Arte: Luma Flôres

Diante das várias formas de se ler o mundo, ficamos cientes de que dispomos de alternativas válidas de reflexão. Podemos optar por nos posicionarmos em relação a uma série de situações e temáticas, elegendo um norte a seguir. Ou simplesmente temos também a possibilidade de quedarmos mudos e impassíveis. Não é difícil concluir porque a arte, sob suas mais difusas acepções, prefere aqueles que se posicionam diante da vida. Seja criador ou não, quem se envolve com as vias sugeridas pela ambientação artística jamais vive as coisas impunemente, ou melhor, passivamente. Há posicionamento por parte de quem escolhe uma linha criativa e a conduz adiante. Por seu curso, há também posicionamento quando alguém consome o produto da criação de um determinado autor. Mesmo estando em perspectivas um tanto diferentes, emissores e receptores dos conteúdos transitam por um solo comum de expectativas e arremates. É claro que as identificações podem não ocorrer de imediato, fazendo com que aproximações de pontos de vista necessitem de certo tempo de maturação, construindo um ritual de tácitas negociações. Esse intervalo de reconhecimento pode tanto revelar semelhanças de comportamento quanto rechaçar ideias sugeridas. Em que medida, por exemplo, quem escreve negocia com quem lê? Há limites para que surjam concessões mútuas? Tais questionamentos são pertinentes quando se pretende entender que tipo de relação atravessa autores e leitores. Muito se defende que um escritor produz para si mesmo para, em última e desinteressada instância, verificar se aquilo atinge seu público de algum modo. E talvez seja esta última uma checagem que nada tenha a ver com satisfação por um mero reconhecimento, mas sim pelo fato de que alguém acidentalmente partilha das mesmas convicções. Trata-se do autor que se importa mais consigo mesmo, ignorando se o resultado de suas elaborações atingirá alguém enfaticamente. Por outro lado, há quem crie para buscar no seu leitor um eco automático de suas representações. Este, por sua vez, provavelmente tenta vislumbrar o que é relevante para seu público. Talvez seja difícil mensurar com exatidão se há um patamar que equilibre essas duas formas de atuação. São especulações a nos rondar de modo permanente e o que importa mesmo é saber que a liberdade guia tudo isso. Na linha que implica em se posicionar diante da vida, rendemos escutas às opiniões do poeta e performer Alex Simões, o qual, numa entrevista, fala sobre sua trajetória literária, o momento atual do país e outros temas inquietantes. São os versos de Mariana L., Adriana Brunstein, Sónia Oliveira, Clara Baccarin e Alvaro Posselt que também demarcam territórios ativos em torno das epifanias mundanas. É Jorge Elias Neto quem nos apresenta a coletânea de poemas de William Soares dos Santos, materializada no livro “Rarefeito”. Larissa Mendes volta a visitar o trabalho do músico Baia, desta vez com um novo disco. O mais recente filme da saga Mad Max recebe a detalhada análise de Guilherme Preger. Testemunhamos também todo o vigor narrativo dos contos de Fernanda Fazzio, Héber Sales e Roberta Silva. Numa precisa leitura, Sérgio Tavares volta suas atenções para o novo livro de contos de Dênisson Padilha Filho. A arte da espera pauta uma exposição com as fotografias de Suzana Latini por todos os cantos dessa nova edição. É a 110ª Leva e seus caminhos, caros leitores! Sejam bem-vindos!
Os Leveiros
A Musa como salvação no absurdo da vida no livro Rarefeito – William Soares dos Santos
Por Jorge Elias Neto
Sempre é oportuno relembrar que a leitura atenta de um livro começa pelo nome com o qual o autor convida o leitor à leitura – sobretudo quando se trata de um livro de poemas. O poeta costuma buscar a densidade em cada palavra, um visgo que grude na capa toda uma carga de significantes e emoções transfigurados em linguagem.
No caso do livro Rarefeito, do poeta e professor William Soares dos Santos, recentemente publicado pela Ibis Libris, esta observação inicial se faz relevante. Afinal, trata-se de um autor oriundo da academia e estudioso de literatura. Esse aspecto também não passou despercebido ao poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin que, no início do seu prefácio ao livro, nos diz que, “apesar da insinuação do título, rarefeito, o autor, parece operar no domínio de um real bastante denso, pleno de amores e de humores”.
