbum de sua banda, lançado em setembro e disponível nas principais plataformas digitais, traz arranjos refinados ao universo do soul e da black music. As 13 faixas da obra são resultado de 5 anos de composições e experimentos ao vivo, muitas delas conhecidas do público que o acompanha. Aliás, o disco contou com financiamento coletivo para sua produção e ultrapassou a meta pré-estabelecida. Impossível ficar passivo frente ao fenômeno Liniker de ser/cantar.

 

liniker-e-os-caramelows
Liniker e Os Caramelows / Foto: divulgação

 

Após uma breve Intro de vinte e poucos segundos que aproxima o clima épico dos shows para o registro de estúdio, a circense Remonta (como se não bastasse a guerra também/de te ver todo dia, meu bem/tem o dissabor dessa ferida, tem/que germina na pele e insiste em ficar) abre o álbum como uma espécie de epílogo do que está por vir. Prendedor de Varal (enquanto você prometer e eu acreditar/serão só manhãs, um dia, um meio tom) – que faz referência à Chocolate, do eterno síndico também presente nas apresentações ao vivo, deixou de ser bossa para ganhar ares de funk. Se a dualidade de Lina X (a personalidade dela era um tanto dividida/parece Poliana/querendo o que é de Frida/queria a parte outra da metade/o todo, o tudo, a casualidade) vai além letra, a primaveril Sem Nome, Mas Com Endereço – que tem o piano e a sanfona de Marcelo Jeneci garante um dos momentos mais líricos do álbum. Enquanto o blues Tua (são cinco versos, seis ou mais/que me fazem querer gritar/tiro a roupa com um riso acanhado/meu bem, me chame de tua) envolve mais que os turbantes do músico, o bolero Você Fez Merda (você fez merda ao dizer que não me ama/depois da transa que eu dei pra você) contrasta a letra divertida com a profundidade vocal e sonora, numa espécie de dueto entre Maria Bethânia e Cauby Peixoto.

Das três canções presentes no EP dispostas ao longo do disco, a poética Caeu (dava tanta coisa, dava nó de nós/de nós, de eu) foi a que menos sofreu alterações. Se a carro-chefe de Cru, Zero (a gente fica mordido, não fica?/dente, lábio, teu jeito de olhar) perdeu o romantismo e ganhou intensidade, Louise du Brésil recebeu o saxofone de Thiago França (Metá Metá) e um groove altamente dançante. Funzy, única canção instrumental, reforça que Liniker tem mais que uma banda de apoio e apresenta toda a grandeza dos Caramelows, composta por: Renata Éssis (backing vocal), Márcio Bortoloti (trompete), Rafael Barone (baixo), William Zaharanski (guitarra) e Péricles Zuanon (bateria). Vale lembrar que na metade do ano o grupo sofreu a perda da backing vocal Barbara Rosa, vítima de câncer. A radiofônica BoxOkê – primeiro single liberado –, com introdução que lembra trilha de seriado de ação, tem a participação do grupo Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tássia Reis, e aborda o “empoderamento das minorias”. A balada cênica Ralador de Pia tem parceria de Tulipa Ruiz e encerra Remonta em ritmo dramático.

Em suma, Liniker que fisicamente lembra Luiz Melodia na juventude e sua obra dialogam com dualidades e pluralidades: é o ‘homem feminino’ de Pepeu Gomes que versa sobre o [des]amor e suas vertentes. As influências da sonoridade, definida por ele como MPB (Música Preta Brasileira), mesclam samba-rock, partido-alto, soul e rap e seu discurso aborda a desconstrução do gênero sexual. É música com embalagem, conteúdo e contexto. Se hoje você está na fossa, amanhã você coloca seu melhor vestido e dança até lacrar o dia. E afinal, o que é a vida, senão um constante remontar-se?

 

Larissa Mendes promete exercitar diariamente a Bênção do Lacre.

