A noite desabou no cais,
engoliu as estrelas
e nuvens cintilavam fogo
contra as ondas.
Tento me ancorar,
viver a finitude dos dias,
erguer faróis incandescentes
e guiar embarcações.
A vida marinha recua
formando verbos
no céu da minha boca
e sigo navegando
sobre o mar
de lágrimas
negras
***
Cais
Na noite acidentada, traço rotas
na tumultuosa viagem
para cantar à cega paixão ………………………………….[ dos dias
entre naufrágios.
Diante do leme, verso notas
perdido no mar …………………….[ sem mapas
na busca pela face
do Orfeu Negro.
***
Naufrágios
Erguido no silêncio absoluto,
navegando a tempestade
da minha existência,
tenho medo.
Expatriado dos instantes,
contando os minutos,
sem destino
Abandono meu lastro,
e o tempo passa
sobre o escuro
do porto.
***
Dia de chuva
A chuva saliva
tua severidade azul
em paixões úmidas.
Enquanto os peixes
mergulham a face secreta
das palavras
para velejar
seu riso ameno.
***
Gaivotas
Para Jeferson Tenório
As gaivotas desviam
caravelas ao mar
e meu corpo arcado
esqueceu-se a voar
O céu padece
em rochedos pontiagudos
e formações salinas
vão te saudar
no silêncio
Vejo-te bruto a morrer,
enquanto os abutres
rasgaram fendas
na tua carne
revelando amor
ao avesso
da pele.
***
Autorretrato I
O espelho deforma tua imagem
ramificando os horizontes pretos
que contornam sua nudez
tornando-o livre de fronteiras.
Tua face estilhaçou
em mil pedaços
as extremidades
do corpo.
Tom Santos é natural da região metropolitana de Salvador, Bahia. Escritor, ator e graduando em Letras Vernáculas, pela Universidade do Estado da Bahia. É colaborador do coletivo Espaya, e suas apresentações abrangem performances, recitais, monólogos e experimentações artísticas.
Marte Um é um filme brasileiro dirigido e roteirizado por Gabriel Martins. Foi o vencedor do Festival de cinema brasileiro de Gramado de 2022, ganhando nas categorias de melhor filme de júri popular, júri oficial, direção e roteiro. A produção esteve indicada para representar o Brasil na premiação do Oscar de 2023, porém acabou cortado da seleção final. Gabriel Martins é um premiado diretor da cidade de Contagem, MG, diretor e roteirista dos excelentes Temporada (roteiro e parceria com André Novais, 2019) e No Coração do Mundo (como diretor), entre outros. Marte Um teve ampla repercussão e podemos dizer com tranquilidade que, na exclusão para a premiação do festival americano, quem saiu perdendo foi o próprio festival.
O roteiro aborda a vida de uma família de classe média baixa em Contagem. Há Wellington (vivido pelo ator Carlos Francisco), o pai de família, zelador de um condomínio de classe média alta, onde mora entre outros o ex-jogador argentino Sorín. Wellington é um ex-alcoólatra que frequenta o AAA. É torcedor apaixonado do time Cruzeiro (onde jogou Sorín) e sonha para seu filho Deivinho a carreira de jogador profissional no seu time preferido. Há Tércia (Rejane Faria), sua mulher, doméstica. Tércia fica traumatizada por ser vítima de uma pegadinha televisiva. Ela acredita que esse incidente lhe trouxe uma aura negativa que recai como infortúnio para aqueles com quem se relaciona; Há Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, que já tem um emprego de salário modesto numa escola e que sonha sair da casa dos pais para viver com seu súbito novo amor libertário, Joana, porém teme a reação preconceituosa de seus pais. E há finalmente o garoto Deivinho (Cícero Lucas), adolescente que se esforça no futebol para agradar seu pai, mas que sonha mesmo em participar da expedição Marte Um, projeto que pretende realizar a primeira viagem ao planeta vizinho. Deivinho é apaixonado por astrofísica e gosta de assistir pela internet os vídeos do divulgador negro Neil deGrasse Tyson.
Cena do filme Marte um / Foto: divulgação
A narrativa de Marte Um é toda tecida em torno dessa família de quatro personagens. Uma das grandes virtudes do filme é o equilíbrio de tratamento entre os quatro protagonistas. Cada um vive a sua vida de forma bastante autônoma, mas há um cruzamento complexo das expectativas e dos afetos. Assim, o sonho de Wellington em ver o filho como jogador profissional de seu time de coração se cruza contraditoriamente com o sonho do filho em estudar astrofísica. A busca de liberdade existencial e amorosa de Eunice se cruza com a luta de seu pai contra o alcoolismo. E há também uma conjugação entre os sonhos utópicos de Deivinho em participar de uma missão espacial e as suspeitas de mau agouro de Tércia, após o episódio da pegadinha.
O pano de fundo, o contexto histórico, é a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. A história se passa nos meses entre a eleição e a posse presidencial. É justamente esse fato que surge como sendo de mau agouro sobre a vida dos personagens: a certeza que num regime de extrema-direita a situação dos moradores das periferias urbanas iria certamente piorar. Assim, a eleição de um presidente funesto é um sinal de azar e pesa sobre a vida de Tércia que, após a pegadinha, se acha vítima de poderes nefastos sobrenaturais. É assim que a Grande História recai sobre as pequenas estórias dos personagens. Como o poeta paraibano Augusto dos Anjos, os personagens de Marte Um também poderiam dizer que “Um urubu pousou sobre a minha sorte”. Tanto os personagens como todos os trabalhadores das regiões periféricas brasileiras tinham razões de sobra para preocuparem-se com a chegada do bolsonarismo ao poder.
