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110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Estradas feitas para se perder

Por Sérgio Tavares

Trilogia do Asfalto Capa

Um dos efeitos mais audaciosos do exercício narrativo é extrair da linguagem uma sonância que repercuta os traços da ambientação da história. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, é um exemplo vigoroso deste emprego conectivo. O romance, que se passa, em grande parte, na geografia desidratada do sertão nordestino, empresta desta paisagem a ressequidão que constitui sua tessitura, suas frases concisas e esfarelentas. Desde a abertura, a prosa se apresenta destituída de viço, compassada pelo demorar dos pés que avançam quase terra, que se racham quase carne.

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala”.

Em “Trilogia do asfalto”, o baiano Dênisson Padilha Filho se arrisca na execução do mesmo procedimento, e se sai bem. Os contos que compõem a breve coletânea (dois dos quais previamente premiados) são construídos através das economias verbal e narrativa, incorporando ao alicerce semântico a aridez por onde circulam seus personagens. Indivíduos cobertos pela “poeira cortante” das estradas, da vida que pretende uma aliança com o passado a fim de endireitar a rota para o futuro. O caso é que o presente se mostra desgovernável, um progredir que não dispõe das indicações devidas.

“Era um céu de fotografia. Mas pra quem vive à beira daquela rodovia, o azul era tempo encerrado pra chuvas; o calor fazia algo como mutirões pesados. Primeiro, o castigo das nove, depois, um mais severo às onze. E então, já não se via mais ninguém andando pelo asfalto. Janelinhas e portas das casas eram bocas ofegantes. Longe, algumas serras tremiam. Um ônibus parou e ele desceu, só ele, com sua mochila. Parecia não estar muito certo do que acabara de fazer”, assim tem início o rascante “Naquela manhã de fogo”.

No conto, um viajante faz uma parada numa venda à beira de uma rodovia, gerenciada por um sujeito desolado e seu pai, um velho cego de um olho. Ele se dirige à cidade vizinha, onde nasceu, em busca de resposta sobre o homem que entende como seu pai. Protegidos das “ondas de calor que assolavam a terra” do lado de fora, empreenderão um diálogo de contenções que revelará que, na expectativa de que algo aconteça, estarão presos em suas próprias existências. “A gente nem vai nem vem… a gente fica”, conclui o vendedor.

Dênisson trata da impotência, de uma maneira alegórica. Apesar de lançados em jornadas, seus personagens ora seguem estacionados na ideia de partida, ora fazem um movimento contrário em seus íntimos. No conto seguinte, “Como assim, dar pra ele?”, a narradora passa em revista a relação com o marido, enquanto viajam, a contragosto dela, rumo a uma fazenda de café, por conta de um feriadão. No carona, vai um amigo, que terá um papel dissonante dentro do fluxo mental no qual ela busca entender como o casamento atravessou a paixão e chegou a duas pessoas que sequer se olham.

“Eu tenho uma vida inteira pra lhe contar; você nunca quis saber, é verdade, mas antes, ao menos você era meu herói e eu era sua virgem roubada; você sondava meu fogo e meu amor por você. Hoje, pouco lhe importa o gelo da minha pele, que já se esqueceu de seus dedos. O que mais dói em mim, já quis saber nos últimos dois anos? Sem chance, não é? Por isso me enojam suas certezas, e mais, contar a você de minha vida, minhas alegrias, é hoje, mais que uma necessidade, é uma vontade; eu quero ferir você, faço questão”, confessa.

Novamente a prosa se alia ao cenário, criando pontos de tensão em momentos em que a estrada se mostra mais perigosa. O autor entrega a condução da narrativa a uma voz que, por não conseguir se propagar no outro, torna-se perdida, solitária. Isso se agrava no último conto, “Roupa íntima, amor felino”, sobre um fracassado que separa a vida entre se embriagar e detestar os gatos que lotam o prédio em que mora. Amargurado por conta de um amor não correspondido e sem emprego, passa a ocupar o quartinho do zelador, onde começa a decifrar os hábitos dos moradores de baixo para cima. Obviamente, quando não está num bar, à procura de alguém que ouça suas tristezas.

“Em todo boteco há um pouco de carinho de mãe para com seus assíduos. Você senta no bar ou joga sua tonelada de dores no balcão e ele lhe põe uma dose como se dissesse, ‘esqueça, filho, amanhã as ruas estarão cheias de flores’. Não é impossível, mas é muito difícil encontrar um garçom simpático quando se pisa num bar pela primeira vez. Se você volta no dia seguinte não. Aquilo pra ele é um elogio e ele retribui com gentileza. Na primeira vez você é só mais um aventureiro tentando se refrescar, e garçons detestam aventureiros”.

Pondo em marcha um sentido de unidade, a coletânea parte de uma busca e termina num gesto resignado de quem já não consegue chegar a lugar nenhum. O asfalto pavimentado por Dênisson serve para se lançar ao mundo, mas também para se encontrar com o próprio fracasso. Nem todas as estradas apontam um destino. Há também aquelas feitas para se perder, para, como escreveu Graciliano, ficar preso nelas.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberta Silva

 

suzanalatini
Foto: Suzana Latini

 

O Lamentável fim da família de Dr. Conrado, o Benemérito

 