 

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Clarissa Macedo

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Alguma coisa de fé

 

Eu não tenho religião
(senão a poesia que me leva aos céus)
mas tremo com os sinos
que uivam badaladas
em todo dorso de tarde.

Eu não tenho religião
embora acolha a pompa dos templos
na solidão de algum dilema.

Eu, que não tenho religião,
me sacralizo
com os guizos do tempo
e me purifico
com a ausência de um deus feito de homem.

 

 
***

 

 
Oásis

 

O deserto é uma janela aberta:
o que escapa de seus camelos,
forjados n’água de vapor e sal,
é o calcanhar de todos os desejos.

Nas areias feitas de mistério
conta-se de terras que jamais fui.
Lá, os fantasmas de meu rio seco.

 

 
***

 

 
Aceno

 

Lâmina afiada
dobrada no peito

Fenda aberta
onde escapam
deuses

Lua que derrama
um deserto
de agulhas

Chamas que queimam
estrelas

Tudo reunido:
a dor do adeus.

 

 
***

 

 
Aborto

 

As redes lançadas não trouxeram peixes
Tragaram luzes e pomos abandonados.

Os peixes que não vieram estão mortos
Como o poema que acaba de nascer.

 

 
***

 

 
Fenda

 

Há tempo o menino ficou lá fora.
Espera, espreita a barra da porta,
mas já não pode passar.

Todos os longos anos de preparo –
escola, dentista, boxe –
e a busca pelos jogos de montar,
pelo seio roído da mãe que já foi.

Uma vida de busca e solidão,
a passagem do peito fechada:

só o túmulo aberto da infância.

 

 
***

 

 

Irmandade

 

Qual a cor do teu drama?
Quantos lares saem de teus cabelos?

Com quantos homens se reparte
o último fio de desespero?

Em tempos de paixão e fome
os credos são maiores que as roupas
os voos maiores que as asas.

 

Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas” e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).

 

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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Fatos extraordinários e cenas do cotidiano na poética de Jorge Elias Neto

Por Shirlene Rohr de Souza

Dimensões
As palavras estão lá,
Com seus olhos atentos
A me observar do silêncio
(Jorge Elias Neto)
Jorge Elias Neto
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

Entre as vozes da poesia que se erguem neste tempo de tantas novidades e inquietações, este texto trata especificamente da lírica de Jorge Elias Neto, cuja poética se funda em uma linguagem que alterna violência e ternura, ou potência e fragilidade, e que revela, de uma forma ou de outra, uma convicção niilista. O ceticismo do poeta, contudo, não o paralisa frente aos dilemas humanos: a poesia é a sua ação que nasce de combinações de diferentes perspectivas, tais como impressões do seu entorno (“Nada menos humano, menos carnal que o verde”), observações da vida em cena (“A vida não é um jogo de baralho. Não poderei simplesmente dizer “passo”),  personagens (“Vó Bela! / O homem é assim”) e de imagens surreais (“Não me importo / com numerar as penas do cisne”).  Este ensaio trata das temáticas que se destacam na poética de Jorge Elias, cuja linguagem está plasmada em testemunhos do cotidiano e em convicções pessoais. Os temas, na poética de Jorge Elias, podem ser, em uma determinada perspectiva, colocados em duas esferas de interesses e situações: fatos extraordinários e cenas e ocorrências do cotidiano. Os fatos extraordinários, pela sua condição de eventualidade, ocorrem com menos frequência, mas são profundamente marcantes na escrita do poeta.

Os fatos extraordinários

Os fatos extraordinários se elevam acima dos fatos rotineiros. Alguns poemas de Jorge Elias Neto surgem de uma condição ou de acontecimento extraordinário; esses temas podem sair dos noticiários, mas também podem surgir de vivências de eventos marcantes. No primeiro caso, destaque para “Caligrafia do Bruto”, que revela o assombro do poeta com uma notícia de jornal; no segundo caso, destaca-se “Discurso para o cadáver”, marcado pelo evento da morte.