Cena do filme Marte um / Foto: divulgação
Uma das curiosidades marcantes do filme é que ele foi filmado naqueles mesmos meses de 2018 e, no entanto, só está sendo lançado e apresentado ao grande público quatro anos depois, exatamente num momento histórico ao reverso daquele, com a derrota histórica do movimento de direita então vitorioso. Essa diferença temporal entre a produção do filme e sua recepção influi de sobremaneira na sua interpretação. Assim, se por um lado as marcas pessimistas do mau agouro estão presentes nos infortúnios e conflitos que se abatem sobre os personagens, também está presente um fio de sonho e de esperança que os conduz. Um elemento utópico se configura no sonho de Deivinho de participar da missão espacial marciana (projeto que existe de fato sob a direção de Elon Musk, o bilionário americano que comprou o Twitter). Mesmo que essa missão científica seja ela própria signo de uma grande catástrofe (a promessa de colonização de Marte se liga às condições cada vez mais inóspitas da existência no planeta Terra), ao se tornar objeto de desejo de um adolescente pobre da periferia capitalista seu lado negativo é invertido e o pesadelo se torna então sonho.
É este sonho que leva Deivinho a se colocar existencialmente e a construir, com seus próprios dotes de experimentador e com o material recolhido em ferro velho, um telescópio artesanal. Como disse seu diretor Gabriel Martins numa entrevista, Marte Um é sobre a “resiliência” do povo pobre e trabalhador das periferias brasileiras, colocados diante da severa adversidade histórica. É dessa resiliência que vem a força do sonho e do desejo. E é desta mesma resiliência que vem a força do cinema da cidade de Contagem, especialmente aqueles da produtora Filmes de Plástico. Já mencionei aqui em outro ensaio que o cinema de Contagem é um verdadeiro acontecimento, o maior da cinematografia brasileira desde o Cinema Novo. Contagem não produz filmes sobre a periferia com o olhar de fora. É periferia falando e retratando a periferia. Como diz Wellington ao final do filme: “a gente dá um jeito”. http://(https://diversosafins.com.br/diversos/dropsdasetimaarte-6/Os filmes de Contagem são também fruto da luta por sobrevivência periférica, e mesmo com o governo Bolsonaro, a produtora conseguiu produzir muitas obras. Marte Um é um desses “jeitos” estéticos que agora nos restitui o direito de sonhar com outro país.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
O Deus do Trovão e No chão, o anjo são dois livros de Ivan Castilho, escritor capixaba nascido em Parintins-AM, lançados em 2022 pelas coeditoras Cousa e Villa Olívia. No caso do primeiro livro, uma segunda edição, sendo a primeira do longínquo ano de 1988 e que parece ter assumido ares de livro cult no Espírito Santo, pois o autor não voltou a publicar nada, até No chão, o anjo. Aliás, o nome do estado de adoção e publicação de Ivan parece estar subjacente a ambos os livros naquilo que eles têm de inocência e imoralidade, seja para as novas, seja para as velhas sensibilidades. Isso porque Ivan Castilho parece escrever em muitos momentos como um coroinha que sonha com devassidões e luxúrias, para depois contá-las no confessionário ao leitor. Ou melhor, escreve como um adulto que conta suas memórias de pornógrafo voyeur das mazelas morais e sociais da humanidade brasileira. Ou ainda, como um moralista que sabe muito de perto a alma perturbada que ele próprio e o mundo em que vive possuem, e fala dela para expiar todos os seus pecados. Por fim, como fino observador narra as contradições humanas que muitos querem obrigar a ser coerentes em julgamentos sumários.
Coerente é, na verdade, o próprio Ivan, pois tudo isso vale tanto para o livro de 1988 quanto para o de 2022, apenas um pouco mais amplo na rede temática, embora estejam lá os mesmos tipos e a mesma linguagem. O mundo de Ivan Castilho é o dos que frequentam o subsolo moral da sociedade, à caça de sexo safado, perdidos nas ruas e “bares atômicos” ou entediados em casa, com suas famílias, seus casamentos ou subempregos. Em nenhum desses casos, a felicidade é de fato realizada, apenas sonhada e trocada por um tesão onipresente e grotesco, ou abandonada na frustração pelo alto grau de indignidade em que vivemos. São homens e mulheres em casamentos falidos, malandros mutreteiros, gays solitários e infelizes, estudantes vagabundos, desesperados crônicos. Todos sempre cansados da vida e, ao mesmo tempo, com um tesão irrefreável e pronto para descarregar-se junto à primeira pessoa que o capture, fazendo desses personagens seres apaixonadamente humanos no tratamento que lhes dá Ivan.
Essa contradição, entre o cansaço e o tesão, torna-se evidente porque o autor não deseja despertar pena para seus personagens. Muitos deles, cheios da radioatividade lírica dos homens alcoólatras, das esposas impuras, dos velhos priápicos, dos pedófilos condenáveis, dos adolescentes espinhudos, das mulheres lascivas, dos artistas da vida, dos bêbados tombados, das ex-prostitutas – todos assediados e assediadores profissionais. Profundamente solitários e silenciosos em sua dor.
Enquanto lemos seus minicontos, somos geralmente tomados por diferentes afetos em relação aos personagens. Se começamos algum texto sentindo identificação e tesão, podemos passar rapidamente à repulsa e reprovação – dos personagens e, discretamente, também de nós. Ivan dá voz a homens e mulheres que carregam vidas de desesperança e culpa, de inocência e crueldade, de humor e violência. E que não desistem de vivê-las, apesar de algumas vezes assomar nos enredos algum desejo suicida. É o que Ivan parece traduzir ao evocar repetidamente a figura do anjo, caído e abandonado pelos deuses para vagar sem destino na superfície do mundo: “O anjo, então, caiu de joelhos, ajeitou cabelão loiro, falou mal dos últimos deuses pelo abandono, cuspiu sete espinhas de peixe miúdo e deu um longo suspiro”, ou “Caem alguns anjos – aqueles que desistiram da eternidade”.
Nos dois livros, a vida é o que transcorre fora das telas, rodrigueanamente como ela é, desidealizada, sexualizada, dolorosa, fora-da-lei e triste, muito triste: “Tristeza da porra, tristeza que não tem fim não tem não tem”. O olhar de Ivan para o mundo é de um ceticismo apaixonado, de quem investiga com detalhes o desespero de que é feito o ser humano nesta quadra da história. Isso faz da paixão de Ivan pelos tipos populares uma paixão sem eternidade e sem amor, senão o fugaz e grosseiro. O autor parece cético também em relação à própria literatura – “grandes merdas, esta folha branca, esta caneta preta” –, com apenas dois breves e muito espaçados, embora intensos, livros publicados.