O título do livro, em consonância com o que nos diz o linguista José Augusto Carvalho, sugere, em um primeiro momento, pelo menos duas leituras: o adjetivo rarefeito (que significa “menos denso”) e a palavra-cabide ou palavra-portmanteau (também chamada “palavra entrecruzada”) rarefeito, formada pelo amálgama do adjetivo raro com o substantivo efeito (raro efeito).
No primeiro caso, o título sugere simplicidade; no segundo, sugere algo novo, raro, diferente. Em ambos os casos, o título sugere ou antecipa o efeito que os poemas provocarão no leitor. Vasculhemos então o que inspira, espira e aspira o autor de Rarefeito.
E o sentido de Rarefeito já ensaia seu contorno nos versos do poeta Inglês William Wordsworth, escolhidos para compor a epígrafe da obra. Neles, o grande poeta romântico homônimo de nosso autor, instiga seu eu lírico a erguer-se: “Up!up! and drink the spirit breathed/From dead men to their kind.”
Somente a literatura e o acaso possibilitaram que esses versos escritos no século XVIII chegassem aos ouvidos do nosso poeta, e soassem assim tão pessoais, provocando-o ao inquirir: “Why, William, on that old grey stone,/ Thus for the length of half a day,/ Why, William, sit you thus alone,/ And dream your time away? ” Finalizando com um desafio:”Where are your books? – that light bequeathed/ To Beings else forlorn and blind!”
E já em Rarefeito, primeiro poema do livro, William Soares nos diz, a seu modo, do imenso desconhecido contido entre o céu e as profundezas terrestres; inicia assim um diálogo presente ao longo da obra – nesta feita com o homônimo William Shakespeare – com os cânones da poesia mundial.
Vejamos:
Quero ser tomado,
elevado à montanha mais
alta e submerso ao mar mais profundo.
o que sei de mim é
um constante não saber.
Ao seu modo, lançando mão da metáfora, o poeta também ensaia a superação do absurdo.
Sabemos o sentido de urgência do homem contemporâneo, a necessidade de lançar-se no desafio dos limites, na busca de embriagar-se com endorfina.
Enquanto seus coetâneos, de forma cada vez mais radical e, por vezes, inconsequente, buscam desafiar seus limites se confrontando com ambientes inóspitos, com condições atmosféricas pouco afeitas ao conforto, seja nos picos montanhosos – que se caracterizam por um ar menos denso (rarefeito) e com menor concentração de oxigênio – seja nas profundezas dos Oceanos que oferecem o risco das grandes pressões, comprometendo a lucidez e a coordenação motora, o poeta também busca o desconforto que lhe proporcionará – pelo menos em tese – a experiência criadora.
Quero ser tomado de mim,
atravessado pela luz
mais pura que antes
nunca se afigura.
acordei num dia novo e
claro, no qual o ar não está
rarefeito
e nada cala
dentro de mim.
Quero ser tomado do mundo.
a minha passagem será
apenas vento, talvez sombra,
talvez tempo, mas nunca
desatino.
Brancura serena da primavera,
negrume pacificador da alta
madrugada.
Disse-nos Emil Cioran: “Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade… Se cada vez que os desgostos nos assaltam tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos.” Daí a admiração de Cioran pelos poetas, por sua capacidade de mostrarem-se isentos de pudor – e agora cito as palavras de Nietzsche – em relação às próprias experiências; esta capacidade única de explorar o que tantos tentam omitir e dissimular.
E o poeta dialoga com seu desassossego. Reconhece ser mais um pássaro, entre tantos, grudado nas partituras dos fios elétricos das grandes Metrópolis. Sabe seu espaço no sem sentido, e ensaia um arremedo de liberdade: Um pássaro não é o pássaro,/é um pássaro qualquer.//branco?/pode ser,/para combinar com o azul deste mar,/para ser livre como todos os ideais de vida.// livre como não sou,/livre como não sei o que é ser livre.// mas imagino,/tento,//um pássaro qualquer,/livre,/ser.
E “a dor ladra no tempo”, esse tempo só nosso, em que transgride¹ e nos diz o poeta: ainda que permanecesse/eu seria apenas a lembrança tangível/que insiste na permanência/da intangibilidade de ser. Quantos de nós não sentimos essa náusea sartreana diante da imanência…
E rodopia sem direção,/gira,gira o pião de Sísifo.