“Caligrafia do Bruto” surge de uma notícia chocante: sob as referências das matrizes greco-latinas e judaico-cristãs, o mundo ocidental ficou assombrado com a notícia de que uma mulher seria apedrejada até a morte, acusada de adultério e de ter conspirado pela morte de seu marido; o assombro provinha das inconsistências da acusação e da truculência do veredito dos juízes.

A jovem senhora comoveu o mundo quando a mídia deu visibilidade à sua história e, graças à estrondosa repercussão do caso, houve uma reação em cadeia mundial em seu favor: vários organismos internacionais emitiram pedidos de clemência, apelando para os Direitos Humanos e pedindo sua absolvição. Por fim, a pena de morte de Sakineh foi revertida em anos de reclusão.  Mas o que, de fato, aconteceu a essa mulher? Qual seu verdadeiro destino? Quantas sakinehs sucumbiram no anonimato sombrio das tradições religiosas, no oriente e no ocidente?

Se o corpo de Sakineh não foi apedrejado – sua pena foi revertida em chibatadas e reclusão – sua alma de mulher foi despedaçada, irreversivelmente ferida e machucada. Essa é a imagem capturada pelo poeta: a lapidação moral de uma mulher. Corrompida e maculada pelas leis dos homens, Sakineh, a mulher proscrita, nunca passou de mais uma das centenas de milhares de histórias que se encontram em mídias e redes sociais, fadadas ao esquecimento. Mas a violência da narrativa tornou-se perene na poesia de Jorge Elias Neto, para quem essa história representa mais uma escrita da barbárie nas letras dos homens, na caligrafia dos brutos. A barbárie não é o contrário da civilização, é apenas sua outra face, sua irmã siamesa.

Em contraposição à brutalidade da história de Sakineh, que circulava nas redes de internet, os versos do poeta também circularam nas redes sociais, constituindo assim uma resistência em rede contra a violência, de uma curiosidade perversa, da mídia: a poesia fez medrar a ternura de alguém que, como uma multidão de outros anônimos, não se conforma com brutalidade que se exerce sobre as pessoas em nome de uma religião, em nome do poder. Ao colocar o poema “Caligrafia do bruto” em circulação, de alguma forma lança luz sobre um problema universal: a condição feminina nas culturas do mundo cristão, islão ou pagão; a condição da mulher no Brasil ou em países da África, da Ásia, de todas as cidades, de todas as vilas, de todo o mundo. As mulheres são vítimas potenciais de uma intolerância social que impõe um jugo pesado sobre sua alma, seu corpo e seu destino. Silenciadas por um código moral violento, às mulheres cabe um lugar de desvantagem nas culturas do oriente e do ocidente.

Ao falar das damas do Século XII, Duby (2013, p. 110) parece se referir à realidade de muitas sociedades contemporâneas: “Existe assim um espaço fechado reservado às mulheres, estritamente controlado pelo poder masculino”. E não se trata de exceções: tacitamente, não se aceita a presença da mulher em posição de comando, e isso ocorre em todas as sociedades, ainda que em algumas as conquistas e o reconhecimento da mulher sejam mais evidentes. A vida pública é reservada a poucas personalidades femininas, pois insidiosamente grupos de forças tradicionais tramam contra a emancipação da mulher, contra seu sucesso e ascensão, sob o entendimento de que o lugar das mulheres é o recato do mundo privado, onde podem ser vigiadas e punidas, se ousarem tentar romper essa barreira. As conquistas femininas, com notável força a partir do Século XX, são evidentes e importantes, mas ainda pequenas, frágeis e restritas. A pena capital é uma realidade no mundo inteiro, seja pelas leis religiosas, seja pelos códigos masculinos: mulheres são humilhadas, violentadas, espancadas e assassinadas a todo instante. A poesia é impotente frente ao drama das mulheres, impotente frente aos males do mundo, mas ela não se cala e não se esconde frente ao que é extraordinariamente humano: a poesia revela os paradoxos e as dores desses tempos. O poema sublima histórias de horror. A poesia é o afeto do poeta.