Moro numa daquelas casas que rodeiam o belo Central Park, nome atual do antigo parque da Colina, área nobre de nossa pequena e antiquada cidade. Ao redor desse parque, a nata de nossa sociedade. Famílias invejavelmente bem sucedidas e felizes que passam os domingos fazendo piqueniques no verde gramado do parque, como este fosse, e é, uma extensão de seus jardins. Nossa cidade é próspera, apesar da pequenez e pacata, apesar da rotina e grande distanciamento social entre as classes. Somos pacíficos e católicos e isto nos basta. Durante muitos anos, somente dois acontecimentos causaram escândalo entre o seleto grupo dos moradores do parque. O primeiro foi minha mudança para cá. Eu, Maria da Piedade, ou Piê, como era chamada no posto de saúde em que trabalhava como atendente de farmácia, filha de mãe solteira, herdei esta casa de meu pai, um ilustre personagem político da cidade. Seu desejo último foi redimir-se de sua omissão deixando para mim todos os bens que possuía. Nos primeiros anos fui apontada por meus vizinhos na rua e no parque e, primeiro por causa de uma exclusão descarada, depois, por convicção, passei a aproveitar os domingos na janela a observar o balé social, no qual bailam e representam nossa tosca comédia as pessoas respeitáveis de nossa sociedade. Deixaram de falar de mim após a morte de Dr. Conrado, o benemérito. Morte lamentável, mas não tanto quanto o lamentável fim de sua família, que aconteceu após a trágica morte.

Dr. Conrado era um advogado conhecido. Bonito, jovem, culto, bem sucedido. Era casado com uma mulher bela, jovem, culta, extremamente tímida, excelente dona de casa e pai de três adoráveis, educadíssimas e também belas crianças, o primogênito e duas meninas. Eram invejados pelos vizinhos, inveja branca dizia-se, daquela que não se deseja o mal. Exemplo vivo de uma família perfeita. Durante as tardes de domingo, no parque, estavam sempre rodeados de amigos. Seus quitutes eram fartos e os mais saborosos, a conversa deles era a mais agradável e suas crianças nunca davam um pingo de trabalho. Quando as mães tinham de ralhar com seus filhos por terem cutucado os peixes do lago com espetos ou darem rasteiras nas bengalas dos velhinhos, quando uma esposa descontente cobrava do marido um pouco mais de zelo ou um marido, cansado das lamúrias da mulher, desejava secretamente que a dita engolisse a língua e se calasse numa crise convulsiva de auto sufocamento recorriam à imagem da família de Dr. Conrado como exemplo a ser seguido, meta a ser atingida. Eram assunto também, nas rodas, as diversas obras de caridade que patrocinavam e as gordas doações nos jantares beneficentes feitos por ele e sua família.

Como num conto de fadas invertido, essa era uma história feliz que tivera um triste final. A princípio notaram que o jardim de Sra. Conrado não estava mais impecável. Ervas daninhas proliferavam a olhos vistos e depois estas substituíram definitivamente os lugares de destaque das folhagens nobres. O pior era que isso não acontecera por falta de zelo, tristeza recolhida ou luto. Parecia que a jovem viúva estava dando os primeiros sinais de enlouquecimento. Fora flagrada diversas vezes cultivando os capins, carrapichos e ervas de passarinho no que agora não era mais uma pálida sombra do lindo jardim de antes. Pararam de frequentar o parque aos domingos. O filho mais velho, depois que adolescera, perdeu-se completamente. Fazia teatro de rua, pintava os cabelos de cores vivas e os olhos e as unhas de preto. Viam-no circular com um colega um tanto afeminado diversas vezes pelo bairro em conversinhas purpurinadas, trôpegas e cheias de risinhos. A filha do meio vestia-se à moda dos novos hippies e vivia acompanhada de pessoas que não condiziam com sua classe social. A caçula ainda trazia muito dos modos de antes da morte trágica de seu pai, mas temiam cedo ou tarde contaminar-se também com o caos que se instalara no seio daquele lar. No seu andar, apesar de ainda elegantemente vestida, notava-se um leve desleixo nos movimentos, um desleixo que não se permitiria antes, visto que era, dos três, a mais elegante. Pela ausência demorada aos piqueniques de domingo descartaram a possibilidade do luto familiar, pois saiam todos, nesses dias, animados em seus novos trajes, rumo a um programa desconhecido além das fronteiras do rico boulevard.

Pela janela presenciei a chegada de um caminhão de mudança que parou à porta da casa da família de Dr. Conrado. O grand-finale deste escândalo será quando descobrirem que Sra. Conrado está de mudança. Com a família, mudará para outro lado da cidade para amasiar-se com um livreiro comunista e pé rapado com quem ela havia tido um pequeno affair na juventude. Superará, por certo, em pontos de audiência a notícia da morte do estimado doutor após ingerir uma sopa de mandioca brava, preparada para ele pela zelosa esposa, naquela tranquila noite de inverno.

Conheci Sra. Conrado tempos antes de me mudar para cá, durante os anos em que ainda trabalhava na farmácia de um posto de saúde afastado. Ela veio pegar gratuitamente os medicamentos receitados pelo doutor do posto em nossa farmácia. Ela apresentou-se na portinha apresentando a receita, minha repulsa foi imediata, pois se via logo de cara que era uma mulher que não precisava dos medicamentos grátis que distribuíamos para as pessoas menos afortunadas que eram tratadas ali. Era uma lista enorme, antiinflamatórios, antibióticos e ataduras. Ofereceu-se muito constrangida para pagá-los e senti-me um tanto arrependida pelo julgamento precipitado. Depois daquele dia, ela voltou várias vezes. Comentava-se a boca pequena entre os funcionários a natureza de suas consultas secretas. Ela entrava, às vezes só, outras acompanhando um dos filhos e depois passava na farmácia. Nunca dizia nada e parecia resignar-se ou não perceber os olhares de reprovação dos outros pacientes e funcionários dali.