Diz-nos Camus que, diante do absurdo, uma das alternativas é o “salto” para a religião. No presente caso, vemos o eu lírico – nesta feita no poema “Crístico” — apresentar-se como aquele que segue os preceitos cristãos da austeridade e do amor. É o herói que suplanta qualquer complexo de heroísmo.
Mas, ao modo de Augusto dos Anjos, William Soares nos diz que nem o poeta profeta sem intenção,/à margem da lição, nem o alquimista que dialoga com os símbolos de Jung, nem mesmo o físico que vê o mundo calculado,/matematizado, equilibrado não sabem o que é o mundo. São como uma criança, com seus olhinhos arregalados, esbugalhados de/surpresa diante da flor que recolhem/todas as manhãs.
Será o tempo é uma brecha que esconde o vento que sopra no rosto imaturo do mundo; ou seria no rosto do homem?
O que resta ao poeta, qual o caminho possível diante da incerteza? A resposta vem de “um anjo azul” que propõe que o poeta toque sua lira. E é essa “lira moderna” que acalenta o poeta e o anjo. Ambos condenados – o imortal e o mortal – à “solidão eterna” dentro de um mundo-prisão circundado pela “grande muralha”.
E o poeta se rebela, e se lança ao mar, pois a leste está a mais bela baía do mundo:
No mar que me transporta,
Vejo que não são os meus olhos que veem,
Mas eu que vejo através dos meus olhos.
Eis aí o poeta ensaiando seu eterno retorno à Pasárgada…
Já na República de Platão, Sócrates alerta a Adimanto que as fábulas mentirosas compostas por Hesíodo e Homero seriam contadas aos homens. E entre elas encontrava-se a vingança de Cronos contra seu filho Urano. E, vencendo Cronos, o poeta insiste em despertar a cada dia:
o mundo pesa
sobre mim,
serpente incinerada do estar
que me apeçonha em cada
instante do viver,
ainda quando rasga,
sanguínea e fresca,
a madrugada.
E eis que surge a Musa…
Somente ela
me trará
o grande sono
na madrugada.
O sono borbotado
de azul,
tão diverso
do cativo desejo
em que me encontro e que me aprisiona
na imensidão do anoitecer.
Em seu livro L´amour fou, André Breton nos apresenta o conceito de “acaso racional”. Aquele encontro “inesperado” ― inconscientemente já “agendado” ― com a musa. O grande encontro entre o poeta e a poesia. E muitos dos poemas trazem um poeta e suas luxúrias.
Mas uma nova surpresa — talvez mais uma vez a náusea existencialista leva o poeta a observar:
e eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
neste anseio de mais abrir o sorriso da boca nascida.
O poeta retorna às areias da praia cantada e à sua calçada de ondas negras e alvas. E depara com os indivíduos que buscam, em rumos distintos, alinhavar suas vidas e por um instante se esquece que é pós-moderno.
Whitman afirma e o poeta inquire: o que fazer com essa inquietude constante e com o desejo de ser muitos? ― lidar com a contradição humana.
Mas restam-lhe a musa e o amor. E eis aí a densidade possível ao poeta – a pele e o gozo.
Entretanto tudo indica que o meu caminha mais longo será mesmo a solidão.
Mas talvez, como diz o protagonista do livro Náusea, de Sartre, “a margem da solidão”. Um ponto equidistante entre o isolamento e o acesso ao outro.
Mas como isso acontece? Talvez o poeta dissimule, pareça perdido, rendido aos atos costumeiros, diuturnamente… Mas, quando do primeiro estalo da palavra, talvez ele se sobressalte e se lance ao chão para salvar a flor… Resgatar a imagem primeira da musa:
Torna-me à mente
Do teu corpo
A imagem da primeira vez.
eu, inquieto mendicante,
de teu corpo desejante,
a febre tolhia-me o sono,
e entre a penumbra surgiu a tua imagem
a desnudar-se em plena alvura
enquanto tudo se apascentava no hemisfério.
Embora não me governasse,
Me detive em tuas costas,
Como se os astros, a aurora
E o silêncio compactuassem.
Trazia-me o ansiado deleite
Fazendo de meu corpo a chave mestra
Que abria portas à sinistra-destra.
Pensamentos revoavam,
Enquanto eu calava e me concedia,
Tímido e inexperiente,
Às voltas de teu corpo.
Fechei os olhos,
O que palpitava de novo em meu peito?
Menino de nove mais nove sóis,
Tudo se confundia com desejo.