Se seus textos podem ser lidos como minicontos naquilo que possuem de enredos elípticos, muito do efeito criado é próprio da poesia lírica: “Dia a dia simples: minha estrada de tijolos amarelos é aceitação da morte lenta, aquela que sempre chega no fim da tarde: chega macia e rasteira, quase cinza – puã de caranguejo – e aperta aperta aperta aperta”. Na maioria das vezes, um único parágrafo de poucas linhas desenhando vidas menores. É como se Ivan não acreditasse mais nas potencialidades do romance, ou mesmo do conto de maior extensão, de uma narrativa mais estruturada em torno de uma vida. Tudo que sobra são restos de histórias e de vidas. Que Ivan trata de colecionar e experimentar como fragmentos de vidas falhadas. Pois é disso que se trata nos relatos de Ivan: o que resta de possível nessas vidas, que são vividas com tanta força e fragilidade. Para contá-las, no entanto, só sobraram restos de biografias, de romances e de linguagem. Em O Deus do Trovão, percebe-se uma maior experimentação sintática, enquanto No chão, o anjo há um pouco mais de coesão narrativa e reflexiva. Embora nunca nada que se coloque com autonomia de pé. Nada que não solicite do leitor imaginar aquilo apenas recolhido em palavras:
“Seis e meia. Hora sagrada da grande caçada. Ônibus escolhido a dedo: o que passa pela praia do morro. Linha preferida das pobres moças balconistas da rua do trabalho. O herói na melhor roupa: bermudão de marca óculos chingling ráibam chinelão ráider. Barrigão espremido, peito de pombo estufado, cabelão repartido. Olha aquela que pegaria todinha aquela aquela faria amor selvagem nas pedras do siribeira clube. De noite noite toda noite toda toda noite.”
São cenas o que os textos de Ivan constroem, o que os faz imagéticos e com precisão descritiva, quase cinematográfica: “Camisa de seda branca, marcada ao meio por um filete de sangue; pulso esquerdo com fita azul, traçada sete vezes, pelos sete santos; no peito – sem pelos – a estaca brilha, grávida de tantas mortes”. É o texto que abre O Deus do Trovão, “O franco-atirador”, exemplar por muitos motivos: 1) a habilidade em descrever histórias com a precisão de um poeta em fazer imagens, 2) a síntese narrativa conduzida discursivamente a partir do título, 3) a caracterização psicológica do personagem através de elementos concretos e 4) a repetição de marcas estilísticas que, presentes nesse texto, continuam 34 anos, no outro livro. Por exemplo, no uso enigmático do número sete, que aparece acima na contagem dos santos, mas que vemos em inúmeros outros textos de ambos os livros como sete selos, sétimo banco, sete chagas, sétimo dia, sétimo prédio, sétima vértebra, dentre outros. Muito se poderia dizer dos significados místicos do número sete, mas Ivan vai do sagrado ao profano no seu uso. O mesmo vale para a figura do anjo, do tubarão radioativo e da castanheira: “para mim, toda árvore perto do mar é castanheira ou coqueiro”.
É, portanto, nas repetições temáticas, estilísticas e vocabulares de Ivan que encontramos o escritor com suas obsessões mais íntimas. Os textos são escritos com o sarcasmo que parece hoje um tanto démodé, mas que afirma uma parcela da humanidade para quem bem e mal não se diferenciam. Ao contrário, encontram-se unidos, principalmente no corpo apaixonado. Eu poderia listar aqui escritores que formam par com Ivan, mas evito apagar sua singularidade literária, submetendo-o a nomes consagrados. Por isso, concluo apenas registrando que é a paixão sem desejo de eternidade o que move a literatura de Ivan Castilho.
Vale!
Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.
mesa sem poeira
pia seca
privada higienizada
roupa limpa e dobrada
cama feita
papel em cima de papel
dentro da gaveta
livro empilhado na estante
algumas canetas guardadas
outras, soltas
sempre sobra uma
alguma coisa
um objeto
de uma casa habitada
circula
como se vivo fosse
é carregado
pego
jogado no chão pelo gato
quebrado
colado com cola quente
guardado
até que esteja de novo
no lugar errado
***
TRANSILVÂNIA
as pessoas costumam comentar que eu viajo muito. não entendem que meu trajeto quase sempre é o de casa para casa. quem mora em duas cidades não mora em lugar nenhum. a estrada é um limbo. a outra cidade, em que você não está, age como uma sanguessuga. te cobra, te cansa, exige e barganha, te dá e te tira. precisa de você. não aceita que você se afaste por muito tempo. rosna para seus desgarrados.
a outra cidade é uma casa que você já não conhece bem, mas ainda assim sempre volta
***
CAIXA DE FERRAMENTAS
a mão cheirando a alho
cebola e refogados
também tem o odor
da tinta da caneta
ela mexe no detergente
liga computadores
digita 40 palavras por minuto
faz bolo
despedaça o pão
recorta cola rasga
e se toca
sem nunca esquecer de fazer exercício para evitar ler
o acidente de trabalho da modernidade
e da escritora
***
ESQUEMA DE PIRÂMIDE
vou ter que dizer
o tempo é outra parada
um verdadeiro massacre
às três horas da manhã
o auge da neurose
a metade da besta
a matemática pura
a assimilação do fim
de um pedaço de bolo
guardado tempo demais
na geladeira
***
BACKLASH
desaprendeu a engolir sapos
rãs e salamandras
a perereca agora possui caninos
e ataca
sem pudor
quem avança
***
de cor
escrevi esse poema de memória
porque eu ainda estava dormindo quando ele surgiu
anotei cada palavra no reino dos sonhos
como cecilia pavón me ensinou
tomei cuidado para mantê-lo curto
o acordar é abrupto
e sempre há risco de esquecer
a poesia é sonolenta e tem bafo matinal
Thaís Campolina nasceu em Divinópolis – MG em 1989 e, após 8 anos morando na capital mineira, recentemente retornou para sua cidade natal. Bacharel em Direito, pós-graduada em Escrita e Criação, medeia, organiza e faz curadoria do Leia Mulheres Divinópolis e é a criadora e faz-tudo do clube de leitura online Cidade Solitária. Após ganhar o 2° lugar no concurso Poesia InCrível de 2021, estreou na poesia com o livro “eu investigo qualquer coisa sem registro” pela Crivo Editorial. Também publicou o conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” em formato e-book na Amazon.
Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade tão forte. Completavam-se nas diferenças. Ariel nunca abandonou Duda no tédio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em direção ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a direção contrária, o mundo terminava nos limites da superfície, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a região subterrânea desde o início dos tempos. Porém nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espaço, como aves, humanos e toupeiras.
Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria também. Ariel portava uma câmera fotográfica. Quando chegou à casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua expressão reticente:
– Tsc tsc tsc, isso não vai dar certo, disse Duda balançando a cabeça de um lado para o outro.
– Claro que vai, Duda, e lembrarão de nós por isso, respondeu Ariel categoricamente.
Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel já sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.
– Não passaremos por essa vida à toa, afirmou Ariel.
– Mas não faço questão de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.
Caminharam uma hora pelas raízes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, até atingirem a zona principal das raízes do Ipê-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a água, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Será que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram dúvidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refeição e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa distância do tronco do Ipê-amarelo e depois subiram em direção ao fim do solo. Quando atingiram a superfície, conheceram de imediato o infinito. Que visão esplêndida! O tronco do Ipê-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta lá no alto, tão distante, seguida de um interminável azul do céu. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.
– Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.
A manifestação não demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de verão. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, não fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi até a raiz mais próxima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz não era como andar no subsolo. Precisava de mais equilíbrio para superar os obstáculos sem apoio, vencer a gravidade e não escorregar. Para Ariel não foi tão difícil, mas para Duda seria. Duda suava só de ver Ariel vencer cada etapa.
– Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!
A exclamação de Ariel tentava traduzir a sensação de enxergar o gramado que circundava o Ipê-amarelo, as árvores ao fundo e o desconhecido brilho da água reunida no lago próximo. Duda interrompeu seu êxtase:
– Pule logo!
Ariel atendeu à ordem. Retorceu todos os anéis de seu longilíneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplicável para qualquer minhoca, um pássaro mergulhou em sua direção. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu então algo empurrar sua cabeça contra a terra e não viu mais nada. Ariel pressentiu a tensão e olhou para trás. O pássaro se aproximava como uma flecha até que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o pássaro caíram sobre a grama. O pássaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um milésimo de segundo. Nada mais do que isso. Alguém puxou Ariel para dentro do solo e o pássaro encheu o papo de terra.
– Foi por um triz, disse ainda ofegante.
– Quem é você? Perguntou Ariel abrindo os olhos.
– Eu não tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasião alguém que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde então eu me apresento assim.
– Muito obrigado… mesmo!
Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:
– Você viu Duda? Estava ali adiante.
– Sim, enfiei na terra quando passei para salvar você, contou Lee sorrindo.
Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.
– Meu coração ainda está acelerado, disse Ariel.
– Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.
Ao sentir as batidas do coração de Ariel, a expressão de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer má notícia, disparou a falar:
– Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pilífera das raízes laterais desse Ipê-amarelo. Moramos lá, pouco depois da região metropolitana. A capital da população de minhocas do Ipê-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupação, na zona principal das raízes, até a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expansão urbana, interligadas pela raiz pivotante. Você poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.
– Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ninguém passa por aqui e eu gostei da companhia de vocês.
– Duda tem razão, Lee. Temos que ir. Nós devemos essa salvação a você e será um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. Não deixe de aparecer. Nossa comunidade é isolada e se alegra demais quando chega alguém de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.
Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando até não ver mais ninguém.
Geraldo Lavigne de Lemos sofre de poesia crônica, costuma alinhavar a alma nas memórias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reunião dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa
2023 já está entre nós, mas considerando que o ano novo só começou oficialmente depois do Carnaval, ainda temos tempo de reverenciar os melhores álbuns do ano que passou. Indiscutivelmente o quinto álbum de estúdio da Maglore ocupa todas as listas do meu coração. E aqui faço uma mea culpa, pois confesso que por um desses lapsos diante da vastidão do universo musical e da distância geográfica, conheci a banda tardiamente —mais especificamente durante a pandemia, por indicação de um músico paulista e match do Inner Circle — através de Maglore Ao Vivo (2019). A energia do registro do show foi meu combustível por muitas e muitas faxinas e assepsias anti-Covid. Declaro aqui também que responsabilizo veementemente meus amigos (ouviram isso, Fabrício Brandão, Leila Andrade e Taiana Gomes?) por me esconderem por tanto tempo essa pérola baiana chamada Maglore.
Formada por Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra e sintetizadores), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Gonçalves (baixo), o grupo detém uma bela trajetória desde seu primeiro álbum, Veroz (2011). Ao longo de mais de uma década de carreira seus integrantes puderam amadurecer e arriscar-se, vide os elogiados trabalhos solos de Teago Oliveira, com Boa Sorte (2019) e Lucas Gonçalves, com Se Chover (2020) e Verona (2021). Lançado em agosto, V (2022) bebe da rica fonte do rock clássico e da MPB setentista e contemporânea. As 13 faixas passeiam por reflexões pós-pandêmicas, inseguranças e pautas universais, como o amor e suas variáveis e a inevitável passagem do tempo. Sobra espaço também para a crítica social do conturbado momento político que vivenciamos nos últimos quatro anos.