Num dia igual a muitos outros, em que ela havia ido ao posto em busca de cuidados e remédios, sem motivos aparentes, ignorando completamente a fila que formara atrás de si, começou a falar. Sua voz era baixa e suas palavras polidas e bem escolhidas. Contou-me como alguém contaria a um padre em uma extrema-unção sobre como havia conhecido o marido. Após um namorico problemático com um colega de escola de nível social muito inferior ao dela encontrou-o, recém formado, belo, companheiro e disposto a terminar com suas angústias para sempre. Foi o casamento dos sonhos. Pouco depois da lua-de-mel, o marido dera os primeiros sinais que nunca esqueceria que um dia ela havia amado outro homem. Desconfiava de seu amor. Vasculhava suas coisas, seguia-a pelas ruas. Primeiro veio as discussões à meia voz para não serem ouvidos pelos empregados. Depois o primeiro tapa, o primeiro soco. A primeira gravidez frustou-se em um aborto devido a um chute que levou na barriga. Tirando a vez em que ele lhe socou a primeira vez, as outras nunca lhe deixaram hematomas que não pudessem ser omitidos por uma blusa, um echarpe, um xale. O médico da família ameaçou denunciá-lo, depois que se esgotaram as desculpas para os ferimentos e infecções, caso ela não o fizesse pessoalmente. Ela não o procurou mais e nas reuniões em que se encontravam convencia-o de que não aconteciam mais aquelas coisas e que estavam todos muito bem e felizes. Além do ciúme, sua excessiva mania de limpeza e perfeccionismo o fazia perder a paciência com a menor sombra de poeira ou objeto deixado fora do lugar. Isto era mais fácil de controlar antes da chegada das crianças, mas depois dela sua vida era uma eterna inspeção atrás de coisas que pudessem desagradá-lo. Lógico que os filhos não podiam acompanhar o cuidado da mãe. Vez ou outra deixavam cair um talher, manchar um vestido ou soltavam uma risada inoportuna e também sofriam com os corretivos do zeloso pai. Ouvi calada e depois a chamei para dentro do meu cubículo. Atendi as pessoas que esperavam na fila rapidamente e tranquei a portinhola. Conversamos durante algum tempo. Ela dizia que não havia como sair de lá. Todos iriam ficar contra ela, era impossível imaginar que Dr. Conrado, o benemérito, fosse capaz daquelas coisas. Ele mesmo a advertira que a internaria num manicômio caso tentasse levantar algum falso sobre sua honra. Ficamos amigas, eu a ouvia, quase todas as semanas, sobre a violência que aquele homem cometia impunemente contra a família acuada e indefesa. Um dia decidi por tentar ajudá-la. O filho tinha sido submetido, pela terceira vez, a uma sutura de pontos de um ferimento. O pai tinha por ele uma fúria mais contundente. Dizia que daria àquele ser patético uma postura máscula e viril nem que para isso tivesse que quebrá-lo em pancadas. Eu disse à minha amiga que tinha como dar a ela um veneno que ela poderia misturar a sua comida e ele morreria rapidamente. Sugeri que ela fizesse uma sopa de mandioca, pois era sabido que esse tipo de alimento vez ou outra causava uma desgraça.

O velório foi preparado com muita pompa pela família do doutor. Queriam aproveitar a visita relâmpago do governador pela cidade e pediram ao diretor do hospital, que era o mesmo que acompanhava a família do venerável defunto, para que fossem dispensadas as formalidades e que este assinasse o atestado de óbito o mais rápido possível. Foi mais fácil que imaginavam e foi, na época, aquele velório o evento social mais elogiado nas colunas sociais.

 

Roberta Silva é escritora, edita o blogue Ragi Moana. Tem poemas publicados na internet, entre outros sites, na revista Germina e no Escritoras suicidas. Faz parte de Dedo de moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Vive em Belo Horizonte.

 

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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Clara Baccarin

 

Suzanalatinibarco

 

Terra de refugiados

 

Refugia-se no coração,
que o amor não conhece fronteiras
Migra para a terra do sentir
que ela sabe acolher
com mais humanidade
Mora num poema
que ele tem raízes
em si mesmo
e fala todas as línguas

 

 

***

 

 

Escracho

 

À mulher resta o escracho
Faca fincada na fenda
da concha fechada
Força de esfacelar a lâmina
na dureza da casca
Cacos líquidos
Sangues ruídos
Nas mãos parir
as próprias vísceras
E ver pérolas se dissolvendo
na raiz do desmistificar
À mulher fica a possibilidade
de uma vida cedida ao escavo
de tudo o que não tem nome
e o que não pode ser
À mulher fica a cruel tentativa
de nascer num mundo de abortados
À mulher resta um desobedecer
macerar no peito e nos olhos
o certo e o errado

 

 
***

 

 

 

Escoa

 

Poesia
Palavras sem rédeas
Delatando sentimentos alados
Forma que deforma e aflora
Deflagra uma substância escondida
No buraco negro do inconsciente coletivo
Susto de uma nudez de alma
Que não se conhece do avesso
Mas, mesmo assim, escoa
Num ato desconhecido
De prazer ou de dor

 

 

***

 

 

Instruções para lavar a alma

 

Lavar a alma à mão
Que é de estrutura muito delicada
E assim, manchada de tantas palavras,
Requer cuidado redobrado
Para voltar a ser quietude

Secar a alma em solidão
Estender na linha do tempo
Do próprio quintal
Na parte que bate
Um sol coado, sereno
E faz pendurar as pálpebras
No sono dos que sabem esquecer

Passar a alma a limpo
Cortando os preciosismos
Os excessos prolixos
O peso dos desnecessários
Acessórios

Vestir a alma nua
Na sua mais nova pele
Nos olhos um brilho tranquilo
E uma vontade recém nascida
De ir brincar na rua

 

 

***

 

 

Porta

 

Viver em paz é saber
Entrar nos corações
Sem precisar bater à porta
E sair dos corações
Sem precisar bater a porta

Que amor bom
Entra sem esforço
E sai sem fazer barulho

 

 

***

 

 

Tirei o corpo fora, mas o coração ficou atrasado.
Dei um passo maior do que a velha alma.
Empurrei minha cegueira atrofiada no precipício
para ver se despertava voo.
Quis atiçar a vida com vara curta,
ela acordou e eu ainda tenho medo.
Meus pés são rápidos para descalçar os sapatos,
mas meus pensamentos demoram a perceber
a se deixarem esparramar na alegria da nudez.
Vestida de felicidade ainda choro.