Todas as palavras então ficaram,
Tentativas inexpressivas de retratar
A gravidade de teu corpo.
E eis novamente William Wordsworth a nos dizer que “a poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade”.
O que propõe de novo um poeta pós-moderno? Talvez o reencontro com a musa, não de uma forma piegas e descompromissada, mas sim através dos clássicos e dos grandes poetas (complementação de rarefeito).
Pois ele nos diz como no poema intitulado Ulisses:
depois de tudo
deixo o teu leito com tudo o mais de óbvio:
molhado de suor,
com a face relaxada,
e uma ferida
encravada no dorso.
deixo o teu leito
como quem
cumpriu uma promessa,
esperando o pão com manteiga
que chega com o cheiro do café
perpassado pela alvorada.
deixo o teu leito
com a incerteza
de um retorno tranquilo
à minha ítaca sonhada
– barco sem porto
faço de ti meu ancoradouro –
deixo o teu leito
com um adeus
desacenado
de quem procura te
encontrar,
– após batalhas
contra troianos, ciclopes e
sirenes encantadas –
Na próxima
dedirósea manhã.
Diz-nos Antônio Carlos Secchin no prefácio que “… é nessa tensão – de dizer-se pelo viés de transformar-se em algo sempre diverso – que reside a força maior de rarefeito”.
Não sou crítico, nem pertenço à Academia. Percorri o livro como leitor de poesia e poeta, e digo que não foi difícil. Vivo neste mesmo ambiente, muitas vezes inóspito; embriago-me na mesma altitude onde é raro o oxigênio e onde a tontura deixa obnubilada nossa memória; indago as mesmas coisas; percorro os mesmos beirais, vou de leste a oeste, consciente da imanência do corpo e, como no poema, “Vésper”,
eu,
vésper celeste,
despeço-me
de minha
imortalidade
para, enfim,
encontrar em
teu corpo
– em não mais que uma hora
eternamente breve –
a luminosidade
inebriante do pulsar
do perecível
agarrando-me à musa, nessa falsa transcendência do infinito instante.
Jorge Elias Neto (1964) é Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Prêmio SECULT – ES – 2013), Glacial (Ed. Patuá – 2014) e Breve dicionário (poético) do boxe (Ed. Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Germina, Diversos Afins, Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira de número 2.
Sónia Oliveira

anamnese
sofro
de obstipação emocional unilateral
tenho de fazer um clister a uma aurícula e a um ventrículo
e de laquear a veia do nariz
para me vedar a coágulos e a cheiros espessos
e comer uvas
uvas lavadas na água da chuva
e comer maçãs
maçãs lavadas na água do mar
ir
com as marés
chegar
ao contrário das fases da lua
ficar
onde tudo permaneça em movimento
e
terno
***
tudo
tapei-te os medos com ligaduras
embebidas em mel cicatrizante
meticulosamente arrancadas
à minha própria pele
dando nós pequenos
quase invisíveis
que não se prendessem na roupa
sorvi-te os grãos de ansiedade
como pólen que transformava em tempo
bebi-te as palavras ínvias
com os meus lábios feridos
que não chegaste a sentir
ficou-me o travo amargo na boca
a ferida no lugar da pele
e o frasco vazio do mel
que hei-de lavar com água quente
para aquecer as mãos
e reutilizar um dia
sem tampa
***
strawberry passion
é elástica a dor
expande-se e comprime-se
de acordo com o seu acordo
mastigo-a compulsivamente
receio perder-lhe o sabor
mastigo-a com os ossos com as veias com os pulmões
perfuma-me
emulciona-me
pre
enche-me
***
janus
é estreito o corredor desta casa
há que passar de lado
roçando os ombros o peito
as coxas e os calcanhares
a dada altura o corpo é parede e a pa
rede corpo
como se a verticalidade se impusesse
numa espécie de ética física
talas em vez de pórticos
um corredor sem portas
que desem
boca não se sabe onde
a cal cobre a pele de pó
e os dedos deixam um rasto de estrelas
sem frente nem verso
***
frango com esparguete
dois corpos
dois copos vazios
um corpo
janelas fechadas
almas escancaradas
dois corpos
a mesa posta
o jogo na mesa
quatro pratos sujos
a televisão acesa
***
dieta
no precário equilí
brio das horas
balanço o meu peso
peso o meu balanço
e não consigo andar direita
a dieta não se compadece
do lastro
e a gravidade suga-me a alma
mais do que devia
de dia
arrasto um saco de sombra
que o sol me impõe
à noite
sou toda sombra
e arrasto-me
saco de pele e s
obras
Sónia Oliveira nasceu em Luanda, em 1972. Estudou literatura na Universidade Nova de Lisboa. Traduz livros e filmes. Tem textos publicados nas revistas online Preguiça Magazine, Minguante, no fanzine suíço Milk+Wodka, na antologia de poesia visual, nas revistas Flanzine e DiVersos, Poesia e Tradução, assim como em vários números da publicação Nem Só de Gin Vive o Pinguim. Participou na exposição itinerante Poesia Quase Anónima – A Poesia na Blogosfera Portuguesa, realizada pela associação Mercado Negro, Aveiro. Mantém, desde 2006, o blogue triplicado. Em 2012 publicou o livro de poesia antenas, uma edição pirata da Palavras por Dentro.