Maglore / Foto: divulgação
A dançante A Vida É Uma Aventura(a gente envelheceu, a gente superou/cada momento em que a vida foi mais dura), primeiro single liberado, abre o álbum em estilo cinematográfico fazendo jus ao seu título e dando a deixa para o soul tropical de Amor de Verão (quero o meu amor de verão/na próxima estação, no céu escuro/quero o meu amor de verão/na próxima estação, quebrando tudo), que traz aquela força típica que uma paixão arrebatadora nos dá. O refrão de Espírito Selvagem (eu sou assim há séculos atrás/ nos olhos do meu filho vejo o rosto do meu pai/não tenho guerra com ninguém/nem vendo solução/sou espírito selvagem sem buscar aprovação) tem um quê de hino de juventude e aborda a magia de ser livre. Ou como diz os versos do folk existencialista Transicional: “e não há certo/e não há errado/é sobre ser/tudo que se é”.
A balada Vira-Lata (vem e me mata/do jeito que eu sou vira-lata/eu vou te seguir) é releitura de um single de Lucas Gonçalves lançado em 2020 e ganha aqui um compasso mais rápido. Lembram da promessa de Amor de Verão? Pois ela se confirma em Outra Vez (planos e viagens, briga à beça, mil mensagens/coração a mil, sensação boa de enlouquecer…). Mas nem só de amor vive o álbum. Está aí o pop sessentista Talvez (talvez/eu te queira, mas depois/que cê for embora, vai saber/talvez/eu te telefone, assim/que você se desligar de mim) para comprovar, refletindo sobre aquelas relações em que só valorizamos o outro depois que o perdemos. Aliás, a nostálgica Amor Antigo, nos lembra justamente que “a história sempre tem um fim/o amor não”.
A faixa mais politizada do álbum sem dúvida é o rock Eles(eles não entendem o que são/não há beleza, é só tristeza e vício em destruição), que tem clipe oficial em vermelho-sangue. A ela faz companhia a psicodélica Maio, 1968, que, inspirada nos Beatles, faz um breve apanhado dos acontecimentos históricos dos últimos 50 anos. A antagônica Medianias — bela composição de Lucas Gonçalves, que assina um total de cinco canções do álbum — lembra Secos e Molhados, mantendo inclusive a contrariedade de seus versos. O pseudo-reggae Revés de Tudo (ao revés de tudo/sem nenhum segredo/cansados do mundo/e sobrevivendo) conta a história de ascensão e queda do “póbi” Reinaldo, personagem da canção, enquanto a bossa orquestral Para Gil e Donato — única parceria entre Teago e Lucas — finaliza o disco com todo o lirismo que seus ilustres destinatários merecem.
Com uma discografia que conta ainda com Vamos Pra Rua (2013), III (2015) e Todas As Bandeiras (2017), o quarteto baiano radicado em São Paulo firma-se como umas das bandas mais consistentes desta geração. Com letras poéticas e uma base sonora altamente eficaz, a Maglore é sem sombra de dúvidas uma das maiores bandas da atualidade. Isso mesmo, banda no sentido mais amplo que possa existir, sem complemento para rotulá-los em nichos específicos como pop, rock ou nova MPB. Lucas Gonçalves e Teago Oliveira destacam-se como excelentes compositores, não por acaso o último teve as canções Motor e Não Existe Saudade no Cosmos interpretadas pelos já saudosos Gal Costa e Erasmo Carlos. Espero que você não demore o tempo que eu levei para conhecê-los, pois definitivamente Maglore nos deixa legal.
Larissa Mendes é às vezes um clichê, mas deseja a todos um excelente 2023, repleto de boa música e diversos afins.
acaso vença, por mera conve/
niência, da teoria oposta ao mi/
to, este conflito – da sã ignorân/
cia das crianças sob o severo jugo
das réguas de estudo -, do utili/
tarismo sucessivo, puro e simples
sobre a Cultura vista como circo
(supérflua/ nula), sem conciliar
à velha luta a mesma desavença,
desde sempre, entre a fantasia e
a crença na verdade da essência,
……………………será Ciência ?
se uma parte de nós é retrô
e outra parte é avant-garde,
ao recapturar toda estranheza
na fronteira mesma em que
beira a familiaridade – como
um experimento de linguagem –
no exato ápice dessa passagem
para legá-la à posteridade,
……………………será Arte ?
ante a violência do combate
das Ciências sobre as Artes
e vice-versa, destarte, espe/
remos sem alarde (e antes que
seja tarde) pelo com/provável
……………………EMPATE !
***
novena do filamento [fragmento]
neste aparato sacro,
– um arcaico astro –
cada rastro o rapto
de seu arco voltaico;
cada curva rejeite
o velho ponto médio
por engenhoso e novo
desenho periférico;
e toda a pira fugidia
que no dínamo irradia
surja e fulja, na al/
tura, rútila fagulha;
em cores, do ouro ao
ocre, flua luminoso or/
be à vultosa dose de
um fiat lux no cobre:
bendito é o fúlmen no
filamento da lâmpada;
o lume mantenha-o bem,
“liga/ desliga/ religa”
……………! AMÉM !
***
o templo da técnica
na glândula de eurekas
onde nervos se acercam
o miradouro do inédito/
halo por sobre a névoa
há alvéolos & células
nos favos do encéfalo
à revelia do secreto –
o alvo da descoberta!
úvula além da medula/
o novelo que elucubra;
pulsa descarga elétrica
no interior desta cela;
……> ( * ) <
numa arca de faiança/
ou gaiola de estanho
onde encaixa o fórceps
ante a ameaça do dano
nesta caixa ou antro
que chamamos “crânio”
: voz atrás dos olhos
– cosmo neurológico –
a noz/ o cofre de inox
para o lógos de Nikola;
e veja aqui, sob a testa,
este mistério inconteste!