 

 

***

 

 

Um piscar de asas

 

O mundo acaba:
Entre o perigo
E o abrigo
Entre as roupas sujas
E as bem lavadas
Entre os enlaces
E as mãos atadas
Entre as tempestades
E os copos d’água
Nos resta apenas
Um piscar de asas

 

Paulista de Jaboticabal, Clara Baccarin é a moça interiorana e letrada que viajou o mundo e nasceu com a inquietude da poesia nas veias. Escritora assídua nas redes sociais, é colunista de diversos blogs sobre literatura, arte e estilo de vida, escreve crônicas que seguem um estilo livre, despojado e poético. Formada em Letras (Unesp) e mestre em Estudos Literários (Unesp), publicou dois livros, o romance ‘Castelos Tropicais’ (Chiado ed., 2015) e a antologia de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’ (Sempiterno ed., 2016).

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road). Austrália/EUA. 2015

 

Madmax

 

Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, foi realmente a maior surpresa do cinema de 2015. Quarto filme de uma franquia que tem muitos fãs, mas foi subestimada pela crítica especializada, este último episódio, no entanto, recebeu uma aclamação generalizada e esteve presente em praticamente todas as listas de melhores filmes do ano passado, inclusive das mais prestigiosas revistas, tais como Cahiers du Cinema (5º lugar) e Sound and Sight (3º lugar). Em 2016, tornou-se o filme mais premiado do Oscar.

Mad Max iniciou por ser uma série de ação de ficção científica distópica de comparativo baixo orçamento (380 mil dólares), mas que rendeu mais de 150 milhões nas bilheterias no filme de estreia. Esse filme, criado ainda nos anos 70, narra um futuro pós-apocalíptico dominado por gangues violentas. Desde o início, os automóveis têm uma função de protagonistas, como máquinas mortíferas. George Miller, antes de se tornar diretor, era um médico de hospital na Austrália que atendeu a vários acidentados e perdeu amigos em desastres de carros. Vivia-se na época sob os efeitos da crise do petróleo e da “revolução conservadora”. Toda a série oscila entre certo fascínio mórbido pelo automóvel e, ao mesmo tempo, como um libelo contra sua existência. O automóvel é, ainda mais do que o protagonista Max Rocktanski, o herói e o vilão dos filmes.

Formalmente, o filme ganhou fama por sustentar uma estética “thrash”, de filme “B”, de uma rudeza cinematográfica semipunk. Poderíamos chamar essa estética de “brutalista”. O primeiro filme (1979) se assemelha a um “Laranja Mecânica” tosco, realizado com poucos recursos, e abordando uma sociedade sem lei. Miller se mirou na cinematografia dos filmes mudos e fez um enredo de poucos diálogos para apresentar um cenário ainda mais desumanizante e com muita violência, quase sempre insólita e desmotivada, o que fez alguns críticos o denunciarem como contendo uma estética fascistoide, o que nunca foi intenção de Miller. Os outros dois filmes da série (em 1981 e 1985) tiveram maior orçamento e foram realizados dentro de uma crescente espetacularização cênica, transformando-se em sucessos comerciais e parecendo saturar sua fórmula cinematográfica ainda nos anos 80.

Estrada da Fúria é o “renascimento da franquia” (o termo é de seu diretor e roteirista) exatos 30 anos depois que propõe uma nova síntese estética que espantou os críticos e desnorteou seus admiradores. Uma de suas principais virtudes é Miller ter se recusado a realizar um “retorno às raízes”, ou a rescrever o primeiro filme de outra forma (“remake”), como fez o decepcionante The Force Awakens, da série Guerra das Estrelas, apenas uma versão “século XXI” do filme inicial. O novo filme da franquia Mad Max não é apenas o “mais do mesmo”, mas segue uma nova e radical concepção que atualiza a série para novas direções, fortemente politizadas.

A síntese estética que Miller propõe não é um retorno à rudeza básica de baixo custo do filme de abertura, mas é subir no nível de espetacularização (é o filme mais caro) e levá-la para um patamar de excesso audiovisual, não propriamente kitsch ou “thrash”, mas de “grotesco espetacular”, ou “hipergrotesco”, um excedente imagético-sensorial que a todo momento perturba a ordem blockbuster da realização cinematográfica do filme de ação comercial. Importante anotar que a obra é fruto de um trabalho de mais de dez anos (desde 2003), tendo sido concebida, escrita e reescrita pelo próprio diretor e com vários atores diferentes convidados para fazer o papel de Max, já que Mel Gibson desde o início se recusou a continuar na série. Mesmo depois de tudo acertado em 2010 (com Tom Hardy como protagonista), a produção ainda envolveu outros longos 5 anos.