“Discurso para o cadáver” trata de um dilema da humanidade: a morte. Ainda que a morte seja um fato corriqueiro do cotidiano, afinal todos os dias morrem pessoas, ela torna-se um evento extraordinário na privacidade dos lares, na intimidade de uma família, na organização de um grupo; a morte arranca as pessoas de sua rotina, fazendo-as pensar, cada uma delas, na própria morte. Assim, a morte constitui um fato extraordinário, sobre o qual o poeta tem muitas coisas a dizer.

“Discurso para o cadáver”, pois, é um pequeno monólogo dirigido a um cadáver. E apenas no título Jorge Elias Neto usa a palavra “cadáver” que, por sua natureza semântica ligada à morte, soa como matéria, puro objeto. A escolha dessa palavra reforça o posicionamento do poeta ante a morte: tudo está acabado. Segundo Houaiss, a etimologia da palavra “cadáver” é de origem latina, significando “corpo morto”; mas a intervenção popular vai além e associa “cadáver” a uma expressão latina: CArne DAta VERmem (Carne Dada aos Vermes). Seria a palavra cadáver, assim, uma sigla. A pessoa reduzida à carne. Na cultura popular, outra palavra contempla o significado de “cadáver”: a palavra “corpo”. Essas palavras traduzem com exatidão semântica aquilo que a morte representa: ausência de alma, ausência de espírito. Falta a vida.

Nos versos do poeta: “Do ponto / em que se parte / ― se esquece ― / o espectro / da carne / ― do irremediável”, outra escolha emblemática: “espectro”. Esta palavra, popularmente, é associada a fantasma. Contudo, a existência de fantasmas pressupõe uma continuidade da vida após a morte, em uma dimensão misteriosa e inexplicável. Ora, uma convicção niilista não permite tal interpretação, restando à palavra um sentido semântico muito diferente: “espectro” como “coisa”: “coisa vazia, falsa; ilusão”. A vida é uma ilusão. A morte é o fim da ilusão.

Em alguns versos o poeta reforça seu ceticismo categórico, carregado de lirismo telúrico: “A você, o privilégio / da dimensão / onde se plantam flores”. A terra, o fim de tudo, onde o “cadáver” encontra seu destino final, o sossego da extinção da alma. Ou talvez não: na dimensão da vida, alimentando os vermes, o cadáver inicia um novo ciclo de vida, adubando raízes de flores de todas as cores. Nas palavras de Arendt (2001, p. 57): “É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. Mas, enquanto o corpo está presente, acima da terra, o profundo respeito do poeta pelo cadáver, o qual faz lembrar que a vida é breve: “Teus olhos / não mentem / essa simplicidade / em dizer: / tão breve, a vida, enquanto saturamos / o ar”.

Os fatos extraordinários eventuais – uma notícia, uma morte ou acontecimento marcante – projetam-se em meio aos acontecimentos de rotina; chamam a atenção por algum motivo, por algum aspecto. A eventualidade é uma força esporádica que atrai o poeta, mas é, certamente, do cotidiano que Jorge Elias Neto pinça seus temas: nas cenas e ocorrências do dia-a-dia.

