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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Segredos para dormir:
ouvi um cão orando para as águas;
meditei chamas para entender o rio;
respirei águas e me parti em dois;
de fora desses dois em que me parti, flutua a coisa que sou.
Também foi ela quem me aconselhou a sonhar em terceira
pessoa.
 

 

 

***

 

 

 
Um grito ou um cisco metafísico:
nítidos lábios se pronunciam.
Úmido o olhar de quem venta,
e a carne de quem olha para dentro,
imensa de almas perdidas.
Se tenho boca, é para vesti-la,
se tenho águas, é para falar-me.

 

 

 

***

 

 

 

Quase espuma

 

Breve, poderosa matéria,
metáfora inconsútil de toda
e qualquer coisa
até o não.

Sua carne é o nada, sabe-se,
assim como de ossos d’água é
a musculatura invisível de suas cores.

O vento não a destrói não a sustenta
nem a habita, apesar de que habita
o dentro e o fora dela, pulsando
o imóvel de suas circunferências.

Limítrofe, essa mais efémera coisa eterna,
pois o que é, é da exata nervura
do tempo que a sua esfera encerra.

 

 

 

***

 

 

Não sou eu aquela máquina — sétima meditação

(sobre a Crueldade Impessoal)

 

 

VOZ 1

De uma fogueira, à beira, tenho nas mãos um papel em branco — e o meu corpo. Vim para onde estou, só. Cansado de verdades. Uma certeza que seja, será pedir muito, Caro-Bom-Deus-Maligno? Uma mísera certeza, é só o que se pede.

VOZ 2

Me deleito em me perder. Me identifico com o que rápido desaparece, as nuvens e o que de negro relampeja no olhar de quem amo. A equação do corpo é um olhar, e um olhar é também a celebração da morte. Deus, Bom ou Maligno, alavancou as engrenagens do mundo e desapareceu, foi cuidar da vida Dele, se é que a palavra vida é aplicável ao Deus.

VOZ 1

Se é que a palavra vida é aplicável ao Deus, há de haver um sol, uma sintaxe dos afetos, chuvas desenhadas pelo som de um sonho nada sonoro, pura forma. Não há lugar na República para a palavra cariada, para o silêncio que não siga o regime dos esquadros. O mundo maquinal, Deus deu o impulso, e se inclui fora dele, do mundo, Deus foi cuidar de sua vida.

VOZ 2

Deus foi cuidar de sua morte, e não o perdoamos por isso. Sonho com o dia que o pensamento terá a curvatura de um vaso chinês quebrado. Faço possível para ver, serei despedaçado em corpo, como agora já o sou ainda que discretamente. O corpo não fala, os átomos do corpo sangram.

VOZ 1

O corpo sangra, como sangra o cérebro de um homem enquanto sonha. O Deus maligno enfeitiça os triângulos e as equações, a certeza e a objetividade só sobrou aos mortos. É preciso morrer, assim: anular o corpo, matá-lo escrevendo-o em fórmulas exatas. É preciso duvidar — sobretudo do que na palavra é pássaro.

 

VOZ 2

Sobretudo o que na palavra é pássaro. “Pensar é estar doente dos olhos” e dos nervos, é infectar o nervo, escavar a nódoa da angústia. A angústia é branca e legítima. Só um homem doente não é angústia a todo instante — um corpo que pensa.

VOZ 1

Não sou eu aquela máquina, digo: esta. Estaquelamáquina, essa coisa externa à coisa-eu que pensa porque não sabe ser outra coisa. Estaquelamáquina: de origem, livre da desinfecção dos relógios. Os relógios salvaram o mundo da repetição. Os relógios orderam os ciclos em tal enlace que retificou o tempo, tornou-o uma seta. A máquina-mundo, eu não sou aquela máquina, não as suas engrenagens. Sou, sim, como a estrutura eólica, o movimento lógico, não-analógico, o alinhave numérico, a configuração por detrás do que você come e voa com os olhos, nada é igual ao que você vê.

 

VOZ 2

Nada é igual ao que eu vejo, o mundo é o cheiro azul-azedo-áspero-e-rouco do vento se destroncando nossa pele pulsando soltando o invisível pó, que é o que de cada humano resta no mundo, pois é isso que resta, e não qualquer número ou lógica que por acaso tenha obturado, escondido os rasgos da tapera que somos enquanto somos.

Enquanto isso, dois tumores (cada um instalado no corpo de cada

uma das vozes) iniciam os trabalhos, nem lógico, nem ilógico,
…………………………………………………………….apenas iniciam seus trabalhos alheio

 

Wesley Peres, autor de ROMANCE: As Pequenas Mortes (Rocco, 2013), Casa entre Vértebras (Record, 2007), finalista do Prêmio São Paulo 2008, vencedor do Prêmio Sesc de Melhor Romance 2006 e indicado ao Portugal Telecom 2008. POESIA: Palimpsestos (Editora da UFG 2007); Rio Revoando (USP/Com-Arte 2003), Água Anônima (AGEPEL, 2002).É também psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasilia (UnB); Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mora, atualmente, em Catalão-GO.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – AINDA HÁ TEMPO

 

Capa Criolo

 