Charlize Theron
Charlize Theron em Mad Max / Foto: divulgação

Wasteland aparece neste novo filme como um cenário realmente pós-apocalíptico que sucede um grande desastre nuclear. Max é apenas mais um dos que procuram desesperadamente sobreviver. Ele é capturado logo no início pelos “Garotos da guerra” (War boys) e se torna uma “bolsa de sangue”, um doador universal, que fornece sangue a um garoto doentio, Nux que como seus pares está sempre “trincado”. Ele é obrigado a sair com este e sua gangue atrás da Imperatriz Furiosa que sequestrou um Caminhão de guerra para libertar as parideiras do cativeiro sexual do terrível líder Immortan Joe, que domina a miserável população sobrevivente pelo controle da água. Max consegue, no entanto, “mudar de lado”, se alia às mulheres fugitivas e o filme inteiro será essa longa fuga motorizada e sanguinária pelo meio de desérticas e destruídas paisagens.

Com esse enredo simples e distópico, Estrada da Fúria bem poderia se chamar de “Bem vindos ao deserto do Antropoceno”. O filme é cinematograficamente uma intensa alegoria audiovisual desse processo terminal de destruição ecológica e rarefação absoluta dos ecossistemas que desertificam, com a escassez das variedades naturais, sobretudo da água, extinção acelerada das espécies, tudo isso acompanhado pela implosão civilizacional com fascistização do poder, com a guerra permanente, com o domínio das máquinas que se tornam mais importantes do que a humanidade, e com a regressão política para enclaves feudais e tirânicos. A grande sacada do filme é trazer pela alegoria barroca do hipergrotesco e do brutalismo espetacular a distopia para o centro do contemporâneo, pois como tantos bons filmes de ficção científica o futuro é apenas encenado como pretexto para discutir o presente.

Miller consegue isso polarizando os eixos de oposições nos quais o filme se estrutura: a água contra a gasolina, a fuga contra a tirania, a sobrevivência contra o parasitismo, o deserto contra a cidadela, o solitário contra as gangues, o leite contra o sangue, o poder feminino contra o patriarcado e o caminhão contra o automóvel. É claro que, como filme de ação, a narrativa tende para o maniqueísmo e para a oposição simples entre os contrários, mas certas nuances tornam mais complexa a trama.

Por exemplo, a luta entre o caminhão de guerra, conduzido pela Imperatriz com as parideiras, e os inúmeros autos e motocicletas que o perseguem pelo deserto. O caminhão aqui é o signo da coletividade e do “trabalho” enquanto os demais veículos são signos do individualismo e da competição. O caminhão une e reúne as fugitivas e o fugitivo, enquanto a miríade de veículos dispersam seus inimigos.

Mas a polarização mais intensa, dialética e importante é, sem dúvida, a luta entre o poder feminino coletivo e o patriarcado despótico e fascista. Curiosamente, muitos fãs originais da série sentiram-se decepcionados porque o herói natural da franquia, Max, é tornado um mero coadjuvante dessa luta principal. Mas esse deslocamento é que traz o principal interesse político à obra.

This photo provided by Warner Bros. Pictures shows, from left, Abbey Lee as The Dag, Courtney Eaton as Cheedo the Fragile, Zoe Kravitz as Toast the Knowing, Charlize Theron as Imperator Furiosa and Riley Keough as Capable, in Warner Bros. Pictures’ and Village Roadshow Pictures’ action adventure film, “Mad Max:Fury Road," a Warner Bros. Pictures release. (Jasin Boland/Warner Bros. Pictures via AP)
Charlize Theron (direita) na pele da Imperatriz Furiosa / Foto: divulgação

Imperatriz Furiosa (vivida por Charlize Theron) é uma guerrilheira que parece saída do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway (o filme todo parece uma reflexão cinematográfica sobre a obra da bióloga e filósofa americana): com sua prótese manual, ela parece gozar dessa típica indistinção de fronteiras entre o inorgânico e o vital, entre o humano e a máquina e entre o masculino e o feminino. Mas Imperatriz Furiosa é essencialmente uma guerrilheira mulher que sabota o patriarcado tirânico para dar fuga às parideiras da Cidadela, mulheres cativas que parem os filhos de Immortan Joe, e trazer-lhes a “redenção”, palavra que tem um sentido especial no filme.

Immortan Joe, o tirano, parece, por sua vez, saído diretamente da obra freudiana. Ele é uma encarnação do mito do “Pai da horda primordial”. É como se George Miller quisesse mostrar que a regressão política pós-capitalista conduz a esse Pai mítico primordial que estupra e mantém em cativeiro as mulheres, servindo-se de seus corpos e de seu leite, para recriar a horda como seus filhos bastardos, pois há a sugestão que todos os Garotos de guerra são seus filhos. A regressão política distópica então é um retorno ao patriarcado mais primal que mantém a ordem matriarcal e filial sob sequestro e permanente terror.

Assim, é Imperatriz Furiosa (insuspeitável guerreira cativa do exército de Immortan Joe) a verdadeira protagonista do filme e o desvio de rota que ela induz ao manejar com mestria o caminhão de guerra é uma fuga do patriarcado, do cativeiro e uma busca por redenção. A associação das mulheres com Max, no entanto, não se dá naturalmente, mesmo sendo este apenas outro prisioneiro cativo. Um dos elementos dramatúrgicos mais interessantes no filme é justamente a aproximação entre essas duas lutas de sobrevivência, de Max e das mulheres parideiras. A princípio, há uma hostilidade e mesmo uma disputa entre as partes e quando se vê livre, em sua busca desesperada para sobreviver, Max irá desafiar, brigar e ameaçar as mulheres. Afinal, ele próprio é um representante do poder masculino patriarcal e não tem a confiança das fugitivas, nem ele tem delas. Entretanto, a disputa tensa entre as partes se resolve com a consciência de que uma aliança entre as parideiras e o homem fugitivo é a única possibilidade de sobrevivência para todos. Mais tarde ao grupo também se incluirá, por aliança, um dos Garotos de guerra, Nux.  É este jogo de alianças difíceis, mas estratégicas, um dos elementos políticos mais importantes desse enredo. Estrada da Fúria nos fala que não é possível enfrentar um sistema despótico sem fazer alianças estratégicas.