***
o castelo da estética
a massa cinzenta: sêmola
de toda sentença,
nódulo neuronal das lendas
que relembra
ao abrigar em cada uma
de suas células
da aspereza das pedras
à leveza da pétala;
primeiro e último sítio
de qualquer mito e espírito;
sede do novo e do velho,
do crente e do cético
cujo pejo é o desejo
pelo tal “juízo estético”;
eis o cérebro de Tesla
em seu par de hemisférios!
um abismo aberto
entre a euforia e o tédio,
ao aludir do lúdico
utilitarismo (no mistério)
ao surgimento súbito
dos surtos psicodélicos;
seu lar de cálcio e ferro
lacra a mandala
no Cáucaso ático
dos cálculos matemáticos;
o miolo tônico
sob o osso poroso/ o mar
do sonho sob o
solo do corpo; no crânio
está assentado
o seu castelo hermético,
da larga borda de Abraxas
a ágora da Via Láctea!
***
os despojos de Ajax
o que será do Sr. Tesla,
vagará no éter sem casa,
órfão da ciência exata?
enfrentará algum perigo,
sob o limbo, a destruí-lo
(do atma sem sua causa ao
último salto, ao abstrato)?
ou terá finalmente conjugado
as complicadas escalas aná/
logas [esquadros], as tábuas
sagradas da sua matemática
do caos, ao mapa da sua alma?
Alexandre Guarnieri, carioca da Zona Norte, nasceu em 1974. É historiador da arte (UERJ), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e servidor público federal (INPI). Integra, desde 2012, o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Ganhou em 2015 (com seu segundo livro, “Corpo de Festim”), o 57o Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Estreou com “Casa das Máquinas” (Editora da Palavra, 2011), seguido por “Corpo de Festim” (Confraria do Vento, 2014), “Gravidade Zero” (Penalux, 2016) e “O Sal do Leviatã” (Penalux, 2018).Em 2016, foi coorganizador da antologia “Escriptonita – pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi” (Patuá). Em 2019, a antologia “Arsênico & Querosene” (Kotter) apresentou, além de poemas inéditos, seletas de seus 4 primeiros livros.
Angelo Badalamenti morreu. Foi outro dia, foi dia desses. Aqui em casa, ele vive no som que sai das caixas e abafa outro, vindo de uma britadeira tão longe, tão perto. Antes da britadeira, veio o batuque, o da torcida, exaltado a cada transmissão dos jogos do Brasil. Seleção eliminada amanhã faz uma semana, pandeiros e atabaques silenciados, chances de Hexa mais finadas que o compositor, resta ao pedreiro trabalhar hoje sem a ressaca do jogo de ontem, o que não houve, sem a cabeça inchada pela goleada que, muitos garantem, levaríamos da Argentina. Muitos brasileiros comemoram o fato, os fatos, de termos sido poupados da humilhação, de Messi poder enfim levantar a merecida Taça, de simplesmente o Brasil ter se fodido, bem-feito, o time do menino mimado sonegador não me representa.
O rapaz era desses. Metrô lotado, sexta passada, uma hora antes do jogo, camisas e adereços verde-amarelos por toda parte, ele ilhado. Por cima da máscara de novo obrigatória no transporte público, seus olhos se alternavam entre a talvez namorada e os outros passageiros, a uma o carinho, aos outros o desprezo. Cabelo comprido na altura do peito, camisa de flanela da cor do seu voto e camiseta do Ratos de Porão, para não restar dúvidas de que ambos eram vermelhos. As lentes dos meus óculos escuros o impediam de ver que eu o observava e protegiam meus olhos dos seus, mais perigosos do que os raios UVA e UVB.
Eu era só mais um alienado, desprovido de senso crítico, se não pior, quem sabe vindo da frente de algum quartel, saído de lá por poucas horas apenas, só o tempo de ir até algum bar assistir ao jogo e tomar umas brejas com outros golpistas também de folga. Ele era o filho que eu nunca tive, cabelo mais comprido do que o meu na idade dele, mais liso por ter puxado à mãe, a camisa de flanela igual, o voto igual.
Visto pelos olhos do meu filho, passei a também me desprezar, vendido, com a vida ganha, a vida fácil, fácil ignorar a desgraça que abate tantos, o sistema que a tantos crucifica, como diz o Gordo, não se abalar com os mortos, com os miseráveis, famélicos, vestir as cores-símbolo do fascismo tropical, da pátria amada apenas por quem, como eu, não é vítima dela. Isso, tiozão, vai lá ver o seu jogo, vai lá gastar 200 paus, isso por baixo, depois, na saída do bar, passar em frente e ignorar a mãe sentada na calçada, o filho no colo, vai lá, seu arrombado.
Mas eu não sou o que meu filho pensa de mim. Meu filho não existe. O que existe é o som de Angelo Badalamenti e o som da britadeira, cessado há pouco, hora do almoço do pedreiro.
Leandro Damasceno Leal é paulista de São Caetano do Sul, onde nasceu em 1977. Desde 1999, trabalha como redator publicitário. Estreou na literatura em 2014 com o romance “Quem Vai Ficar Com Morrissey?” (Edições Ideal). Em 2021, publicou “Olho Roxo” pela Realejo Livros. Em 2022, lançou “Fidel e a peste”, pela mesma Realejo.
Vive nas matas, selvagem, forma
preferível das florestas, que tem
por objeto o assobio das serpentes;
voz em que há sim, hiato – de ato de ferir.
Alia povos de plantas cujas cascas, amargas,
tem por tipo o silvestre, também
cipó; dois vivos em que há
aderência da pálpebra com a nota
musical, de uma época remota, lá, alhures,
sem verbo, que começa; ou poética
do fim, iniciada por eles,
pelo som das palavras –
funda natural nome de coisa por oficina
e encerra a outra inconsciente
divisa: certas combinações
que têm triz. Sim
em que há coisas santas ou,
como sejam, sagradas.
Sim: aquele que cometeu Sim,
a primeira folha,
Sim.
***
Poema II
De pequeno tamanho, foi um
dos fatores de expansão
do mundo, porque era nome
amorfo, pedra ou granada,
a cabeça encarnada,
fundamental
abertura superior do coração
absoluto.
Carrega-se
no dorso de animal:
mecha de fogo,
chuva muito forte,
por que motivo desconhecido.