Fernanda Fazzio

A primeira margem
Eu sou o Bobo da cidade. Porque, em todas as cidadezinhas com pôr do sol entre as montanhas, precisa-se de um tolo, de um idiota, daquele a quem todos se referem como o lunático-fracassado-da-cidade. Sim, eu, muito prazer. Mas nada peço a ninguém, não preciso de esmolas, só propicio um encontro quando me ordenam. Eu, descuidado, vivo assim mesmo, no meio-fio de uma existência imprecisa. Um poeta um dia disse: “Esquecer é des-existir”. E fiz disso meu amuleto profético, eu não desisto, eu existo tecendo o vislumbre do invisível.
No começo dos tempos, já invejei os homens engravatados da cidade grande, aqueles que saem de casa com aroma de pó de café. Percebo que gozam de uma rasa felicidade, agarrando com destreza uma gravidez próspera de certezas, mas não percebem que são escravizados dia a dia por aquilo que mais lhes falta: tempo. E depois se corroem pelos equívocos de suas vidas empacotadas – meras verdades chamadas de absolutas e que costumam ser levemente incômodas. Isto também acontece por aqui, algumas pessoas se acham, sem mais, imortais. Formados para obter resultados, às vésperas do dia final, arrependem-se de uma existência com sentidos rasgados, amores incompletos e escolhas interrompidas em uma vida que não valeu a pena ser vivida. E o que lhes resta? O indizível, eu lhes digo, junto ao seu último suspiro.
Eu logo percebi que essas coisas não eram para mim, sujeito de uma autoria que não se escreve em pauta, mas que se esgarça entre uma linha e outra da existência. Foi então que, certo dia, adormeci no trajeto, cheguei até o final da linha do trem e, distraído, vim parar aqui em Vila Grandina.
Sou odiado por muitos, não nego. Por sempre conversar com os detalhes inquietantes da cidade, sutilezas despercebidas aos olhos comuns, sou conhecido por muitos como “aquele lá”. E quando me chamam, algo da ordem do oculto parece surgir. Mas, como eu lhes disse, sou necessário aqui. Sem mim, Vila Grandina se tornaria uma cidade ainda mais morta, sem memória, sem lembranças, sem passado nem mesmo uma história.
Admito que meus pensamentos desaforados são como as águas dos grandes rios. Em tempos de chuva, chegam como enchentes aos ouvidos desavisados. Minha consciência lampeja quando sou tomado por ideias estranhas sobre os moradores daqui. Meu talento é decifrar as pessoas desta cidade, até aquelas que parecem mais assustadoras do que eu. Eu sei de tudo, conheço o jeito de cada andar, os seus perfumes caros ou comprados de viajantes clandestinos, os vícios mais secretos e as singelas virtudes em suas vicissitudes. E também o mais terrível escondido: eu sei dos segredos, das histórias contadas por jurados, dos encontros sorrateiros, até das lembranças que deveriam permanecer esquecidas, que faço retornar como reminiscências opacas.
