palco é precipício
passo raso falso risco
quando possível
incerto e plástico
de impacto previsível
ou talvez
dor inteira
no instante mínimo
em que se faz laica ………………….a vida
entre risos, rumores,
vaias, choros, mitos,
é ainda assim
o silêncio interno
fingir explícito
a múltiplos cúmplices
e por fim
sedento de aplausos
o pé tão firme
em chão descalço
exige de si
o alívio, o delírio
de ir além do recuo
– à queda imprescindível.
***
Leitura neon-reciclada
Despetalo
do olfato
o gosto pelo cheiro
de livro velho
livro novo
e adapto-me
a um novo formato
do qual a brochura
– outrora
imprescindível
enfeite cabível na estante – já ñ vincula páginas
pq hj
discorro os olhos
sobre a luminosidade ………agressiva
sem cheiro ou tato preenchido posto q a matéria
ñ mais palpável
morre
imune
a rabiscos riscos
dobras rasuras
fixada que está em tela
luzes cliques
***
assim é caetano
vez ou outra ..amargo
avesso a quase …..tudo
e até no papo
solto
que se bate
qualquer murmúrio
uma frase.
amar ..o caetano
dom de poucos
pq difícil
separá-lo
da arte
tragá-lo
sem som
deixar o público ……sujeito
à parte.
e quando cai
caetano
no júri moral
do populaço
o que fora amado
em singelas canções
sofre agouro …..inflamado
de quem detesta
quando ele testa
numa ideia
num compasso.
preferem vê-lo
ao mar
naufragá-lo
para se houver
talvez braços
achar ilha
em que se ache
[isolá-lo]
ver o caetano
delirado
mirar-se n’águas
a perguntar:
e pq não amá-lo?
***
Quentura
Esta quentura
suor e queimaduras
q o sol impõe e apavora
nos dias de verão
só não me causam
o subversivo gosto
de reivindicar
paulistanas garoas
ou horário marcado ….preciso
das chuvas q assolam
Belém do Pará
pq a luz q irradia
em Salvador
torna suave
meu olhar cansado
nas esquinas
de onde brotam
seios
quadris e coxas
q me convertem
o ensolarado grito: “Não acabe na mulher a menina ………………………….– Deus queira: a deleitosa estação ………………………….– nunca termine.”
***
Sem brechas para Brecht
Ter a irresponsabilidade
de Dalton Trevisan
– sem a necessária Curitiba –
é mais revolucionário que a bandeira de Brecht.
O cinismo urbano de Machado de Assis
é infinitamente mais oblíquo
que qualquer personagem proletário
de Brecht.
Até mesmo a proposital podridão de Bukowski
fede mais que os uniformes nojentos
dos dramas de Bertold Brecht.
(tudo,
pisando a grama,
como quem não sabe de placas).
***
Ofício
poesia é ofício de alto risco
que aos dedos do poeta
sofre embaraço
do inacabado esboço
teimosia do diamante …………quase pronto
sempre apto a ser lapidado
ou por desacerto
súbita menção a dilacerá-lo
lançar sem pudor
todos os versos ao lixo
pelo nobre motivo
do eterno recomeço
– nunca desperdício.
Cazzo Fontoura é poeta e escritor; escorpiano corrompido; pai de João, filho de Eva, tem uma mulher que é só dele; publicou um livro de poemas: Leitura neon-reciclada (editora organismo, 2014) e um de crônicas: Anticarta de Dona Lúcia – crônicas da fatídica copa do mundo no Brasil (Amazon, 2014); assina hoje o projeto Selfie Poesia (entrevistas com poetas), no youtube.
Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida
Por Rafael Gallo
Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave
(com seus muitíssimos dentes)
não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]
Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.
Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.
Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.
Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.
Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.
Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:
Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso
(certamente os sapatos tamborilando o chão)
uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina
– tudo bem?
ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz
– sim, pai.
A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.
Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.
Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassosego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).
Nathan Sousa (Teresina, 1973), é poeta, escritor, professor, tecnólogo em Marketing e letrista. E poeta, mais que qualquer outra coisa, já que é da costura lírica de seu verbo de onde nascem poesia, prosa e música – esta, aliás, que já lhe rendeu mais de 30 composições gravadas em parceria, dentre outros, com o maestro Beetholven Cunha, e que já foram interpretadas em Portugal e na Inglaterra. Radicado em São Gonçalo do Piauí, ele é autor dos livros O percurso das horas (Edições do Autor, 2012), No limiar do absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (Prêmio LiteraCidade 2013), Um esboço de nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e um romance: Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). Mais que títulos exuberantes, que já revelam um pouco do perfume que exala de suas linhas, os livros do autor referido são fortes e bem regados; pois ele tem o cuidado que a palavra exige para os que dela bebem. É Ivan Junqueira quem nos alerta: “Não sou eu que escrevo o meu poema: / ele é que se escreve e que se pensa, / como um polvo a distender-se, lento, / no fundo das águas, entre anêmonas / que nos abismos do mar despencam.”. E é esta a sensação que desabrocha durante a leitura de um livro como Mosteiros, por exemplo: uma autonomia, porque, depois de sentirmos, instância primeira que se despe durante a contemplação de um artefato artístico, mesmo com os protestos da arte conceitual, notamos a palavra erguida de sua própria matéria, sem aquele zelo excessivo que deixa o verso raquítico e o poema sem corpo de tão insosso. O que se desvela é uma literatura sem arestas, mas proeminente de golpes e pétalas:
Destilado
não mais poderia aquela imagem flagrar o espanto em que meus olhos armou suas persianas de água. e agora que correr é um exercício de luz e córnea (um desentranhar de sonho e acervo) aparo as gotas de meu precipício para destilar a sede de outras intempéries, burladas entre o vermelho e o lenço.