***
Tormenta
Ela vem torta, de óculos escuros,
cabelos despenteados, vestido em desalinho;
sobre a tormenta, ela vem de botas altas,
com marcas no rosto, uma, resultado do tempo,
outra, de um acidente de carro;
sobre a tormenta, ela vem quando a calmaria
era já a sua companheira de quarto, quando
já até morava ao lado de uma praça
e se nutria bem, para evitar a tormenta;
sobre a tormenta, ela vem tonta, trazendo sua angústia
no peito, no peito de quem não quer
mais ir embora, tragando-a para dentro dele;
sobre a tormenta, ela vem e parece te querer, mas veja, olhe,
escute, antes de atravessar a linha do trem;
sobre a tormenta, um dia ela vai embora e
você, como a criança diante do circo que baixa sua lona,
desejou imensamente ser levado em seu vórtice.
***
Noite branca
Olho as janelas que ainda estão acesas,
como fazia em outro país: a insônia
aproxima anônimos em sua distância,
como se de longe partilhássemos
o mesmo cigarro, a mesma ausência.
Há, agora, uma jovem que trabalha.
Um homem sem camisa que vê tv.
Um que vagueia, sentado sobre o próprio desespero.
Um cão que, no meio do silêncio, abana o rabo para ninguém.
Uma mulher que absolutamente não sabe o que fazer.
***
Brutal
onde a luz nasce palavra
obscura,
discreta a morte: a vida retina.
delicadeza ao morrer é
tortura.
***
des corps
embrulha, compacta
palavra – revela-
se
cruel, crua
entre a fuga e a cura, cheia
de cor a sua escrita pura,
a sua escrita cria
luz
– candeia.
Maraíza Labanca é poeta, ensaísta e doutora em Estudos Literários pela UFMG; oferece oficinas de escrita no Espaço a’mais; é uma das editoras da Cas’a edições. De sua autoria, publicou os livros “Refratário” (2012), “Rés” – livro das contaminações (2014, com Erick Costa), “Partitura” (2018), “Exceto na região da noite” (2019) e “A terra O corpo” (2021).
O exercício da literatura é feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita é também marcada pelo gesto espantado que é a existência, esta senhora cujos domínios não cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve não passa impune pelas múltiplas imagens mundanas e seus inalienáveis efeitos, pois é variada a oferta de cenários através dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.
É preciso certa dose de ousadia para enxergar além do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto matéria humana, uma amálgama de saberes e sabores é porque também temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou não, sobretudo quando o tema é cotejar as experiências vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser também o ato de maquinar a matéria intangível da vida. Nesse ponto, complexos serão os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fascínio que determinadas escrituras podem causar.
Vivian Pizzinga é uma autora que sabe percorrer territórios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho literário, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, ímpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contemporâneos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de nós também é a tônica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convicções.
Além de se dedicar ao ofício com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psicanálise. Sua obra abarca os livros de contos “Dias Roucos e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), ambos lançados pela Editora Oito e meio, bem como as coletâneas “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016) e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou “Ruído nos Dentes” pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.
Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, além de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer literário. Atenta às questões do seu tempo, revela-se também alguém desperta para refletir criticamente sobre condições que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos estão abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que não afasta certo ensaio contemplativo da vida.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – “Ruído nos Dentes” traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. São paisagens existenciais visitadas e que não se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se detém na leitura. O que dizer desses mergulhos?
VIVIAN PIZZINGA – É interessante você pontuar esse diálogo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de “Ruído nos Dentes”. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro – uma das leituras possíveis – me fez compreender três conjuntos de textos, e assim separei o livro em três partes: uma delas onde há menos diálogo com o externo; a segunda parte, onde há um contato com o externo em que este é mais íntimo, digamos assim, talvez até mesmo personalizado, ainda que isso não fique tão claro; e uma última parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e também mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma espécie de percurso que parte de algo mais interior – e muito ligado a experiências sensórias também – para um contexto mais exterior.
DA – Nesse trajeto, onde as dimensões interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na construção do seu livro?
VIVIAN PIZZINGA – Na verdade, apesar desses itinerários que mencionei, não acho que haja possibilidade de as dimensões interna e externa não se comunicarem, suponho que elas estão sempre se comunicando e às vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos nítido. Não acho que haja qualquer possibilidade de uma dimensão existir sem a outra, não é possível saber nem mesmo se há uma precedência do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a noção de interseção em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de três partes, é muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensações e vivências, porque é difícil lançar mão de uma linguagem, de um léxico, em que se possa unir essas coisas que não são separadas. Então, quando faço uma leitura dos meus próprios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predominância, mas não uma separação. E por isso mesmo a própria separação nessas partes também foi um desafio, pois essa localização não é tão nítida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organização, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em relação ao próprio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclinação mais poética, uma vez que minha experiência anterior é toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos há alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma dúvida se aquilo que eu reconhecia como poético seria mesmo.
DA – De fato, é possível ver em “Ruído nos Dentes” um flerte seu com a chamada prosa poética. Como é que você vislumbra essa espécie de fronteira que às vezes chega a parecer tão tênue entre os gêneros?
VIVIAN PIZZINGA – No segundo livro de contos que escrevi, “A primavera entra pelos pés”, havia já alguns textos com essa inclinação mais para a prosa poética, então essa fronteira, se muito rígida, ao menos pra mim não funciona. Por outro lado, não sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acadêmico, não tenho leitura sistemática desses debates, venho de outra área, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato é que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o gênero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lançar mão de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscerníveis não dão conta dos múltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribuições (falando de profissões) é possível rearranjar classificações muito prontas, que têm uma historicidade, não são naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, então não teria como eu não achar o mesmo no que se refere à escrita: os textos de “Ruído nos Dentes” talvez não sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da página.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – A segunda parte do livro é introduzida por “diatribe”, texto que parece bem emblemático se pensarmos os diferentes deslizamentos identitários presentes na contemporaneidade. Na sua opinião, o que o atual território das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo?