Tom Hardy como Max
Tom Hardy como Max / Foto: divulgação

Outra aliança é construída entre o grupo fugitivo e as Vulvalini, guerrilheiras mulheres que encontram os fugitivos no meio do deserto, onde supostamente deveria estar o “Lugar Verde”, terra idílica onde cessaria a fuga e terra da infância de Imperatriz que foi sequestrada enquanto criança. Essas guerrilheiras, únicas sobreviventes da destruição local, são uma clara referência às guerrilheiras curdas, heroínas da guerra da Síria. Elas se juntam para fugir com a trupe e procurar outro paraíso verde sobre a Terra, mas sem Max que segue para outra direção.

Um dos momentos mais tensos do roteiro é quando Max reencontra as mulheres em fuga para lhes convencer a retornar à Cidadela já que esta se encontra indefesa, pois afinal a Cidadela tem água e vegetação, que são mantidas sobre o controle do tirano. Esse retorno não seria extremamente arriscado e contraditório para a lógica emancipatória do filme que coloca a redenção sob a forma de uma fuga constante? Mesmo o argumento de Max de que não há mais paraíso sobre a Terra, apenas planícies desérticas, não parece realmente convincente.

Talvez pudéssemos entender essa solução – que terá consequências trágicas – como algo mais do que uma maneira de tornar o roteiro dramático. Voltando a Donna Haraway, um dos seus maiores temas é “lutar na barriga do monstro”. Não é a decisão de retornar à Cidadela, por trágica que seja, exatamente o passo para abandonar a lógica do exílio e da fuga e voltar a lutar na barriga do monstro e nos centros das cidades? Pois, se há um sentido possível para as batalhas a serem travadas neste fim do Antropoceno, que alguns também chamam de Capitaloceno, é que não há fuga possível de nossos mais críticos problemas e de nossos mais poderosos inimigos neste planeta finito.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.  

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mariana L.

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

DE VOLTA DE SI

 

Eis que aqui de volta
de mim e de si, e os dois já dizem:
(eu)
por onde e longe pari,
uma consciência
de sumidouro
ciência de construir o artefato
– a óbvia arte do inexato –
que exaure a hora em aura
(tão calma!)
do Existir.

 

 

 

***

 

 

 

A MAIS ATADA À TUA PALAVRA

 

Presa dela
Garras que cortam, ventando,
Tua palavra é meu interno labirinto
Onde as sílabas
Sonâmbulas
Implodem, balsas no porto do pesadelo.
Que me doeria mais o passo que tua palavra?
Ora, sabes que sim…
Mas a ideia tão deslizante que em um “nós” é tornada
Retoma a luz do que fora dito:
Aquela luz
Lembra-a para mim, ah,
Como no princípio, em que o Verbo erra!

 

 

 

***

 

 
LUZ DE ESPERA

 

A sala era imensa
E se estendia pela avenida
Onde luzes debruçadas nas calçadas
Moviam-se pela insônia indiscreta do crepúsculo.

O último homem da terra nesse instante
Sorriu para um pretenso deus morto
E o sol se desvestiu de luz
Buscando
Perdida já qualquer possibilidade de lirismo
sua última sílaba de vida.
(Passando de o Beco de Ávila, Tijuca, jan, 2015).

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DE VISÃO

 

p/ a poeta máxima Else Lasker-Schüler

 

A voz, mais do que o olhar,
É que é o espelho da alma.

Por isso me calo
Frente ao mundo errático:
Deixo-o soar, enfático
E com meu único existir – sináptico –
Eu Fico.

 

 

 

***

 

 

 

SOUSANDANÇACRUZ

 

Clara, clara, mas de pulsar mortal,
Fria-se o que me dói em tua morte, sem violência
Que a essência é fátua, nua e fantasmal
E tua sorte é dom de ver em sepulcral vidência.

Canto sagrado, rachado ao meio de mim
Teu arado de prata é mãe novata de luzes
Cruzes de vileza
Dorme o sono do profundo sem fim
Sidéria Astarte que nos inocula
Escura luxúria
E Spleen.

 

 

 

***

 

 

 

ALMA-LÂMINA

 

a palavra alma
está estrategicamente (es)contida
na palavra lâmina.

 

 

Marianne Liuba Löhnhoff, que assina literariamente Mariana L., nasceu do Rio de Janeiro. Cursou dois anos de Filosofia na USP e Letras na Universidade de Albstadt-Sigmaringen, na Alemanha. Trabalha como tradutora e professora de Línguas, vive entre São Paulo e Rio. Publicou em revistas como a Germina e a Revista de Artes da Kazuá. Lançou, em dezembro de 2014 pela Editora Kazuá, seu livro “A Mais Atada à Tua Palavra – O Caderno de Mariana L., em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B”, que tem a organização, prefácio e posfácio do poeta Luciano Garcez. Prepara o lançamento de seu segundo livro para fins de 2016, baseado na lenda de Fausto: “Kleine Faust”.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Héber Sales

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

ACIDENTE ECOLÓGICO

Pesquisadores investigam por que, poucos anos depois da introdução do Like na sociosfera, a Conversa e o Entendimento entraram para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

Muito preocupados, alguns cientistas recomendam que, nas zonas mais infestadas por Likes, as pessoas coloquem seus smartphones em modo avião. O procedimento costuma manter esses animais afastados um do outro, evitando assim que copulem e se proliferem ao longo do chamado circuito sedutor das redes sociais, área onde reside hoje pouco mais de metade de toda a população brasileira.