A identidade de sua escrita é a beleza, em seu sentido mais vivo e carnal; é o lírico destilado, fecundado, cheio de imagens que pescam o leitor de um só arranque.
Integrando 20 antologias e sendo vencedor de 23 prêmios literários, dentre eles o Assis Brasil 2013, o II Prêmio de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, o Prêmio Machado de Assis 2015, da Confraria Brasil-Portugal, e o Prêmio José de Alencar 2015, da União Brasileira de Escritores – UBE, Nathan tem poemas publicados em algumas das principais revistas de literatura do Brasil, é membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba e membro-correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Seus livros estão em 36 bibliotecas espalhadas por 12 países. Mosteiros está na lista do projeto de tradução da Universidade de Santiago, no Chile.
Mais que um vasto currículo para um escritor que vem publicando há pouco tempo, Nathan Sousa é poeta. E sua obra sussurra plenitudes e coerências, com o espírito daqueles que elegem a literatura como opercurso das horas.
Nathan Souza / Foto: arquivo pessoal
DA – Nathan, iniciando por uma pergunta clichê: como começou isso de escrever literatura?
NATHAN SOUSA – Fiquei realmente encantado com a literatura ainda na adolescência, com os livros de uma tia (Tia Nileide). Depois, aos 14 anos, em Teresina, eu conheci a Biblioteca Desembargador Cronwell de Carvalho e fiquei encantado com todo aquele universo. Acabei me tornando, e digo sem modéstia, um leitor compulsivo. Mas, decidir escrever, alimentando a ideia de um dia ter um livro publicado, isso só me ocorreu em 2010, quando eu já tinha 36 anos.
DA –De onde parte o que você escreve?
NATHAN SOUSA – Parte da combinação entre a minha experiência de vida (meu contato com o mundo real, minhas perspectivas, meus anseios, minhas perdas e ganhos), o acúmulo verbal que eu consegui ao longo de todos esses anos dedicados aos encantos da literatura, somando-se a isso o olhar automatizador que sempre me perseguiu e que está sempre muito afeito ao meu processo de maturidade. Este ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.
DA –A literatura é, por excelência, criadora de uma zona discursiva marginal, que trabalha com sentidos mais amplos e imaginários. Como você mencionou, somado a isso, a criação e a própria literatura são um “ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.”. Em que medida é possível “utilizar” a literatura? O que ela vale numa sociedade como a que vivemos?
NATHAN SOUSA – Há um “modo continuum” na natureza humana que direciona nossas ações para a satisfação das necessidades em seus avançados graus. Mas, pegando de empréstimo um termo do genial João Cabral de Melo Neto “isso ainda diz pouco.”. A literatura serve, antes de tudo, para nos fazer compreender melhor essa complexidade desenfreada de relações a que chamamos de sociedade. Impulsiona o homem para o mergulho na subjetividade e, de lá, abre seu campo de visão. Há centenas ou talvez milhares de livros, por exemplo, a respeito do sul dos EUA. No entanto, quando o leitor se depara com os romances de Faulkner, passa a ter uma compreensão maior desse amálgama de vidas, de relações econômicas, enfim…. do conjunto que formou aquela região.
DA –E você acha que ela á apontada como “difícil”, “cansativa” por um público por ser um mergulho tão intenso na subjetividade? Por perfurar mais que acolher?
NATHAN SOUSA – Literatura é, antes de tudo, uma devoção. É subir ladeiras sem se importar com as dores. E esse ato, para os verdadeiros escritores e poetas, traz sensações que passam despercebidas, tendo em vista que a leitura e escrita sempre serão atos da mais pura existência. Depois é que vêm a mídia, os holofotes, os prêmios, as badalações… mas se não vierem, a devoção continuará a mesma.
DA – O que significa, em seu íntimo, chegar aos lugares por onde a literatura tem te levado?
NATHAN SOUSA – Significa um reencontro. Sim, eu me reencontro de forma consciente nos momentos de experiências de leitura, de releitura, quando vou aos saraus, quando sou homenageado, quando lanço livros, quando falo, incansavelmente, de literatura, desta necessidade inexplicável de ler, de escrever, de revelar e se deixar levar pelos mistérios que a própria literatura arrasta consigo.
DA – O que é para Nathan Sousa ser premiado pela UBE e finalista do Jabuti?