Jorge Elias Neto
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

Cenas e ocorrências do cotidiano

As cenas e as ocorrências do cotidiano fornecem os temas mais frequentes à poética de Jorge Elias Neto. O cotidiano, como substantivo, corresponde às ações que se realizam todos os dias, continuamente, ações que se repetem todos os dias, na vida de todos os indivíduos. Hannah Arendt (2001, p. 221) lembra que: “O único atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade é o fato de ser comum a todos nós”. Apesar de o mundo social ser comum a todos, pois, em sua rotina diária, todos o compartilham, as percepções são estritamente pessoais: o mesmo acontecimento pode ser aplaudido por uns e rejeitado por outros. Qualquer ruptura da rotina torna-se um fato extraordinário. Assim, todos os dias, as pessoas se movem em um mundo comum, ainda que, pelos seus sentidos particulares, esse mundo seja compreendido singularmente, por cada indivíduo. Hannah Arendt (2001, p. 221) desenvolve essa ideia e infere:

se o senso comum tem posição tão alta na hierarquia das qualidades políticas, é que é o único fator que ajusta à realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registram. Graças ao senso comum, é possível saber que as outras percepções sensoriais mostram a realidade, e não meras irritações de nossos nervos nem sensações de reação de nosso corpo.

 

Pelo cotidiano, o poeta, em sua singularidade, depara-se com ocorrências percebidas por todas as pessoas, mas sentidas singularmente por ele mesmo. Pelo caminho da singularidade, o poeta questiona certezas e verdades: as convicções estão instaladas em um ponto de vista, o qual apresenta uma versão possível, nunca uma versão absoluta. A poesia é sempre um outro ponto de vista possível. No cotidiano, a rotina se constitui de ternura, violência, dor, risos, expectativas e, no cotidiano do poeta, mesclam-se muitos elementos da vida sensível: saudade, lembranças, amor, família, morte, dor, frango com farofa, passeios, olhares perdidos no nada. Tudo isso, cenas e ocorrências do cotidiano, alimenta os temas da poesia de Jorge Elias. Tudo pode ser o início da poesia, como ocorre com “A poesia começa assim”, cujo segundo verso, demonstra que o poeta está mergulhado no cotidiano: “deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros”. Todavia, a palavra é a força capaz de desmembrar ou de desprender alguma ação, algum gesto ou algum objeto da realidade cotidiana, mas contra a qual ele se rebela: “jogar-se nos trilhos / para salvar a flor”.

É também pela expressão poética que Jorge Elias Neto demonstra sua profunda descrença em alguns grandes pilares da civilização, como a religião, há muito tempo tragada pela linguagem científica, pela lógica da economia e pela exatidão dos resultados apresentados por laboratórios renomados. O poema “Agora é tarde, pintei o muro” dá grande mostra do espírito cético do poeta que, em tom lacônico, afirma: “Comer todas as hóstias / na infância – de uma só vez – / só me serviu para matar a fome de Deus”. Contidos e serenos, esses versos confirmam a tese de T. S. Eliot (1989, p. 44): “o que conta não é a “grandeza”, a intensidade das emoções, dos componentes, mas a intensidade do processo artístico, a pressão, por assim dizer, sob a qual ocorre a fusão”. Dessa maneira, o poeta expressa a condição solitária do homem, sem amparo divino.

Adorno e Horkheimer (1985) advertem que a perda do apoio da religião na reconfiguração moral dos homens contemporâneos não levou as sociedades ao caos cultural, mas ao contrário, não há caos, tudo se movimenta em torno de um ordenamento pragmático do mundo: o arrefecimento da fé integrou um conjunto de forças que redirecionaram o mundo para um novo modelo cultural, submetido a uma prática econômica perversa e imperturbável. Para Adorno e Horkheimer (1985, p. 113), esse novo modelo “confere a tudo um ar de semelhança”. Dominadas pela racionalidade calculista e destruidora, as religiões não se prestam mais ao consolo: “O alento da cristandade / não sei se volta”. Todavia, se obsoletas como campo sagrado, elas ressurgem como uma grande feira de milagres. O vínculo entre o homem e as religiões não se rompe, apenas se corrompe: as religiões sucumbiram às leis do mercado.