Nas regiões em que esse método já foi testado, Conversas de 20 minutos, até então praticamente extintas no local, começaram a ser vistas com frequência novamente. Pelo menos meia dúzia de pessoas declararam ter interagido com elas no jardim ou no quintal da própria casa.

Os especialistas responsáveis pelo projeto estão bastante otimistas com esses resultados iniciais e vivem a expectativa de encontrar a qualquer instante Conversas de 1, 2 e até 3 horas de duração. Com um de pouco sorte, afirmam ser possível achar inclusive algum Entendimento entre elas. O planeta agradece.

***

 

FORMAS DE RESISTIR

Ocupamo-nos todos demais e fazemos ruído demais, procurando um modo de escapar ao inquérito do silêncio. Há tantas questões… Respondê-las não cabe em uma só vida, e nós não temos tempo, é preciso viver. Alguns ainda se calam e se trancam em monastérios, cumprindo os seus rituais sem uma palavra sequer, e mesmo assim não estão alertas o bastante: a liturgia, afinal, exige toda a sua atenção. Compreensível, é realmente duro aceitar tudo como o silêncio nos pede, sem desviar o olhar de nada – as coisas incertas nos parecem más e a certeza do mal nos faz crer que o bem existe.

***

 

O ANACORETA

Foi no parque da cidade, o sol entre névoas dormente ainda, no instante seguinte ao coro da alvorada, quando tudo aquieta e sonda, de si para si, a glória e o terror de um novo dia, o velho professor, ali, na hora em que, por demente ou asceta, sempre se ausentava do cotidiano, resolvera: queria continuar com a manhã.

Esperou o amém de um louva-a-deus para sorte e fez a imaginação correr com um riacho – concebera dar leito às suas visagens, que pudessem se por, uma após da outra, de volta ao sonho, e narrar desde quando renasciam, multiformes e afoitas.

O córrego porém, vadiando em peraltices e folguedos, fez do venerável repetente e barroco: labirinto, de cuja libertação precisou rogar a uma formiga, pelo atentar à sua trilha, para logo a descobrir tão alheia ao enredo quanto ele: a saúva, à paisana, gozava um feriado.

Só lhe restasse então aventurar o devaneio no voo de um pássaro, de modo a lhe dar destino.

Não demorou muito, um sabiá apareceu na boca da mata sobre um galho de marianeira. Eis a sua melhor oportunidade, pronto pensou, pois, além de lhes fazer sentido, a ave colocaria ainda um canto em suas palavras. Determinou-se. Fixou os olhos no pássaro, segurou o meu braço com força e, levando aos lábios o indicador em riste, arrastou-me para dentro do seu silêncio. Era uma questão de vida ou morte, pude sentir, arremeter com o caraxué.

Setembro, com tudo, conspirava contra nós: a temporada havia posto em cada ramo uma farta porção de bagas, e o sabiá, alheio ao velho mestre, já não tinha mais o que buscar no restante do ensolarado – o anacoreta precisaria de uma outra ave, de uma espécie tão estrangeira quanto a dele.

Foi afrouxando os dedos, devagarinho e derrotado, mas sem soltar de todo o meu pulso, pois não se havia seguro vagando sozinho no ermo que o acometia. Logo adiante, à nossa esquerda, observou uma vasta campina de flores desaparecidas; deixou perambular nela o olhar perdido: alguns canários colhiam sementes na gramínea madura; refastelavam-se também noivinhas e cardeais…

Nem nenhuma dessas aves, com tanto, emigrava!

“Elas ao nada se destinam, eu ao nada me destino, e nem você vai mais ao nada além do nada me destinar, em parágrafo algum”, falou finalmente, quase de áspero.

 

Héber Sales escreve. Natural de Pernambuco, reside atualmente em São Paulo, onde coordena o Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada do UNASP (Centro Universitário Adventista) e atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns dos seus textos também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras. Tráfico de Drogas, seu primeiro livro de poesia, será lançado em breve.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Adriana Brunstein

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

A primeira vez que te vi
não teve a Teresa
de Manuel Bandeira
Eram minhas as pernas estúpidas
Eu andava em L
feito cavalo de xadrez
Eu tava com o dedão do pé inflamado
por conta de um alicate não esterilizado
Eu tava descalça
por conta do dedão inflamado
e do alicate não esterilizado
Eu pensava num roteiro
prum filme de ação iraniano
Eu carregava o cartão de um marceneiro
pra que ele derrubasse as certezas
que eu ninava na parte de cima do beliche
Eu quis te fazer uma carícia pela metade
e te receitar suplementos vitamínicos
aqueles cheios de abecedário
Pra que entre nossas palavras
cruzadas
os espaços fossem grandes demais
para fim

 

 
***

 

 
Esse teu gosto por contravenção
Teu talão de zona azul escondido
entre dobras de bebês recém-nascidos
Tua impressão digital no copo de isopor
que apita ardido quando mastigado
Teus retalhos disfarçados
num tom Flicts do Ziraldo
Tua costura remendada
com fios de pescar tainhas
que antes nadavam na banheira
dum velho militar aposentado
Tua mais bonita caricatura:
a loucura
me disse um dia:
eu te amo
Eu não acreditei

 

 
***

 

 

Tenho o nome de outro cara
tatuado no cóccix
caso você queira saber
antes de tirar a minha roupa
que as coisas pra mim
mesmo as que não se apagam
não duram muito tempo