VIVIAN PIZZINGA – De mais significativo, não saberia dizer, mas algo que me chama a atenção é o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que há dez, quinze anos não tínhamos nesse nível, com discussões importantes referentes às pautas identitárias em seus múltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de vivências e atravessamentos históricos, sociais, econômicos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere à nossa autonomia face àquilo que concorre para a produção de subjetividade hoje, século XXI, 2023, para ser bem específica. Refiro-me a toda a problemática, a meu ver urgente, referente às redes sociais e ao chamado capitalismo de vigilância, temática que inclusive está sendo debatida atualmente no congresso no que se refere à regulamentação de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer é que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos estão sendo direcionados, como nos têm alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e não nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento estão intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia alguém falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas típicas lembranças que acabam direcionando o rumo da memória. Essa pessoa, que não estava pensando em determinada situação, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Será que se essa foto não fosse vista, à revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Será que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associação de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado à produção de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que é sempre bom reforçar que tudo isso avança muito mais velozmente do que os debates e as regulamentações jurídicas voltadas a essas situações. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos “defeitos” do rosto de uma pessoa ou ainda as clássicas comparações que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que é mostrado numa rede social é uma edição de si (isso quando o sabemos). Tudo isso é produção de subjetividade o tempo inteiro, de modo acrítico, o que é uma contradição se pensarmos no que falei no início quanto aos debates que têm nos permitido nos dar conta das forças históricas que nos constituem.
DA – Por falar no universo digital, há algum tempo temos nos deparado com a superexposição do eu nas múltiplas plataformas de produção de conteúdos. Do corpo ao texto, há uma expansão do campo autobiográfico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que também orbitam em torno da vida ordinária, sugerindo que pessoas comuns, e não somente famosos, são protagonistas desse processo no qual as existências parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetacularização e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus próprios dilemas e dores?
VIVIAN PIZZINGA – Pois é, é uma excelente pergunta, porque já não sei mais se há um habituar-se à espetacularização ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a alguém, se é uma necessidade de interlocução que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que também me parece outra contradição, porque, mais uma vez, parece – sempre parece – que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se dê não contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconexão que implique alguma desconexão em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atrás de alguma coisa por esse caminho do espetáculo de si, de nós mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que você aponta na sua pergunta está relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em nós, estamos talvez menos ingênuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto autômata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa não tivesse acontecido caso não a mostrássemos. São muitas as hipóteses, sempre lembrando que, ao falar disso, não estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latifúndio, eu também sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), dá um tom confessional a dizeres abertos a sei lá quem e por aí vai. Não sei se é uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetacularização – e isso não sou nem eu quem fala, sigo outros – está presente.
DA – Em tempos da expansão da chamada inteligência artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a questão da autoria na contemporaneidade. O quão problemático seria admitir uma obra literária produzida inteiramente a partir da máquina?
VIVIAN PIZZINGA – Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda não amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra literária ser produzida inteiramente a partir da máquina, e nem tenho certeza se isso é efetivamente possível. Apesar de já terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a inteligência artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, não tenho certeza se se pode dizer que uma obra literária poderia ser produzida efetivamente a partir daí. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse possível? A questão da autoria já também não é um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coesão de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produção, no caso, escrita. A autoria seria da inteligência artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profissão do/a escritor/a, essas problemáticas antigas, tensas e nunca concluídas, estão também envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, é um grande estranhamento.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – De que maneira a sua vivência com a psicanálise cruza seus caminhos com a literatura?
VIVIAN PIZZINGA – Apesar de eu não deliberar enredos ou textos a partir da minha trajetória na psicanálise, a experiência profissional e os estudos, além da minha vivência pessoal, acabam fazendo parte da minha produção, quando vejo já aconteceu. Na época em que trabalhava em ambulatório de saúde mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psicanálise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi – “Eletroconvulsoterapia”, “A loucura é uma sensação térmica”, “Uma ciência do atraso”, “Haldol Decanoato”, cujos títulos já indicam territórios de interesse do campo da saúde mental e da psicanálise, ou ainda “Término”, cujo título não dá sinal de nada mas que também traz essa influência – são exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas vivências profissionais no campo da saúde mental e nas reflexões que a psicanálise impulsiona. “Haldol Decanoato”, por exemplo, título de um dos contos que integra “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, é o nome de uma medicação psiquiátrica. Medicação psiquiátrica não é psicanálise, mas as coisas vão se entrelaçando em muitos dos textos que escrevi durante vários anos. Como eu estava muito imersa nessas vivências, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiquiátrico de referência na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionalização na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulatório, além de pacientes no consultório, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso está menos urgente no que escrevo, menos à flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, então não deixa de estar presente.
DA – O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais?
VIVIAN PIZZINGA – Difícil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e reforçar os laços coletivos e sociais. A consciência de classe, a preocupação com o comum, o bem comum, a coisa pública. A lembrança ou o aprendizado de que não estamos isolados, de que nossos interesses não podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa não é nem a única nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque aí não nos prendemos tanto em rótulos, diagnósticos, etiquetas, estereótipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando às vezes que a pandemia teve um lado de reforçar um certo individualismo. É difícil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princípio, que abriria outros.
DA – O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga?
VIVIAN PIZZINGA – Eu tenho construído uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto reações de uma Vivian Pizzinga que têm a ver com circunstâncias, porque acho que é isso, a gente só sabe se há uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunstâncias, externas, internas e as que estão no meio de ambas (talvez só essas existam). Ou seja, o que a gente é ou tenta ser e faz ou tenta fazer é algo sempre relacional, é sempre um movimento oscilatório, e não garante nada, tampouco é linear. Há uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que está aí escrevendo é resultado de uma interseção de humores, afetos, coisas variadas de muitas espécies? São muitas, não é nenhuma? Freud já nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um hábito de olhar para si e suas ações/reações/interações e se espantar.
DA – Afinal, por que escrever?
VIVIAN PIZZINGA – Não tenho resposta melhor a dar que não a de Blanchot: Escrever para não morrer.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.