Ainda como cenas e ocorrências do cotidiano, uma imagem chama a atenção do poeta: uma árvore morta, uma ingazeira. Na pressa, poucas pessoas reparam as árvores vivas ou agonizantes. Só reparam nelas quando são arrancadas por ventos e interrompem a passagem de carros e pessoas. Reparam e reclamam. O cotidiano exige pressa e emite imprecações. Mas o poeta faz uma reverência, afetuosa em “Poema à morte da ingazeira”, que também reforça o traço de visão niilista do poeta no verso “partir para o esquecimento”.

As cenas e as ocorrências do cotidiano constituem traços de uma poética que se consolida forte, coerente e vigorosa. Os versos de Jorge Elias Neto, de uma maneira geral, expressam diferentes sentimentos, de forma alternada: revolta, rebeldia, ternura, saudade, nostalgia, indignação, contemplação. Alguns poemas são notavelmente especulares, tais como “Seu Jorge” e “Nomear poemas”.  O uso do próprio nome indica um mergulho na própria alma, na própria atividade poética que realiza. O primeiro verso do poema “Nomear poemas” torna-se muito revelador e emblemático, considerando o conjunto de uma poética fortemente marcada pelas próprias experiências, lembranças e reminiscências: “No fundo, os poemas chamam-se Jorge”.

À sensibilidade do olhar do poeta para pessoas, objetos, cenas e acontecimentos de seu tempo, agrega-se ainda um importante diálogo com o sistema filosófico. Com uma linguagem intimista, serena, até mesmo melancólica, Jorge Elias Neto dialoga com questões universais, com muitas referências à vida e à morte, à dor e à alegria. A condição humana e os paradoxos da existência estão em sua poesia.

 

A caligrafia do poeta

 

“Os artistas são as antenas da raça”, afirma Pound (1997, p. 71). A afirmação do poeta-crítico-ensaísta é, com toda justiça, repetida em ensaios de crítica literária. Não seria tão frequente se não fosse verdade. A atividade do artista está relacionada a uma faculdade excepcional de ser sensível às ocorrências que a grande massa ignora ou não percebe. O artista se inclina para um detalhe, nuanças de um evento banal, mas indicativo de algo novo. Artista da palavra, o poeta se esgueira para um pequeno vão, de onde se lança com coragem ao mais profundo precipício, para um abismo onde se vê as raízes da humanidade; ou se lança ao voo mais alto, plainando sobre as paisagens gerais. O poeta capta o que é indizível e traduz seus sentidos em versos, revelando ao mundo seus significados. No registro das paixões, Jorge Elias Neto coloca o juízo da poesia no corpo frágil do verso. O poeta tem algo a dizer sobre as metamorfoses da vida e, no labirinto de palavras enigmáticas e enérgicas, sobre sua própria metamorfose: “(só sei transformar sapato em borboleta)”.  Na escrita potente e sensível de Jorge Elias Neto, a caligrafia registra cenas do cotidiano, bem como os fatos extraordinários. Mas não fala o poeta de si mesmo, para si mesmo: fala para outros. Escuta o poeta.

 

 

Referências:

 

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. De Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
DICIONÁRIO Etimológico. Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br/cadaver/. Última consulta em 14.set.2016.
DUBY, Georges. As damas do século XII. Tradução de Paulo Neves e Maria Lúcia Machado. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ELIOT. T. S. Tradição e Talento Individual. In: _____. Ensaios. Tradução de Ivan Junqueira. São Paulo: ArtEditora, 1989.
ESPECTRO. In: HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
ELIAS NETO, Jorge. Verdes Versos. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2007.
____. Rascunhos do Absurdo. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2010.
____. Os Ossos da Baleia. Vitória-ES: Secult, 2013.
____. Glacial. São Paulo: Patuá, 2014.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

Shirlene Rohr de Souza é professora Mestre da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, Campus de Alto Araguaia. O presente ensaio é vinculado ao Projeto de Pesquisa Poetas Críticos, coordenado pelo Prof. Dr. Isaac de Almeida Ramos (UNEMAT).