NATHAN SOUSA – Os prêmios ajudam, principalmente, a divulgar a obra. Sabemos que a literatura não recebe um tratamento caloroso aqui no Brasil. Ser premiado, e em romance, pela UBE, seguido de estar entre os finalistas (em poesia) do mais destacado prêmio das nossas letras, o Jabuti, é afirmar que tudo o que eu fiz até aqui, em matéria de arte literária, valeu a pena. Já valeria sem os prêmios. Dá-me também a sensação de que as minhas escolhas (mergulhar nos clássicos e me refrescar com o que há de mais significativo na produção contemporânea) estão me levando para onde eu verdadeiramente quero, ou seja, para aprender a escrever melhor, sempre melhor.
DA – E além de escrever melhor, até onde você quer ir com/na literatura?
NATHAN SOUSA – Até onde minhas últimas forças puderem me permitir pensar, debater, ler e escrever, mergulhar nesse universo. Eu não conseguiria fazer outra coisa na vida. Portanto, ainda penso no mundo, na minha razão de viver, no sentido dessa caminhada, como uma grande biblioteca. Sou, assumidamente, borgiano, nesse aspecto. Ainda tenho muitas aspirações como poeta e escritor (a de continuar buscando novas experiências de linguagem com a poesia; a de escrever um grande romance (uma grande novela), a de ler muito, mas muito mais).
Nathan Sousa / Foto: arquivo pessoal
DA – Você fala sobre escrever um grande romance. O romancista e o poeta se encontram em algum momento?
NATHAN SOUSA – Sim, a todo momento. Eu costumo dizer que o que enriquece a minha poesia é a suposta afinação com a prosa de ficção e vice-versa (risos).
DA – Você saberia definir sua obra? Elegeria algum tema central?
NATHAN SOUSA – Certa vez, Garcia Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. Ele disse que o dele era o livro da solidão. Seguindo essa concepção do mestre do realismo mágico, eu diria que a minha escrita tem enveredado pela estrada da transcendência e do silêncio. Não sei definir com clareza a minha literatura, mas sei muito bem que eu realizo o ato de escrever para alargar a minha identidade, e não somente para me reconhecer existencialmente.
DA – Conte-nos sobre sua experiência como mais novo membro da Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA.
NATHAN SOUSA – Fui indicado à Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA, por dois membros de lá. A instituição tem sede em Araraquara-SP. As academias são clube e não seleção, como quer a maioria. Eu sou membro e atual secretário geral da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Entrei aos 39, mais para representar o orgulho de minha mãe, que faleceu um mês antes da minha posse, no começo de 2013. Pelo menos no meu caso, a academia me aproximou de outros escritores e poetas de uma forma mais intensa e harmoniosa. Eu ainda acredito que muito pode e deve ser feio por essas instituições, principalmente no que diz respeito à divulgação da literatura de seus membros e da comunidade que cada uma delas representa. Ainda não vimos isso, mas eu não me sentiria bem em negar o convite e ficar do lado de cá, resmungando. Ainda sou membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG.
Eu digo sempre o seguinte: Assis Brasil, O G Rêgo de Carvalho, H Dobal e Da Costa e Silva, quatro dos mais destacados nomes da literatura piauiense, fazem e faziam parte da Academia Piauiense de Letras. Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado faziam parte da ABL. Por que, então, eu me recusaria a ser membro de uma instituição literária que deseja ter meu humilde nome entre os seus?
DA – A respeito disso, é interessante pontuar a postura de alguns escritores que alegam não sentirem desejo de publicação, mas publicam, ou afirmam sua obra como irrelevante, embora aceitem convites para eventos literários. Como você vê este tipo de postura? Como é a sua relação com a “fama literária”?
NATHAN SOUSA – Com relação aos que se posicionam dessa maneira, a meu ver, querem conservar uma posição de elegância pela ausência, pela despretensão, por uma simplicidade que é típica dos que querem ser lembrados, mas não querem ser vistos. Tenho convivido com certa projeção literária em tempo muito curto de carreira, não nego. Eu tenho procurado aproveitar essa projeção para tentar realizar dupla função: promover a minha escrita/despertar o gosto pela leitura e a coragem para publicar. Tenho me deparado, ao longo dos últimos três anos, com poetas de boa qualidade, enclausurados na redoma do receio. Eu digo a que vim no meu primeiro poema (Combate, vide O percurso das horas – 2012): “Escrever poemas / é como rasgar a camisa / mostrar o peito / se armar com uma faca cega / olhar no olho do mundo / e autorizar: / pode vir”.
DA – Rasgar a camisa exige coragem. E além de coragem, como uma espécie de mensagem, o que mais você gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins? (desde já registro o meu muito obrigada pela sua disposição em responder essas perguntas).
NATHAN SOUSA – Eu agradeço imensamente por essa entrevista tão rica e tão amigável, o que não poderia ser diferente, em se tratando de uma entrevistadora/poeta com a sua competência e afinação com as palavras, e gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins que intensifiquem cada vez mais o gosto pela leitura. Ninguém sairá perdendo com isso.
Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014) e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).