Moro nas coisas deixadas pelas pessoas. Carrego tudo o que posso comigo, nunca me desfaço de nada, tudo aqui assim, junto a mim, nesse lhano carrinho de mercado. Ando a cidade inteira com ele. Os moradores de Vila Grandina se livram do lixo de suas casas, mas não conseguem tirá-lo do bairro. E as pessoas me veem atravessando as ruas com essa carga de outros e não me compreendem. Crença ou ciência, eu também já desisti de tentar explicar sobre as incessantes vozes lancinantes e memórias perdidas. Mas mesmo assim elas me dão comida, às vezes um casaco ou um livro. Talvez porque ainda me reconheçam dos anos de trabalho na Biblioteca Municipal, dos tempos de uma vida ordenada, regrada por garantias institucionalizadas. Contudo, foi preciso abdicar de tudo, essa minha essência necessita de solidão, de quietude sem lugar comum. Só assim chego à superfície do manto de angústia quase insuportável, meu companheiro fiel no desespero gelado.
Nunca se viu por aqui, nem se ouviu de terras longes, do enterro de um anão, menos ainda de uma anã. Talvez eles nem se autorizem a aparecer com as marcas do tempo. Eu sempre penso sobre isso. Os anões não morrem, como dizem, viram alguma outra coisa, não se sabe ao certo à qual maldição estão destinados. Crueldade ou destino, pouco importa agora, as atitudes mais terríveis são por vezes camufladas em perfumes importados e saltos de verniz, doces vozes escondem as ações mais desagradáveis.
Às vezes eu vou até os trilhos abandonados onde a pequenina foi encontrada e me recordo do dia em que ela chegou aqui. Fico à procura de alguma explicação para não deixar aquele corpo condensado morrer em mim. As vozes silenciam naquele lugar, acho que não podem se manifestar ali, há sem dúvida algo de sagrado nos cascalhos. Por isso, quando estou perturbado em meus devaneios confusos, vou até a estação para tentar assentar minha cabeça no lugar. O único que me acompanha fielmente nesses retiros é Preto, ficamos sentados nos trilhos, olhando um para o outro, desatando sentidos em um infinito sem tempo. Eu tenho cá para mim que ele sabe de tudo, mesmo em sua condição de gato que emudece o seu miado, eu sei que não ignora o fim da pequenina. Nós bem sabemos que ela deixou esse mundo na sutileza da sua menor grandeza.
Fernanda Fazzio é psicóloga pela PUC-SP e bacharel em Teatro formada pela Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). Buscando aperfeiçoar a sua escuta clínica, especializou-se em Semiótica Psicanalítica: Clínica da Cultura (PUC-SP) e realizou a sua formação em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae. Escreveu a “A Inquietante Beleza do Feio” (Patuá, 2014), livro de ensaios e contos poéticos sobre as máscaras, o feio e a criação artística.
Alvaro Posselt

Uma folha cai
Sem pressa a estação começa
dentro do bonsai
***
Na ponta do anzol
um isqueiro serve de isca
pra fisgar o sol
***
Embala o meu sono
É rede sem ter parede
o vento de outono
***
Passa a correnteza –
O reflexo da libélula
o rio não leva
***
Nem fome nem sede
O gato em cima do telhado
é só um quadro na parede
***
Dias desiguais
Agosto deixa no rosto
uma ruga a mais
***
Na pauta tem blues
As aves enchem de claves
os fios de luz
***
Repleta de inseto
a casa tem um par de asas
em cada objeto
***
Um passo e dois tombos
Sem ai, o bêbado cai
sobre os seus escombros
***
Brisa da manhã –
O olhar é mais lento
que o carro de bois
Alvaro Posselt nasceu em Curitiba. É professor de português. Publicou “Tão breve quanto o agora” (2012), “Um lugar chamado instante” (2013), “Entre arranhões e lambidas” (2014) e “Kaki” (2015). Alguns de seus poemas estão nas embalagens de Poëse, novo sorvete da franquia Los Paleteros, e também fazem parte de um mural na Travessa da Lapa, centro de Curitiba. Divulga voluntariamente o haicai através de oficinas em escolas públicas.
Por Larissa Mendes
BAIA – A FÚRIA DO MAR
Se a publicação de uma obra é um processo semelhante a gerar um filho, Maurício Simão de Moraes – Baia, para os íntimos ou não – é Mr. Catra e não pai de primeira viagem. Explico: lançado em dezembro pela Som Livre, A Fúria do Mar (2015), é fruto da licença-paternidade do músico após o nascimento da primogênita, Dora, hoje com 2 anos. Brincadeiras e exageros à parte, as 13 faixas do sucessor de Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada (2013) transitam entre MPB e pop-rock (com um quê nordestino), do baiano radicado no Rio de Janeiro. Entre fraldas, mamadeiras e regravações (pela primeira vez Baia interpreta canções de outros artistas em um álbum solo), o compositor não perde a doce doçura e nem os versos certeiros, seja para falar de amor ou de política. As três faixas lançadas no EP Ladrão Que Rouba Ladrão, ainda em setembro do ano passado, deram uma prévia do que viria a ser seu oitavo registro: o mar até pode estar em fúria, mas Baia está em festa.