O messias do Grajaú está de volta para revigorar seu primeiro “sermão da periferia”. Lançado há 10 anos, com distribuição de pífias 500 cópias e repercussão reservada à orbe hip-hop, Ainda Há Tempo (2006) – primeiro álbum de Criolo (ainda Doido) – ganhou uma versão redux (apresenta apenas 8 das 22 faixas originais) em maio, pelo selo Oloko Records. O que poderia ser tão somente uma reedição remasterizada de um dos registros mais expressivos do rap nacional tornou-se uma nova versão – ainda que diminuta – que carrega o suprassumo do álbum de outrora. Se o rapper economizou no número de canções e na divisão dos vocais (há apenas a participação de Rael), abusou nas parcerias técnicas: cada faixa é assinada por um produtor diferente, o que, de certa forma, garante um frescor ao disco, novamente sob supervisão derradeira de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Como diz Criolo ao final de Tô Pra Ver: “2016. Eu escrevi essas músicas há 15 anos atrás e nada mudou, Senhor (…)”. Além dos beats, pouco mudou nesta versão compacta de Ainda Há Tempo. E talvez seja este o intuito: simplesmente formatar aquela proliferação de vinhetas e argumentos (mesmo que bons) que seriam dissecados em Nó Na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2014). Sente-se a ausência de algumas canções importantes que ficaram de fora da obra, caso de Rap É Forte, No Sapatinho e Aprendiz. Parafraseando o artista, “o que você quer, nem sempre condiz com que o outro sente” [necessidade de expressar].

É o Teste (more aonde for/viva o que viver/seja um homem/e mantenha a sua postura), repaginada por Nave, abre o álbum com um discurso positivo diante das desventuras cotidianas, comprovando que “sobreviver é só pros fortes”. Na sequência, Chuva Ácida (peixes mutantes invadindo o congresso/vomitando poluentes com o logotipo impresso/B e R, quem é do mangue não esquece/as vítimas perecem, as famílias enlouquecem), revitalizada por Sala 70, talvez seja a melhor canção do remake, fazendo jus a sua atualização (originalmente composta por Criolo para um concurso sobre meio ambiente) traz referências – em forma de pequenos depoimentos – ao desastre ambiental da cidade de Mariana (MG). Enquanto o reggae-rap Tô Pra Ver (tô pra ver um daqui sucumbir/você pode até sorrir mas no final vai chorar) tem a produção de Grou e repete a participação de Rael (que na primeira versão do álbum ainda era Da Rima), Bréaco (só pode falar de vida quem vive/só pode falar de sofrimento quem sofre/só pode falar de amor quem ama/só pode falar de flow quem desenvolve), produção de Deryck Cabrera, manteve o astral original através de uma bateria eletrônica marcante.

 

Criolo
DJ Marco, Criolo e DJ DanDan / Foto: divulgação

 

Em Até Me Emocionei (então, pra falar do que sinto cantei/cantei, me expus e até me emocionei), revigorada por Sem Grana – onde Ganjaman assume os backing-vocals –, Criolo explica por que “o homem é um animal que está sempre em conflito com a mente”. Em contrapartida, a sempre empolgante Demorô, produzida desta vez por Papatinho, perdeu a potência, tanto da versão original quanto da registrada no CD/DVD Criolo & EmicidaAo Vivo (2013), marcada por um vigoroso solo de guitarra de Guilherme Held. O mesmo aconteceu com a pró-AA Vasilhame (o governo libera porque lucra com isso/e a gente toma cachaça até no aniversário de Cristo) – presente no CD Criolo Doido: Live in SP (2008) –, recriada pela dupla Tropkilazz, ponto alto em vários shows do artista. Se a versão submergiu na empolgação, ganhou no politicamente correto. Originalmente, certos versos diziam: “Os travecos tão aí, oh! Alguém vai se iludir!”. Ao compreender o sentido pejorativo do termo, o MC admitiu a imaturidade da letra e resolveu alterá-la para a palavra “universo”. A propósito, Criolo e DJ DanDan aproveitaram seu último show no festival João Rock, em Ribeirão Preto (SP), para convidar o público a condenar a tríade do preconceito: racismo, machismo e homofobia. Por fim, a homônima Ainda Há Tempo (as pessoas não são más, mano/elas só estão perdidas), primeiro single liberado, quase cantado à capela, produzido por Ganjaman e Cabral, encerra o álbum em ritmo esperançoso: “não quero ver você triste assim, não. Que a minha música possa te levar amor”.

Concebido inicialmente para celebrar os 10 anos de Ainda Há Tempo, uma vez que o registro nunca teve sequer um show de lançamento ou uma turnê, a ideia ganhou formato físico após o envolvimento de diversos nomes, tais como o do grafiteiro Alexandre Orion, que assina a direção de arte do projeto. Recebido sem muito alarde por fãs e críticos (sempre ávidos por novidades vindas da fonte do rapper, que parece nunca secar), o álbum, como de costume, está disponível para audição e download gratuito no site do artista. É interessante perceber que há uma década a poesia abstrata do profeta do rap já apontava a miséria, o desamor e o consumo de drogas pela bancarrota da humanidade. De fato, quase nada mudou. Ainda há lamento.

 

 

 

Larissa Mendes perde a rima, mas não perde a resenha. Em tempo: tal como o álbum de Criolo, a Diversos Afins também comemora 10 anos de estrada em 2016. Ao contrário, de lá pra cá, muita coisa mudou [para melhor] e o orgulho em contribuir com a causa de Fabrício e Leila só cresce. Parabéns pelas bodas de estanho. Vida longa e levas prósperas.

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Arte: Luma Flôres

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