 

 

***

 

 
De esquinas engarrafadas de guarda-chuvas
De porteiros noturnos sozinhos em guaritas
De famílias de policiais abatidos
De trincheiras incorporadas a mapas
De sofás lotados de manifestantes
De máquinas de pinball ao som do The Who
De bilhetes só de ida
De divãs lotados de arquétipos
De roupas pingando no varal
De cem flexões em espreguiçadeiras
De chaves rodando em falso
De sessões da tarde sem Ferris Bueller
De índices bovespa de dores crônicas
De garotos café-com-leite em jogos de queimada
De novas grafias para palavras em desuso
De radares avariados por pedras
De best sellers sem Peter Sellers
De Bruce Willis desistindo
de uma vez por todas
de salvar o mundo

 

 
***

 

 
A gente envelhece
dormindo às dez
acordando às seis
ameaçando pernilongos em voz alta
antes de errar o tapa
A gente envelhece
medindo a circunferência do braço
evitando usar regatas
se cadastrando em site de receitas
e consultando horóscopos
A gente envelhece
dormindo de meias
falando pra manicure
no pé um rosinha básico
A gente envelhece
cantarolando a música
de Ao mestre com carinho
descobrindo na wikipedia
que o sidney poitier
ainda tá vivo
A gente envelhece
recusando convites
lembrando que piqueniques
eram chamados de convescotes
nos clássicos que não lemos
A gente envelhece
gerundiando
esperando uma oferta incrível
da garota do telemarketing

 

 

***

 

 

Os primeiros planos
para saídas de emergência
traçados ainda
nas barrigas de nossas mães
falharam
E completamos
diariamente
40 anos
ou mais
em meio à multidão
que corre
sabe-se lá para onde
nos labirintos arquitetados
da estação
sem luz

 

Adriana Brunstein é PhD em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada no 13º Cultura Inglesa Festival pelo roteiro do curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental. Vive em São Paulo.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.

Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.

Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.

De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.

Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.

Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.

 

Alex por Ricardo Prado
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado

 

DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?

ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.

DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?

ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.

DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?

ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.

DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?

ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas.  Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.

Alex por Laura Castro
Alex Simões / Foto: Laura Castro

DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?

ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.

DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?  

ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry.  Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada.  É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.

Alex Simões na performance A Capella de Waly - Foto - Daniel Guerra M
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra

DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?

ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é  “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.

DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?

ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.

Alex por Eric Jenkins-Sahlin
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin

DA – O que é o seu país hoje?

ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.

DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?

ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia.  Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.

DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?

ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

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Por entre os vãos da espera

Por Fabrício Brandão

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

Um caminhar de passos desavisados diante dos cenários espontâneos do mundo. Universo a agregar um só ritual: olhar a tudo e a todos com naturalidade. É preciso maturar o pensamento, deixá-lo orbitar em suspensão no deslocar do tempo. Esperar é maior virtude de quem reverencia silêncios e se deixa tomar pela epifania da vida tal como ela é.

Sim, é preciso falar de esperas. Daquelas que nos permitem respeitar a essência das coisas. É urgente exaltar esperas quando isso implica em testemunharmos exercícios de liberdade. Liberdade que vem do outro, sua mais genuína expressão humana. Liberdade em poder sentir o que a natureza e o fenômeno contido na disposição das coisas encerram com sua vasta linguagem.

Quando uma artista como Suzana Latini evidencia em suas andanças criativas o poder da espera, notamos que captar a vida é deixá-la simplesmente acontecer. O marco de sua atuação como fotógrafa é o desejo puro de se lançar ao mundo e ser surpreendida por ele. Assim, o externo, com toda sua carga de possibilidades e perspectivas múltiplas, é quem assume um papel ativo. Revertendo uma certa lógica tradicional, Suzana é registrada pelo mundo.

Ao aguardar que seres e lugares lhe apontem suas naturais rotas, Suzana fideliza a experiência de perceber as coisas tal qual elas se manifestam. Seja observando pessoas, objetos, lugares ou testemunhando eventos da natureza, a fotógrafa não tenciona roteiros premeditados. Quem aqui opera é o destino, com a força de suas revelações, com a pungência do novo a causar fissuras na rotina dos dias.

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

No ritual de se deixar envolver pelos matizes do destino, Suzana enaltece cores, formas, sombras, paisagens e silêncios. Nalguns momentos, há a presença viva de pessoas a delinear os ambientes flagrados; noutros, irrompem espaços tomados pelo vazio, todos eles prenhes de ausências humanas, porém lugares de possíveis memórias.

Nascida em Belo Horizonte, Suzana Latini formou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard (Universidade do Estado de Minas Gerais). Durante toda a sua trajetória, esteve envolvida com produção, principalmente de vídeos e fotos publicitárias. Confessa que seu olhar procura aquilo que ninguém presta atenção, além de creditar fascinação ao que está por trás de banais instantes da vida.

Para manter a liberdade, esse bem que nos é tão caro nas suas mais variadas acepções, Suzana prefere não se entregar profissionalmente à fotografia. Mesmo assim, seus registros estão disponíveis para aquisição do modo genuíno como foram captados.

Quando o ato de observar o mundo, seus fenômenos e personagens, destina-se ao menor nível possível de interferência, por certo homérica tarefa, há um desejo maior de preservar a essência da existência. Nesse trajeto, existem tanto cenários concretos quanto os que são frutos de nossas abstrações. A espera, essa senhora memorável, vem nos fazer recordar que cada contexto experimentado guarda seus inadvertidos trunfos.

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

*As fotografias de Suzana Latini fazem parte da galeria e dos textos da 110ª Leva

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

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Foto: Suzana Latini