A primeira faixa, a homônima A Fúria do Mar (é canoa furada/não tem bóia/nem bote salva-vida/é caso perdido/não tem dó/não dá pé/não tem saída), composição de Gabriel e Pedro Moura, lança o álbum na correnteza, com um balanço peculiar de barco em alto mar, avisando que “quem não tem fé, aprende a rezar”. Se Namoro (fui lá na Igreja pra rezar/pra pedir tudo o que faltou/pra Deus me dar o seu amor/levar daqui a solidão/vou seguir meu caminho) contesta o futuro de uma relação, a poética Muda (a voz a melodia/o amor a vida/o sol o céu do dia/o sal a comida) comprova as inevitáveis mutações do viver. A canção que batiza o EP, o rock Ladrão Que Rouba Ladrão (dizem que eu roubei um banco/saí do caixa com o dinheiro na mão/segui com minha cabeça erguida/fui um ladrão que rouba ladrão) ilustra bem nosso questionável sistema bancário. Enquanto a paternal Dora (bem-vinda à nossa terra/aqui começa a sua história), é uma homenagem ao nascimento da filha, Toda (quero você com teus erros/defeitos, segredos/tua forma de gostar/quero você do teu jeito/porque se eu te quero/eu tenho que te aceitar/toda), da banda Mané Sagaz, possui a tônica poeta-palhaço de Baia, citando de Nietzsche a Glauber Rocha (passando pelos sorvetes Häagen-Dazs).

Quanto às versões, os destaques ficam a cargo da sempre contagiante Caio no Suingue (eu tô cantando, você dirigindo/o outro tá rezando, alguns se divertindo/muitos precisando, poucos conseguindo/se todos realizam algo, o mundo segue o seu caminho), sucesso de Pedro Luís (& A Parede), lançada originalmente em 1997; Vagabundo Confesso, da banda catarinense Dazaranha, canção de 1998 e de Pode O Céu Cair (pode o céu cair, pode o mundo desabar/no ruim de tudo a gente sempre tem/um bom motivo para sonhar), de Tonho Gebara, guitarrista e amigo de Baia, falecido em 2004 e já homenageado na canção Lado Oposto, no álbum ao vivo, No Circo (2009). As reflexões baísticas são expressas no pseudo-baião Tem Fila (a vida passa e essa fila/que não anda/vista de cima/pelas quadras serpentina) que menciona com graça, de banheiro a banco, as aglomerações em linha reta; na emprestada Montanha (eu que não sou só queria ser alguém que/pudesse dizer/quem sou eu que não sou só queria ser/alguém que soubesse dizer) e em Malabar (tudo o que já foi escrito sobre o ser humano/na intenção de tentar lhe compreender/não foi capaz de escapar a tremendos enganos/como querer compreender/tudo o que há entre eu e você).
O álbum encerra com o blues Suíte Bourbon 1407 (e um cartaz exigindo: privatizem a Odebrecht!/o povo anda doido, embrulhado em manchetes/e eu trocando de roupa onde o Diabo se veste/aqui em cima do Moro), inspirada na Operação Lava-Jato, fazendo trocadilho com o juiz Sérgio Moro e citando a empreiteira Odebrecht. Nada mais oportuno para alguém politizado e preocupado com as causas socioeconômicas (vide suas redes sociais) como o artista.
Apesar de assinar apenas 5 canções (Ladrão Que Rouba Ladrão, Dora, Tem Fila, Malabar e Suíte Bourbon 1407) do álbum, todas as outras faixas dialogam com sua obra e ganham uma verve autoral, tal vivacidade e astral impressos pelo músico. Aliás, é difícil identificar quais composições não são de sua autoria, graças à escolha do repertório revisitado – que muito se assemelha com sua poética – e a unidade do trabalho. Em fúria ou na calmaria, nosso híbrido de Raul Seixas com Chico Science permanece com olhos atentos de menino. Agora, um pai-menino. Viva Dora e a República de Baia.
Larissa Mendes é misto de fúria do mar com doce doçura.